SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 8 de agosto de 2010

São Domingos, Arauto do Rosário


Hoje, 8 de agosto, é dia de São Domingos de Gusmão, o Arauto do Santo Rosário. Fundador, missionário e pregador de cruzadas, tornou-se, juntamente com São Francisco de Assis, o sustentáculo da Igreja no século XIII. Clique aqui e veja no site dos Arautos do Evangelho a sua hagiografia. Na Audiência Geral de 03 de fevereiro deste ano, o Papa Bento XVI teceu os seguintes comentários sobre este grande Santo:

São Domingos de Gusmão
Caros irmãos e irmãs
Na semana passada apresentei a figura luminosa de Francisco de Assis, e hoje gostaria de vos falar de outro santo que, na mesma época, ofereceu uma contribuição fundamental para a renovação da Igreja do seu tempo. Trata-se de São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores, também conhecidos como Padres Pregadores.
O seu sucessor na orientação da Ordem, Beato Jordão da Saxónia, oferece um retrato completo de São Domingos no texto de uma oração famosa: "Inflamado de zelo por Deus e de ardor sobrenatural, pela tua caridade sem confins e o fervor do espírito veemente, consagraste-te inteiramente com o voto da pobreza perpétua à observância apostólica e à pregação evangélica". É ressaltada precisamente esta característica fundamental do testemunho de Domingos: ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.
Domingos nasceu em Caleruega, na Espanha, por volta de 1170. Pertencia a uma nobre família da Velha Castilha e, ajudado por um tio sacerdote, formou-se numa célebre escola de Palência. Distinguiu-se imediatamente pelo interesse no estudo da Sagrada Escritura e pelo amor aos pobres, a tal ponto que chegou a vender os livros, que na sua época constituíam um bem de grande valor, para socorrer com o lucro as vítimas de uma carestia.
Tendo sido ordenado sacerdote, foi eleito cónego do cabido da Catedral na sua Diocese de origem, Osma. Embora esta nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal, nem como o início de uma carreira eclesiástica brilhante, mas como um serviço a prestar com dedicação e humildade. Não é porventura uma tentação, a da carreira, do poder, uma tentação da qual não estão imunes nem sequer aqueles que desempenham um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei-o há alguns meses, durante a consagração de alguns Bispos: "Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos... Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja sofrem pelo facto de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade" (Homilia durante a Capela Papal para a Ordenação episcopal de cinco Excelentíssimos Prelados, 12 de Setembro de 2009).
O Bispo de Osma, que se chamava Diogo, um pastor verdadeiro e zeloso, observou depressa as qualidades espirituais de Domingos, e quis valer-se da sua colaboração. Juntos, partiram para o Norte da Europa a fim de realizar missões diplomáticas que lhes eram confiadas pelo rei de Castilha. Viajando, Domingos descobriu dois desafios enormes para a Igreja do seu tempo: a existência de povos ainda não evangelizados, nas extremidades setentrionais do continente europeu, e a laceração religiosa que debilitava a vida cristã no Sul da França, onde a acção de alguns grupos heréticos criava confusão e o afastamento da verdade da fé. A acção missionária a favor daqueles que não conheciam a luz do Evangelho e a obra de reevangelização das comunidades cristãs tornaram-se assim as metas apostólicas que Domingos se propôs alcançar. O Papa, que o Bispo Diogo e Domingos visitaram para pedir conselho, pediu a este último que se dedicasse à pregação aos Albigenses, um grupo herético que defendia uma concepção dualista da realidade, ou seja, com dois princípios criadores igualmente poderosos, o Bem e o Mal. Por conseguinte, este grupo desprezava a matéria como proveniente do princípio do mal, rejeitando até o matrimónio, chegando mesmo a negar a encarnação de Cristo, os sacramentos em que o Senhor nos "toca" através da matéria, e a ressurreição dos corpos. Os Albigenses apreciavam a vida pobre e austera – neste sentido, eram também exemplares – e criticavam a riqueza do Clero daquela época. Domingos aceitou com entusiasmo esta missão, que realizou precisamente com o exemplo da sua existência pobre e austera, com a pregação do Evangelho e com debates públicos. A esta missão de pregar a Boa Nova ele dedicou o resto da sua vida. Os seus filhos teriam realizado inclusive os outros sonhos de São Domingos: a missão ad gentes, ou seja, àqueles que ainda não conheciam Jesus, e a missão àqueles que viviam nas cidades, sobretudo nas universitárias, onde as novas tendências intelectuais eram um desafio para a fé dos cultos.
Este grande santo recorda-nos que no coração da Igreja deve sempre arder um fogo missionário, que impele incessantemente a fazer o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização: com efeito, Cristo é o bem mais precioso que os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares têm o direito de conhecer e de amar! E é consolador ver que até na Igreja de hoje são muitos – pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais – que com alegria despendem a sua vida por este ideal supremo: anunciar e testemunhar o Evangelho!
Depois, a Domingos de Gusmão uniram-se outros homens, atraídos pela mesma aspiração. Deste modo, progressivamente, da primeira fundação de Toulouse teve origem a Ordem dos Pregadores. Com efeito, Domingos em plena sintonia com as directrizes dos Papas do seu tempo, Inocêncio III, Honório III, adoptou a antiga Regra de Santo Agostinho, adaptando-a às exigências de vida apostólica que o levaram, bem como os seus companheiros, a pregar passando de um lugar para outro, mas depois voltando aos próprios conventos, lugares de estudo, oração e vida comunitária. De modo particular, Domingos quis dar relevo a dois valores considerados indispensáveis para o bom êxito da missão evangelizadora: a vida comunitária na pobreza e o estudo.
Antes de tudo, Domingos e os Padres Pregadores apresentavam-se como mendicantes, isto é, sem vastas propriedades de terrenos para administrar. Este elemento tornava-os mais disponíveis ao estudo e à pregação itinerante, e constituía um testemunho concreto para as pessoas. O governo interno dos conventos e das províncias dominicanas estruturou-se segundo o sistema de cabidos, que elegiam os seus próprios Superiores, sucessivamente confirmados pelos Superiores maiores; portanto, uma organização que estimulava a vida fraterna e a responsabilidade de todos os membros da comunidade, exigindo fortes convicções pessoais. A escolha deste sistema nascia precisamente do facto que os Dominicanos, como pregadores da verdade de Deus, tinham que ser coerentes com quanto anunciavam. A verdade estudada e compartilhada na caridade com os irmãos constitui o fundamento mais profundo da alegria. O Beato Jordão da Saxónia diz de São Domingos: "Ele acolhia cada homem no grande seio da caridade e, dado que amava todos, todos o amavam. Fez para si uma lei pessoal de se alegrar com as pessoas felizes e de chorar com aqueles que choravam" (Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum autore Iordano de Saxonia, ed. H. C. Scheeben [Monumenta Historica Sancti Patris Nostri Dominici, Romae, 1935]).
Em segundo lugar, com um gesto intrépido, Domingos quis que os seus seguidores adquirissem uma formação teológica sólida e não hesitou em enviá-los às Universidades dessa época, embora não poucos eclesiásticos vissem com desconfiança estas instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores atribuem muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos queria que os seus Padres se dedicassem a isto sem poupar esforços, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de todo o saber teológico, ou seja, na Sagrada Escritura, e respeitador das interrogações formuladas pela razão. O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que desempenham o ministério da Palavra, a vários níveis, que sejam bem preparados. Portanto exorto todos, pastores e leigos, a cultivar esta "dimensão cultural" da fé, a fim de que a beleza da verdade cristã possa ser melhor compreendida e a fé seja verdadeiramente alimentada, fortalecida e também defendida. Neste Ano sacerdotal, convido os seminaristas e os sacerdotes e estimar o valor espiritual do estudo. A qualidade do ministério sacerdotal depende também da generosidade com que se aplica ao estuo das verdades reveladas.
Domingos, que quis fundar uma Ordem religiosa de pregadores-teólogos, lembra-nos que a teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os presbíteros, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda "alegria interior" na contemplação da beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre actual e viva. O lema dos Padres Pregadores – contemplata aliis tradere – ajuda-nos a descobrir, além disso, um anseio pastoral no estudo contemplativo de tal verdade, pela exigência de comunicar aos outros o fruto da própria contemplação.
Quando Domingos faleceu, em 1221 em Bolonha, a cidade que o declarou padroeiro, a sua obra já tinha alcançado grande sucesso. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, difundiu-se em muitos países da Europa, em benefício da Igreja inteira. Domingos foi canonizado em 1234, e é ele mesmo que, com a sua santidade, nos indica dois meios indispensáveis a fim de que acção apostólica seja incisiva. Em primeiro lugar, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, que na história da Igreja tiveram o grande mérito de difundir a recitação do santo Rosário, tão querida ao povo cristão e tão rica de valores evangélicos, uma autêntica escola de fé e de piedade. Em segundo lugar Domingos, que assumiu o cuidado de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou até ao fundo no valor da oração de intercessão pelo bom êxito do afã apostólico. Só no Paraíso compreenderemos quão eficazmente a oração das irmãs claustrais acompanham a obra apostólica! A cada uma delas dirijo o meu pensamento grato e carinhoso.
Estimados irmãos e irmãs, a vida de Domingos de Gusmão estimule todos nós a sermos fervorosos na oração, corajosos na vivência da fé e profundamente apaixonados por Jesus Cristo. Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.
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Saudação
Amados peregrinos de língua portuguesa, uma cordial saudação de boas-vindas para todos, com votos de que a vossa visita ao lugar da Confissão de Pedro seja rica de graças e luzes do Alto, que vos ajude a ser sempre autênticas e incansáveis testemunhas de Cristo. Em seu Nome, dou-vos a minha Bênção, extensiva aos vossos familiares e comunidades cristãs.


Os nove modos de rezar de São Domingos de Gusmão


As Nove Maneiras de Oração de São Domingos foi escrito por um autor anônimo, provavelmente em Bolonha, em algum momento entre 1260 e 1288. A fonte de sua informação foi a Irmã Cecília do Mosteiro de St. Agnes, em Bolonha (que tinha sido recebida pelo hábito de S. Domingos) e outros que tinham estado em contato com o Fundador Santo. Este documento atesta a venerável eminente santidade do Santo, mostrando algo de sua vida íntima e intenso amor de Deus. Os trabalhos iniciais da obra foram acompanhados por desenhos em miniatura para ilustrar as diferentes posturas que São Domingos teve quando estava em oração.


Santos doutores, como Agostinho, Ambrósio, Gregório, Hilário, Isidoro, João Crisóstomo, João Damasceno, Bernardo e outros autores muito piedosos, tanto gregos como latinos, trataram com grande amplitude da oração, a têm recomendado e descrito; têm dissertado acerca de sua necessidade, utilidade e modo de fazê-la, assim como da preparação e impedimentos para a mesma. Porém o glorioso e venerável doutor Tomás de Aquino e Alberto Magno, da Ordem dos Pregadores, ao longo de suas obras, do mesmo modo que Guilherme no tratado das virtudes, têm exposto com nobreza, santidade, devoção e elegância a maneira de orar na qual a alma se serve dos membros do corpo para lançar-se com maior devoção a Deus. Deste modo, a alma, uma vez que move o corpo é movida por ele, e assim em algumas ocasiões entra em êxtase, como ocorria com São Paulo, outras vezes em arroubamento, como acontecia com o profeta David. Deste modo rezava com freqüência Domingos e algo diremos aqui sobre o particular.
Também os santos do Antigo e do Novo Testamento rezavam desta maneira algumas vezes. Porque tal modo de orar excita alternativamente a devoção, da alma ao corpo, e do corpo à alma. Este modo de oração fazia prorromper em forte pranto a São Domingos e se acendia o fervor de sua boa vontade em tal grau que não conseguia ocultá-lo sem que transluzisse sua devoção através de uma certa expressão corporal. Sua alma em oração se elevava às vezes a formular petições, rogos e ações de graças.
Se aludirá a seguir de seus modos especiais de rezar. Não se faz menção detalhada daqueles outros que tinha, muito devotos e constantes, na celebração da missa e recitação do ofício divino, onde se percebia o momento como se elevava freqüentemente em espírito por cima de si e se mantinha no trato com Deus e os anjos durante a oração das horas canônicas, bem fora no coro ou de viagem.
Primeiro modo de orar
O primeiro modo de orar consista em humilhar-se ante o altar, como se Cristo representado nele, estivesse ali real e pessoalmente e não apenas simbolicamente. Comportava-se assim em conformidade ao seguinte texto do livro de Judite: “sempre te agradou a súplica dos mansos e humildes” (Jud. 9, 16). Pela humildade obteve a Cananéia quanto desejava (MT 15, 21-18) e o mesmo o filho pródigo (Lc 15, 11-32). Inspirava-se também nestas palavras: “Eu não sou digno que entreis em minha casa (MT 8,8); Senhor, ante ti tenho me humilhado sempre (Salmo 146, 61)”.
E assim, nosso Pai, mantendo o corpo ereto, inclinava a cabeça, olhando humildemente a Cristo o reverenciava com todo seu ser, considerando sua condição de servo e a excelência de Cristo. Ensinava a fazê-lo assim aos frades quando passavam diante do crucifixo, para que Cristo, humilhado por nós até o extremo, nos visse humilhados ante sua majestade. Mandava também soa frades que se humilhassem deste modo ante o mistério da Santíssima Trindade quando se cantasse o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Este modo de orar inclinando profundamente a cabeça, como se mostra na gravura, era o ponto de partida de suas devoções.

Segundo modo de orar
São Domingos rezava também, com freqüência, completamente prostrado, rosto em terra. Doía-se em seu interior e se apostrofava a si mesmo, e o fazia às vezes em tom tão alto que em algumas ocasiões o ouviam recitar aquele versículo do Evangelho: “Ó Deus! Tem compaixão deste pecador” (Lc 18, 13). Com piedade e reverência, recordava freqüentemente aquelas palavras de Davi: “Sou eu o que pecou e obrou iniquamente” (Salmo 50, 5). Chorava emitindo fortes gemidos; depois, exclamava: “Não sou digno de contemplar a grandeza do céu, por causa de minha iniqüidade, porque tenho provocado tua ira e tenho obrado mau ante teus olhos”. Do salmo, que começa “com nossos ouvidos”, oh Deus temos ouvido, recitava com vigor e devoção o versículo que diz: “Porque minha alma foi humilhada até o pó, e meu corpo pegado à terra (salmo 43, 26)”; e também: “Pegada ao solo está minha alma, conserva minha vida conforme tua palavra (Salmo 118, 25)”.
Em alguma ocasião, querendo ensinar aos frades com quanta reverência deviam orar, dizia-lhes: “Os piedosos Reis magos entraram na casa, viram o menino com Maria sua Mãe, e, caindo de joelhos, O adoraram (MT 2, 11)”. É, pois, certo que também nós encontramos o Homem-Deus com Maria, sua escrava; vinde, adoremos, prostremo-nos por terra, choremos ante o Senhor que nos criou (Salmo 94, 6). Exortava também aos jovens, dizendo: “Se não podeis chorar vossos pecados porque não os tens, há muitos pecadores necessitando de misericórdia e caridade. Por eles gemeram os profetas e os apóstolos. Contemplando-os Jesus, chorou amargamente, e o mesmo fazia o santo profeta David, dizendo: “Vindo aos renegados, sentia asco (Salmo 118, 158)”.

Terceiro modo de orar
Motivado São Domingos por tudo quanto procede, se elevava do solo e se disciplinava com uma cadeia de ferro, dizendo: “Tua disciplina me adestrou para o combate” (Salmo 17, 35)”. Esta é a razão pela qual a Ordem inteira estabeleceu que todos os frades, trazendo à memória o exemplo de São Domingos, se disciplinassem com varas sobre suas costas nuas, nos dias de descanso depois das completas. Venerando este exemplo, recitam o salmo que começa: “Misericórdia, Deus meu (Salmo 50)”, ou aquele outro: “Desde o mais profundo clamo a ti, Senhor (Salmo 129)”. A disciplina se toma para expiação das próprias culpas, ou pelas daqueles de cujas esmolas vivem. Em conseqüência, ninguém, por inocente que seja, deve se apartar desde santo exemplo. Tal modo de oração fica refletido na figura seguinte.

Quarto modo de orar
Depois disto, São Domingos, ante o altar da igreja o una sala capitular, voltava-se para o crucifixo, o olhar com suma atenção, e ajoelhava-se uma e outra vez; fazia muitas genuflexões. Às vezes, após a reza das completas e até á meia noite, ora levantava-se, ora ajoelhava-se, como fazia o apóstolo Santiago, ou o leproso do Evangelho que dizia, de joelhos: “Senhor, se quiserdes, podeis curar-me” (MT 8, 2), ou como Estevão que, ajoelhado, clamava com voz forte: “Não lhes tenha em conta este pecado” (Atos 7,60). O Pai São Domingos tinha uma grande confiança na misericórdia de Deus, tanto em seu favor quanto para o bem de todos os pecadores e em amparo dos frades jovens que enviava a pregar. Em ocasiões não podia conter sua voz e os frades o escutavam dizer: “A ti, Senhor, vos invoco, não sejas surdo à minha voz, não vos cale” (Salmo 27, 1); assim como outras palavras pelo estilo da Sagrada Escritura.
Em outras ocasiões falava para seu interior, sem que ouvisse em absoluto o que dizia, permanecendo absorto de joelhos, às vezes por longo tempo. Havia momentos nos quais parecia que neste modo de orar sua alma penetrava nos céus; logo era visto transbordante de gozo e enxugando-se as lágrimas. Levantava-se nele um grande desejo, como um sedento que se dirigia para a fonte ou peregrino que já estava perto da pátria. Crescia e se fortalecia em seu ânimo; ao levantar-se e ajoelhar-se o fazia com uma grande compostura e agilidade. Estava tão acostumando a ajoelhar-se que, em viagem, nas casas onde se hospedavam, depois do caminhar cansativo e nos caminhos, enquanto dormiam e descansavam os demais, ele voltava para as genuflexões coma arte própria sua e peculiar ministério. Ensinava aos frades à orar desta mesma maneira, mais com o exemplo do que com as palavras.

Quinto modo de orar
Algumas vezes o Pai São Domingos, estando no convento, permanecia em pé, erguido ante o altar, mantinha seu corpo direito sobre os pés, sem apoiar-se nem obter ajuda de coisa alguma. Às vezes tinha as mãos estendidas ante o peito, a modo de livro aberto, e assim se mantinha com muita reverência e devoção, como se lesse ante o Senhor. Na oração se lhe via meditar a palavra de Deus, e como se a relatasse docemente para si mesmo. Servia-lhe de exemplo aquele gesto do Senhor, que se lê no Evangelho segundo São Lucas, a saber: Que entrou Jesus segundo seu costume, quer dizer, no sábado, na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura (Lc 4, 16). E também se disse no salmo: Finéias levantou-se, e orou, e a praga cessou (Salmo 105, 30).
Às vezes juntava as mãos à altura dos olhos, entrelaçando-as fortemente e dando uma com outra, como ungindo-se a si mesmo. Elevava também as mãos até os ombros, tal como faz o sacerdote quando celebra a missa, como se quisesse fixar o ouvido para perceber com mais atenção algo que se lhe diria desde o altar. Se tivesses visto, leitor, a devoção com que rezava em pé, te houvera parecido que contemplavas a um profeta que, com um anjo ou com Deus, ora falava, ora escutava, ora meditava em silêncio sobre o que lhe havia sido revelado. Se quando ia a caminho furtava logo às escondidas algum tempo para rezar, sua mente em contínua vigília, tendia no momento para o céu; logo o ouvirias pronunciar com grande doçura e delicadeza algumas palavras consoladoras, tomadas do cérebro e do mais substancial da Sagrada Escritura; parecia que as havia tirado das fontes do Salvador. Os frades se animavam muito com este exemplo, contemplando ao seu Pai e Mestre; se dispunham com maior devoção a orar, reverente e continuamente. Como estão os olhos da escrava fixos nas mãos de sua senhora, e como estão os olhos dos escravos fixos nas mãos de seus senhores (Salmo 122,2).

Sexto modo de orar
Às vezes se via também orar ao Pai São Domingos, com as mãos e braços abertos e muito estendidos, a semelhança da cruz, permanecendo direito na medida em que lhe era possível. Orou deste modo quando, por sua oração, Deus ressuscitou o menino chamado Napoleón ; orou na sacristia de São Sixto de Roma, e na igreja durante a celebração da missa, elevando-se do solo, como narrou a devota e santa Sóror Cecília, que se achava presente e o viu, da mesma forma que uma multidão de pessoas; como Elias, quando ressuscitou ao filho da viúva estendendo-se sobre o menino (1 Reis 17, 17-24). De modo semelhante orou quando, junto a Toulouse, livrou os peregrinos ingleses do perigo de afogar-se no rio. Deste modo orou o Senhor enquanto pendia da cruz, quer dizer, com as mãos e braços estendidos, e com grande clamor e lágrimas foi escutado por seu reverencial temor (Hb 5, 7).
Mas São Domingos não utilizava este de rezar senão quando, inspirado por Deus, sabia que ia-se operar algo grande e maravilhoso em virtude da oração. Nem proibia aos frades orar assim, nem se lhos aconselhava. Quando ressuscitou aquele menino rezando deste modo, em pé, com os braços e mãos estendidos em forma de cruz, não sabemos o que dizia. É possível que pronunciasse as mesmas palavras do profeta Elias: “Senhor, Deus meu! Que volte, vos rogo, a alma deste menino a entrar nele!” (1 Reis 17, 21). Os presentes observavam este modo de orar, porém os frades e freiras, os senhores e cardeais, e os demais que acompanhavam aquela maneira de orar desacostumada e admirável, não reconheceram as palavras que pronunciou. Depois não lhes foi permitido interrogar acerca de tudo isto ao santo e admirável Domingos, o qual neste ponto se mostrou com todos muito digno de respeito e reverência. Sem embargo, pronunciava com ponderação, gravidade e oportunamente as palavras do Saltério que fazem referência a este modo de orar, dizia atentamente: “Senhor, Deus de minha salvação, de dia vos peço auxílio, de noite grito em vossa presença”; recitava até aquele versículo: “Todo o dia vos estou invocando, Senhor, estendendo as mãos vazias!” (Salmos 87, 2-10). E também: “Escuta, Senhor, minha oração, presta atenção à minha súplica”, etc. até o versículo que diz: “Estendo minhas mãos para vós, etc.. escuta-me em seguida, Senhor”. (Salmos 142, 1-6). Por tudo isso poderá qualquer pessoa devota captar a oração deste Pai, e seu ensinamento ao rezar deste modo, quando queria ser transportado para Deus de modo admirável em virtude da oração, ou melhor, quando sentia desde o mais íntimo de seu ser que Deus o movia com especial força a uma graça singular; a pedi-la para si ou para outro, ilustrado pela doutrina da David, pelo fogo de Elias, pela caridade de Cristo e pela devoção de Deus, como aparece na figura.

Sétimo modo de orar
Sem embargo, era encontrado com freqüência orando, dirigido completamente para o céu, a modo de uma flecha apontando para cima, que se projeta diretamente ao alto por meio de um arco retesado. Orava com as mãos elevadas sobre sua cabeça, muito levantadas e unidas entre si, ou bem um pouco separadas, como para receber algo do céu. Acredita-se que então se aumentava a graça nele e era arrebatado em espírito. Pedia a Deus para a Ordem que havia fundado os dons do Espírito Santo e agradável deleite na prática das bem-aventuranças. Pedia para si e para os frades manterem-se devotos e alegres na maior e estrita pobreza, no pranto amargo, nas graves perseguições, na fome e nas grandes sedes de justiça, na ânsia de misericórdia, até ser proclamados bem-aventurados; pedia, de igual modo, manterem-se devotos e alegres na guarda dos mandamentos e em cumprimento dos conselhos evangélicos. Parecia que então o Pai São Domingos, arrebatado em espírito, entrava no lugar santo entre os santos, quer dizer, no terceiro céu. Daí que, após esta oração, tanto nas correções como nas dispensas, ou na pregação, comportava-se como um verdadeiro profeta.
Não permanecia por muito o Pai São Domingos neste modo de orar. Voltava para si mesmo como quem chegava de longe, ou como quem vinha peregrinando. Isto podia se observar facilmente em seu aspecto e no modo de se comportar. Sem embargo, quando rezava com claridade, os frades o ouviam pronunciar algumas vezes as palavras do profeta: “Escuta minha voz suplicante quando vos peço auxílio, quando levanto as mãos até vosso santuário” (Salmos 27, 2). E ensinava pela palavra e com seu exemplo santo aos frades a que orassem assim continuamente, dizendo aquela frase do salmo: “Agora bendizei ao Senhor os servos do Senhor”. E também: “Senhor, estou vos chamando, vem depressa, escuta minha voz quando vos chamo”, etc., até as seguintes palavras: “Durante a noite levantai vossas mãos para o santuário” (Salmos 133, 1-2). E também: “E o levantar de minhas mãos [como oferenda da tarde]” (Salmos 140, 1). Porém, para que se entenda melhor quando se tem dito, ilustra-se com a figura seguinte.

Oitavo modo de orar
Nosso Pai São Domingos tinha outro modo de orar, formoso, devoto e grato para ele, que praticava após a recitação das horas canônicas, e depois da ação de graças que se faz em comum pelos alimentos recebidos. O mesurado e piedoso Pai, impulsionado pela devoção que lhe havia transmitido a palavra de Deus cantada no coro ou no refeitório, ia-se logo ficar sozinho em algum lugar, na cela ou em outra parte, para ler ou rezar, permanecendo consigo e com Deus. Sentava-se tranqüilamente e, feito o sinal da cruz, abria ante si algum livro; lia e se enchia sua mente de doçura, como se escutasse ao Senhor que lhe falava, em conformidade com o que se diz no salmo: “Vou escutar o que diz o Senhor”, etc (Salmo 84, 9). E, como se detivesse com um acompanhante, aparecia, ora impaciente, a julgar por suas palavras e atitude, ora tranqüilo à escuta, se o via disputar e lutar, rir e chorar, fixar o olhar e baixá-lo, e de novo falar sob golpes dados no peito.
Se algum curioso quisesse observá-lo escondido, o Pai São Domingos se lhe haveria parecido a Moisés, que penetrou no deserto, chegou ao monte de Deus Horeb, contemplou a sarça ardente e rezou com o Senhor e se humilhou a si mesmo (Gen 3, 1-6). Este monte de Deus não é como uma imagem profética de piedoso costume que tinha nosso Pai, de passar facilmente da leitura á oração, da oração á meditação, e da meditação á contemplação?
Ao longo deste leitura feita em solidão, venerava o livro, inclinava-se para ele, e também o beijava, em especial se era o códice do Evangelho, ou se lia palavras que Cristo havia pronunciado com sua boca. Às vezes ocultava o rosto enrolando-se com a capa, ou escondia a face entre as mãos, velando-se um pouco com a capucha; chorava cheio de vergonha e de dor, e também, como se agradecesse a um alto personagem os benefícios recebidos, levantava-se um pouco com toda reverência e inclinava sua cabeça; plenamente refeito e tranqüilo, lia novamente o livro.

Nono modo de orar
Observava este modo de orar ao se transportar de uma região a outra, especialmente quando encontrava-se em lugares solitários; passava o tempo meditando, quer dizer, em contemplação. Dizia às vezes a seu companheiro de caminho: “Está escrito no livro de Oséas: A levarei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2, 14). Em ocasiões apartava-se de seu companheiro e adiantava-se, ou então, com mais freqüência, o seguia de longe; assim caminhava só e rezava; acendia-se na meditação, ou dito de outro modo, abrasava-se no fogo. Chegava neste modo de oração a fazer gestos como para afastar de seu rosto fagulhas ou moscas; por isto protegia-se freqüentemente com o sinal da cruz. Pensavam os frades que neste modo de orar havia alcançado o Santo a plenitude de conhecimento da Sagrada Escritura, a inteligência do mais sublime da palavra de Deus, um poder audaz de pregar fervorosamente, e uma secreta familiaridade com o Espírito Santo para conhecer as coisas ocultas.
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Extraído e traduzido da página oficial da Ordem dos Pregadores:
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