quinta-feira, 30 de março de 2023

EXEMPLOS DE MULHERES HERÓICAS BRASILEIRAS

 

 

 


Ana Néri - Chamava-se Ana Justina Ferreira Néri e nasceu a 13 de dezembro de 1814 na cidade de Cachoeira, Bahia, que na época tinha o nome de Vila de Nossa Senhora do Rosário de Cachoeira. Quando irrompeu a guerra do Paraguai, em dezembro de 1864, Ana morava em Salvador. Em 8 de agosto de 1865 enviou ofício ao presidente da província solicitando trabalho como enfermeira na guerra. Alegava dois motivos: atenuar o sofrimento dos que lutavam pela defesa da pátria e estar junto de seus filhos que já se achavam na frente de combate.

Sem esperar o deferimento de seu pedido, Ana embarcou junto com o exército de voluntários 5 dias depois.  Demorou quase cinco anos com o exército, perdendo na guerra um filho e um sobrinho. Sua participação foi tida como heróica, pois não temeu permanecer no campo de batalha para socorrer solicitamente todos os feridos que a procuravam no hospital de campanha.

No entanto, não foi Ana Néri a primeira mulher a partir para a guerra como enfermeira, mas sim a paulista Felisbina Rosa.

Felisbina Rosa - Nascida em Santos (SP), em 1830, quando eclodiu a guerra do Paraguai Felisbina era viúva e tinha um filho. Um dos motivos de sua ida para a guerra foi também para estar ao lado de seu filho, além de prestar socorro aos feridos em combate. Apresentou-se como enfermeira e obteve as vantagens conferidas às religiosas da Santa Casa de Misericórdia. Em virtude de Ana Néri só ter partido para a guerra 7 ou 8 meses depois, os paulistas reivindicam para Felisbina o título de primeira enfermeira que vem sendo conferido à baiana.

Felisbina não teve a mesma sorte de Ana Néri, pois morreu na guerra. Esteve na frente de batalha da passagem do Paraná e na batalha de Tuiuti, onde socorria os feridos com abnegação e carinho. Regressou a Corrientes acompanhando os feridos em batalha. Estava assistindo a um enfermo, quando, repentinamente, no dia 31 de julho de 1866, sofreu um colapso cardíaco, falecendo em seguida. Seu filho continuou no serviço do Exército e chegou ao posto de general.

As órfãs da rainha -  Junto com os governadores do Brasil, vieram algumas órfãs que a rainha de Portugal mandou para o Brasil a partir de 1551. De modo geral eram descendentes da pequena nobreza, cujos pais haviam morrido em viagens ou em guerras. Um único dote que levavam era a promessa de um cargo público para seus maridos que o rei afiançava desde logo. Este fato histórico desmente, de algum modo, a calúnia de alguns historiadores que afirmam que os reis de Portugal só mandavam para o Brasil degredados e bandidos... Abaixo, relatamos o destino que aqui teve cada uma delas.

Ana de Paiva casou-se com Salvador da Fonseca, futuro escrivão da Provedoria da Fazenda. Ficou viúva e retornou depois para Portugal. Apolônia de Góis viveu na Bahia onde casou-se com Damião Lopes Mesquita. Mécia Lobo de Mendonça, Joana Barbosa Lobo e Marta de Souza Lobo eram três irmãs, filhas de um nobre que havia morrido na conquista das Índias, o general Baltasar Lobo de Souza. Mécia casou-se com Jerônimo Moniz Barreto com quem teve duas filhas;  Joana casou-se com Rodrigo de Argolo; e Marta casou-se com João Gonçalves Dormundo, fazendeiro de Ilhéus, com quem teve três filhos, os quais adotaram a grafia inglesa do nome do pai Drummond, e não Dormundo. 

As demais, Catarina de Almeida, casou-se com Gaspar Barros Magalhães com quem teve oito filhos; Catarina Fróis, filha de Mécia Rodrigues e Simão Rodrigues de Fróis, casou-se com Francisco de Morais e teve três filhas; Clemência  Dória, filha de Lorenzo d'Ória foi educada no Recolhimento Nossa Senhora da Ajuda, educandário para órfãs nobres. Casou-se com Sebastião Ferreira, moço de câmara do infante D. Fernando. Ficou viúva e realizou um segundo casamento, com Fernão Vaz da Costa, cunhado de Tomé de Souza; Damiana de Góis, filha de Manuel de Góis Macedo, morto no caminho das Índias, casou-se ela com João Fernandes Coelho; Inês da Silva, casou-se com Cristóvão Brandão; Jerônima de Góis, casou-se com João Velho Galvão; Maria Barbosa, casou-se no Rio de Janeiro com  Manuel Gonçalves;  Maria de Reboredo, casou-se com Antonio Lamego, homem de armas;  e Violante Eça, casou-se com.o fazendeiro João de Araújo de Souza, com quem teve seis filhos.

D. Francisca de Sande, heróica e rica senhora de Salvador, tornou-se um exemplo histórico de adnegação em favor do próximo. No século XVII irrompeu uma terrível epidemia sobre a capital, dizimando milhares de vítimas.  O escritor Rocha Pita destaca o papel caridoso e heróico que teve aquela matrona:

“Vivia naquele tempo D. Francisca de Sande, viúva poderosa, e matrona das principais da Bahia; e fazendo luzir a sua piedade, e o seu cabedal na cura dos enfermos, abriu em sua casa um hospital, mandando ir a ele os doentes que não  cabiam na Misericórdia, e recolhendo outros que voluntariamente escolhiam o seu, onde lhes ministrava pelas suas mãos as medicinas receitadas dos médicos, a quem pagava, e todos os medicamentos, despendendo considerável soma em galinhas, frangões, camas, roupas e tudo o que podia ser preciso para a saúde, cômodo e asseio dos enfermos, dos quais a maior parte escapava por força do seu cuidado e da sua caridade; virtudes que mereceram o agradecimento do sereníssimo senhor rei D. Pedro, expressado em uma honrosa carta que foi servido mandar-lhe escrever”.[1]

Heroínas da Guerra do Paraguai – Além de Ana Neri, algumas mulheres se destacaram na famosa Guerra do Paraguai. Duque de Caxias, em carta ao Ministro da Guerra, informa que deu passagem no Vapor Arinos, para a Corte, à Joana Rita dos Impossíveis, mãe de dois soldados mortos em campanha e solicitava outra passagem de volta para o Piauí, sua terra de origem. Os historiadores citam, por exemplo, uma mulher chamada Florisbela, intrépida soldada do 29⁰ Corpo de Voluntários, que tomava a carabina do primeiro homem que caía e ocupava sua posição  na guerra, indo depois ajudar aos feridos no hospital. Sabe-se pouco sobre essa Florisbela, certamente por tratar-se de mulher de costumes dissolutos, sem família, mas tinha fama de ser audaciosa e abnegada no exercício de suas funções. Quando a viam com os lábios enegrecidos de pólvora pelo fato de morder o cartucho, os soldados se animavam e a chamavam de “anjo da vitória/’.

Uma figura que também merece destaque é uma chamada “Maria Curupaiti’, cujo nome verdadeiro era Maria Francisca da Conceição. Pernambucana, da cidade de Flores, “casou-se” aos treze anos de idade com um cabo de esquadra do Corpo de Pantaneiros do Exército, sendo uma das mulheres admiradas pela tropa. Havia a proibição das mulheres acompanharem seus maridos na guerra, mas ela cortou seus cabelos, vestiu o uniforme do marido, arranjou um boné e insinuou-se no meio dos soldados por ocasião do embarque.  Entrou em luta e vendo cair um soldado à sua frente, pega suas armas, cinturão e cartucheira, avançando junto com a artilharia. Quando entraram na fortaleza inimiga luta até de baioneta, derrubando vários soldados. Seu marido morre nos combates e ela lhe dá sepultura. Somente após ser ferida e ter que ir ao hospital descobriram que era uma mulher.

Em 1864, por ocasião do ataque paraguaio ao Forte Coimbra, cerca de 70 mulheres,  a maioria delas esposas de militares, fabricaram milhares de balas de fuzil. Duas delas, mulheres simples do povo, cognominadas de “Aninha Gargalhada” e “Maria Fuzil”, tiveram menções honrosas pelo fato de, na escuridão da noite, terem descido ao rio para trazer água para os defensores do forte.  Dentre outras, destaca-se também a jovem Jovita Feitosa (cearense), alistada entre os Voluntários da Pátria, tendo cortado os cabelos e vestido farda, mas foi logo descoberta. Sua fama lhe mereceu nome de rua em Fortaleza.

Nem todas estas mulheres levavam vida honesta, muitas delas eram pessoas de vida dissoluta, como Madame Lynch, amasiada com Solano López, e a famosa Anita Garibaldi, esta no tempo da guerra Farroupilha quando tornou-se amante de um sapateiro, com apenas 14 anos de idade, e depois com o bandoleiro famoso, Garibaldi

A protetora dos órfãos de Salvador, Bahia. Apesar da grande dificuldade na pregação da doutrina católica, oriunda muitas vezes da crise reinante nas próprias instituições religiosas, sempre se destacava entre o povo uma pessoa na prática das virtudes cristãs. Foi o caso de Maria de Lima das Mercês, uma mulher negra de origem humilde, nascida no ano de 1800, que dedicou toda a sua vida à proteção e educação das crianças de rua da Capital da Bahia entre os anos de 1820 a 1864.

Com a ajuda do Padre Francisco Gomes de Souza, Maria de Lima das Mercês dirigiu entre 1827 até o ano de sua morte em 1864 o Colégio Sagrado Coração de Jesus, nas dependências da Santa Casa de Misericórdia de Salvador, direcionado ao abrigo e educação das crianças de rua da capital baiana.

Maria sabia ler e escrever, e com a pouca instrução que tinha ensinava mais de 300 órfãos do Colégio com o auxílio das irmãs vicentinas as diferentes artes de ofício para que logo pudessem se sustentar. Em 1859 recebeu auxílio financeiro da Imperatriz Dona Teresa Cristina durante sua Visita a Cidade de Salvador.

Era conhecida pelo povo como a "Virtuosa Maria de Lima das Mercês" pois sacrificou sua vida humilde pela caridade de quem era ainda mais miserável. Os informes não dão conta se a mesma tinha sido escrava e conseguiu alforria ou se já nasceu livre. Um periódico da época descreveu que: "Maria recebia innumeras crianças, umas brancas como os jasmins, outras negras como a noite sem estrellas, aquellas, a rir, a brincar despreoccupadas, olhar limpido como a sua consciencia, ou languido pela febre, das urgentes necessidades, que conduzem a mais das vezes a podridào do vicio e do vicio á cadeia e de la aos prezidios"

Sua morte ocorreu em 1864, e não há registro de qualquer memória sobre seu trabalho, revelando um certo descuido que há em nosso país nessa matéria, deixando de reconhecer para a História importantes vultos.

Em 1862 o Fotógrafo Hermann Kummler fez o único registro conhecido de Dona Maria das Mercês, fotografada com uma das crianças do seu abrigo. [2]

 



[1]              Apud “A Sé Primacial de Salvador” – Riolando Azzi – Ed. Vozes – pág. 273

[2] Dados colhidos na obra “Mulheres illustres do Brazil”- Página 153 – e no Diario official do estado da Bahia - Página 477 -Revista do Instituto Geografico e Histórico da Bahia

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