Às vezes a gente sonha acordado. Como se fosse um sonho, um anjo me apareceu e levou-me pelo ar até certa altura. De lá de cima pudemos ver o panorama de grande planície e uma floresta, no meio da qual havia um grande lago. Mais além, podia se descortinar um mar calmo, azul e muito bonito.
De repente, começaram a surgir vários bandos de aves, me pareciam belos guarás, multicoloridas e de portes diversos, que pousavam no lago, algumas para beber água e outras para caçar peixes como alimento. Vinham e voltavam, sobrevoavam e baixavam ao chão soltando lindos chilreados ou guinchos a depender da espécie. Mas, o que me chamou a atenção foi a beleza de suas plumagens, o lindo colorido de suas penas. Como eram lindas! Vendo-as lembrei-me daquela passagem do Evangelho em que Nosso Senhor diz que nem Salomão com toda a sua riqueza vestiu-se com tanta riqueza e pompa.
Repentinamente, começou a surgir algo diferente no meio dos rebanhos de aves. Aos milhares, apareciam entre elas algumas cuja plumagem estava manchada, enfeando completamente os animais. Entre penas de lindas cores apareciam manchas pretas, ou, às vezes, o próprio couro do animal depenado naquelas partes. Ou havia cores feias ou então simplesmente a nudez de parte do corpo, ou, em casos raros, do corpo inteiro.
- Que horrível! Falei para o anjo. Então, na natureza existe isso? Deus não as fez tão belas, como é que aparecem assim desfiguradas e tão feias?
O Anjo, virando-se pra mim, respondeu:
- Não, o que vês agora não são mais aquelas belas aves. Embora pareça com elas, mas na realidade o que vês agora é apenas o que significa milhões de aglomerações humanas como se apresentam hoje. Deus fez os animais dotados de belezas naturais para manifestar a riqueza e a beleza da Criação, frutos do poder divino, mas aos homens Deus os fez de forma que eles mesmos possam tornar-se belos e admirativos, usando vestimentas e adornos que possam enriquecer suas personalidades perante Deus e a sua Criação. No entanto, por caprichos e por erros de apreciação do belo, pensam em se despir alegando conforto e refrigério do corpo. No entanto, tornam-se tão feios quanto os pássaros que se fosse possível aglomerassem nos pântanos e lagos a procura de alimentos, mas fossem enfeados por falta de penugem ou por alguma alteração na coloração original de suas penas. Estes pássaros assim deformados representam os homens que hoje andam tão mal vestidos. Veja agora como é que andam multidões pelas ruas, ou em qualquer de seus aglomerados, especialmente nas praias! Não se igualam a pássaros depenados?
- Por que, então, Deus não fez os homens com os corpos já cobertos como as aves?
- Porque queria que isso fosse como decorrência da vida, pois aquela cobertura corporal deveria refletir a glória alcançada eternamente. Assim, por exemplo, logo após o pecado de Adão e Eva foi o próprio Deus que fez as roupas para cobrir a nudez deles (Gên 3, 21). No Paraíso Celeste os corpos gloriosos terão também roupas especiais feitas por Deus, já nascidas após as ressurreições.
- E os que estarão no inferno, usarão roupas?
- Por causa da maldição eterna suas prováveis roupas ficarão aspectos tão horríveis quanto suas almasm quer dizer, é como se não as tivessem usando...

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