SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 20 de junho de 2017

SÃO LUÍS DE GONZAGA, PATRONO DA JUVENTUDE E DA CASTIDADE



A marquesa de Castiglioni, D. Marta, era estéril e pedia constantemente a Nosso Senhor que lhe desse um filho, e que o mesmo servisse a Deus como religioso. Fez votos de oferecer o filho a Deus e pouco tempo depois, veio o mesmo a nascer, o que seria o primeiro de seus três rebentos.  
Não fora fácil aquele nascimento. Porfiavam ainda os médicos que não era possível que o menino sobrevivesse, e o marquês, Dom Ferrante, instava a que se procurasse salvar a alma da criança. A experimentada parteira, logo que viu o menino o suficiente para poder receber a água do batismo, antes que nascesse totalmente, batizou-o.  Estávamos a 9 de março de 1568.   
O marquês, como era soldado, queria que seu filho o fosse também. Assim, quando Luís tinha apenas 4 anos mandou fazer uns arcabuzes e outras armas em tamanho pequeno a fim de que a criança pudesse carregá-las.  Além disso, quando preparava a armada contra Tunis, levou o filho consigo ao local onde deveriam se reunir a fim de que o garoto criasse interesse pelas coisas militares. Também, quando haviam paradas militares fazia-o ir à frente das tropas  com as armas pequenas que mandara fazer para que ele as conduzisse.
Quando o marquês partiu finalmente para a guerra, enviou de volta seu filho para Castiglioni. A criança tinha aprendido,  pelo trato e conversação com os soldados, algumas palavras livres e descompostas que eles de ordinária empregam. Chegando em Castiglioni começou a empregar tais palavras com a maior naturalidade, sem saber ao menos o que elas significavam.  Um dia o seu preceptor o repreendeu por causa disso, e de tal modo que desde aquele momento nunca mais se ouviu uma palavra descomposta sair de sua boca, e,  se escutava outros dize-las, baixava os olhos de vergonha,  ou virava o rosto, mostrando seu profundo desagrado.
São Luís sempre considerou aquelas palavras, ditas de forma tão ingênua e inocente, como os piores pecados que havia praticado em sua vida, e delas chorou até o último momento de sua morte.
Chegado aos sete anos, que é quando começa a amanhecer a luz da razão, decidiu dedicar-se inteiramente ao serviço de Deus.  De maneira que chamava a este tempo o de sua conversão. E quando ele dava conta de sua consciência a seus diretores espirituais contava como um dos mais assinalados benefícios que tinha recebido de Deus que aos sete anos o tivesse convertido do mundo à Seu serviço.
São Luís esteve desde a mais remota infância convivendo entre pessoas da alta nobreza, pois foi nascido na corte de seu pai e passou anos na do grão-duque de Florença,  na do duque de Mântua e na do próprio rei de Espanha. Tendo sempre que tratar com príncipes e senhores, com todo gênero de pessoas de categorias tão elevadas, mas que numa época onde tais convívios eram cheios de vícios e de maus costumes, no entanto conseguiu conservar sempre pura e limpa a vestidura branca da inocência batismal.
São Roberto Belarmino, Cardeal,  declarou o seguinte sobre São Luís:: provavelmente se pode crer que a Divina Providência, em todos os tempos, tem alguns santos confirmados em graça enquanto estão vivos.  "Eu para mim - completou - acho que um desses confirmados em graça é nosso irmão Luís Gonzaga, porque sei quanto se passa na sua alma".
Com a idade de nove anos, seu pai montou para ele uma casa em Florença, a fim de que continuasse a educação na corte do grão-duque.
Ali, alimentou especial devoção por uma imagem de Nossa Senhora da Anunciata. Lendo um livro do padre Gaspar Loarte sobre os mistérios do Rosário, sentiu-se abrasado em desejos de fazer algo por Sua Senhora. Veio-lhe o pensamento de que seria serviço muito aceite que ele, para imita-La quanto fosse possível na sua pureza, lhe consagrasse com particular voto sua virgindade. Com este pensamento, estando um dia em oração diante da imagem da Anunciata,  fez em honra da Virgem voto a Nosso Senhor de perpétua castidade, a qual conservou durante toda a vida, inteira e perfeitamente.
Afirmam seus confessores, e em particular o Cardeal São Roberto Belarmino, que São Luís em toda sua vida não sentiu nunca o mais mínimo estímulo ao movimento carnal do corpo, nem um pensamento ou representação lasciva da mente contrária ao propósito do voto que fizera.
Para se medir a altura de tão grande privilégio dado por Deus, basta lembrar que o Apóstolo São Paulo pediu por três vezes a Deus que lhe tirasse o estímulo da carne, que ele chamava agulhão.  São Jerônimo por muito tempo fez rigorosas penitências com mesmo fim e Santo Afonso Ligório reclamava deste "agulhão" ainda no final da vida com mais de 90 anos.
Ainda que ele não tivesse batalhas nesta matéria, pelo menos de forma visível aos circunstantes, a estima e o grande amor por esta virtude fazia-o estar sempre em guarda do coração e sentinela dos sentidos, especialmente dos olhos. Para se resguardar na posse de virtude tão delicada, São Luís fugia sempre do trato com mulheres. Aborrecia tanto sua vista, que quem o visse assim proceder pensaria que tinha por elas alguma antipatia natural. Se acontecia alguma vez, estando em Castiglioni, que a marquesa sua mãe lhe enviasse algum recado através de algumas de suas damas, ele saía à porta de seu aposento, sem deixá-la entrar.  Fixos os olhos em terra, respondia ao recado e com isso despedia-se sem olhar na face.
Nem mesmo com a mãe ele gostava de falar a sós. E se alguma vez acontecia que, estando a falar com ela, os presentes saíam, logo ele procurava uma ocasião para também sair. E se não a encontrava, cobria seu rosto de um desagrado e uma vergonha virginal, indício do recato com que andava na guarda desta sublime virtude.
Quando esteve na corte de Sabóia, encontrou-se uma ocasião com um nobre já idoso, que não corava de pronunciar indecências em presença do santo jovem e de vários outros mancebos. São Luís exclamou indignado: "Pense nesses cabelos brancos - a gente havia de cuidar que nessa idade findavam semelhantes tolices".  E retirou-se imediatamente do recinto, deixando o infrator envergonhado.
Em 1580 esteve São Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, visitando a diocese de Bréscia, e chegou a Castiglioni.  Depois do sermão visitou São Luís, então com 12 anos e quatro meses. Estiveram os dois a sós em práticas espirituais tão longo tempo, que ficaram espantados todos os que os aguardavam. Consolava-se o arcebispo de ver a tenra planta tão forte  no meio dos espinhos da corte, sem arte de jardineiro, mas só com as graças do céu. O menino alegrava-se em estar com o santo bispo, cuja fama de santidade já era grande, tomando suas palavras e avisos como vindos do próprio Deus. Fez na ocasião sua primeira comunhão.
Certo dia, o santo menino teve o seguinte pensamento, contado depois a seu diretor espiritual: "Olha Luís, que grande bem o da Religião! Estes padres estão livres dos laços do mundo, afastados das ocasiões de pecado. O tempo que os do mundo gastam sem proveito em procurar os bens transitórios e prazeres vãos, eles empregam com grande mérito em procurar os bens do Céu, e tem a certeza de que seus esforços não ficaram malogrados. Os religiosos são verdadeiramente os que vivem segundo a razão e não se deixam tiranizar pelas paixões;  não pretendem honrarias vãs, não fazem caso dos bens da terra, caducos e frágeis, não estão em comparação de uns com os outros, não têm inveja dos outros, mas estão sempre contentes em servir a Deus.  Por que estranhar que sejam alegres e sem medo, nem sequer da própria morte, do juízo e do inferno, se trazem sempre a consciência limpa, se dia e noite acumulam novos tesouros, se estão sempre ocupados ou com Deus ou por Deus? O testemunho da boa consciência dá-lhes aquela paz e tranqüilidade interior, de onde provam a serenidade que transparece por fora. Aquela esperança bem fundada que eles têm dos bens do céu, aquele se lembrar a quem eles servem e em cuja corte estão, a quem não alegrará? E tu, Luís, o que fazes, o que dizes, o que pensas, por que não tomas um estado tão feliz? Olha as magníficas promessas que Deus faz a estes.  Olha as grandes comodidades para acudir as suas devoções, sem estorvos"
São Luís estava visitando sempre o convento dos barnabitas, onde se confessava e comungava com freqüência. Anteriormente, o menino já havia tomado a decisão de deixar a seu irmão menor, Rodolfo, a posse do marquesado de Castiglioni, do qual era herdeiro por ser o mais velho. Continuava sua meditação:
"Se deixando o estado a teu irmão Rodolfo, como estás resolvido, queres ficar no século em sua companhia, forçoso será que vejas muitas coisas que não sejam de teu gosto.  Se ficas calado, eis o escrúpulo de consciência. Se falas, tornar-te-ás pesado, e não quererão ouvir-te.  Mesmo que queiras ser eclesiástico ou sacerdote, não alcançarás teu desejo.  Pelo contrário, tendo uma maior obrigação de dizer com perfeição do que os leigos ficas nos mesmos perigos que eles,  e talvez até maiores.  Não ficas livre de respeitos humanos, mas obrigado a empregar teu tempo em cumprimento, seja com este senhor, seja com outro.  Se não tens trato com mulheres, nem visitas às parentes, serás apontado; se cumpres com elas, eis teu propósito que vai por terra.  Se queres aceitar dignidades e bispados, ficas mais no mundo do que agora estás. Se não aceitas, dirão que és pouca coisa e que desonras tua casa, e por mil caminhos te apertarão para te fazer aceitar".
Estava ele levantando as dúvidas, para depois surgir a solução:
"Entrando em Religião, de um golpe cortas com todos esses empecilhos. Ficas livre de todos os respeitos do mundo, e atinges um estado no qual gozes de quietude, e podes servir a Deus com perfeição".  Estas e outras razões se dava si próprio, segundo ele contou. Finalmente, depois de se ter encomendado a Deus com grande afinco, para que o iluminasse, após muitas comunhões oferecidas com este fim, julgando que Deus o chamava para este estado, resolveu-se a deixar o mundo e entrar numa Ordem religiosa, ordem onde pudesse fazer  votos perenes de castidade e pudesse guardar o de obediência e pobreza evangélica.
Por causa de sua pouca idade, não quis participar seu propósito a ninguém. Pouco depois, teve que acompanhar seus pais até à corte real, em Madri, onde tornou-se companheiro de estudos dos príncipes reais.
Seu confessor escreveu mais tarde sobre o jovem santo:  "Conheci na Espanha a Luís, e notei nele uma pureza rara de consciência. Tanto que durante todo aquele tempo, que foi de alguns anos, não só não achei nele pecado mortal, o qual ele aborrecia sumamente e jamais tinha cometido, mas muitas vezes não achei matéria de absolvição. Adverti também nele uma singular modéstia e recato nas palavras, não tocando com elas a ninguém, nem de mil léguas, em coisa mínima que fosse. Não é pouca coisa dizer que um senhor tão jovem, vivendo em tais palácios, não se achasse nele matéria de absolvição, nem sequer de pecados veniais.  Da modéstia e recato que tinha no olhar, ele próprio confessou que apesar de que viajou de Itália a Madri com a imperatriz, e ia cada dia na casa dela, e tendo mil ocasiões de vê-la de longe e de perto, jamais fitou-a uma só vez no rosto".
Naquele tempo não se importava de usar roupas velhas e algumas, principalmente as interiores, remendadas. Não usava qualquer objeto de ouro ou jóias, coisa comum entre os fidalgos.  Por causa disto, sofria severas repreensões de seu pai, acusando-o de desonrar a família com trajes pouco dignos de sua posição.
Suas conversas na Corte eram tão graves e religiosas, que sua simples presença fazia com que as pessoas ficassem compostas e sérias. E como não escutavam nunca dele palavras nem viam ações que não fossem mais do que honestas, era comum fazerem comentários dizendo que "o marquezito não era de carne como os demais", quer dizer, era um anjo.
Após permanecer um ano e meio em Madri, finalmente tomou a resolução de entrar na Companhia de Jesus. Moveu-o a isto quatro razões: a primeira, porque nela a observância estava no primeiro rigor e pureza; a segunda, porque lá faz-se votos de não pretender qualquer cargo eclesiástico; a terceira, por ver na Companhia tantos meios de estudo e de instrução da juventude; a quarta razão era porque a Companhia se ocupava especialmente em combater os hereges e na conversão dos gentios.
Lutou por mais de quatro anos para convencer seu pai a autorizar seu ingresso na Companhia de Jesus. E a autorização paterna surgiu exatamente por causa da fervorosa luta que o jovem vinha travando para preservar sua pureza. Procurava proteger sua inocência como se faz um baluarte para defender uma cidade contra a invasão inimiga. E para isto se utilizava de austeras penitências, que naqueles tempos era recurso comum entre os santos.  Inúmeras vezes levava noites em claro fazendo rigorosas penitências, de joelhos no duro chão.
Certo dia, disciplinou-se São Luís com maior violência a fim de mover os céus que lhe concedesse a graça da autorização paterna para ingressar na Companhia. Alguns criados da casa ouviram os estrépitos dos golpes de sua auto-disciplina e conseguiram observar o que ocorria por uma fresta da porta. A cena era tocante, os criados não queriam ficar omissos, e por isso correram e foram contar tudo ao marquês, o qual, comovido, disse:
- Deixa, meu filho, poupa a tua vida. Leva a cabo o teu propósito, em nome de Deus, e segue em paz.
Era, afinal, a tão esperada autorização para ingressar na Ordem. Vencida a mais difícil batalha de sua vida, por fim, em Mântua, na presença do Imperador e de muitos nobres, quando tinha 17 anos, leu o notário o instrumento de renúncia dos seus direitos de primogenitura em favor de seu irmão Rodolfo. Após assinar, disse ao irmão: "Qual de nós vos parece, meu irmão, que está mais contente - vós, com os vossos estados, ou eu com a minha pobreza? Tende por certo que é maior a minha alegria que a vossa". Estava assim desimpedido o caminho para que o jovem aspirante pudesse fazer os votos de ingresso na Ordem que Deus lhe inspirara.
Não completou seis anos na Companhia de Jesus,  falecendo mártir da caridade ao atender os empestados de Roma no ano de 1591, a 21 de junho, data em que é festejado. Sua mãe chegou a assistir a cerimônia de beatificação de São Luís, ocorrida já em julho de 1604. Foi canonizado por Bento XIII em 1724 e pelo mesmo Papa eleito como o patrono da juventude. 



(Dados extraídos de "Vida de San Luís Gonzaga, patrono de la juventud", do pe. Virgílio Cefari, SJ - e de "Santos  de Cada dia", de José Leite, S.J.9-*)


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