O gênero literário do romantismo surgiu após o Renascimento e predominou no século XIX. Em meados daquele século, 1847, ocorreu um crime na Bahia que tem todas as características ruinosas dos males que o romantismo causa nas populações. Tal gênero destacou-se em todos os ramos da literatura, como o da prosa, narrando as histórias românticas, e o da poesia e da música. Um dos contos que causou mais sucesso no mundo foi o de Romeu e Julieta, ainda no final século XVI, caracterizado pela tragédia, mas, ao longo do tempo, foi se sucedendo uma série de outros, culminando com uma verdadeira enxurrada de narrativas, poesias e outros textos inteiramente contaminados pela moda romântica. A partir de certa época, já a partir do início do século XX, o romantismo passou a dominar completamente a música, terminando por tomar conta das novelas de TV, até hoje a principal motivação destes enredos novelescos.
O principal fator explorado nesse gênero
literário é o do sentimentalismo, chegando também ao cúmulo da sensualidade por
causa das narrativas amorosas, em geral desastrosas, cheias de tragédias e
sofrimentos. Essas narrativas deixam as pessoas inteiramente possuídas por um
sentimentalismo rude e às vezes até grosseiro, estúpido mesmo. Nos enredos, as
mulheres são em geral comparadas com deusas por causa de suas belezas naturais,
o que levaria seus amantes a delírios de comportamentos e entrega total à
pessoa. Verdadeiro desequilíbrio moral, de tal forma que muitos crimes
cometidos por causa desse romantismo frustrado é seguido do suicídio dos assassinos.
Sendo assim, qualquer desilusão ou frustração, provoca uma reação violenta
e até de desespero, o que ocorre até hoje, pois o romantismo continua dominando os corações do mundo atual. Não
como simples movimento literário, mas como filosofia de vida.
Somente isso pode explicar como é que a
sociedade baiana, em meados do século XIX, estivesse a tal ponto fanatizada
pelo romantismo que tenha alimentado, e até aumentado ao exagero, todo um
enredo incrível em torno do assassinato da jovem chamada Júlia Fetal. Filha de
comerciante, a moça, jovem ainda e um tanto culta, enamorou-se de seu professor
e dele ficou noiva, mas, depois de algum tempo, resolveu romper o noivado. Foi
o suficiente para o frustrado e revoltado ex-noivo tramar a morte dela, a tiros
de pistola. Logo, logo, surgiu uma lenda, criada ninguém sabe por quem,
afirmando que o sujeito tinha derretido as alianças de ouro e delas feito uma
bala. Daí começaram a chamar o evento de “crime da bala de ouro”, dando ao caso
de romantismo violento uma sensação novelesca e impactante. Nessa época a
imprensa já usava um recurso chamado “choque de mentalidade” para conseguir
vender seus jornais. Algum tempo depois foi comprovado que as balas usadas eram
de chumbo, não havia nenhuma de ouro. A bala de ouro foi inventada para dar
sensacionalismo ao caso e nada mais.
Não há explicação razoável para que a sociedade
baiana tenha se empenhado tanto, e durante tanto tempo, sobre o crime, a não
ser pela influência deletéria que o romantismo já exercia então. Tornou-se um
costume bastante arraigado a leitura dos romances mais trágicos e impactantes,
uma verdadeira “febre” social, como se fosse um fanatismo ideológico.
A respeito do crime de Júlia Fetal, houve muitas
pessoas envolvidas na divulgação fantasiosa do caso, como a dos que escreveram
poesias, historiadores e escritores se interessando pelo enredo trágico. Até
mesmo o imperador Dom Pedro II, quando esteve na Bahia, alguns anos depois,
visitou o criminoso na cadeia para inquiri-lo por qual motivo tinha rejeitado
de fazer um pedido de indulto da pena, que a justiça oferecia no caso dele.
Poderia sair já da cadeia, mas o mesmo não o quis, dizendo que iria cumprir a
pena até o fim porque assim o merecia. E a cumpriu realmente.
A elite de Salvador fez de tudo para que o caso
ganhasse repercussão na opinião pública, inclusive colocaram os restos mortais
da moça assassinada na famosa Igreja da Graça (onde está até hoje) ao lado da
sepultura de Catarina Paraguassú, personagem histórica muito importante. Qual a
razão de tal destaque? Não se diz que o crime foi motivado por ódio à fé, não
havia motivo religioso, mas sua sepultura foi construída dentro da igreja.
Realmente, era costume serem enterradas nas igrejas as pessoas da alta
sociedade, mas houve algo mais do que isso: ao lado da sepultura foi erigido um
memorial com grande destaque literário e cultural, uma obra artística de valor,
onde consta uma poesia em sua homenagem. Sim, a família poderia fazer a
homenagem merecida à sua filha, mas qual a razão de ser logo naquela igreja
histórica e ao lado de uma personagem tão importante? A motivação foi apenas
passional e nada mais: era preciso que um crime romântico e trágico fosse bem
divulgado para que o romantismo crescesse não somente como literatura mas como
uma realidade vivida pela população. Foi apenas uma cena violenta de ciúme,
coisa muito comum nas histórias românticas que se espalhavam pelo mundo, nada
justificando o destaque dado ao caso.
Quem visitar a Igreja da Graça, em Salvador,
vai encontrar, próximo ao altar principal, a sepultura e o memorial de Júlia
Fetal, no lado oposto a outro, esse histórico e de valor, de Catarina
Paraguassu.
O soneto que foi colocado no memorial retrata
bem a que ponto chega a futilidade do romantismo. A primeira menção sobre a vítima
é sua beleza: “Estava bela Júlia descansada”. Mas, não uma beleza qualquer, mas
“na flor da juventude e formosura”, o que é natural em qualquer jovem aos 20
anos. Em seguida fala das carícias que desfrutava da mãe, também coisa mais
natural do mundo. Em seguida a autora da
poesia fala sobre o fato da vítima ser amada por todos, o que é um evidente exagero, pois a pessoa, por
mais santa que seja, não consegue ser amada por todos. Elogia em seguida “tua
alma pura” que não previa o desenlace do fato trágico que lhe ocorreria. O
restante do soneto é ressaltando a ferocidade do crime e o fato de vítima ficar
“dos olhos” a “luz amortecida” e do rosto apagar-se “a branca, viva cor, com a
doce vida”. Doce vida? Sim, o romantismo costuma exaltar como “doce” uma vida
inteiramente sem problemas e levada sem cruzes e no gozo dos prazeres terrenos.
Mas, será que todo ser humano leva uma doce vida até o dia da morte? É claro
que tudo não passa de exagero sentimentalista, pois a vida de todos, por mais bondosa
que seja, será sempre um “vale de lágrimas” e não de doçuras.
O tema foi explorado a exaustão por
jornalistas, políticos, poetas e escritores, como o famoso Pedro Calmon, o qual no seu livro “A Bala de
Ouro” afirma que o crime impressionou
fundamente a cidade. Falaram dele os jornais, em muitos artigos, os poetas em
muitos versos, o povo em infindáveis conjecturas, o presidente da província na
sua mensagem oficial. Não houve na terra fato mais discutido, mais estudado,
mais pintado de cores sentimentais e lendas românticas. Nada disso teria
ocorrido se não houvesse uma elite interessada em explorar o caso por
interesses meramente filosóficos, ou sociológicos.
O fato da família da vítima ser possuidora de
certa riqueza talvez explique o interesse da elite, e talvez até alguns
familiares dela estivessem envolvidos nessa promoção. Não sei a origem da
família Fetal, havendo informes que vem de longas datas. No entanto, comenta-se
que, antigamente, era comum os judeus darem nomes assim depreciativos a filhos
ilegítimos. E por causa disso surgiram muitas famílias com nomes estranhos. Pode
ser que tenha sido o caso da família Fetal,
trazendo em sua origem uma marca desse judaísmo decadente, mas rico. Maçons e
judeus, em suas sociedades secretas, especialmente em meados do século XIX, tinham
em mãos poderes suficientes para divulgar tal tipo de promoção social, e assim o famigerado romantismo cresceu mais ainda, e de uma forma impactante.

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