domingo, 19 de abril de 2026

DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA: CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA A CONTRA-REVOLUÇÃO


               (Revista "Dr. Plínio" n. 233, agosto de 2017)


 

Meus jovens e brilhantes amigos da Sociedade Argentina de Defesa da Tradição, Família e Propriedade pediram-me, para esta nova edição de Revolução e Contra-Revolução, um prólogo sobre os pontos de contato deste livro com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís Maria Grignion d Montfort.

Muitos são hoje – fora dos meios progressistas, é claro – os católicos que conhecem e admiram a obra do fogoso e grande missionário popular do século XVIII.

Nasceu em  Montfort-sur-Meu ou Montfort-la-Cane (Bretanha) no ano de 1673. Ordenado sacerdote em 1700, dedicou-se, até sua morte no ano de 1716, a pregar missões às populações rurais e urbanas da Bretanha, Normandia, Poitou, Vendée, Aunis, Saintonge, Anjou, Maine. As cidades em que pregou, inclusive as mais importantes, viviam em grande medida da agricultura e estavam profundamente marcadas pela vida rural. De sorte que São Luís Maria, se bem não havia pregado de forma exclusiva a camponeses, pode ser considerado essencialmente um apóstolo de populações rurais.

Em suas prédicas, que em termos modernos poderiam ser chamadas “aggiornate”, não se limitava a ensinar a doutrina católica de modo que servissem para qualquer época e qualquer lugar, senão que sabia dar realce aos pontos mais necessários para os fiéis que o ouviam.

O gênero de seu “aggiornamento” deixaria provavelmente desconcertados a muitos dos prosélitos do aggiornamento moderno.  Não via os erros de seu tempo como meros frutos de equívocos intelectuais, oriundos de homens de insuspeitável boa fé: erros que por isto mesmo seriam sempre dissipados por um diálogo destro e ameno.

Capaz do diálogo afável e atraente, não perdia de vista, sem embargo, toda a influência do pecado original e dos pecados atuais, assim como a ação do príncipe das trevas, na gênese e no desenvolvimento da imensa luta movida pela impiedade contra a Igreja e a Civilização Cristã.

A célebre trilogia demônio, mundo e carne, presente nas reflexões dos teólogos e missionários de boa lei em todos os tempos, ele e a tinha em vista como um dos elementos básicos para o diagnóstico dos problemas de seu século. E assim, conforme as circunstâncias o pediam, sabia ser ora suave e doce, como um anjo-mensageiro da dileção ou do perdão de Deus, ora batalhador e invicto, como um anjo incumbido de anunciar as ameaças da Justiça Divina contra os pecadores rebeldes e endurecidos. Esse grande apóstolo soube alternadamente dialogar e polemizar, e nele o polemista não impedia a efusão das doçuras do Bom Pastor, nem a mansidão pastoral aguava os santos rigores do polemista.

Estamos, com este exemplo, bem longe de certos progressistas para os quais todos nossos irmãos separados, heréticos ou cismáticos, seriam necessariamente de boa fé, enganados por meros equívocos, de sorte que polemizar com eles seria sempre um erro e um pecado contra a caridade.

A sociedade francesa dos séculos XVII e XVIII (nosso Santo viveu, como vimos, no ocaso de um e nas primeiras décadas do outro) estava gravemente enferma. Tudo a preparava para receber passivamente a inoculação dos germens do Enciclopedismo e desmoronar-se em seguida na catástrofe da Revolução Francesa.

Apresentando aqui um quadro circunscrito dela e, portanto, forçosamente muito simplificado – indispensável, sem embargo para compreender a pregação de nosso Santo – pode dizer-se que nas três classes sociais, clero, nobreza e povo, preponderavam dois tipos de alma: os laxos e os rigoristas. Os laxos, tendentes a uma vida de prazeres que levava à dissolução e ao ascetismo. Os rigoristas, propensos a um moralismo rígido, formal e sombrio, que levava à desesperação quando não à rebelião. Mundanismo e jansenismo eram os dois pólos que exerciam uma nefasta atração, inclusive e meios reputados como os mais piedosos e moralizados da sociedade de então.

Um e outro – como tantas vezes sucede com os extremos do erro – levavam a um mesmo resultado. Com efeito, cada qual por seu caminho apartavam as almas do santo equilíbrio espiritual da Igreja. Esta, efetivamente, nos ensina em admirável harmonia a doçura e o rigor, a justiça e a misericórdia. Nos afirma por um lado a grandeza natural autêntica do homem – sublimada por sua elevação à ordem sobrenatural e sua inserção no Corpo Místico de Cristo – e por outro lado nos faz ver a miséria em que nos lançou o pecado original, com toda sua sequela de nefastas consequências.

Nada mais normal que a coligação dos erros extremos e contrários frente o apóstolo que pregava a doutrina católica autêntica: o verdadeiro  contrário de um desequilíbrio não é o desequilíbrio oposto, senão o equilíbrio. E assim, o ódio que anima os sequazes dos erros opostos não os lança uns contra outros, senão que os joga contra os Apóstolos da Verdade. Máxime quando essa verdade é proclamada com uma vigorosa franqueza, pondo em realce os pontos que discrepam mais agudamente com os erros em voga.

Exatamente assim foi a pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort. Seus sermões, pronunciados em geral ante grandes auditórios populares, culminaram, não poucas vezes, em verdadeiras apoteoses de contrição, de penitência e de entusiasmo. Sua palavra clara, chamejante, profunda, coerente, sacudia as almas abrandadas pelos mil graus de moleza e sensualidade que naquela época se difundiam desde as classes mais altas até os demais estratos da sociedade.

Ao final de seus sermões, frequentemente os ouvintes reuniam na praça pública pirâmides de objetos frívolos ou sensuais e de livros ímpios, aos quais acendiam fogo. Enquanto ardiam as chamas, nosso infatigável missionário fazia novamente uso da palavra, incitando o povo à austeridade.

Esta obra de regeneração moral tinha um sentido profundamente sobrenatural e piedoso. Jesus Cristo crucificado, seu Sangue precioso, suas Chamas sacratíssimas, as Dores de Maria eram o ponto de partida e o término de sua pregação. Por isto mesmo promoveu em Pont-Chateau a construção de um grande Calvário que deveria ser o centro de convergência de todo o movimento espiritual suscitado por ele.

Na Cruz via nosso Santo a fonte de uma superior sabedoria, a Sabedoria cristã, que ensina ao homem a ver e amar nas coisas criadas manifestações e símbolos de Deus; a sobrepor a Fé à razão orgulhosa, a Fé e a reta razão aos sentidos rebeldes, a moral à vontade desordenada, o espiritual ao material, o eterno ao contingente e transitório.

Mas este ardoroso pregador da genuína austeridade cristã nada tinha da austeridade taciturna, biliosa e estreita de um Savonarola ou de um Calvino. Ela era suavizada por uma terníssima devoção à Nossa Senhora.

Pode se dizer que ninguém levou mais alto que ele a devoção à Mãe de Misericórdia. Nossa Senhora, enquanto Mediadora necessária – por eleição divina – entre Jesus Cristo e os homens, foi o objeto de seu contínuo enlevo, o tema que suscitou suas meditações mais profundas, mais originais. Nenhum crítico sério pode lhes negar a qualificação de inspiradamente geniais. Em torno da Mediação Universal de Maria – hoje verdade de Fé – São Luís Maria Grignion de Montfort construiu toda uma mariologia que é o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus.

Estes são os principais recursos de sua admirável pregação.

Toda esta prédica está condensada nos três trabalhos principais escritos pelo Santo: a Carta Circular aos Amigos da Cruz, o Tratado da Divina Sabedoria e o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma espécie de trilogia admirável, toda de ouro e de fogo, da qual se destaca, como obra-prima entre as obras-primas, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Por estas obras podemos nos dar conta da substância da pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort.

Nosso Santo foi um grande perseguido. Este aspecto de sua existência é realçado por todos seus biógrafos.

Um vendaval furioso, movido pelos mundanos, pelos céticos enfurecidos ante tanta Fé e tanta austeridade e pelos jansenistas indignados ante uma devoção insigne a Nossa Senhora, da qual dimanava uma suavidade inefável, ergueu-se contra sua prédica. Daí originou-se um torvelinho que levantou contra ele, por assim dizer, toda a França.

Não poucas vezes, como sucedeu em 1705 na cidade de Poitiers, seus magníficos “autos de fé”  contra a imoralidade foram interrompidos por ordem de autoridades eclesiásticas, as quais evitavam assim a destruição desses objetos de perdição. Em quase todas as dioceses da França lhe foi negado o uso de ordens. Depois de 1711, somente os Bispos de La Rochelle e de Luçon permitiram-lhe a atividade missionária. E, em 1710, Luis XIV ordenou a destruição do Calvário de Point-Chateau.

Ante esse imenso poder do mal, nosso Santo revelou-se profeta. Com palavras de fogo, denunciou os germens que minavam a França de então e vaticinou uma catastrófica subversão que deles haveria de derivar. O século em que São Luís Maria morreu não terminou sem que a Revolução Francesa confirmasse de modo sinistro suas previsões.

Fato ao mesmo tempo sintomático e entusiasmante: as regiões onde nosso Santo teve liberdade de pregar sua doutrina e nas quais as massas humildes o seguiram, foram aquelas em que os chouans se levantaram, armas na mão, contra a impiedade e a subversão. Eram os descendentes dos camponeses que haviam sido missionados pelo grande Santo e preservados assim dos germens da Revolução.

Do nexo entre a obra mestra deste grande Santo e o contido em nosso ensaio – tão diminuído pela comparação – é que nos devemos ocupar.

Comecemos por expor aqui alguns pensamentos contidos em Revolução e Contra-Revolução.[1]

 

Orgulho e impureza na origem da Revolução

A Revolução é apresentada nela como um imenso processo de tendências, doutrinas, de transformações políticas, sociais e econômicas, derivado em última análise – estaria tentado a dizer em ultíssima análise – de uma deterioração moral nascida de dois vícios fundamentais: o orgulho e a impureza, que suscitam no homem uma incompatibilidade profunda com a doutrina católica.

Com efeito, a Igreja Católica como Ela é, a doutrina que ensina, o universo que Deus criou e que podemos conhecer tão esplendidamente através de seus prismas, tudo isso excita no homem virtuoso, puro e humilde, um profundo enlevo. Ele sente alegria ao considerar que a Igreja e o universo são como são.

Mas se uma pessoa cede em algo aos vícios do orgulho ou da impureza, começa a se criar nela uma incompatibilidade com vários aspectos da Igreja ou da ordem do Universo. Essa incompatibilidade pode começar, por exemplo, com uma antipatia com o caráter hierárquico da Igreja, depois se desdobrar e alcançar a hierarquia da sociedade temporal, para mais tarde manifestar-se em relação à ordem hierárquica da família. E assim, uma pessoa pode, por várias formas de igualitarismo, chegar a uma posição metafísica de condenação de toda e qualquer desigualdade, e do caráter hierárquico do Universo. Seria o efeito do orgulho no campo da metafísica.

De modo análogo se pode delinear as consequências da impureza no pensamento humano. O homem impuro, por regra geral, começa por tender para o liberalismo: o irrita a existência de um preceito, de um freio, de uma lei que circunscreva o transbordamento de seus sentidos. E, com isto, toda ascese lhe parece antipática. Dessa antipatia, naturalmente, vem uma aversão ao próprio princípio de autoridade, e assim sucessivamente. O anelo de um mundo anárquico – no sentido etimológico da palavra – sem leis nem poderes constituídos, e no qual o próprio Estado não seja senão uma imensa cooperativa, é o ponto extremo do liberalismo gerado pela impureza.

Tanto do orgulho quanto do liberalismo nasce o desejo de igualdade e liberdade totais, que é a medula do comunismo.

A partir do orgulho e da impureza se vão formando os elementos constitutivos de uma concepção diametralmente oposta à obra de Deus. Essa concepção, em seu aspecto final, já não difere da católica somente em um ou outro ponto. A medida que, ao longo das gerações, esses vícios se vão aprofundando e voltando mais acentuados, vai se estruturando toda uma concepção gnóstica e revolucionária do Universo.

A individualidade, que para a gnose é o mal, é um princípio de desigualdade. A hierarquia –qualquer que seja – é filha da individualidade. O universo segundo o gnóstico se resgata da individualidade e da desigualdade num processo de destruição do “eu”, que reintegra os indivíduos no grande Todo homogêneo. A realização, entre os homens, da igualdade absoluta, e de seu corolário, a liberdade completa – numa ordem de coisas anárquica – pode ser vista como uma etapa preparatória dessa reabsorção total.

Não é difícil perceber, nesta perspectiva, um nexo entre gnose e comunismo.

 

A devoção a Nossa Senhora é essencial para a Contra-Revolução

Assim, a doutrina da Revolução é a gnose, e suas causas últimas têm suas raízes no orgulho e na sensualidade. Dado o caráter moral destas causas, todo o problema da Revolução e da Contra-Revolução é, no fundo, e principalmente, um problema moral. O que se disse em Revolução e Contra-Revolução é que, se não fosse pelo orgulho e a sensualidade, a Revolução como movimento organizado no mundo inteiro não existiria, não seria possível.

Ora, se no centro do problema da Revolução e da Contra-Revolução há uma questão moral, há também e eminentemente uma questão religiosa, porque todas as questões morais são substancialmente religiosas. Não há moral sem religião. Uma moral sem religião é o que de mais inconsistente se possa imaginar. Todo problema moral é, pois, fundamentalmente religioso. Sendo assim, a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é uma luta que, em sua essência, é religiosa. Se é religiosa, se é uma crise moral que dá origem ao espírito da Revolução, então, essa crise só pode ser evitada, só pode ser remediada com o auxílio da graça.

É um dogma da Igreja que os homens não podem, somente com os recursos naturais, cumprir duravelmente, e em sua integridade, os preceitos da Moral católica, sintetizados na Antiga e na Nova Lei. Para cumprir os Mandamentos, é necessária a existência da graça.

Por outro lado, se o homem cai em estado de pecado, acumulando-se nele as apetências pelo mal, a fortiori não conseguirá levantar-se do estado em que caiu sem o socorro da graça. Provindo da graça toda preservação moral verdadeira ou toda regeneração moral autêntica, é fácil ver o papel de Nossa Senhora na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução. A graça depende de Deus, mas Deus, por um ato livre de sua vontade, quis fazer depender de Nossa Senhora a distribuição das graças. Maria é a Medianeira Universal, é o canal por onde passam todas as graças. Portanto, seu auxílio é indispensável para que não haja Revolução, ou para que esta seja vencida pela Contra-Revolução.

Com efeito, quem pede a graça por intermédio d’Ela, a obtém. Quem tente consegui-la sem o auxílio de Maria, não a obterá. Se os homens, recebendo a graça, correspondem a ela, está implícito que a Revolução desaparecerá. Pelo contrário, se eles não corresponderem, é inevitável  que a Revolução surja e triunfe. Portanto, a devoção a Nossa Senhora é conditio sine qua non[2] para que a Revolução seja esmagada, para que vença a Contra-Revolução.

Insisto no que acabo de afirmar. Se uma nação for fiel às graças  necessárias e até suficientes que recebe de Nossa Senhora, e se se generaliza nela a prática dos Mandamentos, é inevitável que a sociedade se estruture bem. Porque, com a graça, vem a sabedoria, e com a sabedoria, todas as atividades do homem entram nos eixos.

Isso se verifica, de certo modo, com a análise do estado em que se encontra a civilização contemporânea. Construída sobre uma recusa da graça, alcançou alguns resultados estrepitosos. Estes, porém, devoram o homem. Na medida em que tem por base o laicismo e viola, sob vários aspectos, a ordem natural ensinada pela Igreja, a civilização atual é nociva ao homem.

Sempre que a devoção a Nossa Senhora seja ardorosa, profunda, de rica substância teológica, é claro que a oração de quem pede será atendida. As graças choverão sobre a pessoa que reza a Ela devota e assiduamente. Se, pelo contrário, essa devoção for falsa ou tíbia, manchada por restrições de sabor jansenista ou protestante, há grave risco de que a graça seja dada menos largamente, porque encontra por patê do homem nefastas resistências. O que se diz do homem pode dizer-se, mutatis mutandi, da família, de uma região, de um país, ou de qualquer outro grupo humano.

É costume dizer-se que na economia da graça, Nossa Senhora é o pescoço do Corpo Místico, do qual Nosso Senhor Jesus Cristo é a Cabeça, porque tudo passa por Ela.

A imagem é inteiramente verdadeira na vida espiritual. Um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora é como alguém que tem uma corda atada ao pescoço e conserva apenas um fio de respiração. Quando não tem nenhuma devoção, se asfixia. Tendo uma grande devoção, o pescoço fica completamente livre e o ar penetra abundantemente no pulmão, podendo o homem viver normalmente.

A esterilidade e até a nocividade de tudo quanto se faz contra a ação da graça, e a enorme fecundidade do que se faz com seu auxílio, determinam bem a posição de Nossa Senhora nesse combate entre a Revolução e a Contra-Revolução, pois a intensidade das graças recebidas pelo homem depende da maior ou menor devoção que a Ela tiverem.

 

O concurso do espírito do mal

Uma visão da Revolução e da Contra-Revolução não pode ficar apenas nestas considerações. A Revolução não é o fruto da exclusiva maldade humana. Esta última abre as portas ao demônio, pelo qual se deixa estimular, exacerbar e dirigir.

É, pois, importante considerar, nesta matéria, a oposição entre Nossa Senhora e o demônio. O papel do demônio na eclosão e nos progressos da Revolução foi enorme. Como é lógico pensar, uma explosão de paixões desordenadas tão profunda e tão geral como a que originou a Revolução não teria ocorrido sem uma ação preternatural. Além disso, seria difícil que o homem alcançasse os extremos de crueldade, de impiedade e de cinismo, aos quais a Revolução chegou várias vezes ao longo de sua história, sem o concurso do espírito do mal.

Ora, esse fator de propulsão tão forte está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Basta que Ela fulmine um ato de seu império sobre o inferno, para que ele estremeça, se confunda, se encolha e desapareça do cenário humano. Pelo contrário, basta que Ela, para castigo dos homens, deixe ao demônio um certo raio de ação, para que a ação deste progrida. Portanto, os enormes fatores da Revolução e da Contra-Revolução, que são respectivamente o demônio e a graça, dependem de seu império e seu domínio.

 

Efetiva realeza de Maria

A consideração deste soberano poder de Nossa Senhora nos aproxima da ideia da realeza de Maria. É preciso não ver essa realeza como um título meramente decorativo. Embora submissa em tudo à vontade de Deus, a realeza de Nossa Senhora importa num poder de governo pessoal muito autêntico.

Tive ocasião de empregar certa vez, numa conferência, uma imagem que facilita a compreensão do papel de Nossa Senhora como Rainha.

Imaginemos um diretor de colégio com alunos muito insubordinados. Ele os castiga com uma autoridade de ferro. Depois de os ter submetido à ordem, retira-se dizendo à sua mãe: “Sei que governareis este colégio de modo diferente do que estou fazendo agora. Vós tendes um coração materno. Tendo eu castigado esses alunos, quero agora que os governeis com doçura”. Essa senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, porém com um método diverso daquele que usou o diretor. A atuação dela é distinta da dele; não obstante, ela faz inteiramente a vontade dele.

Nenhuma comparação é exata. Entretanto, julgo que, sob certo aspecto, esta imagem nos ajuda a entender a questão.

Análogo é o papel de Nossa Senhora como Rainha do Universo. Nosso Senhor Lhe deu um poder régio sobre toda a Criação, cuja misericórdia, sem chegar a nenhum exagero, chega entretanto a todos os extremos. Ele colocou-A como Rainha do Universo para governá-lo e, especialmente, para governar o pobre gênero humano decaído e pecador. E é vontade d’Ele que Ela faça o que Ele não quis fazer por Si, mas por meio d’Ela, régio instrumento de seu Amor. Há, pois, um regime verdadeiramente marial no governo do Universo. E assim se vê como é que Nossa Senhora, embora sumamente unida a Deus e dependente d’Ele, exerce sua ação ao longo da História. Nossa Senhora é infinitamente inferior a Deus – é evidente porém, Deus quis dar a Ela esse papel por um ato de liberalidade. É Nossa Senhora quem, distribuindo ora mais largamente a graça, ora menos, freando ora mais, ora menos, a ação do demônio, exerce sua realeza sobre o curso dos acontecimentos terrenos. Nesse sentido, depende d’Ela a duração da Revolução e a vitória da Contra-Revolução. Além disso, às vezes Ela intervém diretamente nos acontecimentos humanos, como o fez, por exemplo, em Lepanto. Quão numerosos são os fatos da História da Igreja em que ficou clara sua intervenção direta no curso das coisas! Tudo isto nos faz ver de quantos modos é efetiva a realeza de Nossa Senhora.

Quando a Igreja canta a seu respeito: “Tu só exterminaste as heresias no mundo inteiro”, diz que seu papel nesse extermínio foi de certo modo único. Isso equivale a dizer que Ela dirige a História, porque quem dirige o extermínio das heresias dirige o triunfo da ortodoxia, e dirigindo uma e outra coisa, dirige a História no que ela tem de mais medular.

Haveria um trabalho de História interessante para fazer: o de demonstrar que o demônio começa a vencer quando consegue diminuir a devoção a Nossa Senhora. Isso se deu em todas as épocas de decadência da Cristandade, em todas as vitórias da Revolução. Exemplo característico é o da Europa antes da Revolução Francesa. A devoção a Nossa Senhora nos países católicos foi prodigiosamente diminuída pelo jansenismo, e é por isso que eles ficaram como uma floresta combustível, onde uma simples chispa pôs fogo em tudo.

Estas e outras considerações tiradas do ensinamento da Igreja abrem perspectivas para o Reino de Maria, isto é, uma era histórica de Fé e de virtude que será inaugurada com uma vitória espetacular de Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio será expulso e voltará aos antros infernais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das instituições que para isso escolheu.

 

O Reino de Maria e a união de almas

Quanto a essa perspectiva do Reino de Maria, encontramos na obra de São Luís Maria Grignion de Montfort algumas alusões dignas de nota. Ele é, sem dúvida, um profeta que anuncia essa vinda. Disso fala claramente: “Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a Terra de um modo tão suave e tão veemente, que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?” [3] Esse dilúvio, que lavará a humanidade, inaugurará o Reino do Espírito Santo, que ele identifica com o Reino de Maria. Nosso santo afirma que vai ser uma era de florescimento da Igreja como até então nunca houve. Chega inclusive a afirmar que “o Altíssimo, com sua Santa Mãe, devem formar para Si grandes santos, que sobrepujarão em santidade a maior parte dos outros santos, como os cedros do Líbano se avantajam aos pequenos arbustos”.[4]

Considerando os grandes santos que a Igreja já produziu, ficamos deslumbrados ante a envergadura desses que surgirão sob o bafejo de Nossa Senhora. Nada é mais razoável do que imaginar um crescimento enorme da santidade numa era histórica em que a atuação de Nossa Senhora aumente também prodigiosamente. Podemos, pois, dizer que São Luís Maria Grignion de Montfort, com seu valor de pensador, mas sobretudo, com sua autoridade de santo canonizado pela Igreja, dá peso, autoridade, consistência, às esperanças que brilham em muitas revelações particulares, de que virá uma época na qual Nossa Senhora verdadeiramente triunfará.

A realeza de Nossa Senhora, embora tenha uma soberana eficácia em toda a vida da Igreja e da sociedade temporal, realiza-se em primeiro lugar no interior das almas. Daí, do santuário interior de cada alma, é que ela se reflete sobre a vida religiosa e civil dos povos, enquanto considerados como um todo.

O Reino de Maria será, pois, uma época em que a união das almas com Nossa Senhora alcançará uma intensidade sem precedentes na História (exceção feita, é claro, de casos individuais).

 

Escravidão a Nossa Senhora e Apóstolos dos Últimos Tempos

Qual é a forma dessa união em certo sentido suprema? Não conheço mais perfeito para enunciar a realizar essa união do que a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, tal como é ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort no “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Considerando que Nossa Senhora é o caminho pelo qual Deus veio aos homens e estes vão a Deus, tendo presente a realeza universal de Maria, nosso santo recomenda que o devoto da Santíssima Virgem  se consagre inteiramente a Ela como escravo. Essa consagração é de uma radicalidade admirável. Ela abarca não só os deveres materiais do homem, como também até o mérito de suas boas obras e orações, sua vida, seu corpo e sua alma. Ela é sem limites, porque o escravo por definição nada tem de seu.

Em troca dessa consagração, Nossa Senhora atua no interior de seu escravo de modo maravilhoso, estabelecendo com ele uma união inefável.

Os frutos dessa união serão vistos nos Apóstolos dos Últimos Tempos, cujo perfil moral ele traça, a fogo, em sua famosa “Oração abrasada”. Ele usa, para isso, uma linguagem de uma grandeza apocalíptica, na qual parece reviver todo o clamor de um São João Batista, todo o fogo de um São João Evangelista, todo o zelo de um São Paulo. Os varões portentosos que lutarão contra o demônio pelo Reino de Maria – conduzindo gloriosamente, até o fim dos tempos, a luta contra o demônio, o mundo e a carne – São Luís os descreve como magníficos modelos que convidam desde já à perfeita escravidão a Nossa Senhora, os que, nos tenebrosos dias de hoje, lutam nas fileiras da Contra-Revolução.

Assim, com estas considerações sobre o papel de Nossa Senhora na luta da Revolução e da Contra-Revolução, e sobre o Reino de Maria, vistas segundo o “Tratado da Verdadeira Devoção”, creio ter enunciado os principais pontos de conta entre a obra-prima do grande santo e meu ensaio – tão apequenado pela comparação – sobre “Revolução e Contra-Revolução”.[5]



[1] A partir daqui, texto transcrito da Revista Dr. Plínio n. 158, de maio de 2011

[2] Condição indispensável.

[3] Oração Abrasada de S.Luís Grignion, “Oeuvres Complètes”, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 681..

[4] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S.Luís Grignion, Oeuvres Completes, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 512 e 513, N. 47.

[5] PRÓLOGO à 1ª edição argentina de "Revolución y Contra-Revolução"

 


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