SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O homem moderno perdeu o senso de orientação?




Todo ser animal tem senso de direção inato. Trata-se do sentido que o faz saber para onde vai e o que buscar. Alguns têm o sentido de orientação mais aguçado do que outros, mas a maioria o possuem em grau apenas necessário para mover-se em pequenos espaços e poucos deslocamentos. Mas, outros não; possuem sentidos, como os olhos da águia ou o olfato do cão, para sentir e percorrer maiores distâncias sem perder-se. Por exemplo, os gnus viajam centenas de quilômetros na planície do Serengueti, na Africa, por matas, morros e rios, com o fim único de fugir da seca e procurar alimentos. Da mesma forma, há espécies de peixes que nadam centenas e até milhares de quilômetros pelas entranhas do oceano, em profundidades que não lhes permitem sequer alguma orientação com os astros, migrando para áreas longínquas, ou para desovar tranquilamente seus alevinos ou mesmo por causa do clima diferente. Há também aves que voam distâncias enormes em suas viagens migratórias, como, por exemplo, as chamadas “aves de arribação” que atravessam o Atlântico aos milhares, da África para o Nordeste brasileiro, simplesmente para pôr seus ovos e ter suas crias. Depois, fazem a viagem de volta, desta vez com a companhia dos filhotes.

Este senso de direção ou de orientação é essencial para que os animais desempenhem sua limitada e inata auto-regência, possam ter o domínio sobre si que Deus deixou para que cumpram bem seus dias de vida. Mas, apesar de alguns o possuírem de uma forma até sofisticada (como os morcegos, os quais, mesmo cegos, voam e não se chocam contra os obstáculos à sua frente), não há uma só espécie que consiga fazer com que tal senso cresça ou atinja outros graus: tudo o que fazem não são nada senão fruto de sua própria natureza. Quando amestrados pelo homem, alguns animais conseguem pelo método de “reflexos condicionados” aperfeiçoar tais sentidos e realizar algo a mais daquilo com que nasceram. Mas, nada conseguiriam se não fosse o auxílio do homem, pois, por si mesmos só se orientam pelos dons com que foram galardoados por Deus ao nascer.

Quanto ao ser humano, possui o senso de direção ou de orientação que se desenvolve de acordo com cada indivíduo em alto grau, podendo alguns chegar a maiores perfeições, outros ficarem estagnados e outros até mesmo retrocederem em seus atributos inatos. Nosso senso de orientação nos faz seguir para qualquer lugar do universo, seja nas entranhas da terra, no ar ou nas profundezas do oceano, sem que se perca, sem que não saiba para que destino seguir nem para onde voltar. Até mesmo no cosmo o senso de orientação do homem é perfeito, fazendo com que o mesmo possa viajar para qualquer astro (se isso for possível) sem que perca o caminho de volta. É claro que poderá haver situações em que determinado indivíduo, ou mesmo grupo, se perca momentaneamente e não ache seu senso de direção. Mas, isto são situações anormais que ocorrem esporadicamente por causa de fatores que perturbem os sentidos humanos em certo espaço de tempo.

Há pessoas que têm tal senso em alto grau, entrando e saindo em cidades grandes, cheias de ruas, de edifícios e complicados labirintos, guardando em sua memória todo o roteiro de ida e vinda dos lugares; o mesmo ocorre com outros que conseguem guiar-se de uma forma inerrante no meio da mata, ou até mesmo no meio do mar. Mas, há também pessoas que têm tal senso em grau diminuto e não conseguem memorizar com facilidade os lugares que vão, nem como conseguiriam voltar para o ponto de partida. Isso mostra como cada ser humano consegue aprimorar em si mesmo o sentido de auto-regência contido no senso de orientação. Alguns têm, até, certas deficiências naturais que os impedem de ser perfeito nisso. Podem obter êxito se, ao longo dos anos, passarem pelo processo de educação nos chamados reflexos condicionados.

Mas, engana-se quem pensa que tal senso de orientação no homem só funciona para sua locomoção. Este senso é utilizado para muito além do simples deslocar-se de um lugar para outro. O homem possui senso de orientação de seu ser e de toda sua vida. Por exemplo, ele desenvolve tal senso quando pensa em seu futuro ou no de seus filhos, quando procura estudar para uma carreira promissora, quando procura juntar algumas economias para se prevenir para as incertezas do seu porvir, etc. Esta preocupação é uma fase mais avançada do senso de orientação, coisa que os animais irracionais não possuem. E o homem possui esse senso nesta fase assim adiantada porque possui alma, porque tem o elemento espiritual que rege todo o seu ser. E é esse senso que o leva a conhecer em seu interior a necessidade de praticar a virtude da Esperança, pois tudo o que ele pensar em seu interior como preparação para o futuro, seguindo tudo pelo senso de orientação, termina por levá-lo a conceber a necessidade de “esperar” sempre que tudo corra bem: a Esperança torna-se, assim, a certeza do bom êxito naquilo que almeja para o porvir.

A neurofisiologia afirma que todas as funções cerebrais se realizam mediante Atos Reflexos. Inclusive as funções mais complexas que formam a base dos fenômenos psíquicos. São de dois tipos: os Atos Reflexos Incondicionados e os Atos Reflexos Condicionados. Os primeiros são aqueles inatos, já nos acompanham desde o nascimento. Em geral, assim como os animais irracionais, os atos reflexos incondicionados são aqueles que se destinam à nossa própria sobrevivência, o instinto de conservação. Há outros atos, porém, que vão além e se destinam, por exemplo, à nossa defesa, nos orientando para que nos afastemos de tudo o que seja risco para nós ou para aqueles que amamos. E, indo mais além, existem os “atos reflexos de orientação”, que guiam o homem para onde vai, para onde vem, o que vai fazer naquele dia, naquela semana ou mês, ou doravante em toda a sua vida, o que pretende ser no futuro, etc.,

Este “ato reflexo” ou senso de orientação desperta no homem dois outros sentidos externos: o assombro e a curiosidade. O assombro se refere ao maravilhamento pelo belo, o bom e o pulcro. A curiosidade pode levá-lo ao conhecimento, ao saber. Tanto o assombro quanto à curiosidade, e suas conseqüências, como o maravilhamento e a procura do saber, levam o homem ao amor de Deus. No animal irracional, o máximo que tais reflexos ou senso de orientação podem causar externamente é a busca da segurança através do medo, um ato reflexo incondicionado de todo ser animal.

Tais atos reflexos ou senso de orientação se manifestam de acordo com as condições de vida e de educação do indivíduo. Ao selecionar estímulos capazes de produzir reflexos condicionados, o córtex cerebral estará realizando uma atividade de síntese e de análise, necessárias para se alcançar a adaptação indispensável às condições de vida e de equilíbrio com o meio. Seria, portanto, uma atividade psicológica aliada aos estímulos nervosos. E por ser “síntese” e “análise” estão ligadas ao ato de julgar pertencente ao poder de regência. Aí entram em ação também a memória e a consciência.

As pessoas que possuem tal senso de orientação em grau maior do que os demais, usam-no para ser guias, orientadores das outras pessoas, assim como o fazem também os Santos Anjos, nossos regentes e protetores.

Princípio de contradição

Saber analisar, fazer juízo correto sobre o que ocorre, também faz parte deste senso de direção ou de orientação. Pois somente assim o homem poderá pautar corretamente sua vida. E para que analise e se julgue corretamente é necessário que ponhamos em prática o que São Tomás de Aquino chama de “Princípio de Contradição”.

Sempre que se nos apresenta algo perante nós, podendo ser um objeto ou uma pessoa, a primeira coisa que fazemos, o primeiro ato, é deitar o nosso olhar sobre o objeto ou pessoa para fazer um juízo sobre ela, que, de início, pode ser muito sumário; em segundo lugar, vem nossa análise sobre tal objeto ou pessoa, se é bom ou ruim, se é útil ou inútil, se é feio ou bonito, etc., Exercemos nesse momento o uso do “Princípio de Contradição”, segundo explicitado por São Tomás.

O Princípio de Contradição é a noção genérica do ser, da qual depende o primeiro princípio do raciocinar. São Tomás, seguindo Aristóteles, o define como o princípio primeiro e supremo do pensamento. É o princípio de contradição, o juízo mais simples e universal de todos, que se traduz na seguinte verdade: é impossível que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo.


“Por ter a evidência primeira deste princípio o homem é capaz de conhecer e de pensar. Sem percebê-lo, o aplicamos continuamente. Sem ele, não conseguiríamos distinguir o que é do que não é, nem um ser do outro. Não nos daríamos conta que somos diferentes de uma mesa, de um elefante, ou de uma formiga. Um pastor, por exemplo, não poderia saber se ele é um lobo, ou se o lobo é uma ovelha. Não teríamos noção da hierarquia que há entre os seres da Criação; não poderíamos separar o homem da natureza irracional e do cosmo; não saberíamos da existência de um Deus criador, pessoal, transcendente, infinitamente distinto e superior a todas as suas criaturas e que se definiu a Si mesmo dizendo: “Eu sou o que sou” (Ex 3, 14). Tudo se confundiria; nos fundiríamos no pior dos absurdos.

“A partir do princípio de contradição a e das outras evidências primeiras vinculadas a ele, a razão não só conhece a distinção universal entre verdade e erro, senão que é capaz de ir passando do conhecimento de uma coisa a outra. Adquire assim verdades sucessivas, sempre contrastando, explicita ou implicitamente, o que é com o que não; o que é mais com o que é menos; o verdadeiro com o falso”. (1)

Perdendo tais noções o homem perde o rumo de sua vida e fica, portanto, desorientado. Esta desorientação causa crises, torna insolúveis os problemas do dia a dia e leva todos à desesperança. O que anda na cabeça das maiorias das pessoas de hoje é que o mundo não tem mais jeito, tudo está perdido, não há solução para as graves crises da vida moderna. Sendo assim, age-se como os animais no estouro de uma boiada: cada um por si, sem rumo, sem direção e, especialmente, sem guia.

É o que ocorre, por exemplo, na vida social e, especialmente, política da vida moderna, onde nota-se uma completa ausência deste senso de direção, de rumo sereno e seguro da vida político-social. Basta dar uma olhada no que ocorre nas grandes e pequenas nações, nas organizações, nos políticos, na própria vida social das gentes, onde se vê uma total perca de rumos seguros a seguir. Alguns exemplos: o descalabro da situação financeira das nações européias e de uma infinidade de outras espalhadas pelo mundo, as convulsões sociais que fervilham em todos os continentes, com um enorme maremagno de insatisfações que pululam de todos os quadrantes, etc. Até mesmo uma coisa natural entre os animais está faltando nos homens, que é a existência de líderes. Há muitos anos que a humanidade vem padecendo da ausência de líderes autênticos que possam guiar os povos a sair da situação caótica em que se encontra.

Chega a tal ponto essa carência de líderes que o ex-presidente do Parlamento Europeu, Paul-Henri Spaak, que foi também um dos planejadores do Mercado Comum Europeu, declarou a respeito da crise econômica: “Nós não queremos mais um comitê; já temos comitês demais. O que queremos é um homem de influência suficiente para conseguir que todos os povos se aliem e nos tire do atoleiro econômico em que estamos nos afundando. Mandem-nos esse homem, e seja ele Deus ou o diabo, nós o receberemos”. O desespero deste homem paganizado ou pagão chega ao ponto de desejar o próprio diabo como seu guia, desde que seja capaz de resolver a situação econômica que está vivendo.

Ele e outros vão passar a vida toda procurando tais líderes e nunca o vão encontrar, porque no panorama atual as lideranças que aparecem só fazem piorar a situação, haja vista que procuram a solução dos problemas longe de Deus e de Sua Igreja, completamente afastados do caminho que poderá dar à sociedade moderno o retorno de seu senso de orientação. Especialmente se aparecerem lideranças oriundas, não de Deus, mas do diabo como ele desejava.

(1) Suma Teológica, I-II, q. 94, a.2 – ver também II-II, 2.1, a.7

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