SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 6 de agosto de 2017

SANTA LÍDIA E A EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NA EUROPA



Assim era chamada a Santa por causa de sua origem: Lídia era uma província do Egito, colonizada pelos filhos de descendentes de Ludim (Gen 10, 13). Soldados ludianos muitas vezes tomaram parte em guerras contra o Povo Eleito (Jer 46,9; Ez 27, 10, e I Mac 4, 25).  Nossa santa era natural da cidade de Tiatira, mas residindo em Filipos, na Macedônia, onde o Apóstolo São Paulo, em companhia de Silas, Timóteo e Lucas, chegou na segunda viagem missionária, entre os anos 50 e 53.
Tiatira que ficava, pois, na região chamada Lídia, na parte ocidental da Ásia Menor, era conhecida pela sua indústria de tingimento e é provável que Lídia tivesse aprendido ali as habilidades que vieram a tornar-se a sua profissão. A existência de fabricantes de corante tanto em Tiatira como em Filipos é comprovada por inscrições descobertas por arqueólogos. É possível que Santa Lídia se tivesse mudado por causa do trabalho, quer para cuidar do seu próprio negócio, quer como representante de alguma firma de tintureiros tiatirenos, não se sabe ao certo. Mais tarde, já em Filipos, Lídia vendia a púrpura tíria[i], quer o corante, quer o vestuário e tecidos tingidos com ele. Parece que era ela quem dirigia a sua casa, o que pode ter incluído escravos ou servos, e, portanto, possivelmente era viúva ou solteira, haja vista que não se menciona se era casada.
O corante púrpura era extraído de várias fontes. O mais caro era de certos tipos de moluscos marinhos. Segundo Marcial, poeta romano do Século I, um manto da mais fina púrpura de Tiro, outro centro fabricante dessa substância (sempre citada ao lado de Sidônia), chegava a custar 10.000 sestércios, ou 2.500 denários, o equivalente ao salário de 2.500 dias de um trabalhador. É óbvio que essas roupas eram artigos de luxo ao alcance de poucos.
Santa Lídia é descrita por São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, como "adoradora de Deus", o que indica que poderia ser uma gentia convertida ao judaísmo.
Pelo fato de negociar com tecidos é a padroeira dos tintureiros, tendo sido a primícia do cristianismo na Europa. Os missionários de Cristo, após terem pisado o solo europeu, aguardaram o sábado para encontrar os correligionários hebreus em algum lugar, na margem do rio Gangas, onde presumiam que eles pudessem se reunir (na falta de uma sinagoga) para a oração em comum e para a leitura de alguma página da Escritura. Assim descreve São Lucas como ocorreu este encontro:
"No sábado, saímos porta afora, às margens do rio, onde supúnhamos que se fizesse oração. Sentados, dirigimos a palavra às mulheres que se haviam reunido. Uma delas, chamada Lídia, negociante de púrpura, da cidade de Tiatira, adoradora de Deus nos escutava. O Senhor lhe abriu o coração, de sorte que ela aderiu às palavras de Paulo. Tendo sido batizada ela e a sua família, fez este pedido, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e ficai nela. E forçou-os (a isto). (At 16, 11-15).
Supõe-se que Lídia fosse abastada e tivesse muita autoridade na família, uma vez que o tecido com que trabalhava era precioso, e seu testemunho foi suficiente para que seus familiares pedissem o batismo, aceitando os missionários em casa como hóspedes. Sabe-se também que São Paulo era tecelão e pode ter havido algum encontro entre os dois do tipo “negocial” fora do religioso.
Esta deve ter sido a primeira conquista cristã em terra europeia, fora de Roma, é claro: Lídia, desde então, foi tida como protótipo e símbolo de todas as mulheres que trariam entre as paredes de seu lar a chama da fé em Cristo. A rica comerciante, dócil à graça, havia anteposto os interesses do espírito aos interesses econômicos, abandonando o comércio para recolher-se com outras mulheres num lugar de oração, junto às margens do rio Gangas. Lídia, trazida à sua alma pelas palavras do Apóstolo e pela graça batismal, pediu com doce insistência, ou melhor, obrigou os missionários a aceitarem a sua hospitalidade.(At 14, 14-40).
Dessa maneira, a casa de Lídia tornou-se o primeiro centro comunitário, a primeira igreja na Europa. Mais tarde, depois de Paulo e Silas terem sido soltos da prisão, eles foram novamente ao lar de Lídia. Encorajaram ali os irmãos e então partiram de Filipos (Atos 16, 36-40).. Pode ser que os crentes na recém-formada congregação ou igreja filipense usassem a casa de Lídia como local para reuniões. É lógico imaginar que sua casa tenha continuado a ser um centro de atividades cristãs na cidade.
O culto a Santa Lídia é uma tradição das mais antigas da Igreja Católica, foi inscrita na lista dos santos católicos pelo cardeal César Barónio em 1607. A santa é festejada no dia 3 de agosto


O PAPEL DE SANTA LÍDIA NA PROPAGAÇÃO DO CRISTIANISMO NA EUROPA

Os episódios e comentários a seguir foram extraídos de uma biografia de São Paulo, de autoria do alemão Joseh Holzner:

“Lídia, a comerciante de púrpura de Filipo  (Act 16, 11-15)
Foi um grande dia da história do gênero humano, quando São Paulo e seus três companheiros puseram seus pés pela primeira vez ns Macedônia, em solo europeu. Noutros tempos viveu aqui um valente, são e nobre povo, que pela atrevida empresa de um jovem rei não somente foi célebre no mundo, mas também, no pensamento da Providência, já séculos antes havia de preparar ao Evangelho o caminho sobre a terra. Com uma simplicidade e grandeza admiráveis, disse a Sagrada Escritura no início do Livro dos Macabeus: “E sucedeu que depois que Alexandre da Maceônia derrotou Dario, rei dos persas e medos, tomou por assalto todas as fortalezas, vencendo todos os reis da terra e penetrado até nos últimos termos do orbe, emudeceu o mundo diante dele... Depois caiu enfermo e conheceu que havia de morrer”. (I Mac 1, 1-8). Mesmo os maiores homens, chamados Alexandre ou César, são somente preparadores do caminho e criados de Deus. Eles haveriam de abrir os sulcos em que o divino Semeador pudesse espalhar sua semente. Entre todos os povos da antiguidade os macedônios foram os que mais assemelharam-se aos romanos. Desde o ano 167 antes de Cristo os romanos foram senhores do país e o dividiram em quatro distritos de governo, dos quais os mais importantes foram Tessalônica e Filipos.
Ao longe já se via o templo de Diana da pequena cidade marítima de Neápolis (hoje Kawalla), a qual está situada em forma de teatro sobre um saliente rochedo banhado pelo mar. Um círculo, no pavimento da igreja de São Nicolau assinala hoje o lugar onde São Paulo desembarcou.  Junto à pequena cidade, nossos viajantes, ora pela famosa estrada romana Via Egnacia, ora por um caminho escavado na rocha, subiram ao monte costeiro Pangeo até à altura do desfiladeiro, onde se abriu ante seus olhos uma vista admirável até o norte. Viram sob a planície do vale, rico em fruteiras, na qual se levantava defronte, sobre o último prolongamento da montanha, Filipos com sua acrópole. Era uma paisagem cheia da antiga poesia bucólica. Agora estava ali os mensageiros de uma nova liberdade, os arautos de um novo conquistador do mundo, que sem espada havia feito mais pela liberdade do mundo que todos os campeões da liberdade juntos. O imperador Augusto havia elevado Filipos à categoria de colônia militar romana com direito municipal itálico e isenção de tributos. Os veteranos se julgavam romanos genuínos e haviam levado consigo, com suas divindades romanas, Minerva, Diana, Mercúrio e Hércules, a honradez e conduta romanas. Pela estrada militar romana que atravessava toda Macedônia de leste a oeste e à outra parte do Adriático ia por Brindis até Roma, sentiam-se unidos com a capital do mundo e o Júpiter Capitolino. Desta forma, Filipos veio a ser uma cidade provincial típica romana, uma Roma pequena com foro, teatro, acrópole e muralhas fortificadas. Os cidadãos estavam orgulhosos de sua constituição favorável à liberdade e à maneira dos cônsules elegiam cada ano dois prefeitos ou “arcontes”, chamados também pelo povo de “estrategas”. Quando estes iam ao foro para pronunciar sentença, precediam-lhes como em Roma dois litores.
Mas em meio a estes romanos viviam ainda os descendentes dos nativos da Macedônia e Trácia que o rei Filipo havia estabelecido aqui noutro tempo para cavar em busca de ouro no Pangeo. Eram todavia intratáveis. Os homens, ásperos, soberbos e teimosos; as mulheres, livres e ansiosas por independência, falavam retamente sobre política e tinham parte nas eleições e turbulências políticas. Se aqui as mulheres se faziam cristãs, podiam exercer grande influência.  Sobretudo as almas das mulheres, tão sensíveis para o celestial, facilmente se lhes comunicava fervor religioso, porque estavam em parte imbuídas em doutrinas orientais misteriosas com seus hinos sublimes e ideias de imortalidade. São Paulo encontrou aqui, sobretudo entre as mulheres, adeptos entusiastas. Filipos prometia ser um proveitoso campo de missão.
Nos dias seguintes indagaram as perspectivas e pontos de contato para a pregação do Evangelho. Assim chegou o sábado. Viviam poucos judeus em Filipos. Não havia nenhuma sinagoga, porque faltava o número dos escribas requeridos segundo a lei rabínica para formar um tribunal. Mas, se não conseguiram possuir uma sinagoga pelo menos havia de ter um lugar fechado, rodeado de um muro ou cercado de sebe como lugar de oração. Os rabinos sabiam que o povo sem o exercício público de religião logo haviam de cair na indiferença ou no ateísmo. São Lucas teve conhecimento de dito lugar, e conduziu seus compatriotas para a porta da cidade, ao longo do curso do rio Gangas. Ali viram logo o lugar rodeado de uma parede baixa de jardim. Com admiração sua encontraram dentro do cercado somente algumas mulheres, parte judias, parte gentias tementes a Deus, que rezavam suas devoções da manhã. Majestosamente ao fundo o Pangeo alçava seu cume nevado e ao lado o arroio murmurava sua melodia. Estas mulheres não sabiam muito seguramente, mas tinham um vivo interesse religioso; e àquele que tem isso Deus o leva mais adiante. Aqui ante estas mulheres conseguiu São Paulo dar livre curso a seu coração. Poucas vezes terá tido um público tão agradecido. Neste grupo de mulheres causa maravilha ver a uma senhora bem vestida, especialmente interessada no que toca a religião, a qual não era de Filipos, mas uma piedosa pagã vinda de Tiatira, na Lídia. Por isso era chamada de Lídia. Era uma rica comerciante, que, sem dúvida, depois da morte de seu esposo, do qual nada sabemos, continuou na cidade seu negócio com telas de púrpura. Sua pátria, Tiatira, era conhecida desde os tempos de Homero (Ilíada 4, 141) pelo comércio de púrpura. A púrpura era um tecido precioso e o comércio com ele exigia grande capital. Lídia era uma daquelas almas cristãs por natureza, que, logo ao ouvir falar de Jesus, o reconhecem ao ponto como o caminho, a verdade e a vida. É uma representação encantadora saber que a este ato religioso da manhã assistiram também, além de Lídia, Evodia e Sintique, que mais tarde rivalizaram entre si, e às quais São Paulo em sua carta aos filipenses exortou tão afetuosamente à paz. Assim, pois, temos já várias pessoas conhecidas nesta cidade.
Temos de ser muito reconhecidos a São Lucas pela formosa palavra com que introduz a conversação de Lídia, e que nos descobre sua compreensão do coração da mulher e da obra da graça: “O Senhor lhe abriu o coração para que escutasse atentamente as palavras de São Paulo”. Era uma mulher prudente e refletida. Uma hábil mulher de negócios analisa tudo detalhadamente. Mas aqui não há para ela nenhuma demora. Com extraordinária rapidez se resolve receber o batismo. Talvez tenha sido no mesmo dia, na noite de sábado para o domingo, quando São Paulo e seus companheiros com as mulheres recém convertidas desceram o sussurrante Gangas, onde se efetuou a solenidade do batismo. A resoluta comerciante Lídia, com seu jeito enérgico e vigoroso voz de dona de casa, logo também dispôs que todos seus criados recebessem o batismo. Mais ainda, dada sua energia é de suspeitar que não somente em Filipos, mas também em sua terra Tiatira foi uma apóstola de Cristo, e teve parte no louvor que São João no Apocalipse escreve por ordem de Jesus ao anjo da comunidade de Tiatira: “Conheço tuas obras, tua caridade, tua fé, teus serviços e tua paciência” (Apoc 2, 19).
Sua segunda ação como cristã foi convidar todos os missionários a deixar seu albergue e alojar-se em sua espaçosa casa de comércio: “Se me tendes por fiel ao Senhor”, disse. Isto estava cordialmente falado. Lídia tinha realmente boas razões: Sua casa era o único lugar adequado para as reuniões de culto da futura comunidade cristã. O que também seu pundonor cristão, sua necessidade material,  sua ambição feminina encontrassem certa satisfação em abrigar a primeira igreja cristã e favorecer os missionários, quem poderia vituperá-la por isso? “Assim nos obrigou!”, acrescenta São Lucas, risonho. Era uma honra para Lídia que São Paulo aceitasse o convite. Ela foi uma coluna para a igreja apostólica, uma amiga maternal do Apóstolo, de todos os mensageiros da fé e da recente comunidade. Quando São Paulo escreve depois : “Vós o sabeis, filipenses meus: quando comecei a pregar o Evangelho entre vós, e depois saí da Macedônia, nenhuma comunidade entrou comigo numa relação do mútuo dar e recebe senão somente a vossa... Também à Tessalônica me haveis enviado mais de uma vez algo para socorrer minha necessidade” (Filipenses 4, 15-16), sem dúvida muitas destas dádivas passaram pelas mãos de Lídia.
Quem haveria de pensar que o Evangelho faria sua entrada na Europa tão calada e ocultamente? Não solenemente como no Areópago ante os filósofos, não dramaticamente como em Chipre ante o homem de Estado, mas em forma de idílio como uma manhã de verão fresca pelo rocio ou como uma deliciosa aurora no Oriente. Estes suaves e contudo vigorosos tons de sentimento introduziu a mulher no Evangelho já no tempo de Jesus. E em Filipos continua ecoando. Quando o Evangelho veio para a Europa, chegou primeiramente para as mulheres, porque os homens não estava presentes, como também entre os samaritanos foi uma mulher a que Jesus iniciou no mistério do reino de Deus. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, na sepultura, assim as primeiras junto ao sepulcro vazio. Nas tristes histórias de hipocrisias, ódios, perseguições, injúrias, deserções e covardes fugas não encontramos no Evangelho mulher alguma. Os homens, como mensageiros da fé,e missionários e defensores dos interesses religiosos estão, na verdade, mais na luz do reverbero; porém, onde estaria a Europa cristã sem a mulher cristã em casa como mãe, esposa, irmã, como auxiliadora virginal-maternal da miséria de todas as classes? São Paulo teve para este lado da feminilidade uma profunda compreensão e foi o primeiro em empregar a mulher ativamente na missão. Ele aprecia a mulher dotada de gênio, como Priscila que instrui ao douto Apolo. Em qualquer de suas cartas dispensa saudações e reconhecimento para as mulheres. Reconhece os serviços de Cloe em Corinto, de Febe em Cencreas, a quem confia sua carta aos romanos, e o ser pequena mulher a mãe Rufo que foi também para ele uma mãe. Quando escreve ao rico comerciante Filemon não esquece de saudar sua esposa Apfia. Aprecia especialmente o trabalho da mulher de família e a educação dos filhos, pela qual a mulher adquire o céu; aprecia as filhas virgens de Filipe de Cesarea, dotadas de profecia; seu cuidado se dirige também às boas viúvas, que se destacavam no campo da caridade e por isso eram mantidas pela comunidade (I Tim 5, 3-16). Como profundo conhecedor do gênero humano tem uma olhada para todos os bons lados do caráter feminino. As nobres mulheres de Filipos como santas figuras estão às portas da Europa, como se quisessem recordar a todas suas irmãs desta parte do mundo que as mulheres da Europa têm na Igreja cristã um santo destino, de ser sacerdotisas, às quais se confiou em primeiro lugar o sagrado fogo que fez feliz e grande a nossa parte do mundo.
Mas tampouco devemos esquecer àqueles nobres varões, como Epafrodito, a quem São Paulo chama seu “companheiro de armas, co-militante e colaborador”, que visita o Apóstolo preso em Roma e lhe traz presentes. Também Clemente e Sicigo (se realmente esta última palavra é um nobre mesmo) e muitos outros.estão ao lado daquelas mulheres, e em verdade com tal constância que São Paulo sabe estar escritos seus nomes no livro da vida (Fil. 4, 3)
Nenhuma comunidade foi tão amada por São Paulo como Filipos. Ela foi em solo europeu seu primeiro amor, “seu gozo e sua coroa” (Fil. 4, 1). “Deus é testemunho de como os amo a todos vós do fundo do coração” (Fil. 1, 8).

(“San Pablo – Heraldo de Cristo” – de Josef Holzner – Editorial Herder, Barcelona, 1956 – págs. 180/185)



Breve história da “púrpura tíria”
TIRO foi o principal porto marítimo da antiga Fenícia, no território conhecido atualmente como Líbano. Essa cidade tinha um próspero comércio de tecido púrpura. Foi por causa de Tiro que essa cor viva ficou conhecida no Império Romano como “púrpura tíria”.
Por causa de seu alto preço, a cor púrpura veio a ser associada com realeza, honra e riquezas. Inclusive, por meio de um decreto imperial na Roma antiga, uma pessoa comum que se atrevesse a vestir um traje completo tingido de púrpura da melhor qualidade era considerada culpada de alta traição.
Esse corante especial, tanto naquela época como atualmente, é extraído de certos moluscos em pequenas quantidades — uma gota de cada. Os tírios usavam os moluscos “múrices”, principalmente o brandaris e o trunculus, encontrados em diversas regiões ao longo da costa do Mediterrâneo. Podiam-se obter diferentes tons desse corante, dependendo do local exato onde os moluscos eram apanhados.
 A “púrpura tíria” (também chamada de “púrpura de Tiro” em grego: πορφύρα, porphyra; em latimpurpura) é uma tinta natural de coloração vermelho-púrpura, extraída de caramujos marinhos, e que provavelmente foi produzida pela primeira vez pelos antigos fenícios. Esta tinta tinha grande valor na Antiguidade por não desbotar - ao contrário, ela se torna gradualmente mais brilhante e intensa com a exposição ao tempo e à luz do sol.
A púrpura tíria era cara; segundo o historiador Teopompo, do século IV a.C., "a púrpura para as tintas valia o seu peso em prata em Cólofon", na Ásia Menor. Estes custos transformavam os produtos têxteis que utilizavam a púrpura tíria em símbolos de status, e as antigas leis suntuárias ditavam e até proibiram o seu uso. A produção dos animais que forneciam a tinta era controlada com rigor durante o Império Bizantino, e subsidiada pela corte imperial, que restringia seu uso para a pintura das sedas imperiais; o filho de um imperador no poder era chamado de porfirogênito (porphyrogenitos, "nascido na púrpura"), tanto referindo-se à Pórfira, o pavilhão do Grande Palácio de Constantinopla revestido de pórfiro onde os herdeiros do trono nasciam, quanto à púrpura que futuramente trajariam.
A substância consiste de uma secreção mucosa da glândula hipobranquialde um dos diversos caramujos marinhos encontrados no Mediterrâneo Oriental, o gastrópode marinho Murex brandaris, o murex espinhoso Bolinus brandaris (Linnaeus, 1758), o murex listrado Hexaplex trunculus, e o Stramonita haemastoma.
No hebraico bíblico, a tinta extraída do Murex brandaris era conhecida como argaman (ארגמן). Outra tinta, extraída do Hexaplex trunculus, produzia uma cor índigo chamada de tekhelet (תְּכֵלֶת‎), usada em vestes trajadas para funções rituais.
Diversas espécies de moluscos da família Muricidae, como por exemplo o Plicopurpura pansa (Gould, 1853), das regiões tropicais do Oceano Pacífico oriental, e Plicopurpura patula (Linnaeus, 1758) da região do Caribe, no Oceano Atlântico ocidental, também produzem uma substância semelhante (que se transforma numa cor púrpura duradoura após exposição à luz do sol), e esta característica foi também explorada pelos habitantes locais nas regiões de ocorrência destes animais. Alguns outros gastrópodes predatórios, como os membros da família Epitoniidae, parecem produzir uma substância similar, que ainda não foi estudada nem explorada comercialmente. O molusco Nucella lapillus, do Atlântico Norte, também pode ser usado para produzir tintas púrpura e violeta.
Na natureza estes moluscos utilizam esta secreção como parte de seu comportamento predatório, e para funcionar como uma camada antimicrobiana que cobre seus ovos. O molusco secreta esta substância quando é tocado ou atacado fisicamente por humanos, portanto a tinta pode ser extraída através de um processo de "ordenha", que embora seja mais trabalhoso é um recurso renovável, ou através do método destrutivo, que consiste da coleta dos moluscos e do esmagamento de suas conchas. Segundo David Jacoby,[9] "doze mil conchas de Murex brandaris não produzem mais que 1,4 g de tinta pura, suficiente apenas para colorir a bainha de uma única veste."






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