(Revista Dr. Plínio n. 305, agosto de 2023)
Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.
A História tem
necessidade de um unum
Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de
um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou
quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma
instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em
que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde
surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos
proprietários morrerem ou o venderam.
O histórico seria, portanto, composto de
histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de
diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem;
são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede
que entra não tem ideia de quem o antecedeu
nem de quem o sucedeu. Isso não forma a História.
Um historiador que trabalhasse essas
informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria
esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria
em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus
pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e,
talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam
falado, etc., Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.
Por quê?
A História, como um “unum”, é diferente das
histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração
que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos
tempos. Essa é a perfeita História.
Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo
agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral,
os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas
internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem
um do outro.
Mas, se não houver uma continuidade de agentes
e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos
quais a História de se desenvolve, ela não forma um todo.
Nossa Senhora é a
Rainha de todos os povos
Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é a
Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste
ou daquele país, nem sequer de um bloco de
países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem
dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é
genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas
entre a Coréia e o Japão, a Coréia e a China, a China e o Japão – relações
triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três
povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos – não tinham a Nossa
Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.
A triste História intertribal da América do
Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras,
colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se
perdiam nas vastidões da “jungle”[1]
americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a
Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da
História inteira.
Digo de propósito “da História inteira”, porque
não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que
o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados
a participar do julgamento dos outros – porque serão amados por Deus -, e os
malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos
haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.
Post-scriptum marial da
História
Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro
em torno do qual se move a História?
Compreendendo o “unum” da História,
entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de
Maria Santíssima como Rainha da História
aparecerá claramente aos nossos olhos.
No Reino de Maria haverá uma esplendorosa
catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral
de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução
para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra.
Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a “post-História”.
Há uma tese, que nos é cara, de que a História
propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do
mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos
acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo,
mas não o fim do mundo.
Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e
para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode
encerrar-se – por causa d’Ela e não devido a nós -, a História terá a sua
“post-História”. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo
do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da
História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo,
toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa
“post-História”, que é o fecho de ouro da História do mundo.
Antes mesmo de nascer,
Nossa Senhora já reinava na História
Vejamos qual será a continuidade dessa
História.
Antes da Torre de Babel, os homens constituíam
um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham
contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela
Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais que
eram o eixo da História.
Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas
já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a
História era tecida.
Deus, ao governar a História – e quem pode
duvidar que Ele seja o Rei da História? -, tinha em vista a Encarnação do Verbo
no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História
caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto,
presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque
tudo era dirigido por Ele de moto tal que desse glória a Ela.
Há alguns reis que o são desde meninos; outros
que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a
realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido
concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde
sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades
de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em
direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!
Depois da dispersão da Torre de Babel – que
estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela
chegaria até o Céu -,os homens foram para as direções mais variadas. A História
nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse
explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas,
a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se
ignoraram uns aos outros do modo mais completo.
Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o
qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e
como Nossa Senhora é a Rainha desse “unum”?
Fivela que prende o
reino angélico ao reino animal
De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos
planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres
puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais.
O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino
animal.
Embora não sejamos, nem de longe, elevados como
os anjos – os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples
mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando
estar diante do próprio Deus -, entretanto, temos este título de glória: somos
o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto,
a harmonia se afirma, triunfa.
Essa é uma explicação pela qual convinha que
nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse
para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a
Criação, quanto se encarnando. Ele se
põe no cento de sua obra; a corola da flor do universo somos nós,
homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele,
com o véu de mãe, está Nossa Senhora.
O homem simboliza
melhor do que o anjo, todo o universo
Na mente de Deus, esta categoria da criação tão
magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar
uma glória especial.
O que vem a ser aqui a glória?
É o deleite que Ele tem com a honra que recebe
pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração.
E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que
a homenagem prestada pelo anjo.
A estrela mais distante e da qual, talvez, não
tenhamos conhecimento até o fim do mundo – corpo material com reluzimento e
propriedades físicas e químicas no
equilíbrio do universo -, entretanto, participa de nós e temos algo com que a
honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as
estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens,
elas começariam a cintilar.
Deus quis que esse gênero humano assim
constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse
senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona
a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lúmen” do intelecto, a força da
vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem
um exemplar de um padrão especial de beleza.
História da Humanidade
se não tivesse havido pecado original
Caso não tivesse havido o pecado original, Deus
intencionava nessa linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de
beleza: nasceria e, depois de passar
algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e
brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.
É claro que, neste plano, toda a História
desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de
Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de
maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza,
exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele
nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o
próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra-arquetípico,
elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode
dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só
Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.
Movimento ascensional
da História rumo a Nossa Senhora
Como se daria isso?
É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se
chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita,
da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável,
a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os
profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que
viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a
d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa
Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da
História...
Não estaríamos no alto do morro do qual se
desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação
do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela – por quanto tempo não
se sabe -, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar
ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso
Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade
e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então – eu emprego um termo moderno e
desdourado – uma pista de voo ainda mais alta.
No alto do morro se construiria uma catedral; e
muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.
Como seria a festa da gloriosa Ascensão do
Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois,
a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano?
Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas
espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero
humano – podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! – levaria Deus
Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre os homens?
Ninguém pode ter ideia, porque viriam
alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre
estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo
quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus
Cristo, o Homem-Deus.
Portanto, por mais que a História glorificasse
Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a
História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a
História rumo a Ela para chegar a Ele.
Com a Virgem Maria a
História se evanesce em santidade, virtude e beleza
Para que isto tivesse tido a sua verdade, não
era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado
original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva
porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não
continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados
originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.
Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do
Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a
sub-História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central
da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.
Em determinado dia a coleção dos homens estaria
completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade:
“Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os
lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso
plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”
Como seriam esses homens perfeitíssimos do
final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os
homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais
maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se
evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da
flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o
perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos
criou”.
A História terminaria quando o ultimo justo
tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó
salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”
Que glória e que hino! Todos os homens deixando
o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas
insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando
desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os
outros: “Lembra-se? Lembra-se?”
Devido ao pecado
original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu
Esse era o plano e essa seria a linha reta da
História. Não se realizaram... O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua
expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História
continuaria. Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a
serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de
beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre
duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre
a serpente, calcando-a aos pés.
Nessa profecia estava contida a promessa do
Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto
aconteceu em virtude disso.
Deus não desistiu de seu plano nem da História
que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em
magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a
História daquela paz.
A nossa grande guerra contra os filhos do
demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.
Considerem a hipotética História do Paraíso:
que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem
homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.
Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto
maior a atura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo,
tanto mais alto é o soerguimento. E a
altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto
que se elevará acima.
Esta é a História com a “post-História’, a
História do Reino de Maria que vem se aproximando.
Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos
planos cheios de bondade, impregnados de encantos paradisíacos de Deus Nosso
Senhor, por essa mesma razão Ela é a Rainha da história dos tormentos, das
aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas,
da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.
Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular
de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a
história noturna, porque longe do Sol de Justiça, que é Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Para ver as coisas simplificadamente, toda essa
História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão,
pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido
um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará-los
para aquela hora de bem-aventurança.
Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam.
Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que
se soerguessem tanto quanto possível de dentro da alma do paganismo, para
poderem estender as mãos ao apóstolo
magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos
missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.
O centro é esse: o momento magnífico da vitória
do Reino de Maria, em que eles deverão converter-se. E Nosso Senhor e Nossa
Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria
Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?
Leme e figura de proa
Rainha em que sentido?
Como nós gostamos muito de lógica, de
definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu
lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da
rainha.
Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie
de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor,
inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma
rainha não é apenas isso.
Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões
dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi
dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda
haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é
grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da
Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela
não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não
governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.
A figura de proa tem seu papel no navio, porque
é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é
preciso ser leme e figura de proa.
Maria Santíssima dirige
a História...
Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o
leme da História?
Ela conhece as intenções de Deus a respeito da
História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos
de virtudes e aos pecados dos homens.
Depois da Redenção infinitamente preciosa de
Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando
com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado
disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual
reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros
aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse
balanço Ele fez pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.
Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade,
quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos
homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria,
verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura
inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre
Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em
condições de retocar, ao menos em parte, o que os homens fazem e, por assim
dizer, corrigir – se a palavra “corrigir” não fosse inadequada-, reformar,
rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria.
De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: ”Meu Pai Eterno, meu Filho
adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai
aqui, fazei mais acolá...”
E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de
ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito
a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual
corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.
Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas
se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível – hesito diante do termo
– fazer a História tão bela como ela é. Nossa Senhora enfeita essa História. E
somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime,
por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não
teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.
De outro lado, Maria Santíssima não se limita a
isso. Ela pede também, para alguns, o
castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio
Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse
momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos
bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos
pede”. E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.
Compreendemos, então, a direção da História,
direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa
Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus,
obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria
Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão
excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a
História.
... e a modela como um
artista faz com a argila
Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral
dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada
nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família
se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe,
unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias
espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação
delas que condiciona a História.
Nossa Senhora intervém na história de cada um
de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um
bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a
Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre
Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem
graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a
pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso, a história, mesmo dos
malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.
Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração
d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus,
modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem.
Portanto, Nossa Senhora é operante na História.
O fator determinante de todo o curso da
História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa
Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a
Deus porque são apresentados por Ela.
É conhecido o princípio de que, se o Céu
inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém.
Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.
Considerando tudo isso, compreendemos bem o que
significa o poder d’Ela como Rainha da História.
Aspecto “catedralício”
da História
Um homem inteligente, que olha para uma
catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída;
sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.
Se a ume pessoa que foi olhar uma catedral
perguntamos:
- O que você viu?
- Um montão de granitos.
Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade
enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido”.
O modo de relacionar esse granitos entre si
forma uma coisa muito superior: a catedral, O granito foi “per accidens”, por
acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.
Assim Nossa Senhora vê a História da
Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do
seu Divino Filho.
Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus
e a inter-relação do agir da Humanidade formando um todo; e dentro da
Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla
todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o
anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e,
em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável
para o gênero humano.
Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos
pecados que conduzem a um grande movimento único do pecado: a Revolução. Mas
Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que
combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os
olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História,
isto é, a Revolução e a Contra-Revolução.
A Virgem Maria é Rainha da Contra-Revolução e,
em certo sentido, Rainha da Revolução.
Como? A Revolução como tal é uma rebeldia
contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser rainha dessa rebeldia, a
não ser nesse sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda
como a rainha sobre o escravo revoltado.
Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como
Rainha da História.
Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse
sobre essa reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela. (Extraído de conferência de 3/4/1982).[2]

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