segunda-feira, 23 de março de 2026

A AURORA DA CONFIANÇA EM NOSSA SENHORA

 

                                               (Revista Dr. Plínio, 67, outubro de 2003)


 Extratos de conferências dos anos 1984, 1987 e 1989, publicadas na “Dr. Plínio”, n. 2, maio de 1998, seção “Gesta marial de um varão católico”, pp. 4-7.[1]

Um achado providencial

 

Dr. Plínio relata como se tornou escravo de Maria

No meu tempo de menino, por vezes eu pensava no Céu. Tais cogitações estavam intimamente relacionadas com aquela graça a mim concedida por Nossa Senhora Auxiliadora, num difícil período de minha infância (cf. artigo “Salvai-me Rainha”, no 1º número desta revista). De fato, essa especial manifestação da misericórdia de Maria para comigo, me fez compreender o papel da bondade d’Ela na existência humana. Daí nasceu em minha alma o intenso desejo de me unir a Ela, espiritualmente, até o fim de minha vida.

 

Como será o Céu?

Então, imaginava eu o seguinte: “No Céu, Nossa Senhora é Rainha Mãe. Ora, os reis e as rainhas da Terra têm cada um sua corte. Portanto, no Céu há de existir também, numa situação cercada de honra, de respeito, embora um pouco colateral, a corte da Rainha Mãe. Esta corte deve ser um tanto secundária, pois não é a que adora diretamente a Deus, senão por meio de Nossa Senhora. Além disso, ela deve ser constituída de almas menos importantes, assim como a corte de uma rainha mãe é compota de cortesãos, digamos, de segundo nível. Seja como for, eu, indo para o Céu, quero fazer parte da corte da Rainha Mãe. De momento não sei dizer por que, mas tenho certeza de que passarei minha eternidade entre os cortesãos da Virgem Santíssima. Quem sabe quando eu ficar mais velho encontre explicação para isso...”

Entretanto, a ideia da Rainha Mãe, de tal maneira se desenvolveu que, sem eu me dar conta, a metáfora ficou ultrapassada. Compreendi que Nossa Senhora era muito mais do que uma rainha mãe. A comparação se verificara primitiva, contendo apenas uma semelhança com a realidade, e não uma efetiva analogia.

Essa constatação tornou-se mais viva no meu espírito quando, já então homem de 22 anos, li o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís Grignion de Montfort. À medida que eu percorria aquelas páginas, com transportes de entusiasmo fui tomando conhecimento da admirável doutrina nelas exposta. Fazia-o na concordância eufórica de minha alma, de modo que cada linha era uma nova razão de arroubamento, mas, ao mesmo tempo, era como se eu já tivesse pensado tudo aquilo.

Intercessão de S. Teresinha

Uma circunstância banal esteve na origem da leitura que fiz desse livro. Era eu muito devoto, e ainda sou, de S. Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, li a Histoire d’une âme (Hoistória de uma alma) – autobiografia de da sua vida espiritual – e fiquei profundamente impressionado. Compreendi que eu devia fazer algum progresso na minha própria vida espiritual, sem entretanto saber bem qual era. Encontrava-se numa fase em que já tinha realizado alguns avanços, e não podia ficar estagnado. Ir para a frente era-me imperioso, pois constituía para mim uma necessidade de alma.

Sabendo eu que, pela intercessão de S. Teresinha, obtinha-se grande número de graças no mundo inteiro, resolvi pedir-lhe duas de que eu mais carecia.

A primeira, que me fizesse encontrar um bom livro, desses cuja leitura enriquece o espírito e marca uma vida.

Em segundo lugar, pedi a S. Teresinha algo muito diferente: ganhar na loteria... O bilhete que eu comprara oferecia um prêmio máximo de 400 contos. Para época, esse montante correspondia a um excelente patrimônio, com o qual eu poderia leva uma vida tranquila dentro dos meus padrões.

Qual a razão de pedir esse dinheiro? É que eu não queria ter preocupações profissionais, a fim de dedicar todo o meu tempo ao apostolado católico em que estava empenhado.

Bem, quanto aos 400 contos, ainda os estou esperando... Não chegaram. O livro, porém, pouco depois o encontrei.

Na Rua Martim Francisco, em São Paulo, erguem-se alguns edifícios dependentes da Igreja do Coração de Maria. Num desses prédios abre-se uma porta pela qual, outrora, se tinha acesso ao interior do convento dos padres claretianos, bem como para a livraria que eles ali possuíam.

Quantas e quantas vezes, passando diante daquela porta, tenho agradecido a Nossa Senhora! Olho aquela entrada com amor, porque tem relação próxima com um grande acontecimento de minha vida, ao qual estimo como algo presente no centro do meu coração. Mais do que isso, eu só quero o meu Batismo e a minha Primeira Comunhão.

 

O encontro com o Tratado

De faro, foi visitando essa livraria que encontrei um pequeno livro, escrito em francês, impresso de modo muito agradável, em caracteres pretos e vermelhos. Seu autor me era desconhecido: Bienhereux Louis Marie Grignion de Montfort. Um Bem-Aventurado...

“Mas, o que me dirá esse livro? ‘Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge’ – Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Quem sabe não é o livro suscitado por S. Teresinha?”

Coloquei-o de lado e passei a examinar outros, para ver se mais algum me interessava. Encontrei um do qual também não tinha ouvido falar, e fiquei na dúvida se levava este ou aquele. Na incerteza da escolha, folheei novamente o Tratado, achando-o muito bem impresso, atraente e agradável de ler. O outro, um calhamaço feio e indigesto. Enfim, por esta simples razão – pensava eu, sem perceber que S. Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Mandei embrulhar e fui embora.

Ao chegar a casa, desembrulhei o pacote, sentei-me e comecei a ler. Logo percebi que tinha encontrado o livro de minha vida! Até então, não fazia ideia de que um livro pudesse exercer sobre mim o efeito que esse exerceu.

Segundo um antigo hábito, não iniciei a leitura a partir da primeira página, mas abri o Tratado em qualquer lugar, do meio para o fim. Achava que um livro tornava-se bem mais interessante quando havia alguma coisa nele para se adivinhar. Então, lendo-o do meio para o fim adivinha-se como é o começo. Depois o leitor confere se, de fato, o início corresponde ao que dele se imaginou. Sempre me agradou agir dessa maneira em relação aos livros que eu lia.

Com o Tratado, porém, foi diferente. Ao folhear duas ou três páginas, pensei: “Este livro é diferente de qualquer outro, não se pode ler assim. Tem que ser desde o começo, porque é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!”

Foi uma leitura demorada, porque feita muito devagar. O Tratado devia ser estudado ponto por ponto, como se faz com um difícil livro de faculdade. E assim procedi: relacionei pontos, tomei notas, e cheguei até a compor uma ladainha de invocações a Nossa Senhora, sugeridas pelo texto de S. Luís Grignion.

É um portento de livro, baseado que há de melhor em matéria de Teologia, aprofundando largamente, e com elevadas vistas, a doutrina sobre Nossa Senhora. De maneira que o leitor adquire uma boa noção a respeito das excelências de Maria Santíssima, do que Deus teve em vista criando-A, do papel da santidade d’Ela e de sua perfeição de alma na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como no plano da Redenção, no Colégio Apostólico e na Santa Igreja, por todos os séculos.

Assim, cada vez mais encantado, fui percorrendo e estudando ponto por ponto o Tratado da Verdadeira Devoção.

 

O Reino de Maria

Em certo momento, percebi que o livro cintilava labaredas a propósito de um assunto que nunca visto ninguém tratar, e que me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria.  Logo compreendi que esse Reino era a meta para onde minha alma e todo o meu ser voavam!

Entusiasmou-me sobremaneira a descrição que faz S. Luís da perfeição e do auge de santidade que as almas atingirão nessa era marial. Mais do que tudo, arrebatou-me a ideia da necessidade da Sagrada Escravidão de amor a Nossa Senhora, para agradá-La e entregar a Ela tudo quanto alguém Lhe possa dar.

 

Escravidão?

Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela!

Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!”

Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano.

Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.

Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”.

No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez.

 

Um propósito para toda a vida

Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e  por d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort.

Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer  por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.

São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.[2]




[1] O texto publicado nessa edição da revista “Dr. Plínio”  foi estampado na obra "Opera Omnia" à página 337, sob o título de AURORA DA CONFIANÇA.

[2] Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404

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