Pedro Gonçalves, em castelhano Pedro González, também conhecido como São Telmo, Santelmo ou Corpo Santo foi um sacerdote católico castelhano. Após ser presbítero canónico em Astorga, ingressou na Ordem dos Dominicanos, onde se distinguiu pela sua retórica e capacidade de pregação. Foi capelão do rei Fernando III de Leão e Castela antes de ser nomeado prior do Convento de São Domingos de Guimarães. É o santo padroeiro dos homens do mar e dos barqueiros, tendo cedo desfrutado de grande devoção popular. O Papa Bento XIV confirmou o seu culto em 1714. É o santo padroeiro ainda da cidade de Tui e da diocese de Tui-Vigo, onde se celebra a sua festa na segunda-feira da segunda semana da Páscoa.
Alguns
autores dão como local de seu nascimento ora Palência, ora cidade de Astorga.
De família
distinta, estudou na Universidade de Palência e
foi ordenado sacerdote; graças à proteção de um tio, bispo de Astorga, foi-lhe
atribuído o título de canónico e uma bula especial permitiu que fosse
nomeado deão sem
que tivesse ainda a idade requerida. Conta-se que, ao chegar a Astorga para
ocupar o seu posto, com os seus melhores trajes e num cavalo ricamente
ajaezado, o animal tropeçou e o cavaleiro estatelou-se no chão. A humilhação
sofrida enfureceu-o, tendo decidido de imediato recolher-se a um convento,
afastando-se do mundo.
COMO FAZ BEM A HUMILHAÇÃO
Bem pouca gente
conhece, mesmo de nome, a São Telmo.
Chamava-se, antes, Pedro Gonzalez. Era ainda muito moço quando seu
tio, o bispo de Palência, o nomeou cônego daquela catedral. Era esse
jovem cônego muito vaidoso e gostava demais das honrarias e
dignidades. Sua vida contrastava com a de seus colegas que se
escandalizavam com a sua repreensível conduta mundana. Apesar disso,
consegue de seu tio bispo que ele fosse nomeado deão (presidente,
chefe) do cabido (assembléia dos cônegos da catedral). A posse foi
marcada para o dia de Natal.
Chegado esse dia,
Gonzalez vestiu um elegante traje cortesão
(palaciano), e montando um ginete (cavalo de raça) magnificamente
enfeitado, atravessou as ruas da cidade, com grande escândalo para o
povo que veio assistir a cerimônia.
Entretanto, a Divina
Providência em seus insondáveis desígnios,
queria servir-se da vaidade de Gonzalez para impor-lhe uma grande
humilhação. Queria por esse meio levá-lo a melhores sentimentos
fazendo-o perceber quão superficiais e passageiras são as honras
mundanas.
Chegando à grande praça
de Palência, o vaidoso personagem quis fazer
seu cavalo corcovear (dar saltos) graciosamente a fim de provocar
admiração do público e arrancar-lhe aplausos. Largou o cavalo a toda
rédea, mas no meio da carreira o animal empacou, deu um pinote e
lançou o cavaleiro no meio da lama.
A multidão assistiu a
queda com uma estrondosa gargalhada. A vaia
foi tremenda. Envergonhado como nunca, o vaidoso deão coberto de
lama em todo o corpo e até no rosto, não ousava levantar-se do chão
para encarar os que riam dele.
Todavia, essa tamanha
confusão lhe foi muito salutar para a alma até
então voltada só para satisfazer seu amor próprio. Qual novo São
Paulo, erguendo os olhos ao céu, exclamou: “Como pode ser isso? Este
mundo a quem eu desejava agradar, agora zomba de mim?! Pois bem, eu
me rirei dele, pois de agora em diante serei outro homem: voltar-lhe-ei as
costas, e mudarei totalmente de vida.
Assim procedeu.
Abandonou tudo, riquezas, honras e comodidades.
Fez-se dominicano e com o nome de Frei Telmo, viveu santamente
edificando a todos na comunidade e na região onde outrora deu tão
mal exemplo.
Como
frade, ocupou o posto de capelão militar, ofício em que o seu dom de oratória
chamou a atenção do rei Fernando III, que o convocou para a sua Corte. Como
confessor do rei, incentivou-o a renunciar às hostilidades contra a Andaluzia,
e acompanhou-o na campanha de conquista de Córdoba e Sevilha;
consagrou como igrejas as mesquitas das
cidades conquistadas. No regresso da campanha, abandonou a Corte para pregar
nas Astúrias e
na Galiza.
É nesta fase de sua vida que a tradição popular lhe atribuiu a realização de
diversos milagres,
em particular os relacionados com a vida dos pescadores e
marinheiros da Galiza, a quem teria dedicado muito do seu labor de pregador.
Entre
estes, afirma-se que, estando a pregar em Baiona,
ocorreu uma tempestade que perturbou a prédica. Seguindo o exemplo
de Jesus Cristo, conforme os Evangelhos,
Pedro González ordenou ao vento e aos outros elementos que cessassem, fazendo-se a
bonança.
Foi nomeado
prior do Convento de Guimarães, em Portugal,
onde contou, entre os seus frades Gonçalo de Amarante.
Já
sexagenário, retirou-se para Tui, onde travou amizade com o arcebispo Lucas de Tui; na Páscoa de 1246, veio a falecer
durante uma peregrinação a Santiago de Compostela. Está sepultado
na Catedral de Tui.
Foi
beatificado pelo Papa
Inocêncio IV em 1254 e canonizado
pelo Papa Benedito XIV em 1741.
São Fernando
III
São Fernando III, era
rei de Castela e Leão, enquanto Frei Telmo era um simples frade, mas muito
próximo do rei e seu confessor e grande amigo..
Desde o ano de 1031 que
a cidade de Córdoba havia deixado de ser a sede do califado, passando a ser dominada
pelos mouros reunidos em torno de suas “taifas”, pequenos reinos cujos
potentados viviam lutando uns contra os outros. São Fernando via naquela cidade
uma importância vital para conquistar o restante do território ainda em poder
dos mouros.
Saiu pelas portas de
Ubeda um animoso esquadrão de jovens cavaleiros, armados até os dentes e bem
providos de todos os apetrechos de guerra. Souberam através de um mouro amigo
que seria muito fácil penetrar na cidade de Córdoba e que havia grandes falhas
na guarnição das muralhas. Partiram para lá sem avisar o rei...
Após cansativa viagem
chegaram a Córdoba e acamparam nas cercanias sem levantar suspeitas. Com muito
tato e esperteza conseguiram entrar na cidade e dominaram com facilidade um
bairro inteiro, chamado Ajarquia, que foi logo fortificado. Em seguida
reuniram-se os comandantes da missão para decidir o que fazer.
A situação dos
invasores não era nada favorável, porque estavam dentro de uma grande cidade
inimiga, tomando apenas uma parte desta e sem qualquer esperança de socorro
externo. Apesar disto todos tinham em mente que a vitória lhes favoreceria no
final, pois eram homens de fé robustíssima e depositavam uma confiança sem
limites
Chegando no local onde
estava o rei, em poucos instantes o mensageiro foi autorizado a entrar, fez uma
genuflexão e beijou a mão do rei dizendo:
- Senhor, sabei que
sois dono de Córdoba!
- Que dizes, Ordoño?
Dissestes Córdoba?
- Córdoba, meu senhor!
Córdoba, que numa escuríssima noite escalamos as muralhas. Tomai e lei – disse,
entregando-lhe a mensagem.
Lendo o documento,
pôs-se de pé e mandou o mensageiro aguardar um instante. Vira-se para um dos
cortesãos e diz:
- Mandai chamar todos
os meus cavaleiros e dizei-lhes que se armem e encilhem seus cavalos.
Chamou outros e a cada
uma dava uma ordem, esquecendo-se por completo da refeição que estava ainda
sobre a mesa. Os cortesãos saíram apressadamente para cumprir as ordens.
Assistindo a tudo estavam São Pedro Telmo, que havia sido convidado por São
Fernando para ser seu confessor e lhe fazer companhia nas guerras. Estava com
São Telmo um outro religioso, que lhe diz:
- Frei Pedro, “Irruit
Domini spiritus in Rege..."[1]
São Pedro Telmo
responde:
- Vamos com ele, Dom
Lope...
Todo rei católico, na
Idade Média, levava sacerdotes consigo em suas batalhas, a fim de celebrarem
missas e levar os sacramentos aos soldados e combatentes, especialmente o da
Confissão, da Comunhão e Unção dos Enfermos. De modo geral, só iniciavam o dia
com uma Missa, ocasião em que comungavam, com o rei dando o exemplo. São Pedro
Telmo e dom Lope acompanharam o exército de São Fernando III nessa empreitada
guerreira.
O religioso, com
espírito profético, percebia que o santo rei estava cheio do espírito de Deus e que valia a pena pois segui-lo aonde
fosse.
Uma hora depois
aparecia o rei, fortemente armado e coberto de uma grande capa com capuz, e fica
no pátio aguardando a chegada de seus cavaleiros. Quando grande parte havia chegado, diz o rei:
- Sigam-me os amigos!
- Santiago e Castela! – respondem os cavaleiros.
Apesar da tempestade
que caía, São Fernando, impaciente para ir ao combate, não esperou o restante
de seus homens e partiu logo em direção de Córdoba.
A cidade não tinha uma
boa guarda, pois os cavaleiros cristãos que haviam tomado o bairro de Ajarquia
resistiam há um mês, sem que os muçulmanos conseguissem vencer e entrar no
recinto. No meio de uma cidade inimiga e populosa, um punhado de cavaleiros
resistiam até chegar seu rei e conquistá-la.
Quando São Fernando
chegou a um acampamento próximo, grande foi a alegria dos acampados. O
rei! O rei! Ouviam-se gritos de todas as
partes. A alegria dos homens era tão grande que se felicitavam uns aos outros,
cantando e rindo com grande alvoroço.
Foi naquele acampamento
que São Fernando conseguiu realmente descansar de tão fatigante viagem.
No outro dia, saiu o
rei para estudar o terreno e planejar as operações militares e decide que, ele
mesmo, seria o primeiro a tomar um castelo para ali instalar seu QG. Com uma
intrepidez incrível foi ali instalado o Quartel General de São Fernando, tendo
diante de si a cidade inimiga e pelas costas o exército do mouro Aben-Ilud. Porém bem sabia ele que, enquanto na terra
estava cercado de inimigos, pela frente e pelas costas, sobre sua cabeça se
estendia a mão de Deus para ajudá-lo. E firme em seu posto, orava noite e dia,
e era o primeiro a sofrer as privações e os trabalhos de guerra.
Após demorado cerco, um
dia os habitantes de Córdoba concordaram em negociar a capitulação nas mesmas
condições já tentadas antes, que era sair livres da cidade e com os bens que
pudessem levar. Concedeu-as São Fernando, que era muito condescendente com os
vencidos.
Ao receber as chaves da
cidade das mãos do mouro o rei elevou os olhos ao céu e exclamou em voz alta:
- Louvor para sempre a
Ti, Jesus Cristo, meu Senhor, que por tua grande misericórdia e os rogos da
gloriosa Santa Maria, valestes deste servo e cavaleiro e por meio dos meus
suores ganhastes para tua santa Lei esta cidade de Córdoba!
Na mesma tarde, Dom
Juan de Osma e Dom Lope de Fitero entraram na mesquita a fim de purificá-la e
consagrá-la como igreja e catedral cristã. São Fernando marcou para a semana
seguinte uma entrada triunfal e festiva na cidade. A comitiva real foi recebida
pelas autoridades religiosas em procissão, onde se faziam presentes todas as
Ordens de cavalaria e os demais homens de seu séquito. Todos entraram na
grandiosa mesquita com grande solenidade e pompa.
Algum tempo depois,
foram encontrados numa mesquita os sinos que Almanzor havia mandado retirar de
Compostela e ser trazidos para ali nos ombros de escravos cristãos. No mesmo
instante, São Fernando se lembrou de uma promessa feita à Santa Maria, quando ainda
era bem mais jovem, e determinou que aqueles sinos fossem colocados nos ombros
de prisioneiros mouros para serem levados de volta a Compostela como sinal de
reparação à afronta feita em tempos passados ao cristianismo.
Conquistar uma praça, e
tão forte e importante como Córdoba, custava muito sangue e suor. As lágrimas
das contrariedades ficaram para depois, quando se fazia necessário consolidar
aquela conquista. Ali haviam muitas dificuldades a superar, mas a pior era
convencer seus próprios homens a ficar administrando aquela cidade e
adjacências. Os mouros, é verdade, abandonaram em grande número a cidade, mas
por pouco tempo, pois muitos deles logo resolviam voltar. Um fato inusitado é
que muitos se converteram ao cristianismo como fruto apostólico incansável do
santo frei Telmo. Assim, duramente, as coisas foram se tornando mais fáceis de
serem conduzidas.
Talvez a conquista de
Córdoba se tivesse dado muito tempo depois, com muito mais sacrifício e
martírio, se aquele punhado de heróis que tomaram no início o bairro de
Ajarquia não tivessem tido a santa ousadia de partir sozinhos para a conquista,
sem o conhecimento do rei porque tinham pressa.
(O relato acima sobre São Fernando III, resumido e adaptado, foi extraído do livro “Nuestra Señora en el Arzon”, de C. Fernandez de Castro, A. C. J., publicada em 1948 pela Editora Escelicer, S.L., de Cádiz, Espanha).
[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.

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