terça-feira, 19 de julho de 2022

ORIGEM DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO VENERADA NO CONVENTO DE SANTA CLARA DA BAHIA

 




O mundo tem a sua formosura na sua variedade, porque se ele não fora vá-rio, não fora formoso: daqui nasce aquela grande inconstância com que o mundo reparte ordinariamente as suas felicidades. Que esta conseqüência tenha lugar nos mundanos, seja embora; porque na sua adoração podem ser a sua desculpa: mas que tenha também lugar no filho de Deus e na Virgem Santíssima, que a golfo de Cristo se ver adorado: “Venimus adorare eum”, se siga a pena de se ver fu-gido: “Fugem Aegyptum”. E que à alegria de se ver Maria venerada por Rainha do Céu, se siga a pena de se ver obrigada, das perseguições de Herodes a fugir com o Santíssimo Filho, é muito para admirar. Que sendo a Providência Divina tão grande, que é infinita; disponha que Maria se veja obrigada a se desterrar; e que o Filho seja obrigado a fugir? Que as luzes, e mais as sombras sejam os mesmos ditames e corram a mesma fortuna, grande maravilha! Mas alcançando-se o mistério, cessará logo o espanto. Cristo e Maria eram luzes, era Cristo Sol: “Crietur nobis Sol justitiae”; era Maria luz: porque era Lua: “Pulchra ut luna”. Justo era que Maria com a ocasião desta pena, fosse luzir no desterro com o seu exemplo; e que Cristo, fugindo à perseguição de Herodes, fosse luzir no Egito com o seu amparo, como diz Crisóstomo. Esta é a natureza das luzes. Os seus resplendores são as suas influências. Os Astros em tanto luzem, em quanto aproveitam, que senão aproveitaram, não luziram; e assim vão Maria e seu Santíssimo Filho desterrados para luzirem e para espalharem no Egito os resplendores de suas divinas virtudes. E dispunha a Divina Providência, que as sagradas imagens de que compõem este soberano mistério, sejam levados pela devoção católica ao novo mundo da América para nele como lá se viu no Egito, arruinar os ídolos daquela Gentilidade bárbara e inculta, ilustrando-as com suas luzes para o inflamarem e guiarem aos caminhos da verdadeira Religião, como aqui veremos.

Pouco depois de se dar princípio à Cidade de São Salvador, ou Bahia de todos os Santos, foi isto pelos anos de 1560 sendo Governador Mem de Sá, se erigiu uma Ermida no Sertão, ou alguma cousa distante da nova povoação; aonde uns devotos, não sem destino do Céu (porque havia escolhido aquele lugar para Palácio), colocaram as imagens de Jesus, Maria e José. Imagens de vulto formadas de madeira, o menino, e São José com seus bordões. Era esta Ermida feita de tábuas e o teto coberto de folhas de palma. O sítio desmatá-lo-iam; mas afrouxando a devoção, tornou a crescer o mato; e assim era muito infestada de animais ferozes e peçonhentos, com cobras jibóias ou de veados muito grandes, jacarés e outros que saíam das lagoas que lhe ficavam vizinhas. E, ou fosse que se acabasse de todo a devoção, ou que o temor de cair dos dentes daquelas feras cruéis e medonhas, fez que se acabasse totalmente o ir a venerar a Senhora à sua Ermida. E assim se perdeu a devoção; e quando algumas pessoas (se iam lá) levavam armas de fogo para se evitar qualquer perigo.

Pelos anos de 1567, sendo ainda Governador o referido Mem de Sá, se diz por tradição comum, que fora um homem (ou Nossa Senhora lhe inspirou que lá fosse). Ia este a cavalo para aquela parte e vendo Ermida, ou casa de palha, perguntou a uns negros o que aquilo era, e eles lhe responderam: era a casa de Nossa Senhora do Desterro; mas que se não podia lá ir, porque era aquele sítio muito reparo o homem, no que os presto referiram; e assim se resolveu a entrar na Ermida e ir fazer oração à Senhora do Desterro. Foi chegando, se apeou e entrou dentro a encomendar-se à Senhora.

Depois de fazer a sua oração, saiu para fora e assentou-se à porta da Ermida, e ali encostado, dizem, que adormeceu. Despertou logo todo sobressaltado; porque se viu cingido e cercado de uma grande jibóia, ou securiubam (1) a qual já fazia diligência pelo tragar. Neste tempo, e neste perigo, invocou em seu favor à Senhora do Desterro, e com ela animado puxou de ma navalha, que também dispôs Deus que a levasse consigo; tal golpe e com tal sucesso lhe deu pela garganta que a degolou e caiu morta aquela fera e animal espantoso. Reconhecendo logo de onde lhe viera o socorro, entrou dentro da Ermida a dar graças à Senhora, que o havia livrado da morte. E depois saindo fora, carregou como pôde no cavalo aquele medonho animal, e com ele se foi à praça da Cidade, apregoando a grande maravilha e o favor que a Senhora lhe fizera. Tem aquele animal a pele tão dura, que dizem por encarecimento que tem sete couros. E é esta tão dura que parece impenetrável, porque para o abrirem não bastavam os machados. E aqui se viu o mais o portentoso do milagre, que sendo aquela pele tão dura e tão impenetrável , a fez o favor de Maria Santíssima tão e tão branda no pescoço que com uma navalhada pôde aquele homem degolar aquela grande fera. Esfolaram-na e depois encheram a pele de algodão, e com a navalhinha na boca a foram oferecer à Senhora do Desterro, em memória do benefício que fizera em livrar da morte aquele seu devoto.

Com este grande milagre se ascendeu o povo em fervorosa devoção para com a Senhora do Desterro, e tanto que o mesmo Governador Mem de Sá pediu a todos os moradores que tinham pretos, aos que tinham seis, que dessem três, e aos que tinham quatro, que dessem dois, e assim aos mais, para irem roçar todo aquele mato, que estava em o circuito da Ermida da Senhora. Limpa toda a terra até o sítio da casa da Senhora, trataram de lhe edificar outra mais grande e capaz de pedra e cal, e alevantar casas junto a ela. E o mesmo Governador mandou ali edificar uma casa nobre, ou palácio, para sua vivenda. E depois se foram fazendo tantas casas, que a Cidade se estendeu até aquele sítio. O mesmo Governador desejou logo, que naquele mesmo sítio se edificasse um Convento para religiosas, que perpetuamente louvassem a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e fez as dili-gências possíveis para que estes seus desejos se efetuassem. E porque ele o não pôde conseguir em sua vida, o recomendou à Câmara daquela Cidade. E tão certo estava de que a Senhora do Desterro havia de ser servida naquele lugar por religiosas, que na sua morte deixou ao Padre Reitor do Colégio da Companhia (2) daquela Cidade mil cruzados em depósito, para que assim que chegassem as religiosas a tomar posse daquela casa lhes entregasse para a ceia daquele dia; como em efeito o executou, indo logo entregá-los ás religiosas. E reparando elas na aceitação, o Padre Reitor as certificou, de que aquele dinheiro era seu, e que se lhe havia deixado em legado para quando elas chegassem.

Isto mesmo testemunha ainda hoje uma companheira das Madres Fundadoras, que vive no Convento de Santa Clara da Cidade de Évora (de onde saíram para fundar) neste presente ano de 1705, a qual disse que estes mil cruzados depositaram logo as Madres Fundadoras, para se dar com ele princípio a obra do seu Convento. O ano em que as Fundadoras saíram do seu Convento de Évora, foi o de 1676 em oito de novembro. E tomaram posse do Convento novo na Cidade da Bahia em nove de março de 1677. As Fundadoras eram a Madre Soror Margarida da Coluna, que ia por Abadessa, a Madre Soror Luiza de São José por Vigária, as outras duas eram a Madre Soror Maria de São Raimundo e Soror Jerônima do Presépio. E teve muito de mistério, que todas quatro voltaram a Portugal e foram para o seu Convento, aonde se restituíram todas em oito de novembro de 1686. Gastando dez anos justos e completos nesta obra, que podíamos dizer fora profetizada por aquele pio e devoto Governador Mem de Sá. Esta casa da Senhora do Desterro é juntamente paróquia daquele distrito; se o era já quando as religiosas tomaram posse não me constou; mas já o devia ser. A imagem da Senhora é de talha estofada, e por ornato lhe põem um rico manto, e assim a Senhora como São José; e o soberano menino se vem com varas de prata por bordões, a sua estatura da Senhora são cinco palmos. Obrou sempre, e obra muitos milagres. A sua festividade se faz sempre com grandeza em dia de Reis, na qual se acaba o seu septenário.

NOTAS: 1) Tudo indica que o autor quer se referir à cobra sucuri.

2) Refere-se à Companhia de Jesus.

(Transcrito do livro “Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora” – de Frei Agostinho de Santa Maria – Em Lisboa – 1722- págs. 28/30).

Nota: O trabalho de Frei Agostinho (“Santuário Mariano...”) foi feito sob encomenda do Bispo, Dom Sebastião Monteiro da Vide, que viu a necessidade de documentar todas as imagens milagrosas de Nossa Senhora que haviam na Bahia.


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