SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O SONHO DE SÃO JOÃO BOSCO SOBRE O BRASIL




A Igreja comemora hoje, 31 de janeiro,  a festa de São João Bosco, o Fundador dos Salesianos. Trata-se de um dos mais extraordinários educadores  que já houve em toda a história da humanidade. De família humilde, mas bem dotado de carismas pessoais, São João Bosco conseguiu arregimentar centenas de jovens carentes e, instruindo-os, torná-los cidadãos honrados, cristãos verdadeiros e realizados na sociedade, inclusive alguns chegaram até mesmo a ser santos, como Domingos Sávio.  Ficou famoso também por causa de seus diversos sonhos proféticos, alguns deles relacionados ao futuro da Igreja.

Um sonho profético de Dom Bosco sobre a América do Sul


Em 21 de abril de 1960, o Brasil inaugurou sua nova capital, Brasília, cuja construção deixou rico e famoso o arquiteto Niemyaer. Logo depois foi divulgada a versão de que um sonho de São João Bosco sobre o Brasil dizia respeito a uma “nova civilização”, rica e poderosa, que iria surgir exatamente no local onde a nossa capital foi construída. Quer dizer, seria o modelo arquitetônico (tão badalado antigamente por uma suposta beleza, mas hoje, finalmente, visto em seu devido lugar como uma das mais horrorosas obras de arquitetura jamais vistas)  imaginado para expressar não somente Brasília, mas uma “nova civilização”.  Referida interpretação foi espalhada, inclusive, ao exterior. Realmente existiu referido sonho, ocorrido em 1883, que o próprio Dom Bosco narrou numa reunião da Congregação Salesiana no dia 4 de setembro daquele ano. O padre Giovanni Batista Lemoyne, encarregado de recolher as memórias do Santo, fez a transcrição do referido sonho, submetendo-o depois ao próprio Dom Bosco para correções. Tal texto foi publicado nas “Memorie Biografiche” de São João Bosco em 1935. Trascrevemos abaixo a versão em português do referido sonho:


“Na noite que precedia a festa de Santa Rosa de Lima, 30 de agosto, tive um sonho. Percebi que estava dormindo e parecia-me, ao mesmo tempo, correr a toda velocidade, a ponto de me sentir cansado de correr, de falar, de escrever e de esforçar-me no desempenho das ocupações costumeiras. Enquanto hesitava se tratava de sonho ou de realidade, pareceu-me entrar em um salão, onde se achavam muitas pessoas, falando de assuntos vários”.

“... Nesse interim, aproximou-se de mim um jovem de seus dezesseis anos, amável e de beleza sobre-humana, todo radiante de viva luz, mais clara que a do sol...”.

Referido guia que era, como se vê, um anjo, acompanhou-o durante toda a misteriosa viagem. Apresentou-se como amigo dele e dos Salesianos, dizendo-lhe que em nome de Deus ia dar-lhe um pouco de trabalho; continua São João Bosco:

“- Vejamos de que se trata. Que trabalho é esse?
- Sente-se a esta mesa e puxe esta corda.
Havia, no meio daquele salão, uma mesa, sobre a qual estava enrolada uma corda. Vi que essa corda estava marcada com linhas e números, como se fosse uma fita métrica. Percebi, mais tarde, que aquele salão estava situado na América do Sul, exatamente por sobre a linha do Equador, correspondendo os números impressos na corda aos graus geográficos de latitude...”
“...Observo que então via tudo de conjunto, como que em miniatura. Depois, como direi, vi tudo em sua real grandeza e extensão. Foram os graus marcados na corda correspondendo exatamente aos graus geográficos de latitude, que me permitiram gravar na memória os sucessivos pontos que visitei, viajando na segunda parte do sonho.”
“Meu jovem amigo continuava: - Pois bem, estas montanhas são como balizas; são um limite. Entre elas e o mar está a messe oferecida aos Salesianos. São milhares, são milhões de habitantes que esperam o seu auxílio; aguardam a fé.”
“Aquelas montanhas eram as Cordilheiras da América do Sul e aquele mar o Oceano Atlântico...”
“...Eu ia pensando: Mas para se conseguir isto, vai ser preciso muito tempo. Enfim exclamei em voz alta: Não sei mais o que responder.
Mas o moço, lendo meus pensamentos, ajuntou:
- Isto acontecerá antes que passe a segunda geração.
E qual será a segunda geração?
- A presente não se conta. Será uma outra, depois outra.
- E quantos anos compreende cada geração dessas?
-Sessenta anos.
-E depois?
- Quer ver o que sucederá depois? Venha cá.
E, sem saber como, encontrei-me numa estação de estrada de ferro. Havia muita gente. Embarcamos.
Perguntei onde estávamos. Respondeu o moço:
- Note bem! Observe! Viajaremos ao longo da cordilheira. O senhor tem estrada franqueada também para leste, até o mar. É outro dom do Senhor.”.
Assim dizendo, tirou do bolso um mapa, que mostrava assinalada a diocese de Cartagena (Colômbia). Era o ponto de partida.
“Enquanto olhava o mapa, a máquina apitou e o trem se pôs em movimento. Viajando, meu amigo falava muito, mas nem tudo eu podia entender, por causa do barulho do comboio. Aprendi, no entanto, coisas belíssimas e inteiramente novas sobre astronomia, náutica, meteorologia, sobre a fauna, a flora e a topografia daqueles lugares, que ele me explicava com maravilhosa precisão...
Ia olhando através das janelas do vagão e descortinava variadas e estupendas regiões. Bosques, montanhas, planícies, rios tão grandes e majestosos que não era capaz de os acreditar assim tão caudalosos, longe que estavam da foz. Por mais de mil milhas, costeamos uma floresta virgem, inexplorada ainda hoje. Meus olhos tinham uma potência visual maravilhosa, não encontrando obstáculos que os detivessem de estender-se por aquelas regiões.
Enxergava nas vísceras das montanhas e no subsolo das planícies. Tinha debaixo dos olhos as riquezas incomparáveis daqueles países, riquezas que um dia serão descobertas. Via numerosos filões de metais preciosos, minas inexauríveis de carvão, depósitos de petróleo tão abundantes como nunca se encontraram até então em outros lugares.
Mas não era tudo. Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: - quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.”.
Continuava a viagem, ao longo da cordilheira, rumo ao sul.
“De novo pôs-se o trem em movimento, indo sempre para a frente. Como na primeira parte da viagem, atravessamos florestas, passávamos por túneis e viadutos gigantescos, internávamos por entre gargantas, costeávamos lagos e pantanais, transpúnhamos caudalosos rios, percorríamos, enfim, pradarias e planícies. Passamos, assim, as margens do Uruguai.”.

E continua a descrição das regiões fronteiriças, através da bacia do Prata, dos Pampas e da Patagônia, até o Estreito de Magalhães. Começa a viagem de volta. Na Patagônia, Dom Bosco se entretém com os seus salesianos (de geração futuras). Atravessa a Argentina, penetra em uma floresta muito espessa, enorme, onde presencia o massacre de um estrangeiro, entregue à sanha de ferozes canibais.
Prossegue às margens de caudaloso rio, atravessando, afinal, uma região infestada de animais ferozes e de répteis repelentes. Estão chegando ao fim da viagem:

O trem se aproxima do lugar da partida e já estávamos a pouca distância. O jovem guia tirou do bolso uma carta geográfica de incrível beleza e me disse:
-Quer ver a viagem que o senhor fez? As regiões percorridas?
- Com muito gosto.
Desdobrou então o mapa, em que se desenhava com admirável exatidão toda a América do Sul. Ademais, já estava representado tudo o que existia, que existe, e haverá de existir naquelas regiões, sem confusão de espécie alguma, pelo contrário, com tal nitidez que, de um só relance, se abrangia tudo. Compreendi tudo no instante, mas, pela multiplicidade das circunstâncias, durou pouco tal clareza, cedendo lugar à completa confusão que ora me ocupa a mente.
Enquanto observava aquele mapa, esperando que o rapazinho acrescentasse ainda alguma explicação, agitado que estava pela surpresa de tudo quanto vira, pareceu-me que soassem as Ave-Marias, ao alvorecer. Despertando, percebi que eram os sinos da paróquia de São Benigno.
O Sonho durara a noite inteira”.



Fonte: Brasília, novembro 1995
Folheto entregue na Inauguração de Brasília





Pelo que se viu acima, a ligação do sonho de São João Bosco com a fundação de Brasília é uma ilação forçada e sem sentido, assim também como interpretações sobre uma possível civilização grandiosa e rica: ele fala apenas no descobrimento de muitas riquezas. Como veremos adiante, houve quem fosse mais além e chegasse até mesmo a torcer as  palavras do Santo a favor desta interpretação tendenciosa por Brasília. 
Eis outro relato:


A propósito do sonho de D. Bosco vale a pena relembrar como foi ele trazido à tona. Quem primeiro, no Brasil, teria mencionado o sonho, diz-se ter sido Monteiro Lobato, em sua luta pela prospecção do petróleo no país. - Até um santo já afirmou que o petróleo existe, só nossos "técnicos" dizem que não - fora o desabafo do escritor-empresário...

...A referência, no sonho, a petróleo e a pantanais, mexeu com Monteiro Lobato, que defendia exatamente (e com paixão) a existência do ouro negro no pantanal matogrossense.

Muitos anos depois, quando o governador de Goiás José (Juca) Ludovico, incumbiu Segismundo Mello de preparar um livrinho que reunisse os pronunciamentos de todas as personalidades que defendessem a localização da futura Capital no planalto goiano, Segismundo, que, por sinal, desconhecia o episódio de Monteiro Lobato, lembrou-se de procurar Alfredo Nasser[1], importante homem público goiano, que havia escrito um artigo defendendo a mudança da Capital para Goiás e utilizara o sonho-visão de D. Bosco como reforço de argumentação.

Aconteceu, então, um fato curioso: a publicação era bem antiga e Nasser não se recordava dela e muito menos de haver mencionado o sonho que ele, surpreendentemente, confessou nem se lembrar onde buscara.

Segismundo recorreu ao seu cunhado Germano Roriz, grande amigo dos salesianos, e, por intermédio dele, obteve do padre Cleto Calimar uma cópia do sonho com sua tradução para o português.

Ao ler a tradução, Segismundo se decepcionou um pouco. O que havia, no sonho, que talvez dissesse respeito à construção da Capital no Planalto, resumia-se a um trecho não muito explícito:

Tra il grado 15 e il 20 grado vi era uno seno assai lungo e assai largo che partiva da un punto ove formavasi un lago. Allora una voce disse repetutamente: - Quando se verrano a scavare le minere nascoste in mezzo a questi monti, apparirá qui la terra promessa fluente latte e miele. Sará una ricchezza inconcepíbile.”

"Entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Nesse momento disse uma voz repetidamente: - Quando se vierem a escavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.”

Conta Pe. Cleto que Segismundo Mello, depois de ler, lhe perguntou:
- Padre Cleto, aqui não está bem sintetizado o problema da futura Capital. D. Bosco se refere a riquezas incalculáveis e à formação de um lago. O senhor não poderia dar um jeito para que a visão tivesse mais um sentido de cidade, de civilização?

Segundo o sacerdote, sua resposta foi a de que talvez pudesse fazer alguma coisa, mas correriam por conta e risco de Segismundo as conseqüências...

Antes da impressão do livro, Segismundo teve tempo de refletir e decidiu que o texto do sonho seria reproduzido de acordo com o original, a fim de resistir a qualquer confronto; mas o livrinho publicaria uma foto de D. Bosco e na legenda, então, se diria algo mais... E assim foi feito. Na legenda se escreveu o seguinte:
"São João Bosco, que profetizou uma civilização, no interior do Brasil, de impressionar o mundo, à altura do paralelo 15°, onde se localizará a nova Capital Federal". (*)

Essa expressão, "uma civilização de impressionar o mundo", que não consta do sonho nem foi usada por D. Bosco hora nenhuma, acabou por se transformar na síntese "oficial" do sonho-visão, a ela se reportando expressamente, com pequenas variações, todos quantos ao sonho já se referiram, ligando-o à construção de Brasília.

E foi por esta forma que puderam os goianos, espertamente, alcançar seu objetivo de vincular o santo à tese de se erguer em Goiás a nova Capital do país.

(*) - Aqui está a origem da lenda sobre uma suposta civilização no sonho de São João Bosco


 
OUTROS SONHOS
Quem quiser conhecer outros sonhos de São  João Bosco acesse os sites abaixo:

SONHO SOBRE A CRISE NA IGREJA (Adaptação do livro "Quarenta Sonhos de S. João Bosco", compilado e editado por Pe. J. Bachiarello, S.D.B.)





[1] Alfred Nasser foi jornalista e político de esquerda, ministro da justiça de Goulart, era mais propenso ao sensacionalismo demagógico da época.

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