terça-feira, 14 de abril de 2026

São Telmo, companheiro de São Fernando de Castela

 

                 


 

Pedro Gonçalves, em castelhano Pedro González, também conhecido como São TelmoSantelmo ou Corpo Santo  foi um sacerdote católico castelhano. Após ser presbítero canónico em Astorga, ingressou na Ordem dos Dominicanos, onde se distinguiu pela sua retórica e capacidade de pregação. Foi capelão do rei Fernando III de Leão e Castela antes de ser nomeado prior do Convento de São Domingos de Guimarães. É o santo padroeiro dos homens do mar e dos barqueiros, tendo cedo desfrutado de grande devoção popular. O Papa Bento XIV confirmou o seu culto em 1714. É o santo padroeiro ainda da cidade de Tui e da diocese de Tui-Vigo, onde se celebra a sua festa na segunda-feira da segunda semana da Páscoa.

Alguns autores dão como local de seu nascimento ora Palência, ora cidade de Astorga.

De família distinta, estudou na Universidade de Palência e foi ordenado sacerdote; graças à proteção de um tio, bispo de Astorga, foi-lhe atribuído o título de canónico e uma bula especial permitiu que fosse nomeado deão sem que tivesse ainda a idade requerida. Conta-se que, ao chegar a Astorga para ocupar o seu posto, com os seus melhores trajes e num cavalo ricamente ajaezado, o animal tropeçou e o cavaleiro estatelou-se no chão. A humilhação sofrida enfureceu-o, tendo decidido de imediato recolher-se a um convento, afastando-se do mundo.

 

COMO FAZ BEM A HUMILHAÇÃO

 

Bem pouca gente conhece, mesmo de nome, a São Telmo.
Chamava-se, antes, Pedro Gonzalez. Era ainda muito moço quando seu
tio, o bispo de Palência, o nomeou cônego daquela catedral. Era esse
jovem cônego muito vaidoso e gostava demais das honrarias e
dignidades. Sua vida contrastava com a de seus colegas que se
escandalizavam com a sua repreensível conduta mundana. Apesar disso,
consegue de seu tio bispo que ele fosse nomeado deão (presidente,
chefe) do cabido (assembléia dos cônegos da catedral). A posse foi
marcada para o dia de Natal.

Chegado esse dia, Gonzalez vestiu um elegante traje cortesão
(palaciano), e montando um ginete (cavalo de raça) magnificamente
enfeitado, atravessou as ruas da cidade, com grande escândalo para o
povo que veio assistir a cerimônia.

Entretanto, a Divina Providência em seus insondáveis desígnios,
queria servir-se da vaidade de Gonzalez para impor-lhe uma grande
humilhação. Queria por esse meio levá-lo a melhores sentimentos
fazendo-o perceber quão superficiais e passageiras são as honras
mundanas.

Chegando à grande praça de Palência, o vaidoso personagem quis fazer
seu cavalo corcovear (dar saltos) graciosamente a fim de provocar
admiração do público e arrancar-lhe aplausos. Largou o cavalo a toda
rédea, mas no meio da carreira o animal empacou, deu um pinote e
lançou o cavaleiro no meio da lama.

A multidão assistiu a queda com uma estrondosa gargalhada. A vaia
foi tremenda. Envergonhado como nunca, o vaidoso deão coberto de
lama em todo o corpo e até no rosto, não ousava levantar-se do chão
para encarar os que riam dele.

Todavia, essa tamanha confusão lhe foi muito salutar para a alma até
então voltada só para satisfazer seu amor próprio. Qual novo São
Paulo, erguendo os olhos ao céu, exclamou: “Como pode ser isso? Este
mundo a quem eu desejava agradar, agora zomba de mim?! Pois bem, eu
me rirei dele, pois de agora em diante serei outro homem: voltar-lhe-ei as costas, e mudarei totalmente de vida.

Assim procedeu. Abandonou tudo, riquezas, honras e comodidades.
Fez-se dominicano e com o nome de Frei Telmo, viveu santamente
edificando a todos na comunidade e na região onde outrora deu tão
mal exemplo.

Como frade, ocupou o posto de capelão militar, ofício em que o seu dom de oratória chamou a atenção do rei Fernando III, que o convocou para a sua Corte. Como confessor do rei, incentivou-o a renunciar às hostilidades contra a Andaluzia, e acompanhou-o na campanha de conquista de Córdoba e Sevilha; consagrou como igrejas as mesquitas das cidades conquistadas. No regresso da campanha, abandonou a Corte para pregar nas Astúrias e na Galiza. É nesta fase de sua vida que a tradição popular lhe atribuiu a realização de diversos milagres, em particular os relacionados com a vida dos pescadores e marinheiros da Galiza, a quem teria dedicado muito do seu labor de pregador.

Entre estes, afirma-se que, estando a pregar em Baiona, ocorreu uma tempestade que perturbou a prédica. Seguindo o exemplo de Jesus Cristo, conforme os Evangelhos, Pedro González ordenou ao vento e aos outros elementos que cessassem, fazendo-se a bonança.

Foi nomeado prior do Convento de Guimarães, em Portugal, onde contou, entre os seus frades Gonçalo de Amarante.

Já sexagenário, retirou-se para Tui, onde travou amizade com o arcebispo Lucas de Tui; na Páscoa de 1246, veio a falecer durante uma peregrinação a Santiago de Compostela. Está sepultado na Catedral de Tui.

Foi beatificado pelo Papa Inocêncio IV em 1254 e canonizado pelo Papa Benedito XIV em 1741.

 

           São Fernando III

 

São Fernando III, era rei de Castela e Leão, enquanto Frei Telmo era um simples frade, mas muito próximo do rei e seu confessor e grande amigo..

Desde o ano de 1031 que a cidade de Córdoba havia deixado de ser a sede do califado, passando a ser dominada pelos mouros reunidos em torno de suas “taifas”, pequenos reinos cujos potentados viviam lutando uns contra os outros. São Fernando via naquela cidade uma importância vital para conquistar o restante do território ainda em poder dos mouros.

Saiu pelas portas de Ubeda um animoso esquadrão de jovens cavaleiros, armados até os dentes e bem providos de todos os apetrechos de guerra. Souberam através de um mouro amigo que seria muito fácil penetrar na cidade de Córdoba e que havia grandes falhas na guarnição das muralhas. Partiram para lá sem avisar o rei...

Após cansativa viagem chegaram a Córdoba e acamparam nas cercanias sem levantar suspeitas. Com muito tato e esperteza conseguiram entrar na cidade e dominaram com facilidade um bairro inteiro, chamado Ajarquia, que foi logo fortificado. Em seguida reuniram-se os comandantes da missão para decidir o que fazer.

A situação dos invasores não era nada favorável, porque estavam dentro de uma grande cidade inimiga, tomando apenas uma parte desta e sem qualquer esperança de socorro externo. Apesar disto todos tinham em mente que a vitória lhes favoreceria no final, pois eram homens de fé robustíssima e depositavam uma confiança sem limites em seu Senhor Jesus Cristo, de quem esperavam poderosa ajuda lá do Céu. Decidem enviar um emissário ao condestável real, para que venha com os seus homens, e outro até o rei.

Chegando no local onde estava o rei, em poucos instantes o mensageiro foi autorizado a entrar, fez uma genuflexão e beijou a  mão do rei dizendo:

- Senhor, sabei que sois dono de Córdoba!

- Que dizes, Ordoño? Dissestes Córdoba?

- Córdoba, meu senhor! Córdoba, que numa escuríssima noite escalamos as muralhas. Tomai e lei – disse, entregando-lhe a mensagem.

Lendo o documento, pôs-se de pé e mandou o mensageiro aguardar um instante. Vira-se para um dos cortesãos e diz:

- Mandai chamar todos os meus cavaleiros e dizei-lhes que se armem e encilhem seus cavalos.

Chamou outros e a cada uma dava uma ordem, esquecendo-se por completo da refeição que estava ainda sobre a mesa. Os cortesãos saíram apressadamente para cumprir as ordens. Assistindo a tudo estavam São Pedro Telmo, que havia sido convidado por São Fernando para ser seu confessor e lhe fazer companhia nas guerras. Estava com São Telmo um outro religioso, que lhe diz:

- Frei Pedro, “Irruit Domini spiritus in Rege..."[1]

São Pedro Telmo responde:

- Vamos com ele, Dom Lope...

Todo rei católico, na Idade Média, levava sacerdotes consigo em suas batalhas, a fim de celebrarem missas e levar os sacramentos aos soldados e combatentes, especialmente o da Confissão, da Comunhão e Unção dos Enfermos. De modo geral, só iniciavam o dia com uma Missa, ocasião em que comungavam, com o rei dando o exemplo. São Pedro Telmo e dom Lope acompanharam o exército de São Fernando III nessa empreitada guerreira.

O religioso, com espírito profético, percebia que o santo rei estava cheio do espírito de  Deus e que valia a pena pois segui-lo aonde fosse.

Uma hora depois aparecia o rei, fortemente armado e coberto de uma grande capa com capuz, e fica no pátio aguardando a chegada de seus cavaleiros.  Quando grande parte havia chegado, diz o rei:

- Sigam-me os amigos!

- Santiago e Castela! – respondem os cavaleiros.

Apesar da tempestade que caía, São Fernando, impaciente para ir ao combate, não esperou o restante de seus homens e partiu logo em direção de Córdoba.

A cidade não tinha uma boa guarda, pois os cavaleiros cristãos que haviam tomado o bairro de Ajarquia resistiam há um mês, sem que os muçulmanos conseguissem vencer e entrar no recinto. No meio de uma cidade inimiga e populosa, um punhado de cavaleiros resistiam até chegar seu rei e conquistá-la.

Quando São Fernando chegou a um acampamento próximo, grande foi a alegria dos acampados. O rei!  O rei! Ouviam-se gritos de todas as partes. A alegria dos homens era tão grande que se felicitavam uns aos outros, cantando e rindo com grande alvoroço.

Foi naquele acampamento que São Fernando conseguiu realmente descansar de tão fatigante viagem.

No outro dia, saiu o rei para estudar o terreno e planejar as operações militares e decide que, ele mesmo, seria o primeiro a tomar um castelo para ali instalar seu QG. Com uma intrepidez incrível foi ali instalado o Quartel General de São Fernando, tendo diante de si a cidade inimiga e pelas costas o exército do mouro Aben-Ilud.  Porém bem sabia ele que, enquanto na terra estava cercado de inimigos, pela frente e pelas costas, sobre sua cabeça se estendia a mão de Deus para ajudá-lo. E firme em seu posto, orava noite e dia, e era o primeiro a sofrer as privações e os trabalhos de guerra.

Após demorado cerco, um dia os habitantes de Córdoba concordaram em negociar a capitulação nas mesmas condições já tentadas antes, que era sair livres da cidade e com os bens que pudessem levar. Concedeu-as São Fernando, que era muito condescendente com os vencidos.

Ao receber as chaves da cidade das mãos do mouro o rei elevou os olhos ao céu e exclamou em voz alta:

- Louvor para sempre a Ti, Jesus Cristo, meu Senhor, que por tua grande misericórdia e os rogos da gloriosa Santa Maria, valestes deste servo e cavaleiro e por meio dos meus suores ganhastes para tua santa Lei esta cidade de Córdoba!

Na mesma tarde, Dom Juan de Osma e Dom Lope de Fitero entraram na mesquita a fim de purificá-la e consagrá-la como igreja e catedral cristã. São Fernando marcou para a semana seguinte uma entrada triunfal e festiva na cidade. A comitiva real foi recebida pelas autoridades religiosas em procissão, onde se faziam presentes todas as Ordens de cavalaria e os demais homens de seu séquito. Todos entraram na grandiosa mesquita com grande solenidade e pompa.

Algum tempo depois, foram encontrados numa mesquita os sinos que Almanzor havia mandado retirar de Compostela e ser trazidos para ali nos ombros de escravos cristãos. No mesmo instante, São Fernando se lembrou de uma promessa feita à Santa Maria, quando ainda era bem mais jovem, e determinou que aqueles sinos fossem colocados nos ombros de prisioneiros mouros para serem levados de volta a Compostela como sinal de reparação à afronta feita em tempos passados ao cristianismo.

Conquistar uma praça, e tão forte e importante como Córdoba, custava muito sangue e suor. As lágrimas das contrariedades ficaram para depois, quando se fazia necessário consolidar aquela conquista. Ali haviam muitas dificuldades a superar, mas a pior era convencer seus próprios homens a ficar administrando aquela cidade e adjacências. Os mouros, é verdade, abandonaram em grande número a cidade, mas por pouco tempo, pois muitos deles logo resolviam voltar. Um fato inusitado é que muitos se converteram ao cristianismo como fruto apostólico incansável do santo frei Telmo. Assim, duramente, as coisas foram se tornando mais fáceis de serem conduzidas.

Talvez a conquista de Córdoba se tivesse dado muito tempo depois, com muito mais sacrifício e martírio, se aquele punhado de heróis que tomaram no início o bairro de Ajarquia não tivessem tido a santa ousadia de partir sozinhos para a conquista, sem o conhecimento do rei porque tinham pressa.

 (O relato acima sobre São Fernando III, resumido e adaptado, foi extraído do livro “Nuestra Señora en el Arzon”, de C. Fernandez de Castro, A. C. J., publicada em 1948 pela Editora Escelicer, S.L., de Cádiz, Espanha).

 


[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.


 

 



[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.

 

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