SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 20 de dezembro de 2015

A ANUNCIAÇÃO DO ANJO A NOSSA SENHORA E A ENCARNAÇÃO DO VERBO



Plínio Corrêa de Oliveira 

Nossa Senhora colocada numa casinha pequena, modesta, limpíssima e colocada em inteira ordem. Ela no claustro, composto de umas pobres arcadazinhas [...] em certo ponto, no chão, um vaso ingênuo do qual sai um lírio reto como uma bengala e em cima, perpendicular, um lírio que abre a boca, ao coração, aos olhos... e que é símbolo da Virgem Maria. Ela sentada sobre um banquinho, com material de meditação [...] na mão; paz em volta; uma paliçadazinha assim também muito pobre, muito ingênua, muito novinha e muito bem conservada, que fecha a propriedade em relação aos vizinhos e que garante a solidão. Ela está lá e diante está um anjo.[...]
Há quatro mil anos, talvez mais, a humanidade esperava Aquele que deveria vir[...] Em virtude do pecado  original os homens estavam num caos e numa desordem medonha... Não só num caos e numa desordem, a pior das formas da desordem, que é a desordem organizada, como a do Império Romano, organizada ao revés, em que todos os princípios da ordem estão com as pernas para o ar e que constitui uma ordem. Não só assim estavam os povos pagãos, mas assim também estava o povo eleito. O povo judaico, o povo que tinha sido escolhido para a promessa, esse povo estava na maior decadência, e no maior afastamento de Deus Nosso Senhor. Na Terra nada mais se salvava.[...]
Uma Virgem pura, concebida Ela mesma sem pecado original, expressamente para essa missão, essa Virgem nascera de Santa Ana e de São Joaquim, e esta Virgem casada, virginalmente, com o esposo-virgem São José, meditava; e sabendo que a única solução era a vinda do Messias, que a única solução era que viesse o Redentor do gênero humano, o Salvador, Ela meditava, Ela lia a Bíblia, da qual Ela tinha uma inteligência maior do que jamais ninguém teve, e Ela via as promessas e Ela pensava a respeito do Messias.
Esta obra prima da sabedoria d’Ela, da virtude e do Amor de Deus d’Ela, essa sabedoria, apenas composta e quando Ela na paz de sua meditação acabava de dar o último traço para imaginar como Nosso Senhor Jesus Cristo seria... uma iluminação dentro do jardim! Aparece um anjo e lhe diz: "Ave Maria Cheia de Graça, Bendita Tu és entre as mulheres” [...]
Ela se perturbou e não sabia qual era essa saudação. O anjo, então explicou a Ela, [...] que Ela seria Mãe do Filho de Deus e que o Verbo de Deus, o Messias, nasceria d’Ela. Os Srs. podem imaginar o humílimo susto d’Ela. Ela que se julgava indigna de ser a escrava da Mãe do Messias e pedia a Deus que lhe desse a graça de conhecer a Mãe do Messias e servi-la, era um favor ao qual Ela aspirava, considerando esse favor arrojado; de repente recebe esse recado: Mãe do Messias? Serás Tu! Mais ainda, Mãe do Messias só, Não! Quem vai ser o pai desse Menino? A natureza humana Ele a receberá de Ti, ó Maria! Mas a união com Deus como é? Tu serás a Esposa do Espírito Santo![...] o Espírito Santo engendrará em Ti, divinamente, espiritualmente, Ele engendrará em Ti o Filho que vai nascer.
[...] é um tal cúmulo de graças, um tal cúmulo de favores, tanta generosidade, que é difícil calcular como Nossa Senhora se sentiu confundida naquele momento, mas ao mesmo tempo elevada, porque Ela era perfeita e vendo tais obras de Deus Ela não podia deixar de se alegrar enormemente, e vendo que Deus A escolhera para tais obras a gratidão d’Ela não tinha limites e o prazer de se sentir unida com Deus, a alegria de se sentir unida com Deus, devia ser maior na alma d’Ela do que todos os mares e todos os oceanos.
Entretanto, a resposta humílima. Com Deus não se discute: "Eis a Escrava do Senhor; faça-se em Mim segundo a  vossa palavra!" Quer dizer, Ela aceita, Deus manda n’Ela o que Deus quer que se faça. Ela não vai discutir que Ela não é digna; Ela não vai analisar-se a si mesma. Deus quer, é perfeito. Ali está Ela, faça-se! E nesse instante, um mistério divino, do qual nós não temos noção [...] o Espírito Santo ali, no claustro de Maria, gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo.
E desde o primeiro instante do ser em que esse primeiro elemento do Corpo d’Ele começou a existir, como Ele era perfeito – começou a existir, começou a pensar; começou a pensar, começou a orar – e conhecendo perfeitamente de que Mãe era Filho, Ele certamente disse a Ela uma palavra de amor. Os Srs. podem calcular qual foi essa primeira palavra de amor d’Ele para Nossa Senhora e qual foi a resposta de Nossa Senhora, sentindo esse carinho que Lhe vinha do Filho Deus... Como é que Ela disse a Ele? Ela disse: Meu Deus?... Ela disse: Meu filho?... Ela não teria dito: Filhinho?... Que riqueza de alma era preciso ter para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes! Que noção das situações! Que perfeita disponibilidade da alma para corresponder a tudo perfeitamente e oferecer a Ele esta primícia incomparável: o primeiro ato de amor que o gênero humano Lhe oferecia!
É muito bonito na vida de Nossa Senhora fazer-se a correlação entre as coisas. O primeiro ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele se encarnou e o último ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele morreu. Porque eu não tenho dúvida que Ele antes de morrer disse a Ela, ao menos com a Alma, alguma coisa que Ela entendeu e que era o ato de amor último que fechava o circuito desta vida, que era o ato de amor-rei por onde todo o amor que Ele tinha tido a Ela durante a vida inteira se condensava numa veneração e numa carícia suprema. Ela também. O primeiro ato de amor d’Ela, como terá sido? Como terá sido o último ato de amor d’Ela a este Filho que Ela viu morrer naquela situação tão trágica, tão terrível e que quanto mais sofredor, mais e mais, e mais e mais Ela amava? Ela não se teria lembrado naquele momento extremo e último do primeiro afago, da primeira troca de carícias? Ela não teria se lembrado como é Este que eles estão matando? Oh!... Oh!... Meu Adorado!... [...]
O Srs. podem imaginar o que isso representa de santidade e de união. Nós não temos, não podemos aprofundar isto, nem de longe, mas nem de longe![...] Quanto mistério! Quanta maravilha! Um segredo dentro do Segredo.
Mas se nós, numa pequena meditação pensamos tantas coisas a respeito disto, e nós não somos senão nós, eu pergunto: o que terá Ela pensado durante todo esse tempo?[...]
[...] no Céu aonde Nossa Senhora foi levada, não só em alma, mas em corpo e alma [...] nós veremos Nossa Senhora de perto... Os Srs. não teriam, depois desta reflexão, vontade de se aproximar d’Ela e imaginar que Ela no Seu Trono, tão junto do Trono do Divino filho, se debruça para saber o que os Srs. querem... Os Srs. já se imaginaram pessoalmente nessa situação? E um dos Srs. ou, talvez eu, fazer a Ela esta pergunta: "Minha Senhora, Minha Mãe, podeis me contar tudo o que meditastes desde o momento da Encarnação até ao momento do nascimento de Vosso Filho? Mas eu queria saber tudo, não queria que nada me ficasse ignoto, eu queria conhecer ponto por ponto e... Minha Mãe, perdoai meu atrevimento, mas eu queria contado por Vós mesma!"... Os Srs. podem imaginar o que seria Nossa Senhora, Régia, Magnífica, Bondosíssima, Melíflua como A chamou São Bernardo... - "Filho, começou assim..." Se assim se pudesse dizer, dez eternidades, cem eternidades, mil eternidades... para ouvir só isso... ó que maravilha! E talvez, se o número fosse conectável com o conceito de eternidade (não é conectável), mil eternidades não bastariam para nós sabermos tudo isto que Ela pensou só durante esse tempo; tudo quanto Ele disse a Ela; tudo quanto Ela respondeu; e todas as graças que Lhe deu; e todas as ações de graças d’Ela; e Ela que rezou por este e por aquele, e por aquele outro... Quem sabe se já ali Ela conheceu profeticamente a existência de todos nós e por todos nós rezou?! E que surpresa vendo-A contar, de repente: "e nesse passo, meu filho, eu rezei por ti".
Que alegria! Que comoção! Que agradecimento! E que cântico! Uma vez que é certo que no Céu saberemos todos cantar.


(Extraído de Conferência de 24 de Março de 1984, sem revisão do orador  -  Ver também revista “Dr. Plínio”, n. 108, de março de 2007  )




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