O clima do amor livre
pode levar ao desespero?
O crime mais comum, hoje em dia, decorre do
adultério. Em geral, o homem mata a sua mulher (nem sempre a esposa) para se
vingar da traição dela, e depois se suicida. Mas, há variedades trágicas nessa
loucura: às vezes é a mulher que mata o homem, e noutros casos matam também os
filhos. Há casos dos pais de mulher matar o homem que a maltrata, e também de
filhos matar o pai. Enfim, é um verdadeiro torvelinho de maldades, vinganças e
ódios, ocasionados todos por causa da traição no relacionamento amoroso ou,
simplesmente, o adultério. Assim falou São Nilo sobre o nosso tempo: “A luxúria, o adultério, a homossexualidade,
as ações secretas e a morte serão a regra da sociedade. Nesse tempo futuro,
devido o poder de tão grandes crimes e de uma tal devassidão, as pessoas serão
privadas da graça do Espírito Santo, recebida no seu batismo, e nem sequer
sentirão remorsos”.[1]
Eis a explicação resumida do que decorre do que
disse São Nilo: a graça do Espírito Santo nos vem como uma bênção divina por
causa de nossa fidelidade aos Mandamentos da Lei de Deus; no entanto, por causa
dos crimes, dos pecados sociais principalmente, ficamos privados dessas bênçãos
e sujeitos às maldições. É o que vem ocorrendo nos dias atuais.
Talvez o pecado social mais terrível seja o do
adultério, pois atrai tais maldições que chega a provocar assassinato e suicídio.
No Antigo Testamento, desde o tempo de Moisés, é recriminado como um pecado
sujeito às maldições divinas e terríveis castigos. A mistura da idolatria com
os princípios divinos era chamada pelos Profetas de “adultério”, o que seria o
mesmo que sincretismo. O adultério sempre foi tido como a simples traição dos
esposos, mas nas Escrituras era usado como metáfora para simbolizar a mistura
de crenças ou a traição a Deus, como consta em Esdras (9, 1-2) e em outros
lugares comparado com a prostituição, principalmente no livro de Oséias (Os 1,
2): “a terra de Israel não cessa de se prostituir, abandonando o Senhor”.
Tornou-se comum nas Escrituras os profetas
referir-se à prevaricação do povo eleito, comparando-a com a prostituição ou o
adultério. O Profeta Ezequiel foi um deles: “E
aconteceu que depois de tanta malícia tua (ai de ti, diz o Senhor Deus),
edificaste para ti um lupanar, e fizeste para ti em todas as praças públicas
uma casa de prostituição. Puseste à entrada de todas as ruas o sinal da tua
prostituição..” (Ez 16, 23-25).
O Profeta Jeremias também usa a metáfora: “E embora tivesse visto que eu tinha
expulsado a rebelde Israel e lhe tinha dado o libelo de repúdio, não teve temor
a prevaricadora Judá, sua irmã, mas foi-se, e também ela se prostituiu, e com a
frequência de sua prostituição contaminou toda a terra, e adulterou com a pedra
e com o lenho (adorando-os como deuses)”
(Jer 38, 8-9).
Um exemplo que demonstra a comparação da
infidelidade do povo a Deus com a de uma mulher adúltera temos também no
Profeta Oséias (Os 2, 25), embora este tivesse vivido antes do cativeiro da
Babilônia, ao tempo do cisma de Samaria.
No Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo disse o
seguinte sobre o adultério: “Sabeis do
mandamento dado aos antepassados: Não adulterarás; Mas eu digo-vos: Quem olhar
para mulher com mau desejo, já cometeu adultério no seu coração”. Não só
isso, disse mais que se um órgão escandaliza é melhor cortá-lo “porque mais vale perder a vista ou a mão do
que ir com todos os membros para geena do fogo” (Mt 5, 28-30), isto é, o
inferno. Condenou também o divórcio, autorizando a separação dos esposos apenas
em caso de infidelidade, mas sem se contrair novas núpcias... São João Batista
fez o mesmo ao increpar duramente os adúlteros Herodes e Herodíades que
escandalizavam a nação.
De tal forma o pecado de adultério é visto hoje
como coisa normal, sem qualquer rejeição social, que as redes sociais brincam
com enredos deste tipo, dando risadas, mostrando casos e mais casos de
traições, alguns terminados em tragédias, mas a maioria em paz e harmonia, às
vezes até com a permanência da amizade entre aqueles que se viram traídos.
Muitos se vangloriam de permanecer amigos do consorte que o largou,
manifestando satisfação em dizer que frequenta sua casa e familiares. Assim, se
cria um clima social inteiramente conivente e de aceitação pacífica do
adultério. É claro que nada justifica os atos tresloucados dos que se vingam
com ódio. Um erro não justifica outro. O que não deve ser aceito é esse clima
falso e hipócrita de convivência social com quem pratica tais pecados de uma
forma acintosa e pública.
O que resulta disso tudo? A prática do amor livre,
isto é, aquela situação em que qualquer união matrimonial pode ser justificada,
desde que haja “amor” entre os dois. O que seria este amor? Apenas as sensações
românticas dos enredos das novelas e nada mais. O gozo dos prazeres é o ponto
máximo deste “amor”, daí ninguém aceitando sofrer nada por causa desta
convivência amorosa. Sofreu? Vingança imediata conforme o sofrimento.
Os crimes deste tipo, seguidos de suicídios,
nada mais são do que desesperos causados pelo romantismo, frutos deste falso
amor. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, tópico 2400, “O adultério e o
divórcio, a poligamia e a união livre são ofensas graves à dignidade do
matrimónio”.
Ao longo dos anos foi sendo alimentado na população um desejo incontido de amor romântico, muitas vezes até platônico, criando a utopia de certa felicidade no gozo dos prazeres, sentido com a convivência entre um casal. Vamos falar dessa convivência.
A convivência social
começa no casamento
Uma das coisas primordiais para o aperfeiçoamento humano é o
convívio social. E será pelo convívio que as pessoas poderão mais facilmente
aprender como ser regidos, co-reger ou mesmo reger a sociedade em que vivem. Conviver
é o mesmo que “viver com”, ter uma vida participativa com as pessoas de seu
relacionamento mais próximo, e, às vezes, até mais afastado. O homem nasceu
para viver em sociedade, mas não somente na sociedade terrena, pois faz parte
do nosso convívio também todos aqueles que vivem na eternidade, embora de uma
forma diferente.
O primeiro relacionamento social, o princípio básico de se
relacionar com outro ser é o que diz respeito ao próprio
Deus. Então, quando estamos próximos de Deus em nossos pensamentos,
em nossas orações e nos atos, cumprindo seus mandamentos e O adorando como Ele
merece, O amando como Ele é amável, estamos iniciando um convívio que não é
meramente terreno, mas celeste. Sempre que meditamos coisas divinas, nosso
coração sente o palpitar da centelha divina, que nos alimenta com coisas boas e
nos dá segurança nos nossos juízos interiores e em nossas decisões. É Deus
agindo em nosso interior, em nosso íntimo, no âmago de nossa alma,
relacionando-Se conosco. É assim que convivemos com Deus em nosso
interior.
Mas, o convívio com Deus pede que seja feito não somente com o
Pai, mas também com o Filho e o Espírito Santo, pois são estas três Pessoas
Divinas que compõem a divindade. Assim, precisamos nos deixar levar pelas
inspirações do Espírito Santo e, ouvindo conselhos sábios de irmãos mais
santos, participando de atividades apostólicas benfazejas para o Corpo Místico
de Cristo, que é a Igreja, poderemos dessa forma ter uma convivência com o
Espírito Santo. Depois disso, obedecendo às mesmas inspirações d’Ele, fazemos
nossa confissão a um Sacerdote, uma convivência interior e íntima entre nós e o
representante de Deus com poderes de perdoar nossos pecados, e ficaremos
prontos para conviver com o Filho, indo à igreja e recebendo-O na Hóstia Consagrada.
Até aqui podemos dizer que temos a convivência interior com a Santíssima
Trindade. A palavra “convivência” pode não ser adequada para definir essa
situação, pois a doutrina católica diz que a graça divina nos traz a nós como
que uma participação na vida divina, trata-se de algo mais profundo do que uma
simples convivência. Para completar essa abençoada convivência, nada melhor do
que a devoção à Nossa Senhora e a São José, que do Céu nos dirigem, nos
protegem e até nos ensinam a viver a convivência perfeita com Deus.
De outro lado, a convivência humana não pára aí. Pois
Deus quer que convivamos com todos os seres por Ele criados, os Anjos e os
homens. Estes últimos estão facilmente ao nosso alcance, pois alguns ainda
vivem ao nosso lado nessa vida terrena. Quanto aos Santos Anjos, a convivência
terrena com eles é meramente espiritual, vez por outra alentada por uma ação em
nossa vida que nos faz senti-los mais de perto. Rezando a eles pedindo suas proteções,
orientações, conselhos, governo, etc., estaremos estabelecendo uma profícua
convivência angélica. Embora seja mais sentida interiormente, ela se
refletirá em toda a nossa vida e atuação terrena. Por causa disso os santos
dizem que os Santos Anjos formam com os homens uma só sociedade, onde há
convivência recíproca entre todos os que dela participam, anjos e homens.
Depois, temos a convivência com os próprios homens, entre nós
mesmos, mas não só aqueles com os quais vivemos neste mundo, mas com aqueles
que partiram para eternidade. Mais um tipo de convivência, no entanto meramente
interior e espiritual. São as almas de nossos entes queridos e todos aqueles já
falecidos, pelos quais temos obrigação de rezar ou pedir auxílio em nossas
necessidades. Nessa última categoria estão não somente aqueles que sabemos ter
morrido em estado de pecado ou em odor de santidade, mas os santos canonizados
pela Igreja, que estão no Céu a nos proteger e nos preparar para a glória
eterna.
Finalmente, por último, convivemos com as pessoas que ainda vivem.
Estão ao nosso lado, pelo menos de uma forma material. Precisamos conviver uns
com outros a fim de nos reger e ser regidos, aprender a viver santamente, e nos
preparar para a eternidade. Ninguém consegue viver isolado dos demais, Deus nos
fez com disposições próprias a viver em sociedade. Por isso ser tão salutar ter
bom convívio social, e tão maléfico o convívio meramente mundano. Há pessoas
que moram ao lado de outras, mas vivem isoladas, por desejo próprio ou por
causa dos demais, trazendo grande mal ao seu desenvolvimento social e humano. A
solidão é um grande mal, que a sociedade moderna não consegue vencer porque o
homem de hoje não entende essa relação de convívio social numa hierarquia que
começa em Deus para terminar naqueles que estão ao seu lado nessa vida. Como é
que devemos ter uma boa convivência social? Suportando os defeitos do próximo?
Tendo que tolerar até mesmo os importunos ou pessoas ruins que nos atormentam?
Tudo isso é possível, dependendo de onde e com quem se convive. Mas, o
essencial é que só conseguiremos equilíbrio de ação social nesse convívio se
antes dele tivermos uma boa convivência com Deus através da Santíssima Trindade,
Nossa Senhora, São José, os Santos Anjos e os Bem-aventurados, as almas do
purgatório, etc. Tudo dará certo se obedecermos essa sequência hierárquica. Com
as pessoas com as quais vivemos aprendemos a prática das virtudes, mas também
seus vícios; através delas recebemos inspirações divinas, mas também
diabólicas; é pelo convívio social que a boa e a má regência podem influir em
nosso desenvolvimento espiritual. Se tivermos boa convivência espiritual com os
seres celestes, teremos luzes para perceber onde está o erro e recusá-lo, e
onde está o bem e praticá-lo.
Toda a convivência de um casal começa com a admiração, e só
admiramos coisas boas. Nas aproximações iniciais de um para o outro as boas
qualidades aparecem e brilham causando admiração: seja a beleza, a simpatia, a
boa educação, ou qualquer bom atributo humano. Ao longo dos encontros pessoais
essa admiração vai aumentando de acordo com as atrações simultâneas, daí
gerando grande simpatia e empatia. Nos momentos iniciais dessa aproximação os
defeitos não aparecem, ou são facilmente ocultados. É dessa forma que a
admiração produz o afeto, o amor de um para outro.
A convivência, no entanto, vai mostrar outro lado da questão: os
defeitos. Não é fácil conviver com os defeitos do próximo, muitas vezes até
incômodos e de difícil aceitação. Ao saber conviver com os defeitos do consorte
é que se demonstra estar equilibrando seu convívio entre admiração e rejeição.
E no momento da prática das virtudes, em geral, o ser humano comete, em lugar
delas, muitos erros e termina por obscurecer sua própria admiração pelo outro,
oculta pelos defeitos.
O casal perfeito não é aquele que vive em paz porque não há
defeitos entre os dois que possam atrapalhar a união, mas, sim, quando ambos
sabem superar os defeitos do próximo com caridade e, admirando mais do que
rejeitando o consorte, consiga apaziguar a vida em comum. Como é difícil viver
anos e mais anos sempre admirando o outro! Como é fácil perder essa admiração
perante os defeitos que sempre existem!
O mais difícil de se fazer para uma boa convivência de um casal é
superar a força de vontade. Nossa vontade é algo muito forte, geralmente não
desistimos dela em hipótese alguma. Assim, fica difícil conciliar duas vontades
quando elas não coincidem, ou até se chocam. Aceitar a vontade do outro? Nunca!
Em geral queremos impor a nossa. Tem pessoas que julgam estar se humilhando ao
aceitar a vontade do outro. Mas, nunca acham que humilham quando querem impor sua
vontade.
Existem duas mentalidades predominantes no
mundo moderno: a do liberalismo e a do relativismo. Pelo liberalismo criou-se a
ideia de que a liberdade deve ser completa, o homem tem liberdade de fazer o
que quiser, inclusive de praticar o mal. Quanto ao relativismo, trata-se da
ideia de que tudo é relativo, tanto o bem quanto o mal, permitindo ao homem ser
bom ou mal conforme sua livre escolha. Sendo assim, ele é livre para romper com
os compromissos de casamento quando quiser, ao mesmo tempo que não fica
obrigado a conviver maritalmente somente com uma mulher, pois tudo é relativo.
Outros pecados socais se somam a estes dois: o orgulho e a sensualidade. O
orgulho o faz ser livre e não seguir as regras sociais, as leis, inclusive
divinas; ao passo que a sensualidade o faz acreditar que será feliz quando
praticar livremente os atos de libidinagem com qualquer mulher, sem qualquer
censura. E o amor romântico o faz pensar que o fará atingir tal objetivo. Ao
longo dos anos foi alimentado na mente das populações a ideia de que o
romantismo traz felicidade. Foi até criada uma expressão para ressaltar esse
romantismo sentimental: “o amor de minha vida” é a pessoa perfeita para formar
um casal...
A partir da crise moral que fez decair a Idade
Média, especialmente com a Renascença, surgiram vários escritores especializados
em criar enredos amorosos, a maioria com tragédias, passando a se chamar tal
literatura de romantismo. A partir do teatro, começaram a aparecer enredos
trágicos e românticos, surgindo daí o termo “dramaturgo” para os criadores de
tais enredos. O conto que simboliza melhor essa corrente foi o de Shakespeare,
Romeu e Julieta: uma tragédia amorosa sentimental e sem lógica, criada para
alimentar essa mentalidade que já se iniciava em seu tempo (em 1594). Já haviam
diversos outros escritores contemporâneos de Shakespeare que o influenciaram
muito nesse tipo de literatura.
Ao longo dos anos essa literatura foi inundando
a humanidade, criando uma mentalidade totalmente sentimentalista e romântica. O
romantismo criava ilusões de vida amorosa doce e paradisíaca, mas também
pessimismos, desilusão e tragédias sem conta. De tal forma que surgiu na mente de alguns a
ideia de vingança, até mesmo mortal, contra a traição do consorte. O espírito
de vingança é um sentimento pagão, próprio dos que se afastam da verdadeira
prática religiosa e domina todos aqueles que se sentem feridos em seu amor
próprio ou com a vida deleitosa prejudicada.
O principal fator explorado nesse
gênero literário é o do sentimentalismo, chegando também ao cúmulo da
sensualidade por causa das narrativas amorosas, onde são explorados todos os
baixos instintos sexuais. Essas narrativas deixam as pessoas inteiramente
possuídas por um sentimentalismo rude e às vezes até grosseiro, estúpido mesmo.
Nos enredos, as mulheres são em geral comparadas com deusas por causa de suas
belezas naturais elevadas até ao exagero, o que levaria seus amantes a delírios
de comportamentos e entrega total à pessoa. Verdadeiro desequilíbrio moral, de
tal forma que muitos crimes cometidos por causa desse romantismo frustrado é
seguido do suicídio dos assassinos. Sendo assim, qualquer desilusão ou
frustração, provoca uma reação violenta e até de desespero, o que
ocorre até hoje, pois o romantismo continua dominando os corações do mundo
atual. Não como simples movimento literário, mas como filosofia de vida. A
partir de certa época, já no início do século XX, o romantismo passou a dominar
completamente a música, terminando por tomar conta das novelas de
TV, até hoje a principal motivação destes enredos novelescos.
A maioria criados para causar comoção social.
Um exemplo de como essa mentalidade estava
imperando no século XIX tivemos com um crime perpetrado na Bahia, a seguir relatado.
Esse clima de romantismo sentimental não era vivido somente no Brasil,
especialmente na Bahia, mas em todo o mundo, sendo que aqui era fruto da
mentalidade geral já dominando na Europa.
O crime da “bala de
ouro”
Em 1847, ocorreu um crime em Salvador,
na Bahia, que tem todas as características ruinosas dos males que o romantismo
causa nas populações. Somente isso pode explicar como é que a sociedade baiana,
em meados do século XIX, estivesse a tal ponto fanatizada pelo romantismo que
tenha alimentado, e até aumentado ao exagero, todo um enredo incrível em torno
do assassinato da jovem chamada Júlia Fetal. Filha de comerciante, a moça,
jovem ainda e um tanto culta, enamorou-se de seu professor e dele ficou noiva,
mas, depois de algum tempo, resolveu romper o noivado. Foi o suficiente para o
frustrado e revoltado ex-noivo tramar a morte dela, a tiros de pistola. Logo,
logo, surgiu uma lenda, criada ninguém sabe por quem, afirmando que o sujeito
tinha derretido as alianças de ouro e delas feito uma bala usada no crime. Daí
começaram a chamar o evento de “crime da bala de ouro”, dando ao caso de
romantismo violento uma sensação novelesca e impactante. Nessa época a imprensa
já usava um recurso chamado “choque de mentalidade” para conseguir vender seus jornais.
Algum tempo depois foi comprovado que as balas usadas eram de chumbo, não havia
nenhuma de ouro. A bala de ouro foi inventada para dar sensacionalismo ao caso
e nada mais.
Não há explicação razoável para que a
sociedade baiana tenha se empenhado tanto, e durante tanto tempo, sobre o
crime, a não ser pela influência deletéria que o romantismo já exercia então.
Tornou-se um costume bastante arraigado a leitura dos romances mais trágicos e
impactantes, uma verdadeira “febre” social, como se fosse um fanatismo
ideológico.
A respeito do crime de Júlia Fetal,
houve muitas pessoas envolvidas na divulgação fantasiosa do caso, como a dos
que escreveram poesias, historiadores e escritores se interessando pelo enredo
trágico. Até mesmo o imperador Dom Pedro II, quando esteve na Bahia, alguns
anos depois, visitou o criminoso na cadeia para inquiri-lo por qual motivo
tinha rejeitado de fazer um pedido de indulto da pena, que a justiça oferecia
no caso dele. Poderia sair já da cadeia, mas o mesmo não o quis, dizendo que
iria cumprir a pena até o fim porque assim o merecia. E a cumpriu realmente.
A elite de Salvador fez de tudo para
que o caso ganhasse repercussão na opinião pública, inclusive colocaram os
restos mortais da moça assassinada na famosa Igreja da Graça (onde está até
hoje) ao lado da sepultura de Catarina Paraguassú, personagem histórica muito
importante. Qual a razão de tal destaque? Não se diz que o crime foi motivado
por ódio à fé, não havia motivo religioso, mas sua sepultura foi construída
dentro da igreja. Realmente, era costume serem enterradas nas igrejas as
pessoas da alta sociedade, mas houve algo mais do que isso: ao lado da
sepultura foi erigido um memorial com grande destaque literário e cultural, uma
obra artística de valor, onde consta uma poesia em sua homenagem. Sim, a
família poderia fazer a homenagem merecida à sua filha, mas qual a razão de ser
logo naquela igreja histórica e ao lado de uma personagem tão importante? A
motivação foi apenas passional e nada mais: era preciso que um crime romântico
e trágico fosse bem divulgado para que o romantismo crescesse não somente como
literatura mas como uma realidade vivida pela população. Foi apenas uma cena
violenta de ciúme, coisa muito comum nas histórias românticas que se espalhavam
pelo mundo, nada justificando o destaque dado ao caso.
Quem visitar a Igreja da Graça, em
Salvador, vai encontrar, próximo ao altar principal, a sepultura e o memorial
de Júlia Fetal, no lado oposto a outro, esse histórico e de valor, de Catarina
Paraguassu.
O soneto que foi colocado no memorial
retrata bem a que ponto chega a futilidade do romantismo. A primeira menção
sobre a vítima é sua beleza: “Estava bela Júlia descansada”. Mas, não uma
beleza qualquer, mas “na flor da juventude e formosura”, o que é natural em
qualquer jovem aos 20 anos. Em seguida fala das carícias que desfrutava da mãe,
também coisa mais natural do mundo. Em seguida a autora da poesia
fala sobre o fato da vítima ser amada por todos, o que é um evidente
exagero, pois a pessoa, por mais santa que seja, não consegue ser amada por
todos. Elogia em seguida “tua alma pura” que não previa o desenlace do fato
trágico que lhe ocorreria. O restante do soneto é ressaltando a ferocidade do
crime e o fato de vítima ficar “dos olhos” a “luz amortecida” e do rosto
apagar-se “a branca, viva cor, com a doce vida”. Doce vida? Sim, o romantismo
costuma exaltar como “doce” uma vida inteiramente sem problemas e levada sem
cruzes e no gozo dos prazeres terrenos. Mas, será que todo ser humano leva uma
doce vida até o dia da morte? É claro que tudo não passa de exagero
sentimentalista, pois a vida de todos, por mais bondosa que seja, será sempre
um “vale de lágrimas” e não de doçuras.
O tema foi explorado a exaustão por
jornalistas, políticos, poetas e escritores, como o famoso Pedro
Calmon, o qual no seu livro “A Bala de Ouro” afirma que o crime
impressionou fundamente a cidade. Falaram dele os jornais, em muitos artigos,
os poetas em muitos versos, o povo em infindáveis conjecturas, o presidente da
província na sua mensagem oficial. Não houve na terra fato mais discutido, mais
estudado, mais pintado de cores sentimentais e lendas românticas. Nada disso
teria ocorrido se não houvesse uma elite interessada em explorar o caso por
interesses meramente filosóficos, ou sociológicos. Era preciso que o romantismo
saísse de meros contos literários e passasse para a vida real, e uma tragédia
impactante era o meio eficaz para isso.
O fato da família da vítima ser possuidora de certa riqueza talvez explique o interesse da elite, e talvez até alguns familiares dela estivessem envolvidos nessa promoção. Não sei a origem da família Fetal, havendo informes que vem de longas datas. No entanto, comenta-se que, antigamente, era comum os judeus darem nomes assim depreciativos a filhos ilegítimos. E por causa disso surgiram muitas famílias com nomes estranhos. Pode ser que tenha sido o caso da família Fetal, trazendo em sua origem uma marca desse judaísmo decadente, mas rico. Maçons e judeus, em suas sociedades secretas, especialmente em meados do século XIX, tinham em mãos poderes suficientes para divulgar tal tipo de promoção social, e assim o famigerado romantismo cresceu mais ainda, e de uma forma impactante.[2]

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