SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quinta-feira, 19 de abril de 2012

EDUCAÇÃO MORAL



                                          Amélia Rodrigues

 Trata-se de notável escritora e dedicada educadora católica, nascida a 26 de maio de 1861 na localidade chamada Oliveira dos Campinhos, na época pertencente ao município de Santo Amaro, Bahia.

Iniciou sua atividade intelectual como poetisa, publicando, ainda jovem, vários poemas em diversos jornais da capital baiana. No entanto, foi  como educadora da juventude que mais se destacou, tendo escrito vários contos de caráter cívico e religioso. O seu intuito sempre foi o de instruir a juventude de seu tempo, tendo escrito também dramas sacros.

Escritora católica, tinha grande sensibilidade e discernimento para os grandes problemas que atormentavam a humanidade de seu tempo. Quando a Primeira Guerra estava em seu auge, exatamente no mesmo mês que Nossa Senhora aparecia aos pastorinhos em Fátima (maio de 1917) publicava ela um artigo na revista "A Voz" do Rio, sob o título de "Aos pés de Nossa Senhora", em que dizia: "Ainda este ano surge maio no meio da agonia universal... Apenas um ponto luminoso oferece ao mundo o mês das flores: o altar de Maria...".

Fundou em Salvador o “Instituto Maternal”, considerada uma das melhores escolas da época. Dedicou-se ao jornalismo, tendo sido co-fundadora da revista “Paladina”, da Liga das Senhoras Católicas. Fundou também a revista “A Voz”, de circulação nacional, e publicou diversos artigos e poesias em outras publicações como “O Pantheon”, “O Álbum”, “A Renascença”, “A Tarde” e “O Livro”. Em algumas destas publicações usou o pseudônimo de Juca Fidelis.

No final de seus dias, Amélia Rodrigues mudou-se para o Rio de Janeiro, indo residir em Niterói, onde passou a participar ativamente do Movimento Católico Feminino, como dirigente da Liga das Senhoras Católicas. Mesmo deixando tal cargo depois, deram-lhe o título de Presidente Honorária, tal o prestígio que detinha.

Poucos anos depois, em 1926, teve que viajar para a Bahia, onde veio a falecer no dia 22 de agosto daquele ano.

Dentre as obras de caráter educativo de Amélia Rodrigues, destacam-se "Mestra e Mãe" e "Do Meu Arquivo". Esta última é um compêndio de seus principais contos, todos de caráter moral e instrutivos. Quanto à "Mestra e Mãe", assim se refere um seu discípulo sobre o mesmo:

"Quase no findar do século, 1898, Amélia Rodrigues edita o seu excelente livrinho "Mestra e Mãe". Elaborou-o para fins de educação cívica e moral. Na verdade, trata-se de um livro que, além de atender à sua finalidade deixa-nos a impressão de que a história nele contada traduz, afinal, parte da própria vida da autora. No seu pórtico, lê-se a seguinte advertência, dirigida "às jovens brasileiras", cujo sentido define a formação de quem a escreveu. Leiamo-la:

"Escrevi este livro, queridas meninas, para auxiliar vossos pais e vossos mestres na doce tarefa de fazer-vos amar a virtude e a instrução.

Saiu de meu coração e vai para o vosso, sem preocupações de estilo, sem pretensões de mérito, nem ambições que não sejam as de contribuir, pouco que seja, para o vosso bem. Lede-o, se vos agradar, mas com a intenção de tirar dele algum fruto. Sabeis que não se podem cultivar flores sobre rochas duras. Assim também nenhum  bom conselho vos aproveitará se o vosso coração for intratável e indiferente como a pedra.

Não! Não o será! Trabalhareis com vontade, com afinco, no vosso aperfeiçoamento moral e conseguireis ser boas, e sereis a glória de vossa família, a honra do vosso sexo, sereis dignas cidadãs de nossa grande Pátria, que de vós espera a geração futura!"

São palavras repassadas de brandura, de meiguice e de ensinamentos bons E o livro foi todo escrito assim. Em suas páginas, impregnadas da alma de Amélia Rodrigues, desdobra-se a história de uma professora. Mulher boa e ilustrada que se tornou amada e respeitada. D. Mercês, é o seu nome, e a sua trajetória na obra sugere autobiografia. Aos que mais de perto conheceram Amélia Rodrigues, a analogia de caráter, humildade, propósitos de bem servir no magistério e, sobretudo, de amor ao próximo, notadamente à infância, entre a heroína e a narradora, não escapará ao reparo. E ainda há um preeminente atributo que acentua a verossimilitude do modelo: é o amor ao Brasil.

É o fenômeno que ocorre freqüentemente nos escritores de obras de ficção, o surgir de uma ou mais personagens identificadas com o autor. E isso se dá de caso pensado ou por simples ação do subconsciente.

O livro "Mestra e Mãe" bem merece um estudo mais acurado no sentido de deduções psicológicas necessárias á biografia da grande educadora"

(Aloysio Guilherme da Silva, in "Amélia Rodrigues - Evocação", Editora Livraria São José, Rio, 1963 - págs. 23/24)..


O texto abaixo foi extraído de uma das obras de Amélia Rodrigues, e nele se reflete a visão de uma verdadeira educadora, pela qual é impossível haver educação sem moral, e moral sem religião.

Educação Moral

Que bela coisa uma boa escola, minhas caras leitorazinhas! Uma sala grande, arejada, clara, cheia de carteiras, de mapas, de quadros, de tudo o que se  torna preciso para facilitar o ensino, e cheia também de crianças alegres, robustas, que querem aprender e que aprendem... que bela coisa é!...

A mestra fala, as crianças escutam, pendentes dos lábios dela, para recordar e repetir depois em casa, às mamães, tudo ou quase tudo o que ela disse, o que ela ensinou... que lindo espetáculo!

Felizes crianças, estas que vão à escola e que aproveitam nela. As outras, as que ficam em casa sem estudar, são infelizes, porque grande desgraça é não receber instruções nem educação, viver no cativeiro medonho da ignorância. Merecem lástima essas crianças.

- A instrução é a luz; a ignorância é a treva, é a cegueira do espírito.

Entretanto, para que essa luz seja um verdadeiro bem é preciso que a acompanhe, que a preceda mesmo, uma sólida educação moral.

Homens e mulheres há, infelizmente, que sabem muito, têm talentos, cultivam ciências e artes e impõem-se até à admiração de todos, mas que praticam péssimas ações, abrigam sentimentos  vis e são a vergonha dos homens de bem. Por que?... Porque lhes faltou uma boa educação moral.

Acima, muito acima desses monstros com asas de águia, estão aqueles que, não brilhando embora pelos preciosos dotes do saber ou da inteligência, possuem, contudo, o cabedal de honradez, do caráter, da virtude. Os primeiros excitam somente a admiração; os segundos inspiram estima e confiança.

Onde haurir, porém, a verdadeira, a sólida, a pura educação moral?... Eu vo-lo responderei. Prestai-me atenção.

Assim como o fruto vem da flor, assim a verdadeira moral vem, necessariamente, logicamente, da vida religiosa. Não pode haver moral sem religião; e vice-versa.

Nem demanda grandes arrazoados a prova disso. Bastará um pequeno raciocínio.

O cumprimento do dever é quase sempre um sacrifício; ora, a não haver uma força mais elevada que obrigue o homem a vencer a sua natureza para cumprir o dever, ele nunca,  nunca o poderá fazer perfeitamente, sobretudo com desinteresse e com satisfação, se alguma vez o fizer. A religião é essa forma imensa, miraculosa, sobrenatural.

Tem incentivos para os fracos, doçura para os fortes, consolações para todos. É o laço vigoroso que nos prende ao Bem. Quebrado esse laço, a alma facilmente foge ao sacrifício, parecendo-lhe insuportável a cadeia do dever.

As provas disso abundam e têm abundado sempre. Grandes criminosos têm confessado no cadafalso ou no cárcere, que uma educação sem Deus é a que os levara à malvadez e à desgraça. Em tese é isso o que se dá.

A ideia de Deus eleva os pensamentos para o alto, para as santas ambições de uma vida melhor, de uma vida eterna, arrancando-o à lama da terra. As mesmas desgraças, as misérias da vida, perdem a sua foca destruidora quando batem no rochedo da fé. A fé traz a esperança e traz a caridade, o amor!

Uma chamada “moral utilitária”  ou “independente” – moral sem Deus, sem vistas largas para a eternidade – é falsa, absolutamente falsa, porque não se baseia em fundamentos duráveis, e, estando sempre sujeita ao vendaval  das paixões, fica por isso arriscada e exposta a interpretações errôneas, de acordo com o interesse individual, para satisfação dos gozos, que a natureza animal está sempre a exigir.

A base mais segura da moral é, pois, o catecismo cristão, porque pregar os bons costumes sem apontar para Deus é escrever na areia, falar de sacrifícios sem levantar os olhos para Jesus Cristo, o divino Crucificado, é pretender gravar letras em pedra com a ponta do dedo. Todo o piloto quer um rumo, todo o problema uma solução, e para esta luta titânica do bem contra o mal não são armas seguras as ideias vagas, indecisas, a flutuarem nas ondas da dúvida, a se abismarem no vazio da negação, que nada resolvem e nada deixam em troca das esperanças e das consolações que arrebatam.

Eis aqui, a respeito, alguns trechos de um discurso que Vitor Hugo, o grande poeta francês, pronunciou no Senado, defendendo a educação religiosa:

“Há uma desgraça em nossos tempos, e quase direi que é a única desgraça: é a tendência a reduzir tudo a esta vida. Dando-se ao homem por único e melhor destino a vida terrena e material, se agravam todas as suas misérias com a negação do que é superior; à opressão dos desgraçados agrega-se o peso insuportável do – nada; e nisto está a origem das profundas convulsões sociais... Oh! Como a nossa miséria se diminui, quando nos consola uma esperança sem fim – Deus!

Deus se mostra no fim de tudo.

Não o neguemos e ensinemo-lo a todos; não haveria dignidade alguma em viver, toda a vida nada valeria, se nos devêssemos aniquilar para sempre, se nos esperasse uma morte eterna.

O que alivia as nossas tristezas, o que santifica o trabalho, o que torna o homem forte, sábio, paciente, benévolo, justo, a um tempo humilde e grande, digno da inteligência, digno da liberdade, é conservar em si, profunda e arraigada, a perpétua visão do mundo melhor, que brilha através das trevas desta vida – o Céu!”

Que belíssimas palavras!...  Que grandes verdades exprimem elas!... Sim, queridas leitoras, sem Deus não há, não pode haver virtude nem verdadeira moralidade. Haverá cálculo, quando muito.

Ficai, pois, certas disso: educação a que faltar a base sólida, incorruptível e poderosa da religião, será uma educação manca, toda de aparências somente, mais ou menos como um bonito palacete de papelão dourado, rendilhado, que um louco mandasse fabricar para abrigar-se dentro. À primeira rajada de temporal, zás, palacete no chão.

Portanto, minhas boas cidadãs, nada de aparências somente, nada de roupagens de ouro a encobrir corações de lodo. Educação modelada pelas normas sublimes do Evangelho – normas que nenhum sistema filosófico pôde jamais nem poderá igualar nem substituir -, sentimentos morais a nutrir-se com a seiva vigorosa da fé – eis as raízes inabaláveis do dever, eis aí a verdadeira educação moral, sem a qual a instrução será mais prejudicial do que útil, sem a qual o homem não pode ser senão desgraçado por mais que procure a felicidade neste mundo, quase sempre injusto e cruel.

- E correu-me a pena para esta disgressãozinha, ao falar de uma boa escola pelo seu lado material. Haveis de perdoar-me. É que para mim o lado material das coisas é o menos importante, e a melhor escola será, não a que mais provida for de apetrechos pedagógicos, porém a que melhor cidadãos formar; não a que maior soma de conhecimentos der, porém a que mais virtudes incutir.



(Extraído de “Mestra e Mãe”, de Amélia Rodrigues, págs. 39/43)









                                       


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