SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A busca desenfreada pela felicidade pode causar estresse

Chegando as festas de fim de ano, Natal e Ano Novo, percebe-se um grande frenesi em busca de lugares que possam proporcionar gozo e felicidade pelo menos naqueles dias. Vocês já procuraram saber quanto custa uma diária de hotel no dia 31 de dezembro? Façam a pesquisa se têm coragem (ou muito dinheiro) para tão cara festa. Será que vale uma noitada por 5, 10, 15 mil ou mais reais? Percebendo esse afã dentro de minha família, como soe acontecer com todas as outras da atualidade, resolvi expor aos que visitam este blog um comentário atual sobre o problema da felicidade.
O supra-sumo da vida feliz hoje em dia supõe-se que seja a posse de grande fortuna e de bens como de um ou mais carros de luxo, de um iate, de uma mansão onde se goze todos os prazeres da vida. Ledo engano. Onde se vêem pessoas mais nervosas, mais ansiosas, com angústia e destemperadas é exatamente entre aqueles que desfrutam de tais prazeres. É comum vê-se nas grandes cidades a falta de educação e irritação constante dos motoristas montados nos carros mais luxuosos e com ar condicionado. Se o conforto e o luxo lhes fizesse tanto bem deveriam se comportar de forma mais educada e compreensiva. É comum também ver como são facilmente irritáveis os passageiros dos aviões de luxo quando deixam de ser atendidos em suas exigências, quando o avião atrasa alguns minutos, quando faltou o cafezinho que não lhe trouxeram ou quando ocorreu qualquer bobagem que lhe causou certo desgosto passageiro.
O apanágio das multidões que desfrutam dos passeios de entretenimento, ou dos banhos nas praias, dos carnavais e dos “reveillons” fenomenais é uma tremenda frustração e angústia. Algo falta a essas pessoas que os entretenimentos modernos não preenchem e por isto se sentem vazias e angustiadas. A sociedade moderna lhes oferece uma infinidade de diversões, como o cinema, a TV, viagens confortáveis em aviões e ônibus de luxo, com o melhor conforto que possa haver, banhos de mar onde as pessoas podem estar quase despidas sem qualquer censura, festas em “nigth clubes” ou boates, enfim, tudo o que a mente humana concebeu em matéria de gozo da vida hoje se desfruta com facilidade. Chegou-se até ao ponto de permitir o homossexualismo livremente a fim de satisfazer a esta ânsia de busca do prazer quando a prática sexual heterodoxa for julgada cansativa, enjoada ou incapaz.
E as viagens hoje são freqüentes. Nunca se viajou tanto. Em 1995 o Diretor da IATA, uma empresa americana, declarou que somente sua companhia havia transportado naquele ano um bilhão e 200 milhões de passageiros. As viagens são feitas por motivos comerciais ou a passeio, mas grande parte delas é feita por pessoas que procuram outro país para viver. Muitas saem de seu país de origem porque estão insatisfeitas, embora às vezes tenham direito e desfrutem de todos os gozos que se lhes oferecem.
Alguns querem mais, ou querem experimentar algo diferente. Foi o que ocorreu com a bilionária Cristina Onassis. Filha única do armador grego Aristóteles Onassis e de Jaqueline (viúva de Kennedy), foi uma pessoa que desfrutou de tudo o que se pode imaginar em termos de gozo da vida, de luxo e riqueza. Seu pai sempre a tratou com exagerado mimo, a ponto de mandar fazer os vestidos de suas bonecas nos melhores costureiros de Paris. Morre sua mãe, depois morre seu pai. Cristina fica órfã e herda uma das maiores fortunas do mundo. Mas não era feliz... Havia dito várias vezes que se sentia solitária e infeliz, apesar de muito rica. No final da década de 80 encontram-na morta, vítima de uma overdose de drogas ou de doses excessivas de medicamentos, não se sabe. Por causa de sua riqueza e importância, sua morte revestiu-se de certo mistério: estava passeando com seu luxuoso iate por Buenos Aires e foi ao encontro de alguns amigos, onde terminou por perder a vida.
Outra personagem marcante a este respeito é a filha única do bilionário americano Jean Paul Getty, um homem excêntrico que construiu uma mansão com mais de 100 quartos para oferecer festas aos seus amigos, mas também morreu sozinho e frustrado. Sua filha foi seqüestrada por guerrilheiros, aderiu à causa deles e tornou-se uma assaltante de bancos a serviço dos mesmos. Foi presa e condenada. Sua riqueza e ostentação nunca foi suficiente para lhe oferecer paz de espírito ou a tão decantada felicidade...
A tal respeito é muito interessante o artigo publicado pelo jornalista Gilberto Dimestein na “Folha de São Paulo”, de 11.11.2001. A propósito do seqüestro da filha do empresário Sílvio Santos, seguido da invasão de sua casa pelo próprio seqüestrador, o jornalista passa a tecer comentários sobre o comportamento dos grandes empresários nacionais e o que pensam eles da utilidade de sua riqueza.
Com relação a Sílvio Santos, “materialmente não lhe falta nada. Ele retira de suas empresas anualmente o valor líquido (descontados os impostos) de R$ 40 milhões. Não é fácil gastar R$ 3,3 milhões mensais”...
Tanto Sílvio Santos como outros ricaços levam vida inquieta porque dizem ter dúvidas sobre seu papel na sociedade. Principalmente depois do seqüestro de sua filha e invasão de sua casa sentia como nunca a fragilidade humana. “Percebeu que toda a sua fortuna não consegue comprar o simples direito de estar em casa ou de andar na rua sem medo”.
Depois, o articulista passa a comentar uma pesquisa feita entre executivos de São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas e Belo Horizonte. A grande maioria deles se queixa de não ter tempo para cuidar de sua saúde física e psicológica, vivendo alarmados com medo de sofrer infarto ou derrame. O jornalista não comenta, mas faltou citar um outro medo que tanto inquieta os ricaços: seqüestros e extorsões. Da mesma forma eles acham que estar com a família nos momentos de lazer é o melhor sinônimo de qualidade de vida.
“Para estudar este tipo de comportamento, a Unicamp criou na Faculdade de Educação Física o Departamento de Estudos de Lazer. Ali os pesquisadores estão convencidos de que existe uma “síndrome do lazer”, associada a dores musculares, gripes, enxaquecas e mal-estar físico.
Tais sintomas, entre outros, manifestam-se quando o indivíduo está perto do final da semana e, em especial, das férias. É gente que se sente sem ar quando está fora do trabalho. “Feriado para essas pessoas é pânico. São pessoas que não conseguem relaxar sem culpa...” (in “Quanto vale a fortuna de Sílvio Santos?” – “Folha de São Paulo”, 11.11.2001).
Em outra reportagem do mesmo jornal, o empresário enfocado é Ermírio de Morais, um dos homens mais ricos do mundo. Após 35 anos de casado, conseguiu finalmente tirar férias com a esposa e resolveu viajar com ela para a Suíça. Não conseguiu desfrutar de suas férias, pois não sabia o que fazer para passar o tempo, reclamava da paisagem, do hotel, da comida, ligava para o Brasil para saber como iam os negócios, e assim não conseguia se concentrar em seu lazer. A única solução foi interromper as férias e voltar ao Brasil.
“O empresário está com 73 anos, mas não mudou de atitude. Acorda ainda de madrugada, por volta das 4h30, sem despertador, acompanha as notícias no rádio, na TV, lê os jornais. É, na maioria das vezes, o primeiro a chegar no escritório, no centro de São Paulo.
“Como se não fosse suficiente administrar um dos mais importantes conglomerados privados do Brasil, dá 20 horas por semana para administrar o Hospital Beneficência Portuguesa.
“Nos sábados e domingos, divide-se entre o escritório e o hospital. Nas horas vagas do final de semana, lê relatórios e livros sobre economia. “Sinto um aperto só em pensar em ficar sem fazer nada. Dá uma sensação de inutilidade”, afirma. Conta literalmente nos dedos às vezes em que se jogou na piscina da sua casa: foram quatro os mergulhos históricos”. (“Folha de São Paulo”, 18.11.2001).
Ocorre que o empresário, como tantos outros, está sofrendo da “síndrome do lazer”, um distúrbio comum em grandes empresários ou executivos que se caracteriza pela incapacidade de relaxar nas horas vagas. De nada lhes serve a riqueza e o luxo, pois suas comodidades não lhes dão o que chamamos de “paz de espírito”.
E o espírito de festas do fim de ano pode causar problemas neurológicos? Segundo reportagem do jornal "Folha de São Paulo", de 15.12.2002, as festas de fim de ano podem causar "estresse da felicidade". O que vem a ser isso? "Tudo conspira para que seja assim: deve-se ficar feliz no Natal, o Réveillon tem de ser inesquecível, todas as festinhas precisam ser alegres, e a pressão da mídia, da família, dos colegas e dos amigos acaba acarretando, no fim de mais um ano, um desgaste paradoxal: pessoas ficam infelizes porque se sentem na obrigação de estarem "bem", "pra cima" (FSP, 15.12.2002).
O médico Artur Zular, que é especialista em medicina psicossomática e dirige o Instituto Qualidade de Vida, diz: "... Os profissionais de saúde sabem disso: cresce a procura por tratamentos porque aumenta esse estresse. E por que ocorre? Porque, ao longo desse mês, as pessoas estão buscando desesperadamente uma felicidade que deverá ocorrer em determinada noite, no Natal ou no Ano Novo". Segundo Zular existe, sim, uma ansiedade no ar, já que "hoje em dia há famílias desintegradas, casais separados, há conflitos pessoais e profissionais de diversas ordens, e você vai ter de encarar tudo isso dentro de uma perspectiva de que deve ser bom, ser feliz. Acaba sofrendo por antecipação".
Outros profissionais prestam depoimento sobre o mesmo tema acima e confirmam o mesmo pensamento exposto pelo Dr. Zular e pela reportagem.

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