SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mosteiro de São Bento, da Bahia, lança site com 20 livros raros digitalizados

Acaba de ser divulgada uma boa notícia para o mundo da cultura: o Mosteiro de São Bento da Bahia vai disponibilizar um site, a partir do dia 4, de Livros Raros reunindo inicialmente 20 obras que fazem parte do acervo do mosteiro. Foram digitalizados livros do século XVII e XIX, restaurados e digitalizados em parceria com a Secretaria de Cultura da Bahia. Entre as raridades estão seis volumes dos Sermões do Padre Vieira. O projeto é de grande envergadura, pois prevê a melhoria e conservação de todo o acervo com quase 300 mil livros, um dos maiores do Brasil.
Os outros livros raros digitalizados são:
'Seleção de Questões Disputadas sobre a Metafísica e os Ensinamentos de Aristóteles' (1685)
'Theatro Crítico de Freijó' (1876), dedicado ao Sr. Infante de España Dom Carlos de Bourbon e Farnefio
'Colleção dos Breves Pontifícios', e 'Leys Regias', expedidos e publicados desde 1714
Na apresentação do Projeto, dentro do site, pode-se ver o texto abaixo:

Apresentação

O historiador britânico Peter Burke disse, certa vez, que para compreender a história é necessário saber mergulhar sob suas ondas. Por isso, para entender a dimensão da importância do conteúdo que doravante será disponibilizado neste site, deve-se voltar ao passado da nossa Arquiabadia. Uma história repleta de homens valorosos, impregnados de espírito evangélico.
Desde a Idade Média, a Biblioteca é um dos quatro pilares de uma Abadia Beneditina, de acordo com o bastante conhecido provérbio medieval: claustrum sine armario quase castrum sine armamentarium. (Mosteiro sem biblioteca é como quartel sem arsenal). Formam os outros pilares, a igreja, o capítulo e o claustro.
Nossa Biblioteca foi uma das primeiras constituídas no país. O fato é que a real história da Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia, com todos os seus meandros, intercursos e “ondas” está em eterna construção. Assim como é possível inferir acerca da sua gênese, também nos é permitido propor quando os livros começaram a compor nosso proto-acervo, muitos deles, como era comum, com a finalidade de uso pessoal.
Em 1582, chegaram a Salvador, vindos da Abadia de São Martinho de Tibães – no distrito de Braga, Portugal – Fr. Antônio Ventura e, junto com ele, vieram Fr. Pedro Ferraz, Fr. João Porcalho, Fr. Plácido da Esperança, Fr. Manoel de Mesquita, Fr. José, Fr. Francisco, Fr. João e Fr. Bento. Esquivando-nos do rigor historiográfico e confiando muito mais em nossa tradição, cremos que resta pouca dúvida não supor que esses varões não trouxeram consigo pelo menos dois livros: A Biblia e a Regra de São Bento – sem citar os missais e breviários. Isso porque, sem esses impressos, pouco poderiam fazer para realizar o culto divino e o estabelecimento da vida beneditina de terra ainda jovem.
No século XVIII – ainda pertencendo a Congregação Beneditina Portuguesa – esta Arquiabadia, assim como as Abadias do Rio de Janeiro e Olinda, passaram a ter os cursos de Teologia e Filosofia, seguindo o programa e estatutos da Universidade de Coimbra. Na Bahia, após o noviciado havia um curso de Humanidades, com duração de 2 anos. A grade curricular continha: Latim, Grego, Hebraico, História Universal e Antiguidades, Mitologia. Ao fim desta formação, seguiam-se três anos de Filosofia e mais quatro anos de Teologia. Para seguir o rigoroso plano de estudos de Coimbra, numa época em que ter livros próprios era algo para poucos e ainda menos para religiosos, a Biblioteca do Mosteiro da Bahia certamente foi enriquecida de obras que pudessem servir de “literatura básica” para essa formação. O reflexo dessa “era” pode ser claramente notado numa simples e rápida circulação entre as estantes da atual “Casa da Livraria” – para usarmos um sinônimo muito corrente à época.
A preocupação em aumentar e, principalmente, preservar o acervo bibliográfico de nossa Arquiabadia sempre foi, e continuará sendo, objeto de grande importância para os monges. Prova disto é a declaração de Dom Abade Majolo de Caigny, em meados de 1913, onde se lê: “aumentei nossa biblioteca, depois de tê-la melhorado, comprando todos os anos bom número de livros modernos; limpei e conservei os vetustos e quase carcomidos”. Mais de 90 anos depois, ainda com o empenho de salvaguardar esse precioso patrimônio bibliográfico, já no abaciado de Dom Arquiabade Emanuel d’Able do Amaral, sob os generosos auspícios da Fundação Odebrecht, foi inaugurada uma nova área para guarda dos livros e um moderno Laboratório de Conservação e Restauração de Papel.
Como fruto desse passado, a nossa Biblioteca de Livros Raros hoje possui cerca de 13.000 volumes, e os 20 livros que serão apresentados neste site fazem parte desse contexto. Um contexto histórico representado por momentos marcantes tanto para o Mosteiro como para história luso-brasileira; e de uma preocupação em preservar nosso patrimônio e compartilhar com a sociedade esse conhecimento.
Portanto, o Fundo de Cultura da Bahia, ao selecionar nosso projeto – dentre outros de igual quilate – conferiu apoio para que esse patrimônio continue em condições de chegar a outras gerações e às mãos dos pesquisadores nele interessados. Ademais, nos ajuda – como herdeiros – nesse honroso papel de guardiães desses livros.
Desta forma, gostaríamos de agradecer o apoio técnico em restauração da Fundação Casa de Rui Barbosa, nominalmente agradecemos a Profa. Dra. Maria Luiza Soares e aos especialistas Cristina Joly e Edmar Moraes Gonçalves. No âmbito da Biblioteconomia recorremos às orientações técnicas do Plano Nacional de Recuperação de Obras Raras (PLANOR). E, graças à generosa ajuda do Prof. Dr. Luiz Felipe Baêta Neves, graças à qual nos foi possível esclarecer alguns meandros Vieirianos para a descrição das obras restauradas.
Este projeto atingiu dois focos da preservação de acervos, isto é, a restauração dos livros proporcionou a conservação do suporte, e a digitalização promoveu a preservação do conteúdo informacional, o que a reboque, como que num ciclo “virtuoso”, preservará o próprio documento.
Ainda que tenhamos uma longa caminhada pela frente para dar as mesmas condições aos demais livros do acervo raro, essas 20 obras ora disponibilizadas representam de maneira simbólica – também em função da escolha dos títulos – nosso desejo de intensificar a disponibilização integral do acervo para consulta.
Que o amor e zelo pelos livros que herdamos de Nosso Pai São Bento continue a mover as gerações futuras de monges!

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