segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

SANTA JULIANA, VIRGEM E MÁRTIR






Santa Juliana, Virgem e Mártir, recusou-se a coabitar com seu esposo pelo  fato do mesmo ser pagão e adorar os ídolos 

No mesmo dia de seu casamento com Eulógio, prefeito de Nicomédia,  Juliana comunicou a seu marido que, se não se fizesse cristão, jamais consentiria  em ter relações conjugais com ele, e como este lhe fizera saber que não tinha o  menor propósito de converter-se à religião cristã, abandonou a seu esposo e retornou à casa de seus pais. O pai se negou a receber a filha, desautorizou o que havia feito, lhe golpeou brutalmente e a conduziu novamente ao domicilio de seu marido. Eulógio a recebeu benignamente. Depois, falando com ela, disse-lhe: 

- Minha dulcíssima Juliana, tens me decepcionado. Por que te negas a cumprir teus deveres matrimoniais? 

Juliana lhe respondeu: 

- Os cumprirei se te convertes a meu Deus; mas, se não te convertes, não poderei considerar-te como meu esposo. 

- Senhora minha - replicou Eulógio - eu não posso fazer o que me pedes, compreende-o; se o fizesse, o imperador mandaria que me cortassem a cabeça. 

Juliana treplicou com vivacidade: 

- De maneira que tu temes a teu rei, que é mortal, e pretendes que eu não tema ao meu, que é imortal? Faz o que queres, mas tem a completa certeza de que jamais conseguirás nada de mim enquanto persistas em tua atitude. 

Após este diálogo, Eulógio, na qualidade de prefeito, mandou que golpeassem selvagemente a sua esposa; depois ordenou que a prendessem pelos cabelos. 

Durante meio dia a manteve suspensa do teto na forma indicada e, ao longo daquelas horas, os criados, por ordem de seu senhor, várias vezes lançaram sobre a cabeça da santa cubos de chumbo derretido. Posteriormente, em vista de que suportava o tormento como se não recebesse dano algum, Eulógio mandou que a prendessem com cadeias e a jogassem num calabouço. 

Quando estava já recolhida na prisão, apresentou-se ante ela o diabo, disfarçado de anjo bom, e lhe disse: 

- Juliana, sou um enviado do Senhor. Ele mandou-me que visse ver-te e me encarregou que te dissesse que deves sacrificar aos ídolos para livrar-te dos tormentos que padeces e da horrorosa morte que pensam dar-te. 

Ao ouvir tão estranha mensagem, Juliana chorou muito e rezou desta forma: "Senhor, meu Deus! Faz que eu saiba quem é este que acaba de vir a ver-me; ele assegura que é um enviado teu; porém, disse-me umas coisas tão raras!" 

Imediatamente ouviu uma voz que lhe dizia: "Prende-o e obriga-o a que ele mesmo confesse quem é". Imediatamente Juliana subjugou fortemente o misterioso emissário e lhe exigiu que se identificasse, e o que pretendeu ao fazer-se passar por anjo do céu; declarou ele que era um demônio enviado por seu pai para enganá-la. Então Juliana lhe perguntou: 

- Dizes que foi teu pai quem te enviou; mas quem é esse pai? 

O diabo respondeu: 

- Belzebu; é ele quem manda em nós e nos envia aos cristãos para que realizemos perto deles más embaixadas; se não conseguimos fazer-lhes cair em nossas tentações, em nosso regresso nos castiga cruelmente. Eu tive a desgraça de que me encarregasse esta missão de confundir-te e, como não o tenho logrado, Já sei o que me espera quando regressar ao inferno.                                 

Mais coisas disse o demônio naquela ocasião a Juliana, entre outras esta: que era muito difícil enganar os cristãos que ouviam missa, ou aos que rezavam ou assistiam aos sermões. 

Juliana amarrou as mãos do diabo pelas costas, logo o jogou no chão e lhe deu uma boa surra com a ponta da cadeia à qual ela mesma havia sido presa. A cada golpe, o demônio, entre alaridos, gritava: 

- Minha senhora Juliana! Tem compaixão de mim! 

Nisto, por ordem do prefeito, que queria falar com ela, tiraram a prisioneira do cárcere; porém Juliana, sem soltar ao diabo, o levou consigo, arrastando-o como se fosse uma besta. O diabo, caminhando após ela, cheio de vergonha, suplicava: 

- Minha senhora Juliana! Não me obrigues a fazer o ridículo desta maneira. Quem, me vendo assim, se fiará doravante em minhas palavras? Dizem que os cristãos sois clementes; tu, no entanto, não estás tendo clemência alguma comigo. 

Depois de haver passeado com o demônio desta forma, por ruas e praças, Juliana decidiu desfazer-se dele e o jogou numa latrina. 

O prefeito, quando a prisioneira compareceu em sua presença, ordenou que estendessem sobre uma roda e que a atormentassem, e tanto a torturaram que lhe quebraram todos os ossos até o extremo de que o tutano dos mesmos ficou derramado pelo chão. Em determinado momento surgiu naquele lugar um anjo do Senhor, rompeu a roca e curou repentinamente a santa. Quantos presenciaram este milagre se converteram ao cristianismo, a exceção do prefeito, que permaneceu obstinado em sua infidelidade e mandou decapitar aos quinhentos homens e cento e trinta mulheres que acabavam de converter-se. Seguidamente ordenou que metessem Juliana numa tina cheia de chumbo derretido; porém, quando a santa foi mergulhada no recipiente aquele espesso e abrasador líquido transformou-se repentinamente em água transparente e morna, como a de um banho muito agradável. 

Ante este novo milagre o prefeito começou a maldizer de seus próprios deuses e a jogar-lhes na cara que fossem incapazes de castigar uma jovenzinha da que haviam recebido e estavam recebendo tantos desprezos e desgostos, e, para terminar de uma vez, mandou que cortassem a cabeça de sua esposa. 

Quando levavam Juliana ao lugar designado para sua decapitação, saiu ao encontro da comitiva um jovem, que na realidade era aquele diabo anteriormente castigado e humilhado pela prisioneira, e, dirigindo-se aos verdugos encarregados da execução, disse-lhes aos gritos: 

- Não tenhais compaixão dela! Não a merece, porque não tem feito mais que desacreditar constantemente de vossos deuses.v A mim mesmo, à noite passada, me açoitou sem piedade! Dai-lhe agora seu merecido!                          

Nisto Juliana abriu os olhos, o olhou atentamente, e como o diabo notasse que havia sido reconhecido por ela,deitou a correr dizendo aos gritos: 

- Ai! Desgraçado de mim! Esta mulher é capaz de prender-me outra vez e de amarrar-me e açoitar-me de novo! 

Juliana morreu decapitada; porém poucos dias depois de seu martírio, indo seu marido o prefeito a bordo de um navio com outros trinta e quatro ho-mens, se desencadeou uma forte tempestade e o navio foi a pique, e tanto eles como seus companheiros afundaram no fundo do mar e pereceram afogados; seus corpos posteriormente subiram à superfície, porém as ondas os lançaram a um litoral onde foram devorados por feras e aves de rapina.                

(La Leyenda Dorada, vol I, págs 174/175)

Nenhum comentário: