SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Maria, Rainha-Mãe do Universo


Neste primeiro domingo depois do Natal, a Igreja homenageia a Sagrada Família. Nosso Senhor Jesus Cristo é o principal membro desta Família, pois Ele é o próprio Deus como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São José, também símbolo da castidade, esposo da Virgem Santíssima, foi o último dos Patriarcas e precioso auxiliar no decorrer de 30 anos da vida privada de Jesus. Destacamos aqui o papel de Nossa Senhora, não somente como Mãe de Deus, mas também como poderosa auxiliar de Jesus Cristo tanto em sua vida privada quanto pública: Ela é a co-regente de Cristo na regência do Universo.

Papel da Rainha-Mãe no exercício da regência

Quando a pessoa rege assume, principalmente, o poder de legislar ou aplicar a justiça. É por isso que tanto no Antigo quanto no Novo Testamento o cargo de juiz se confunde muitas vezes com o de rei ou governante. “O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal” (Prov. 20, 8). Quando no Credo se diz que Jesus Cristo virá novamente para “julgar os vivos e os mortos” , na realidade está se afirmando que será sua completa regência sobre todos os homens a ocorrer no Juízo Final, mas auxiliado por seus co-regentes : “Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que, no dia da regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da sua glória, vós, que me seguistes, também estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel”. (Mt 19, 28). Não se compreende que sua Mãe Santíssima não esteja sentada também num trono semelhante. Essa figura do juiz, como se viu, confunde-se com a de regente. No entanto, há um importante papel exercido pela esposa ou pela mãe do juiz ou do regente. Uma rainha-consorte pode ser uma regente secundária de um povo, pode ser também a “rainha-mãe” com funções adjutórias, mas importantes para uma boa regência. Trata-se de uma grande e poderosa auxiliar ao principal regente, com poderes muito maiores do que seus próprios ministros. Há um encargo exercido pela Rainha-Mãe que, não só extrapola, mas até transcende ao do regente principal. Nesse caso é ela também regente, uma co-regente. Um dos seus papéis mais importantes é como geradora ou continuadora da dinastia, que antecede e sobrepõe ao próprio poder de legislar ou aplicar a justiça. Assim, as matriarcas Eva, Sara, Rute e tantas outras do Patriarcado foram antecessoras das modernas Rainhas-Mães enquanto geradoras ou continuadoras da descendência patriarcal ou dinástica. Um outro papel é o de intercessão, exercendo também um cargo auxiliar de julgar ou de aplicar a justiça, pois a intercessão é uma função advocatícia e competente da lei. Existem diversos intercessores, mas uma intercessora é de importância primordial e indispensável entre o legislador (o rei ou regente) e seus súditos, mediadora que tem função de pacificar os que ferem a lei. Não se trata de punir, não se trata de aplicar as penas e os castigos, ou até mesmo de condená-los com acusações formais (funções também exercidas pelos advogados de acusação), mas de usar a misericórdia, o perdão, instrumento muito útil no processo judicial. É claro que a palavra final, a sentença de castigo ou perdão continua com o juiz, o principal regente, mas há necessidade de alguém que sirva para atenuar a pena ou para defender eventual inocência do acusado. Essa função de perdoar é mais sublime do que a de condenar, pois demonstra mais grandeza. Tal é o valor do perdão que Nosso Senhor o colocou no Pai Nosso: “Perdoai as nossas dívidas”, ou, como se diz hoje, “Perdoai as nossas ofensas”. Poderia ter posto assim “condenai aos que erram”, etc., mas, não, preferiu colocar o perdão num patamar mais alto. Por isso o perdão sempre é dado através dessa co-regência, de uma intercessora ou mediadora incumbida somente de usar a misericórdia. E quando há uma mediadora especialmente designada para obter esse perdão é porque lhe foi dado especial poder. Segundo São João Crisóstomo quando o homem perdoa faz o papel de Deus, tratando-se, portanto, de um atributo divino transmitido aos homens. E no exercício dessa função, dentro do poder regencial, a pessoa mais importante é a mãe do legislador, ou mãe do regente, também chamada de “Rainha-Mãe”, ou, em alguns casos, “Rainha-Consorte”. Assim, há necessidade de alguém que tenha poder e influência sobre o principal regente legal e que tenha por fim principal dentro da regência obter a paz social como solucionadora de contendas. Nesse caso, a primeira co-regente da História foi Eva, que Deus criou como “adjutório semelhante ao homem” (Gên 2.18). Será que não teria sido esse o papel de Eva perante e contenda entre Caim e Abel e que ela não tenha exercido a contento? Já Rebeca, a mãe de Jacó, pelo contrário, usou bem o seu ofício e evitou que Esaú o matasse. (Gn 27, 41-45). Nos casos acima, a mediadora ocupa a função de pacificadora. Nas primeiras dinastias da História (especialmente durante o Patriarcado), ainda não se sobressaía o papel da consorte do Patriarca (a não ser no caso de Sara, esposa de Abraão), pois elas ainda não podiam aparecer na regência da sociedade. Esse papel passou a preponderar quando surgiram as primeiras monarquias, especialmente no caso dos hebreus, quando as mães dos reis tinham poder de destaque. No decorrer do tempo foi aos poucos sendo ressaltado o papel das mulheres nas regências, ou como mandatárias legais, ou então como mães dos reis ou príncipes. Uma das principais características nesse papel era a formação das elites, como educadoras de príncipes e de reis. Um dos exemplos mais frisantes, já no decorrer do Cristianismo, foi o da mãe de São Luís IX (Branca de Castela) e da esposa de Dom João I (Filipa de Lancastre, “mãe da ínclita geração”, segundo Camões), ambas exímias educadoras de príncipes e de reis. Os exemplos de intervenções mediadoras de tais mulheres são contados aos milhares na História, como Santa Helena e tantas outras.

Importância das rainhas-mães no povo hebreu

A Sagrada Escritura, porém, não dava pouca importância ao papel das mulheres na sociedade. Além dos exemplos heróicos narrados nos livros de Rute, Judite e Ester, temos também a referência que se fazia ao nome das mães dos reis israelitas. Quase todo rei hebreu tem seu nome ligado ao de sua mãe. O primeiro episódio em que isso se dá ocorreu assim:
“Foi, pois, Betsabéia ter com o rei Salomão, para lhe falar em favor de Adonias. O rei levantou-se para a vir receber, saudou-a com profunda reverência e sentou-se no seu trono; e foi posto um trono para a mãe do rei, a qual se sentou à sua mão direita.”(I Reis 2, 19).
Em seguida a Sagrada Escritura narra o diálogo entre os dois, ocasião em que a rainha intercede por Adonias. A partir daí, tornou-se tradição entre os hebreus colocar a mãe do rei em papel de destaque, geralmente como sua intercessora perante os súditos. É bem uma pré-figura de Nossa Senhora como Mediadora, sentada num trono de Nosso Senhor Jesus Cristo à Sua mão direita. Depois da morte de Salomão e do cisma de Samaria, os reis são citados na Sagrada Escritura quase sempre junto com o de sua genitora, tal passou a ser o papel dela na regência do trono e a fim de que assim fosse conhecida também a descendência pelo levirato. Os reinos tinham como sedes as cidades de Jerusalém, o de Judá, e Samaria, o de Israel. De modo geral, são citadas as mães dos reis de Judá, talvez por causa da profecia que previa a origem do Messias naquela tribo. Na seqüência de reis que vai da morte de Salomão até a destruição do reino de Israel (da Samaria) são de modo geral citadas as mães daqueles que procederam corretamente. Depois disso, são citadas todas as mães dos reis de Judá, quer tenham sido eles bons ou não. O primeiro a ter a mãe assim mencionada foi Josafá (I Rs 22, 41-42): “Josafá, filho de Asa, sua mãe chamava-se Azula, filha de Salai... ...fez o que era reto diante do Senhor”. Seu sucessor, Jorão, não mereceu que tivesse sua mãe citada certamente porque “...procedeu mal diante do Senhor”. Já o seguinte, Acazias, embora tenha procedido mal mereceu que sua mãe, Atália, fosse mencionada, uma mulher ruim que perverteu mais ainda o reino após a morte do filho. Um outro rei muito ruim foi Acaz, tão ruim que ofereceu seu próprio filho para ser queimado aos ídolos, e, talvez por isso, não se sabe o nome de sua mãe. Temos, depois, uma sucessão de reis de Judá que são mencionados ao lado de sua mãe: Joás, filho de Sebia; Ananias, filho de Joadan; Azarias, filho de Jequélia, Joatão, filho de Jerusa, Ezequias, filho e Abi (todos estes tendo procedido corretamente); Manassés, filho de Hafsiba; Amon, filho de Messamelet; Josias, filho de Idida; Joacaz, filho de Amital; Joaquim, filho de Zébida e Sedecias, filho de Amital (sendo que, entre estes seis últimos reis, apenas Josias procedeu bem). Quanto ao reino de Samaria, ou de Israel, tivemos apenas alguns deles citados ao lado de sua mãe, como o primeiro deles que foi Jeú, o qual começou bem o reinado mas acabou mal: "No sétimo ano de Jeú, Joás começou a reinar e reinou quarenta anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Sebia, de Bersabéia..." (II Reis 12, 1); tudo indica que a citação procede do fato de Sebia ser da tribo de Judá. Um outro citado com a mãe foi Facéia, filho de Romélia. Parece que o Divino Espírito Santo inspirava o escritor sagrado a prefigurar nas mães dos reis do povo eleito a importância que seria dada futuramente à Mãe do Rei dos reis, Maria Santíssima. E a Sagrada Escritura dava importância às mães dos reis de Judá, por ser desta tribo que viria o Messias, e àqueles que procediam corretamente. O livro de Rute, como que deu início a esta citação matriarcal, a qual seria respeitada nas pessoas de todos os reis legítimos de Judá. E, como se sabe, foi graças a Rute que não foi interrompida a descendência de onde nasceria o Messias, da tribo de Judá, com a qual ela conseguiria o casamento com um de seus filhos ilustres, embora sendo ela moabita: seu primeiro marido morreu sem deixar descendência e, mais uma vez, a tribo de Judá, de onde nasceria o Messias, iria ficar sem descendência.

O costume do levirato entre os hebreus

Para se entender melhor o papel das mulheres e do levirato durante o Patriarcado, vejamos, no caso de Rute, o que aconteceu com os ancestrais de sua tribo, de onde nasceria o Messias. A descendência de Judá iria ficar interrompida já no primeiro filho primogênito daquele Patriarca, chamado Her, que "foi mau diante do Senhor e o Senhor o fez morrer" (I Crôn. 2, 3). Como Her não iria deixar descendência, sua viúva, Tamar, se prevaleceu do chamado "levirato" e se casou com Onan. Mas este também prevaricou e foi morto por Deus. Como Judá prometera-lhe o último de seus filhos, Sela, mas esqueceu-se, Tamar fez uma trama para se unir ao sogro Judá, embora de uma forma artificiosa, e com ele ter filhos para dar continuidade à sua herança. Lembremo-nos que o termo "irmão" é utilizado nas Sagradas Escrituras de uma forma abrangente a todos os parentes colaterais, primos, tios, até cunhados, sogros e genros, além dos irmãos propriamente ditos. . Fato semelhante estava para ocorrer no tempo dos Juízes com Maalon, último descendente da tribo de Judá, casado com Rute. O Patriarca principal e pai de Maalon, chamado Elimelec, casado com Noemi, havia saído de seu país por causa da seca e emigrado para as terras dos moabitas. Lá, morre Elimelec e seus filhos homens, Maalon e Quelion, sem deixar filhos. A tribo de Judá estava novamente sem descendentes e não havia como cumprir a profecia de Jacó: “O cetro não será tirado de Judá, nem o príncipe da sua descendência, até que venha Aquele que deve ser enviado. E ele será expectação das nações” (Gen 49, 10-11 Resolveu então Noemi voltar para sua terra, aconselhando às suas duas noras, Orfa e Rute, moabitas, para ficarem entre seu povo. No entanto, as duas insistiam em acompanhar Noemi. Noemi era efrata, natural de Belém, onde residia a tribo de Judá e lá havia deixado seus bens e parentes. Enquanto Rute, moabita, por ser uma mulher de boa índole, queria, de todo o coração, ser parte do povo hebreu e seguir as leis que o regiam. Por causa disso insistiu e seguiu sua sogra, enquanto que a outra nora ficou. Como deveria se comportar a estrangeira junto dos hebreus? Moisés havia determinado: "Quando segares a messe no teu campo e deixares por esquecimento alguma gavela, não voltarás para a levar, mas deixa-la-ás tomar ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, a fim de que o Senhor teu Deus te abençoe em todas as obras das tuas mãos". (Deut. 24, 19-20). Rute disse à sua sogra: "Se o mandas, irei ao campo apanhar as espigas que escapam das mãos dos segadores, onde quer que eu encontre algum pai de família que se mostre clemente para comigo". Havia na cidade um rico parente de Elimelec, chamado Booz, e foi para lá justamente que Rute se dirigiu, embora sem saber quem era. Rute já era conhecida como uma pessoa bondosa, e tendo exercido o seu trabalho com afinco, pois ia "atrás dos segadores desde manhã até agora, e não voltou a casa nem um momento", Booz gostou dela e lhe autorizou que diariamente viesse ali fazer seu trabalho. Rute estranhou que ele tivesse sido tão benevolente para com ela, e Booz respondeu: "Foi-me contado tudo o que tens feito para com tua sogra depois da morte do teu marido; como deixaste os teus parentes, a terra onde nasceste, e vieste para um povo que antes não conhecias". Em seguida ordenou que lhe dessem de comer e, quando estivesse no campo, não só permitissem Rute apanhar as espigas que caíam das gavelas mas deixassem que algumas caíssem de propósito para que ela as apanhasse. Naquele dia, Rute apanhou muitas espigas de trigo e, chegando em casa, mostrou-as à sua sogra. Havia também juntado muita comida que lhe deram do sobejo, a qual deu também à Noemi. Quando contou que aquilo tudo tinha sido colhido na propriedade de Booz, Noemi sentiu viva alegria e contou-lhe que aquele homem era seu parente e muito poderoso em Belém. Em seguida, ordenou a Rute que voltasse a segar no campo de Booz, orientando-a para tentar conquistar o coração dele. Rute prometeu fazer tudo da forma como a sogra lhe recomendou... E de fato o fez. Parece que era uma espécie de "ritual" ou costume, que Booz certamente muito conhecia, e que significaria um pedido de casamento ou, pelo menos, uma apresentação ou pedido de proteção. Quando Booz deu por conta e viu Rute, exclamou: "Quem és tu?" Ao que ela respondeu: "Sou Rute, tua serva. Estende tua capa sobre tua serva, porque és parente". Em seguida, Booz passa a elogiar a boa mulher e lhe prometer fazer tudo por ela, mas por causa de suas virtudes e não por motivos materiais ou egoísticos. Sim, a lei do levirato mandava que a obrigação de casar-se com a viúva deveria recair sobre o irmão mais próximo. Booz sabia que através de Rute passaria a assumir toda a herança da família, que era rica, eles eram os principais herdeiros da tribo de Judá, mas insistia em cumprir a lei: deveria procurar o parente mais próximo de Rute e lhe perguntar se não tinha interesse em desposar a viúva. Para casar-se com Rute, Booz se utilizou de um estratagema: "Foi pois Booz para a porta (da cidade) e sentou-se ali. Vendo passar o parente de que antes falamos, chamando-o pelo nome, disse-lhe: Vem cá por um pouco, senta-te aqui. Ele foi e sentou-se. Então Booz tomando dez homens dos anciãos da cidade, disse-lhes: Sentai-vos aqui. Estando eles sentados, disse ao seu parente: Noemi, que voltou do país de Moab, está para vender uma parte do campo de Elimelec, nosso irmão; eu quis informar-te disso e dizer-to diante de todos os que estão aqui sentados, e dos anciãos do meu povo. Se o queres possuir pelo direito de parentesco, compra-o e fica com ele, mas se te desagrada, dize-mo, para que eu saiba o que devo fazer; porque não há outro parente senão tu, que és o primeiro, e eu, que sou o segundo". O inquirido respondeu que tinha interesse em comprar o campo de Noemi, mas Booz aí acrescentou que era necessário que ele se casasse com a viúva Rute, "mulher do defunto, para que suscites o nome do teu parente na sua herança". Neste caso, o interessado desistiu porque não queria renunciar a dar continuidade ao parentesco de sua família, ele já era um patriarca e não queria desistir do patriarcado de sua estirpe em benefício de outra. Era um costume antigo em Israel entre os parentes, que quando um cedia o seu direito a outro, para a cessão ser válida, o que cedia tirava o sapato e dava ao seu parente, a fim de evitar o que preceituava o Deuteronômio 25, 9-10. Assim, Booz exigiu que seu parente tirasse o sapato e lhe desse, declarando em seguida: "Vós sois hoje testemunhas de que entro a possuir tudo o que era de Elimelec, de Quelion e de Maalon, entregando-me Noemi; e de que recebo por esposa Rute, moabita, mulher de Maalon, a fim de eu fazer reviver o nome do defunto na sua herança, para o seu nome não se extinguir na sua família e entre os irmãos e no seu povo". Foi desta forma que a descendência de Judá não foi mais uma vez interrompida, continuou com Booz gerando Obed, e Obed gerando Isaí (ou Jessé), que foi o pai do rei Davi, de cuja família nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, exatamente em Belém, a mesma cidade onde ocorreu esta história. Eis a razão da história de Rute. É como se ela fosse um elo para dar continuidade ao Patriarcado de uma das mais importantes famílias, da qual sairia o Messias. E como a descendência atingiu seu ponto alto num monarca, ficou assim mais sólida e sem perigo de se desfazer.

Alguns anos depois, nascia numa gruta de Belém o Rei dos reis, amparado nos braços da Rainha-Mãe.

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