SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 17 de junho de 2012

Conselhos de uma mãe católica sobre a prática da caridade




O texto abaixo foi extraído de uma obra escrita por uma viúva, no final do século XIX, em que a mesma dá conselhos a seu único filho órfão. Referido livro foi expressamente recomendado por Santo Antonio Maria Claret como de grande utilidade prática para as mães de família.
 

   Entregar-se todo para todos em aras da Caridade, é entregar-se todo para Deus

Posto que Deus, em sua infinita bondade, não deixa de te dar, não podes deixar de dar a teus irmãos, e não somente dinheiro, porque isso seria muito pouco, mas o amor e o sacrifício de teu coração, na medida em que sua necessidade o exija.
O primeiro que nos vem ao encontro nesta vida é nosso próximo, com defeitos e caracteres distintos. Saber respeitar seu caráter e suportar seus defeitos é o primeiro sacrifício que a caridade exige, nestes termos: Sofre com paciência as fraquezas de teus próximos.

Quem não conta entre seus familiares ou pessoas que o rodeiam, com as quais às vezes lhes é forçoso tratar continuamente, um desses sujeitos insuportáveis que, por muito que se estude uma forma de fazê-los satisfeitos, jamais se consegue; que sempre estão pondo de relevo nossos defeitos, mas que nunca fazem menção de nenhuma boa qualidade que tenhamos? O suportá-los com paciência um dia e outro dia e o não pô-las em ridículo a cada momento é um sacrifício notável e uma grande obra de caridade.

Quando alguém nos injuria e sabemos que com uma só palavra que pronunciemos podemos humilhá-lo e envergonhá-lo ante todos, descobrindo sua má intenção e grande miséria, é um ato de caridade recomendabilíssimo o dominar-nos , o dizer tão somente o necessário, para não nos deixar em tão má situação.

Temos também obrigação de fazer caridade com nosso talento, se Deus nos deu, usando-o para o ignorante e proporcionando-lhe idéias dignas de um cavaleiro cristão. Esta obra de caridade, em sociedade, apresenta-se com frequência ocasião de praticá-la. O evitar quando alguém diga alguma bobagem e compreendemos que cai em ridículo, aquele que se apodera de sua ignorância e a ponha em relevo com desapiedada burla, o sair ao encontro com mil indústrias, que nunca faltam à pessoa de bom trato para dar outro sentido à conversação, quando se trate de humilhar ou desacreditar alguém, isto é uma obra de caridade muito necessária de praticar-se quando há pessoas prontas que usam toda a travessura de sua imaginação em ver, como um microscópio, os defeitos dos demais, para por-se em evidência e burlar-se deles. O talento nestes indivíduos é como a beleza numa mulher leviana, um mal muito grande para ela e pior para os que a rodeiam.

Muitos crêem que quando uma pessoa é toda boa encontra só o bem nos demais, porque sua bondade não sabe ver nada mau, e tal não existe, porque não é possível ser ágil e tonto ao mesmo tempo; por boa que seja uma pessoa, se tem talento vê muito claro os defeitos dos demais, mas tem caridade para compadecê-los e para desculpá-los no possível.

Caridade é, em sociedade, quando se encontra uma pessoa antipática que ninguém faz caso, que parece que todos fogem dela sem lhe dar um instante de conversação, sobretudo se compreendemos que o isolamento tem por causa a pobreza, ou que não está elegante; pois o mundo é miserável até esse ponto. Queixam-se todos, mas os homens em particular, do luxo das mulheres, que é sua ruína, e, sem embargo, se uma delas apresenta-se numa reunião decentemente vestida, mas muito modesta e simples, isto basta para que aquela noite ninguém faça caso nem se ocupe em favorece-la, que digo, favorece-la! Até evitam no possível em lhe dar as atenções devidas.

Desejo que, filho meu, não sejas néscio, encomendo-te muitíssimo; quando uma pessoa vale, faça-a muito caso e tenha-a muito respeito, o mesmo estando só ou acompanhada, estando elegante ou pobremente vestida, se é rica ou indigente e, sobretudo, se os demais a louvam ou a desprezam, porque em agir assim não é caridade mais que justiça, e o obrar de outra maneira é uma grandíssima miséria que demonstra cabeça vazia e um coração muito ignóbil.

Caridade é, nesses dias em que o mundo se dedica por completo às diversões, como carnaval, etc., dedicar uma lembrança a essas famílias que estão de luto e que o ruído do mundo aumenta sua tristeza. Justo é deixar o passeio e o teatro para ir visita-las, procurando distraí-las um instante de seu sofrimento e proporcionando-lhe assim o consolo de que vejam que nem todos os amigos se esquecem de que elas choram enquanto os demais riem, e se estas famílias são pobres muito mais, porque seguramente a gente do mundo cuidará menos de consolá-las.

Caridade é quando temos multidão de assuntos particulares que nos pede pressa despachar e naqueles momentos chega alguém a nos contar largas histórias de seus sofrimentos, ao vê-lo aflito dominar nossa impaciência e ouvi-lo com afabilidade e doçura, procurando esquecer nossos problemas para ocupar-nos dos seus por violento que nos seja.

Caridade é, e das maiores, quando topamos com um caráter violento e dominante, que está sempre pronto a estourar e cometer grandes faltas, o estar disposto a sofrê-lo e calar sempre, para não ser causa que se exaspere e ofenda a Deus, fazendo mal ao mesmo tempo à sua alma.

Caridade é, quando uma pessoa nos dá motivos de sobra para odiá-la pelo mal que nos vem fazendo, o perdoá-la e pedir a Deus que a perdoe e a ilumine; o não falar a todas horas dela e do prejuízo que nos vem causando, e o tratá-la quando nos encontramos com ela, se não com doçura ao menos com cortesia.

Caridade é estudar os gênios das pessoas que nos rodeiam a fim de ter paz com todas e evitar assim cenas desagradáveis, das quais sempre resulta o ofender a Deus, que é o que sempre devemos evitar.

Numa palavra, filho meu, caridade é chorar com o que chora, gozar com o que goza e dedicar quantos dons de Deus recebemos para seu santo serviço e o serviço de nossos irmãos, buscando sempre os meios de proporcionar consolo em suas penas e remédio em suas necessidades com o mesmo afã com que buscamos remédio para nós mesmos. Esta é a única maneira de poder cumprir o grande mandamento de “Amar ao próximo como a nós mesmos”, a cujo cumprimento vai vinculado, como vimos, a salvação de nossa alma, que consiste em fazer que Deus nos ame nesta vida, para que depois possamos nós amá-lo eternamente na outra.

Bendita seja a caridade! É uma forte cadeia de dulcíssimo amor que,  atando-nos com os pobres nesta vida e confundindo-nos com eles, fará que, cobertos com seus rogos e sofrimentos, possamos entrar no reino dos Céus, com o que teremos recebido deles o cento por um na terra, pelo gozo que nos proporciona o consolá-los, e depois a eles lhes deveremos, como nos foi oferecida, a vida eterna!
(Traduzido para o português do livro “La Voz de una Madre”, de Maria de los Dolores del Pozo y de Mata, Estab, tipográfico de J. Famades, Barcelona, 1895)


Assim se expressou Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre esta virtude:
“I – N. S. Jesus Cristo quis que amássemos ao próximo como Ele nos amou. Decorre daí que os doentes, os fracos, os pobres, os infelizes, têm um direito especial a nosso amor. O que, por sua vez, obriga os poderosos, os ricos, os saudáveis, os felizes, a renunciar a qualquer egoísmo ou orgulho, para servirem com afeto e despretensão, àqueles sobre quem têm superioridade ou vantagem. Esse princípio foi plenamente aplicado na Idade Média. Não conduziu a um igualitarismo louco, mas levou, dentro da sociedade mais aristocrática e hierarquizada que a Europa tenha conhecido, reis e rainhas, príncipes e princesas, a se curvarem reverentes e servirem com carinho a simples leprosos, tidos em horror por todos.

II – Entretanto, a tendência de nossa natureza, afetada pelo pecado original, é outra. Sem a luz da doutrina de Cristo, o homem oprimiria naturalmente os mais fracos, fugiria dos infelizes e teria em horror os doentes. Prova-o a História. Antes de Cristo, a opressão do fraco e o desprezo ao infeliz e ao doente eram a regra geral de que só se excetuava o povo eleito. O amor pleno e desinteressado do próximo só pode medrar onde medra a Igreja, e fenece onde a Igreja é oprimida.

III – A Lei de Cristo é uma lei de Amor. A lei do homem que não é cristão – e portanto pagão – é a lei da força. E assim como aqueles que admiram a Lei do Amor tendem a amar e crer no seu Divino Autor, assim também aqueles que apostatam do Amor para servir à Força tendem a aceitar a apostasia completa, isto é, a renúncia a Cristo, e implicitamente a paganização. Porque não há meio termo: quem não é cristão é pagão.

IV - Um estudo acurado demonstra que o princípio do predomínio da força está na medula do pensamento de Lutero, dos demais pseudo-reformadores e dos enciclopedistas. A despeito de aparências em sentido contrário, é esta a realidade. Desde que a sociedade ocidental rompeu com a Igreja, sua história pode ser descrita, em última análise, como a substituição gradual da Lei do Amor pela da força. E isto não apenas nas relações entre pobres e ricos, poderosos e oprimidos, etc., mas até entre as nações  [1]





[1] in “Legionário’, 23.10.38

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