SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

TRÊS ARTIGOS SOBRE A ALEGRIA DO SERVIR





Plinio Corrêa de Oliveira


A ti caro ateu

"Caro"? O adjetivo pode causar estranheza a leitores que, pelos artigos da "Folha" como por outros meios, há décadas me vêem combater o ateísmo, precisamente no aspecto mais expansivamente imperialista que assumiu ao longo da História, isto é, o ateísmo marxista. "Caro": como então justificar o qualificativo? Explico-me.
Deus quer a salvação de todos: dos bons, para que recebam no Céu o prêmio de seus méritos; dos maus, para que, tocados pela graça, se emendem e alcancem o Céu. Em perspectivas e a títulos diversos, uns e outros são, portanto, caros a Deus. Como, então, podem não o ser ao católico? Caros, sim, até mesmo quando, para defender a Igreja e a cristandade, o católico os combate. Um cruzado poderia dizer com toda a sinceridade "caro irmão" ao maometano, no momento mesmo em que terçava rijamente armas com ele para a reconquista do Santo Sepulcro.
A expressão "caro ateu" é pois válida. E comporta até sentidos matizados. Pois oferece matizes o ateísmo. A cada um deles corresponde — como é natural — um sentido específico da palavra "caro". Assim, há ateus que se alegram com a convicção de que "Deus não existe". A tal ponto que se algum fato evidente — um milagre retumbante por exemplo — o convencesse do contrário, bem poderia acontecer que ele passasse a odiar a Deus, e até a matá-Lo, se fosse possível.
Outros ateus estão de tal maneira enchafurdados nas coisas da terra, que seu ateísmo não consiste em negar que Deus existe, mas em desinteressar-se inteiramente do assunto. Se é cabível a distinção, eles não são "ateus", no sentido mais radical e aliás corrente da palavra, mas "a-teus", ou seja, laicos. Concebem sem Deus a vida e o mundo. Caso se lhes provasse que Deus existe, veriam nEle um ser "con il quale o senza il quale, il mondo va tale quale". Sua reação consistiria em decretar contra Ele um total e perpétuo banimento dos assuntos terrenos.
Mas há um terceiro gênero de ateus. A este pertencem os que, acabrunhados pelos trabalhos e decepções da vida, e vendo bem, por amarga experiência pessoal, que as coisas desta terra não passam de "vaidade e aflição de espírito" (Eccles. 1, 14), gostariam que Deus existisse. Mas tropeçando nos sofismas do ateísmo, aos quais outrora haviam aberto o espírito, atados pelos hábitos mentais racionalistas a que aferraram a mente, tateiam agora nas trevas sem conseguir encontrar o Deus a quem outrora rejeitaram. Quando medito na apóstrofe de Jesus Cristo: "Vinde a mim, ó vós todos que estais sobrecarregados e fatigados, e eu vos restaurarei" (Mt. 11, 28), penso mais especialmente neste tipo de ateus. E tenho mais especialmente vontade de os chamar "caros ateus".
Assim fica explicado quais são os ateus a quem especialmente dirijo as presentes reflexões.
Entretanto, não é só a eles que tenho em vista, mas a outros leitores, e outros ainda, e muito mais especialmente caros. Isto é, a alguns irmãos na Fé católica, membros como eu do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais, tendo lido a referência por mim feita no artigo "Volta à Torre de Babel?" à espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort, desejaram que eu dissesse algo mais sobre o assunto através das colunas da "Folha".
Escrevo pois este artigo para estes últimos. Mas com olhos postos nos primeiros. Faço-o nesta "Folha" tão coerente com os princípios de liberdade de pensamento, os quais professa, que abre compreensivamente um espaço para mim (que certamente não sou um liberal!). Para que neste espaço eu diga o que me pareça. Ao considerar meus artigos, insertos entre tantos outros de rumo bem oposto, parece-me ver a "Folha" voltada para o público com um estandarte em punho (por certo não o rubro e leonino estandarte da TFP!), no qual se leriam estas palavras de Voltaire (ultraliberais, e também exemplarmente lógicas na perspectiva liberal): "Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de as dizer".
Pluralismo coerente é isto. E estão nos antípodas disto tantos jornais brasileiros que aos urros se jactam de seu pluralismo, mas recusam o menor espaço para um comentário – até para a menor notícia – de movimentos antipluralistas. Como se o pluralismo fosse absurdamente não-plural, e não consistisse na liberdade de discordar. Dir-se-ia até que, em tais jornais, há um politburo apostado em varrer da publicidade o pensamento "herético" antiplural.
Oh, como seria mais autêntica, mais intelectualizada e mais arejada a democracia brasileira, se seguissem a linha de ação enunciada naquela frase de Voltaire, tantos jornais brasileiros.
Falo agora aos ateus especialmente caros, na esperança de lhes tocar o fundo da alma, no mesmo texto em que falo para meus caríssimos irmãos na Fé.
Imagina-te, caro ateu, em alguns desses intervalos da vida quotidiana de outrora, no sossego dos quais subiam à tona do espírito as impressões aprazíveis e profundas que a faina do dia, carregada do pó da trivialidade e do suor do esforço, havia sufocado na subconsciência. Eram os espaçosos momentos de lazer, em que as saudades de um passado risonho, os encantos e as esperanças do presente duro mas luminoso, e as fantasias tantas vezes pérfidas faziam agradável ciranda para distender a alma "posta em sossego, [...] naquele engano da alma, ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito" (Camões, Lusíadas, canto 3º, estância 120).
Nos minguados momentos do lazer de hoje, pelo contrário, sobe à tona a neurótica sarabanda das decepções, das preocupações, das ambições descabeladas e dos cansaços exacerbados. E por sobre essa sarabanda paira uma pergunta acachapante, plúmbea, obscura: para que viver?
Sob o signo dessa pergunta, encerro o artigo de hoje. Até o próximo, caro ateu.
"Folha de S. Paulo", 31 de agosto de 1980



O serviço, uma alegria

FIGURA-TE então que a teu espírito contundido pela vida, calejado ou até chagado, quente de febre, aparece uma figura dessas, com que sonhava tua inocência infantil há tantos anos morta, uma rainha toda majestade e toda sorriso, a qual, para ajudar-te, te conduz pela mão para dentro dos raios da luz irisada, pacificadora e radiosa que a circunda, para dentro de uma atmosfera que, de tão pura, parece recender com todos os perfumes da natureza: flores, incenso, sei lá o que mais. E tu, caro ateu, te deixas atrair. Caminhas fitando essa figura mais bela ainda do que as luzes que a envolvem, e mais odorífera que os perfumes a que recende. Dons magníficos que ela recebe de um foco invisível mas soberano, que com ela não se confunde, mas que nela transluz.
Esquecidas estão as tuas amarguras. Sentes quanto há de fátuo no maremagno delas. Discernes que incomensuravelmente para além da esfera do cotidiano, na qual elas deliram e pululam, há uma ordem do ser excelsa e tranqüila, onde poderás ingressar, ao fim. Percebes que só nela encontrarás aquela felicidade que procuravas entre os vermes, mas que, na realidade, habita para além das estrelas.
Fitas mais e mais a Senhora, e começa a parecer-te que já a conhecias. Procuras na sua fisionomia algo que te parece profundamente familiar. Em um quê do olhar, em certa peculiar nota de afeto no sorriso, em algo da segurança que irradia, rica em subentendidas expressões de afeto, reconheces certos lampejos de alma inefáveis que vias nos mais generosos lances de alma da mãe terrena que tiveste ou — por entre as inumeráveis formas de orfandade, no mundo de hoje — da mãe que querias ter tido.
Fixas a vista, e vês ainda mais. Não apenas uma mãe, a tua, mas alguém — Alguém — que se te afigura a quintessência inefável, a síntese amplíssima de todas as mães que houve, que há e que haverá. De todas as virtudes maternas que a inteligência e o coração do homem possam conhecer. Mais ainda, daqueles graus de virtude que só os santos sabem excogitar, e das quais só eles sabem aproximar-se, voando nas asas da graça e do heroísmo. É a mãe de todos os filhos e de todas as mães. É a mãe de todos os homens. É a mãe do Homem. Sim, do Homem-Deus, do Deus que se fez Homem no seio virginal dessa Mãe, para resgatar todos os homens. É uma Mãe que se define por uma palavra — o mar — a qual, por sua vez, dá origem a um nome. Nome que é um céu: é Maria.
Por Ela te vêm, do sol divino, infinitamente superior, mas que nela parece habitar (como os raios de um sol parecem morar nos vitrais), te vêm, digo, todas as graças, todos os favores. Tu imploras, e tu te vês atendido. Tu queres, e tu te vês satisfeito. Do fundo da paz que começa a ungir-te e envolver-te, sentes nascer uma forma de felicidade que é o oposto radioso daquela que, até há pouco, freneticamente procuravas. Esta felicidade terrena, se é que a possuías, por fim a andavas atirando ao lado, inveterado, blasé, tão parecido com a criança que atira ao canto os brinquedos que já não a entretêm.
No egoísta frustrado que foste, começa a surdir, como um lírio que nascesse do pântano, ou uma fonte em arenal desértico, algo de novo. É o amor. Não o egoísmo, que é o amor exclusivista de ti mesmo. Mas o amor dos princípios eternos, dos ideais fulgurantes, das causas altaneiras e sem jaça, que vês resplandecer na Dama inefável, e que começas a querer servir.
Servir, dedicar-te, imolar-te, e a tudo que te pertence, eis o nome de tua nova felicidade. Esta felicidade tu a encontras em tudo quanto evitavas: a dedicação não retribuída, a boa vontade incompreendida, a lógica escarnecida por tartufos ou ignorada por surdos voluntários, a confrontação com a calúnia que ora ulula como um furacão, ora agita discretos guizos como uma serpente, ora, enfim, mente como uma brisa morna e carregada de miasmas fatais. Tua alegria consiste agora em resistir a tanta infâmia, em avançar, vencer, ferido, negado, ignorado embora. Tudo para o serviço da Senhora "vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas" (Apoc. 12, 1). A serviço dEla, sim, e dos que A seguem.
Pensavas que a felicidade era ter tudo. Verificas agora que, pelo contrário, ela consiste em que te dês inteiro.
Sobressalta-te talvez o receio de que estou a sonhar e de que te esteja fazendo sonhar ao longo destas linhas que, eventualmente, tua benevolência terá imaginado saborosas. Ora, nem sonho, nem te faço sonhar, nem estão sendo esplendorosas as linhas que leste.
Quão apagadas, pelo contrário, são elas em confronto com o livro que citei, no artigo "Volta à Torre de Babel?", isto é, o "Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem", de São Luís Maria Grignion de Montfort. Nele, o famoso missionário do fim do século XVII e início do século XVIII (cujos seguidores foram os chouans, heróis da luta contra a Revolução Francesa, atéia e igualitária, de fins do mesmo século XVIII) justificou, com base nas mais sólidas verdades da Fé, e mediante um raciocínio impecavelmente lógico, o perfil de santidade de Maria. Esquadrinhou ele a fundo o significado de sua maternidade virginal, o papel dEla na Redenção do gênero humano, a situação dEla como Rainha do Céu e da Terra, de co-Redentora dos homens e medianeira universal das graças que nos vêm de Deus. Como também das preces da humanidade sofredora, a Deus Todo-Poderoso. Analisa o Santo, à luz de tudo isto, a providência de Maria, e como essa providência de tal maneira tem em vista amorosamente cada homem, que a Mãe do Homem-Deus nos ama a cada qual com um amor maior do que todas as mães do mundo amariam seu filho único.
Foi para te atrair à consideração desses grandes tesouros, desses grandes pensamentos e dessas grandes verdades, que resolvi escrever-te. Atendo, ao mesmo tempo, o desejo de vários irmãos na Fé, que outra coisa não desejam senão ter-te entre eles, bem junto... a Ela.
Se aprouve à graça orvalhar minhas palavras, sentiste em ti algo como uma música longínqua, de tal maneira consoante contigo, com tuas aspirações mais palpitantes, que se diria que ela foi composta para ti. E que, por tua vez, tens (ou és) uma sede de harmonia, nasceste para te dares a esta.
Em uma palavra, és para Ela ordenado, e sem Ela não és senão desordem.
E se, na grande harmonia do universo, até o mais insignificante grão de areia, a mais anônima gota de água, ou o último e mais contorcido verme da terra têm seu lugar e sua função, não será idêntica com essa ordem do universo — ou, antes, com os mais altos píncaros dela — o conjunto de verdades que acabo de te apresentar por metáforas, e São Luís Maria Grignion deduz, na mais sã e rija coerência, da Fé católica, dessa Fé que, por sua vez, São Paulo definiu como "rationabile obsequium" (Rom. 12, 1)?
Se é falso todo este panorama que te ordena, e sem o qual não és senão caos, então, no universo, tão supremamente ordenado ele próprio, és tu — é cada homem — um ser deslocado, desencaixado, perdoa-me o prosaísmo, porém és — e é cada homem — uma excrescência, uma verruga, um câncer, uma catástrofe. Logo, tu; logo, nós; logo, todos os homens, que, enquanto homens, somos entretanto o régio ápice dessa ordem!...
Crer que isto seja assim, crer numa tão monstruosa contradição instalada no ápice mesmo de uma ordem tão perfeita, isto sim é irracional. É a apoteose do absurdo.
"Folha de S. Paulo", 13 de setembro de 1980


Obedecer para ser livre

Não, caro ateu. Dando longínquo eco às palavras do bispo São Remígio ao batizar Clóvis, primeiro rei cristão dos francos, digo-te: "Queima o que adoraste e adora o que queimaste". Sim, queima o egoísmo, a dúvida, a modorra, e, movido pelo amor de Deus, ama e serve e luta pela Fé, pela Igreja e pela civilização cristã. Sacrifica-te. Abnega-te.
Como? — Como o fizeram, em todos os séculos, os que combateram por Jesus Cristo o "bom combate" (II Tim. 4, 7).
E muito assinaladamente o farás se seguires o método definido e justificado por São Luís Maria Grignion de Montfort. Trata-se da "escravidão de amor" à Santíssima Virgem.
"Escravidão"... Rude e estranha palavra, sobretudo para os ouvidos modernos, habituados a ouvir falar, a todo momento, de desalienação, de libertação, e cada vez mais propensos à grande anarquia, a qual, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX onde os aguarda.
Ora, há uma escravidão que liberta, e há uma liberdade que escraviza.
Do homem cumpridor de suas obrigações se dizia outrora que era "escravo do dever". De fato, era um homem situado no ápice de sua liberdade, que inteligia por um ato todo pessoal as vias que lhe tocava trilhar, deliberava com varonil vigor trilhá-las, e vencia o assalto das paixões desonestas que tentavam cegá-lo, amolecer-lhe a vontade e vedar-lhe assim o caminho livremente escolhido. O homem que, alcançada esta suprema vitória, prosseguia com passo firme para o rumo devido, era livre.
"Escravo" era, pelo contrário, aquele que se deixava arrastar pelas paixões desregradas, para um rumo que sua razão não aprovava, nem a vontade preferia. A estes genuínos vencidos se chamava de "escravos do vício". Tinham, por escravidão ao vício, se "libertado" do sadio império da razão.
Esses conceitos de liberdade e servidão, Leão XIII os expôs, com a brilhante maestria toda sua, na encíclica Libertas.
Hoje tudo se inverteu. Como tipo de homem "livre" tem-se o hippie de flor em punho, a perambular sem eira nem beira, ou o hippie que, de bomba na mão, espalha o terror a seu bel-prazer. Pelo contrário, por atado, por homem não-livre é tido quem vive na obediência das leis de Deus e dos homens.
Na perspectiva atual, é "livre" o homem a quem a lei faculta comprar as drogas que queira, usá-las como entenda, e por fim... escravizar-se a elas. E é tirânica, escravizante, a lei que veda ao homem escravizar-se à droga.
Sempre nesta estrábica perspectiva feita de inversão de valores, é escravizante o voto religioso mediante o qual, em plena consciência e liberdade, o frade se entrega, com renúncia de qualquer recuo, ao serviço abnegado dos mais altos ideais cristãos. Para proteger contra a tirania de sua própria fraqueza essa livre deliberação, o frade se sujeita, nesse ato, à autoridade de superiores vigilantes. Quem assim se vincula para se conservar livre de suas más paixões está sujeito hoje a ser qualificado de vil escravo. Como se o superior lhe impusesse um jugo que cerceasse sua vontade... quando, pelo contrário, o superior serve de corrimão para as almas elevadas que aspiram, livre e intrepidamente — sem ceder à perigosa vertigem das alturas — galgar até o ápice as escadarias dos supremos ideais.
Em suma, para uns é livre quem, com a razão obnubilada e a vontade quebrada, impelido pela loucura dos sentidos, tem a faculdade de deslizar voluptuosamente no tobogã dos maus costumes. E é "escravo" aquele que serve à própria razão, vence com força de vontade as próprias paixões, obedece às leis divinas e humanas, e põe em prática a ordem.
Sobretudo é "escravo", nessa perspectiva, aquele que, para mais inteiramente garantir sua liberdade, opta livremente por submeter-se a autoridades que o guiem para onde ele quer chegar. Até lá nos leva a atmosfera atual, impregnada de freudismo!
Foi em outra perspectiva que São Luís Grignion de Montfort, ideou a "escravidão de amor" a Nossa Senhora, própria a todas as idades e a todos os estados de vida: leigos, sacerdotes, religiosos etc.
O que faz a palavra "amor", conjugada à palavra "escravidão" de modo surpreendente, já que esta última é o senhorio brutalmente imposto pelo forte ao fraco, pelo egoísta ao coitado a quem explora? "Amor", em sã filosofia, é o ato pelo qual a vontade quer livremente algo. Assim, também na linguagem corrente, "querer" e "amar" são palavras utilizáveis no mesmo sentido. "Escravidão de amor" é o nobre auge do ato pelo qual alguém se dá livremente a um ideal, a uma causa. Ou, por vezes, se vincula a outrem.
O afeto sagrado e os deveres do matrimônio têm algo que vincula, que liga, que enobrece. Em espanhol, às algemas se chama "esposas". A metáfora nos faz sorrir. E aos divorcistas pode arrepiar. Pois alude à indissolubilidade. Em português falamos dos "vínculos" do matrimônio.
Mais vinculante do que o estado de casado é o do sacerdote. E, em certo sentido, mais ainda o é o do religioso. Quanto mais alto é o estado livremente escolhido, tanto mais forte o vínculo, e tanto mais autêntica a liberdade.
Assim, São Luís Grignion propõe que o fiel se consagre livremente como "escravo de amor" à Santíssima Virgem, dando-lhe seu corpo e sua alma, seus bens interiores e exteriores, e até mesmo o valor de suas boas obras passadas, presentes e futuras, para que Nossa Senhora delas disponha, para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade (cfr. "Consagração de si mesmo a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria"). Nossa Senhora, como Mãe excelsa, obtém em troca, para seus "escravos de amor", as graças de Deus que elevem as inteligências deles até a compreensão lucidíssima dos mais altos temas da Fé, que dêem às vontades deles uma força angélica para subir livremente até esses ideais, e para vencer todos os obstáculos interiores e exteriores que a eles indebitamente se oponham.
Mas — perguntará alguém — como poderá pôr-se a praticar esta diáfana e angélica liberdade um frade, já sujeito por voto à autoridade de um superior?
Nada mais fácil. É-se frade por chamado ("vocação") de Deus. É, pois, por vontade de Deus que o religioso obedece a seus superiores. A vontade de Deus é a de Nossa Senhora. E assim, sempre que o religioso se haja consagrado como "escravo de amor" a Nossa Senhora, é enquanto escravo dEla que obedece a seu próprio superior. A voz deste é, para ele, na Terra, como que a própria voz de Nossa Senhora.
Chamando todos os homens aos píncaros de liberdade da "escravidão de amor", São Luís Grignion o faz em termos tão prudentes, que deixam livre campo para importantes matizações. Sua "escravidão de amor", tão cheia de significado especial para as pessoas ligadas por voto ao estado religioso, pode igualmente ser praticada por sacerdotes seculares e por leigos. Pois, ao contrário dos votos religiosos, que obrigam por certo tempo ou pela vida inteira, o "escravo de amor" pode deixar a qualquer momento essa elevadíssima condição, sem ipso facto cometer pecado. E enquanto o religioso que desobedece sua regra incorre em pecado, o leigo "escravo de amor" não comete pecado algum pelo simples fato de contraditar em algo a generosidade total do dom que fez.
Isto posto, o leigo se mantém nesta condição de escravo por um ato livre, implícita ou explicitamente repetido cada dia. Ou melhor, a cada instante.
Para todos os fiéis, a "escravidão de amor", é, pois, essa angélica e suma liberdade com que Nossa Senhora os espera no umbral do século XXI: sorridente, atraente, convidando-os para o Reino dEla, segundo sua promessa em Fátima: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará".
Vem, caro ateu, converte-te e caminha comigo, com todos os "escravos de amor" de Maria, rumo a esse Reino de liberdade supremamente ordenada, e de ordem supremamente livre, a que te convida a Escrava do Senhor, a Rainha do Céu.
E desvia-te do umbral em que está o demônio, como caveira a rir macabramente, tendo à mão a foice da liberdade supremamente escravizante, e da escravização supremamente libertária. Ou seja, da anarquia.
"Folha de S. Paulo", 20 de setembro de 1980




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