terça-feira, 5 de outubro de 2021

A CARNE, O MUNDO E O DEMÔNIO: INIMIGOS DE NOSSA ALMA

 



 São as três principais fontes dos pecados do homens, citados com freqüência nos Evangelhos e entre moralistas e santos católicos.  Vejamos a função de cada deles nas tentações.

 A CARNE

Primeiramente vamos considerar a “carne”, isto é, nossa natureza.  Entende-se por carne (no caso favorecedora dos pecados) as fraquezas humanas provenientes das más inclinações. Temos inclinações para o bem e para o mal, sendo que as de natureza maligna são mais fortes. Inclinações, tendências, facilidades de ceder aos impulsos da natureza. As tendências e inclinações para o bem exigem esforço e muita disciplina, enquanto as para o mal, não: basta às vezes se deixar levar, ficando indiferente ou mesmo fazendo concessões aos impulsos carnais. Para praticar o bem temos que desenvolver grande luta interior contra as más inclinações, enquanto que para o contrário basta cair gostosamente no gozo dos prazeres ou do orgulho próprio.

A maioria dos pecados nós cometemos cedendo a tais impulsos, dando azo a nossas más inclinações. O apetite sensual, por exemplo, é despertado ao vermos uma figura provocativa ou ouvirmos algo na mesma linha, mas ele é despertado quando interiormente nós cedemos aos impulsos sensitivos. Se reagimos e, sobretudo, pedimos o amparo da graça divina, o pecado pode ser evitado, a tentação morre por si mesma.

O maior exemplo de pecado oriundo de nossas más inclinações tivemos com o primeiro deles, cometido por Adão e Eva. No primeiro momento teve a participação do demônio, que tentou Eva não diretamente mas através da serpente. Talvez se aparecesse a ela tal qual ele é não teria obtido êxito. Eva pecou incentivada pelo instinto do orgulho, o desejo de se transformar numa deusa. A partir daí não há mais participação do demônio, mesmo sob a aparência de uma serpente, mas é a própria Eva que, sozinha, leva a tentação a Adão. E quem o faz cair é sua carne, quer dizer, a fraqueza de ceder ao orgulho de ser um deus, tal qual Eva havia cometido. De outro lado, pode-se dizer que o mundo também o influenciou, aquele mundo tão pequeno constituído apenas de um casal, mas que formando uma sociedade. A influência de Eva, representando o mundo, fez Adão cair. Mas, o demônio, desta vez não; pelo menos de uma forma direta.

 O MUNDO

O que é o mundo? Trata-se da sociedade em que vivemos e convivemos. A família, os vizinhos, a cidade e a nação em que nascemos e vivemos constituem o mundo nessa linguagem moral. E este mundo influencia poderosamente as pessoas, ou para o bem ou para o bem, sendo mais forte a influência para o mal. Assim, como nossas inclinações pessoais são mais fortes para a prática do mal, assim também os costumes vividos no chamado mundo. Se todas as pessoas deste mundo, desta sociedade, praticarem costumes sérios e castos, isso pode nos influenciar para a mesma prática. A honestidade, por exemplo, sendo vivida por todos será modelo para a prática desta virtude. No entanto, não é isso que ocorre na maioria das sociedades. As tendências naturais de todos, as inclinações pessoais, sendo propensas para a facilidade da prática do mal, no dia a dia torna-se uma prática comum e social.

Por causa disso a maioria das pessoas é levada a pecar por causa do mundo, por verem os outros fazerem aquilo com naturalidade. Trata-se, portanto, de um importante e poderoso impulso ao pecado.

 O DEMÔNIO

Por último vem o demônio.  Nem sempre é o demônio o incentivador do pecado, como muita gente pensa. A propósito, muitos santos dizem que o demônio mais tenta os que praticam as virtudes do que aqueles que levam uma vida pecaminosa. Isso porque os pecadores incorrigíveis já lhes possuem, estes não precisam ser tentados pelo demônio, basta o mundo e a carne. Quanto aos demais, que resistem ás más inclinações da natureza (carne) e aos costumes sociais (o mundo) são mais visados diretamente pelo próprio demônio.

Como o demônio é anjo, e tem inteligência superior à nossa, ele age com cautela e de uma forma sutil a fim de não despertar suspeitas. Deixa que o mundo e a carne façam o seu papel, só intervindo diretamente quando ver que os outros meios não tiveram êxito. E nesse caso passa a agir apenas inspirando à nossa mente, primeiramente, a idéia do pecado e, posteriormente, usando de artifícios externos provenientes do mundo. À vezes fica até difícil caracterizar uma tentação como tendo sido proveniente só do demônio. De modo geral, quando elas não nascem no próprio interior da pessoa, elas provêm de um nosso semelhante ou de vários fatores existentes nos lugares em que estamos, sendo que a parte do demônio pode ser apenas de sugestões, de inspirações ou de maquinações muitos sutis.

Há casos em que as tentações são diretamente deles, mas é mais raro e só ocorrem quando a pessoa já está em fase adiantada de ascese cristã.

 O PECADO SOCIAL

É preciso notar que é mais proveitoso para o demônio criar um clima social que estimule a vida pecaminosa em seus habitante do que investir pessoalmente em cada indivíduo.  Nesse sentido, ele prima por espalhar o que se chama “pecado social”, pecado coletivo, praticado em comum por uma sociedade humana. Um exemplo é o liberalismo. A idéia de que a liberdade é plena, deve ser total, concedido ao bem e ao mal, pode ser aceita e convivida em toda uma sociedade. Isso se constitui num pecado social, aceito por todos, que permite enganar-se todos e praticar o mal como se fosse coisa permissível. Outro exemplo é o relativismo, forma de pensar que julga tudo relativo, não há verdades eternas e estáveis, e assim considera tanto o bem quanto o mal como coisas passageiras, podendo ser praticados ou não conforme o queira a liberdade de cada um. Liberalismo e relativismo constituem, pois, os dois maiores pecados sociais. Tão abomináveis que podem criar clima favorável à expansão do “corpo místico do demônio”, uma sociedade de homens maus que, cientes ou não de suas culpas, participam de uma organização preternatural, nutrida pelo demônio, que age na sociedade para implementar o culto satânico através deste maldito corpo místico. Quem pratica o pecado social teve ficar bem atento ao fato de estar alimento o corpo místico do demônio.

De algum modo a atuação do demônio, da carne e do mundo pode ser representada na explicação que Nosso Senhor Jesus Cristo dá sobre a parábola do joio:

“Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.  (Mt 13, 36-43).

Quer dizer, o mundo é o campo onde se semeia a boa semente, mas também o joio. O inimigo que é o demônio, no caso faz o papel de quem semeia o joio, portanto, trata-se de alguém que procura agir no mundo por via indireta a fim de que a boa semente se transforme e produza frutos ruins, que são os pecados.


sábado, 2 de outubro de 2021

COMO A ÁGUA É VISTA NAS SAGRADAS ESCRITURAS

 


                        (Nas Bodas de Caná a água foi transformada em vinho)

Nas Sagradas Escrituras a água é citada desde o Gênesis, na criação do mundo, com menção em todas as fontes, mares e rios: “...e o espírito de Deus era levado por cima das águas”...; “Faça-se o firmamento no meio das águas, das que estavam por baixo do firmamento, das que estavam por cima do firmamento”...; “As águas que estão debaixo do céu, ajuntem-se no mesmo lugar, e elemento árido apareça. E assim se fez. E chamou Deus ao elemento árido terra, e ao agregado das águas mares” (Gen 1, 2-10). Pela narrativa vê-se que o elemento primordial na Criação, entre nós, foi a água, coisa cientificamente comprovada.

 

Maldições pelas águas:

 

“Moisés e Aarão fizeram como o Senhor tinha ordenado. E Aarão levantou a sua vara e feriu as águas do rio na presença do faraó; e dos seus servos; e toda a água do rio transformou-se em sangue”. (Ex 7, 20)

“Por isso mesmo que este povo rejeitou as águas de Siloé, que correm em silêncio, e quis antes acostar-se ao partido de Rasin, e ao do filho de Romélia: por este motivo eis que o Senhor fará sobre eles vir as águas impetuosas e abundantes, ao rei dos assírios, e todo o seu poder: e subirá sobre ele todos os seus ribeiros, e correrá por cima de todas as suas margens. E se espraiará por Judá inundando-a, e indo assim passando, lhe chegará até o pescoço. E a extensão de suas asas encherá a largura da tua terra, ó Emanuel”  (Is 8. 6-8). Rasin foi um rei da Síria (século VIII a.C) que invadiu o reino de Judá (IV Rs 15,16; II Par 28,5) e cercou Acaz, em Jerusalém. Foi morto pelo rei da Assíria, Teflatfalasar.

 

“E se irá extinguindo a água do mar, e o rio minguará, e se secará. E as ribeiras se esgotarão: as levadas por entre açudes diminuirão e se secarão: as canas e os juncos murcharão: o álveo dos regatos ficará descoberto desde o seu olheiro, e toda sementeira de regadio se secará, ir-se-á murchando, e não vingará. E entristecer-se-ão os pescadores e chorarão todos os que lançam anzol ao rio, e desmaiarão os que estendem redes sobre a tona d’água. Confundidos serão os que trabalham em linho, frisando  e tecendo finas teias. E ficarão as suas terras de regadio assim fracas: todos os que faziam lagoas para apanhar peixes” (Is 19, 5-10).

 

Há uma expressão usada na Bíblia, chamada de “água da aflição” ou “água da angústia” que é usada para caracterizar um castigo semelhante ao que passa fome e sede: “Metei este homem na cadeia e sustentai-o com o pão de tribulação, e água de angústia, até que volte a paz”  (III Rs 22, 27 e II Par 18, 26).

 

A respeito do adultério, Moisés aprovou o seguinte procedimento legal:

“O sacerdote pois a oferecerá, e a apresentará diante do Senhor. E tomando da água santa num vaso de barro, lançará nela um pouco de terra do pavimento do tabernáculo. E tanto que a mulher se apresentar diante do Senhor, o sacerdote lhe descobrirá a cabeça, e lhe porá nas mãos o sacrifício de reconciliação, e a oferta de zelos: e ele mesmo terá as águas amaríssimas, sobre que pronunciou as maldições com execração: e a esconjurará, e lhe dirá: Se um homem estranho não dormiu contigo, e tu te não manchaste, largando o leito de teu marido, não te farão mal estas águas amaríssimas, sobre que eu lancei as maldições. Mas se tu te apartaste de teu marido, e te manchaste, e te deitaste com outro homem: cairão sobre ti estas maldições: o Senhor faça te faça um objeto de maldição, e um exemplo para todo o seu povo: Ele faça que apodreça a tua coxa, e que o teu ventre inchado arrebente. Estas águas de maldição entrem no teu ventre, e inchando-te o útero, apodreça a tua coxa.” (Num 5, 16-22). Tal ocorreria apenas se a mulher fosse culpada, pois se fosse inocente não sentiria a amargura da água.

 

As bênçãos, muitas vezes, são dadas através das águas:

 

“Tendo Moisés pois estendido a sua mão sobre o mar, o Senhor lhe dividiu as águas fazendo que toda a noite assoprasse um vento veemente, abrasador, que lhe secou o fundo. Estando a água assim dividida, entraram os filhos de Israel pelo meio do mar seco, pela direita e esquerda a água que lhes servia como um muro”. (Ex 14, 21-22).

 

“E sentindo grande sede, clamou ao Senhor, e disse: Tu foste o que salvaste o teu servo e o que lhe deste esta grande vitória: eis agora morro eu de sede, e cairei nas mãos dos incircuncidados. Abriu pois o Senhor um dos dentes molares na queixada do jumento, e saíram dele águas. E bebendo delas Sansão recobrou alento e recuperou as forças. Por isso foi àquele lugar chamado até o dia de hoje fonte do que invoca da Queixada”  (Jz 15, 18-19).

“Tão saborosa é a água fria à alma que tem sede como é uma boa nova que vem de um país remoto” (Provérbios 25, 25).

 

“Assim como na água resplandece o rosto dos que estão se vendo nela, assim os corações dos homens são descobertos aos prudentes” (Provérbios 27, 19).

“E dar-se-á chuva para o teu grão, onde quer que o semeares na terra: e o pão dos frutos da terra será abundantíssimo e pingue: naquele dia será o cordeiro apascentado em espaçosa extensão na tua herdade. E os teus touros, e jumentinhos, que lavram a terra, comerão toda a mistura de grãos como eles foram padejados na eira.  E sobre todo o monte alto, e sobre todo o outeiro elevado haverá arroios d’águas correntes no dia da mortandade de muitos, quando caírem as torres. (Is 30, 23-26).

 

“Porque eu derramarei águas sobre a terra sequiosa, e rios sobre a seca; derramarei o meu espírito sobre a tua posteridade, e a minha bênção sobre a tua descendência” (Is 44, 3).

 

“E todo o que der a beber a um daqueles pequeninos um copo d’água fria, só pela razão de ser meu discípulo, na verdade vos digo, que não perderá a sua recompensa”(Mt 10, 42).

 

“Em verdade, em verdade, te digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus”(Jo 3, 5).

 

A purificação pela água

 

São João Batista não foi o primeiro “Eu vos batizo em água para vos trazer à penitência” (Mt 3, 11), pois já havia o costume há muitos anos entre o povo eleito da purificação pela água, o que motivou, por exemplo, esta bênção de Ezequiel:

“E derramarei sobre vós uma água pura, e vós sereis purificados de todas as vossas imundícies, e eu vos purificarei de todos os vossos ídolos”. (Ez 36, 25).

No Cântico dos Cânticos, referindo-se a Nossa Senhora, chamada ali de “Jardim Fechado” e “Fonte Selada”, a produção é abundante: “As tuas produções são um jardim de romãs com frutos de macieiras. Chipres com o nardo, o nardo e o açafrão, a cana aromática e o cinamomo com todas as árvores do Líbano, a mirra e o aloés com todos os bálsamos da primeira estimação.  A fonte dos jardins: o poço das águas vivas que com ímpeto correm do Líbano” (Cânt 4, 13-15)

 

O pior dos males é a falta de água:

 

“... e não puderam beber das águas de Mara, porque eram amargas...” (Ex 15, 23); “...tu ferirás a pedra, e dela sairá água, para que o povo tenha donde beber” (Ex 17, 6).

“Disseram também a Eliseu os habitantes desta cidade: a habitação desta cidade é muito cômoda, como tu mesmo , senhor, vês: mas as águas são péssimas, e a terra estéril. E ele respondeu: Trazei-me um vaso novo, e deitai-lhe sal. Como lho tivessem trazido, saiu ele à fonte das águas, e deitou sal nela, e disse: Eis aqui o que diz o Senhor: Eu sarei estas águas, e elas não causarão mais nem morte, nem esterilidade. Tornaram-se pois sadias as águas até ao dia de hoje conforme a palavra que disse Eliseu”  (IV Rs 2, 19-22)

“Os magnates enviaram os seus inferiores por água: foram a tirá-la, não acharam água, voltaram com os seus cântaros vazios: confundiram-se e afligiram-se e cobriram as suas cabeças. Pela desolação da terra, porque não veio chuva sobre a terra, se confundiram os lavradores, cobriram as suas cabeças”. (Jer 14, 3-4). “... e a terceira parte das águas se converteu em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque elas se tornaram amargas.”(Apoc 8, 11).

 

Águas da contradição:

 

Nome dado para lembrar o lugar onde o povo eleito se revoltou e murmurou contra Deus, após Moisés haver batido com o cajado no rochedo e a água não haver brotado de imediato: “Esta é a água da contradição, onde os filhos de Israel murmuraram contra o Senhor, e onde o Senhor foi santificado no meio deles” (Num 20, 13). Por causa disso, tanto Moisés quanto os “anciãos do povo” não entraram na terra prometida, mas morreram todos antes: “...porque vós prevaricastes contra mim no meio dos filhos de Israel nas águas da contradição em Cades, do deserto de Sin: e não me santificastes entre os filhos de Israel. Tu verás defronte de ti a terra que eu hei de dar aos filhos de Israel, e não entrarás nela”  (Dt 32, 51). Quando Deus diz assim “tu verás diante de ti a terra que eu hei de dar...”, significa que era fácil identificar a terra prometida antes de entrar nela, talvez pela exuberância e riqueza de seu solo, como havia sido dito em várias passagens anteriores da Sagrada Escritura.

Mulheres vão em busca de água:

 

Em geral eram as mulheres, e não os homens, que buscavam água pra beber nas fontes. São Marcos dá ênfase ao fato de Jesus haver dito que um homem levaria água para a Santa Ceia: “... e lá vos sairá ao encontro um homem que levará uma bilha de água: ide atrás dele...” (Mc 14, 13), pois isso não era comum, mas não indica que ele tinha ido á fonte pegar aquela água ou se a trazia de sua casa. O costume era que as mulheres fossem ás fontes buscar água, como narra o episódio da Samaritana (Jo 4, 7-8): “Veio uma mulher de Samaria a tirar água...”

 

Deus é fonte de água viva:

 

“Porque dois males fez o meu povo: Deixaram-me , fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter as águas” (Jer 2, 13).

“Senhor, tu és a esperança de Israel! Todos os que te deixam, serão confundidos: os que se apartam de ti, serão escritos sobre a terra: porque deixaram o Senhor, que é a fonte das águas vivas” (Jer 17, 13).

 

“Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber: tu certamente lhe pedirás, e ele te daria a ti da água viva” (Jo 10, 11).

“Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sede; mas o que beber da água que eu lhe dar, nunca jamais terá sede.  Mas a água que eu lhe der virá a ser nele uma fonte de água, que salte para a vida eterna”  (Jo 4, 13-14).

"Se alguém tem sede, venha a mim e beba. O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios de água viva". (Jo 7, 38).  “...porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará, e os levará às fontes das águas da vida, e enxugará Deus toda a lágrima dos olhos deles” (Apoc 7, 17).

“De Vós tem sede a minha alma, por Vós desfalece a minha carne; Como a terra árida, esgotada e sem água”(Sl 62, 2).

 

“Eis aqui vêm os dias, diz o Senhor: e enviarei fome sobre a terra: não a fome de pão, nem a sede de água, mas de ouvir a palavra do Senhor. Eles se comoverão desde um mar até outro mar, e desde o aquilão até ao oriente, eles andarão por toda a parte buscando a palavra do Senhor, e não a acharão”(Am 8, 11-12).

 

Água batismal  

 

É a água benta solenemente no Sábado Santo e na vigília de Pentecostes, em todas as igrejas que tenham pia batismal, consistindo numa série de orações , cantos e bênçãos,  incluindo a imersão do círio pascal e a mistura da água com os óleos santos abençoados pelos bispos em todas as catedrais na Quinta-Feira Santa. Há no Ritual uma fórmula abreviada para essa bênção quando feita fora dos dias assinalados.

 

Água Benta  

 

Trata-se da água benta pelo celebrante durante os ofícios do Sábado Santo, ou quando for necessário, de preferência antes da missa principal aos domingos. Tem sido usada na Igreja desde o século IV, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Usa-se também como sacramental antes da Missa dominical de preceito; ao entrar e sair da igreja e em quase todas as bênçãos de pessoas, lugares e objetos de uso pessoal ou coletivo. A Igreja usa também a água benta como exorcismo, em nome da Santíssima Trindade, subtraindo-a ao poder do demônio e invoca sobre ela o poder para lançar fora ou dominar, pela presença do Espírito Santo, a influência dos demônios. Mistura-se também com a água benta o sal exorcizado para significar a preservação do pecado. O uso piedoso da água benta, como os demais sacramentais, traz benefícios aos que a usam, quer pela bênção da Igreja, quer pela fé e piedade que inspira.

 

Para que serve a água benta?

 

Há várias formas de usá-la. A mais comum é persignar-se com ela. Outra é aspergi-la sobre si mesmo, sobre outras pessoas, lugares ou objetos. Qualquer leigo ou leiga pode fazer isto. Naturalmente, quando feito por um sacerdote tem mais peso.Seu efeito mais importante é afastar o demônio. Este “ronda em torno de nós como o leão que ruge”, procurando fazer- nos toda espécie de mal, como nos adverte São Pedro (I Ped 5,8). Os espíritos malignos, cujas misteriosas e sinistras operações afetam às vezes até as atividades físicas do homem, querem, antes de tudo, induzir-nos ao pecado grave, que conduz ao inferno. Para isto empregam todos os recursos. Às vezes, por exemplo, provocam em nós um sem número de incômodos físicos ou psicológicos.

Outras vezes provocam pequenos incidentes, em nosso dia-a-dia, criam atrapalhações que parecem ter causas meramente naturais.Por exemplo, na hora de cumprir um dever, a pessoa sente um inexplicável mal-estar, um inesperado desânimo, uma estranha dor de cabeça… Em certas oportunidades, sem qualquer motivo, o marido fica repentinamente irritado contra a esposa, ou vice-versa, daí surge uma discussão e se quebra a paz do lar. Ou, então, o pai ou a mãe deixa-se levar por um movimento de impaciência e repreende duramente o filho, em vez de admoestá-lo com doçura. O filho se revolta, sai de casa. Está criado um problema! Tudo isso pode ser evitado afugentando o demônio com um simples sinal-da-cruz, feito com água benta. Quando você sentir uma irritação estranha, faça essa experiência, e preste atenção no efeito salutar que produz! Logo lhe voltará a serenidade.

 

Além do mais, a água benta é um sacramental que nos alcança o perdão dos pecados veniais, pode livrar-nos de acidentes (trânsito, assaltos, quedas), e ajuda até a curar doenças. O conhecido livro “Tesouro de Exemplos” conta que uma criança gravemente enferma ficou imediatamente curada ao receber a bênção de São João Crisóstomo com água benta.A água benta, como todo sacramental, leva-nos a invocar, nas diversas circunstâncias do dia, o socorro do Divino Espírito Santo, para o bem de nossa alma e de nosso corpo.

 

Outro benefício muito interessante e pouco conhecido: ela pode ser usada eficazmente em proveito de pessoas que se acham distantes de nós. E mais, cada vez que a utilizamos para fazer o sinal-da-cruz, na intenção das almas do purgatório, elas são aliviadas dos seus sofrimentos.

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O DESCANSO DIVINO

Descanso – No Gênesis está escrito que Deus ao concluir o Universo, descansou (Gên 2, 3). Quer dizer, foi dormir? Não, vendo que sua obra era boa passou a desfrutá-la, gozar dela. Na linguagem corriqueira descansar é livrar-se do cansaço, da fadiga do trabalho, etc, ou então, deixar de ter preocupações, esquecer-se dos problemas e repousar a mente e o pensamento, obter tranqüilidade. Também quando a pessoa morre diz que “descansou no Senhor” ou obteve o “descanso eterno”. Há, contudo, um sentido mais profundo, o qual explica o que diz o Gênesis ao falar do “descanso” divino. São Paulo condena acerbamente os hebreus porque não ouviram as palavras divinas e, por isso, perderam o direito do “descanso”: Para penetrar no Significado de “descanso”, precisamos fazer as seguintes indagações: o que é o verdadeiro descanso? Em que lugar se descansa? O lugar melhor para o descanso são as moradas, ou as interiores ou as celestes; e o verdadeiro descanso é a paz de espírito. Disse o Apóstolo: “Temamos, pois que, desprezando a promessa (de Deus) de entrar no seu descanso, haja algum dentre vós que dele seja excluído. Da mesma forma que eles (israelitas), também nós recebemos a boa nova; porém a palavra que eles ouviram, não lhes aproveitou, por não ser acompanhada da fé por parte daqueles que a tinham ouvido. Porém, nós, que cremos, entraremos no descanso (do céu), segundo disse: “Como jurei na minha ira, não entrarão no meu descanso”; e com certeza, concluídas as suas obras depois da criação do mundo. Com efeito, em certo lugar falou assim do sétimo dia: “E Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras”. E outra vez: “Não entrarão no meu descanso”. Como, pois, resta que alguns entrem nele, e que aqueles, a quem primeiro foi anunciada a boa nova, não entraram por causa de sua incredulidade, fixa de novo certo dia falando de hoje, dizendo por meio de Davi, tanto tempo depois, como acima foi dito: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações”. De fato, se Josué lhes tivesse dado o descanso, (Deus) não falaria, depois disso, de outro dia. Resta portanto um sabatismo para o povo de Deus. Realmente aquele que entrou no seu descanso, também descansou das suas obras, como Deus das suas” (Heb 4, 1-10). São Paulo refere-se ao Salmo 94-8 e 11, quando disse “Hoje, dizendo por meio de Davi”, que reza assim: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações”; e “Não conheceram os meus caminhos; pelo que jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso”. Continua São Paulo: “Apressemo-nos, pois, a entrar naquele descanso, para que ninguém caia em tal exemplo de incredulidade. Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura invisível na sua presença mas todas as coisas estão a nu e a descoberto, aos olhos daquele de quem falamos” (Heb 4, 11-13). Entrar no descanso de Deus, enquanto estamos vivos, Significa simplesmente penetrar nas moradas interiores. Para tanto, basta ouvir a Palavra de Deus, que, no caso, pode ser manifestada de várias formas, sendo a mais importante aquela que ressoa no interior de nossos corações. É tão forte esta palavra que São Paulo diz que é mais cortante do que uma espada de dois gumes, chegando até àquele lugar da “separação da alma e do espírito”, quer dizer, a região interior do homem que une corpo e alma, onde encontram-se alguns atributos como a “luz primordial”, a “luz do entendimento” , o “sacrário da alma”, o “templo de Deus”, etc.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

AGAR, ESCRAVA DE SARA, DEIXOU DESCENDENTES?

A Sagrada Escritura faz suas revelações colocando em destaque sempre os Patriarcas. Eva só é importante enquanto companheira do Patriarca Adão. Depois de Eva, por muito tempo não se fala senão nos homens ou patriarcas. Adão e Eva tiveram muitas filhas, mas na Bíblia só se fala em Caim e Abel. Quando Caim se casou se registra o fato assim: “E Caim conheceu sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Henoc”. Quem era esta mulher de Caim? Evidentemente que era uma filha de Adão, merecendo portanto ser pelo menos nominada, mas não se sabe quem foi. Importante é Caim, é Set, é Henoc, porque eram patriarcas. A Sagrada Escritura começa a falar de mulheres para registrar o surgimento da poligamia: “E este tomou duas mulheres, uma chamada Ada, e outra Sela” (Gn 4, 17-19). Mas logo em seguida os filhos masculinos de Ada são citados, Jabel e Jubal, assim como o de Sela, Tubalcain, ao lado de sua irmã Noema. Jabel era designado como um dos que “habitava sob tendas e dos pastores”, Jubal foi o mestre, o pai, dos que tocam cítara e órgão, Tubalcain era artífice em toda qualidade de obras de cobre e de ferro, mas de Noema nada se fala. Ela poderia ter sido, por exemplo, exímia na arte de tecer, mas nada se diz. Em seguida a Sagrada Escritura fala de Set, filho de Adão. Depois, dentre os filhos de Set fala-se apenas de Enós, por que este “começou a invocar o nome do Senhor”. E toda a genealogia de Adão segue assim: gerou filhos e filhas, mas depois de Set aparece apenas citado o nome de Enós, que gerou Cainan, que gerou Malaleel, que gerou Jared, que gerou Henoc, que gerou Matusalém, etc. Henoc também gerou filhos e filhas, mas apenas os filhos são citados. Matusalém gerou Lamec, que gerou Noé. Todos estes patriarcas viveram trezentos, quatrocentos, quinhentos ou até novecentos anos, e geraram filhos e filhas. Mas apenas seus nomes são citados. Por que? Porque eles eram os patriarcas, eram os chefes das clãs, os principais - os demais, dentre os quais as mulheres, não tinham tanta importância para serem citados ou lembrados. Inicialmente, a mulher foi citada como a grande vencedora da serpente: "Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela, e ela te pisará a cabeça com seu calcanhar" (Gên 3-15). Os teólogos vêm no texto uma clara alusão à Maria Santíssima, Mãe do Salvador. Depois, as mulheres começaram a ser referidas de uma forma coletiva (sem citar nomes) nas ocasiões em que causavam a perdição dos homens. Foi assim que “tendo os homens começado a multiplicar-se sobre a terra, e tendo gerado filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram por suas mulheres...” Na Sagrada Escritura, alguns interpretam que “filhos de Deus” eram aqueles que viviam santamente, os descendentes de Set, mas o próprio Santo Agostinho interpreta o termo "filhos de Deus" como sendo os anjos. A interpretação de Santo Agostinho é corretíssima, pois não haveria motivos para a Bíblia se referir aos "filhos de Deus" como sendo os homens, porquanto era comum os homens tomarem as mulheres para si. Embora não possa se descartar a idéia de se chamar os homens bons também de “filhos de Deus”, que realmente eles o são. Pelo texto se entende, então, que alguns anjos tomaram algumas das filhas dos homens como mulheres. E como se trata de uma ação maléfica, se depreende que tais anjos eram os demônios. De outro lado, as chamadas “filhas dos homens” eram as que praticavam o pecado, as descendentes de Caim. A coisa chegou a tal ponto que geraram gigantes entre eles, “homens possantes e desde há muito afamados” (Gên 6, 4). A decadência era tamanha que Deus resolveu acabar com a humanidade e mandou o dilúvio. Em atenção à Noé, Patriarca puro e fiel a Deus, foi preservada a sua posteridade e dado continuidade ao povoamento da terra pelos homens. Quando tinha quinhentos anos, Noé teve seus filhos. Quais eram os filhos de Noé? Sem, Cam e Jafet. Na hora de entrar na arca, entraram também as mulheres de Noé e dos filhos, mas quem eram elas? Não se sabe, pois seus nomes não são citados. Após o dilúvio, saíram todos da Arca e está escrito: “Estes são os três filhos de Noé, e por eles se propagou todo o gênero humano sobre a terra”. (Gn 9, 10). Se propagou como? A Sagrada Escritura não fala mais sobre as mulheres dos filhos de Noé nem de outras pessoas. A partir daí se começa a descrever toda a genealogia patriarcal da posteridade de Noé. Dois foram, portanto, os principais patriarcas da Humanidade, Adão e Noé, mas seus descendentes citados na Bíblia eram somente patriarcas das épocas em que viveram. Vieram depois os patriarcas do povo eleito, que veremos a seguir. AGAR – Escrava de Sara, esposa de Abraão. Como Sara era estéril a entregou a Abraão para com ela ter filho, segundo costumes daqueles tempos. Dela nasceu o primeiro filho de Abraão, Ismael, o patriarca que deu origem aos ismaelitas, atuais árabes. Como Sara a tratasse mal resolveu fugir para o deserto. Estando lá lhe apareceu um Anjo e lhe ordenou que voltasse para a companhia de sua antiga patroa (Gen 16, 1-16), indicando que a submissão pela escravidão não era condenada por Deus. Depois que nasceu o filho legítimo de Abraão com Sara (Isaac), esta pediu ao patriarca para expulsar Agar e Ismael de sua companhia. Novamente foram para o deserto, onde foram amparados por Deus. São Paulo se refere a Agar como figurando o Antigo Testamento e Sara o Novo (Gál. 4, 24), o filho da escravidão e o filho legítimo. Agarenos – Tribo de nômades árabes, descendentes de Ismael, filho de Agar. Por suas guerras contra atribo de Rubem deviam viver na antiga Transjordânia (I Par 5, 10). Foram vencidos e submetidos pelos israelitas no tempo do rei Saul (I Par 5, 18 e ss). A Wikipédia assim define o termo: Agarenos ou Hagarenos (em grego: Ἀγαρηνοί; transl.: Agarenoi; em siríaco: ܗܓܪܝܐ‎ ou ܡܗܓܪܝܐ; transl.: Hagráyé ou Mhaggráyé é um termo amplamente usado por fontes primitivas siríacas, gregas, coptas e armênias para se referirem aos primeiros conquistadores árabes da Mesopotâmia, Síria e Egito. O nome foi usado na literatura judaico-cristã e em crónicas bizantinas aplicado primeiro aos árabes Hanif[a] e posteriormente às forças islâmicas como sinônimo de sarracenos. O termo siríaco Hagraye pode ser traduzido como "os seguidores ou descendentes de Agar, enquanto Mhaggraye está provavelmente relacionado com o termo árabe Muhajir (primeiros seguidores de Maomé). Alguns estudiosos pensam que os termos podem não ter origem judaico-cristã. Patricia Crone e Michael Cook defendem no seu livro "Hagarism: The Making of the Islamic World" que o termo foi introduzido pelos próprios muçulmanos para descreverem o seu avanço militar para o Levante e Jerusalém em particular, como uma Hijra. O termo ismaelita, que usualmente designa especificamente um ramo do Xiismo é por vezes usado como sinônimo de agareno. Agareno pode ainda designar qualquer muçulmano. Um exemplo disso pode eventualmente ser Ahryani (Aхряни), uma designação para os búlgaros muçulmanos usada em búlgaro coloquial; no entanto a origem deste termo tem também sido explicado como resultado do paralelismo existente entre a expansão do Islão nos Balcãs com o Arianismo antitrinitário.[carece de fontes. Importante notar que os muçulmanos introduziram várias denominações em seus conceitos e na sua história a fim de justificar tratar-se de uma religião monoteísta, como serem descendentes de Abraão, etc., No entanto, a linha patriarcal naqueles tempos era tirada do ramo masculino e não feminino, trata-se de descendentes do Patriarca Abraão, que gerou em Agar o filho Ismael. Da mesma forma passaram chamar Deus pelo nome de Alá, pois trata-se que este era apenas um dos deuses antigos adorados pelo politeísmo em Meca e Medina. Talvez nisso esteja incluído o comentário feito pelos autores acima, Patrícia Crone e Michal Cook, sobre a origem do termo Agareno.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

SÃO CIPRIANO, CHEFE DE UMA SEITA?

Hoje, 16 de setembro, festa de São Cipriano, reproduzimos atual artigo da Gaudium Press sobre este mártir, publicado dois anos atrás: Redação (Quinta-feira, 19-09-2019, Gaudium Press) Comemoramos há poucos dias (16 de setembro) o glorioso martírio do bispo de Cartago S. Cipriano (210-258), "admirável pela sua santidade e doutrina, que dirigiu excelentemente a Igreja em tempos muito adversos", verdadeiro Arauto do Evangelho, como nos lembra o Martirológio; mas brutalmente assassinado com menos de 50 anos. Começou a perseguição religiosa no Brasil Por pregar o Evangelho foi condenado A "Liturgia das Horas" - que todo religioso e todo clérigo devemos rezar quotidianamente, "em união com as divinas intenções de Cristo", quando Ele esteve na terra, como diz belamente a oração introdutória - apresentou-nos para meditação as atas judiciais de sua condenaçao. E chama a atenção que foi ele conduzido ao carrasco sob a acusação de ser "chefe de uma seita". A atualidade do santo africano, do que então eram "as periferias do mundo civilizado", chama a atenção. Devemos declarar que em razão dos inúmeros anos de estudos em Roma, empregamos até hoje a tradução da conferência episcopal italiana, e as versões em diversas línguas reportam de modo diverso o texto latino: "papam te sacrilege mentis hominibusprebuisti". Os escritos do santo africano, suas palavras, seu exemplo, ultrapassaram a provinciana cidade de Cartago, para ecoar em todo o orbe, e principalmente em Roma, sede do papado e do império. Mas o ódio contra a sua ortodoxia e fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo, fez que quando o imperador Valério decretou que "os bispos, os padres e os diáconos sejam executados" no instante de sua apreensão, acrescentou uma ordem pessoal de captura e imediata condena a morte contra o santo cartaginês, como ele mesmo testemunha numa de suas derradeiras cartas (A Sucessus, n. 80). Tal era a fama de santidade de que gozava em vida. Santos há na História da Igreja que muitas vezes são objeto, mesmo antes de se encontrar com Deus, de veneração e respeito, amor e admiração pelos católicos; e ódio da parte dos que não querem ver praticada aquela lei do amor que Jesus nos ensinou: "não cometerás adultério, não cometerás homicídio, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honrarás pai e mãe..." (Lc 18, 20). O arauto do Evangelho chefe de uma seita - Acusação Assim, Cipriano foi aprisionado e levado diante do procônsulGalério, quem quis fazer uma ridícula encenação. "És tu quem te apresentas aos homens como papa dessa seita sacrílega?", perguntou o magistrado. "Sou eu!" respondeu o santo bispo, com a sobranceria de um verdadeiro filho de Nosso Senhor Jesus Cristo; como outrora nosso Divino Mestre aos algozes no Horto: "Eu sou" (Jo 18, 5). "Pensa bem..." respondeu o juiz, mas apenas ouviu por resposta: "Em assunto tão simples não há lugar para hesitações". Assim, foi logo lavrada a sentença iníqua: "reuniste a teu redor grupos de criminosos... és o instigador e porta-voz de ações altamente repreensíveis... teu sangue será derramado conforme à lei!". Na paz do verdadeiro mártir, o bispo respondeu: "Sejam dadas graças a Deus!". O povo queria ser decapitado com ele Então originou-se um tumulto entre o povo: "Queremos ser decapitados junto com ele!" gritavam os católicos, as virgens e as viúvas, os pais de família e as crianças. O exército romano viu-se desbordado pela população indignada, por serem privados de seu santo pastor. O bispo, no entanto, usou de sua influência para apaziguar a todos. Foi ele conduzido a uma clareira, no bosque, onde na presença de todos, estando em pé, tendo-se despojado dos ornamento sagrados que o revestiam, ficou com uma túnica de alvíssimo linho. Um diácono e um presbítero ajudaram a vendar os olhos, e o prelado ainda teve a caridade de ordenar dessem "25 moedas de ouro" ao carrasco... O homem fez seu papel: "assim, o bem-aventurado Cipriano sofreu sua paixão". Perseguição religiosa aos católicos e a arma de satanás Poucos dias depois o iníquo juiz também morreu, subitamente. E ambos encontraram-se diante do Tribunal de Deus. As notícias de jornal repetem, à saciedade, que em nosso século XXI os católicos somos a religião mais perseguida em toda a face da terra. Só no Paquistão, onde um verdadeiro milagre tirou a mártir Ásia Bibi do corredor da morte, depois de languidecer durante nove anos nas enxovias de Lahore, atualmente 187 católicos esperam a mesma sorte que sobre ela pairou, como espada de Dámocles, por dois lustros. E não apenas. No ocidente, como muito bem escreveram recentemente um casal católico, Hamiltom e Cristiane Buzi (Ser Igreja no século XXI, in "Arautos do Evangelho", 213, set/19, pp. 16-21) "em um mundo que aparentemente cultua a paz, a compreensão e o diálogo, torna-se cada vez mais difícil ser católico autêntico", pois "há outras formas mais sutis e eficazes de perseguição, das quais o demônio se utiliza hoje às torrentes". "Escolher um bom colégio para nossos filhos ou buscar um entretenimento que não fira a moral cristã exige um esforço e uma perícia que não estão ao alcance de todas as famílias. Incenso aos ídolos, não! A cada instante somos convidados a deitar pequenos ou grandes punhados de incenso aos pés dos novos deuses pagãos, cujos nomes não são Júpiter, Baco ou Diana, mas sim desonestidade, mentira e relativismo. "Para os fiéis dos nossos dias, os cristãos dos primeiros séculos se apresentam como modelos de radicalidade evangélica", declaram Hamilton e Cristiane, proclamando com a ufania de S. Cipriano sua confiança na divina graça que Jesus, a rogos de Maria, sempre nos obtém, para "dar testemunho d'Ele diante do mundo... sermos mártires da ortodoxia, confessores da verdadeira doutrina, defensores da moral católica multissecular e fiéis seguidores do Magistério, ainda que isso suponha nos deixarmos crucificar com Ele, como o fizeram os primeiros cristãos". S. Cipriano de Cartago auxilie a todas as famílias católicas a seguirem o luminoso exemplo de Hamilton e Cristiane. Da redação Gaudium Press