Geralmente, o indivíduo possuído pela influência do mundo virtual tende a acomodação e a não levar para a vida real tudo o que ele vive naquele outro mundo hipotético. Isso por causa de um fator: é a falta de disponibilidade para a ação. Temos vários exemplos disso: como, por exemplo, a convocação de milhares de pessoas para fazer um protesto contra um político, feita via Facebook, para a qual só compareceram algumas dezenas. Até mesmo entre os líderes destes movimentos das chamadas “redes sociais” têm se mostrado atacados por essa indisponibilidade para atuar na vida real. É que eles vivem tanto este mundo irreal, do virtual e hipotético, que perdem o gosto pela vida real. Muitos deles quando pretendem levar a sério a vida interior e partem para a real cometem atrocidades ou qualquer barbaridade insana, pois não se habituaram aos ditames da vida social e se voltam contra ela. Os principais meios de sustentação desse mundo virtual é a internet, embora a TV e o cinema tenham papel importante na formação de mentalidades. Aqui não falaremos da TV, pois esta vem perdendo gradativamente seu espaço na mídia.
O desejo de ter
“seguidores”
De outro lado, tem se manifestado muito
ultimamente um ardoroso desejo de conquista da maioria, o desejo de ter
“seguidores”, coisa mais comum nas chamadas redes sociais. Artistas, políticos
e o povo em geral manifestam costumeiramente tal desejo em suas manifestações
públicas. Talvez tal desejo não seja uma espécie de “coqueluche” das multidões,
mas ele é patente num grande público das redes sociais.
Os artistas quando gravam suas músicas para
venda, em geral colocam uma gravação de várias pessoas os aplaudindo e cantando
suas músicas, querendo dar a entender ao ouvinte que gozam da preferência
popular. Os políticos vivem pedindo aos institutos de sondagem de opinião
pública para fazerem pesquisas e assim ficar sabendo como vai sua popularidade.
Mas, não são somente os artistas e políticos
que pensam assim. Há uma mania mundial de busca da popularidade. Saber que teve
um vídeo assistido por uma multidão constitui motivo de orgulho de qualquer
frequentador das redes sociais. E quando a cifra chega a milhões de
“seguidores” ou de visualizações chama logo a atenção da mídia oficial (rádio,
jornal e TV) tornando-se notícia de destaque.
Qual a causa disso? Tudo indica que está
havendo no mundo uma quase que completa ausência de líderes naturais, e assim
muitos pretendem preencher esta lacuna, embora à sua maneira e em seu meio
social. E ter a preferência popular significa seguir a opinião pública, significa estar de acordo
com o que pensa a maioria e receber desta os aplausos, embora essa popularidade
não seja na rua, mas em casa perante um celular ou computador. É como se as
pessoas hoje desejassem participar de algum modo das decisões sociais, mostrando
sua importância.
Há também um certo vazio de sociabilidade, o
qual pede que as pessoas vivam mais em sociedade, mas ficam impedidos por essa
inapetência no modo de agir: preferem sempre o mundo virtual. Muitos saem de
casa, é verdade, a procura das multidões que se aglutinam nos estádios de
futebol ou nas festas de ruas. É a busca de multidões anônimas, sem muita
identificação natural de suas origens. Antigamente essa procura da sociabilidade
era nos clubes sociais, hoje quase que completamente falidos. Antigamente ela
era seletiva, hoje é promíscua, no meio de multidões anônimas e burlescas. Ou
então, nas distantes praias, onde multidões também se aglutinam promiscuamente,
inclusive praticando o seminudismo ou o nudismo total. Nesses ambientes, sim,
não há nada de vida virtual, mas a vida social é praticada no meio das multidões.
O único ambiente onde as pessoas hoje praticam uma
certa “sociabilidade” é no meio das multidões, de uma forma anônima, enquanto
que em seus ambientes familiares ou de grupos ficam arredios e fechados. É
comum estarmos numa roda de aniversário, ou qualquer festividade familiar ou de
grupo e as pessoas quase não conversam, ficam alheios a tudo teclando seus
celulares. A única coisa que os faz desligar o aparelho é o som ensurdecedor e
agressivos das suas festas, os quais muitas vezes causam até problemas nos
ouvidos e de nada servem para o bom convívio social.
Vou citar um exemplo: o sujeito viajou para
longe a fim de visitar um irmão em outra capital, convidou o mesmo para um encontro
num jantar, onde compareceu ele, a esposa, e o casal de uma filha e genro. A
conversa só girou entre a visita e o irmão, porque o jovem casal, todo o tempo
do jantar, ficava ligado unicamente no celular. E isso é comum hoje em dia. Até
crianças, deixam de brincar suas brincadeiras mais sadias para ficar horas e
mais horas no celular sem dar nenhuma atenção a visitas, por exemplo. Neste
tipo de gente não há a busca da sociabilidade a não ser nas multidões.
E qual a razão da procura das multidões?
Convívio social? Não, ninguém convive no meio das multidões, estas hoje servem
apenas para propiciar prazeres passageiros, a busca desenfreada de diversões e
nada mais.
Nestes dias li uma notícia de que uma pesquisa
constatou que já existiram no mundo, desde sua criação, em torno de 160 bilhões
de seres humanos. Isso quer dizer que se vivem atualmente na terra em torno de
8 bilhões, a quantidade na outra vida é de mais de 150 bilhões, cerca de 19
vezes mais numerosos do que aqui na terra. Então, se o objetivo é buscar o convívio
com multidões, nada melhor do que desejar logo participar da outra vida, onde
as multidões devem ser estupendamente mais numerosas do que aqui neste mundo. O
receio de alimentar tal desejo é porque lá há o inferno, que é eterno, onde só
se aguarda desgraças e maldições para sempre. Mas, há também o Paraíso Celeste,
com multidões inimagináveis, cercada por outras multidões de anjos, onde se
goza uma felicidade eterna. Não individualmente, mas socialmente, e com multidões
de companheiros.
Mas, neste mundo, hoje, o objetivo nem sempre é
a companhia das multidões para convívio social, mas desfrutar do prazer que as
elites oferecem em espetáculos públicos, todos eles cheios de grande massa de
gente. Lá estão as multidões que, às vezes, incomodam ou causam traumas violentos,
mas, pouco importa, as pessoas vão para rua do mesmo jeito. Ou para rua, ou
para os estádios e para as praias.
Internet,
Ao lado destes grupos que procuram seguidores e
apoio popular há outros, porém, que simplesmente vivem no anonimato, em salas
virtuais de “bate-papos”, jogos, filmes e passatempos inúteis, e se deleitam
com isso. Estes fogem instintivamente das multidões porque perderam o gosto da
vida social, hoje quase que exclusivamente em ambientes multitudinários. O
normal deveria ser que tais pessoas procurassem uma forma de concentrar-se em estudos
ou sadias leituras, mas não: vivem isolados na vida virtual, dizem, por diversão.
O vício da internet emigra do local de trabalho,
das escolas e de outros ambientes do dia a dia para dentro de casa. E em casa
as horas passadas no mundo virtual são muito mais longas do que em outros
ambientes. Alguns chegam a dormir menos.
O imediatismo da internet, a eficiência do
iPhone e o anonimato das salas de bate-papo talvez possam mudar a essência de
quem nós somos.
Quanto mais o sujeito se submete aos influxos
da internet mais ele se torna um autômato. Já não há lugar para a reflexão e o
pensamento, mas para atitudes compulsivas como de robôs. E isso pode se
refletir tanto em casa quanto na rua, no local de trabalho ou na escola.
Qual a distância entre o mundo virtual e o
real?
Quando se é criança, aquele mundo de imaginação
infantil, chamado hoje de virtual, facilmente pode ser transportado para o
mundo real sem qualquer prejuízo (desde que sejam boas as imagens), pois o
inocente ainda não sabe avaliar a diferença entre uma coisa e outra, entre o virtual e o real. No entanto, não se
pode dizer o mesmo de uma pessoa adulta, a qual facilmente saberia distinguir
entre o real e o imaginário, entre o virtual e o verdadeiro. Ou pelo menos
deveria saber distingui-lo, se não fosse o problema da internet e das manias
dos jogos virtuais modernos. Está se tornando comum ocorrer fatos em que as
pessoas confundem o virtual com o real ao emergir de seu mundo interior criado
pelas imagens da TV, do cinema, da internet, etc.
Vejam um fato que ocorreu na Coréia. Um casal
sul-coreano "viciado em internet" deixou um bebê de três meses morrer
de inanição enquanto criava uma filha virtual na web, disse a polícia local.
Segundo a agência de notícias oficial Yonhap, o casal alimentava sua filha
prematura apenas uma vez por dia, entre períodos de 12 horas passados entre
internet e um café. O oficial da polícia Chung Jin-won disse à Yonhap que o
casal "perdeu a vontade de viver uma vida normal" depois que os dois
perderam seus empregos. O pai, de 41 anos de idade, e sua mulher, 25 anos,
foram presos na cidade de Suweon, ao sul de Seul, no início da semana, cinco
meses depois de terem reportado a morte da bebê. Eles estavam foragidos desde a
morte da criança. A autópsia mostrou que sua morte foi provocada por um longo
período de desnutrição. O casal teria ficado obcecado em criar uma menina
virtual chamada Anima, no popular jogo Prius Online, disse a polícia. O jogo
permitia aos jogadores interagir com Amina e enquanto faziam isso, a ajudavam a
recuperar sua memória perdida e desenvolver emoções. Já houve outros casos de
morte ligados ao vício em jogos de computadores na Coreia do Sul, onde um jovem
morreu supostamente depois de passar cinco dias jogando com apenas pequenos
intervalos. Não só na Coréia do Sul, mas em vários países vêm ocorrendo fatos
semelhantes.
Há outro caso também elucidativo do mal que
causa a vida virtual. Ao sair de um cinema, na Itália, um sujeito matou um padre
que ia passando na Rua. Ao ser preso e investigado sobre a razão do crime,
disse que tinha visto naquele padre o mesmo “inimigo” do filme que acabava de
assistir: “O Código Da Vinci”. Deste modo, muitos que assistem filmes
cotidianamente ou vivem no celular em seus jogos, podem a qualquer momento
cometer um ato compulsivo na rua, até mesmo criminoso, por causa de sua mente obstruída
por imagens fantasiosas e indutivas de seus atos.
Houve até um caso clamoroso no Rio Grande do
Sul. Um garoto de 16 anos cometeu suicídio. A novidade é que ele mesmo gravou
sua morte, deixando o vídeo para ser visto pelos pais como vingança pelo ódio
que tinha dos mesmos. Após investigações da polícia (os pais eram ricos) descobriu-se
que o rapaz foi induzido a praticar tal ato assistindo na internet um site que
induzia as pessoas a tais práticas.
Será que o homem moderno, fanatizado pela
internet, perdeu a noção da diferença que há entre o virtual e o mundo real?

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