domingo, 4 de outubro de 2015

A CRISE NA FAMÍLIA




A família

A família cristã, nascida do pacto conjugal elevado por Nosso Senhor Jesus Cristo à dignidade de sacramento, tem como características:
1 – a indissolubilidade do vínculo conjugal e a fidelidade dos esposos entre si;
2 – a autoridade do esposo sobre a esposa, e de ambos sobre os filhos;
3 – a observância da castidade perfeita, tanto das filhas quanto dos filhos, antes do matrimônio.
No lar cristão bem constituído, tudo conduz a que, se algum dos filhos receber a vocação para o sacerdócio ou o estado religioso, seja ela tida como uma alta honra, e acolhida pressurosamente, não só pela pessoa desta maneira favorecida, mas pelos pais e por todos os que constituem o lar.

A família e a sociedade temporal em crise

De que forma a sociedade contemporânea, vista como um todo, costuma cooperar – em nossos dias – para que assim sejam as famílias cristãs?
A pergunta faria sorrir ironicamente , se fosse formulada com seriedade. Pois é evidente que dos mais variados modos, com o maior afinco, essa sociedade trabalha a todo momento para a desagregação da família. Ou seja, para sua descristianização.
A seguirem no mesmo rumo as mentalidades e os costumes reinantes, em breve a família autenticamente cristã terá passado a constituir exceção raríssima e mal vista, no seio de uma sociedade descristianizada. De uma sociedade anticristã, portanto.
“Quem não está coMigo está contra Mim”, ensina Nosso Senhor no Evangelho. [1]
Tal vai sucedendo , em suprema instância, pela ação das forças preternaturais engajadas na perdição do mundo[2], as quais tão bem sabem mover em sua conspiração os agentes naturais – individuais, sociais e outros. Vão elas dispondo assim de um crescente poder sobre as massas.
Era inevitável que chegasse a esse cúmulo de desgraças o gênero humano? De nenhum modo. Com efeito, outro poderia ter sido o curso das coisas se todas as pessoas e instituições especialmente prepostas para o combate contra a corrupção das idéias e dos costumes tivessem tido sempre, face a esse ruinoso curso das coisas, a conduta militante, ininterrupta e desassombrada, que seu dever lhes impunha.
A tal respeito, a atitude não só omissa mas até fortemente propulsora, de tantos dos poderes públicos, nos Estados contemporâneos, tem favorecido largamente a obra das trevas. De onde decorre que, pelo desdobrar lógico das consequências, e por merecida punição de Deus, todas as nações – sem excetuar as mais poderosas e prósperas – se encontram à beira de riscos de uma gravidade sem nome, e sob vários aspectos já se pode afirmar que vão rolando precipício abaixo, rumo à sua desagregação total. É isso de tal maneira notório, que dispensa provas ou exemplificações.

A família e a Igreja em crise

A responsabilidade por essa situação desastrosa não toca apenas ao Estado.
A Santa Igreja Católica, a única verdadeira Igreja de Deus, se vê envolta hoje em uma crise cuja gravidade já foi discernida por Paulo VI, bem insuspeito, entretanto, de pessimismo ou animadversão para com o mundo moderno, ao qual fez aberturas que surpreenderam por vezes não poucos dentre os melhores.[3]
João Paulo II, entretanto tão benévolo – ele também – em relação ao mundo moderno, expendeu reflexões análogas[4]; e um Prelado eminente pelo saber e pelas altas funções que ocupa na Santa Igreja, o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, publicou em 1985 sem famoso “Rapporto sulla Fede”, no qual se deve louvar a nobre franqueza com que descreve sintomas altamente expressivos da crise que lavra como um incêndio no interior da Santa Igreja.
O valor deste autorizado testemunho cresce ainda de ponto considerando-se que o Purpurado, quer no conjunto de sua obra de intelectual, quer em sua atuação à testa do ex-Santo Ofício, vem seguindo uma linha que não permite incluí-lo honestamente entre os que as “mass media” qualificam de reacionários, extremistas da intolerância, etc.
Ora, de onde procede essa dolorosa crise na Igreja? Sem dúvida, e em larga medida, de agentes do Leviatã comunista que, de fora da Cidade Santa, se empenham com esforço total em destruí-La. Mas uma pesquisa dos fatores dessa crise não seria lúcida nem proba se se limitasse a olhar para além dos muros d’Ela. Cumpre indagar se também entre os católicos – entre os leigos, bem entendido, mas também nas fileiras augustas da Sagrada Hierarquia – há propulsores de tal crise.
A pergunta pode surpreender a alguns... dia a dia menos numerosos. Não faltará ainda quem brade, alarmado, que ela é escandalosa, revolucionária, blasfema.
É explicável que a tais reações conduza a crassa ignorância religiosa em que estão imersos tantos fiéis neste triste ocaso do século XX. Na realidade, se conhecessem melhor a doutrina e a História da Igreja, a reação deles seria bem outra. A fim de evitar digressões doutrinárias, destinadas a aplacar tal estranheza, as quais se afastariam por demais do eixo central das presentes considerações, basta lembrar aqui um documento memorável, a instrução do Papa Adriano VI (1522-1523), lida pelo Núncio pontifício Francisco Chieregati aos Príncipes alemães reunidos em dieta, em Nuremberg, em 3 de janeiro de 1523. Transcreve largos trechos desse documento o historiador austríaco Ludwig Pastor em sua obra célebre “Geschichte der Papste” – História dos Papas. A conjuntura em que essa instrução foi ditada pelo Pontífice se insere na terrível crise protestante do século XVI, tão semelhante e ao mesmo tempo tão menos profunda do que a de nossos dias.[5]
Dessa instrução destacamos os seguintes tópicos:
“Deves (dirige-se o Pontífice ao Núncio Chieregati) dizer também que reconhecemos livremente haver Deus permitido esta perseguição a sua Igreja, por causa dos pecados dos homens, e especialmente dos Sacerdotes e Prelados, pois de certo não se encurtou a mão do Senhor para nos salvar; mas são nossos pecados que nos afastam d’Ele, de modo que não nos ouve as súplicas.
“A Sagrada Escritura anuncia claramente que os pecados do povo têm origem nos pecados dos sacerdotes, e por isto, como observa (São João) Crisóstomo, nosso Divino Salvador, quando quis purificar a enferma Jerusalém, dirigiu-se em primeiro lugar ao Templo, para repreender antes de tudo os pecados dos sacerdotes; e nisso imitou o bom médico, que cura a doença em sua raiz.
“Bem sabemos que, mesmo nesta Santa Sé, há já alguns anos vêm ocorrendo, muitas coisas dignas de repreensão; abusou-se das coisas eclesiásticas, quebrantaram-se os preceitos, chegou-se a tudo perverter. Assim, não é de espantar que a enfermidade se tenha propagado da cabeça aos membros, desde o Papa até aos Prelados.
“Nós todos, Prelados e Eclesiásticos, nos afastamos do caminho reto, e já há muito não há um que pratique o bem. Por isso devemos todos glorificar a Deus e nos humilharmos em sua presença; que cada um de nós considere por que caiu, e se julgue a si mesmo, ao invés de esperar a  justiça de Deus no dia de sua ira.
“Por isto (igualmente) deves tu prometer em nosso nome que estamos resolvidos a empregar toda a diligência a fim de que, em primeiro lugar, seja reformada a Cúria Romana, da qual talvez se tenham originado todos esses danos; e acontecerá que, assim como a enfermidade por aqui começou, também por aqui comece a saúde.
“Nós nos consideramos tanto mais obrigados a levar isto a bom termo, quanto todo o mundo deseja semelhante reforma.
“Porém não procuramos nossa dignidade pontifícia (o Papado que Adriano VI exerce), e de mais bom grado teríamos terminado na solidão da vida privada nossos dias; de bom grado teríamos recusado a tiara, e só o temor de Deus, a legitimidade da eleição e o perigo de um cisma nos determinaram a aceitar o supremo múnus pastoral. Em consequência, queremos exercê-lo não por ambição de mando, nem para enriquecer nossos parentes, mas para restituir à Santa Igreja, Esposa de Deus, sua antiga formosura, prestar auxílio aos oprimidos, elevar os varões sábios e virtuosos, e, genericamente, fazer tudo o que compete a um bom pastor e verdadeiro sucessor de São Pedro.
“Não obstante, que ninguém se surpreenda, se não corrigimos todos os abusos de um só golpe; pois as doenças estão profundamente enraizadas e são múltiplas; pelo que é preciso proceder passo a passo, e opor primeiramente os oportunos remédios aos danos mais graves e perigosos, para não perturbar ainda mais a fundo por meio de uma precipitada reforma de todas as coisas. Com razão diz Aristóteles que toda mudança repentina é muito perigosa para uma sociedade”.[6]
Quantos ensinamentos profundos há a deduzir dessas nobres e sábias considerações! Ninguém as pode tachar de irreverentes para com a Santa Igreja, de escandalosas, revolucionárias, blasfemas, como de bom grado o fariam certos católicos de vistas estreitas.
E quantos exemplos concretos haveria que citar em cada país da Cristandade contemporânea, em confirmação desses ensinamentos de Adriano VI!
Para não alongar demais essa triste lista, bastaria mencionar a desconcertante indolência – para dizer só isto  - de tantos Prelados católicos diante da exibição do filme blasfemo de Jean-Luc Godard, “Je vous salue Marie”. Indolência esta em que se assinalou de modo especial o Episcopado francês.[7]

A família, fator da crise do mundo contemporâneo

Contudo a responsabilidade pela crise da Igreja e do mundo não toca apenas ao Clero, mas à família. Responsabilidade por omissão, e também por ação.
Com efeito, incontáveis são hoje as famílias cujos membros professam e até praticam a religião católica mas que, tendo sem embargo horror a toda forma de sofrimento não só físico mas também moral, não querem abster-se dos prazeres corruptos deste século. Muitos membros delas se recusam normalmente a travar no seu íntimo a dura batalha contra os apetites desregrados, açulados de mil formas pelo estilo de vida contemporâneo. E, ademais, desejam com veemência cercar-se o mais possível de simpatia e consideração nos meios sociais a que respectivamente pertencem. O que só conseguirão se aceitarem largamente, e praticarem, as normas “morais” do neo-paganismo.
Daí decorre que, não havendo paz possível entre os filhos da luz e os das trevas, nem entre os filhos da Virgem e os da serpente[8], eles não tardam em notar no convívio social que serão incompreendidos, marginalizados e até caluniados, se se mantiverem fiéis à moral ensinada pela Igreja.
Em consequência, cederão à onda avassaladora da impiedade e da corrupção, pelo menos na medida em que seja indispensável para não perderem a benquerença geral.
Tal é a triste situação das pessoas e das famílias que, deixando-se arrastar pela pressão da sociedade neo-pagã contemporânea, capitulam e dobram os joelhos perante Belial. Árdua, e não raras vezes heroica, é a resistência que deve ser desenvolvida contra essa pressão pelas pessoas ou famílias que, recusando-se a dobrar vilmente os joelhos ante o ídolo, se mantém fiéis à lei de Deus.
Tivemos ocasião de o expor em outra obra, intitulada “Guerreiros da Virgem – a réplica da autenticidade: A TFP sem segredos”:
“Cet animal est très méchant; quand on l’attaque il se défend” (Este animal é muito mau: quando atacado, ele se defende) – diz uma canção  popular correntemente citada pelos franceses (La Menagère, 1868). Essa a estranha posição de certos críticos da TFP, que acham très méchant que sócios e cooperadores se afastem, por defesa da própria dignidade, dos ambientes em que são vilipendiados de modo desconcertante. Tanto mais desconcertante quando vivemos numa sociedade cada vez mais permissiva, na qual até o direito de cidadania para a homossexualidade encontra apaixonados propugnadores.
Ambientes que chegam a esse extremo não são raros, mas, felizmente, não constituem a regra geral. Sem embargo, ainda há outros fatores que tornam explicável que deles se afastem – em media maior ou menor, segundo as circunstâncias – sócios e cooperadores da TFP. E não só estes, como frequentemente os correspondentes da Sociedade esparsos pelo Brasil, em geral pais e mães de família que, por imperativo de consciência inegavelmente respeitável, intencionam firmemente manter-se na prática dos princípios da Moral tradicional da Igreja.
“Desta prática se afastou gradualmente , no decurso dos últimos vinte ou trinta anos, um impressionante número de ambientes sociais, nos quais os temas das conversas, as liberdades de trato entre os sexos, a televisão ligada de modo incessante, e difundindo tantas e tantas vezes cenas imorais, não podem deixar de entrar em dissonância profunda com a consciência de católicos não progressistas.
“Tais ambientes, em lugar de se adaptarem, na medida do necessário, às convicções e à sensibilidade moral dos católicos não progressistas, mantém em presença destes exatamente  o mesmo “tônus” em vigor se estes estivessem ausentes.
“Isto equivale a lhes dizer: “Vocês são uns atrasados, de idéias estreitas e modo de ser antipático. Para vocês, só há cidadania entre nós se consentirem em calcar aos pés os princípios morais que professam”.
“’Acolhidos’ assim, que podem fazer os católicos não aggionartti pelo progressismo?
“- Romper com a própria consciência? – Sofreriam merecidamente o desprezo mudo daqueles mesmos ante quem capitulassem.
“ – Protestar? – Desencadeariam com isto a indignação irada dos dominadores do ambiente, de onde se seguiriam discussões e rupturas. E, paradoxalmente, a fama de intolerantes ainda recairia sobre aqueles que o despotismo do espírito moderno não havia tolerado.
“ – Retirar-se? – Os arautos desse mesmo espírito os acusariam de ‘esquisitos’.
“Resultado dessa situação é que, em certo número de vezes, o melhor para o católico não aggionarto consista mesmo em manter-se à distância.
“Tudo quanto acaba de ser dito aqui, poucos têm a coragem de o afirmar em letra de forma, com tanta franqueza e tantos pormenores.
“Mas, de uma vez por todas, era preciso que fosse dito. E dito fica.” (PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit. Ed. Vera Cruz, S. Paulo, 1985,pp. 105 a 107).



(Texto extraído da obra “A TFP: UMA VOCAÇÃO, TFP E FAMÍLIAS, TFP E FAMÍLIAS NA CRISE ESPIRITUAL E TEMPORAL DO SÉCULO XX” – de João S. Clá Dias - Artpress – Papéis e Artes Gráficas Ltda, S. Paulo, fevereiro de 1986, vol. I, págs. XI/XXI do Prefácio, de autoria de Plínio Corrêa de Oliveira).



[1] Mt XII, 30
[2] Na alocução “Resistite fortes in fide”, de 19 de junho de 1972, Paulo VI afirma; (as palavras textuais do Pontífice são as citadas entre aspas no resumo da Alocução apresentado pela Poliglota): Referindo-se à situação da Igreja de hoje, o Santo Padre afirma ter a sensação de que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus”.  Há a dúvida, a incerteza, o complexo dos problemas, a inquietação, a insatisfação, o confronto. Não se confia mais na Igreja; confia-se no primeiro profeta profano (estranho à Igreja) que venha falar, por meio de algum jornal ou movimento social, a fim de correr atrás dele e perguntar-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida. E não nos damos conta de já a possuirmos e sermos mestre dela. Entrou a dúvida em nossas consciências, e entrou por janelas que deviam estar abertas à luz. Da ciência, que é feita para nos oferecer verdades que não afastam de Deus, mas nos fazem procurá-lo ainda mais, e ainda mais intensamente glorifica-lo, veio pelo contrário a crítica, veio a dúvida. Os cientistas são aqueles que mais pensada e dolorosamente curvam a fronte. E acabam por revelar: “Não sei, não sabemos, não podemos saber”. A escola torna-se um local de prática da confusão e de contradições, às vezes absurdas. Celebra-se o progresso para melhor poder demoli-lo com as mais estranhas e radicais revoluções, para negar tudo aquilo que se conquistou, para voltar a ser primitivos, depois de ter exaltado tanto os progressos do mundo moderno.
Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para  História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos afastamos sempre mais uns dos outros. Procuramos cavar abismos, em vez de soterrá-los.
Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. O seu nome é diabo, este misteriosos ser a que também alude São Paulo em sua Epístola (que o Pontífice comenta na Alocução).Tantas vezes, por outro lado, retorna no Evangelho, nos próprios lábios de Cristo, a menção a este inimigo dos homens. “Cremos – observa o Santo Padre – que alguma coisa de preternatural veio ao mundo justamente paraa perturbar, para sufocar os frutos do Concílio Ecumênico, e para impedir que a Igreja prorrompesse num hino de alegria por ter readquirido a plenitude da consciência de si”. (Insegnamenti de Paulo VI, Tipografia Poliglota Vaticana, vol. X, pp. 707 a 709).
[3] Em Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, em 7 de dezembro de 1968, disse Paulo VI:  “A Igreja atravessa hoje um momento de inquietude. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Mas posto que ‘bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu’, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que dela fazem parte. (Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglota Vaticana, vol. VI, p. 118 – as palavras não são textuais do Pontífice e sim do resumo que delas apresenta a Poliglota Vaticana)
[4] Em Alocução de 6 de fevereiro de 1981, aos Religiosos e Sacerdotes participantes do I Congresso nacional italiano sobre o tema Missões ao povo para os anos 80, João Paulo II assim descreve a desolação hoje reinante na Igreja: “É necessário admitir realisticamente e com profunda e sentida sensibilidade que os cristãos hoje, em grande parte, sentem-se pedidos, confusos, perplexos e até desiludidos: foram divulgadas prodigamente ideias contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia; imersos no ‘relativismo’ intelectual  moral e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetiva” (L’Osservatore Romano, 7-2-81).
[5] A corrupção era grande em Roma. Adriano VI não só apontava os males da Igreja, mas desejava uma reforma profunda que sanasse esses males, tendo-a começado por cima com decidida resolução.
Onde lhe foi possível, se opôs à acumulação de benefícios, proibiu toda a espécie de simonia, e velou solicitamente pela eleição de pessoas dignas para os cargos eclesiásticos, conseguindo as mais exatas informações sobre a idade, os costumes e a instrução dos candidatos, lutando com inexorável vigor contra os defeitos morais.
Com a radical reforma da Cúria Romana, empreendida por Adriano VI, não queria somente este nobre Papa pôr fim ao estado de coisas que lhe causava tão viva repugnância; mas esperava também, por este meio, tirar aos Estados alemães o pretexto para a sua apostasia de Roma, (Cfr. LUDOVICO PASTOR, História dos Papas, tomo IV, vol. IX).
[6] LUDOVICO PASTOR,”História de los Papas”, Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 1952, Tomo IV, vol. IX, pp. 107 a 109 / Imprima-se: El Vicario General José Palmarola, por mandato de Su Señoria, Lic. Salvador Carreras, Pbro., Scrio, Canc. – OS NEGRITOS não constam no original.
[7] Mons. Gaillot, Arcebispo de Evreux, concedeu entrevista a “L’Evénement du Jeudi” nos seguintes termos:
-“Suponho que o Sr. Não tenha ainda visto o filme “Je vous salue Marie”, de Jean-Luc Godadar.
- “Não, mas tenho desejo de vê-lo!”
- “A censura incide sobre esse filme porque nele se apresenta a Virgem nua. A interdição lhe parece legítima?
- “Eu tenho pouco desejo de que ele seja interditado. Dada a qualidade do cinema de Godard, parece-me interessante que ele tente exprimir o “Mistério” na sua arte. Eu não vi o filme, mas a priori não gostaria que ele fosse interditado nem que se fizesse uma gritaria escandalosa em torno dele”.
Cfr. Ainda o artigo “Escândalo na França: filme blasfemo elogiado até pelos que o deveriam imputnar”, publicado em “Catolicismo”, de maio de 1985.
[8] Vejam-se, a esse respeito, as seguintes frases de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim. Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque vós não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. Lembrai-vos daquela palavra que Eu vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se eles me perseguiram a Mim, também vos hão de perseguir a vós; se eles guardaram a minha palavra, também hão de guardar a vossa”  (Jo XV, 18-20).
“Eu disse-vos estas coisas para que vos não escandalizeis. Lançar-vos-ão fora das sinagogas; e virá tempo em que todo o que vos matar, julgar prestar serviço a Deus’ (Jo XVI, 1-2).
Veja-se, ainda, este trecho do célebre “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís Maria Grignion de Montfort. Nele o grande apóstolo marial comenta as palavras do Gênesis: “Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum, et tu insidiaberis calcâneo eius” (Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gn III, 15).
“Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. (...)
“Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede do orgulho”. (São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Vozes, Petrópolis, 7ª ed. pp. 54 a 57 / Imprimatur: por comissão especial do Exmo. E Revmo. Sr. Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra, Bispo de Petrópolis, Frei Desidério Kalverkamp, OFM, Petrópolis, 16-1-61).

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A HIERARQUIA CELESTE


São Dionísio, “O Areopagita”, foi convertido por São Paulo no Areópago de Atenas, na Grécia. Foi ele talvez o primeiro teólogo e filósofo que tenha tratado especificamente dos Santos Anjos num de seus livros. O conteúdo doutrinário desta obra deve ter sido haurido diretamente do Apóstolo São Paulo, de quem São Dionísio era discípulo, logo após o Apóstolo das Gentes haver tido o famoso êxtase que o levou até o terceiro céu. O titulo da obra é “De angelica Hierarchia“ (Da Hierarquia Angélica).
Segundo São Dionísio, nossa Sagrada Hierarquia foi estabelecida, por disposição divina, na imitação das hierarquias celestes. Para nós mortais, a hierarquia é vista exteriormente pela formosura, pelos símbolos, pelo que representa cada degrau, ou cada posto assumido na escala hierárquica. A formosura aparente é sinal de mistérios sublimes, pois nem sempre conseguimos entender perfeitamente o que significam aqueles símbolos ou aquelas pessoas em seus postos. Sentimos a presença, a beleza, e nossos sentidos procuram aquilo que se chama na teologia de o “bom odor”. O bom odor que sentimos manifesta a iluminação intelectual, isto é, nossa mente procura entender à sua maneira o que significa aquilo tudo. As diferentes disciplinas sagradas correspondem à imensa capacidade contemplativa da mente. As ordens e graus daqui de baixo simbolizam as harmoniosas relações do Reino de Deus. Nosso Senhor, Jesus Cristo, nos deu a conhecer a hierarquia celeste: instituiu o colégio ministerial de nossa própria hierarquia em imitação da celeste, enquanto humanamente é possível, em seu divino sacerdócio. Conforme Francisco Spirago “A hierarquia dos anjos funda-se na variedade dos dons e dos empregos conferidos por Deus; uns são destinados de preferência a louvar, outros a servir” .
Tudo indica que a classificação dos Santos Anjos em nove coros foi dada por São Paulo a São Dionísio, pois em sua obra “A Hierarquia Celeste” afirma a certa altura: “...meu glorioso mestre os classifica em três hierarquias de três ordens cada uma”. Em várias partes da obra, São Dionísio se reporta a São Paulo, de quem era discípulo, com a expressão “meu glorioso mestre”. Deduz-se que a doutrina angélica lhe foi transmitida por São Paulo após o êxtase em que o mesmo foi elevado até o terceiro céu.
No entanto, as denominações de algumas escalas hierárquicas já remontam ao Antigo Testamento. Logo após expulsar Adão e Eva do Paraíso, Deus colocou “diante do paraíso de delícias querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gên 3, 24). O Profeta Isaías é o primeiro e único que se refere aos Serafins, porque a Sagrada Escritura até então só cita os querubins como Anjos (Ex 25,18 e 28, 14-16; Ez 1,10 e 10,12; I Sam 4, 4; I Reis 6, 23-28 e 8, 6-7; Dan 3, 55; Sl 17, 11; Sl 79, 12; Sl 98, 1 e o próprio Isaías, em 37, 16). Os demais coros foram descritos no Novo Testamento, talvez porque isto foi revelado primeiro a São Paulo, este a São Dionísio, que por sua vez revelou-o à toda a Igreja.
Querubins
Segundo São Dionísio ouviu de São Paulo, o primeiro grupo está sempre em torno de Deus, constantemente unido a Ele. Compreende os Querubins, os Serafins e os Tronos. São os mais divinizados e os que recebem primeiro e mais diretamente as iluminações de Deus.
O nome “Querubim”, vem do hebraico (“querub”) que significa alto, grande, bendito, o que possui a plenitude de conhecimento ou é transbordante de sabedoria. São os seres mais elevados, mais próximos de Deus. Têm o poder para conhecer e ver a Deus, receber os melhores dons de sua luz, contemplar a divina formosura em toda a sua pureza, acolher em si a plenitude de dons portadores de sabedoria e reparti-los generosamente com os inferiores.
Serafins
O termo “Serafim” vem do grego, e quer dizer inflamado ou incandescente, fervoroso, que leva calor. O nome destas classes de Anjos é expressamente falado em Isaías (Is 6, 2-6), o único lugar na Bíblia onde eles são referidos. Significa também incessante movimento em torno das realidades divinas, calor permanente, ardor transbordante, em movimento contínuo, firme e estável. Têm o poder de purificar por meio da chama e raio luminoso, afugentar as trevas e qualquer sombra escurecedora.
Os demais coros angélicos são:
Tronos , Potestades, Dominações e Virtudes ,Principados, Arcanjos e Anjos
Os Anjos completam os nove coros angélicos, constituindo o grau inferior de todos eles. Dá-se o nome de Anjos a este grupo com preferência a outros, porquanto sua hierarquia é dos mais próximo de nós, através dos quais a Revelação chega até o nosso mundo. Como foi dito acima, a primeira hierarquia influi a segunda, e esta a terceira. O segundo coro angélico preside então os Principados, Arcanjos e Anjos, os quais, segundo seus distintos graus, presidem as hierarquias humanas a fim de que sejam elevadas a Deus. Assim, todas as hierarquias participam eqüitativamente das graças que bondosamente Deus lhes dá.
Comentando a obra de São Dionísio, São Boaventura diz que os Serafins possuem um amor contínuo, sumamente intenso, penetrativo, até o coração de Deus; dos Querubins, diz que recebem copiosamente, especulam clarissimamente, gozam alegremente daquela Luz divina; dos Tronos diz que são assento elevado, firme, estável, aberto para a recepção da mesma Luz. Fala-se dos Tronos para julgar e que neles se assenta a Deus, porque são diviníssimos e servilmente manifestam seu conselho pelo juízo; das Dominações diz que significam certa excelência em certa liberdade, e com isto possuem igualmente certo domínio sobre as almas; das Virtudes diz que representam eles “a Virtude”, porque representam esta potência como a que tem estabilidade em durar, fortaleza em resistir; das Potestades diz que foram feitos para executar, ordenar; dos Principados diz que foram feitos para guiar; dos Arcanjos, revelar, e, finalmente, dos simples Anjos, anunciar.
(“Obras de San Buenaventura” – BAC – vol. III – pp. 603/60).

domingo, 30 de agosto de 2015

O CATECISMO E A ESCOLÁSTICA ATRAVÉS DA HISTÓRIA




Nos primeiros séculos, a Igreja só tinha mestres semelhantes aos Apóstolos. Os catequistas eram seus doutores. Esta função divina de ensinar, de maneira simples e familiar, a Doutrina Cristã era a mesma que os bispos herdaram de Jesus Cristo; consideravam-na peculiar à sua qualidade de pais e pastores. Quando, com o aumento do número de fiéis, viram-se constrangidos pela força das circunstâncias a passar essa tarefa a outros, tiveram o cuidado de escolher, para tão nobre missão, os homens mais capacitados e virtuosos de sua igreja.
Os mais destacados doutores dos primeiros séculos da Igreja ufanaram-se da função de catequista e da preparação dos catecúmenos para o batismo.  São Cirilo, bispo de Jerusalém, Santo Ambrósio, arcebispo de Milão, São Gregório de Nissa e Santo Agostinho até compuseram livros, que ainda conservamos, para orientar os catequistas e ensinar-lhes o método de transmitirem os princípios da fé  às crianças e aos adultos que se preparavam para o batismo.
Na igreja de Alexandria funcionava uma célebre escola de catequistas para instruir os catecúmenos. Pantenus, São Clemente de Alexandria e Orígenes, que sucessivamente a dirigiram, deram à escola tanta fama, que para ela acorriam pessoas das mais longínquas regiões.  Nela, São Gregório Taumaturgo aprendeu os rudimentos da fé e fez progressos tais, que o tornaram célebre pelos séculos afora.
Entre as honrarias da Igreja de Constantinopla, o registro dos serviçais menciona a de catequista, cujas funções eram instruir o povo e todos os que abandonavam a heresia para retornar ao seio da Igreja Católica. Orígenes foi encarregado da doutrina aos catecúmenos já aos dezoito anos quando ainda era leigo.  Em Cartago, São Cipriano nomeou para o mesmo serviço um mestre de retórica chamado Optato.  Declara-o nestes termos: “Nomeamos Optato, um dos leitores, mestre dos catecúmenos”. Duzentos anos depois, o diácono Deogratias exercia idêntica função na mesma igreja, e foi a seu pedido que Santo Agostinho compôs o belo livro intitulado: “De catequizandis rudibus”[1]. Tudo isso comprova que se confiava essa tarefa ora a um diácono, ora a um sacerdote e, às vezes, até a um simples leigo e que, na seleção de catequistas, olhava-se menos a posição social da pessoas do que seus talentos, virtudes e dons particulares.
Isso continuou até que, tendo a maioria dos homens abraçado o cristianismo, a falta de catecúmenos fez desaparecer aos poucos a função de catequista. Em tal situação, os pais e as mães e, na falta deles, os padrinhos e as madrinhas assumiram o encargo de ensinar a doutrina às crianças. Ao mesmo tempo, os bispos fundaram escolas para instruir a juventude na religião e nas ciências humanas. A criação, nas igrejas catedrais, do título de “écolâtre”, ou chanceler, remonta àquela época. Os que eram investidos dessa dignidade deviam supervisionar as escolas primárias e tinham o direito de: nomear os mestres e as mestras de primeiras letras e dar-lhes posse; resolver e julgar eventuais divergências; e, elaborar estatutos e regulamentos para as escolas primárias e exigir-lhes exata observância.
Foi daí que surgiu a “Escolástica”. O termo “Escolástico” vem do latim “Scholasticus”, que designava o clérigo dirigente da escola vinculada à igreja catedral.  Na França medieval, a palavra latina foi deformada para “scolastre”, gerando o termo francês “Écolâtre”.  No início do Cristianismo era muito comum se determinar que alguém ensinasse o Catecismo, sendo depois regulamentada aquela função com a designação de um clérigo que, futuramente, ficou dirigindo a escola vinculada à igreja principal, ou catedral.  No decorrer dos anos, o termo foi evoluindo até tomar o significado que tem hoje: nome de um método de ensino utilizado nas escolas e universidades medievais a partir do século XI. Várias etapas compõem esse método. A primeira consiste em comentar e explicar os autores, isto é, os escritores considerados autoridades na matéria tratada. A isso chama-se “lectio”, na verdade uma exposição que começa com a análise do texto, de sua correção e significação. A seguir, uma discussão (“disputatio”), onde se estabelece a sentença, isto é, o ensinamento que se pode tirar do texto. A partir do momento em que esse texto é posto em questão, surge a terceira fase do método (‘questio”) na qual alunos e mestres apresentam a conclusão do que examinaram (“determinatio”), sempre dirigida pelo professor. Então, “lectio”, “disputatio”, “questio”, e “determinatio” formam o caminho percorrido pela Escolástica para se chegar á Verdade, que seria a “conclusio”.  Duas vezes por ano, os professores organizavam uma reunião chamada “quodlibet”, em que propunham o debate de um tema sugerido por qualquer pessoa presente. A Escolástica tornou-se, com o tempo, o nome que sintetiza as doutrinas teológicas e filosóficas dominantes na Idade Média, cujo cume foi atingido com o Tomismo.
A maioria dos concílios medievais, notadamente os de Châlons-sur-Saône (813), Aix-la-Chapelle (816), Paris (829), Meaux (845), Troflé (909), e Latrão (1179 a 1198), recomendavam encarecidamente a fundação de escolas e obrigaram os párocos a ensinarem o catecismo ao povo.
Apesar do empenho da Igreja, ainda havia muita ignorância religiosa.  Jean Charlier, conhecido como Jean de Gerson, ou simplesmente como Gerson, (1363-1429) famoso reitor da Universidade de Paris e teólogo notável, teve que escrever um livro , “Traité du zèle pour attirer les petits enfants à Jésus-Christ” (Tratado do zelo para levar as criancinhas à Jesus Cristo), com objetivo de catequizar as crianças.  Ele próprio, reitor e teólogo de fama, exerceu as funções de catequista em Lion, tendo por isto sido julgado como pessoa de mente fraca.
Anos depois, o Concílio de Trento promulgava vários decretos cujos objetivos eram a catequese.  Num deles cada vigário era obrigado a dar o catecismo às crianças, aos domingos e dias de festa. Numerosos concílios provinciais confirmaram e publicaram os decretos do Concílio de Trento, obrigando por sua vez seus pastores a serem catequistas de suas paróquias. Na Itália, São Carlos Borromeu foi o primeiro a apoiar a medida, ordenando inclusive que as crianças fossem chamadas ao catecismo pelo toque do sino.
Nos dias atuais a catequese (dar aulas de catecismo) é função quase exclusiva dos leigos, havendo pouquíssima (ou quase nula) participação de sacerdotes ou religiosos de modo geral nesta sublime missão. Da mesma forma, o catecismo dedicado às crianças não sofreu substanciais modificações didáticas, sendo que a última data ainda do tempo de São Pio X. João Paulo II autorizou a atualização do Catecismo da Doutrina Cristã, mas não é voltado inteiramente para crianças e sim para pessoas já instruídas e adultas.










[1] Catequese para o povo simples

terça-feira, 21 de julho de 2015

Nosso Senhor Jesus Cristo praticou os mais excelentes atos de amor



O Reino de Cristo é o reino do amor. São Francisco de Sales escreveu talvez a mais completa obra que trata do amor de Deus. E nela consta a forma como Nosso Senhor praticou os mais excelentes atos de amor, realçando que neles estava o cerne de sua regência sobre os homens:

“1º. – Amou-nos com amor de complacência, porque cifrou as suas delícias em estar com os filhos dos homens (Prov. 8, 31) e atrair o homem a si, fazendo-se homem como ele.
2º. – Amou-nos com amor de benevolência, derramando a própria Divindade no homem, elevando o homem até Deus.
3º. – Uniu-se a nós por uma incompreensível conjunção, aderindo e ligando-se à natureza tão fortemente, indissoluvelmente e infinitamente, que coisa alguma foi jamais tão unida e ligada à humanidade, como o é agora a augustíssima Divindade na pessoa do Filho de Deus.
4º. – Derramou-se todo em nós, e por assim dizer, abismou a sua grandeza, para a reduzir às mesquinhas proporções da nossa pequenez; por isso se chamou “fonte de água viva” (Jer. 2, 13), orvalho e chuva do Céu (Is. 45, 8).
5º. – Esteve em êxtase, não só, diz São Dinis, em virtude do excesso de sua amorosa bondade, que o arrebatou para fora de si, estendendo a sua Providência a todas as coisas e encontrando-se em todas as coisas, mas também porque, como diz São Paulo (Fil. 2, 7), Jesus esqueceu-se de si, abstraiu-se de si, despojou-se da própria grandeza, da sua glória, apeou-se do trono da sua incompreensível majestade, e se é mister tal expressão, “aniquilou-se”, para descer até à nossa humanidade e encher de sua Divindade o nosso ser, saciar-nos de sua bondade suprema, elevar-nos à sua dignidade, e dar-nos a divina natureza de  “filhos de Deus”.
“E Aquele de quem se escreveu tantas.vezes: “Eu vivo em mim, disse o Senhor” pode depois dizer na linguagem de seu Apóstolo: “Eu vivo, mas não sou eu mesmo que vivo, é o homem que vive em mim (Gal 2, 20); A minha vida é o homem, e morrer por ele é o meu lucro (Fil 1, 21); A minha vida oculta-se com o homem em Deus (Col. 3,3(.
“Aquele que antes habitava em si, habita agora em nós, e O que viveu durante a sucessão dos séculos no “seio do seu eterno Pai” (Jo 1, 8), vestiu-se da mortalidade no seio de sua Mãe temporal; Aquele que vivia eternamente da existência divina, viveu temporariamente da vida humana, e Aquele que nunca, eternamente, deixara de ser Deus, será, perpetuamente também, homem, de tal modo o amor do homem o arrebatou e elevou ao êxtase!
6º. – Admirou muitas vezes por dileção, como fez com o Centurião (Mt 8, 10) e a Cananéia (Mt 15, 28).
7º. – Atentou no jovem que até então observara os mandamentos e desejava adianta-se na perfeição (Mc 10, 21).
8º. – Descansou amorosamente em nós, e até com suspensão de sentidos no ventre de sua puríssima Mãe, e durante a sua infância.
9º. – Teve incomparáveis ternuras para as criancinhas, que abraçava, acalentando-as com amor (Mc 10, 16); para Marta e Madalena (Jo 11, 5), para Lázaro, por quem chorou (Jo 35, 36), como pela cidade de Jerusalém (Lc 19, 41).
10º. – Animou-se de incomparável zelo, que, como diz São Dionísio, se converteu em ciúme, desviando, enquanto nele habitou, todo o mal da sua muito amada natureza humana, com perigo e à custa da própria vida; afugentando o diabo, “rei do mundo” (Jo 16, 30), que parecia ser seu rival e companheiro.
11º. – Teve milhares de amorosos desfalecimentos; pois de que procederiam aquelas divinas palavras: “Eu hei de ser batizado com batismo de sangue; e como me sinto angustiado e ansioso por que ele se realize?” (Lc 12, 50).  Ainda se não aproximava a hora em que havia de ser batizado no próprio sangue e já suspirava por sê-lo, porque o amor que nos tinha O obrigava a livrar-nos da morte eterna, à custa da própria vida.
“Por isso esteve triste  e suou o sangue da agonia no Jardim das Oliveiras (Mt 26, 37-38), não só em virtude da extrema dor, que a sua alma sentia na parte inferior da razão, mas pelo supremo amor que nos dedicava na parte superior dela: a dor dava-lhe o horror da morte e o amor um extraordinário desejo de a consumar. De modo que se lhe travou no espírito um combate rude e uma cruel agonia se manifestou entre o desejo e o horror da morte, até à grande efusão do sangue, que correu como fonte de água viva, jorrando pelo solo.
12º. – Enfim, Teotimo, este divino Amante morreu no meio das chamas e ardores da dileção, pela caridade que tinha por nós e pela força e virtude do amor, isto é, morreu amando, morreu por amor e de amor.
“Posto que aqueles cruéis suplícios bastassem para fazer morrer quem quer que fosse, não podia contudo a morte penetrar na vida dAquele que tem as chaves de ambas (Apoc 1, 18) se o divino amor, que governa e maneja essas chaves, não  abrisse as portas à morte, para esta poder lançar-se sobre aquele divino corpo e arrebatar-lhe a vida. O amor não se contentaria com o fazer mortal por nós se lhe não desse a morte.
“Foi por eleição, e não por força do mal, que Ele morreu: “Ninguém me tira a vida”  (Jo 10, 17-18), disse ele, “sou eu que a deixo e a tiro a mim mesmo; tenho o poder de a deixar e de a reaver quando quiser. Ofereceu-se, diz Isaías (Is 53, 7) porque quis.
“Não se diz, portanto, que o seu espírito voou, deixando-O e separando-se d’Ele; mas ao contrário, que Ele despediu o seu espírito, soltou-o e entregou-o e pô-lo nas mãos de seu Eterno Pai (Mt 27, 50); tanto que Santo Atanásio nota que Ele abaixou a cabeça para morrer, consentindo e facilitando a vinda da morte, que, de outro modo, não ousaria aproximar-se-lhe, e soltando um grande grito, entregou o seu espírito a seu Pai (Lc 23, 46), para provar que assim como tinha força e alento para não morrer, também tinha suficiente amor para não poder viver, sem fazer ressuscitar com a sua morte aqueles que, sem isso, não podiam jamais evitar a morte, nem aspirar à verdadeira vida.
“Foi, portanto, o sacrificador da própria existência, foi quem ofereceu a seu Pai, e se imolou por amor, ao amor, para o amor, pelo amor e de amor.
“Não podemos no entanto afirmar que esta amorosa morte do Salvador se verificasse à maneira de arrebatamento, porque o objeto pelo qual a sua caridade o levou à morte não era tão amável que pudesse arrebatar para si aquela divina alma, que saiu do corpo a modo de êxtase, impelida pela afluência e força do amor.
“À semelhança da mirra, que expele o primeiro  licor, pela sua grande abundância, sem que ninguém o lance fora, nem o tire, também o mesmo Jesus, como já expliquei, disse: “Ninguém me tirou nem arrebatou a alma; fui eu que voluntariamente a dei.
“Ah!  Senhor, que extraordinário incentivo para nos entusiasmardes nos exercícios do santo amor ao Salvador divino, que é tão bom, o vermos que Jesus os praticou com tão excessivo amor por nós, que somos tão maus!
“Vês, Teotimo, como a caridade de Jesus Cristo nos obriga?”  (II Cor 5, 14).


(Tratado do Amor de Deus – São Francisco de Sales – Livraria Apostolado da Imprensa, págs. 489/493)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, OBSESSÃO ESQUERDISTA




O tema da “teoria da conspiração” apaixona certa parcela da opinião pública; qual é a razão? É que o homem tem fascínio por tudo o que envolve mistérios, sendo que toda conspiração envolve segredos e mistérios. Muitos têm grande apetência para saber como andam os meandros reservados ou secretos da política e do poder, aguçando a curiosidade para perscrutar o que ocorre nas tramas e nas conversas de pé de ouvido.
De outro lado, a Revolução tem interesse em suscitar o gosto pela “teoria da conspiração” porque esta alimenta a idéia de um estado “todo poderoso” e onipresente, sabedor de tudo, conhecedor da vida particular dos cidadãos e capaz de reger os rumos políticos dos povos, sempre de uma forma reservada, secreta. Serve também para alimentar o ódio contra as grandes potências, como os EUA, e assim justificar governos despóticos e comunistas como o de Cuba.
O filme lançado, com o título de “Conspiracy Theory”, embora com um enredo romanceado, já trazia esta idéia conspiratória, além de uma infinidade de contos e romances publicados com a mesma intenção. As verdadeiras conspirações ou espionagens já ocorridas serviram para alimentar o assunto na mente das pessoas.
Os casos mais badalados de “conspirações”, no mundo e no Brasil, são frutos de meras fantasias, embora alguns possam ter algo de crível por causa de certas coincidências ou fatos comprometedores. É o caso, por exemplo, dos atentados contra as torres gêmeas do “World Trade Center”: houve uma forte corrente alegando que os judeus sabiam dos atentados, ou até o promoveram com fins conspiratórios, fato consumado pela constatação de que todos eles haviam abandonado os prédios antes dos ataques. Um dos casos mais rumorosos, nos Estados Unidos, ocorreu na década de 60 a propósito do assassinato de Kennedy, este caso, sim, fruto de alguma conspiração verdadeira. Mas, as versões foram as mais estapafúrdias e divergentes, chegando a criar uma grande confusão de teses sobre o caso.  Na Europa, correu a versão, também fantasiosa, de que a princesa Diana havia sido assassinada. Na América Latina, os governantes de esquerda vivem inventando coisas absurdas sobre os americanos, como aquela do Evo Morales acusá-los de ter envenenado Hugo Chávez . Não há um só grupo de esquerda que não acredite que a CIA está presente em todo golpe de estado.
Por último, a mídia andou se deliciando com as revelações postadas, a partir da Rússia, pelo espião americano que possuía enorme acervo de documentos secretos da CIA. Até hoje tais informes tem sido prato cheio para as miragens da “teoria de conspiração” em todo o mundo. Será que a Alemanha, a Inglaterra, a França, e a própria Rússia, por exemplo, não possuem também um serviço secreto que anda bisbilhotando a vida dos cidadãos de outros países? O próprio Brasil possui um serviço de informação, que, provavelmente, anda por outros países colhendo informações de nosso interesse. Trata-se, portanto, de uma prática da política do mundo moderno, que não é exclusiva dos eternos conspiradores americanos.
O “affaire” da espionagem americana no Brasil, ocorrido no ano passado, com a reação intempestiva e barulhenta do nosso governo, se assemelha a lances do passado em que governos fracos se mostram perseguidos pelos mais fortes para com isso ganhar a opinião de seus eleitores. Será que a acusação de espionagem feita ao governo americano foi suficiente para causar uma reação de patriotismo no povo brasileiro, e com isso justificar o voto no partido do governo? Tal espionagem não se circunscreve aos membros do governo, havendo acusações de que os americanos espionaram também a Petrobrás. É preciso diversificar as acusações, pois as “teorias de conspiração” imaginam também lances de espionagens econômicas e financeiras, com fins de ampliação do “império” financeiro no mundo.
Nossa diplomacia mais parece formada por amadores perante lances internacionais, como o do Panamá, do Paraguai, do senador boliviano, e, depois, este da espionagem. Fica patente a todos que os diplomatas brasileiros só visam proteger a imagem do partido do governo, porque agem mais por  ideologia e se esquecem que estão inseridos num contexto internacional de um jogo político mais abrangente. O que mais teme o atual governo da aludida espionagem:
a)    Descoberta de planos do PT para permanecer no poder;
b)    Ligações internacionais com outros grupos de esquerda e com Fidel e as FARCs;
c)    Revelações de tramas das esquerdas, talvez nascidas no chamado “Forum de São Paulo”, um centro irradiador de seus planos para a América Latina.
Mas, algumas luzes andam já esclarecendo um pouco a questão. Na realidade, o uso do tema para acusar os Estados Unidos de espionagem esconde uma trama para encobrir as tramas das esquerdas no poder, e servem também para tentar desviar a opinião pública de outros problemas candentes da política atual.
Teoria da conspiração em território brasileiro

Das elucubrações mirabolantes que partem dessa idéia conspiratória é que surgiram os seguintes boatos circulados pela esquerda nacional:
1)    O ex-presidente Castelo Branco teria sido vítima de um atentado quando seu avião foi atingido por um outro no Ceará, vindo a falecer em seguida. Ora, o jato que atingiu o pequeno avião onde viajava Castelo Branco era avião de treinamento, pilotado por um cadete ainda não brevetado pela FAB, que, estando em vôo de treinamento, voltava para a base porque enfrentava problemas de ordem técnica. Imagine agora o leitor como é que um cadete, aprendendo a pilotar, dirige seu avião a jato, com velocidade em torno de 600 km por hora, e o faz passar roçando na cauda de um monomotor de passageiros, derrubando-o, e em seguida continua sua viagem e pousa tranquilamente na base militar. Só uma mente doentia pode imaginar que isso pode ter sido algo premeditado e fazendo parte de uma conspiração contra a vida do grande general Castelo.
2)    Juscelino Kubicheck também morreu vítima de acidente, quando o automóvel em que viajava foi atingido por um caminhão entre Rio e São Paulo. O caminhão saiu de sua mão e invadiu a pista contrária, indo se chocar contra o carro em que viajava o ex-presidente. Durante vários anos a esquerda afirmou que o acidente foi um atentado, alguns diziam até que dirigido ou programado por americanos. Até que ponto chegou a mente possuída por essa teoria da conspiração. Chegou-se até a abrir processos criminais para apurar tal denúncia, nunca comprovada porque, na realidade, tudo não passou de uma fatalidade. Ainda recentemente o motorista do caminhão, que ainda vive, andou prestando depoimentos sobre essa suposta conspiração. Mas, mesmo perante uma realidade tão óbvia um movimento criado em São Paulo, chamado Comissão da Verdade Vladimir Herzog, concluiu em 2013 que aquele político morreu assassinado vítima de um complô.
3)    João Goulart é outro ex-presidente que ainda hoje acusam de ter sido  assassinado, nesse caso com veneno. Morreu de enfarte, no Uruguai, conforme atestados médicos da época. De tal forma a idéia esdrúxula de conspiração e atentado perseguiu a mente de políticos de esquerda que chegaram a conseguir da justiça autorização para exumar o corpo, ocorridos mais de 40 anos de sua morte. Nem é preciso dizer no que deu: constatou-se que a teoria de conspiração, mais uma vez, era fútil e sem lógica. O homem, realmente, havia morrido de mal do coração.
Um lance grotesco desta teoria conspiratório é a afirmação simplória de que os EUA participaram ativamente de vários golpes militares na América Latina, especialmente o que houve no Brasil em 1964 e o do Chile em 1970. E para apimentar mais ainda a teoria, resolverem eles agora vir a público com vários documentos reservados (dizem que é secreto, mas há diferença entre secreto e reservado) a respeito do golpe de 64 no Brasil.
Em sua recente viagem aos Estados Unidos, a nossa presidente levou uma bagagem pobre em negociações diplomáticas com a nação mais rica da terra: uma de suas barganhas foi conseguir que os americanos liberassem alguns documentos da década de 1970. Trata-se de um acervo de cerca de 500 documentos que o atual governo americano não considera que sejam secretos e foram entregues às autoridades brasileiras. Com que finalidade? Não se trata, como dizem, de fazer história, porque esta já foi feita e documentada. Trata-se apenas de alimentar a turbulenta e ridícula “Comissão da Verdade” com mais dados para sua campanha de teorias conspiratórias. Será que um governo estrangeiro vai possuir documentos mais confiáveis do que os nossos? Admitir isso seria acreditar num poder quase absoluto sobre bisbilhotice em assuntos internos de um país. Enfim, tudo aquilo que os americanos ficaram sabendo sobre o assunto já havia passado pelas mãos de nossa polícia ou autoridades que comandavam a repressão. Afirmar que participavam de alguma forma dessa repressão é um disparate, e não vi ainda nenhuma voz autorizada da esquerda afirmar tal aleivosia.
Os primeiros documentos já veiculados pela mídia dizem respeito a informações privilegiadas que supostamente o governo americano teria tido acesso a respeito de presos políticos perseguidos pela ditadura. Um telegrama diplomático sobre o paradeiro do ex-deputado Rubens Paiva; um outro sobre um militante de esquerda chamado Virgílio Gomes da Silva;  e um terceiro sobre Stuart Edgar Angel Gomes, são os primeiros documentos que começam a circular pelos jornais alimentando as teses conspiratórias da esquerda.
Ao comentar tais documentos, elementos de esquerda (assoberbados pela teoria da conspiração nem analisam com precisão tais documentos) fazem acusações superficiais e sem analisar o problema com mais segurança e profundidade.
Ora, toda embaixada tem acesso a certas informações reservadas sobre o país onde se estabeleceu. Estas informações geralmente o embaixador consegue junto à própria imprensa. Há também informes conseguidos com as autoridades de segurança daquele país ou com o seu serviço secreto, mas, geralmente estas últimas não passam pela embaixada. Nem é necessário, pois assuntos de espionagens são exclusivos das agências e não das embaixadas. Então todos os telegramas que a embaixada americana mantinha reservados a respeito da revolução de 64 no Brasil certamente, em sua maioria, eram colhidas pelos funcionários junto à própria mídia nacional, que trazia a público tudo o que ocorria. E por que eram reservados? Porque continham assuntos de natureza política interna de um país estrangeiro, sobre os quais eles não poderiam tecer comentários ou críticas.
Supondo que poderiam ter também informações do serviço secreto a respeito do Brasil, e não somente da embaixada, os comentaristas de esquerda não fazem distinção, nem tampouco se as informações contidas nos telegramas ou documentos internos já eram do conhecimento do público nacional quando foram exarados. Porque não lhes interessa tal distinção, não lhes interessa informar o público toda a realidade, mas simplesmente pregar a todos que os americanos foram, são e continuam sendo conspiradores. Certamente que há conspirações por aqui e por lá, mas não existem outras conspirações que merecem também ser ressaltadas como, por exemplo, a dos comunistas?
Há um ponto também sobre o qual as esquerdas calam sistematicamente. Se houve conspiração é claro que houve, mas uma conspiração nacional, feita por nossos militares. No entanto, tal conspiração foi feita para atender os reclamos da população que pedia uma urgente intervenção no governo Goulart, o qual levava o Brasil para o despenhadeiro de uma catástrofe socialista como já vinha ocorrendo em vários outros países. E as esquerdas calam sobre isso, nada falam sobre a insatisfação popular contra o governo comuno-socialista de Goulart. Assim como, nos dias atuais, da mesma forma também alardeiam que desejar secundar os anseios da maioria da população de destituir o atual governo é “golpe”. Acusam políticos da oposição de conspiração, de tentarem um golpe, porque pretendem mudança de governo. Não alardeiam por aí que a mudança de governo é salutar para a democracia?  Que democracia é essa nossa que prevê que o povo tem o direito de eleger um político mas não o de tirá-lo do cargo? E se o povo o deseja por que não atender seus anseios?
No caso de 1964, seria normal que numa conspiração inteiramente nossa os militares pedissem alguma ajuda exterior. O que não significa que a conspiração partiu de fora, mas sim internamente. Alguns porta-vozes destas teses conspiratórias afirmam que os EUA mantinham uma frota armada, pronta para intervir militarmente no Brasil, caso o golpe de 64 se frustrasse. Ora, em qualquer parte do globo que há convulsões políticas de relevo os EUA sempre montam um esquema militar de prontidão caso se necessite atuar, e isso já ocorreu muitas vezes em várias partes do mundo. E uma das justificativas deles é que precisam proteger seus cidadãos naqueles países envolvidos em conflitos, o que é natural. Daí a afirmar que poderiam intervir com armas é uma ilação ridícula e sem cabimento.

Esta seria uma coisa a ressaltar: em que ponto a teoria da conspiração seria legítima no caso brasileiro? Não tem qualquer sentido as aleivosias esquerdistas de que os americanos, eternos conspiradores, foram os responsáveis por mais essa. Tomar conhecimento de prisões e torturas qualquer um tomava, o que não quer dizer com isso que tinha comprometimento com tais fatos.