SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

DIFERENÇA ENTRE ESPERANÇA E CONFIANÇA





Vamos falar aqui sobre a virtude da Esperança, mas ela não poderia existir sem as outras virtudes teologais, a Fé e a Caridade.. A Esperança se sobressai no nosso cotidiano porque é necessária ao cumprimento das promessas divinas, embora não possa existir sem as outras duas.
A definição está no “Livro da Confiança”, citando São Tomás de Aquino : a Confiança é uma Esperança fortalecida por sólida convicção. Lá também se diz que a esperança comum perde-se pelo desespero, tolerando apenas certa inquietação.
Segundo a Escolástica, “a Esperança é como uma fagulha dos bens futuros na mente”... trata-se de “uma certa memória das alegrias invisíveis, que no coração do homem aquece interiormente seus lugares mais escondidos e não permite que se seque pelo frio da infidelidade no inverno do mundo presente. E enquanto a esperança viver em nossa mente, nunca se secará a árvore da sabedoria”.
Temos aí, então, a memória como parte importante na prática das virtudes, pois é nela que se alimenta a Esperança. Só se espera por aquilo que imaginamos para o futuro, e em geral só se espera em paz pelo gozo de bens celestes. Ora, estes bens celestes, a Salvação eterna, não estariam presentes na memória humana se Deus não houvesse de antemão falado deles, seja através das Escrituras ou da Doutrina Cristã.  Mas de nada adiantaria Deus haver falado à alma humana de tais bens celestes se o homem não os houvesse acolhido em seu coração, amado-os e guardado-os na memória.
Na ordem prática, a Confiança é uma virtude que fortalece a alma nos fatos imediatos, enquanto a Esperança nos futuros. Quando São Pedro afundava no lago, Nosso Senhor disse: “confiança, por que duvidais?” Mas quando era necessário manter os Apóstolos mais firmes na Fé, de forma mais duradoura, Ele lhes anunciava o Reino de Deus como algo para o futuro, e falando das promessas de vida eterna (também futura), alimentando-lhes a virtude da Esperança; “o meu Reino não é deste mundo”, etc.
E assim sempre foi: a Divina Providência conforta e fortalece as almas com a Confiança no o dia a dia de cada uma: “vejam os pássaros que não guardam no celeiro; vejam os lírios do campo”, etc., foi uma lição para que se tivesse Confiança na Providência Divina, que nunca falta em nossas necessidades mais urgentes. No entanto, quando se tratava de preparar as almas para a paciente ascese das virtudes ao longo de toda a vida, Ela lembrava o Reino de Deus, a Ressurreição, o Juízo Final, a vida eterna, a glória futura, e com isto fomentava a virtude da Esperança. 
Os milagres, de forma geral, são feitos para animar os cristãos na Confiança, pois eles ocorrem sempre para suprir uma necessidade de momento, corrigir um defeito ou um aleijo, com vistas ao fortalecimento da Fé. Já o apostolado com a pregação da Doutrina, a formação espiritual e a ascese, prepara a alma para a Esperança nos bens futuros (mesmo que não estejam visíveis e palpáveis no presente) e assim alimenta uma Fé mais robusta. Talvez esta seja uma das razões pelas quais são poucos os milagres em nossos dias, quer dizer, aqueles mais palpáveis e vistos de forma mais retumbantes sobre a natureza, enquanto que são mais comuns os milagres ocultos da Graça que nos preparam para os dias futuros, alimentando-nos na Esperança.  
De outro lado, a Esperança nos anima aos bens espirituais superiores àqueles aspirados pela Confiança, pois enquanto esta confia na obtenção de favores e graças em geral caducos e momentâneos (embora nos fortaleça a Fé), a Esperança nos faz aguardar pacientemente os bens da eternidade: a vida futura, uma boa morte, a Ressurreição, a implantação do Reino de Maria aqui na terra, etc. Embora quem espera também confia, pois estas virtudes se interpenetram, agem conjuntamente em nossa alma: não nos esqueçamos que a Confiança é um tipo de Esperança.
É desta forma que se compreende que a Providência tenha nos preparado cruzes tão profundas, as quais, no dizer de São Luís Grignion de Montfort, são mais pesadas e mais profundas que o mar. Como é que criaturas tão fracas podem suportar cruzes tão pesadas e permanecer fiéis? É que, ao mesmo tempo em que nos dias que correm a Providência parece nos abandonar e nos entregar à solidão, ao desamparo, nos inspira no interior da alma a virtude da Esperança, pela qual a alma espera, aguarda, com paciência e resignação, a transformação de tudo, da Igreja e da sociedade, com os castigos previstos em Fátima e, depois, a vitória do Imaculado Coração de Maria e implantação do Reino de Maria sempre presentes em nossos horizontes como algo prestes a acontecer, como os acontecimentos do futuro. Enquanto a Esperança nos anima para as coisas futuras, aparentemente sufocando no presente os anseios da Confiança, nossa alma se fortalece com o exercício de uma Fé mais pura, livre de consolações e entregue nas mãos da Providência Divina.


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