O “Exorcistado” defendido pelo Beato Palau seria a instituição oficial na Igreja de um tipo de exorcismo diferente, não quanto à forma de rezá-lo, mas quanto à maneira prática de executá-lo. O plano era que os exorcismos fossem feitos em locais apropriados, numa casa preparada para isso, como se fosse um hospital, com sacerdotes devidamente preparados e autorizados pela autoridade eclesiástica ao exercício da função. Funcionaria como se fosse uma ordem religiosa criada só para tal fim.
Foi com este propósito que o Beato Palau dirigiu
uma correspondência aos padres conciliares reunidos no Concílio Vaticano I,
pelos idos de 1870, sob a seguinte denominação: “Observações dirigidas ao
Padres do Concílio Romano pela redação do El Exorcistado”.
No final de seu texto, assim concluiu ele:
“PRISÃO DO DEMÔNIO, INFLUÊNCIA DO EXORCISTADO
SOBRE O BEM OU O MAL SOCIAL
29. Como é possível que a cura de um ou de mil
possessos influa tão diretamente na ruína da impiedade e no bem ou no mal
social? Ainda quando sejam expulsos mil ou um milhão de demônios dos corpos
humanos, como é possível que fiquem presos e acorrentados os demais que não
estão nos corpos? Como é possível que do uso ou desuso do Exorcistado dependa a
ruína ou a salvação da sociedade humana?
Solução. É, logo, pode ser. Assim como os
franceses formam uma potência independente, que pode ser destruída por outra
potência superior, e, para vencê-la, basta que o seja a força que se apresente
em batalha, assim é e assim ocorre aqui no mundo da inteligências. Os demônios
são anjos revolucionários, e formam no mundo intelectual uma potência ou reino
independente e distinto do dos anjos bons e do dos homens. Se está ligado e
associado com o homem mau para destruir no homem e através do homem a Cristo e
sua Igreja[1], e aqui temos o malefício;
e Deus se uniu com o homem para destruir pelo homem a obra do demônio, e eis
aqui o Exorcistado.
30. Os demônios constituem juntos uma potência,
uma nação, um exército, um só corpo, ao qual a Escritura Sagrada dá o nome de dragão,
qui est diabolus et Satanas serpens
antiquus (Ap 12, 9). Assim como para prender um boi não é necessário
amarrar todo o corpo, senão que basta os chifres ou uma só perna; assim é no
intelectual e espiritual. Para prender o demônio basta prender com força o que
se nos apresenta visível: não pode render-se esta sem que caia todas as demais,
mais ou menos em ruína; porque lidando a cabeça obra ali todo o corpo, e
vencida a força que se apresenta em batalha as demais ficam destruídas.
31. A Igreja tem potencial para prender essa
potência espiritual invisível que se intitula o demônio: Ecce ego dedi vobis potesta – tem, et aprehendit draconem qui est
Satanas et diabolus. Pode ligar-te e arrojar-te ao abismo: tu es Petrus... quodcumque ligaveris... et
ligavit, eum y missit in abyssum. Pode encerrar-lhe ali: et bibi diabo claves regni celorum... et
clausit et signavit super ilum ne seducant amplus gentes. Tem esta missão,
e está comprometida a cumpri-la: Daemones ejicite.
Há algum terreno onde a Igreja pode encontrar o
diabo para o prender?
Sim; e esse campo é todo aquele onde se estende
o malefício e o Exorcistado. Aqui esta potência espiritual maligna se faz
visível daquele modo que é possível para sua condição. Nos corpos possuídos se
nos apresenta visível por uma espécie de encarnação: substitui o demônio a alma
racional em todas ou parte de suas funções orgânicas, ficando ela entorpecida;
e assim realmente é o diabo mulher ou o diabo homem quem opera no possesso; ele
é quem fala, é quem luta e é quem vence ou fica vencido.
32. Qual parte dessa potência opera no
possesso? A cabeça, porque é ela a que ali se faz visível em representação de
todo o corpo; e se ela fica esmagada, o é todo o corpo. Os corpos possessos são
aquele átrio anterior onde o forte armado se apresenta ao homem Deus, ou a Deus
no homem para batalhar no homem; vencido aqui si fortior eo superveniens vicerit eum, universa arma ejus auferet in
quibus confidebat, et spolia ejus distribuet[2]
(Lc 11, 21).
Vencida esta força espiritual maligna no campo,
onde se no apresenta visível; atada e jogada no abismo; o reino de Satanás fica
destruído em todas suas partes e sobre suas ruínas restabelecido o reino de
Deus: si in digito Dei ejcio daemonia,
profecto per venit in vos regnum Dei.[3]
33. Se o demônio é a cabeça da Revolução,
esmagada esta o corpo vira cadáver.
Assim entendemos nós a influência do
Exorcistado sobre a ruína ou salvação da sociedade atual toda inteira com todas
suas partes.
Apelamos ao tempo e às obras. A que não cai a
Revolução sem que antes seja esmagada sua cabeça que é o demônio? Quem a esmagará?
Aquela de quem está escrito: Uma mulher te esmagará a cabeça (Gn 3, 15). Quem é
esta mulher? A Igreja[4]. Quem é a Igreja? Quanto
ao cumprimento desta sublime missão ela é o Papa e os bispos. Sustentamos o
Exorcistado porque cremos envolve entre sombras e profundos mistérios aquele
ato terrível pelo qual a invicta Judite corta a cabeça do colosso Holofernes,
Jael encrava na terra a Sísara (Jz 4, 1-3 e 5,21) e Ester obtém que Aman seja
enforcado com o cabresto preparado para Mardoqueu, ficando de um só golpe salvo
o povo, o verdadeiro povo, esse povo que estendido nesta data sobre a face da
terra, geme sob a mais horrenda escravidão.
34. A Igreja tem seus ministérios ordenados de
tal modo ao bem individual que todos se refundem no último objeto ao bem comum
geral da sociedade humana.
Pelo que Carlos VII[5] não cinge a coroa do rei
de Espanha sem que antes os demônios sejam arrojados ao abismo por um poder
espiritual? O tempo o confirmará: é questão de fatos, apelamos ao tempo: nem
Carlos VII ocupará em Espanha o trono de São Fernando, nem os reis e príncipes
católicos destronados empunharão seus cetros até que a Igreja esmague a cabeça
da Revolução: o demônio.
Francisco Palau, presbítero.
(FRANCISCO PALAU – ESCRITOS -
EDICION PREPARADA POR EULOGIO PACHO EDITORIAL MONTE CARMELO B U R G O S – EL EXORCISTADO
– páginas 1392/1394)
[1]
Assim o demônio forma também o seu corpo místico, composto de anjos maus e
homens.
[2] Se um homem mais forte o atacar e o vencer,
tirará toda a armadura em que ele confiava e distribuirá os despojos.
[3] Se eu expulso demônios pelo dedo de Deus, então
certamente o Reino de Deus chegou até vós. (Lc 11, 20)
[4]
Evidente que a Mulher citada na Sagrada Escritura se refere a Nossa Senhora. No
entanto, nada impede que a Igreja possa ser interpretada como executora dessa
missão, por ser ela a continuidade do próprio Cristo, o seu Corpo Místico aqui
na Terra. Nossa Senhora reina na Igreja para que ela possa esmagar a cabeça da
serpente.
[5] Pretendente
ao trono espanhol, liderou vários movimentos, inclusive armados, para assumir a
coroa, mas nunca conseguiu atingir seus objetivos.

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