SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Peregrinação a Nossa Senhora da Conceição do "Carvalho"


(Onde foram sepultadas as vítimas de Canudos?)

A frase de Euclides da Cunha em sua obra “Os Sertões” continua tão atual quanto na época da guerra de Canudos. Ele afirmou: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E quem é forte, o é porque possui a virtude da Fortaleza.

Forte é aquele povo porque resistiu bravamente aos assédios da Revolução, seja na vida cotidiana, seja nos lances trágicos da sangrenta guerra. E demonstrou grande fortaleza quando não dobrou nem sequer um joelho aos desígnios e imposições que os maus queriam lhes impor. Destroçados, esmagados por uma força descomunal, de que era dotado o poder então governante, nem por isso se entregaram mesmo com a ameaça de serem desumanamente aniquilados, como o foram: no final, jaziam junto aos escombros das construções em ruínas mais de 20 mil católicos (há quem calcule em 30 mil o total de habitantes de Canudos), martirizados em prol da Fé. Dizem que nem na capital, Salvador, havia tamanha população. Não há sepultos para eles, nem cemitérios, nem qualquer homenagem ou reverência que normalmente deve ser dada a todo cristão. Seus corpos foram consumidos junto com as ruínas e não deixaram qualquer vestígio de suas existências. Apesar de Antonio Conselheiro ter sido famoso pelo fato de construir cemitérios e igrejas, para ele e seus heróis não foi permitido desfrutar deles no momento da morte.

Quando o conflito acabou, os corifeus da Revolução determinaram que não ficassem sequer sinais da existência daquele povo. E assim mandaram que fossem sumariamente degolados todos os prisioneiros de guerra: era necessário que não houvesse sobreviventes para contar a história. Mas a Providência dispôs de forma diferente, e não só restaram vários sobreviventes espalhados pelas matas acaatingadas da região, mas alguns homens sensatos que acompanharam a expedição do exército resolveram revelar os fatos para a posteridade. Um deles foi o médico César Zama, que acompanhou o exército por ser militar, o qual, tão logo retornou do confronto fez séria denúncia sobre a execução sumária dos prisioneiros de guerra. Tanto que por causa de sua denúncia foi perseguido e perdeu e emprego nas forças armadas. Outro que deixou registros dos fatos foi o fotógrafo que acompanhou os militares: tirou vários fotos e somente as revelou futuramente, as quais servem como denúncia grave do genocídio praticado.

Por ser forte, o povo de Canudos resolveu reconstruir a cidade. E dentro de poucos anos outra Canudos já existia ao lado da cidade velha. Não era este os planos da velha república, embora não houvesse qualquer resquício de monarquistas pela região. Aliás, nunca foi comprovado que o conflito foi para salvar a República, mas pura perseguição religiosa. Não podiam mandar destruir a nova cidade porque não havia clima propício para isso, mas determinaram que a mesma fosse submersa pela barragem do Rio Vaza Barris(1), chamada de Cocorobó. Era este o nome que pretendiam dar à nova localidade, mas por insistência da população, e para reverenciar os heróis morto na guerra, permaneceu o de Canudos. Cocorobó ou Canudos, os desígnios dos revolucionários era que nada mais restasse do local e que a cidade ficasse para sempre submersa nas águas do rio. A Providência se encarregou desta última empreitada contra os desígnios revolucionários, e as águas do rio vivem constantemente com baixo volume, mostrando a todos as ruínas que estavam submersas. De longe se vê a torre da igreja, coisa que é mais lamentada por todos que a visitam.

Hoje, Canudos não somente sobreviveu ao extermínio, mas continua na lembrança de todos os moradores da região. E o que continua mais vivo nesta população é aquela fé herdada de seus antepassados, fé intrépida e também forte, visível a todos que visitam a região.

E um exemplo primoroso desta Fé pujante fomos encontrar no lugarejo denominado de “Carvalho”. Aliás, não se pode dizer que seja um lugarejo, nem isso é, porque lá só existe uma casa e uma capelinha. Preservados pelo tempo e pela Providência, o “Carvalho” com sua capelinha festeja Nossa Senhora da Conceição há tantos anos que os moradores não sabem dizer quando se iniciou. O certo é que alguns deles contam histórias da guerra, ocorrida em 1896, cujos fatos foram narrados pelos sobreviventes aos avós, ou dentre estes mesmos avós contam-se alguns que participaram de tais feitos. Como em diversos outros lugares, a tradição manda que o primeiro monumento do lugar é uma cruz, e a mesma está lá para demonstrar a Fé daquele povo.

E hoje, tantos anos após aquela era de grande fé e coragem, vemos chegar ao “Carvalho” para a festa, gente que vem de diversas partes do Brasil. Tem gente que veio de São Paulo, outra família veio de Juazeiro da Bahia, outros de Salvador, e a variedade e a distância dos lugares servem para nos demonstrar que a semente da fé plantada ali foi sólida e ainda hoje produz frutos. As cerimônias são singelas como todas as coisas do sertanejo. Consiste em receber com benemerência os visitantes, aos quais é oferecida boa comida e hospitalidade, com a animação de um conjunto folclórico de pífaros e zabumbas, instrumentos rudes e simples, mas alegres. No final da tarde todos se reúnem na capela para rezar o último dia da novena de Nossa Senhora da Conceição, após o que se realiza uma procissão, numa subida em direção a um cruzeiro que está acima de uma ladeira. É feita uma parada na principal casa do “Carvalho”, onde a população faz uma singela homenagem a Nossa Senhora, com vivas e foguetório, e em seguida se dirige a procissão para a capelinha. Lá é celebrada a Santa Missa.

A noite termina com um concorrido leilão, onde são vendidos frutos e animais, além de outros objetos, cujo objetivo é arrecadar fundos para o melhoramento da capela de Nossa Senhora. Graças a tais leilões a capelinha sofreu várias reformas e encontra-se em bom estado de conservação.

Mesmo sem provocá-los com perguntas alusivas ao tema, vários moradores se referiam à guerra de Canudos como um grande feito da população da região e uma terrível traição movida pelo governo republicano. A questão política monarquia-repúlica nunca é mencionada como principal motivo da guerra. Na realidade, está patente para todos que a questão foi religiosa. Para um deles, mais instruído, houve uma trama de grande envergadura para envolver os “conselheiristas” e, provocando a guerra, exterminar o arraial com seus moradores. Uma outra pessoa comentou que se Canudos não tivesse sofrido aquela destruição hoje seria um grande centro, talvez a sede de uma próspera civilização. Já naquela época tinha uma população igual ou superior à da capital, em torno de 30 mil habitantes. E, apesar de estar numa região pobre, todos tinham trabalho e a cidade progredia. Assim como o Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, Antonio Conselheiro procurava instruir e ensinar artes manuais aos moradores, cujo resultado era encontrar-se lá muitos artífices ou artesãos.

Mantendo viva sua Fé ao longo dos anos, os moradores de Canudos e adjacências dão provas de quanto a Providência divina ampara o povo brasileiro, mesmo em situações como estas, deixando um belo legado de heroísmo, de bravura, de martírio em prol da fé cristã.

Nota: (1) O Rio Vaza Barris é o mesmo onde foram mortos e comidos pelos índios o primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernando Sardinha, juntamente com seus fiéis que escaparam de um naufrágio.

Nota (2) A imagem cuja foto estampamos acima é centenária, e acompanha os devotos desde remotos tempos, tendo presenciado muitos episódios da guerra. Foi restaurada recentemente por um especialista, o qual procurou manter nela os traços originais.

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