SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 29 de setembro de 2013

ANJOS EXECUTORES DAS BÊNÇÃOS CELESTES





Mais do que os castigos divinos, os Anjos têm sido portadores de muitas bênçãos para os homens. Veremos abaixo vários exemplos em que os seres angélicos intercederam pelos homens e nos trouxeram mensagens de paz, de graças, de perdão divino, as bênçãos de Deus.

a) Até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo

A Anunciação à Maria
A mais importante das comunicações angélicas foi a que São Gabriel fez à Santíssima Virgem, a Anunciação, que é contada com encanto pela Legenda Dourada, com comentários de São Bernardo:
“Disse, pois, o anjo a Maria: “Deus te Salve, cheia de graça”. Comentário de São Bernardo: “Cheia da graça da divindade em seu ventre; da graça da caridade em seu coração; da graça da afabilidade em sua boca; da graça da misericórdia e da generosidade em suas mãos... Verdadeiramente cheia; e tão cheia, que de sua plenitude recebem todos os cativos, redenção; os enfermos, saúde; os tristes, consolo; os pecadores, perdão; os justos, santidade; os anjos, alegria; a Trindade, glória, e o Filho do homem a natureza de sua humana condição.
“O Senhor é contigo”. Contigo o Senhor enquanto Pai, que é quem engendra eternamente ao que engendra em seu seio; contigo o Senhor enquanto Espírito Santo, por cuja virtude concebes; contigo o Senhor enquanto Filho, ao que revestes com tua própria carne”
“Bendita entre todas as mulheres”. Segundo São Bernardo isto quer dizer: Bendita sobre todas e mais que todas as mulheres, posto que tu fostes Virgem, Mãe e Mãe de Deus.
“As mulheres estavam submetidas a uma destas três maldições: ou de opróbrio, ou de pecado ou de suplício. A de opróbrio afetava às que não tinham filhos; neste caso havia estado, por exemplo, Raquel, que a ela havia se referido quando disse: “O Senhor me livrou do opróbrio em que me achava”. A de pecado alcançava às que concebiam: esse é o sentido das palavras do Salmo 50: “Olha que em maldade fui formado e em pecado concebeu minha mãe”. A de suplício recaia sobre as parturientes, as quais, como se adverte no Gênesis, “parirão com dor”.
“Bendita foi e é Maria entre todas as mulheres e sobre todas as mulheres, porque somente ela esteve isenta destas maldições: em sua virgindade não houve opróbrio, posto que concebeu sem detrimento de sua integridade; em sua concepção não houve pecado, senão que, pelo contrário, concebeu em santidade;  nem houve tormento em seu parto, posto que pariu, não já sem dor, mas com inefáveis transportes de alegria.
“Com razão Maria foi chamada “cheia de graça”, porque, como observa Bernardo, em sua alma se deram quatro plenitudes, a saber: plenitude em sua humilde devoção, em sua santíssima pureza, em sua fé sem limites e na imolação de seu coração.
“Com razão também pôde dizer o anjo: “o Senhor é contigo”, porque a presença do Senhor em sua alma se acreditou sobejamente, disse o mesmo São Bernardo, com os quatro portentos celestiais de que Maria foi objeto: a santificação de seu ser, a saudação do anjo, a intervenção do Espírito Santo e a Encarnação do Filho de Deus.
“Com razão, igualmente, foi proclamada “bendita entre as mulheres”, posto que, como o citado São Bernardo nota, Deus concedeu a seu corpo estes quatro privilégios: virgindade absoluta, fecundidade sem corrupção, prenhez sem moléstias e parto sem dor.
 “Ela se turbou ao ouvir estas palavras e tratou interiormente de averiguar o significado que poderia ter tudo o que o anjo lhe dizia”.
“Este texto do Evangelho constitui um elogio do comportamento da Virgem, da atenção com que escutou o anjo, das disposições internas de sua alma e do discurso de seu pensamento. O evangelista pondera a modéstia com que acolheu aquela mensagem, ouvindo e calando, o pudor de seus sentimentos e a prudência de sua mente, posto que, raciocinando, tratou de buscar explicação ao que o anjo lhe dizia.
“A turbação de sua alma procedeu, não de ver ao angélico mensageiro – estas criaturas celestes eram-lhe já conhecidas, porque anteriormente já as havia visto muitas vezes -; proveio de ouvir o que estava ouvindo, porque até então nunca havia ouvido coisas semelhantes. A respeito desta turbação, eis aqui o que escreveu Pedro de Ravena: “Não se impressionou Maria por ver o anjo, que se apresentou perante ela sob uma aparência doce e normal, mas pelo estranho conteúdo de sua mensagem. A turbação chegou à sua alma, não através dos olhos do corpo, posto que o que via era muito agradável, mas através dos ouvidos, enquanto que o que estava ouvindo resultava-lhe inaudito”. Por sua parte, São Bernardo comenta: “Turbou-se por seu pudor virginal, porém não se alarmou, porque era mulher de notável fortaleza, nem se assustou, nem se calou, em silêncio refletiu, dando provas de admirável prudência e suma discrição”.
“O anjo lhe disse: “Não temas, Maria, porque encontrastes graças diante do Senhor”. “Encontrastes”, disse São Bernardo, “a graça de Deus, a paz para os homens, a destruição da morte e a restauração da vida”.
Conceberás em teu seio e darás á luz um filho a quem porás o nome de Jesus, que quer dizer Salvador, porque Ele salvará ao povo de seus pecados; esse filho será grande e chamado Filho do Altíssimo”. “As palavras anteriores”, comenta São Bernardo, “querem dizer: este Filho, que já é grande enquanto Deus, será também grande enquanto homem, grande enquanto doutor, e grande enquanto profeta”.
“Disse Maria ao Anjo: Como poderá ser isto se eu não conheço varão?”   Como poderá ocorrer tudo quanto dizes se eu me comprometi a não ter contato carnal com homem algum? Mediante tais palavras Maria declara que era Virgem em sua alma, em seu corpo e em seus propósitos com relação ao futuro.
“Observe-se que Maria pergunta. Quem pergunta é que tem alguma dúvida: logo duvidava. E se duvidava, como se explica que não incorresse em semelhante penalização imposta a Zacarias, de quem sabemos que por suas dúvidas foi castigado com a pena de ficar mudo? Pedro de Ravena responde a esta questão da seguinte maneira, e observemos que em suas palavras se contêm, não uma senão quatro respostas: “Aquele que sabe perscrutar o fundo dos homens, não se guia tanto pelo som dos vocábulos, quanto pelo que se vê no fundo dos corações; do mesmo modo julga os pecadores não ao teor do que dizem, mas atendendo-se ao que sentem. A razão que moveu a ambos interrogadores a formular suas perguntas foi diferente quanto à sua origem e quanto ao seu alcance. Maria admitiu sem vacilação algo que parecia ir contra a natureza; Zacarias, pelo contrário, não admitiu, mas duvidou de algo e fundamentou sua dúvida precisamente numa circunstância que não ia realmente contra a natureza. Maria, ao perguntar, tratou de conhecer como sucederia o que lhe anunciava, enquanto que Zacarias, sem mais, descartou a possibilidade de que se realizasse o que Deus havia determinado que aí se realizasse.  Este homem, apesar de que já anteriormente houvesse ocorrido casos semelhantes, se obstinou em qualificar de impossível o que, sim, era possível. Maria, pelo contrário, ainda sabendo que nunca havia ocorrido nada parecido ao que o anjo lhe comunicava, teve fé no poder divino. Maria se limitou a mostrar-se admirada ante o anúncio de que uma virgem ia ser mãe; coisa muito distinta da atitude de Zacarias, que pôs em tela de juízo a possibilidade de que uma relação conjugal dele com sua esposa desse resultado positivo. Maria, pois, não abrigou dúvidas acerca da divindade da mensagem angélica, mas tratou de conhecer o procedimento mediante o qual ela chegaria a ser mãe; sua pergunta foi muito razoável, já que à maternidade se pode chegar por três caminhos diferentes: o da concepção natural ou normal, o da concepção espiritual e o da concepção milagrosa; ela, ao perguntar, procurou informar-se acerca de qual delas ia a seguir-se em seu caso”.        
 “O anjo lhe contestou: O Espírito Santo virá sobre ti. Quer dizer: O divino Espírito, em virtude de recursos sobrenaturais fará que concebas um filho. Por isso se diz que Jesus Cristo foi concebido por obra e graça do Espírito Santo”  e mais adiante: “A virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”. [i]

O nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
Quando Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu foram os Anjos que chamaram os pastores para o Menino-Deus ser adorado, conforme relata São Lucas em seu Evangelho:
“Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, disse-lhes: “Não temais! Eis que eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas deitado numa manjedoura”. E de repente juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste a louvar a Deus dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade!” (Lc 2, 8-14)  .
A vidente alemã Anna Catharina Emmerich assim relata como os Anjos anunciaram a chegada do Messias:
“Vi três pastores, que estavam juntos, diante do rancho, admirando a maravilhosa noite; no céu vi uma nuvem luminosa, descendo para eles. Ouvi um doce canto. A princípio se assustaram os pastores, mas de repente lhes surgiu um Anjo, dizendo: “Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, que é dada a todo o povo, pois nasceu hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, Nosso Senhor... Eis o sinal para conhecê-lo: achareis uma criança envolta em panos e deitada num presépio”. Enquanto o Anjo assim falava, aumentava o esplendor em redor e vi então cinco ou sete Anjos, grandes, luminosos e graciosos, diante dos pastores; seguravam nas mãos uma fita, como de papel, na qual estava escrita uma coisa, em letras do tamanho de um palmo: ouvi-os louvar a Deus e cantar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. [ii]

A Natividade de Nossa Senhora
Quando da Natividade de Nossa Senhora, um Anjo foi o portador daquela extraordinária graça que Deus dava a São Joaquim e Santa Ana. Já estavam casados há vinte anos e ainda não tinham filhos. Todos os anos o casal ia até Jerusalém depositar suas oferendas e pedir a Deus que lhes desse um herdeiro, como o exigia a tradição judaica. Numa destas ocasiões, foi severamente repreendido pelo sacerdote do templo: “como, sendo tu estéril, te atreves a misturar-te com os fecundos? Não te é permitido trazer as tuas oferendas, porque não geraste descendência em Israel”. São Joaquim saiu do templo confuso e envergonhado. Retirou-se para a montanha, num lugar ermo, armou ali sua tenda e ficou jejuando quarenta dias e quarenta noites. Santa Ana, por sua vez, chorava desconsolada, quando recebeu a visita de um Anjo do Senhor que lhe disse:
“Não tenhas medo, Ana, nem creias que é um fantasma que tens diante dos olhos. Sou o Anjo que apresentou vossas orações e esmolas ante o acatamento de Deus. Fui enviado a vós para anunciar-vos o nascimento de uma filha cujo nome será Maria, que será bendita entre todas as mulheres. Desde o próprio momento de seu nascimento, repousará nela a graça do Senhor e permanecerá na casa paterna até os três anos de idade. Depois viverá consagrada ao serviço de Deus no Templo. Ali permanecerá noite e dia servindo a Deus em jejuns e orações e abstendo-se de toda coisa impura. Jamais conhecerá varão, senão que, ela só, sem precedente e livre de toda a mácula, dará à luz, sendo Virgem, ao Filho, e sendo escrava, ao Senhor que com sua graça, seu nome e sua obra é Salvador de todo o mundo.
“Levanta-te, pois, sobe até Jerusalém. E quando chegares àquela porta que chamam Áurea, por estar dourada, encontrarás ali, em confirmação do que te digo, a teu marido, por cuja sorte estás aflita. Tem, pois, como certo que, quando se cumprirem essas coisas, o conteúdo de minha mensagem se realizará sem qualquer dúvida”.
Ao mesmo instante, o Anjo Gabriel apareceu também a São Joaquim e lhe falou:       
“Não tenhas medo. Sou o anjo do Senhor. Venho a ti enviado por Ele para comunicar-te que tuas orações foram ouvidas e que os méritos de tuas esmolas que distribuis entre os pobres hão chegados até os céus. Sei que estás envergonhado. A repreensão que recebestes no templo foi injusta. Tu não tens a culpa de não haver tido filhos. Deus toma vingança do pecado porém não da natureza de suas criaturas. Ele, às vezes, obstrui os canais da fecundidade temporariamente; porém logo os deixa correr para que produzam seu efeito. Quando age assim o faz para que ponha de manifesto que o filho que nasce dessa fecundidade recuperada não é fruto da concupiscência, mas de uma providência divina especial. Relembra o caso de Sara, aquela mulher de que procede a vossa linhagem: até noventa anos sofreu ante todos a humilhação de sua esterilidade, e, não obstante isso, em tão avançada idade concebeu a Isaac e deu a Abraão o filho de que Deus a havia falado quando lhe prometeu que de sua descendência nasceria o que havia de trazer a bênção a todas as nações do mundo. Lembra o caso de Raquel: também esta foi estéril durante muito tempo; porém logo engendrou a José, o qual anos mais tarde chegou a ser praticamente o senhor de toda a terra do Egito. Quem mais forte que Sansão? Que mais santo que Samuel? Pois suas respectivas mães permaneceram estéreis muitos anos antes de concebê-los. Se reparas nestes exemplos te ficará mais fácil admitir que é verdade isto que te digo: que os filhos nascidos tardiamente de mães que durante certo tempo passaram ante o povo por estéreis, foram pessoas notáveis. Agora presta muita atenção porque vou lhe comunicar algo muito importante: Ana, tua mulher, te dará uma filha, a qual quando nascer porás o nome de Maria. Fiéis ao que haveis prometido, a consagrareis a Deus desde sua infância. A menina nascerá já cheia do Espírito Santo, pois será santificada ainda no seio de sua mãe, e, para que não possa ser objeto de suspeitas malignas, a separareis do trato e comunicação com os povos da rua e desde pequena a mantereis recolhida no recinto do Templo. A este fato, já por si admirável, de que tua filha nasça de mãe estéril, seguirá em seguida outro muito mais admirável: dela nascerá um Filho divino engendrado em suas entranhas pelo Altíssimo. Esse Filho se chamará Jesus e através dEle  virá a salvação sobre o mundo inteiro. Vou dar-te uma garantia de quanto estou te dizendo ocorrerá tal e qual te falo: volta a Jerusalém; quando chegares à Porta Dourada encontrarás ali a tua esposa Ana que, preocupada por tua ausência, anda a tua procura. Vosso encontro produzirá nela grande alegria.
“Dito isto o Anjo desapareceu”.  [iii]

O nascimento de Sansão
Os hebreus haviam pecado contra Deus e, por castigo, há quarenta anos que eram dominados pelos filisteus. Para anunciar a vinda de um libertador santificado no ventre de sua mãe, Sansão, houve a aparição de um Anjo mensageiro:
“Ora, havia um homem de Saara, da linhagem de Dan, chamado Manoá, cuja mulher era estéril, à qual apareceu um anjo do Senhor e lhe disse: Tu és estéril e sem filhos, mas conceberás e darás à luz um filho. Toma cuidado, não bebas vinho nem coisa que possa embriagar, nem comas coisa alguma impura; porque conceberás e darás à luz um filho, cuja cabeça não será tocada por navalha; pois ele será nazireu (*) de Deus desde a sua infância e desde o ventre de sua mãe. Ele começará a livrar Israel das mãos dos filisteus.
“Ela, indo ter com seu marido, disse-lhe: Veio ter comigo um homem de Deus, que tinha um rosto de anjo, em extremo terrível. Tendo-lhe eu perguntado quem era, donde vinha e como se chamava, não mo quis dizer, mas respondeu-me: Eis que conceberás e darás á luz um filho; toma cuidado, não bebas vinho nem coisa que possa embriagar, nem comas coisa alguma impura, porque o menino será nazireu de Deus desde a sua infância, desde o ventre de sua mãe, até ao dia de sua morte.
“Manoá pois fez oração ao Senhor e disse: Peço-te, Senhor, que o homem de Deus, que enviaste, venha outra vez e nos ensine o que devemos fazer acerca do menino que há de nascer. O Senhor ouviu a oração de Manoá e o anjo de Deus apareceu de novo à sua mulher, estando sentada no campo. Não estava então com seu marido Manoá. Ela, tendo visto o anjo, apressou-se e correu a seu marido e lhe noticiou, dizendo: Eis que me apareceu o homem que eu tinha visto antes.
“Ele levantou-se e seguiu sua mulher. Tendo chegado ao homem, disse-lhe: És tu que falaste a esta mulher? Ele respondeu: Sou eu. Manoá disse-lhe: Quando se tiver cumprido a tua palavra, que queres tu que faça o menino? Ou de que coisa se deverá ele abster? O anjo do Senhor respondeu a Manoá: Abstenha-se tua mulher de tudo o que eu lhe disse; não coma nada do que nasce da vinha; não beba vinho, nem coisa que possa embriagar, não coma coisa alguma impura; observe e cumpra o que lhe ordenei.  Manoá disse ao anjo do Senhor: Rogo-te que condescendas com minhas súplicas e que te preparemos um cabrito.   O anjo respondeu-lhe: Ainda que me faças violência não comerei do teu pão, mas, se queres fazer um holocausto, ofereceu-o ao Senhor. Manoá não sabia que era um anjo do Senhor. E disse-lhe: Qual é o teu nome, para que, cumprida que seja a tua palavra, nós te honremos?  O anjo respondeu-lhe: Por que perguntas tu o meu nome, que é admirável?
“Tomou pois Manoá o cabrito e as libações e pô-lo sobre a pedra, oferecendo-o ao Senhor, que faz maravilhas, e ele e sua mulher estavam vendo. Quando a chama do altar subiu ao céu, subiu também o anjo do Senhor junto com a chama. À vista disto, Manoá e sua mulher caíram com o rosto por terra, e não lhes apareceu mais o anjo do Senhor. Manoá compreendeu logo que era o anjo do Senhor, e disse para sua mulher: Certamente morreremos, porque vimos a Deus. A mulher respondeu-lhe: Se o Senhor nos quisesse matar, não teria recebido de nossas mãos o holocausto e as libações, nem nos teria mostrado todas estas coisas, nem nos teria dito o que está para acontecer”  (Jz 13, 2-23).  
(*) Nazireu ou nazireno era o hebreu que recebia as bênçãos de Deus e Lhe era consagrado, alguns antes do nascimento (Num 6, 1-21). Os nazireus mais conhecidos foram Sansão, Samuel, Ezequiel e São João Batista, pois foram consagrados diretamente por Deus ainda no ventre da mãe.  
Na aparição do Anjo aos pais de Sansão, observa-se que o mesmo não só se recusa a dizer seu nome (como ocorreu com quase todas as aparições angélicas), mas também a aceitar os alimentos oferecidos por Manoá “ainda que me faças violência”. Em troca, o Anjo ordena que o casal ofereça o animal a Deus como holocausto. Talvez os pais de Sansão estivessem sob influência do paganismo filisteu, e assim o Anjo manda que faça o holocausto para que eles possam realizar algo agradável a Deus. Quando o sacrifício foi feito, o Anjo desaparece junto com a chama da fogueira dando a entender que aquilo havia sido agradável a Deus. Ao desaparecer desta forma, fez sentir ao casal que era um Anjo de Deus. Sendo um Anjo, e com aspecto tão belo que ele disse que era “admirável”, por que Manoá e a esposa não perceberam isto logo desde o início?

Anunciando a Ressurreição do Senhor
Passada toda a tristeza da Paixão, Nossa Senhora, os Apóstolos e as santas mulheres, rezavam contritos para que Deus lhes viesse em auxílio na angústia em que estavam. Foi aí que, no domingo, Santa Madalena seguiu para o sepulcro, junto com a outra Maria. Lá chegando:
“Eis que se deu um grande terremoto. Porque um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra e sentou sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago. A sua veste branca como a neve. Pelo temor dele, aterraram-se os guardas e ficaram como mortos.
“Mas o anjo tomando a palavra, disse às mulheres: Vós não temais, porque sei que procurais a Jesus, que foi crucificado; ele já aqui não está; ressuscitou como tinha dito. Vinde e vede o lugar, onde o Senhor esteve depositado. Ide já dizer aos seus discípulos que ele ressuscitou; e eis que vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis; eis que eu vo-lo disse antes.
“Saíram logo do sepulcro com medo e grande gáudio e foram correndo dar a nova aos discípulos”  (Mt 28, 2-8).

Anunciando a Ascensão do Senhor
Após a Ressurreição, Nosso Senhor passou ainda quarenta dias instruindo seus Apóstolos e discípulos, após o que voltou ao Céu:
“Tendo dito isto, elevou-se á vista deles; e uma nuvem o ocultou aos seus olhos. Como estivessem olhando para o céu, quando ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de branco, os quais lhes disseram: Homens da Galiléia, porque estais olhando para o céu? Esse Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu”. (Atos 1, 9-11)            



b) Anjos portadores de bênçãos divinas para a Cristandade

No decorrer da expansão do Cristianismo, especialmente após a queda do Império Romano e a Idade Média, houve casos em que os Anjos apareceram publicamente para manifestar às populações o perdão e as bênçãos divinas. Dentre estes, conta-nos Santo Antonio Maria Claret como os Anjos trouxeram para a Cristandade a oração do “Triságio à Santíssima Trindade”.

Triságio[1] à Santíssima Trindade
“O santíssimo triságio não é invenção do engenho humano, senão obra do mesmo Deus, que Ele inspirou ao profeta Isaías quando este ouviu que o cantavam os Serafins, para exaltarem a glória do Criador.
“Na escola dos mesmos Serafins e na dos outros coros angélicos foi onde o aprendeu milagrosamente aquele menino que, como São Paulo, foi arrebatado ao céu, segundo referem as histórias eclesiásticas. No ano 447, e sendo Teodósio Júnior imperador do Oriente, sentiu-se um terremoto quase universal, violentíssimo, e que pela sua duração e espantosos estragos se fez o mais célebre de todos quantos até então se tinham visto. Foram incalculáveis os prejuízos que seis meses de abalos quase contínuos causaram nos mais suntuosos edifícios de Constantinopla e em toda a famosa muralha de Quersoneso. Abriu-se a terra em muitos pontos e ficaram sepultadas em suas entranhas cidades inteiras; secaram-se as fontes e apareciam outras novas, e era tal a violência dos abalos que arrancava árvores corpulentíssimas, apareciam montanhas onde antes havia planuras, e profundos abismos onde havia antes montanhas. O mar lançava às praias peixes de grandeza enorme; e as praias e navios ficavam sem águas, que iam inundar grandes ilhas.
“Em semelhante conflito, achou-se prudente abandonar os povoados e assim o fizeram os habitantes de Constantinopla com o imperador Teodósio, sua irmã Pulquéria, São Proclo, então Patriarca daquela Igreja, e todo o clero. Reunidos num lugar chamado o Campo dirigem aos céus grandes clamores e fervorosas súplicas, pedindo socorro em necessidade tão apertada. Um dia, entre oito e nove horas da manhã, foi tão extraordinário o abalo que fez a terra, que pouco faltou para que não causasse os mesmos estragos que o dilúvio universal. A este espanto sucedeu admiração do prodígio seguinte:
“Um menino de poucos anos foi arrebatado pelos ares à vista de todos os do Campo, que o viram subir até perdê-lo de vista. Depois de algum tempo desceu à terra, do mesmo modo que subira ao céu, e logo em presença do Patriarca, do imperador e da multidão pasmada, contou que sendo admitido nos coros celestes ouviu os Anjos cantarem estas palavras: Santo Deus, Santo forte, Santo imortal, tende misericórdia de nós; e que ao mesmo tempo lhe mandaram que comunicasse a todos esta visão. Ditas estas palavras, aquele inocente menino morreu.
“São Proclo e o imperador, ouvida esta relação, mandaram unanimemente que todos entoassem em público este sagrado cântico, e imediatamente cessou o terremoto, e ficou quieta a terra. Daqui nasceu o uso do Triságio, que o Concilio geral Calcedonense prescreveu a todos os fiéis, como um formulário para invocar a Santíssima Trindade nos tempos funestos e nas calamidades; daqui veio merecer a aprovação de tantos Prelados da Igreja, que apoiaram o uso dele, enriquecendo-o com o tesouro das indulgências, e daqui, finalmente, veio que se pusesse em método, que se imprimisse e reimprimisse tantas vezes, e sempre com universal aplauso e aceitação dos fiéis, que o consideram como um escudo impenetrável contra todos os males que Deus manda à terra em castigo de nossos pecados.
“O Papa Clemente XIV concedeu 100 dias de indulgência para cada dia que se reze: 100 mais três vezes no dia, nos domingos, na festa da Santíssima Trindade, e durante a sua oitava, e indulgência plenária a quem o rezar todos os dias durante um mês seguido, confessando e comungando no dia do mês que se escolher”. [iv]

O “Regina Coeli”
Na vida do grande Papa São Gregório, a “Legenda Dourada” narra um fato extraordinário ocorrido no início daquele pontificado, no ano 590:
“Como a peste de que temos falado continuava fazendo estragos na cidade, naquele mesmo ano durante o tempo pascal dispôs que se celebrassem umas solenes preces públicas pelas praças de Roma, cantando as Ladainhas e seguindo o itinerário acostumado em semelhantes ocasiões; porém quis que na frente do cortejo, com toda reverência, se levasse a imagem da Bem-aventurada sempre Virgem Maria. A imagem que naquela ocasião presidiu as preces foi a mesma que atualmente se conserva na igreja de Santa Maria Maior, de Roma; dela se diz que foi feita pessoalmente por São Lucas, que além de médico era pintor, e que guarda muita semelhança com o rosto de Nossa Senhora. Pois bem, ao passo que a procissão prosseguia, a infecção do ar ia cessando; como se a pestilência fugisse da venerável imagem, pelos lugares onde ela passava o ambiente ficava maravilhosamente puro e sereno.
“Se assegura que num determinado momento das preces o povo ouviu um coro de Anjos que cantava lá do alto, em torno da imagem da Virgem, a antífona “Regina coeli laetare, alleluya!” : “Alegrai-vos, Rainha do céu, aleluia, porque aquele que merecestes portar em tuas entranhas, aleluia, ressuscitou como havia dito, aleluia” ; e que após estas palavras, São Gregório acrescentou de sua parte: “Roga por nós a Deus, te suplicamos, aleluia!”.  Igualmente se diz que o santo pontífice naquele momento viu sobre o castelo de Crescêncio um Anjo que, após limpar a espada ensangüentada que levava em sua mão, a introduziu na bainha, e que por este gesto entendeu que a peste havia terminado. Assim, com efeito, ocorreu, porque a partir daquele dia a epidemia desapareceu e desde então a fortaleza em que São Gregório vira o Anjo passou a chamar-se “Castelo de Santangelo”, ou Castelo do Santo Anjo”. [v]

A ação angélica nas aparições de Nossa Senhora
Durante as diversas aparições de Nossa Senhora, especialmente na época do chamado “ciclo das mensagens marianas”, isto é, a partir de meados do século XIX, sempre houve uma intervenção angélica, antes, durante ou depois daqueles fenômenos sobrenaturais. Antes das aparições, os Anjos se manifestavam preparando os videntes para o que estava para ocorrer com eles. No decorrer das aparições, supõe-se que os Anjos apenas agiam sobre os sentidos dos videntes a fim de puderem suportar a visão da Virgem Santíssima, pois aparecendo Ela com seu corpo glorioso, e sendo Ela muito superior em glória do que todos os Anjos do Céu, ninguém na terra tem condições humanas de suportar a visão de Sua presença. Assim, os Santos Anjos agem sobre os sentidos dos videntes, especialmente sobre os olhos, amortecendo neles o impacto sobrenatural da visão.  Depois das aparições, a atuação angélica consiste apenas em orientar os videntes naquelas dúvidas que permanecem, por acaso, ou então em trazer novas mensagens que sirvam para corroborar as outras trazidas pela Virgem Santíssima.

Nossa Senhora das Graças
As aparições de Nossa Senhora à Santa Catarina Labouré, ocorridas no ano de 1830 também foram precedidas de visões angélicas. Os relatos referem-se a uma aparição de São Vicente de Paulo e outra de Nosso Senhor, antes que se dessem as de Nossa Senhora. Provavelmente, os Santos Anjos vinham atuando com a santa vidente para preparar seu espírito e devem ter-se manifestado a ela neste período antecessor da Virgem Santíssima. Porém não há registro.
No dia 19 de julho daquele ano se deu a primeira aparição da Virgem, precedida por um Anjo, que a própria santa narra como ocorreu:
“Haviam distribuído às noviças um pedaço de roquete de linho de São Vicente. Eu cortei a metade e a engoli, adormecendo com o pensamento de que São Vicente me obteria a graça de ver a Santíssima Virgem.
“Enfim, às onze e meia da noite, ouvi que me chamavam pelo nome: “Minha irmã! Minha irmã!”  Acordando, corro a cortina e vejo um menino de quatro a cinco anos vestido de branco que me diz: “Vinde à capela, a Santíssima Virgem vos espera”.
“Vesti-me depressa e me dirigi para o lado do menino que permanecera de pé. Eu o segui, sempre à minha esquerda.  Por todos os lugares onde passávamos, as luzes estavam acesas, o que me espantava muito. Porém, muito mais surpresa fiquei quando entrei na capela: a porta se abriu mal o menino a tocou com a ponta do dedo. E minha surpresa foi ainda mais completa quando vi todas as velas e castiçais acesos, o que me recordava a missa da meia-noite...
“Por fim, chegou a hora. O menino me preveniu: “Eis a Santíssima Virgem; ei-La...”
Em seguida a santa conta como correu em direção da Santíssima Virgem ajoelhou-se e pôs suas mãos sobre os joelhos dela, ouvindo depois de seus santíssimos lábios o teor da missão que os Céus lhe confiava. 

Nossa Senhora de Fátima
Em Fátima, a primeira aparição angélica se deu em 1915, quase dois anos antes das visões de Nossa Senhora. Lúcia estava pastoreando o rebanho, não com seus primos, Francisco e Jacinta, mas com outras meninas. De repente, as quatro viram, pairando sobre o arvoredo do vale, uma espécie de nuvem alvíssima com forma humana, conforme palavras da própria Lúcia “uma figura, como se fosse uma estátua de neve, que os raios do sol tornavam ainda mais transparente”.  Esta aparição repetiu-se por mais duas vezes, em dias diferentes.
No ano seguinte, foi a vez de Lúcia ver a aparição angélica juntamente com Francisco e Jacinta.  Desta vez o Anjo se revelou de uma forma humana mais clara.  Depois de rezar, como costumavam, as crianças estavam brincando quando um vento forte sacudiu as árvores. Elas vêem, então, caminhando sobre o olival em sua direção, um jovem resplandecente e de grande beleza, aparentando ter 15 anos, de uma consistência e um brilho como o do cristal atravessado pelos raios do sol. Chegando próximo às crianças, o Anjo falou:
- Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo. 
E, ajoelhando em terra, curvou a fronte até o chão e fez as crianças repetir três vezes esta jaculatória:
“Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos! Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam”.
Depois, levantou-se, e disse para as crianças assim rezarem aos Corações de Jesus e Maria, que estão atentos à todas as súplicas. Depois o Anjo desapareceu deixando as crianças em sublime êxtase, assim descrito por Lúcia:
“A atmosfera sobrenatural que nos envolveu era tão intensa que quase não nos dávamos conta da própria existência por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo” .
O mesmo Anjo apareceu uma segunda vez, pedindo aos pequenos pastores que rezassem muito, pois os Corações Santíssimos de Jesus e de Maria tinham desígnios de misericórdia sobre eles. Como o Anjo disse que oferecessem constantemente orações e sacrifícios ao Altíssimo, e as crianças perguntassem como o fariam, o Anjo respondeu:
“De tudo o que puderdes, oferecei a Deus sacrifício, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim sobre a vossa pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar”.
Da primeira vez o Anjo disse que era o Anjo da Paz. Desta vez disse que era o Anjo da Guarda de Portugal. Seria o mesmo Anjo? Para ser o mesmo, supõe-se que seria São Miguel, o Arcanjo que apareceu ao primeiro rei português, Afonso Henriques, no século XII. E numa terceira aparição, o Anjo veio portando na mão esquerda um cálice, sobre o qual estava suspensa uma Hóstia, da qual caíam gotas de sangue dentro do cálice. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, o Anjo prostrou-se em terra junto às crianças, pronunciando com elas esta belíssima oração de reparação:
“Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido.  E pelos méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores”.
Depois, levantou-se e deu a Hóstia à Lúcia, e o cálice com o sangue, deu-o a beber a Francisco e Jacinta, dizendo: “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos! Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus”. E, prostrando-se de novo em terra, repetiu com as crianças três vezes a mesma oração: “Santíssima Trindade...etc”, e desapareceu.
Como se vê, as aparições angélicas visaram preparar as inocentes e ignorantes crianças para a vinda de Nossa Senhora. Adquiriram graças para ter um espírito de oração, de sacrifício e penitência e, principalmente, de reparação. Assim preparados, eles poderiam então receber a visita divina da Mãe de Deus. Além disso, ficaram elas imersas em profunda contemplação das coisas celestes e aptas para contemplar grandezas maiores. 
Interessante notar que no decorrer das aparições de Nossa Senhora, Lúcia, a mais velha, via, ouvia e falava com a Virgem; Jacinta apenas via e ouvia, mas não falava, enquanto Francisco via mas não ouvia e nem falava com a aparição. Esta singular disposição foi posta pela Providência com o fim de mostrar a diferença com que Deus trata as almas. A Lúcia era permitido ver, ouvir e falar com a Virgem porque era a mais velha e a quem foi dada a missão de ficar na terra para propagar a Mensagem que Ela lhe transmitia, sendo também a guia das outras crianças. Jacinta não falava com a Virgem, mas no íntimo de seu coração dizia muita coisa, enquanto que Francisco nada ouvia, mas pelo que via ele sentia toda a sobrenaturalidade divina e a efusão de graças que provinha de Nossa Senhora. Quando Lúcia lhe contava depois tudo o que a Santíssima Virgem havia lhe dito, o menino exultava de alegria como se tivesse ouvido aquilo da própria aparição. [vi]

c) Anjos executores de obras de arte piedosas

Nos tempos de Moisés os Santos Anjos traziam inspiração para os artistas fazerem obras sacras: “Eis que eu chamei pelo nome a Beseleel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do espírito de Deus, de sabedoria e de inteligência, e de ciência para toda a qualidade de obras, para inventar tudo o que se pode fazer com o ouro, com a prata e com o cobre, com o mármore, com as pedras preciosas e com as diversas madeiras. Dei-lhe por companheiro Ooliab, filho de Aquisamec, da tribo de Dan. E pus a sabedoria no coração de todo (o artista) hábil, para que façam tudo o que ordenei” (Ex 31, 1-6). Quando Moisés ordenou que se fizessem as obras que Deus pedia, o Tabernáculo, a Arca da Aliança e o Propiciatório, anunciou publicamente que os referidos homens haviam recebido aqueles dons diretamente dos Anjos (Ex. 35, 30-35).
Durante o Cristianismo, porém, houve casos em que os Santos Anjos agiam eles mesmos como artistas. Nas histórias dos santos e dos cultos de devoção à Nossa Senhora constam vários casos de intervenções angélicas com o objetivo de executar ou completar obras de arte que têm a finalidade de estimular a piedade cristã. Um belo exemplo encontramos na Vida de São Fernando, quando a rainha sua segunda esposa, D. Joana, encomendou a feitura de uma imagem de Nossa Senhora a dois artistas, que expressasse no rosto aqueles sentimentos que São Fernando se costumara a ver quando a ele Ela aparecia em visões. Assim como os artistas apareceram, sem dizer quem eram e de onde vieram, assim também sumiram, deixando apenas pronta a bela imagem da Virgem dos Reis. Eis o relato:

A Virgem dos Reis      
Já fazia muito tempo que São Fernando tentava romper as defesas de Sevilha para conquistá-la, mas não obtinha êxito. A rainha, D. Joana, percebia claramente que seu santo esposo estava sofrendo muito com aquela situação, mas que sua santidade aumentava com isto e crescia muito nele uma grande devoção à Santíssima Virgem, Mãe de Deus. Ouviu ele queixar-se várias vezes de que os homens não sabiam fazer as imagens da Virgem Santa Maria com um rosto que sorrisse como Ela realmente o faz. Deduziu a boa rainha que seu santo esposo, se dizia isto, provavelmente era porque havia visto a Santíssima Virgem. Pensou que seria para ele uma grande alegria ter uma imagem de Santa Maria que a retratasse mais fielmente.
Enviou a rainha algumas cartas para Burgos pedindo que lhe mandassem um artífice, o melhor que houvesse por lá.
Já se passara um mês e nada do artífice chegar. O calor no acampamento era intenso e horroroso, muitos adoeciam e morriam, e as coisas andavam prenunciando terríveis calamidades para frente. A rainha estava impaciente com a demora da chegada do artífice que solicitara quando um dia se lhes apresentou dois escultores. Segundo contam as crônicas sobre a história da Virgem dos Reis, eram dois anjos. Chegavam em boa hora, pois o próprio rei não os vira e ela queria mandar fazer a encomenda de uma forma reservada.  Pediu a um capitão que arranjasse um local onde os dois homens pudessem trabalhar sem que ninguém o soubesse. Levaram-nos então para uma torre e lá permaneceram encerrados até que um dia mandaram avisar à rainha que tinham terminado sua obra.
A rainha foi ao local apreciar a obra de arte. Ela havia pedido que os artífices se esmerassem no rosto da Virgem e o fizesse da forma como seu esposo desejaria que fosse. Ficou a rainha comprazidíssima com a imagem, pois seu rosto tinha uma expressão amável e dulcíssima. Os dois anjos, de forma humana, artífices daquela belíssima imagem, logo desapareceram sem se declararem quem eram ou receber o pagamento de seu trabalho. Deixou D. Joana a imagem naquele mesmo local e voltou à sua tenda para providenciar com suas damas as vestes e adereços da Virgem.  Costuraram sem parar os ricos panos reais com as mais formosas sedas que mandaram buscar em Granada. As roupas foram bordadas de ouro e pedrarias. Foram encomendados os sapatos, o véu e tudo o que faltava para ornamentar a imagem sem que São Fernando de nada tomasse conhecimento.
Preparada a imagem, D. Joana chama Dom Remondo, o confessor do rei, e lhe mostra para saber dele se realmente o rei gostaria da expressão do rosto e da beleza da Virgem. O religioso concordou em que realmente a expressão do rosto era muito piedosa. Era preciso levar a imagem até à capela real sem que São Fernando a visse. Assim, quando o mesmo saíra, Dom Remondo, que também tinha a chave da capela, entrou no interior dela com a imagem e a colocou no altar principal.
Que surpresa teve o rei quando pela manhã foi à capela fazer suas orações matinais!  Tão viva foi a recordação que a imagem lhe dera da Mãe de Deus que, todo o tempo que duraram a Santa Missa e as orações dos clérigos, o rei permaneceu absorto contemplando a imagem da Senhora que ali via pela primeira vez.  Somente escultores angélicos poderiam realmente transmitir para a madeira algo da expressão divinal da Virgem Maria.
- Esta é a Virgem dos Reis! – falou o rei para os circunstantes.
A rainha olhava de lado, contentíssima por ver que o rei permanecia ajoelhado e comprazido aos pés da Virgem. A partir daquele momento, São Fernando passou a rezar com redobrado fervor perante aquela imagem, e através dela foram obrados muitos milagres.

Nossa Senhora do Bom Sucesso
Sob a invocação do Bom Sucesso, Nossa Senhora vinha aparecendo com regularidade à Irmã Mariana de Jesus Torres, no Mosteiro das Concepcionistas de Quito. Solicitou a Virgem que mandassem esculpir uma imagem que A representasse e possibilitasse o incremento de Sua devoção entre os católicos. As freiras encomendaram a um escultor a realização do trabalho, que Maria Santíssima pedia que fosse concluído dentro de determinada data. A obra foi iniciada no dia 15 de setembro de 1610.  Mas, chegando o dia marcado, 16 de janeiro do ano seguinte, a obra ainda permanecia inacabada. Foi aí, então, que os Anjos entraram em ação e a concluíram. Eis como a própria Madre Mariana de Jesus Torres conta como se deu o milagre:
“Na oração da Comunidade da tarde do dia 15, Deus preveniu-me que, na madrugada do dia 16, eu presenciaria suas misericórdias em favor do nosso Convento e do povo em geral. Pediu que me preparasse para receber essas graças, com penitência e orações noturnas.
“Assim o fiz. Os Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael dirigiram-se para o trono da Rainha dos Céus.
“São Miguel, saudando-A submisso, disse:
“- Maria Santíssima, Filha de Deus Pai!
“E São Gabriel acrescentou:
“- Maria Santíssima, Mãe de Deus Filho!
“E São Rafael concluiu:
“- Maria Santíssima, Esposa Puríssima do Espírito Santo!.
“Em seguida chamaram a milícia celeste e cantaram todos juntos: Maria Santíssima, Templo Sacrário da Santíssima Trindade.
“Nisto apareceu São Francisco de Assis, acompanhado pelos três Arcanjos e seguidos da milícia celeste. Aproximaram-se então da Imagem semiconcluída e, num instante, a refizeram.
“Entrementes, a Imagem estava totalmente iluminada como se estivesse no meio do sol. A Santíssima Trindade olhava comprazida e os Anjos cantavam o “Salve Sancta Parens”  
O biógrafo de Madre Mariana de Jesus Torres, padre Manuel Sousa Pereira, completa o relato com os testemunhos das outras freiras do Convento: 
“No dia 16 de janeiro, bem de manhãzinha como de costume, levantaram-se para rezar o Ofício Parvo as fervorosas religiosas, cheias de santas emoções. Ao se aproximarem do coro, começam a ouvir melodiosas harmonias. Pressurosas entram no coro, e... – oh! Prodígio! O coro encontrava-se todo banhado por uma luz celeste, ressoavam vozes de Anjos que, ao som de uma música celeste, entoavam com suave a arrebatadora harmonia o “Salve Sancta Parena”.
“A santa imagem concluída estava pelos Anjos!
“Do seu rosto partiam raios de vivíssima luz e se difundiam por todo o coro e a igreja, tornando-se pouco a pouco mais suaves para que as religiosas pudessem acercar-se e contemplar muito de perto o prodígio operado por Deus, em favor do seu Convento e do povo em geral, através da conclusão angélica da santa e veneranda Imagem.
“Aureolada por essa luz vivíssima, a fisionomia da santa Imagem não era severa, mas majestosa, serena, doce, amável e atraente, como convidando as suas filhas a se achegarem com confiança à sua Mãe vinda do Céu e dar o filial abraço de agrado e boas-vindas.
“O Divino Menino era um primor. Seu semblante exprimia amor e ternura para com as esposas tão favorecidas de seu Coração e tão amadas de sua Mãe”
O testemunho de que a imagem era obra angélica foi dado pelo próprio escultor, o qual comparecia no outro dia para concluir seu trabalho:
“Na hora concertada, e depois de ter comungado, o Sr. Francisco del Castillo chegou ao Convento para dar a última demão á sua grande obra, provido das melhores e mais finas tintas que encontrou para aquele fim.
“Madre Mariana de Jesus e as Fundadoras julgaram conveniente fazer o escultor entrar a fim de certificar-se do sucedido. Sem nada lhe dizer, introduziram-no na clausura.
“Chegando ao coro, surpreendeu-se diante de tal maravilha e exclamou emocionado: “Madres, que vejo? Esta primorosa Imagem não é obra minha! Não sei o que sente o meu coração: mas esta é obra angélica, pois um trabalho desse gênero não se pode produzir na terra com mão de frágil barro. Oh, não! Escultor algum, por hábil que seja, poderá jamais imitar sequer tanta perfeição e tão peregrina beleza”. [vii]
O fato, ocorrido no início do século XVII, foi atestado por escrito pelo referido escultor e depois confirmado pessoalmente pelo Bispo de Quito, D. Salvador de Ribeira.

Nossa Senhora de Copacabana
Junto às margens do lago Titicaca, nos Andes peruanos, havia uma aldeia indígena com o nome de Copacabana. Como era comum entre os Incas, lá eles adoravam deuses pagãos. Quase todos os índios da aldeia foram convertidos á Fé Católica, mas alguns ainda relutavam e mantinham antigas crenças pagãs.
Um índio cristão, de nome Francisco Tito Yupanqui, animado de santo zelo cristão, fez a promessa de conseguir uma imagem de Nossa Senhora para sua aldeia a fim de combater as superstições pagãs e incrementar o culto à Virgem Santíssima.  Mas ali era praticamente impossível se conseguir cumprir a sua promessa, pois não havia artesão capaz de realizar sua obra. Certo dia, a Santíssima Virgem apareceu ao índio com o Menino Jesus nos braços, parecendo ao mesmo que era daquela forma que Nossa Senhora desejava ser representada numa imagem.
Assim, começou Francisco Tito a realizar ele mesmo o trabalho. Mas por mais que tentasse não conseguia dar os contornos da imagem com arte e fidelidade. Mostrou uma primeira imagem aos religiosos que sempre lhe visitavam, mas todos a reprovavam por não representar fielmente a Virgem Maria.  Sem desanimar, o índio continuou a fazer outras imagens, mas sem obter êxito.
Por fim, resolveu ir até à cidade de Potosi para aprender algumas lições de escultura com um artista que lá havia. Depois de algumas noções de tão bela arte, julgando-se apto resolveu tentar novamente fazer a sua imagem, mas deu em rotundo fracasso. Um dia, oito meses após a aparição de Nossa Senhora, vieram dois Santos Anjos e aperfeiçoaram uma das imagens que o índio fizera, principalmente os rostos de Maria Santíssima e do Menino Jesus.
A imagem tornou-se milagrosa e mereceu a construção de um Santuário. Copacabana hoje fica na Bolívia e a devoção à imagem espalhou-se por toda a América Latina chegando até ao Brasil.

Nossa Senhora do Bom Conselho
A história da devoção à Nossa Senhora do Bom Conselho nos leva à pequena cidade de Genazzano, na Itália, onde ao final do século XV ocorreu um extraordinário fenômeno angélico. Vivia nesta cidade uma piedosa viúva, de nome Petrúcia, que rezava constantemente perante um baixo-relevo de mármore que representava Nossa Senhora do Bom Conselho, situado na capela de São Brás. Naquele local, recebeu inspiradas revelações divinas de que a milagrosa imagem de Maria Santíssima que se venerava em Scútari, na Albânia, deveria ser transportada para aquele mesmo lugar. Em seguida, apareceu-lhe a Virgem Santíssima dando-lhe a ordem de começar a construir ali um templo para Ela.
Petrúcia começou, então, a providenciar o necessário para reconstrução daquela capela e torná-la adequada para abrigar a santa imagem que deveria vir de Scútari.  Gastou ela todos os seus parcos recursos e teve que parar a obra quando as paredes estavam apenas a um metro de altura. Sem dinheiro, passou a pedir ajuda aos outros habitantes da cidade, mas a viúva era tratada com desdém como se fosse uma alucinada.
Enquanto isto, a Albânia era varrida por uma sangrenta invasão muçulmana, que já chegava á capital, Scútari. O principal herói nacional, Scanderbeg, havia morrido e os cristãos estavam desamparados. Neste ínterim, dois soldados amigos, De Sclavis e Geórgio, foram rezar contritamente à Virgem do Bom Conselho, pois estavam perante um dilema: fugir, deixando seu país e sua Padroeira, ou cair sob o jugo maometano.
Quando Geórgio estava dormindo, Nossa Senhora apareceu-lhe em sonho, dizendo que ele e seu amigo tomassem todas as providências para uma longa viagem, pois era preciso deixar para sempre aquele infiel país. Disse-lhe que sua imagem abandonaria Scútari para escapar das mãos sacrílegas dos turcos. Suas graças e bênçãos estariam reservadas a outro lugar.
Geórgio procura o companheiro De Sclavis e lhe conta a comunicação divina que tivera. Qual não foi sua surpresa ao saber que seu amigo também tivera o mesmo sonho. Ajoelham-se na capela e começam a rezar a Nossa Senhora do Bom Conselho. Seus olhos fitavam fixamente a imagem que ocupava a parede central do santuário. Quando estavam absortos em suas orações, os Santos Anjos começaram a agir.
Eis que, de repente, os dois soldados viram admirados o afresco se desprender da parede e ser envolvido por uma nuvem branca e luminosa, dentro da qual distinguiam com perfeita nitidez a Imagem sorridente da Virgem amparando em seus braços o Divino Infante. A imagem vem flutuando em direção à porta, deixa o recinto da capela e eleva-se um pouco, indo em direção ao mar.
Os dois amigos seguiram instintivamente a imagem por onde ela seguia. Assim, chegaram até às margens do Mar Adriático, trinta quilômetros distante de Scútari. Perplexos, notaram que a imagem flutuava sobre o mar, indicando que deveriam atravessá-lo. Quando deram conta de si já estavam caminhando sobre as ondas do mar. Viram maravilhados que sob o mais leve toque de seus pés, as massas líquidas se transformavam em sólidos diamantes, e novamente se liquefaziam assim que deixavam de pisá-la.
Finalmente, o quadro da Virgem e os seus dois seguidores chegaram à costa da Itália. Porém, quando chegam às portas de Roma, a nuvem desaparece com a imagem e os dois albaneses se vêem perdidos na Cidade Eterna. Andaram errantes por toda a cidade, mas ninguém entendia o que eles tanto perguntavam, ou o que eles tanto procuravam. Desolados, resolvem rezar e pedir à Virgem Maria que lhes revelasse onde se encontrava.
Mas a Santíssima Virgem tinha seus desígnios e motivos para ficar incógnita algum tempo perante seus dois fiéis soldados. Os Santos Anjos tinham levado sua imagem para Genazzano. Dentro de pouco tempo acabaria a animada feira da cidadezinha, e alguns poucos cristãos iriam rezar junto ao altar do Bom Conselho na capela de paredes carcomidas que Petrúcia anelava reconstruir. Estávamos no dia 25 de abril de 1467.
De repente, aconteceu o maravilhoso, o inesperado. Por volta das quatro horas da tarde, a multidão que ainda estava na praça ouviu ondas de harmonia celeste. Parecia a alguns que as portas do Paraíso se abriram de repente e que Deus permitira aos coros angélicos dar aos mortais alguma amostra das alegrias dos Bem-aventurados. Todos os sinos tocavam ao mesmo tempo e sem que houvesse ninguém os movendo.
Emocionados, os habitantes de Genazzano procuravam perscrutar os céus para saber de onde vinham aqueles sons.  Todos voltados os olhares para o alto e viram, então, bem acima de todas as casas e dos campanários das igrejas uma bela nuvem branca enviando em todas as direções vivos raios de luz, em meio à música celeste tocada pelos anjos e a um esplendor que ofuscava o próprio sol. A nuvem foi descendo aos poucos e, para grande espanto do povo, pousou suavemente sobre a parte mais retirada da parede inacabada da capela de São Brás, exatamente no baixo-relevo que Petrúcia pretendia reconstruir para conter Nossa Senhora do Bom Conselho. Pouco a pouco os raios de luz deixaram de brilhar, a nuvem começou a se desfazer lentamente e a imagem da Virgem com o Menino Jesus nos braços surgiu belissimamente diante de todos. A população entusiasmada, gritava e bradava perante o estupendo milagre.
A notícia da descida da imagem em Genezzano e dos numerosos milagres que ocorreram em seguida chegaram logo a Roma. Mais perplexas ficaram as autoridades quando souberam que era esta a imagem que os dois soldados albaneses andavam procurando, os quais a haviam seguido milagrosamente da Albânia até à Itália. Esclarecido tudo, Geórgio e De Sclavis foram até Genazzano, finalmente, rezar perante sua Padroeira.
A ação angélica sobre o quatro de Nossa Senhora do Bom Conselho perdura até hoje, pois o afresco permanece flutuando  como um milagre permanente até nossos dias. Vários são os milagres que ocorreram e que ainda ocorrem no local.

A Mãe do Bom Conselho vem ao Brasil através de um Anjo
O Padre José de Campos Lara, natural de Itu, São Paulo, era jesuíta e acompanhou o drama que se passou com seus irmãos na Companhia de Jesus quando foi perseguida e fechada no século XVIII. No ano de 1785, passeava certo dia meditando numa praia deserta, quando de repente se deparou com um jovem portando um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho.  O jovem se aproximou do padre e ofereceu-lhe o quadro, pintado a óleo, dizendo que o levasse para o Brasil, pois no lugar onde Nossa Senhora fosse venerada através daquele quadro surgiria um grande colégio jesuíta.
Perplexo, o Padre José começou a argumentar para o jovem que não tinha recursos para fazer a viagem. O jovem lhe disse que havia um navio naquelas proximidades, cujo comandante o deixaria viajar gratuitamente até o Brasil. O padre ficou consolado com a notícia dada pelo jovem, e também pelo fato de se oferecer a oportunidade de construir um colégio jesuíta em Itu, haja vista que a Companhia de Jesus estando extinta a construção de tal colégio significava o seu retorno à atividade.  Mas, ao tentar agradecer ao estranho jovem, este misteriosamente desapareceu. Notando que se tratava de um Anjo, o padre foi confiante procurar o referido navio, onde achou gratuitamente passagem até o Brasil como lhe dissera o Anjo.
A restauração da Companhia de Jesus e a construção do colégio em Itu só se cumpriram porém após a morte do Pe. José, mais de oitenta anos depois da aparição do Anjo. [viii]

Nossa Senhora das Angústias
Quando finalmente os cristãos expulsaram os mouros de Granada, em 1492, os católicos daquela cidade puderam mais pacificamente exteriorizar sua religiosidade, manifestada especialmente na devoção à Nossa Senhora. Os membros de certa irmandade resolveram, então, erguer uma ermida dedicada à Nossa Senhora das Angústias, devoção que crescia por aquela época.
No entanto, não encontravam um artífice que fosse capaz de fazer uma imagem de Nossa Senhora que exprimisse em sua fisionomia toda a sua angústia sentida na Paixão de seu Divino Filho. “Estavam eles pensando no problema, quando certa tarde entraram na igreja dois jovens conduzindo uma senhora coberta por espesso véu preto. Chegando ao pé do altar, ali permaneceram orando por muito tempo e depois se retiraram ficando somente a dama. Já estava na hora de fechar a igreja e ela não se retirava. Ao ver que anoitecia, um dos confrades aproximou-se dela anunciando que precisava fechar o templo, mas não obteve resposta. Intrigado com o estranho fato ele se adiantou para falar-lhe novamente, mas, ao fitar-lhe o rosto imóvel, percebeu tratar-se de uma perfeitíssima escultura e não de uma pessoa de carne e osso. Tinha na sua frente a mais notável representação das Angústias de Nossa Senhora ao presenciar a paixão e morte de seu Divino Filho. Era a efígie que a irmandade havia imaginado para colocar no altar da ermida.
“Diante desse acontecimento extraordinário, os irmãos compreenderam que aquela imagem era um presente do céu”. [ix]
Os prodígios milagrosos operados pela santa imagem fizeram com que a ermida se transformasse futuramente numa suntuosa matriz 

O Crucifixo de São João del Rei
“Entre os tesouros da arte barroca conservada em Minas Gerais reluz uma peça de extrema beleza, exposta à veneração dos fiéis na Igreja de São Francisco de Assis, na história cidade de São João del Rei. A origem dessa preciosidade é assim narrada pelas crônicas:
“Estava já a igreja no século XVII inteiramente terminada, inclusive em sua decoração interna, quando se percebeu faltar o elemento que deveria coroar o cimo do altar-mor: o Crucifixo, em que o Divino Crucificado dirigia a palavra a São Francisco.
Pasmo da comissão encarregada da decoração! O que fazer? Os artistas contratados negavam-se a continuar por mais tempo os afazeres naquela igreja, alegando contratos em outros lugares. E assim, ficou-se numa grande indecisão. Foi quando por aquelas plagas apareceu  um nobre ancião, de feições muito dignas, oferecendo-se para esculpir o Crucificado, e desse modo encerrar a obra artística daquele templo. Não sendo conhecido de ninguém, e não podendo apresentar referências à altura da tarefa, mandaram-no embora.
Passado um certo período, voltou o ancião, reiterando a sua oferta. Novamente, por falta de referências, foi rejeitado sem escrúpulos. Após mais um tempo, e não se tendo achado ainda nenhum outro artista que quisesse levar a obra a cabo, voltou pela terceira vez o bom velho, apresentando seus serviços.  Não tendo outra escolha, os encarregados decidiram aceitá-lo, perguntando-lhe quais eram suas condições.  Respondeu o ancião que não pedia nada antes de findo o serviço. Terminado, retribuiriam, caso julgassem a obra bem feita. Solicitava apenas que recebesse uma refeição e uma medida de água por dia, à hora do almoço.  Por outro lado, exigia fazer todo o trabalho sozinho, trancado em uma sala, sem comunicação com o exterior, a qual só seria rompida estando tudo acabado. Assim foi-lhe concedido.
Transcorridos vários dias, verificaram os responsáveis que os alimentos deixados para o bom velho junto à porta da sala não estavam mais sendo retirados por ele. Reuniram-se então as autoridades e tomaram a decisão de arrombar a porta, a fim de saberem o que ali estava se passando. Entraram e... surpresa! O respeitável ancião havia desaparecido, e um Crucifixo magnífico, de traços como jamais se vira, estava ali inteiramente esculpido! Esse crucifixo é o que se encontra hoje no topo do altar-mor da Igreja de São Francisco de Assis, em São João del Rei”.
“...E esta perfeição de talhes justifica a suspeita de que o artífice, aquele “bom velho” desaparecido misteriosamente, não era senão um anjo, enviado por Deus para esculpir ali essa obra-prima da arte católica. Esse é um Crucifixo cinzelado por mãos angélicas. Dir-se-ia, mesmo, que o artista celestial esteve presente no Calvário, viu a Nosso Senhor nesse estado, lembrou-se da adorável fisionomia que então contemplou e a reproduziu. De tal maneira essa face divina corresponde, não que poderíamos imaginar, mas ao que não logramos conceber...” [x] 



[1] Triságio – Hino que começa com “Sanctus, Sanctus, Sanctus” em homenagem à Santíssima Trindade





[i] La Leyenda Dorada” – Santiago de la Vorágine – Ed. Alianza Forma – vol. 1 – págs. 211/214.
[ii] “Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Anna Catharina Emmerich – Mir Editora – 1999 – pág. 45.
[iii] La Leyenda Dorada” – Santiago de la Vorágine – vol. 2 – Ed. Alianza Forma - pág. 568.
[iv] Caminho Reto e Seguro para Chegar ao Céu” – Santo Antônio Maria Claret – Ed. Ave Maria – págs. 155/158).
[v] La Leyenda Dorada” – Alianza Forma – pp. 188, vol. 1 .
[vi] Dados extraídos do livro “Fátima, Autora do Terceiro Milênio”, de João S. Clá dias, págs. 34/37.
[vii] “Vida Admirável da Rda. Madre Mariana de Jesus Torres, espanhola y una de las fundadoras del Monastério de La Limpia Concepción de la Ciudad de Quito, escrita por el Rdo. Padre Manuel Sousa Pereira de la Ordem Seráfica de los Menores del Convento Máximo de S. Francisco de Quito, en el Ecuador” – Tomo II – pp. 36/37.
[viii] Os relatos sobre Nossa Senhora do Bom Conselho foram extraídos do livro “Mater Boni Consilii” – de João S. Clá Dias, pág 67 a 82.
[ix] “Invocações da Virgem Maria no Brasil”, Nilza Botelho Megale, Ed. Vozes, pág. 37.
[x] Extraído da revista “Dr. Plínio”, n. 48, março de 2002 – pp. 33/35.

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu me desato (desamarro, desacorrento), total e definitivamente, de todas as: obsessões, auto-obsessões, vacilações (tentações, submissões, subjugações, humilhações)! Pra Sempre (Mesmo)! Também do mesmo modo, de todas as suas causas, consequências, sequelas, resultados negativos. Pra Sempre (Mesmo)! Em Nome dos Benditos (Gloriosos, Divinos): Anjos Executores das Bênçãos Celestes! Assim Se Faça! Assim Seja! Amém!...