sábado, 31 de agosto de 2013

Três grandes Príncipes celestes



 Dentre os grandes Anjos da Hierarquia celeste, destacam-se três Príncipes, especialmente designados por Deus para favorecer a humanidade. Trata-se de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, cuja festa se celebra no mês de setembro.

São Miguel
Nome que vem do hebraico, “mika’el”, quer dizer, “Quem como Deus”. Quando Deus revelou aos Anjos no Céu os Planos da Encarnação do Verbo e da Redenção, houve a grande revolta comandada pelo Anjo mais brilhante e bonito que havia, Lúcifer. O brado de revolta foi este: “non servian!” , quer dizer, “Não servirei!”. “Mas como? Logo eu, um Anjo tão formoso, tão poderoso e brilhante, ter que servir a seres humanos, mesmo na pessoa do Filho?” Assim deve ter imaginado Lúcifer em seu estado de revolta. Mas um outro Anjo logo bradou: “Quis ut Deus?”, isto é, quem como Deus? Este Anjo foi São Miguel, logo assumindo a função de Chefe da Milícia Celeste porque passou a comandar os Anjos bons para expulsar Lúcifer do céu. Travou-se então grande batalha, vencendo-a os Anjos fiéis a Deus que logo foram premiados com a Graça da presença divina e a posse da eterna Bem-aventurança. Os gregos, por causa disso, o chamam de “Archistrátegus”, isto é Generalíssimo.
São Tomás de Aquino acha que São Miguel será o Anjo que no fim do mundo há de combater o Anticristo, como fez com Lúcifer. Foi ele desde o início o protetor e defensor do povo eleito, tendo acompanhado-o desde a saída do Egito até a terra prometida. Foi São Miguel quem abençoou a herança de Abraão (Gên 22, 17), contendo o cutelo que ia cair sobre Isaac (Gen 22, 11-14); apareceu a Moisés na sarça ardente (Ex 3, 2); levou a Jesus o cálice que O confortou no Horto das Oliveiras (Lc 22, 43) e foi também quem por algumas vezes libertou São Pedro da prisão.
É ele o Protetor da Igreja e de todos os fiéis, a quem protege de modo especial contra os ataque dos demônios. São Miguel é invocado especialmente na hora da morte, pois neste momento é dado a Lúcifer empreender todos os esforços para perder a alma. Se a pessoa morre na graça de Deus, São Miguel é o Anjo encarregado por Deus de levar a alma para o céu. Por isto ele é chamado, na Igreja, por “Praepositus paradisi”, quer dizer, guarda do Paraíso, acrescido da sentença: “Constitui te Principem super omnes animas suscipiendas” – Eu te constituí Príncipe de todas as almas a serem redimidas. Antigamente, na Missa de encomendação dos defuntos se rezava: “Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam” – Ó Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa.
São Miguel era também o protetor do povo eleito, conforme fala claramente Daniel (Dan 12, 1). Uma das mais antigas referências ao “Príncipe do exército do Senhor” como protetor do povo eleito encontra-se no Livro de Josué:
“Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos, e viu diante de si um  homem em pé, que tinha uma espada desembainhada, e foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos, ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou o príncipe do exército do Senhor, e agora venho. Josué prostrou-se com o rosto por terra. E, adorando-o, disse: Que diz o meu Senhor ao seu servo? Tira, lhe disse ele, o calçado de teus pés, porque o lugar em que estás, é Sant.o.  E Josué fez como lhe tinha sido mandado” (Josué 5, 13-16). A partir daquele momento,  sentiu-se vivamente a intervenção de São Miguel nos episódios em que os hebreus ganhavam milagrosamente as guerras, inclusive o cerco feito logo depois contra a cidade de Jericó.
 Porém, com a apostasia dos judeus São Miguel passou a ser o Anjo Custódio da Igreja e de toda a Cristandade. Como citamos acima, no livro de Daniel aparece a disputa entre  São Miguel, Anjo Custódio de Israel, e o Anjo protetor dos persas. Segundo São Jerônimo, este último desejava que os judeus permanecessem na Pérsia para mais dilatarem o conhecimento de Deus, enquanto que São Miguel defendia perante Deus a volta dos judeus para a Palestina a fim de que o templo do Senhor fosse restaurado mais depressa. Esta disputa espiritual entre os dois Anjos durou vinte e um dias.
São Pio X, sabedor do poder que tem São Miguel, ordenou que se rezasse a oração abaixo sempre ao final da Missa:
 “São Miguel, Arcanjo, protegei-nos no combate; cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.
O Arcanjo São Miguel por diversas vezes tem aparecido para socorrer os seus devotos. Um dos mais notáveis exemplos foi o que prestou à França, através de Santa Joana D’Arc, a quem São Miguel transmitiu a sublime missão de defender a Filha Primogênita da Igreja contra a invasão inglesa. O Arcanjo fazia-se ouvir à jovem donzela e para ela transmitia suas instruções de como proceder, terminando por convencer os nobres e o rei e, finalmente, vencer os inimigos externos.
A própria santa conta como foram as aparições do Anjo:
“Quando eu tinha mais ou menos 13 anos, ouvi a voz de Deus que veio para ajudar-me a me governar. Na primeira vez, tive medo. E veio essa voz, no verão, no jardim de meu pai, por volta do meio-dia (...).  (...) Depois que eu ouvi essa voz três vezes, percebi que era a voz de um Anjo (...). “...Na primeira vez, tive dúvidas se era São Miguel que vinha a mim, e nessa primeira vez tive muito medo. E eu o vi, depois, muitas vezes, até saber que era São Miguel... Antes de tudo, ele me dizia que era uma boa menina e que Deus me ajudaria. Entre outras coisas, disse-me para eu vir em socorro do rei da França... O Anjo me falava da piedade que existia no reino da França”. [i]
O estandarte dos exércitos de Carlos Magno trazia a imagem de São Miguel, com a divisa: “Ecce Michael, Princeps Magnus. Venit in adjutorium mihi”, que quer dizer: “Eis que Miguel, o Grande Príncipe, acode em meu socorro”. Esta divisa e a imagem comemoravam uma vitória alcançada pelos saxões graças ao Arcanjo: o rei da Gália tendo-o invocado, apareceu-lhe São Miguel durante a batalha montado num cavalo branco e sustentando um estandarte azul florido de lírios de ouro. Durante a Idade Média, São Miguel era sempre escolhido como padroeiro das Ordens de Cavalaria.
Com o mesmo aspecto de guerreiro terrível e esplendente, apareceu São Miguel ao lado de Santo Antonio de Lisboa, quando este enfrentou o tirano Ezzelino da Romano a fim de o repreender pelas atrocidades e crimes que perpetrava. Também foi São Miguel que apareceu sobre o castelo de Sant’ Angelo cantando o “regina coeli”, cujo episódio, que contamos acima, foi narrado pelo próprio Papa São Gregório Magno.
 Um outro prodígio operado por São Miguel nos remonta ao século V, quando o Arcanjo apareceu por três vezes no monte Gargano. Um rico senhor da cidade de Siponte, na Itália, perdera um de seus touros e passou a procurá-lo pelo monte Gargano. Indo com seus homens até o pico do monte encontram o animal ajoelhado numa caverna inacessível aos homens. Tentando tirar o animal da caverna e não o conseguindo, o exasperado fazendeiro resolveu matar o touro e começou e desferir-lhe flechadas. Mas as flechas voltam-se, antes de atingir o alvo, e ferem o arqueiro.  A notícia do fato foi logo se espalhada pela cidade, indo chegar aos ouvidos do bispo, São Lourenço Maiorano.
Era necessário esclarecer o misterioso caso. Assim, o santo bispo ordenou que se fizessem penitências e orações públicas. Ao terceiro dia, aparece ao mesmo bispo o vulto de um nobre cavaleiro todo envolto em clarões celestes. Dizendo-se ser São Miguel, assim falou: “Sou eu o autor do prodígio da caverna. De futuro ela será o meu santuário na terra”.
Decorrido algum tempo, Siponte foi assediada por um exército invasor. A cidade já estava para se render, mas o bispo São Lourenço Maiorano pede e obtém uma trégua de três dias. Neste período, pediu à população para fazer preces públicas e penitências. Ao terceiro dia, o Arcanjo São Miguel lhes aparece reanimando-os a coragem e assegurando-lhes brilhante vitória sobre os inimigos. No outro dia, os sitiados fizeram uma surtida para tentar furar o cerco, quando subitamente viram o mar enfurecido e o ar escurecer-se e encher-se de raios que eram fuzilados contra o exército inimigo. Os invasores de Siponte, que eram pagãos, fugiram apavorados e foram dizimados pelos cristãos.
Logo após, São Lourenço organizou brilhante procissão em direção da gruta de São Miguel, acompanhada por mais sete bispos, pelo clero e por todo o povo da localidade. O objetivo era consagrar a gruta, mas São Miguel já o havia advertido antes que ela já havia sido consagrada pelo próprio Arcanjo.
Foi construído um Santuário no cimo do monte Gargano, sendo instituída inicialmente a festa de São Miguel no dia 8 de maio, dia da primeira aparição. Hoje, sua festa é no dia 29 de setembro junto com os outros dois Arcanjos. Numerosas foram as peregrinações ao Monte Gargano. Papas, imperadores, príncipes, cavaleiros e santos visitaram o Santuário do Arcanjo. Os Cruzados, a caminho da Terra Santa, faziam do Santuário lugar de passagem habitual e quase obrigatória. Lá iam, entoando salmos para implorar do Príncipe das Milícias celestes a audácia e a coragem de que necessitavam. Reboavam pelo vale seus brados guerreiros: “São Miguel! São Miguel! Deus o quer!”
O Santuário tornou-se um dos locais mais venerados do mundo católico, dando ocasião a que se divulgasse em todo o orbe a devoção ao Arcanjo. Assim, foram construídas igrejas dedicadas a São Miguel em várias partes do mundo, como ao longo do Bósforo, na França (o famoso Monte São Miguel), na Alemanha e na Inglaterra. A bandeira do Império, na Alemanha, a que se levava na frente das batalhas, tinha estampada a imagem de São Miguel.
Lemos no “Livro das Semelhanças”, de Santo Anselmo, que, estando a morrer um religioso do seu Mosteiro, foi este terrivelmente assaltado pelo demônio, o qual o argüia primeiro pelos pecados que ele cometera antes do batismo, sacramento que o monge recebera já em idade avançada. O pobre homem não sabia o que responder, e, quando estava muito perturbado, apareceu São Miguel em seu auxílio respondendo que todos os pecados cometidos antes do batismo haviam sido perdoados por ocasião daquele sacramento.
O espírito mau acusou então o monge de vários pecados cometidos depois do batismo. O Arcanjo novamente responde que essas faltas tinham sido apagadas na confissão geral feita por ocasião da profissão religiosa do moribundo, e que este devia confiar na misericórdia divina. Satanás alegou por fim contra ele as muitas faltas e negligências da sua vida subseqüentes à profissão religiosa. São Miguel declarou que todos os pecados lhe haviam sido perdoados, porque os confessara e satisfizera por eles com boas obras e, especialmente, com a obediência, e que, se algum resto tinha ficado, estava agora expiando por meio do sofrimento naquela doença.
Depois desta última resposta o demônio partiu dali cheio de confusão e o bom religioso, cheio de esperança e confiança, rendeu suavemente a alma a Deus.

Alguns títulos com que é invocado São Miguel
Por tudo o que é perante Deus, e pelo que fez e faz por Sua maior glória, São Miguel é invocado com os seguintes títulos na Ladainha que se reza pedindo seus auxílios: poderosíssimo Príncipe dos exércitos do Senhor; Porta-Estandarte da Santíssima Trindade; Guardião do Paraíso; Guia e consolador do povo israelita; Esplendor e fortaleza da Igreja Militante; Honra e alegria da Igreja Triunfante; Luz dos Anjos; Baluarte dos ortodoxos; Força dos que combatem sob o estandarte da cruz; Luz e confiança das almas no último momento da vida; Socorro certíssimo; Nosso auxílio em todas as adversidades; Arauto da sentença eterna; Consolador das almas que estão no Purgatório; A Quem o Senhor incumbiu de receber as almas depois da morte; Nosso Príncipe e Advogado por ocasião do Juízo, e muitos outros títulos com que os cristãos O invocam.
O Arcanjo São Miguel é também invocado como Profeta, Guerreiro e Exorcista. Como Profeta porque foi o primeiro dos que recebeu luzes divinas para prever os acontecimentos futuros e prevenir os demais Anjos, conclamando-os para expulsar os anjos rebeldes. Como Guerreiro porque foi o primeiro a empunhar o gládio contra a revolta dos demônios, cheio de ímpeto, de força juguladora  e de santa tenacidade, o mais forte no choque, o decisivo no vergar o adversário, o supremamente tenaz no resistir a todas as seduções, furores e ciladas de Lúcifer. E, finalmente, como Exorcista porque foi o primeiro a conseguir graças suficientes de Deus para expulsar os demônios onde quer que esteja ou exerça a sua ação. Dotou-o Deus daquele poder invencível que aniquila as investidas e ardis do demônio, tornando-o tão impotente e tão desprezível, quanto é infame e odioso.
Embora tendo sido criado como Arcanjo, São Miguel ascendeu aos tronos dos Serafins e Querubins, sendo um dos Sete Espíritos supremos que assistem sempre na presença do Altíssimo (Apoc. 4, 5).

São Gabriel    
Palavra que também vem do hebraico, gabri’el, e significa “Homem de Deus” ou então “Fortitudo Dei” - Força de Deus. Este Arcanjo tem sido o grande embaixador, o mensageiro, das principais mensagens de Deus aos homens, sendo  por isto chamado o Anjo da Encarnação, pois foi ele escolhido por Deus para servir de Embaixador junto dos homens em tudo que diz respeito a este assombroso mistério.
Foi São Gabriel quem predisse ao Profeta Daniel o tempo exato do nascimento de Cristo e quem explicou os significados de suas  visões: “ouvi a voz dum homem  no meio de Uli, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão” (Dan 8, 16); “eis que Gabriel, aquele varão que eu tinha visto no princípio da visão, voando rapidamente, me tocou no tempo do sacrifício da tarde; instruiu-me, falou-me e disse...” (9, 21-22). Foi também ele quem anunciou a São Zacarias o nascimento de São João Batista, o Precursor de Cristo, declarando: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus” (Lc 1, 19). 
Mas a sua missão mais gloriosa – aquela que o associa inseparavelmente à Encarnação e o impõe à afeição e amor de todos os cristãos – foi a que o fez vir, divino mensageiro da Santíssima Trindade, anunciar à Virgem Maria que a escolhera para ser a Mãe do seu Divino Filho. Sua saudação à Virgem, Ave Maria, tornou-se então a oração mais recitada entre os cristãos, e o maior louvor que se tem prestado à Mãe de Deus.
Foi também São Gabriel quem confortou e consolou o bom São José em sua aflição, avisando-o para partir com Maria Santíssima e o Menino Jesus para o Egito, e depois para que voltasse após a morte de Herodes.

São Rafael
O nome Rafael significa (em hebraico rafa’el) “Medicina Dei” -  saúde ou medicina de Deus. Trata-se do Arcanjo que apareceu a Tobias e o ajudou a lutar contra um poderoso demônio, chamado Asmodeu, que se apoderara de sua futura esposa. O próprio Anjo se apresentou desta forma: “Porque eu sou o Anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor” (Tob 12, 15). Esta comovente história é narrada no Antigo Testamento no Livro de Tobias, onde São Rafael encontra o jovem Tobias a caminho da casa de seu futuro sogro, manda que o mesmo fisgue um peixe, tire dele o fígado para ser usado medicinalmente, e o orienta de como deveria fazer para expulsar o demônio que se apossara da moça. Já haviam morrido sete pretendentes àquele casamento; Tobias seria o próximo, mas cumprindo obedientemente as determinações de São Rafael não sofreu nenhuma influência diabólica e saiu incólume do teste a que se submetera para confirmar o casamento.
Como se vê, grande era o poder do demônio que se apossara da moça, mas muito maior era a bondade de Deus mandando em auxílio dela e do seu noivo Tobias um dos seus maiores Anjos para sua guarda e proteção.
Muitas pessoas pensam, e com razão, que era São Rafael quem curava miraculosamente as feridas dos santos mártires e os fortalecia em meio dos tormentos que sofriam.
É este formidável Arcanjo que reconduz sãos e salvos tantos viajantes à sua terra natal. Acredita-se que seja o Anjo encarregado por Deus de proteger os lares, as famílias.       
São Rafael apareceu á Santa Ciríaca, antes de ser martirizada, dizendo-lhe: “Bravo, Ciríaca! Venceste! Cristo-Rei ouviu as tuas orações; continua a mostrar-te forte e valente. Eu, que te falo, sou o Arcanjo São Rafael, que o Salvador te envia para te revigorar e te dar esta mensagem do Altíssimo; porque tu puseste a tua confiança em Cristo glorificarás o Senhor que te fortalece”.
Em 1789, São Rafael apareceu à Irmã Maria Francisca, da Ordem Terceira franciscana. Disse-lhe que veio para curá-la duma ferida que tinha ao lado. Noutra ocasião, o Arcanjo veio de novo à sua presença para lhe curar de um inchaço de uma veia. Isto demonstra como realmente o Arcanjo São Rafael tem poderes medicinais, embora de modo geral todos os Anjos também os tenham.
  




[i] “Joana D’Arc a Mulher Forte” – de Régine Pernoud, Ed.Paulinas, pp. 21/22.

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