terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Auto-Retrato filosófico de Plínio Corrêa de Oliveira (IV)

Concluímos hoje a publicação do "Auto-Retrato Filosófico de Plínio Corrêa de Oliveira


Rumo à socialização integral do País: uma Constituição que a maioria da população não quer
Dado que o modelo de democracia-direta -- que vigiu, por exemplo, nos Estados de dimensões municipais da Antigüidade helênica—é impraticável nos Estados contemporâneos, devido à amplitude de sua população e de seu território, a democracia se exerce neles de modo indireto , ou seja, representativo .
Assim, os cidadãos elegem representantes, que votam as leis e dirigem o Estado segundo as intenções do eleitorado. É democracia representativa .
A relação entre o eleitor e o candidato por ele sufragado é, em essência, a de uma procuração. O eleitor confere ao candidato a deputado ou senador de sua preferência um mandato, para que exerça o Poder Legislativo segundo o programa que este deve expor normalmente ao conhecimento da opinião pública durante a campanha eleitoral.
Análogas afirmações cabem quanto às eleições para o preenchimento de vagas no Poder Executivo.
Em conseqüência de quanto fica aqui exposto, a autenticidade do regime democrático repousa por inteiro sobre a autenticidade da representação.
É isto óbvio. Pois, se a democracia é o governo do povo, ela só será autêntica se os detentores do Poder Público (tanto o Executivo como o Legislativo ) forem escolhidos e atuarem segundo os métodos e tendo em vista as metas desejados pelo povo.
Se tal não se dá, o regime democrático não passa de uma vã aparência, quiçá de uma fraude.
Tal problema se colocava de modo agudo para os brasileiros que tinham sido chamados a eleger, em 15 de novembro de 1986, parlamentares que formariam a futura Assembléia Nacional Constituinte.
Realizado o pleito eleitoral, impunha-se fazer um estudo que versasse ao mesmo tempo sobre a representatividade da Constituinte então eleita e sobre o Projeto de Constituição que ela estava elaborando.
O resultado desse estudo foi o livro Projeto de Constituição angustia o País , que concluí em outubro de 1987, e que foi oferecido a todos os Constituintes como contribuição para evitar o funesto desfecho que se podia vislumbrar ante o eventual divórcio do novo texto constitucional em relação ao pensamento majoritário da Nação.
Na Parte I desse trabalho analiso os requisitos para a representatividade de uma eleição. Faço aí a distinção entre políticos-profissionais e profissionais-políticos , e mostro como o ingresso destes últimos na vida pública, como representantes autênticos das mais variadas profissões ou campos de atividade, enriqueceria o quadro político do País.
Nisso estaria, a meu ver, o meio para desfazer o alheamento do eleitorado (manifestado pela surpreendente porcentagem de abstenções, votos brancos e nulos) e sanar a carência de representatividade da Constituinte, melancólico resultado da eleição-sem-idéias de 1986 (Parte II).
A essa carência de representatividade congênita veio somar-se outra, decorrente do funcionamento tumultuado e anômalo da própria Constituinte, em que as inautenticidades se sucediam em cadeia: 1°) o Plenário da Constituinte era menos conservador do que o eleitorado; 2°) as Comissões temáticas eram mais esquerdistas que o Plenário; 3°) a Comissão de Sistematização (que coordenava o trabalho preparado pelas Comissões temáticas) apresentava a maior dose de concentração esquerdista da Constituinte. Assim, uma minoria esquerdista ativa, articulada, audaciosa, ameaçava arrastar o País por rumos não desejados pela maioria da população (Parte III).
Na Parte IV analiso o Projeto de Constituição que então subia para debate em Plenário, e mostro como se estava dando um grande passo rumo à socialização integral do Brasil, notadamente no que concerne à desagregação da família e ao minguamento da propriedade particular.
O livro termina com uma proposta concreta: em primeiro lugar, votar-se-ia uma Constituição sobre a organização política, a respeito da qual facilmente se pode chegar a um consenso nas condições atuais da opinião pública brasileira. Aprovada essa parte pelos constituintes, seria submetida a um referendum popular. Numa segunda etapa, após amplo trabalho de esclarecimento da população sobre as matérias de natureza sócio-econômica, a respeito das quais há uma profunda divisão, elaborar-se-ia um complemento, o qual também seria submetido a referendum . Isto importaria em dar à população a maior largueza possível de expressão, e a Constituinte, em pontos tão delicados, elevar-se-ia ao nobre papel de interrogar o povo para conhecer sua vontade.
Sócios e cooperadores da TFP consagraram-se, durante cinco meses, a difundir a obra por mais de 240 cidades de 18 Unidades da Federação, fazendo escoar os 73 mil exemplares editados.
Ressalte-se a média-recorde de 1.083 exemplares diários vendidos durante os dezenove dias de difusão intensiva na Grande São Paulo.
Finalmente, esboçou-se uma certa reação dos elementos mais conservadores no seio da Constituinte; porém faltavam-lhes o ímpeto e a determinação necessários para reverter o processo descrito no livro. E o Brasil foi presenteado com uma Constituição que criaria em seguida toda espécie de embaraços para a governabilidade do País.
Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana
Um dos aspectos mais graves da presente crise brasileira tem como causa profunda o processo de deperecimento gradual de nossas elites.
Desde fins do século XIX, esse fenômeno se vem produzindo com crescente intensidade, sem que nosso otimismo brasileiro, despreocupado e bonacheirão, tenha dado ao fato a devida atenção. E isto nos conduziu a este terrível fim de século.
Em qualquer campo de atividade onde se queiram reintroduzir a honradez, a competência e a ordem, não faltam sugestões inteligentes a pôr em prática. Mas a grande questão que surge desde logo é a da constituição, para cada plano, de uma equipe moral e intelectualmente capaz. Inteligências—muitas das quais até insignes—não nos faltam. Infelizmente nossa maior carência é no campo moral, e a todo momento nos encontramos diante desta embaraçosa constatação.
E por que não temos tais equipes? Porque não temos as necessárias elites. Onde há elites moral e intelectualmente capazes, os homens idôneos por sua competência e por sua moralidade não faltam. Onde não há elites, os homens de real valor são raros, pouco conhecidos e condenados a vegetar anônimos na multidão dos medíocres ou dos gatunos.
O memorável Pontífice Pio XII (1939-1958) previu provavelmente que, mais cedo ou mais tarde, as condições morais do mundo moderno levariam a essa situação quase todos os países. O que lançaria a humanidade em uma crise onímoda de imprevisíveis conseqüências. Assim é que ele pronunciou, em seu pontificado, catorze importantíssimas alocuções, as quais contêm um apelo a que fossem preservados cuidadosamente, nos países com tradição nobiliárquica, as aristocracias respectivas. E que, ao mesmo tempo, as elites novas, originadas do trabalho exercido no campo da cultura, como no da produção, encontrassem condições propícias para constituírem elites autênticas, congêneres com a nobreza por sua formação moral e cultural, como por sua capacidade de mando. Caber-lhes-ia formar, à maneira da nobreza, verdadeiras elites capazes de originar homens de escol nos mais variados campos.
No Brasil, o apelo de Pio XII quase não teve repercussão. Teve-a escassa em outros países. E, assim, a falta de elites, que para nós era um problema trágico, para outras nações constitui problema sério a que cumpre dar remédio urgente.
Visando contribuir para a solução desse magno problema, escrevi o livro _ Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, que analisa as condições do mundo contemporâneo à luz das catorze alocuções de Pioÿ20XII.
A primeira edição desta obra em idioma português foi confiada à notável Editora Civilização, de Portugal, e veio a lume em abril de 1993. Traduzida para o castelhano, a obra foi divulgada na Espanha pela Editora Fernando III El Santo. Essa edição cobriu não só o território espanhol, como o das nações hispano-americanas.
Nos Estados Unidos, a obra foi publicada pela importante editora Hamilton Press, e teve seu lançamento oficial no prestigioso Mayflower Hotel de Washington, em setembro de 1993. Na ocasião, diante de um público de 850 convidados, entre os quais a Arquiduquesa Mônica da Áustria e o Duque de Maqueda, Grande de Espanha, discursaram personalidades de alto relevo na vida pública norte-americana.
Na França, publicado pela Editora Albatros, o livro vem encontrando larga aceitação em amplos setores daquele país.
Na Itália, a obra foi publicada pela Editora Marzorati, e apresentada no Congresso da Nobreza Européia, realizado em Milão em outubro de 1993, como também numa concorrida sessão de lançamento oficial no Circolo della Stampa, Palácio Seberlloni, daquela cidade.
O lançamento em Roma ocorreu no histórico palácio da Princesa Elvina Pallavicini, com a presença do Cardeal Alfons Stickler, de Mons. Cândido Alvim Pereira, Arcebispo emérito de Lourenço Marques, do Arquiduque Martin da Áustria, de príncipes, princesas e inúmeros outros membros da mais alta aristocracia italiana.
Nesses diversos atos, a obra foi, além de acuradamente analisada, também vivamente elogiada pelos distintos conferencistas que se sucederam no decurso das sessões então realizadas.
Na imprensa romana, a repercussão desse lançamento foi das mais vivas. Os principais quotidianos noticiaram com grande destaque o evento, o qual chegou a ser apresentado (“Il Tempo”, 31-10-93) como ”os estados gerais da aristocracia negra” (assim é designada a parte mais tradicional da nobreza romana, a qual, solidária com a Santa Sé, se recusou a reconhecer a anexação forçada dos Estados Pontifícios à Itália).
Importa consignar aqui essas excelentes repercussões da obra, para mostrar a atualidade do tema nela tratado. Pois o mero enunciado do título dela poderia parecer, a várias pessoas, como de interesse unicamente histórico.
De sua perfeita consonância com o ensinamento pontifício dão testemunho calorosas cartas de apoio dos Emmos. Cardeais Silvio Oddi, Luigi Ciappi, Alfons M. Stickler e Bernardino Echeverría, e de teólogos de fama mundial, como os padres Raimondo Spiazzi OP, Victorino Rodríguez OP, e Anastasio Gutiérrez CMF.
Estudos, análises e pronunciamentos públicos
Minha atuação doutrinária desenvolve-se também por meio de pronunciamentos publicados pela imprensa, TV e rádio, sobre as questões mais candentes, ou pelo envio às autoridades, de estudos e análises sobre temas de atualidade. Essa ação, exerço-a por vezes em nome pessoal, porém mais freqüentemente em nome do Conselho Nacional da TFP, que tenho a honra de presidir. Cito alguns exemplos.
_ Em dezembro de 1970 publiquei na imprensa diária um longo documento, essencialmente doutrinário, intitulado Análise, defesa e pedido de diálogo , defendendo a TFP dos ataques que lhe fazia o então Primaz do Brasil e Arcebispo de Salvador, Cardeal D. Eugênio Sales, e ressaltando as afinidades ideológicas deste com o Arcebispo emérito de Recife, D. Helder Câmara, no que se refere ao esquerdismo.
- Em 1972 enviei ao então Ministro da Justiça, Prof. Alfredo Buzaid, uma análise sobre o anteprojeto de Código Civil, no qual apontava uma tendência genérica ao relaxamento dos vínculos constitutivos da família e um injustificável preconceito contra a condição de proprietário, em benefício de uma concepção coletivista da sociedade humana.
- Em abril de 1974, tendo chegado a seu auge a Ostpolitik vaticana, trazendo como conseqüência enorme perturbação de consciência para a maioria anticomunista de católicos, vi-me levado pelas circunstâncias a elaborar um documento—vasado na linguagem mais reverente—em que demonstro, com base na doutrina católica, a liceidade da resistência à détente com o comunismo, então promovida pelo Vaticano. Esse documento, intitulado A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas—Para a TFP: omitir-se? ou resistir? , foi largamente difundido pela imprensa nacional e internacional.
- Em fevereiro de 1990, diante da espetacular derrubada do muro de Berlim e da cortina de ferro, e dos abalos políticos que se sucediam nos diversos países do bloco comunista, redigi o manifesto intitulado Comunismo e anticomunismo na orla da última década deste milênio , em que analiso o Descontentamento (assim grafado com inicial maiúscula) que lavrava naquelas nações e que logo depois teria como resultado o esfacelamento do império soviético. O manifesto foi publicado pelas diversas TFPs em 21 jornais de oito países da América e da Europa.
O verdadeiro pensador deve ser também um observador da realidade palpável de todos os dias
Como jornalista, comecei minha carreira no “Legionário”, então expressão do pensamento da Congregação Mariana da paróquia de Santa Cecília, e mais tarde órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo. Algo já disse sobre minha atuação à frente desse periódico, do qual fui diretor de 1933 a 1947.
Em 1951, com a maior parte dos antigos colaboradores do “Legionário”, comecei a escrever no mensário Catolicismo , que então se fundava, e o qual continua a ser publicado com crescente pujança. Catolicismo tem uma tiragem média que atinge 15 mil exemplares, além de edições especiais de várias dezenas de milhares.
Foi também em Catolicismo que criei e mantive, durante vários anos, a seção Ambientes, Costumes, Civilizações , por muitos apontada como a expressão rica e original de uma escola de produção intelectual. Essa seção constava da análise comparativa de aspectos do presente e do passado, tendo por objeto monumentos históricos, fisionomias características, obras de arte ou de artesanato, apresentados ao leitor através de fotos. Tal análise, feita à luz dos princípios que explicitei em Revolução e Contra-Revolução , tinha por meta mostrar que a vida de todos os dias, em seus aspectos-ápices ou triviais, é suscetível de ser penetrada pelos mais altos princípios da Filosofia e da Religião. E não só penetrada, mas também utilizada como meio adequado para afirmar ou então negar—de modo implícito, é verdade, mas insinuante e atuante—tais princípios. De tal forma que, freqüentemente, as almas são modeladas muito mais pelos princípios vivos que pervadem e embebem os ambientes, os costumes e as civilizações, do que pelas teorias por vezes estereotipadas e até mumificadas, produzidas à revelia da realidade, em algum isolado gabinete de trabalho ou postas em letargo em alguma biblioteca empoeirada. De onde a tese de Ambientes, Costumes, Civilizações consistir em que o verdadeiro pensador também deve ser normalmente um observador analista da realidade concreta e palpável de todos os dias. Se católico, esse pensador tem ademais o dever de procurar modificar essa mesma realidade, nos pontos em que ela contradiga a doutrina católica.
De 1968 a 1990 colaborei como articulista assíduo na “Folha de S. Paulo”, analisando problemas da atualidade brasileira e mundial sob o ângulo doutrinário. Com freqüência que se tornou habitual, meus artigos são reproduzidos em jornais norte-americanos e latino-americanos.
O caráter tradicionalista de uma corrente de pensamento não lhe tira a visão da realidade
Em meus livros e artigos, denunciei amplamente o grande desgaste do comunismo marxista e sua incapacidade de empolgar as multidões e conquistar o poder, e, conseqüentemente, a necessidade em que ele se encontrou, para dar curso à Revolução encalhada, de recorrer com eficiência aos ardis da guerra psicológica revolucionária.
Acontecimentos posteriores patentearam tragicamente, diante do mundo estupefato, a procedência de minhas afirmações sobre o impressionante desgaste do chamado comunismo ortodoxo. Acentuo o fato para mostrar que o caráter tradicionalista de uma corrente de pensamento não lhe tira a visão da realidade. Pelo contrário, nenhuma análise lúcida do presente pode prescindir da tradição que o impregna, e em função da qual—a favor ou contra—se estrutura o porvir.
Empreguei intencionalmente a expressão corrente de pensamento . Creio que, mais ainda do que em meus livros e na minha atuação como professor universitário e jornalista, encontro a imagem de meu pensamento e o fruto de meu trabalho doutrinário em um grupo de estudos e de ação, que se constituiu inicialmente em torno do “Legionário”, e em seguida de Catolicismo . Fosse este grupo socialista ou comunista, e as tubas da propaganda já teriam levado seu nome ao conhecimento do mais largo público, tal a inteligência, a cultura, a lucidez de observação que distinguem meus nobres companheiros. Preferiram eles, entretanto, aceitar desinteressadamente as conseqüências da campanha de silêncio que tenta abafar implacavelmente, em nossos dias de pretensa liberdade, a voz de quantos cantam fora do coro da Revolução universal.
Destaco aqui o nome daqueles que a Providência já chamou a si: pelo brilho de sua colaboração no “Legionário” e em Catolicismo , o vigoroso polemista que foi o engenheiro José de Azeredo Santos; o professor universitário Fernando Furquim de Almeida, autor de estudos históricos de alto mérito; o advogado, escritor e redator exímio, José Carlos Castilho de Andrade, sob cujas mãos os artigos e textos de Catolicismo alcançavam um brilho e uma correção inexcedíveis. Foi ainda uma emanação dessa corrente de pensamento o livro penetrante, ao qual já me referi, de Fábio Vidigal Xavier da Silveira, Frei, o Kerensky chileno , qualificado de “profético” por observadores políticos chilenos.
TFP: os valores essenciais da civilização cristã despertam entusiasmo e dedicação incontáveis
O mencionado núcleo de homens de estudo e de ação constituiu o pugilo inicial da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Essa Sociedade é não só um precioso instrumento de difusão de todas as obras aqui referidas, mas também uma pública afirmação de que na juventude de hoje a tradição, a família e a propriedade, valores essenciais da civilização cristã, são capazes de despertar entusiasmo e dedicação sem limites.
Nos cursos, nas pensões, nas sedes que a TFP mantém em cerca de trinta cidades dos mais diversos Estados da Federação, a grande maioria dos freqüentadores são jovens que se transformam em cooperadores abnegados e fervorosos. Ultrapassam eles, em nosso País, a cifra de 1.200.
Os jovens cooperadores da TFP são provenientes de famílias das mais variadas classes sociais, desde representantes da antiga nobreza imperial, da velha aristocracia rural da I República e dos novos capitalistas do mundo industrial e bancário da II República, até famílias de trabalhadores manuais, passando por toda a gama dos estratos sociais intermediários.
A TFP conta também com a colaboração de correspondentes-esclarecedores , isto é, pessoas que, permanecendo extrínsecas ao quadro social, dão solidariedade irrestrita aos princípios e aos métodos desta Sociedade, e empregam o tempo que lhes deixe livres o cumprimento de seus deveres familiares e profissionais, na propaganda da TFP, de suas doutrinas e ideais.
Graças ao trabalho desinteressado e elevadamente idealista dos cooperadores da TFP e, na medida de suas possibilidades, dos correspondentes da mesma, a entidade tem podido empreender uma série de campanhas, cuja narração entra a propósito aqui, porque são reflexo do pensamento a que dediquei minha vida:
_ Em 1966, o Governo Castelo Branco apresentou um projeto de Código Civil divorcista. Mantendo na rua, durante cinqüenta dias, uma média de quatrocentos coletores de assinaturas, foi possível à TFP reunir 1.042.359 firmas contrárias ao divórcio. O Governo retirou o projeto.
_ Em 1968, a TFP realizou em todo o Brasil uma campanha de coleta de assinaturas, desta vez pedindo a Paulo VI medidas contra a infiltração esquerdista em meios católicos. O fato detonador da campanha foi o tristemente célebre documento Comblin , no qual o sacerdote belga Joseph Comblin, acobertado em Recife por D. Helder Câmara, pregava reformas escandalosamente subversivas. Nessa ocasião, 1.600.368 brasileiros subscreveram, em apenas 58 dias, o abaixo-assinado. As TFPs da Argentina, Chile e Uruguai resolveram fazer análoga campanha face a problemas surgidos nos seus respectivos países, o que resultou no envio a Paulo VI de um total de 2.025.201 assinaturas.
_ Já no ano seguinte tratou-se da difusão de um número especial de Catolicismo , denunciando os chamados “grupos proféticos” e o IDO-C, organismos enquistados na Igreja para corroê-la internamente, e levá-la depois a jogar-se na subversão. Nessa ocasião, dezenove caravanas de jovens propagandistas percorreram, em 70 dias, 514 cidades (em vinte Estados) de nosso território. Foram então vendidos 165 mil exemplares de Catolicismo . Foi nessa campanha que, pela primeira vez, por iniciativa minha, a TFP lançou, para uso dos seus cooperadores, a capa rubra ostentando o leão áureo, hoje tão conhecida. Juntamente com o estandarte, as capas têm marcado, de lá para cá, não só a fisionomia da TFP, mas—por ocasião das campanhas da entidade—a própria paisagem das cidades brasileiras.
- Cinqüenta cidades de nosso País assistiram, em 1970, à campanha de divulgação, feita pela TFP, de um artigo-manifesto que redigi, intitulado Toda a verdade sobre as eleições no Chile . Contribuiu ele sensivelmente para anular o mau efeito que a propaganda comunista procurava produzir no Brasil, quando da eleição do socialo-comunista Allende para Presidente da República andina. Foram distribuídos na ocasião 550 mil exemplares desse manifesto, além da venda, em larga escala, de Frei, o Kerensky chileno .
- Em dezembro do mesmo ano, a TFP arrecadou, em campanha pública realizada em quatro das principais capitais do País, grande quantidade de dinheiro, roupas, brinquedos e gêneros alimentícios, para o Natal dos pobres. O produto da coleta foi entregue a associações de caridade, para que o distribuíssem.
- Em fins de 1972 e início de 1973, a TFP promoveu uma campanha de porte nacional para a difusão da corajosa e oportuníssima Carta Pastoral sobre Cursilhos de Cristandade , de D. Antonio de Castro Mayer. Nela, o então Bispo de Campos alertava os católicos de sua Diocese sobre perigosos erros doutrinários, inclusive abertura para o marxismo, que afetavam numerosos setores desse movimento. Em quatro meses, treze caravanas com 120 propagandistas percorreram 1328 cidades de norte a sul do Brasil, vendendo 93 mil exemplares da Pastoral.
- Em 1974, sócios e cooperadores da TFP empenham-se em ajudar o Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima a promover a peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, que chorara milagrosamente em Nova Orleans, Estados Unidos. O bem que essa Imagem Peregrina tem feito às almas, no Brasil e no Exterior, é literalmente incalculável. Mais de 500 mil pessoas acorreram para venerá-la em seu percurso pela América do Sul.
- Em 1975 o divorcismo voltou à carga, através de duas emendas constitucionais. A TFP também retornou às ruas, desta vez para difundir a Carta Pastoral Pelo casamento indissolúvel , do Bispo de Campos, D. Antonio de Castro Mayer. Em pouco mais de um mês venderam-se cem mil exemplares da Carta Pastoral. As emendas divorcistas foram rejeitadas.
- A partir de maio de 1977, a TFP do Brasil, bem como as demais TFPs do continente americano, divulgaram em seus respectivos órgãos de imprensa e em dezenas de milhares de folhetos um importante estudo entregue pela TFP norte-americana aos membros de ambas as Casas do Congresso, ao Departamento de Estado e a influentes personalidades da vida pública dos Estados Unidos. Intitulado Direitos humanos na América Latina—o utopismo democrático de Carter favorece a expansão comunista , o estudo da TFP norte-americana observa que a administração Carter _”se outorgou o direito de definir, dogmaticamente, e com validade absoluta para todos os povos, grande número de pontos controvertidos, como se fosse uma espécie de Vaticano infalível, determinando a natureza das liberdades civis que todas as nações têm que aceitar”.
- Expoentes da Teologia da Libertação reuniram-se em fins de fevereiro de 1980 em Taboão da Serra, em São Paulo. À noite, entretanto, eram realizadas pelas CEBs sessões de animação dos participantes da jornada de Taboão da Serra, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA). A noite de 28 de fevereiro foi especialmente consagrada à Revolução Sandinista da Nicarágua, e constituiu um forte incitamento à guerrilha, feito pelos sandinistas à esquerda católica brasileira e de toda América Latina. Catolicismo obteve a gravação da sessão (facultada, aliás, a qualquer pessoa presente) e a publicou, com comentários meus, no número de julho-agosto de 1980. As caravanas de propagandistas da TFP divulgaram a reportagem de Catolicismo por todo o território nacional (36.500 exemplares). As TFPs da Argentina, Colômbia, Equador, Uruguai e Espanha reproduziram meu estudo sobre a _ Noite Sandinista em seus respectivos países, totalizando, com a edição do Brasil, 80.500 exemplares.
- Consultados por proprietários rurais, os professores Sílvio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, e Orlando Gomes, da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, afirmam, em bem fundamentados pareceres, que toca aos fazendeiros, desassistidos do Poder Público, o direito de defender-se à mão armada contra bandos de desordeiros que tentam invadir suas propriedades, com a intenção de ocupá-las ilegalmente. A partir de janeiro de 1986, a TFP deu a mais ampla divulgação aos pareceres dos dois eminentes jurisconsultos, fazendo-os publicar em 87 jornais de 76 cidades de 21 Estados.
- Durante 130 dias, de 31 de maio a princípios de outubro de 1990, as TFPs e Bureaux -TFP reuniram 5.218.020 assinaturas em 26 países, para um abaixo-assinado hipotecando solidariedade à declaração de independência da Lituânia do jugo soviético. Uma delegação das TFPs, de onze membros, entregou o abaixo-assinado ao Presidente da Lituânia, Vytautas Landsbergis, no dia 4 de dezembro de 1990. No dia 6, já em Moscou, a delegação se fez fotografar em plena Praça Vermelha, desfraldando um estandarte da entidade, com todos os seus integrantes portando a capa vermelha característica das TFPs. E no dia 11 do mesmo mês a comitiva entregou, nos próprios escritórios do Kremlin, uma carta coletiva dos presidentes de todas as TFPs ao Presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, solicitando-lhe formalmente que, diante dessa categórica manifestação do mundo livre, removesse todos os obstáculos que impediam a Lituânia de alcançar sua plena independência.
- Entre as memoráveis campanhas da TFP, incluem-se também as de difusão dos livros que escrevi, bem como das demais obras editadas sob os auspícios da entidade. Dentre estas, cabe destacar, pela sua originalidade, a coleção intitulada Diálogos Sociais . Consiste ela em vários opúsculos que tratam de diversos temas ligados à problemática comunismo-anticomunismo, no diapasão em que são habitualmente sentidos e comentados pelo homem comum em conversas caseiras e encontros de rua. Os Diálogos Sociais colocam ao alcance do grande público, de modo resumido e substancioso, argumentos para que ele possa premunir-se contra as artimanhas da propaganda do socialismo e do comunismo. Os três opúsculos da coleção editados no Brasil intitulam-se: N° 1 -- A propriedade privada é um roubo? ; N° 2 -- Devemos trabalhar só para o Estado? ; N° 3 -- É anti-social economizar para os filhos? Em edições sucessivas foram vendidos, no Brasil, 100 mil exemplares de cada opúsculo.
- Outras atuações da TFP: publicação de manifestos pelos jornais e estudos enviados às autoridades mostrando os aspectos socializantes da lei do inquilinato; carta ao Presidente Castelo Branco em prol de uma lei de imprensa que conciliasse a repressão dos abusos com uma justa e adequada liberdade; missas anuais realizadas: 1) pelas almas das vítimas que o comunismo vem fazendo, desde 1917, em todo o mundo, em particular no Brasil, através de atos de terrorismo, e 2) pela libertação dos povos escravizados pela seita vermelha; campanhas realizadas pelos estudantes da entidade a fim de alertar a juventude universitária sobre a origem e objetivos esquerdistas de certas fermentações estudantis; memorial ao Ministro da Justiça contra o aborto; visitas sistemáticas a hospitais, a fim de levar o conforto de uma palavra cristã e de uma dádiva material aos doentes, principalmente os mais pobres e abandonados; recolhimento de roupas e alimentos de pessoas abastadas e posterior distribuição nos bairros pobres.
Se quisesse historiar aqui tudo o que a TFP tem feito na linha da difusão doutrinária e do combate ideológico, seria um não mais acabar. Citei, portanto, apenas as grandes campanhas levadas a cabo pela organização que fundei, e cujo Conselho Nacional tenho a honra de presidir. Elas têm cabida aqui porque completam, mais ainda do que meu retrato filosófico, a fisionomia dos princípios que defendo.
No campo das idéias, não existe apenas o antigo e o novo, mas sobretudo o verdadeiro e o perene
Com efeito, ao ler este retrato filosófico , muitos terão tido em mente, de começo a fim, uma objeção: tudo isto é anacrônico e incapaz de deitar raízes no mundo em que vivemos.
A linguagem dos fatos é outra. No campo das idéias, não existe apenas o antigo e o novo, como quereriam os evolucionistas. Existem também, e sobretudo, o verdadeiro, o bom, o belo e o perene. Em contraposição irreconciliável com o erro, o mal e o disforme. E ao verum, bonum e pulchrum , significativos setores da juventude hodierna não só permanecem sensíveis, mas engajaram uma marcha de resoluta expansão.
A tradição do perene não é morte, mas vida—vida de hoje e vida de amanhã. De outra maneira não se explicaria este fato patente, que é a repercussão das várias TFPs na mais nova juventude deste nosso novíssimo continente.
Não pretendo ser apenas um defensor do passado, mas um colaborador—com outras forças vivas—para influir no presente e preparar o futuro. Estou certo de que os princípios a que consagrei minha vida são hoje mais atuais do que nunca e apontam o caminho que o mundo seguirá nos próximos séculos.
Os céticos poderão sorrir. Mas o sorriso dos céticos jamais conseguiu deter a marcha vitoriosa dos que têm Fé.

domingo, 28 de dezembro de 2025

PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA E A OPINIÃO PÚBLICA

 


Antigamente a perseguição religiosa era feita a ferro e fogo, mas hoje tudo mudou e os métodos são mais psicológicos, tentam indispor os perseguidores perante a opinião pública. E nisso tem se empenhado muito a imprensa falada, escrita e da TV, comumente chamada de mídia.

A coordenação dos métodos utilizados na onda de perseguição que se levantou contra os Arautos do Evangelho faz supor uma só origem, dando a impressão que tudo procede de uma só organização que visa destruir tudo o que procede da Santa igreja Católica e produz bons efeitos na sociedade.  Como essa organização consegue arregimentar algumas pessoas com tal finalidade é um mistério.

Toda entidade, seja ela civil, militar ou religiosa, sempre tem elementos que dela participa e depois, ao sair, se tornam seus desafetos, procurando combate-la e, no caso, até denegri-la pelos motivos ao mais variados. Por inveja, por espírito de vingança ou, em alguns casos, ludibriado por falsas promessas de inimigos externos. Muitos dos detratores são pessoas que tentaram cometer alguns erros dentro da entidade e foram expulsos ou saíram por causa disso, e, em muitos dos casos, vão a público fazer algumas acusações de coisas que elas mesmo tentaram praticar e não conseguiram.

Vamos aqui analisar o problema debaixo do que pensa a opinião pública. Classificamos dois tipos de opinião pública. A primeira é aquela manobrada pela mídia, toda sujeita a influxos das manchetes de jornais e das emissoras de rádio e TV, que não pensa por si mesma, mas apenas repete aquilo que os manobradores de plantão lhes implantam na cabeça. A segunda é composta do povo legítimo, que pensa por si e não segue tudo o que querem lhes empurrar mente a dentro. É nesse público que trabalha os Arautos do Evangelho. Espontâneo, não precisa que ninguém lhes diga o que devem fazer, pois sua consciência o indica nas ocasiões propícias.

A opinião pública artificial, acostumada com os jornais de violência e crimes, move-se apenas por impulsos e não consegue abstrair de uma simples notícia ou reportagem o que está por detrás de tudo. É este o público trabalhado há muitos anos pelas TVs, especialmente pela Globo. Quanto a esta, movendo um público leviano acostumou-se e reproduzir em suas reportagens apenas a aparência das coisas, e joga no público os informes de maneira açodada e sem consistência, porque o objetivo é apenas causar comoção social, mesmo que esta comoção ultraje a honra e dignidade das pessoas honradas. Para eles, isso pouco importa. Foi isso o que fizeram com os professores e proprietários da Escola de Base, em São Paulo, um rumoroso caso de difamação e calúnia sem qualquer consistência, o qual terminou fazendo fechar a escola e acabar com a vida de todos os envolvidos no caso. Já tentaram caluniar inúmeras vezes a TFP, especialmente nos anos 80 do século passado, tendo esta se defendido galhardamente e deixado os caluniadores sem credibilidade perante a opinião pública. Os sucessores da TFP, Arautos do Evangelho, são vítimas constantes destas perseguições midiáticas.

No entanto, quem perde prestígio perante a opinião é a imprensa. Vejam o exemplo abaixo:

"A Igreja é imaculada e indefectível"

Este foi o título do artigo, de autoria de Monsenhor João Clá, publicado em abril de  2010, defendendo o clero católico contra uma intensa campanha de calúnias veiculada pela mídia no mundo inteiro.  Por simples denúncias, jornais e TVs passaram a veicular todo tipo de notícias escandalosas maculando a boa fama e a honra de diversos sacerdotes e bispos. Havia casos escabrosos, como o da cidade de Boston, em que dezenas de pessoas, em geral já maduras, acusavam padres de violências morais supostamente praticadas há dezenas de anos, quando os acusadores eram ainda crianças. Mesmo assim, a justiça aceitava as denúncias, visando, sempre, extorsões financeiras além da desonra moral. A arquidiocese de Boston foi obrigada a fazer um acordo com a justiça, pois não tinha condições financeiras de arcar com o pagamento das expensas judiciais.

Após a publicação do citado artigo de Monsenhor João Clá, aos poucos a campanha de calúnias foi diminuindo, até se acabar completamente. Como reconhecimento, seria justo que o órgão do Vaticano premiasse os Arautos e Monsenhor João Clá por ter publicado obra tão auspiciosa em defesa da boa fama e da honra do clero em todo o mundo, especialmente a do Papa Bento XVI, muito visado nas calúnias. Pelo contrário, o que houve foi ingratidão e nenhum reconhecimento daquele benefício recebido.

 No entanto, a credibilidade ao Papado sempre aumenta, enquanto a mídia cai no desprestígio popular, conforme notícia a seguir transcrita:  

Fracasso da mídia em sua campanha difamatória contra o Papa

Foi revelado agora um dos sintomas do fracasso da mídia em sua burlesca campanha de difamação contra Bento XVI e a Igreja. O jornal que comanda esta campanha é o The New York Times, porta-voz de outros inúmeros órgãos de imprensa que lhe fazem eco, tentando implicar Bento XVI com supostas ocultações de casos de abusos sexuais cometidos entre sacerdotes, de modo especial americanos. Após ficar demonstrado a falsidade das acusações, o diário viu ficar completamente comprometida sua credibilidade. Agora acaba de ser publicada uma pesquisa, feita pelo próprio jornal, na qual se revela que o apoio ao Papa disparou entre o povo norte-americano. 88% dos católicos pesquisados asseguram que os escândalos sexuais cometidos por presbíteros e religiosos não afetam o seu trato com sacerdotes. De outro lado, é superior a 80% a percentagem de católicos que afirmam que o ocorrido não influi nada em sua decisão de assistir à missa, enquanto cerca de 79% continuam dando sua colaboração financeira para a Igreja.

Melhora a imagem do Papa Bento XVI

A figura de Bento XVI sai muito fortalecida na pesquisa, já que em apenas dois meses aumentou em 16 pontos sua simpatia pelo público, aumentando de 27 para 43% a percentagem de católicos que têm uma opinião muito positiva do Papa por sua firmeza na atual crise.

Entre os católicos praticantes a percentagem dos que estão conformes com a atuação da Igreja alcança 75%, chegando a 91% os que acreditam na capacidade do Vaticano em enfentar os escândalos. Por último, o estudo destaca que nove entre dez pesquisados disseram que os abusos são tão comuns na Igreja como fora dela.

Fonte: InfoCatólica, de 11 de maio de 2010

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

OS ARAUTOS DO EVANGELHO SÃO PERSEGUIDOS POR QUAL IDEOLOGIA?

 


 Em sua defesa perante a perseguição sofrida com a imposição do Comissariado, os Arautos do Evangelho repetem algumas vezes que a motivação dos perseguidores foi ideológica. Porém, talvez por ser difícil a caracterização, não define que ideologia é essa. Não seria, também, por causa de certa inveja da graça fraterna? Foi o caso dos jesuítas que, no século XVIII, foram perseguidos e até fechados pelo Vaticano, sendo restabelecidos apenas 40 anos depois.  Os jesuítas eram tão cultos, inteligentes e santos que provocaram a inveja da graça fraterna entre seus próprios irmãos na Fé, os quais deram guarida a falsas acusações de desafetos e invejosos. Conseguiram alcançar os objetivos naquela perseguição porque teve forte participação do poder estatal: as perseguições e proibições de alguns governos, especialmente o de Portugal através do famigerado Marquês de Pombal, serviram de pretexto para a ação do Papa. Graças a Deus, no caso do Arautos, o poder estatal não obteve êxito e todos os processos judiciais foram arquivados por falta de provas. E esse fator foi muito ponderado por João de Aviz e seus comandados.

Está implícito no sistema ideológico implantado hoje na Igreja, qual seja, o da “Teologia da Libertação” ou dos chamados progressistas, a quase indefinição de suas ideias. Isto porque, quando o fazem, geralmente, são repelidos pela opinião pública.

Afinal, qual a ideologia religiosa do cardeal João Braz de Aviz? Que tipo de posição ele adota perante a ação da Igreja no mundo? É somente progressista moderado ou pertence ao grupo da “Teologia da Libertação”? Ele já se definiu quanto ao seu modo de pensar?

Aparentemente, pelas declarações que andou fazendo, o personagem é vazio de ideologias. Seu pensamento parece que só se manifesta em coisas práticas da vida, talvez fosse apenas o mundanismo infiltrado na Igreja. Nesse caso, ele não seria caracterizado como progressista ou adepto da TL, não desenvolve atividade militante ou simplesmente intelectual em defesa destes grupos infiltrados na Igreja. Será isso mesmo?

De outro lado, precisamos analisar não somente o Cardeal João Braz de Aviz, mas, quase toda a equipe que ele nomeou para tentar destruir os Arautos. Sim, e tais companheiros dele nessa batalha possuem alguma ideologia ou são vazios como ele? Para simplificar: são simplesmente mundanos que invadiram importante órgão do Vaticano? Nesse caso, precisaríamos analisar todo o  pensamento desta equipe, tentando ver, uma a um, o que há de comum na ideologia do grupo. 

Julgo tal tarefa muito difícil, pois a partir do Vaticano II o que ficou patente na nova mentalidade que dominou grande parcela do clero é, exatamente, essa indefinição; os próprios documentos conciliares são cheios de dubiedades, deixando na opinião pública a ideia de conclusões instáveis sobre temas tão importantes. Mesmo assim, em certas ocasiões expõem algumas ideias com lógicas internas, denunciando a existência de grupos organizados com fins específicos. O que os define não é o que manifestam no pensamento, mas no modo de agir.

O que a mídia diz é que Aviz é defensor da Teologia da Libertação, mas não menciona nenhuma obra intelectual em que defende suas ideias, pelo simples fato de que nunca as publicou. Só se fala em suas críticas aos políticos e nada mais. Seus “pensamentos” foram expressos por ele em alguns vídeos do YouTube, mas manifestam apenas, de modo geral, liberalidade mundana misturada com certo misticismo religioso progressista. Tornou-se conhecido pelos gracejos e falta de seriedade em suas homilias e entrevistas, demonstrando completa falta de seriedade com os cargos que ocupou. Logo após sua nomeação para o que ocupava ultimamente, declarou gracejando que não tinha conhecimentos teológicos para o mesmo.  Em algumas declarações defende a promiscuidade entre homens e mulheres, inclusive entre os de vida conventual e consagrada. Mas, tais pensamentos não estão condizentes com o ideal político e social da TL, e sim como puro mundanismo ou, até mesmo, sensualidade clara e visível.

Podemos, então, afirmar categoricamente que a única ideologia com a qual seu grupo perseguidor se identifica é com a TL, embora não tenhamos em mãos pronunciamentos claros sobre isso. Fanaticamente adeptos da TL, viram nos Arautos do Evangelho exatamente o contrário do que pregam, que é uma liberdade excessiva em todos os setores da atividade humana. De outro lado, viram também na vida religiosa dos Arautos, em suas comunidades, conventos ou institutos de ensino, a prática assídua das virtudes cristãs, especialmente da castidade. E isso, ele mesmo declarou que não suporta. Não somente ele, mas todo defensor da TL odeia a castidade, virtude, aliás, essencial ao sacerdócio, mas pouco praticada pelo clero moderno. Exatamente por não praticarem mais a castidade é que praticam atos clamorosamente pecaminosos, como a pedofilia, objeto de escândalos públicos que envergonham a Igreja. Tais escândalos invadiram os órgãos da mídia alguns anos atrás, tendo sido objeto de um memorável artigo de Monsenhor João Clá, o qual foi publicado em importantes órgãos da imprensa mundial.

"A Igreja é imaculada e indefectível"

Este foi o título do artigo, de autoria de Monsenhor João Clá, publicado em 2010, defendendo o clero católico contra uma intensa campanha de calúnias veiculada pela mídia no mundo inteiro.  Por simples denúncias, jornais e TVs passaram a veicular todo tipo de notícias escandalosas maculando a boa fama e a honra de diversos sacerdotes e bispos. Havia casos escabrosos, como o da cidade de Boston, em que dezenas de pessoas, em geral já maduras, acusavam padres de violências morais supostamente praticadas há dezenas de anos, quando os acusadores eram ainda crianças. Mesmo assim, a justiça aceitava as denúncias, visando, sempre, extorsões financeiras além da desonra moral. A arquidiocese de Boston foi obrigada a fazer um acordo com a justiça, pois não tinha condições financeiras de arcar com o pagamento das expensas judiciais.

Após a publicação do citado artigo de Monsenhor João Clá, aos poucos a campanha de calúnias foi diminuindo, até se acabar completamente alguns anos depois. Como reconhecimento, seria justo que o órgão do Vaticano premiasse os Arautos e Monsenhor João Clá por ter publicado obra tão auspiciosa em defesa da boa fama e da honra do clero em todo o mundo, especialmente a do Papa Bento XVI, muito visado nas calúnias. Pelo contrário, o que houve foi ingratidão e nenhum reconhecimento daquele benefício recebido.

 No entanto, a credibilidade ao Papado sempre aumenta, enquanto a mídia cai no desprestígio popular, conforme notícia a seguir transcrita: 


Fracasso da mídia em sua campanha difamatória contra o Papa

Foi revelado agora um dos sintomas do fracasso da mídia em sua burlesca campanha de difamação contra Bento XVI e a Igreja. O jornal que comanda esta campanha é o The New York Times, porta-voz de outros inúmeros órgãos de imprensa que lhe fazem eco, tentando implicar Bento XVI com supostas ocultações de casos de abusos sexuais cometidos entre sacerdotes, de modo especial americanos. Após ficar demonstrado a falsidade das acusações, o diário viu ficar completamente comprometida sua credibilidade. Agora acaba de ser publicada uma pesquisa, feita pelo próprio jornal, na qual se revela que o apoio ao Papa disparou entre o povo norte-americano. 88% dos católicos pesquisados asseguram que os escândalos sexuais cometidos por presbíteros e religiosos não afetam o seu trato com sacerdotes. De outro lado, é superior a 80% a percentagem de católicos que afirmam que o ocorrido não influi nada em sua decisão de assistir à missa, enquanto cerca de 79% continuam dando sua colaboração financeira para a Igreja.

Melhora a imagem do Papa Bento XVI

A figura de Bento XVI sai muito fortalecida na pesquisa, já que em apenas dois meses aumentou em 16 pontos sua simpatia pelo público, aumentando de 27 para 43% a percentagem de católicos que têm uma opinião muito positiva do Papa por sua firmeza na atual crise.

Entre os católicos praticantes a percentagem dos que estão conformes com a atuação da Igreja alcança 75%, chegando a 91% os que acreditam na capacidade do Vaticano em enfrentar os escândalos. Por último, o estudo destaca que nove entre dez pesquisados disseram que os abusos são tão comuns na Igreja como fora dela.

Fonte: InfoCatólica, de 11 de maio de 2010

Qual a ideologia de tais perseguidores?

Deste modo, poderemos concluir que a “ideologia” que motivou a perseguição aos Arautos do Evangelho foi, simplesmente, a da sensualidade, exposta pelo fato dos perseguidores odiarem a virtude da castidade. Se há outros motivos, pessoais ou de grupos, não ficou ainda visível e comprovado.



 

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

A GRANDEZA DO NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR JESUS CTISTO

 



A véspera de Natal se aproxima cada vez mais, vamos fazer aqui uma consideração a respeito da própria festa do Natal.

O que estava no estado de espírito de Nossa Senhora a respeito do Natal? O que o Natal representava de novo para Nossa Senhora? Afinal de contas, Nossa Senhora tinha Nosso Senhor, que Ela carregava dentro de si como um tabernáculo, e tinha com Ele a maior intimidade, que era, evidentemente, um comércio de alma. Porque é certo que Nosso Senhor já estava gozando de pensamento dentro do ventre materno. Ele gozou de pensamento desde o primeiro instante de seu ser, e por isto Ele tinha uma comunicação com Ela contínua, uma comunicação dEle não só enquanto pessoa da Santíssima Trindade, mas dEle enquanto Homem-Deus com Nossa Senhora como sua Mãe.

E nestas condições nós não devemos imaginar que o nascimento de Nosso Senhor foi para Nossa Senhora como que um ato pelo qual Ela tomou conhecimento do Filho. Esse conhecimento Ela já tinha e já o tinha muito íntimo e muito ardente. Então, o que o Natal representou de novo para Nossa Senhora?


Natividade

Em primeiro lugar, naturalmente, há um pensamento que é óbvio: o Natal foi o momento em que Nossa Senhora deu Nosso Senhor ao mundo. E que Nosso Senhor abandonou o claustro materno, veio ao mundo e veio ao mundo pelos braços dEla. E, naturalmente, no momento em que Nosso Senhor nasceu, no momento em que de um modo misterioso e sem trazer qualquer prejuízo à virgindade de Nossa Senhora Ele entrou no mundo, esse momento deve ter sido um momento altíssimo. Deve ter sido um momento de grande manifestação de gozo, deve ter sido um momento de contato de alma intimíssimo dEle com Ela.

E tem que ter sido um ato de amor intensíssimo o momento em que Nosso Senhor nasceu,  em que Ela, com certeza, estava levada a um grau de mística inexprimivelmente alto, ao mesmo tempo tomava contato com a divindade de Nosso Senhor.

Este ato, esta cena do nascimento deve ter sido presidida e analisada pelas três pessoas da Santíssima Trindade e por todos os anjos do céu, com cânticos e com festas. Quer dizer, o momento do nascimento, a operação do Natal de Nosso Senhor deve ter sido uma das maiores festas que houve no Céu, e das maiores glórias da história da humanidade. E Nossa Senhora associada a isto com uma intimidade e com um grau de união com Deus, que é realmente inimaginável!

Naturalmente isto foi para Nossa Senhora algo de muita importância. Mas era só isto? Eu tenho a impressão que havia uma outra coisa. Nossa Senhora ainda não tinha visto a face sagrada de Nosso Senhor. Ela não tinha visto a face de Nosso Senhor, não tinha visto o corpo de Nosso Senhor.

E na realidade física, símbolo da realidade espiritual, os traços da face. Sobretudo em Nosso Senhor, que era perfeitíssimo e em quem não havia nenhuma forma de fraude, de engano, de insuficiência ou de coisa não acertada. Se nos homens, de um modo geral, embora confuso, a face traz uma expressão da alma, os senhores podem imaginar a face Sacratíssima de Nosso Senhor, e todo o corpo de Nosso Senhor, como traziam a expressão da alma dEle

Então Nossa Senhora adquiriu novo título de conhecimento de Nosso Senhor, que era exatamente Nosso Senhor conhecido em Sua face, Nosso Senhor conhecido em Seu olhar, Nosso Senhor conhecido em cada membro de seu corpo, já indicativo de toda a sua mentalidade, de toda a sua alma. E aí então um título novo para o amor, um título novo para a união, certamente um incentivo para as adorações inefáveis que Nossa Senhora apresentou a Nosso Senhor na noite de Natal.

Considere-se que não só cada traço do rosto é a expressão de uma mentalidade, mas que sobretudo o olhar é a expressão de uma mentalidade. E isso, a seu modo, várias outras partes do corpo exprimem: o pescoço, os ombros, as mãos, os pés, várias partes destas são indicativas de uma mentalidade, sobretudo tudo isto num conjunto. Podemos então imaginar Nossa Senhora contemplando esta expressão manifestativa da realidade psicológica e sobrenatural de Nosso Senhor e adorando-a profundamente.

Neste ponto há que se fazer uma retificação a respeito de algo que a iconografia da Renascença deformou completamente. Ela apresenta o Menino Jesus como uma criancinha bobinha, para dar a idéia da suma pureza do Menino Jesus. Mas uma criancinha inexpressiva, que está brincando, se ajeitando, e na qual não há ainda nenhuma indicação de mentalidade. Tenho enorme dificuldade em admitir que isto tenha sido assim.

A meu ver, pelo contrário, tudo aquilo que nós admiramos em Nosso Senhor adulto, - a elevação, mais que elevação, transcendência; uma alma de tal maneira elevada que está colocada inteiramente em outra região e lembra aquela frase dEle: "Meus caminhos não são vossos caminhos nem as minhas cogitações são as vossas cogitações"; aquela posição interior de Nosso Senhor em que se vê que Ele tem todo um céu interno dentro do qual está, e do alto do qual olha com bondade para a humanidade; mas é uma bondade sobre uma humanidade distante, que a misericórdia dEle torna próxima; todo aquele equilíbrio, distinção, afabilidade e força de Nosso Senhor; tudo isto que faz que na Sacratíssima face dEle se exprimam perfeições morais verdadeiramente inefáveis - tudo isto eu tenho a impressão que já [estava] expresso na face e no corpo do Menino Jesus.

E é de tudo isto que o Natal é uma primeira manifestação e para tudo isto convergiu a adoração de Nossa Senhora. A adoração de Nossa Senhora, a adoração de São José que estava perto dEla e que participava deste ato de adoração como esposo dEla e como pai do Menino Jesus. Que Nossa Senhora, naquela união de alma com Nosso Senhor, estivesse tendo uma relação que nós nem bem entendemos, é evidente. Da parte de São José os senhores podem imaginar a ternura, o respeito, o entusiasmo, a adoração, a veneração vendo aquele Menino que ele sabia que era filho do Espírito Santo e de Nossa Senhora, - mas legalmente filho dele e que em parte na pessoa dele se tornava filho de David e cumpria as profecias - e ele olhar para aquele Menino e pensar que, afinal de contas, aquele Menino era o Deus dele e o Deus de todos os homens; e ao mesmo tempo era filho dele, era o filho da esposa dele. O que aquilo deveria representar, considerando a santidade de Nosso Senhor que resplendia de todo presépio, que resplendia de toda a pessoa dEle sobretudo?

Esta idéia, portanto, da manifestação da pessoa humana, ou do corpo humano de Nosso Senhor Jesus Cristo no Natal, como manifestação de Sua santidade de alma, santidade que é a manifestação da dignidade hipostaticamente unida à natureza humana, isto eu tenho a impressão de que é o que deveria extasiar! E é o que na noite de Natal nós mais devemos considerar.

Há uma porção de santinhos que apresentam a noite de Natal, a cena de Natal com o berço do menino Jesus cheio de luz e o menino com uma carinha de bobinho. A luz não estava na palha, a luz estava no Menino, sobretudo na fisionomia do Menino, na face sacratíssima do Menino.

É isto que me parece constituir uma meditação interessante para o Natal, e que podemos ir exercitando durante estes dias, termos por tema de piedade durante estes dias. Vamos pedir a Nossa Senhora e a São José que nos façam entender bem isto e que nos dêem alento para um Natal verdadeiramente recolhido e piedoso neste mistério criado por este pensamento.

(Plinio Correa de Oliveira - Santo do Dia, 21 de dezembro de 1965)

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

GLORIOSA EPOPÉIA DA RESISTÊNCIA DOS VALOROSOS CAVALEIROS CATÓLICOS AO CERCO DE MALTA – 1565



(cripta da concatedral de São João, em La Valeta, onde jaz o corpo de Jean de La Valette) 


Em 1564 o sultão Solimão detinha um poder militar jamais visto, talvez um dos maiores do mundo. Enquanto as nações cristãs se debatiam com questiúnculas internas, os turcos representavam um sério perigo para a Cristandade. 

UMA "PEDRA" NO CAMINHO

O plano dos otomanos para alcançar e conquistar a Europa era pelo sul da Itália, no Mediterrâneo, já tentado em épocas anteriores. Mas, para conquistar tal objetivo tinham que passar por Malta e enfrentar os valorosos cavaleiros cristãos, interpostos em seu caminho, entrincheirados na ilha, muito bem armados e quase  inexpugnáveis. Todos os navios que cruzavam os estreitos entre a Sicília e o norte da África ficavam a mercê de Malta, um dos últimos baluartes a resistir à invasão da Europa.            .                                         

SITUAÇÃO DA ILHA DE MALTA

Malta era habitada pelos cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém, além de cerca de 12 mil camponeses, os civis. Na realidade eram duas as ilhas, uma com o próprio nome de Malta e outra chamada de Gozo, que haviam sido presenteadas aos cavaleiros pelo imperador Carlos V. Lugar árido, com terras impróprias para o plantio, com calor insuportável no verão, mas onde os Cavaleiros de São João de Jerusalém acharam de ficar, fortificar-se e constituir-se no ponto de resistência de uma das mais gloriosas guerras de defesa da Cristandade. 

Os Cavaleiros de São João de Jerusalém constituíam uma Ordem militar-religiosa, de monges-guerreiros, nascida por ocasião das Cruzadas. 

Eram de várias nacionalidades europeias, em geral nobres ou descendentes de famílias aristocráticas. Só obedeciam ao Papa, a quem haviam jurado fidelidade até á morte. Além de guerreiros e monges, eram também exímios navegadores, médicos, engenheiros, artífices, etc. 

No início, a Ordem era apenas de hospitalários. Surgiu no ano de 1048, ocasião em que os beneditinos criaram um hospital dedicado a São João Batista e destinado a socorrer os peregrinos que iam á Terra Santa. Em 1099, Gerard de Tom, diretor do hospital, tornou-se o mentor do primeiro embrião da Ordem ao separar o hospital do convento e fundar uma congregação com o nome de “Hospitalários de São João de Jerusalém”. A Regra foi aprovada pelo Papa Pascoal II, ano de 1.113. Com a queda de Jerusalém os hospitalários tiveram que se refugiar na cidade de Acre, em 1191, e posteriormente na ilha de Chipre, em 1201. Em 1310 foram para a ilha de Rodes, onde eram chamados de “Cavaleiros de Rodes”, e, em 1530, finalmente, foram se estabelecer em Malta. 

Constituíam, nessa época, uma legião estrangeira de católicos militantes, divididos em 8 línguas ou idiomas: Auvergne, Provença, França (as três falando francês), Aragão e Castela (espanhol), Alemanha, Itália e Inglaterra. Depois que Henrique VIII apostatou da Fé Católica foi retirada a participação da Inglaterra, ficando todavia um cavaleiro de nome Oliver Starkey, talvez por sua própria conta.                      .                         

QUEM ERA LA VALETTE

Naquele tempo, a Ordem era governada por um provençal, o Grão-Mestre Jean Parisot de La Valette. Era de origem nobre, da família Quercy em Parisot, França, nascido em 1494. Entrara na Ordem aos 20 anos e já estava com 70, há quase 8 anos na sua direção, desde 21 de agosto de 1557. 

Sabe-se pouco sobre a vida deste Cavaleiro, a não ser que era católico, nobre, monge, cavaleiro e que falava fluentemente o italiano, o espanhol, o grego, o árabe, o turco, além de sua língua pátria. Reunia ele todos os atributos de um verdadeiro nobre, guerreiro, monge e, acima de tudo, santo. Já fora até remador de navios muçulmanos como escravo ou prisioneiro. Após uma árdua vida, cheia de inumeráveis sacrifícios e lutas, toda dedicada ao serviço da Causa Católica, embora com 70 anos de idade, era detentor, entretanto, de perfeita saúde física e mental, e com tal robustez que espantava até seus inimigos, que dele tinham pavor. A tudo isso some-se sua inquebrantável Fé, sua indomável coragem, sua terna confiança na Providência Divina. Era um homem talhado por Deus para liderar aquele pugilo de heróis que salvou a Cristandade de uma terrível catástrofe. 

Na época do cerco de Malta, encontrávamos no píncaro da luta entre a Cruz e o Corão, cujo maior combate se daria poucos anos depois na batalha de Le Panto (1571). O Cristianismo havia expulsado os muçulmanos e sua religião até os confins da África, e os turcos vinham tentando, anos a fio, a oportunidade de um revide. Com o poder militar de Solimão e a decadência dos reinos cristãos, divididos entre si, enfraquecidos, era chegado o momento dos maometanos agirem. 

O DESPREZO PELA MORTE OS TORNA INVENCÍVEIS

A 18 de maio de 1565 surgiram os inimigos com 180 navios de grande calado, uma enorme armada comandada por Mustafá e Piali. Era frisante a superioridade bélica dos muçulmanos, com 40 mil guerreiros, além de    marinheiros, escravos, etc., contando ainda com 6 mil janízaros, a elite do exército deles, 9 mil “spahis”, fanáticos religiosos treinados para ataques suicidas, e, finalmente, 6 mil voluntários, entre marinheiros e corsários. Seus planos era cair sobre Malta e obter uma vitória esmagadora, quebrando assim a espinha dorsal da resistência católica, pois pretendiam logo em seguida partir para invadir o sul da Itália e toda a Europa. 

Defendendo Malta havia, além das muralhas, rochedos, fortificações e engenhos militares, apenas 600 a 700 cavaleiros, uns 3 a 4 mil voluntários civis, corajosos mas não treinados, e entre 4 a 5 mil soldados de infantaria espanhóis e italianos trazidos da Sicília. Antes de se iniciarem os combates, assim falou La Valette aos seus comandados: 

“A grande batalha da Cruz contra o corão vai ser travada. Somos os soldados escolhidos pela Cruz e, se o céu requer o sacrifício de nossas vidas não haverá melhor ocasião que esta. Vamos imediatamente até junto do Altar renovar nossos votos, a fim de obter, com nossa Fé, o desprezo pela morte; só isso nos tornará invencíveis” 

Os preparativos muçulmanos eram de conhecimento de todos os reis católicos, mas nem sequer a Espanha ouviu os clamores do Papa para remeter auxílio aos sitiados. Os defensores de Malta tinham que se haver sozinhos, sem nenhum reforço externo. 

As defesas foram preparadas com esmero, dir-se-ia com perfeição. Não se descuidou dos mínimos detalhes: provisões, armamentos, pólvoras, armadilhas, estratégias, contatos entre combatentes e o Comando, etc. 

Inspirado pela Graça, auxiliado pelos seus anjos protetores e cheio de entusiasmo pelo ideal que abraçara, La Valette pensou em tudo, preparando-se para um longo cerco. A defesa era cerrada, bem estruturada, de causar pavor ao adversário. Uma fortaleza assim tão bem defendida, inexpugnável, quase impermeável, não desvaneceu, entretanto, a sanha anticristã dos otomanos, pois eles sentiam a necessidade de quebrar o espírito guerreiro daquela fina-flor da nobreza cristã e jugular baluarte tão importante para suas conquistas. 

No dia seguinte, 19 de maio, já realizaram o seu primeiro ataque com 3 mil soldados. O cavaleiro francês Adrien de La Riviere foi capturado e levado à presença de Mustafá sob tortura, perante o qual declarou: “Os turcos jamais capturarão Malta. Não só porque estamos fortes e temos boas provisões, mas porque nosso Capitão e seus cavaleiros e seus soldados são tão valentes que preferem morrer a capitular”. Nessa primeira investida os muçulmanos já começaram a sentir o gosto amargo da derrota: perderam 100 soldados contra apenas 21 cristãos, sendo que estes morreram devido a descuidos da guarda. 

E aconteceu o primeiro recuo dos turcos a seus navios.                                

OS ASSÉDIOS 

Foram necessários dois dias para se preparar novo assalto. No dia 21 tentaram tomar o forte Birgu, dentro da ilha maior. A luta durou 5 horas, até que La Valette mandou dar o sinal de retirada (para dentro das muralhas). Vê-se no episódio a grande prudência de La Valette não consentindo no combate em campo aberto, embora fosse este o desejo de seus valorosos cavaleiros e soldados. 

Três dias depois e os muçulmanos ainda não haviam tentado nova incursão. Resolveram, então, no dia 24, desferir cerrado bombardeio contra o forte Santo Elmo, utilizando-se de um canhão balístico de 70 quilos. As paredes do forte começaram a se esboroar, e no cerrado tiroteio era quase impossível às sentinelas manterem-se em seus postos. Na noite seguinte, 200 homens foram mandados em barcos a remo para reforço das defesas do forte. 

La Valette sabia que Santo Elmo poderia ser a chave para a entrada em Malta. 

Mas os dias iam se passando e o forte não caía. A medida que as muralhas ruíam os defensores construíam outras por trás. Mais reforços são enviados por La Valette, mas não dão para aguentar muito tempo. Foram solicitados reforços aos membros da Ordem na Sicília. Enquanto os mesmos não chegam, o forte dava sinais de que ia cair nas mãos dos invasores. 

No dia 1 de junho foram capturados, fora do forte, alguns turcos, tendo o pânico se espalhado entre eles. O que lhes teria causado tal pavor não se sabe. Os janízaros foram chamados para intervir e levantar o moral dos turcos, de tal sorte que conquistaram um dos parapeitos mais elevados do forte e lá içaram o seu pendão. Na baía, chegavam mais reforços aos invasores, representados por 45 navios e 2.500 homens chefiados pelo corsário Dragut. O ânimo dos turcos se reacende. Um cronista descreveu o forte Santo Elmo como “um vulcão em erupção, cuspindo fogo e fumo”, tal era o tão intenso bombardeio com 50 canhões. 

A 3 de junho o revelim do forte foi tomado quase por acaso: uma patrulha turca surpreendeu um grupo de defensores exaustos, adormecidos,  logo dizimados. Dentro do forte, porém, a resistência era feroz, tenaz e heroica. 

Mustafá mandava ondas de atacantes, uma após a outra, muitas delas suicidas, contra as muralhas incendiadas de Santo Elmo, mas no fim do dia 2.500 soldados turcos jaziam mortos e o forte ainda resistia. 

Um cronista assim descreve a situação da guarnição: 

“A exaustão crescente era insuportável; entranhas e membros de corpos humanos despedaçados pelos canhonhaços eram enterradas no próprio parapeito das muralhas. Tal era o estado a que tinham sido reduzidos os sitiados, os quais nunca abandonavam seus postos, expondo-se de dia a um sol escaldante, de noite à úmida friagem. Sofriam toda sorte de privações, em meio a pólvora, fumaça, poeira, incêndios e salvas de tiros; a alimentação era insuficiente ou insalubre. De ossos deslocados ou estilhaçados, rostos cheios de horrendas feridas, eles estavam tão desfigurados que já quase não reconheciam uns aos outros...” 

Mas estavam lá, impávidos, lutando. Quanto heroísmo! Quanta bravura, entretanto esquecida pela História contemporânea! 

Um capitão espanhol chamado Miranda se ofereceu para ir com 100 homens reforçar a resistência do forte Santo Elmo. A resistência que parecia impossível continuava, os dias se passavam sem que os sitiados se rendessem ou fossem subjugados. Cada vez que os janízaros atacavam caía sobre eles uma chuva de balas e artefatos incendiários como o “fogo-grego”; A 7 de junho o ataque perdeu ímpeto e soou o sinal da retirada. 

“NOSSA VIDA DEVE SER SACRIFICADA EM PROL DA FÉ” 

Após o recuo muçulmano, o Chevalier de Medran atravessou o rio e foi conferenciar com La Valette, sugerindo a retirada do forte devido à impossibilidade de defendê-lo, fazendo-o explodir em seguida. Os defensores de Santo Elmo se juntariam aos dos outros fortes para reforçar a defesa de Malta. Mas, a resposta de La Valette foi inflexível: 

“Quando entramos nesta Ordem juramos obediência. Juramos também que nossas vidas seriam sacrificadas em prol da Fé. Nossos irmãos em Santo Elmo devem agora aceitar este sacrifício”.                         

Foi aceito por todos também o seu argumento de que “todas as fortalezas de Malta deveriam resistir até o último homem”. Chevalier de Medran, com mais 15 cavaleiros e 50 soldados, regressaram a Santo Elmo com o espírito revigorado pelas inflexíveis decisões de La Valette. 

Novo ataque no dia seguinte, seguido por mais um recuo turco. Ocorreu, então, que um cavaleiro chamado Vitellino Vitelleschi, dirige uma carta a La Valette, também subscrita por outros 50 pares, onde diz: “Uma vez que já não podemos cumprir nossos deveres para com a Ordem, estamos decididos – se Vossa Alteza não nos enviar barcos para a retirada – a desencadear uma surtida e morrer como cavaleiros”. Não se tratava, aparentemente, de um ato de covardia, talvez de insensatez e desespero. La Valette sentiu sinais de fraqueza em seus comandados e resolveu investigar antes de agir. Três cavaleiros foram mandados ao forte para se obter um relatório da situação: dois informaram que o forte poderia resistir mais alguns dias e o terceiro afirmou que os sitiados necessitavam de mais gente e um novo plano de defesa. Em uma hora o autor dessa sugestão, chamado Castriota, reuniu um grupo de 600 voluntários para ir em socorro do forte. La Valette assim respondeu à carta dos descontentes: “Formou-se um grupo de voluntários, e vossa petição para abandonar o forte Santo Elmo foi agora aceita. De minha parte, ficarei mais tranquilo sabendo que o forte está sendo defendido por homens em quem posso confiar”. Diante de tal resposta, e ao saber que estavam a caminho outros para substituí-los, os autores da petição cobriram-se de vergonha e de horror, desistindo imediatamente de seu intenso. Vê-se no episódio a varonilidade católica. La Valette não mais mandou os 600 voluntários, mas apenas 15 cavaleiros e 100 soldados. 

RESISTÊNCIA TENAZ DE SANTO ELMO PERDURA

A 10 de junho o forte ainda não caíra. Neste dia foi desfechado o primeiro ataque noturno, e ao romper do dia 1.500 dos mais aguerridos soldados do sultão jaziam mortos na “terra-de-ninguém” entre o revelim e o forte, e muitos outros moribundos e sem esperança de socorro. 

A 16 de junho outro ataque feroz. Primeiro foram os “iayalars” (loucos fanáticos que usavam haxixe nas batalhas), que tiveram de recuar deixando o fosso juncado de cadáveres. A seguir vieram os derviches e os janízaros, tropas de elite de Mustafá, sofrer também vergonhosa derrota. Nestas últimas investidas morreram apenas 150 cristãos contra mais de 4 mil muçulmanos. 

La Valette era a alma da resistência: mantinha constante contato com os defensores, mandando-lhes reforços, orientação e ânimo para a luta. Teriam que isolar Santo Elmo, e começaram então a atacar os barcos no interior da ilha, pois era através deles (principalmente à noite) que La Valette mantinha os contatos e remetia os reforços. O forte terminou ficando isolado. 

A 22 de junho novo e intenso bombardeio, por mar e terra, mas a resistência continuava feroz. Após 6 horas de ataque, Mustafá ordena o recuo. 

Os sitiados de Santo Elmo bradam vitória. Uma vitória efêmera, como veremos adiante. Um soldado maltês foi de Santo Elmo a Birgu, nadando perigosamente na enseada que separava os dois fortes, e contou que praticamente todos os sobreviventes da guarnição estavam gravemente feridos, mas que a disciplina  e o moral eram elevados. Uma última tentativa de enviar socorro foi frustrada pelo cerrado tiroteio dos canhões turcos. Ninguém poderia atravessar aquela cortina de fogo. A guarnição de Santo Elmo se resignara a morrer gloriosamente lutando até o último alento em defesa da Fé Católica, sem esperança de receber qualquer auxílio. Se poucas esperanças tinham de receber auxílio de La Valette, muito menos as teriam de receber dos católicos do Continente, os quais, inexplicavelmente, protelavam para depois o socorro tão ansiosamente esperado e urgente. 

CAI  SANTO ELMO: VITÓRIA INGLÓRIA PARA OS MUÇULMANOS

No dia seguinte outro ataque maciço é desferido. A guarnição de Santo Elmo, com menos de 100 homens exangues, quase todos mortalmente feridos, resistiu durante 4 horas ainda. Finalmente, o forte caiu nas mãos de Mustafá. 

Era véspera da festa de São João Batista, o Padroeiro da Ordem. Os cristãos que lá lutaram, lá morreram com a certeza do galardão no Céu. Foram mártires e heróis que merecem ser citados com amor e admiração por todos os verdadeiros católicos. Seus nomes estão escritos no mais alto Livro da Glória e seus feitos fizeram exultar de alegria todos os santos e anjos da Corte Celeste, inclusive o próprio São João Batista, presente em espírito nas batalhas que ali se travaram. 

Uma inglória para Musfatá aquela vitória. Haviam as outras fortalezas que sombriamente lhe esperavam. Milhares de guerreiros haviam ali perecido. 

Olhando para o forte Santo Ângelo (o principal), Mustafá clamou desesperado: 

“Se um filho tão pequeno nos custou tão caro, que preço teremos de pagar por um pai tão poderoso”. 

Após um mês de lutas, Santo Elmo lhe custara cerca de 8 mil mortes, contra apenas 1.500 dos cristãos, dentre os quais apenas 113 eram cavaleiros da Ordem. Foram capturados vivos apenas 9 cavaleiros. Quatro destes foram decapitados e os corpos colocados em cruzes de madeira e atirados na água, de sorte que fossem dar em Santo Ângelo. Em resposta, La Valette determinou que todos os prisioneiros turcos fossem decapitados, usando em seguida suas cabeças como “balas” contra os muçulmanos. Como eram muitos os prisioneiros, logo o terror espalhou-se entre eles ao receberam aqueles projeteis de cabeças humanas em cima das suas.                              

ENFIM REFORÇOS! 

Enquanto os turcos se preparavam para novos combates,transportando as armas pesadas a fim de assestá-las contra as fortalezas de Santo Ângelo e Birgu, operação que durou vários dias, alguns reforços chegaram para os sitiados: 42 cavaleiros, 25 “gentis-homens”, 56 artilheiros e 600 soldados, que sob a proteção de providencial nevoeiro conseguiram enganar a vigilância turca e chegar a Birgu em segurança. 

Mustafá tenta confabular com La Valette, remetendo-lhe um mensageiro com a proposta de que se os cavaleiros se rendessem lhes daria livre trânsito para sair da ilha. La Valette ordenou que o mensageiro fosse levado ao topo das muralhas. Apontando para o fosso, La Valette respondeu à proposta de Mustafá: “Diga ao seu senhor que este é o único território que lhe cederei... desde que fique cheio de corpos de janízaros”. O mensageiro ficou tão apavorado que, segundo um cronista da época, “sujou os calções”. 

Chega o verão, suportado pelos castos, mas não pelos impuros.

O lugar mais vulnerável para conquistar a ilha, a partir de então, era a enseada chamada Senglea. Percebendo isto, La Valette ordenou a construção de uma paliçada: grandes pontões de madeira enterrados no mar ligados com grossas correntes de ferro. Nadadores turcos, armados com machados, tentaram destruir estas defesas, mas voluntários malteses imediatamente foram ao seu encontro, de facas atravessadas entre os dentes, e lutaram corpo a corpo. Sendo os malteses mais destros, os turcos bateram em retirada... 

A 15 de julho, quase um mês depois de haver caído o forte Santo Elmo, é desferido um ataque duplo à enseada de Senglea e ao pequeno forte São Miguel. Foram utilizados nos ataques 10 barcos com 1.000 janízaros, tendo sido afundados 9 barcos e mortos afogados cerca de 800 dos atacantes. O décimo barco conseguiu abrigar-se, mas caiu nas mãos dos civis malteses, que os dizimou talvez como vingança pela queda de Santo Elmo. 

O verão estava chegando com um calor intenso. A temperatura média era de 32 graus. Os cristãos acotovelavam-se dentro das fortalezas, neste calor tórrido, com férrea disciplina, racionando víveres, aguardando pacientemente os próximos ataques. Os cavaleiros, quando iam ao combate, vestiam-se com suas armaduras de ferro, aumentando-lhes mais ainda o calor sufocante. Os turcos, por sua vez, usavam roupas folgadas, túnicas largas e frescas, dormiam em tendas ou nos navios e dispunham de boas provisões. 

Além do mais poderiam ir e vir para onde quisessem, pois não estavam sitiados como os cristãos. Apesar disso tudo, dentre os cristãos raros eram os casos de doenças, enquanto que nas fileiras turcas grassavam a disenteria, a febre entérica e a malária. Ainda hoje causa pasmo a observadores superficiais o que fazia os cristãos suportarem tão resignadamente tantos sofrimentos, enquanto os muçulmanos por qualquer coisa se revoltavam, eram constantes os motins entre eles. 

É que os cristãos, principalmente os cavaleiros da Ordem (exemplos para os demais), praticavam as virtudes cristãs, principalmente a obediência e a humildade (base da disciplina) e a castidade. E onde há castidade há também limpeza, asseio, etc. Os turcos, por sua vez, eram impuros, sujos, rebeldes, revoltosos, atraindo sobre si os males da expansão de seus instintos. 

Outro fator que fazia com que as doenças ocorressem menos entre os cristãos era que os cavaleiros eram em geral médicos. 

De posse do poder bélico e sob ordens tirânicas, continuaram os turcos a acossar os cristãos. Até o início do mês de agosto os artilheiros turcos não davam tréguas aos sitiados. Nos fortes, homens, mulheres e crianças labutavam juntos, reparando brechas, fabricando artefatos e consertando pistolas e outras armas. A tudo comandava La Valette com ordem, respeito hierárquico e um moral muito alto. Havia um sagrado respeito de todos por suas decisões. Não havia vacilo, nem cochilo, o sagrado sono era postergado para depois, a vigília era contínua e as orações constantes. A Fé movia a todos.                                  .  

No dia 7 de agosto o bombardeio recomeçou. Quando uma muralha principal caia, havia outra no interior mandada construir por La Valette. Esta tática era utilizada em todos os fortes. O forte São Miguel estava prestes a cair quando, repentinamente, Mustafá ordena a retirada de suas tropas: os reforços cristãos haviam chegado e sua retaguarda estava sendo atacada. O governador de Mdina (capital de Malta) enviava toda a cavalaria em socorro dos sitiados. Os turcos foram massacrados em seu próprio acampamento e os cavaleiros cristãos foram salvos de mais uma derrota. 

A fim de levantar mais ainda o ânimo de seus valorosos cavaleiros e soldados, La Valette ordena a divulgação do texto da Bula do Papa Pio IV que concedia indulgência plenária àqueles que tombassem lutando contra os muçulmanos. Ao ideal terreno de glória se juntava agora a vantagem das bênçãos de Deus para alma que morresse pela Fé Católica. 

Os dias iam se passando, e apesar de não diminuírem os assédios, os turcos não conseguiam um feito de grande monta. Já se iam longe os dias da conquista de Santo Elmo, embora fizesse pouco mais de um mês, pois tantas eram as derrotas que amargavam. No dia 20 de agosto, Mustafá e Piali resolvem dividir suas forças, indo o primeiro atacar os bastiões de Castela e São Miguel e o segundo o forte Birgu. Era um estratagema para ver se La Valette dividia suas forças mandando homens em socorro de São Miguel. No entanto, os turcos foram recebidos como das vezes anteriores, com uma única diferença: desta vez La Valette comandou pessoalmente a defesa, empunhando a espada à frente de seus homens no bastião de Castela. 

Comandou uma carga tão impetuosa que mudou o curso dos acontecimentos. 

Apesar de ferido e o inimigo estar recuando não aceitou o conselho de parar de lutar, dizendo: “Enquanto elas tremularem (as flâmulas inimigas), não recuarei!” 

Só após a reconquista do bastião e o arriamento das flâmulas inimigas aceitou cuidar de seus ferimentos. 

A situação era tão terrível que quem conseguia andar não era considerado ferido. As intensidades dos ataques se tornavam mais freqüentes e terríveis. Mustafá ataca a enseada de Senglea com o que foi chamado uma “máquina infernal”, em forma de barril comprido, amarrado com correntes de ferro e recheado de pólvora, correntes, pregos e toda sorte de metralha. Os cristãos conseguiram habilmente virar a terrível máquina na direção dos próprios turcos, indo explodir dentro do fosso e causando a fuga desesperada dos atacantes. Nesse ínterim o moral dos turcos era muito baixo. Grassavam muitas doenças entre eles e, sob o sol escaldante, milhares de cadáveres jaziam putrefatos, o que fazia com que aumentassem as moléstias e causassem náuseas aos atacantes por causa do mau cheiro. 

“AQUI PERECEREMOS OU, COM A GRAÇA DIVINA, SOBREVIVEREMOS!"

Decorreram três meses desde que a elite do exército e da armada turca iniciara o ataque à ilha de Malta. Menos de nove mil homens resistiram o verão inteiro ao cerco, provocando admiração e pasmo em toda a Europa, que recebia amiúde suas notícias. Até mesmo a rainha Elisabeth I, da Inglaterra, apesar de inimiga da Fé Católica, temia que, se os turcos vencessem, toda a Cristandade, incluindo seu país, estaria ameaçada. 

A 31 de agosto os cavaleiros insistem com La Valette para que abandonasse o forte Birgu e se refugiasse em Santo Ângelo, pois, argumentavam, “lá poderemos agüentar melhor do que separados uns dos  outros”. La Valette, porém, tinha outros planos, e respondeu aos cavaleiros: 

“Se abandonarmos Birgu, perderemos Senglea, pois essa guarnição não pode resistir sozinha. Santo Ângelo é demasiado pequeno para que, dentro, caiba toda a população maltesa, nós e nossa tropa. Com os turcos ocupando Senglea e as ruínas de Birgu, será apenas uma questão de tempo até que Santo Ângelo caia sob o fogo conjunto dessas fortalezas, enquanto agora são obrigados a dividir seus recursos. É aqui que deveremos manter-nos. Aqui pereceremos, ou, com a graça divina, sobreviveremos!”. E mandou queimar seus barcos para ter certeza de que não haveria retirada. Mandou também explodir a ponte levadiça entre Birgu e Santo Ângelo, deixado os fortes isolados um do outro. 

Entre os turcos, com o moral sempre caindo, começa a faltar víveres e pólvoras. Mustafá redobra seus esforços de guerra, mas tudo em vão. Os fortes nem se rendiam e nem caíam em suas mãos. Desesperado, Mustafá tenta atacar Mdina, a capital da ilha. O governador, então, usa de um estratagema, postando ao longo das muralhas diversos civis vestidos de soldados para dar a impressão de possuir muitos defensores. Deu certo, após uma tentativa frustrada, os turcos desistem e recuam. 

CHEGAM, ENFIM, REFORÇOS - VITÓRIA TOTAL DOS CRISTÃOS! 

Enquanto se desenrolava batalha tão cruel e insana, o restante da Europa se debatia com seus probleminhas corriqueiros. Os pedidos de socorro em favor dos sitiados não encontravam eco nos corações dos reis e príncipes envolvidos com suas quimeras e contendas pessoais. Em vão o Papa tentou arregimentar uma força expedicionária para socorrer os bravos cavaleiros de Malta, embora os seus feitos já percorressem toda a Cristandade, causando admiração e assombro. 

Finalmente, a 4 de setembro, quase que tardiamente, chega o socorro tão esperado: à frente de uma tropa de quase 11 mil homens, dentre os quais 200 cavaleiros, chega a Malta o nobre espanhol Don Garcia,provindos da Sicília, cuja pequena corte de Messina andava ansiosa para ver-se livre deles. 

Inexplicavelmente, não atacaram os navios ancorados ao largo, preferindo desembarque no canal de Gozo, no lado oposto onde se travavam as batalhas mais renhidas. Também, ao desembarcar, as forças de auxílio não partiram logo para o combate contra os invasores acampados no interior da ilha. 

Desconhecendo que os turcos batiam em retirada o comandante Ascanio de La Coma ordenou que se montasse acampamento no outro lado da ilha. 

Quando, finalmente, entraram em Birgu, os soldados da força de auxílio viram, horrorizados, quanto havia custado a vitória. Aleijados e feridos arrastavam-se como mortos ressurretos através dos fortes semi-destruídos. 

Perto de 250 cavaleiros tinham morrido e quase todos os outros estavam gravemente feridos ou aleijados pelo resto da vida. Morreram ainda sete mil espanhóis, soldados estrangeiros e malteses. Restavam apenas cerca de 600 homens capazes de pegar em armas; Os turcos, porém, haviam perdido cerca de 30 mil homens; no Maximo 10 mil voltaram para Constantinopla, onde os feitos cristãos causaram assombro e admiração. 

Toda a Europa festejou a grande vitória, até mesmo na Inglaterra protestante e anti-católica: três vezes por semana o arcebispo de Cantuária, anglicano, mandou celebrar ritos e ações de graças durante as seis semanas que se seguiram ao final do cerco. 

Em Malta, malteses, cavaleiros e soldados elevavam até o mais alto dos céus o seu regozijo por tão grandiosa vitória, rezando um Te Deum, dando graças ao Todo-Poderoso e à Santíssima Virgem. Lá em Malta não havia hipocrisia, a celebração tinha toda a autenticidade sentida pelos vencedores, toda a alegria contida naquelas almas após tanto sofrimento, tanto sangue, tanto tormento. 

Feitos tão gloriosos só foram possíveis graças a um espírito, a um modo de ser e de viver, o espírito da Cavalaria Cristã, alimentado por uma vigorosa Fé Católica, o qual soube resistir impávido aos assédios do império do mal, assim como à fraqueza e tibieza dos bons. Fossem outros os defensores da ilha, ou fossem outras as concepções dos que lá estavam e a resistência não teria durado o tempo necessário até alcançar a vitória. Vitória esta dada pela Providência, no momento oportuno quando tudo não parecia ter mais esperanças, tudo parecia quase perdido, para o qual, entretanto, Deus exigiu que os bravos cavaleiros e soldados lutassem, lutassem sempre, lutassem até à exaustão, lutassem até à própria morte ou até à vitória final. 

Sendo La Valette o artífice de grandioso feito, quis ele, entretanto, permanecer no anonimato, fugindo das glórias e honras, todas fugazes. Três anos depois do cerco morre La Valette. Seu corpo jaz agora na cripta da concatedral de São João, em La Valeta, como foi denominada a cidade construída em sua honra no monte Sciberras. Sobre seu túmulo, no chão de mármore da grande catedral, brilham as armas e as insígnias dos cavaleiros que ocuparam por mais de 200 anos a inexpugnável fortaleza de La Valette.               ...         .     .

(Observação: há extensa bibliografia descrevendo o cerco a Malta ocorrido em 1565. Fizemos o resumo acima com base em reportagem publicada na revista “Seleções” ).