SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 27 de novembro de 2016

OS SALÕES DA FRANÇA DO SÉCULO XVIII




A arte de conversar desenvolveu-se admiravelmente no decorrer do “Ancien Regime”, atingindo o mais elevado grau nos salões franceses do século XVIII. Tratava-se de um local convenientemente preparado para reuniões sociais, geralmente em casa de alguma dama ilustre e hábil em conduzir as conversas dos convidados. Note-se que elas abriam os salões de suas casas para aquelas reuniões rotineiras sem almejar qualquer vantagem pessoal, mas apenas pelo prazer de ter em sua casa a conversa tão agradável daquelas figuras que convidava. Ou às vezes nem convidava, pois elas apareciam sem ser chamadas...  E a madame cobria todos os gastos com a reunião, que não eram pequenos.
Que eram os salões e como surgiram?  Inicialmente se constituíam em meros círculos informais, formados por apreciadores da bela linguagem, das boas maneiras, dos ditos de espírito. Aos poucos foram paulatinamente se transformando em núcleos de solidificação e preparação das idéias revolucionários, a tal ponto que, a partir de meados do século XVIII, eles puderam ser qualificados por diversos historiadores de "laboratórios de opinião pública", "centro de propaganda filosófica", "antecâmaras do poder"  e outras expressões do gênero.  Estavam eles, pois, em condições de desempenhar papel relevante na preparação da opinião pública para a Revolução Francesa. Embora não tenha sido este o objeto primordial ao se formarem, pois poderiam também ter tido papel preponderante na formação de uma opinião pública contrária à Revolução, a depender dos formadores da referida opinião que os freqüentavam. 
Os salões franceses eram freqüentados por todo tipo de gente: filósofos, artistas, escritores, políticos, diplomatas, burgueses e até plebeus. Eram reuniões inesgotáveis em conversas, em “plaisanteries” de toda espécie, mas temperadas sempre pelo senso apurado do bom tom e das conveniências. Por seu talento, categoria e urbanidade, os salões com suas conversas eram o centro de Paris e faziam dela a capital do mundo.

Abaixo enumeramos os mais famosos e suas proprietárias.

Mme. de Lambert (1647-1733) - "Em 1710 - relata Picard - abre seu salão Mme. Lambert. Mulher do século XVII por seu nascimento, sua educação e seus costumes, (...) era do século XVIII pela orientação de seu pensamento e pela liberdade de seus julgamentos (...)
"Ela abria a porta para a livre crítica das idéias filosóficas, políticas e religiosas. Mme. de Lambert foi uma das primeiras mulheres filósofas. Sem ser propriamente um "espírito forte", ela não tem mais a devoção perfeitamente conformista do século XVII.  Ela fala da religião sem fé profunda, mas com decência. Eminentes prelados, como Fénelon, freqüentavam seu salão sem apreensão e, como escreve d'Argenson, "sua casa fazia honra a todos aqueles que eram aí admitidos.  Ela recebia, outrossim, o Pe. Choisy e o Pe. Chaulieu,  (...) ambos epicuristas e libertinos.
Mme. de Tencin (1685-1749) - "Quando Mme. de Lambert morreu - comenta Calvet -, os escritores acostumados a se reunirem em seu salão passaram para o de Mme. de Tencin.  Esta mulher pouco recomendável conseguiu, à força de habilidade e de espírito, governar um salão brilhante e poderoso, onde eram vistos com freqüência Fontenelle, Marivaux, o padre de Saint-Pierre, Montesquieu, e onde estrangeiros ilustres vinham tomar contato com Paris.
"Toda dada à intriga, liberada de qualquer escrúpulo,  Mme. de Tencin encorajava as idéias novas que se elaboravam devagar, sem todavia aparecerem claramente.
"Neste salão - assinalam os Goncourt -, o primeiro na França onde o homem era recebido com atenções proporcionadas não à sua categoria social, mas à sua inteligência,  os escritores iniciaram o grande papel que teriam no mundo daquele tempo. Foi de lá, da casa de Mme. de Tencin, que eles se espalharam pelos salões e chegaram, pouco a pouco, a dominar a sociedade. Domínio este que lhes valeu, ao fim do século, um lugar tão proeminente no Estado".
Mme. Geoffrin (1699-1777) - "Segundo Calvet, "formada por Mme. de Temcin, Geoffrin recolheu a herança de seu salão e, a partir de 1748, reuniu em sua casa todos os escritores que pertenciam ao partido dos filósofos. Ela dava dois jantares por semana: o de segunda-feira para os artistas  (Vanloo, Vernet, Bouchet, La Tour, Lagrenée, Soufflot), e o de quarta-feira para os escritores (d'Alembert, Marmontel, Morellet, Helvétius, Raynal, Thomas, Grimm, d'Holbach).
Ela tornou-se assim a patrona da "filosofia".  Exercia uma autoridade indiscutível. Seu salão era administrado como uma instituição; ela vestia, alimentava, dirigia, repreendia os filósofos.  Muito sensata e com um fundo de vaga religiosidade, ela os controlava em suas audácias, evitando-lhes assim os excessos comprometedores. O salão de Mme. Geoffrin foi, durante vinte anos, o centro de difusão mais ativo das idéias novas.
"Escrevem os Goncourt, segundo os quais o salão de Mme. Geoffrin era o salão da Enciclopédia:
"Viu-se, pela acolhida dada à literatura, um salão burguês, elevando-se ao primeiro posto entre os salões de Paris, transformar-se em um centro de inteligência, em um tribunal do bom gosto, onde a Europa vinha receber a palavra de ordem e de onde o mundo inteiro recebia a moda".
O pintor Lemonnier representou uma cena de uma das reuniões no salão de Mme. Geofrin, com o título de “Uma Leitura de D’Alembert no Salão de Madame”. D’Alembert lia a Enciclopédia, e o fato a que se refere o quadro foi a polêmica despertada pelos jesuítas contra a Enciclopédia, objeto de uma instrução pastoral que foi muito criticada pelos revolucionários .
Mme. du Deffand (I697-1780) - Como assinala Calvet, 'muito diferente de Mme. Geoffrin era Mme. du Deffand.  Dotada de um espírito ousado, sem escrúpulos, sem princípios, sem pudor, sem ilusões de nenhuma espécie, ela foi sempre uma vanguardeira no século, por sua ousadia.  (...)
"Escritores, grandes senhores e estrangeiros disputavam seu salão, que exercia por isso mesmo uma grande influência. Ficando cega, tomou por leitora Mlle. de Lespinasse, que em breve separou-se dela e fundou seu próprio salão".
Mlle. de Lespinasse (1732-1776) - Quando Mme. Geoffrin, envelhecida, não exercia mais um império tão absoluto - continua Calvet -, era em casa de Mlle. de Lespinasse que os filósofos, sob o comando de d'Alembert, se reuniam.
"Segundo os Goncourt, "o salão de Mlle. de Lespinasse não conhecia nenhum constrangimento nem restrição:  ali os temperamentos eram livres, as personalidades tinham o direito de serem francas.  Nenhuma questão era reservada: religião, filosofia, moral, contos, novelas, quaisquer maledicências - tocava-se em tudo. (...)
"O salão de Mme. Geoffrin era o salão oficial da Enciclopédia; o de Mlle. Lespinasse era o parlatório familiar, o toucador e o laboratório.  Era lá que se trabalhava para o sucesso do partido, que se redigiam os elogios, que se ditavam as opiniões do dia para a passarem à posteridade, que se engrandecia o despotismo filosófico sob o qual d'Alembert chegou a dominar a Academia.
"Quantos cargos importantes distribuídos neste salão! Quantos grandes homens eram ali fabricados, quanta celebridade era lá conferida, pela paixão de uma mulher!
"Calvet observa que "aqui, nós assistimos a uma transformação do espírito filosófico: Rousseau fez sua entrada, e o coração retomou seus direitos. Orgulhava-se de ser sensível e enternecer-se. Em lugar de demolir as instituições do passado pelo riso sarcástico, os filósofos se dedicariam doravante a combatê-las em nome da humanidade, com enternecimento na voz. Essa nova campanha que se organizou no salão de Mlle. de Lespinasse teve um grande sucesso.  (...)
"Ao lado desses salões - prossegue Calvet -, que exerciam uma verdadeira autoridade, é preciso nomear outros salões mais livres, onde todos se divertiam sem constrangimentos, e onde se ia até o fim nos paradoxos mais irreverentes; os salões dos Coletores de Impostos: d'Epinay, La Popelinière, etc; os salões das atrizes:  Mlle. Quinault,  Mlle. Guimart; os círculos dos filósofos: Helvétius, d'Holbach".  [i]

Madame de Staël – Anne-Louise-Germaine Necker, transformada na Baronesa de Staël-Holstein, é também conhecida como uma das primeiras filósofas políticas dos tempos modernos. Foi escritora, poeta e ativista política em plena efervescência da Revolução Francesa e da era napoleônica e da restauração da monarquia dos Bourbons. Teve papel importante na corrente de livres-pensadores, especialmente nos chamados “moderados”. Natural de Paris, onde nasceu a 22 de abril de 1766, era filha de Jacques Necker, que foi por três vezes ministro das finanças no reinado de Luís XVI.  Apesar de não ser católico nem francês, o rei nomeou-o por submissão à influência dos livres-pensadores do salão de Madame Necker, sua mãe, a escritora suíça Suzanne Curchod, filha de pastor calvinista e ativista, depois Madame Suzanne Necker. Fundara seu salão em Paris, uma verdadeira escola para a filha, Madame de Staël, além de ter servido de suporte para o marido ser alçado ao posto de ministro.
Às sextas-feiras, Madame Necker reunia em sua residência, o “Hotel Leblanc”, grupos de livre-pensadores moderados e da nobreza parisiense, onde havia debates de natureza política e social. “Hotel” era o nome dado a edifícios públicos ou grandes mansões parisienses. O de Madame Necker estava situado na “Chausée d’Antin”, conhecido como o centro da moda parisiense de então, pois ficava próximo de teatros e das grandes avenidas. Aristocratas, nobres, empresários e comerciantes ricos residiam pelas redondezas, sendo-lhes fácil freqüentar seu salão.
O salão de Madame Necker era freqüentado por expoentes do pensamento revolucionário: protestantes calvinistas, os denominados “espíritos abertos” ou livres-pensadores, “tolerantes”, liberais em política e, principalmente, em assuntos religiosos. Para lá iam figuras como Mirabeau (um dos redatores da “Declaração dos Direitos do Homem”), Denis Diderot, Georges Louis Leclerc (conde de Buffon), Gabriel de Mably (conhecido como Abbé de Mably), precursor do “socialismo comunitário” e Jean le Rond d’Alembert, além de vários correligionários calvinistas vindos da suíça. Houve também, entre ela e o ímpio Voltaire, volumosa correspondência.
Madame de Staël acostumou-se desde criança a intervir nos debates do salão de sua mãe com a maior naturalidade, tornando-se ela também uma filósofa revolucionária bem afinada com a moda. 
Após seu casamento, Anne-Louise Germaine Necker, agora com o título de Madame ou Baronesa de Staël, abre também um salão em sua residência, situado na Rue du Bac. Muitos de seus freqüentadores haviam defendido idéias libertárias e até lutado por elas, como foi o caso de La Fayette, Noailles, Clermont-Tonnerre, ou escritores como Condorcet, Narbonne, Talleyrand, etc. Para alimentar as conversas de seus clientes publica no primeiro ano um livro “Sophie ou Les Sentiments secrets” e uma bajulação dos pensamentos de Rousseau, que era moda em todos os salões parisienses.
O pai de Madame Staël foi demitido do cargo em 1787, mas ela soube manobrar as figuras que freqüentavam seu salão de maneira que o mesmo voltasse ao cargo no ano seguinte. A mesma influência parece ter sido usada para que Narbonne (seu segundo marido ou um de seus vários amantes) fosse nomeado, em 1791, ministro da guerra. Assim, seu salão não servia somente para propagar os ideais da Revolução mas também para influenciar os políticos e colocar pessoas em postos importantes para os seus desígnios.
Foi lá no seu salão também que se tramou um recuo dos ideais revolucionários e se passou a defender idéias moderadas. Chegou até a esconder condenados à guilhotina em sua residência. O motivo desta mudança, principalmente, foi por causa dos excessos praticados no período do terror, em 1792. Começou-se então a se propagar uma saída “honrosa” para a monarquia francesa, que era o modelo inglês, ou seja, uma monarquia constitucional. Tais ideais são atacados tantos pelos monarquistas legalistas quanto pelos republicados. Dir-se-ia que ela e seus correligionários estavam entre dois fogos. Considerados moderados, oferecem (ela, Narbonne e Malouet) um plano de fuga para a família real, inteiramente frustrado por ter sido elaborado, como se vê, por gente suspeita.
Madame de Staël chegou a ser presa e levada ao Conselho Comunal para ser julgada e guilhotinada, mas foi salva por um escritor revolucionário Louis Pierre Manuel, que era também Procurador da Comuna de Paris. Consta que Luis Pierre teria argumentado a Robespierre que ela estaria grávida, e por isso foi autorizada sua libertação. No dia seguinte foge para a Suíça, onde abriu seu salão na vila de Coppet. Viveu, neste período, pouco tempo no exílio. Fez um périplo por vários países, encontrando-se com figuras revolucionárias como Benjamin Constant (um de seus amantes), e publicou obras de caráter liberal, principalmente na linha moral e do “feminismo”  então emergente.
A partir de 1797, iniciando-se o período napoleônico, Madame de Staël volta a Paris e tenta reabrir outro salão, desta vez em nova residência. No entanto, os tempos são outros, e não há mais freqüência de gente tão refinada como as do salão de sua mãe ou da Rue du Bac.  Mas sua produção literária continua. Visita com freqüência filósofos revolucionários e racionalistas como Goethe e Schiller, tentando também influenciar nos acontecimentos políticos de então. Com o novo  exílio decretado por Napoleão, inicia novo périplo pela Europa, visitando personalidades importantes como a rainha Carolina ou escritores de renome, publicando obras de cunho revolucionário. Chega a comemorar dez anos de exílio com um livro. Facilitaram sua “fuga”, da Suíça (dominada por Napoleão) para a Inglaterra. Seu “salão” agora é o mundo e não apenas Paris, tudo o que é novidade tem sua adesão, tornando-se admiradora de Kant e do filosofismo cético.
A filósofa, anticlerical, liberal, racionalista quase atéia e desesperada, publica em 1813 um livro que faz a apologia do suicídio: “Réflexions sur le suicide” além de um comentário sobre a Revolução Francesa Considerations sur Ia Révolution française”. Após a queda de Napoleão volta a Paris em 1815 e defende a restauração da monarquia. Morre dois anos depois, em 1817, no mesmo dia da tomada da Bastilha.





[i] Extraído de "Despreocupados...Rumo à Guilhotina - A Autodemolição do Ancien Regime" - João S. Clá Dias .


Nenhum comentário: