quarta-feira, 12 de julho de 2017

AULA DE HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA



Até a segunda grande guerra mundial restos do Ancién Regime e da antiga nobreza permaneciam vivos na Europa, embora claudicantes e em vias de extinção. Era este o desenrolar da história desde 1789 quando a Revolução iniciada na França começou o processo de demolição das monarquias tradicionais da Europa. Nas páginas do “Legionário”, Dr. Plinio dá uma aula de considerações históricas sobre o iminente desaparecimento de duas dinastias seculares, a dos Habsburgs (na Áustria) e a dos Hohenzollern (na Alemanha), cujos tritulares na época eram a Imperatriz Zita e o Kaizer Guilherme II.

O DESTINO TRÁGICO DE DUAS GRANDES DINASTIAS


Passou desapercebido para a maior parte dos leitores um fato que constitui o desenrolar de um pungente drama individual e dinástico, ao lado da grande tragédia da Revolução Espanhola.
A notícia foi lacônica. Informou apenas que a ex-Imperatriz Zita se dirigiu a San Sebastian, na Espanha, acompanhada do Príncipe Xavier de Bourbon.
Para os iniciados, porém, ela tem um sentido profundo.
A Imperatriz Zita é tia do Príncipe Xavier de Bourbon. E o Príncipe Xavier é atualmente um dos trunfos mais influentes da política espanhola.
Em meados do século passado, por razões dinásticas que seria supérfluo mencionar, a casa real da Espanha bifurcou-se em dois ramos. De um deles, que se manteve no poder até há pouco, descende Afonso XIII. Do outro ramo, descende o Príncipe Xavier de Bourbon. Ambos os ramos reivindicam para si o direito de ocupar o trono da Espanha. O ramo de Afonso XIII era liberal. O ramo do Príncipe Xavier, que chefiava o famoso partido carlista, era anti-liberal e profundamente católico. A este último ramo, diversas províncias da Espanha conservaram uma fidelidade comovedora. Especialmente, destacou-se nisto a heróica Navarra. E quando foi preciso revolucionar a Espanha, Franco pediu o auxílio dos partidários do Príncipe Xavier, que se levantaram em massas, constituindo o famoso exército de “requetés”, que marcha ao combate contra os comunistas, entoando hinos à Virgem Santíssima e à monarquia. É um imenso exército de cem mil homens, cada um dos quais é um herói disposto a morrer pela Espanha e pela Igreja.
O que caracteriza os “requetés” é uma inquebrantável disciplina ao Chefe da dinastia a que juraram fidelidade. Uma simples palavra de sua parte é suficiente para determinar os “requetés” a tomarem qualquer medida, por mais extremada que seja, no terreno político ou militar.
Acontece, porém, que o Príncipe Xavier é novo no difícil “mister” de Pretendente. Há pouco tempo que é herdeiro do Trono de Espanha, pois que herdou quase inesperadamente este direito do antigo Pretendente, o octogenário Príncipe Dom Afonso Carlos de Áustria e Este, que morreu sem descendência direta.
A imensa força política constituída pelos “requetés” parecia, pois, ameaçada de ficar sem direção, prejudicando assim as possibilidades de restauração da monarquia na Espanha.


PALADINO DE TRÊS TRONOS

É aí que surge a figura heróica e quase novelesca da Imperatriz Zita da Áustria-Hungria.
Vendo perigar os direitos de seu sobrinho, essa ex-soberana não hesita em atirar-se na fogueira do turbilhão revolucionário, dirigindo-se à Espanha para influir diretamente no rumo dos acontecimentos, parlamentando com diplomatas e generais, banqueiros e políticos, como se fosse ela própria pretendente ao Trono tradicional e glorioso de Isabel, a Católica.
A ex-Imperatriz Zita é uma figura que se tem imposto à admiração de todos os políticos europeus pelo vigor infatigável com que prossegue nas incessantes tentativas para a restauração do Trono de seu filho, o Arquiduque Otto de Habsburg.
Casada com o Imperador Carlos I da Áustria, a Imperatriz Zita foi destronada em 1918. Exilada na Suíça com seu esposo, ela organizou duas expedições armadas à Hungria, que fracassaram pela força das circunstâncias e pela pusilanimidade de Carlos I, com grande mágoa da belicosa soberana.
Depois da 2ª tentativa de restauração monárquica na Hungria, a família imperial austríaca foi expulsa para a Ilha da Madeira, onde o Imperador Carlos morreu tuberculoso na mais absoluta miséria.
Paupérrima, a ex-soberana se viu, de um momento para outro, colocada como viúva sem amparo, à testa da educação de seus pequenos filhos, reduzidos à mais absoluta indigência.
Foi então que se lhe estendeu a mão amistosa de Afonso XIII, que a acolheu na Espanha, dando-lhe por residência um castelo condigno de sua alta situação.
Durante alguns anos, Zita não deu a falar de si. Mal o Arquiduque Otto saiu da infância para a mocidade, a irrequieta soberana começa novamente a se movimentar. Mudou-se para a Bélgica, onde Alberto I lhe deu um castelo. O Governo austríaco restitui-lhe grande parte da fortuna antiga, confiscada pela República. E o partido monarquista da Áustria começa novamente a medrar, sob a alta orientação da Imperatriz, a ponto de fazer dela um dos mais importantes trunfos da política da Europa Central.
Tudo, pois, recomeçava a sorrir na vida da desditosa soberana. Voltara-lhe a fortuna. Voltara-lhe a influência. Seu filho, já agora um adolescente de grande formosura e alto preparo intelectual, auxiliava eficientemente seus planos. E a restauração monárquica na Áustria a na Hungria começava a parecer cada vez mais próxima.
Nesta situação risonha, abre-se a fogueira espanhola. E a Imperatriz Zita não hesitou em brincar mais uma vez com o fogo da política...
Paladina da restauração das tradicionais coroas da Áustria e da Hungria para o seu filho, ela começa agora a trabalhar pela restauração de seu sobrinho.
Não é difícil que um insucesso amargo venha coroar de espinhos os esforços da Imperatriz.
Entretanto, quando um dia se fizer a história de nosso século, os historiadores se inclinarão com respeito diante dessa figura excepcional de mulher que, tendo caído do alto do trono mais antigo da Europa, reergueu-se corajosamente para enfrentar os acontecimentos que lhe eram adversos. Soube ela fazer pela causa da monarquia na Europa, a qual é absolutamente dedicada por um puro idealismo e não por um interesse vulgar, muito mais do que os inúmeros soberanos, ex-soberanos ou pretendentes do mundo inteiro.
Ela é, nestes século de materialismo grosseiro, uma figura enérgica e idealista, que merece o maior respeito de todos os observadores.
É possível que com o eventual insucesso de seus esforços, a dinastia dos Habsburg desapareça inteiramente da História. Mas se isto se der, a Imperatriz Zita terá sido um feixo de ouro na série dos soberanos austríacos, em nada inferior às grandes tradições de Carlos V, Felipe II e Maria Teresa.
E se, pelo contrário, ela conseguir seus objetivos, a História a aclamará como uma das maiores realizadoras, no século dos super-homens, dos estados fortes, das “camorras internacionais”, etc.
* * *
Muito diversa é a história dos Hohenzollern.
Atirado à Holanda pelos sucessos que determinaram a queda do Império Alemão, o ex-Kaiser Guilherme II não teve de lutar muito contra a miséria. Nunca lhe faltou, como a Zita, um teto condigno de sua posição. Mais tarde, o Governo alemão lhe restituiu sua imensa fortuna, e ele passou a ser um dos homens mais ricos da Europa. Em seu castelo de Doorn, mantém uma pequena corte, e um luxo principesco. De costumes pessoais muito austeros, o Kaiser nunca forneceu matéria para o noticiário sensacional das agências telegráficas, que  tanto se ocupam com o Duque de Windsor e o Conde de Covadonga. Mas sua vida de exilado tem decorrido sem lances heróicos. O antigo general que figurava à testa de imensos exércitos nas grandes paradas alemãs, parece ter perdido inteiramente sua fibra de guerreiro.
É certo que os partidários da monarquia, na Alemanha, não cessam de trabalhar.
Mas as monarquias foram, na Alemanha, vítimas de um bluf que não iludiu a fina diplomacia da Imperatriz Zita e dos católicos austríacos.
Este bluf foi o hitlerismo. Hitler, até subir no poder, alimentou as esperanças dos monarquistas com vivos ataques à democracia liberal, e com vagas frases de simpatia ao antigo regime.
Os príncipes da Casa dos Hohenzollern se deixaram enlear por essa manobra. Alguns deles se inscreveram nas fileiras nazistas e chegaram a ocupar, sob o comando do ex-pintor Adolph Hitler, altos postos na Hierarquia do partido. Houve tempo em que o ex-Kronprinz era figura obrigatória em todas as paradas e desfiles nazistas.
Muita gente supunha - e os Hohenzollern mais do que ninguém - que a restauração da monarquia estava por pouco.
Mas Hitler subiu ao poder. E em lugar da política de Monk, adotou a de Cromwell, exceção feita da decapitação. A restauração foi tardando. Aos poucos, o Kronprinz foi sendo posto à margem. Medidas socialistas começaram a ameaçar os proprietários de terras, quase todos aristocratas fiéis à monarquia. Enquanto isto, os grande industriais ligados à finança internacional ficavam com as mãos livres.
Finalmente o hitlerismo se definiu: era anti-liberal, mas não anti-democrático. Do tríptico da Revolução Francesa consentia em suprimir a liberté. Nunca, porém, a égalité.
Ora, quem fala em igualdade fala em supressão de privilégios. E, portanto, em proscrição da aristocracia e combate à monarquia.
Com isto, o hitlerismo arrancou a máscara que vinha usando para iludir os monarquistas. Guilherme II percebeu que o trono estava bem distante de suas mãos.
É provável que um véu de melancolia se tenha estendido, então, sobre a velhice desse imperial ancião. Deixando-se iludir por Hitler, ele consentiu em que seus partidários abraçassem o nazismo. E o nazismo empolgou de tal maneira os monarquistas, que muitos deles abandonaram definitivamente o I Reich pelo III Reich.
Menos enérgico do que Zita, Guilherme II nunca soube tentar um golpe de Estado, ou ao menos instigar à distância seus partidários a que o fizessem. Apenas se assinala um movimento na Baviera, de proporções insignificantes.
Menos hábil, Guilherme II se deixou iludir pelos nazistas, enquanto os monarquistas austríacos moviam guerra de morte ao fascismo que se infiltrava na Áustria, percebendo nele o lobo socialista sob a pele do cordeiro reacionário.
E a dinastia dos Hohenzollern vê afastar-se, na bruma das complicações políticas, as melhores possibilidades de restauração.
Esses erros têm desgostado profundamente os monarquistas alemães. E muitos pensam em substituir a dinastia dos Hohenzollern pela dos Wittelsbach, que reinavam na Baviera.
Com isto, o trono iria parar nas mãos do cavalheiresco e heróico príncipe Ruprecht da Baviera, um dos grandes heróis de guerra, popularíssimo na Alemanha.
E os Hohenzollern cairiam em uma penumbra definitiva.

(Plínio Corrêa de Oliveira -  “Legionário”, N.° 247, 6 de junho de 1937)




segunda-feira, 10 de julho de 2017

SÃO BENTO DE NÚRSIA: O VARÃO DO QUAL NASCEU UMA CIVILIZAÇÃO




Deus o chamou para ser o "grande patriarca do monaquismo ocidental". A ordem por ele fundada fez nascer das ruínas do Império Romano a cultura e a civilização européias.

Pe. Pedro Morazzani Arráiz, EP

O orgulhoso e outrora invicto Império Romano dissolvia-se devastado pelas hordas avassaladoras dos invasores bárbaros. Tudo cedia diante deles: exércitos, muralhas, instituições e costumes eram varridos pela maré montante dos novos dominadores.

"O navio afunda!" - exclamava São Jerônimo, que escreveu com tristeza ao receber a notícia da queda de Roma: "A minha voz se extingue; os soluços embargam-me as palavras. Está tomada a ilustre Capital do Império!"

A civilização parecia se desfazer num dramático ocaso sem esperança.

Entretanto, uma estrela luzia nessa escuridão desconcertante, indicando o verdadeiro rumo dos acontecimentos: na cidade de Hipona cercada pelos vândalos, Santo Agostinho escrevia "A Cidade de Deus", proclamando que o mundo nascido do paganismo soçobrava irremediavelmente, e a Cidade de Deus - a Santa Igreja Católica - não apenas jamais seria destruída, mas sempre triunfaria sobre qualquer adversidade.

Que meios, porém, e que homens utilizaria Deus para desse caos fazer emergir a ordem e o esplendor?

Vocação do varão providencial
Nos tempos evangélicos, o Divino Mestre chamara obscuros pescadores para serem as colunas de sua Igreja. Agora o Espírito Santo escolhia um jovem para renovar essa sociedade convulsionada e instaurar uma nova civilização.

No entanto - oh, paradoxo! - esse rapaz, cujo nome era Bento, nascido de nobre família da Núrsia, em 480, sentiu em si o apelo do Senhor para O seguir no silêncio e na solidão.

Seus pais o enviaram a Roma para estudar. Mas logo percebeu ele que, para corresponder ao sobrenatural desejo que
ardia em seu coração, não podia permanecer naquele mare magnum, misto de barbárie e cultura romana decadente.

Assim, na flor da juventude e sem nunca ter manchado sua inocência batismal, abandonou casa, haveres e estudos, e partiu à procura dum lugar ermo onde pudesse adquirir o conhecimento e o amor de Deus.

"Desejava mais os desprezos que os louvores do mundo"
A cidade de Enfide (atual Affile), a cerca de 50 quilômetros de Roma, foi o local escolhido para o seu recolhimento. Ali se instalou com sua antiga governanta, que lhe prestava os serviços domésticos.

Um pequeno incidente caseiro foi ocasião para o seu primeiro milagre. Encontrou certo dia a governanta chorando porque, por descuido, deixara quebrar um crivo de argila que havia pedido emprestado a uma vizinha para limpar trigo. Compadecendo-se dela, Bento tomou os pedaços do crivo, pôs-se em oração e ele se reconstituiu de forma tão perfeita que nem se notava sinal algum de fratura.

Logo se espalhou a notícia desse milagre, trazendo-lhe muita fama. Ele que, segundo relata o Papa São Gregório Magno, "desejava mais os desprezos que os louvores deste mundo", fugiu da casa de Enfide, indo procurar refúgio num lugar solitário chamado Subiaco, onde se alojou numa minúscula gruta.

Uma grande tentação, uma vitória definitiva
A caminho de Subiaco, ele encontrou- se com Romano, monge que vivia num mosteiro próximo dali. Em determinados dias, Romano fazia descer por uma corda um pedaço de pão até a gruta de Bento. Durante certo tempo, foi esta a única fonte de alimentação do jovem ermitão. Em breve, porém, tornou-se ele conhecido na região, e muitas pessoas, vindo procurar nutrimento para suas almas, traziam-lhe alimento para seu corpo.

Nesse período, sofreu o jovem as mais duras tentações diabólicas. Fortemente provado em certa ocasião contra a virtude da pureza, viu-se a ponto de ceder e até mesmo abandonar sua solidão. Ajudado, porém, pela graça divina, reagindo, despojou-se de sua vestimenta e se atirou numa moita de espinhos e urtigas, na qual se revolveu durante longo tempo. Saiu com o corpo todo ferido, mas com a alma livre da tentação.

Tentativa de envenenamento
Nos três anos em que passou nesse lugar em completo isolamento, espalhou- se a fama de sua santidade. Tendo falecido o abade de um mosteiro existente por perto, os monges vieram pedir-lhe para assumir esse cargo. De início, Bento recusou, porém, ante a grande insistência dos religiosos, acabou por aceitar. Em pouco tempo, contudo, esses tíbios monges - arrependidos de terem escolhido por superior um homem que lhes exigia o caminho da perfeição - decidiram matálo, pondo veneno no seu vinho. O Santo traçou um grande sinal-da-cruz sobre a jarra de cristal que lhe foi apresentada e esta se despedaçou.

Compreendendo bem o que isso significava, Bento abandonou no mesmo dia o mosteiro de monges relaxados e regressou à estimada solidão de sua gruta.

Nasce a Ordem Beneditina
Atraídos pelo brilho de suas virtudes e a fama de seus milagres, muitos varões sedentos de sobrenatural foram para junto da gruta para viverem sob sua direção. Formaram-se, assim, sucessivas comunidades. Ao todo, São Bento erigiu ali doze mosteiros, escolhendo um abade para cada casa.

Estava fundada a Ordem Beneditina.

Nessa época, Subiaco começou a ser visitada por pessoas importantes de Roma que traziam os filhos para serem educados segundo o espírito beneditino. Dentre estes, o Santo abade recrutou dois de seus melhores discípulos: São Mauro e São Plácido.

Grande taumaturgo
Deus concedeu com largueza a seu servo o dom dos milagres.

O abastecimento de água de três dos mosteiros construídos sobre alta montanha acarretava grandes trabalhos aos monges. Estes foram pedir- lhe para se mudarem. Nessa noite, Bento rezou nesse local durante bom tempo e, antes de descer, marcou um ponto com três pedras. No dia seguinte disse àqueles monges:

- Ide e cavai no rochedo onde encontrardes três pedras superpostas.

Feito isso, de lá brotou água que jorra em abundância até hoje.

Bento havia aceitado como monge um homem godo "pobre de espírito". Certo dia, deu-lhe por missão desbastar o mato à beira do lago para ali plantar uma horta. O homem cortava com vigor o matagal quando a foice desprendeu-se do cabo e caiu no lago, num lugar profundo. Aflito, foi ele confessar a São Mauro sua "falta". Bento, posto a par do sucedido, foi ao local e enfiou na água a ponta do cabo. Nesse momento a foice subiu do fundo do lago e prendeu-se de novo no cabo. - Toma, trabalha e não te aflijas mais - disse o santo Abade ao monge. Muitos outros milagres operou Deus por intermédio de seu fiel servidor. Ele curou doentes, salvou pessoas de perigos, expulsou demônios, fez um monge andar sobre as águas, e até ressuscitou um menino morto.

"Eu estava presente..."
Outro dom singular que aprouve ao Senhor conceder-lhe é o de estar presente em espírito junto a seus filhos espirituais, onde fosse necessária sua vigilância de Pai e Fundador. Dois episódios ilustram bem esse prodigioso privilégio.

Prescrevia a regra que os monges nada comessem nem bebessem quando saíssem do mosteiro para cumprir alguma incumbência. Um dia dois monges, tendo ficado fora até muito tarde, aceitaram hospitalidade de uma piedosa mulher que lhes serviu alimento e bebida. Voltando ao mosteiro, foram pedir a bênção a São Bento, que os interpelou:

- Onde comestes?

- Em nenhum lugar - responderam eles.

- Por que mentis? Acaso não entrastes na casa de tal mulher e ali comestes tal e tal coisa, e bebestes tantas vezes?

Os dois culpados prostraram-se a seus pés e lhe pediram perdão.

Havia perto de Subiaco uma comunidade de virtuosas mulheres consagradas ao serviço do Senhor, às quais o Santo enviava com freqüência um monge para lhes dar assistência espiritual. Certo dia, o monge encarregado dessa missão aceitou de presente delas alguns lenços e os escondeu sob o hábito, em seu peito. Regressando ao convento, foi severamente repreendido por São Bento e ficou estupefato pois, tendo já se esquecido da falta cometida, não atinava com o motivo da repreensão. Então o santo Abade lhe disse: "Acaso não estava eu presente quando recebeste das servas de Deus os lenços e os guardaste em teu peito?"

Alvo de perseguições
Em todos os tempos e lugares, é próprio dos Santos serem alvo da incompreensão e do ódio dos asseclas do demônio. O sacerdote de uma igreja próxima de Subiaco, tomado de inveja, começou a denegrir o gênero de vida de Bento, procurando afastar de sua santa influência todos que podia. Vendo frustrados seus esforços, enviou de presente a Bento um pão envenenado, com o fito de matá-lo. Fracassado também este intento, chegou ao cúmulo de introduzir no jardim do mosteiro sete mulheres de má vida, com esperança de corromper os jovens monges.

Compreendendo que tudo isso era feito com intuito de persegui-lo pessoalmente, Bento nomeou prepostos seus em cada um dos doze mosteiros que havia fundado, e retirou-se de Subiaco.

Monte Cassino, o caminho para a restauração
Dirigiu-se então a Cassino, uma cidadezinha fortificada a meio caminho entre Roma e Nápoles. Havia lá um templo pagão no qual camponeses da região rendiam culto a Apolo. Ao redor do templo, mantinham eles cuidadosamente alguns bosques nos quais ofereciam sacrifícios ao demônio. Ali chegando, o homem de Deus destruiu o ídolo, abateu os bosques e transformou o edifício em igreja erguendo nela um oratório a São João Batista e outro a São Martinho de Tours.

Em seguida, deu início à construção do famoso mosteiro de Monte Cassino, o qual teve por único arquiteto o santo Abade e como construtores os próprios monges.

O mosteiro de Monte Cassino foi a resposta de Deus à decadência do mundo de sua época. Exemplo de governo patriarcal e de sociedade verdadeiramente cristã, em meio às nações bárbaras, exerceu enorme influência sobre os costumes privados e públicos, tanto na ordem espiritual quanto na temporal. Bispos, abades, príncipes e homens de todas as classes visitavam o Santo, seja para lhe pedir um conselho, seja pela amizade e estima que tinham por ele. Potentados da época, às vezes depois de conquistas e vitórias, iam com freqüência refugiar-se secretamente em Monte Cassino para se embeberem um pouco do espírito beneditino.

Descobriu-se, assim, após o desmoronamento do Império Romano, o caminho para a renovação.

A Regra dos Monges
Enquanto erguia o edifício do novo mosteiro, São Bento erigia interiormente a Obra beneditina sobre uma base mais firme que a rocha, escrevendo sua inspirada e famosíssima Regra dos Monges. Tem ela por objetivo desprender o coração humano das trivialidades, facilitando à alma elevar-se a Deus sem obstáculos, com um proceder sempre sereno, tendo em vista a vida eterna. Com seu conhecido aforismo "Ora et labora" (Reza e trabalha), a Regra tem o mérito de harmonizar no monge a oração e a ação, a ascese e a mística.

A Regra escrita por São Bento produziu benéficos frutos em toda a Cristandade. Este sábio conjunto de normas vigorou quase com exclusividade nos mosteiros de Ocidente durante oito séculos.

A santidade e o espírito valem mais que a Regra
Entretanto, mais que a Regra, foram a santidade e o espírito de seu Fundador que deram à Ordem Beneditina a estabilidade, a força de expansão e a eficácia da sua ação civilizadora. Inspirados pela busca da perfeição na obediência, no esplendor da liturgia, no primor do canto gregoriano e no amor à beleza posta a serviço de Deus, os filhos de São Bento exerceram um papel fundamental na cultura, nos costumes e nas instituições das nações que formaram a Cristandade medieval.

A Ordem de São Bento teve um extraordinário surto de desenvolvimento a partir do século X, com a fundação da Abadia de Cluny. No seu apogeu, 17 mil mosteiros estavam subordinados a ela. Nações inteiras foram convertidas à Fé cristã pelos discípulos do santo Patriarca. Muitas famosas universidades - Paris, Cambridge, Bolonha, Oviedo, Salamanca, Salzburgo - nasceram como desdobramentos de colégios beneditinos. Inúmeros mártires deram valorosamente a vida pronunciando o nome de seu Fundador. Plêiades de cardeais, bispos e santos doutores tinham-no por mestre. Mais de 30 papas seguiram sua inspirada Regra. Finalmente, há 1500 anos, incontáveis almas se consagram a Deus sob a égide de sua santa Instituição.

Pode-se, pois, com toda propriedade, comparar ao grão de mostarda da parábola do Divino Mestre a Obra do Pai do Monaquismo Ocidental: 
"É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos" (Mt 13,32).

Morreu de pé, como valente guerreiro
O santo Abade anunciou com meses de antecedência a data de sua morte. Seis dias antes, mandou preparar a sepultura. Logo foi atacado por violenta febre. Como a enfermidade se agravava cada vez mais, no dia anunciado fez-se conduzir ao oratório onde, fortalecido pela recepção da Santíssima Eucaristia e apoiado nos braços de seus discípulos, morreu de pé com as mãos levantadas aos Céus e os lábios pronunciando a última oração.

Era o dia 21 de março de 547. Foi enterrado no local onde havia outrora edificado o oratório de São João Batista, em Monte Cassino.

                                                                            ***

A última visita de Santa Escolástica

Escolástica, fundadora do ramo feminino da Ordem Beneditina, era irmã gêmea de São Bento e estava desde a infância consagrada a Deus. Todo ano ela lhe fazia uma visita para conversarem sobre os assuntos relativos à vida eterna. O santo Abade a recebia numa casa pertencente ao Mosteiro de Monte Cassino, situada não longe dali.

No ano da partida da Santa para o Céu (547), veio ela como de costume, e seu santo irmão foi encontrá-la na mencionada casa, acompanhado de alguns de seus discípulos. Passaram todo o dia em elevados colóquios, os quais se prolongaram até uma hora avançada da noite. Pressentindo que estava próximo o dia de sua morte, Escolástica disse a seu irmão:

- Suplico-te que não vás agora, para podermos conversar até amanhã sobre as alegrias da vida celestial.

- Que me dizes, irmã?! De modo algum posso passar a noite fora do mosteiro!

Ante essa resposta, a Santa apoiou nas mãos a cabeça e rezou durante alguns instantes. Até então, o céu estava
plácido e límpido. Quando, porém, ela levantou a cabeça, desabou uma chuva torrencial, com relâmpagos e trovões
tão violentos que o Abade e seus discípulos não podiam sequer pensar em sair da casa.

- Que Deus todo-poderoso te perdoe, irmã! O que fizeste?

- Supliquei a ti e não quiseste atender-me. Roguei ao meu Senhor e Ele ouviu-me. Agora sai, se podes, e regressa ao mosteiro...

São Bento compreendeu que deveria conceder por força aquilo que, por amor à Regra, ele não tinha querido dar voluntariamente. E assim passaram em vigília toda aquela noite, discorrendo sobre a vida espiritual.

                                                       * * *

Três dias depois, estando recolhido em sua cela, São Bento viu a alma de Santa Escolástica sair do corpo em forma de uma pomba e elevar-se ao Céu. Comunicou o fato aos monges e enviou alguns deles para buscar aquele santo cadáver, o qual foi depositado no sepulcro que ele havia preparado para si próprio.

"Assim, nem sequer a sepultura pôde separar os corpos daqueles cujas almas haviam permanecido sempre unidas no Senhor"- conclui São Gregório Magno na sua obra "Vida de São Bento".


(Revista Arautos do Evangelho, Jul/2005, n. 43, p. 23 à 25)


sábado, 8 de julho de 2017

O CARMO: DO ANTIGO TESTAMENTO AO TRIUNFO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)


Na sua última aparição em Fátima, durante o chamado milagre do sol, a Santíssima Virgem fez ver à multidão ali reunida uma seqüência de quadros representando os Mistérios do Rosário. A cada nova cena desenrolada no céu, mostrava-se Ela sob algum título com que os fiéis habitualmente  A invocam. E foi assim que, na visão dos Mistérios Gloriosos, Ela surgiu como Nossa Senhora do Carmo, cuja festa a Igreja celebra no dia 16 de julho. Como tudo o que Maria Santíssima realiza tem sua razão de ser, haverá sem dúvida um nexo entre essa manifestação de Nossa Senhora do Carmo, os Mistérios Gloriosos e a mensagem de Fátima que Ela, naquela ocasião, revelava. Parece-me de grande interesse, portanto, procurarmos aprofundar essa relação, considerando também a especial beleza que ela encerra.
O termo Carmo corresponde ao Monte Carmelo, no Oriente. Ali, segundo uma tradição muito  respeitável — e há todos os motivos para admiti-la como verdadeira —, o Profeta Elias reuniu um grupo de discípulos e com eles constituiu a Ordem do Carmo, em louvor da Virgem Mãe que deveria vir, e na espera d’Ela.
Portanto, o primeiro filão de devoção a Nossa Senhora, séculos antes de Ela nascer, foi formado pelos filhos do Profeta Elias que A aguardavam. E Santo Elias representa o extremo dessa devoção, porque, como é doutrina comum na Igreja, ele deverá lutar no fim do mundo contra o Anticristo, o último inimigo de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima. Elias constitui, portanto, uma espécie de ponte entre o início e o fim da devoção a Nossa Senhora na história da humanidade.
É de se supor que, nos seus primórdios, essa devoção se desenvolveu e perseverou em meio a toda espécie de dificuldades e objeções. Pois surgiu no tempo em que o povo eleito cada vez mais se fechava à sua própria missão, ao seu próprio espírito, e, por isso, haveria de ter repulsa a esse veio carmelita que prenunciava a Virgem Mãe, assim como depois os hereges de todos os tempos tiveram ódio à devoção a Nossa Senhora.
Provavelmente, os eremitas do Monte Carmelo, representantes das primícias do amor à Santa Mãe de Deus, foram perseguidos, malvistos, caluniados e silenciados. Apesar disso, e na humildade de sua situação, previam o advento de Nossa Senhora.
E eles tinham razão, pois Ela veio. E não só veio, mas recebeu a maior glorificação que poderia ser tributada a uma mera criatura: tornou-se a Esposa do Divino Espírito Santo, encarnando-se n’Ela o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Ao término de sua sublime existência terrena, Maria teve uma morte extremamente suave: uma separação da alma e do corpo efetiva e completa, mas de tal maneira delicada que a Igreja, na sua linguagem incomparável, dá ao passamento de Nossa Senhora o nome de “dormição”. Pouco depois, por desígnio e obra de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santíssima Virgem ressuscitou e foi levada aos Céus em corpo e alma. Assim recebeu Nossa Senhora outra glorificação: uma ressurreição à maneira da de Jesus, e uma Assunção também comparável à Ascensão d’Ele. Aliás, na linguagem de outrora, Nossa Senhora da Assunção é igualmente chamada de Nossa Senhora da Glória, para significar o incomparável brilho de que se revestiu o seu ingresso no Paraíso celeste.
Esse desfecho da vida terrena de Nossa Senhora pode ser tomado como o término da história do  Carmo do Antigo Testamento (embora já se estivesse, rigorosamente falando, no Novo Testamento). Aqueles carmelitas tiveram a alegria e a insigne honra de cultuar a Santíssima Virgem em carne e osso, e não através de imagens. Nada impede presumirmos que Nossa Senhora subiu ao Monte Carmelo e ali se colocou à frente de seus filhos e devotos, em horas de inefável convívio. As hipóteses piedosas, inteiramente razoáveis, que a esse respeito se podem fazer, são inúmeras.
Com a Assunção de Nossa Senhora e sua glorificação no Céu, essa etapa da existência da Ordem Carmelitana findou-se de modo magnífico, esplendoroso. Fica estabelecida uma relação entre o Carmo e a glória: a devoção perseguida, fiel, profética, luta até o momento em que é confirmada por Deus, e passa a reluzir no mais alto do Céu, na pessoa da Virgem Mãe.
Depois, recomeça a história do Carmo. A Ordem, existente apenas no Oriente Próximo,  desenvolveu-se um tanto, mas tem-se a impressão de que os cristãos daquela região, nos primeiros séculos, não lhe deram grande importância, privando-se dos benefícios que ela poderia lhes trazer. Esta atitude para com o Carmo foi uma entre tantas infidelidades da Cristandade oriental, que terminou castigada pelas invasões sarracenas, as quais, entre outras calamidades, provocaram a fuga dos carmelitas para o Ocidente.
A Europa, toda católica, cheia de fé, empreendia as Cruzadas para a libertação dos Lugares Santos. Nesse continente os frades do Carmo começaram a vaguear, como membros de uma Ordem quase desconhecida, mal-admirada e à beira do desaparecimento. A família religiosa de Elias parecia um tronco seco e velho, fadado a se desmanchar em pó.
Era o instante esperado por Nossa Senhora para fazer florescer, no alto da ressecada vara, uma flor: São Simão Stock. Esse inglês de reconhecida virtude havia sido eleito para o cargo de Geral da Ordem. Todavia, não exercia uma autoridade efetiva sobre seus súditos, pois o Carmo ainda não possuía uma estrutura jurídica coesa e uniforme, capaz de conservar um espírito, promovê-lo e transmiti-lo à posteridade.
A virtude compensava, porém, a falta de autoridade. Rezando a Nossa Senhora com muito fervor, São Simão implorou-Lhe não permitisse o desaparecimento da Ordem do Carmo. Em meio a essa aflitiva situação, a Virgem Santíssima apareceu a seu bom servo [em 1251] e lhe entregou o escapulário, para se usar sobre a roupa.
Naquela época os servos usavam uma túnica como traje civil. Sobre ela punham uma túnica menor, que indicava, pela cor e por características peculiares, a identidade de seu senhor. O escapulário do Carmo era semelhante a essa pequena túnica. Nossa Senhora, portanto, entregava a São Simão Stock uma libré própria aos servos d’Ela, para ser usada por todos os carmelitas, e prometia: “Aqueles que morrerem revestidos dele, não sofrerão o fogo do inferno”. Quem usa piedosamente o escapulário do Carmo, receberá a graça da perseverança final e será libertado do purgatório no primeiro sábado após a morte.
A partir dessa misericordiosa intervenção da Mãe de Deus, a Ordem carmelitana refloresceu e conheceu outros períodos de glórias, acentuando por toda a Igreja Católica a devoção à Santíssima Virgem. No suceder de esplendores iniciado então, nasceram três sóis, para não citar senão eles, que hão de reluzir por todo o sempre no firmamento da Igreja: Santa Teresa, a Grande, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus.
Retenhamos, então, a grandiosidade da história do Carmo: uma alternância de glórias e infortúnios conducentes a um adelgaçamento que faz prever o desaparecimento. Mas acontece uma intervenção de Nossa Senhora, que salva e dá incomparavelmente mais do que se tinha antes. A prosperidade no Ocidente será muito maior do que a verificada na Ásia.
A par de sua insondável bondade, Nossa Senhora, ao intervir, mostrava também a confiança que se deve ter n’Ela, bem como seu papel central nas obras que ama de modo especial. Ainda que estas cheguem ao ponto de tudo parecer perdido, devem esperar o momento que Ela se reserva para agir. Como dizia certo pensador católico, as grandes intervenções da Providência são precedidas de situações dramáticas, de modo a tornar clara a inutilidade de qualquer socorro humano. Uma vez provado o fracasso dos homens, e na própria hora da desolação e do caos, Deus intervém, e Nossa Senhora se faz presente.
Lição de confiança ainda mais necessária em vista do que ocorreu depois: enquanto a Ordem fundada por Santo Elias conhecia novos brilhos e novas glórias, a Cristandade que a acolhera tornava-se presa de um inexorável processo de ruína, que se acelerava no decorrer dos séculos. Até que, em 1917, numa colina de Fátima, Nossa Senhora censurou a decadência, recriminou o mundo pela torrente de pecados em que estava imerso, e anunciou os castigos que haveriam de cair sobre a humanidade, caso esta não se arrependesse e se emendasse de suas faltas. Depois, exprimindo-se com as famosas palavras que guardamos em nossas almas, fez a promessa do Reinado d’Ela: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”
E aqui voltamos à consideração daquele vínculo ao qual nos referíamos no início deste artigo: no ápice das aparições em que Nossa Senhora proclama a efetivação de sua realeza, sob a forma do triunfo do seu Coração Imaculado, Ela aparece revestida do traje de sua mais antiga devoção — a do Carmo. E, desse modo, realiza uma síntese entre o historicamente mais remoto, o mais recente — o culto ao Imaculado Coração de Maria — e o futuro glorioso, que é a vitória e o reinado desse mesmo Coração.
Eis várias das razões pelas quais a festa de Nossa Senhora do Carmo nos é muito grata a todos os filhos e devotos da Santíssima Virgem.


(Extraído da revista “Dr. Plínio”, nº 16, julho de 1999)