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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

NO QUE CONSISTE A VOCAÇÃO DOS DISCÍPULOS DE DR. PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA

 




RELAÇÃO COM A CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA SEGUNDO SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT

(Pergunta: Nós do grupo “Regina Cordium” tivemos um simpósio na sede “Acies Ordinata” onde nos foi mostrada a vocação da TFP. O nosso grupo se  prepara para fazer a consagração a Nossa Senhora, segundo o método de São Luis Grignion de Montfort. Então, pedimos que o Sr. nos mostre a relação que há entre a vocação da TFP e o “Tratado da Verdadeira Devoção” de São Luis Grignion.)

Está muito bem escolhido o tema.

A nossa vocação propriamente qual é? Este é o primeiro ponto. Depois, a relação que ela tem com Nossa Senhora.

A TFP tem uma vocação especial baseada num ponto de História.

Há duas sociedades perfeitas vivendo juntas, a bem dizer uma na outra, a segunda na primeira: a Igreja e o Estado. Por exemplo, podemos dizer: a Igreja vive no Brasil. É verdade. Ela não vive só no Brasil, mas também vive no Brasil. Graças a Deus este juízo é verdadeiro.

E se se disser: “O Brasil vive na Igreja”? A Santa Igreja Católica Apostólica Romana é imensamente mais ampla, em todos os sentidos da palavra, do que o Brasil. Todavia, o nosso País é uma nação que vive dentro da Igreja Católica, porque a grande maioria de seus membros fazem parte d'Ela. É mesmo a nação de maior população católica da Terra. Desta forma, a primeira vive na segunda, e a segunda vive dentro da primeira.

Fisicamente, não se pode compreender... Esta água está contida neste copo, mas este não está presente dentro da água. Espiritual e temporalmente falando, no caso citado em primeiro lugar (o Brasil está contido na Igreja e a Igreja vive no Brasil), a sentença é verdadeira.

Uma vez que esta nação e a Igreja Católica estão tão ligadas, é forçoso que esse embricamento se defina em termos de convívio: a Igreja convive com o Brasil; o Brasil convive com a Igreja.

Tudo aquilo que convive se co-influencia. Um ser vivo junto de outro ser vivo influenciam-se.

 

A influência recíproca inevitável: parábola do beluchistanês 

Imaginem um fato inteiramente anormal, mas que, afinal, pode ocorrer.

Num aeroporto, o tempo está ruim. Os passageiros não estão com vontade de viajar naquelas condições meteorológicas e o comandante do avião comunica que entre eles, passageiros daquele voo, há um personagem muito importante, o qual necessita viajar imediatamente; os que quiserem arriscar-se, podem embarcar e o avião decolará logo.

Verifica-se que a pessoa mencionada pelo comandante é o embaixador do Beluchistão no Brasil. Depois de alguns momentos, dirige-se ao guichê de embarque um brasileiro que - sabe-se - não vai para o Beluchistão, mas sim para uma ilha do Pacífico. Lá, o avião fará escala e o embaixador rumará até o seu destino.

Os dois passageiros olham-se com fisionomias meio arrevesadas: "Quem será esse homem do Beluchistão com quem vou viajar? Onde fica tal país? Que negócios terá? Em que encrenca vou me meter, num avião que irá corcoveando por ares pouco conhecidos? Pode haver de tudo!"

O beluchistanês, um diplomata – um pouco mais habituado a dominar-se – olha de soslaio para o seu companheiro de viagem, e acha que é necessário trocar um cumprimento. O brasileiro mostra-se um tanto ou quanto assustado. E sentam-se em pontos extremos do avião. Até a hora deste último descer na ilha do Pacífico, os dois estarão dentro do avião.

Quando o avião fizer escala na ilha, o brasileiro descerá, a porta será batida atrás dele, e os dois viajantes nunca mais se verão. O brasileiro nunca mais pensará no Beluchistão; o beluchistanês irá com a sua cabeça cheia de seus próprios negócios, e não pensará mais naquele brasileiro. Um fato ficou consumado: apenas dormiram uma noite naquele avião, cada um numa ponta; não trocaram uma palavra, não se olharam mais.

Vamos dizer que estejam ambos acordados, quando raia a manhã. Ouve-se um blim-blim! nos alto-falantes de bordo, e uma voz diz: "Bom dia, senhores passageiros... São 7 horas da manhã. Sobrevoamos o Oceano Pacífico. Estamos a 10 mil metros de altitude! Daqui a pouco passaremos ao largo do famoso quadrilátero das voragens. Qualquer aeronave que nele penetre, fica sujeita a um rodopio e ser deglutida pelo mar. Tenhamos alegria, porque a alegria evita as desgraças – nada de oração. Façamos cara de contentes! Vamos ouvir a última música do conjunto tal..." E se desata uma canção imbecil pelo avião...

Durante todo o tempo da viagem, sem se aperceberem disso, um passageiro influenciou o outro. Por que? Porque o convívio influencia. De um modo ou de outro influencia, ainda que seja pela reação. Ao encontrar um tipo muito esquisito, no avião, embora não trocando uma palavra com ele, um pensa: "Mas que tipo arrevesado este"... E o outro pensará o mesmo do primeiro. Assim, vão-se elaborando antipatias ou simpatias recíprocas, que serão a marca que o convívio deixará nos viajantes.

 

Influência recíproca Igreja-Estado 

Logo, a Igreja, cumprindo a Sua divina missão, influencia a sociedade civil. Não se pode negar isso. Também é verdade que a sociedade civil, cumprindo a sua missão natural, por ricochete, influencia a Igreja. É próprio à sociedade civil, no plano terreno (portanto mais baixo), proporcionar por exemplo cultura, instrução, um linguajar próprio, um modo de ser aos que habitam em um país. Tanto é assim que cada país tem uma linguagem própria, um feitio psicológico peculiar que lhe é comunicado pela sociedade civil.

As pessoas embebidas dessas circunstâncias, comunicadas pela sociedade civil, viverão de um certo modo que, em si, pode ou não ter algo de bom: é neutro. A Igreja vai alterar esse modo de ser? Não. Ela aceita tal como  está, mas instila nesse modo de ser a graça de Deus.

Para falar em termos brasileiros: considerem um nordestino loquaz. Ou  um mineiro sagaz que acha que conversa com mais de dois é comício: é preciso falar pouco porque – de repente – sai o que não se quer; ao falar, mais vale fazê-lo no ouvido outro, porque quem sabe um outro escuta a conversa...  Ou então um paulista, com jeito de superioridade e de organizar a vida com uma certa grandeza. Ou um carioca cheio de charme, graça, amável etc. E daí em diante... Podem ir até o Rio Grande do Sul com seus heroicos cavaleiros dos pampas. Cada um tem um modo de ser que é próprio. Isto não tem nada de mau ou de bom, em si. A influência da Igreja se exerce sobre aquele local, indivíduo, ou conjunto de indivíduos que constituem um Estado, para que aquele modo de ser seja bem exercido, de acordo com os Mandamentos da Lei de Deus, da Igreja e da moral católica etc. A Igreja pega o fato consumado e torneia-o assim.

O lazer. Quantos povos têm lazeres diferentes! Não vou entrar aqui em pormenores também. Lembro-me de um povo que é tão silencioso que lhe apraz, aos Domingos, trancar-se no quarto com uma garrafa de uma bebida alcoólica qualquer, beber e dormir. Não garanto que seja sempre conforme a virtude da temperança, e que não entre o pecado da gula pelo meio... Enfim... Beber e dormir, sem ter amolação com ninguém, porque o que se gosta é ficar quieto.

Não é o feitio do brasileiro. Se alguém lhe for propor ficar o domingo no quarto deitado, com ou sem garrafa, ele não gosta. Precisa de conversar...

Poderíamos dar exemplos sem conta. Mas tanto o brasileiro quanto o da tal nação silenciosa – assim como outros povos – entram na Igreja. O conjunto dos povos, num certo sentido da palavra, influenciam a Igreja. Ou seja, Ela vai dizer e ensinar como uma boa mãe. E sendo Ela continuamente uma boa mãe,  adapta o seu modo de tratar de acordo com cada filho. Assim faz a Igreja com cada nação.

Então, a sociedade civil exerce sua influência também sobre a Igreja. São influências exercidas de maneiras diferentes, de naturezas diversas, mas são exercidas.

No passado, antes da Idade Média em geral, as lutas contra a Igreja – heresias, cismas e perseguições – partiam de uma reação da sociedade civil, que não queria aceitar a Igreja como era; ou partiam de uma luta, dentro da Igreja, de gente que não desejava sair d'Ela, mas pretendia professar uma doutrina diferente, sobretudo praticar uma moral relaxada, quando a Moral da Igreja é ilibada, perfeita e não comporta nenhuma espécie de relaxamento.

 

A crise atual na Igreja 

Na crise contemporânea, como nós estamos? A crise começou na sociedade civil e desta última penetrou na Igreja? Ou foi o contrário? Foram hereges e cismáticos, dentro d'Ela, que influenciaram a sociedade civil?

 A resposta é a seguinte: no caso da sociedade contemporânea, a crise veio da sociedade civil e entrou na Igreja, porque não encontrou da parte dos católicos, que deveriam ter resistido, a reação necessária. Não encontrou  vigilância, de maneira que os erros se expandiram dentro d'Ela, sem que muitos percebessem que estavam entrando... Nem percebiam claramente que eram erros. Assim se espalhou. Depois, quando foram reagir, já era tarde. Aí estralou uma heresia e uma revolução.

No caso concreto, a crise atual da Igreja, como a crise das três  Revoluçõesda qual a crise contemporânea na Igreja é uma parte ou uma ramificação delasnasceram com o Humanismo, a Renascença e todas elas são oriundas da sociedade civil. Tais erros contaminaram a Igreja, donde brotou o Protestantismo, que é um erro religioso. E daí todo o resto emanou.

Aliás, o livro Como ruiu a cristandade medieval?[1] é muito documentado. Vale a pena os senhores o lerem. Fica provado que houve um começo de erro na sociedade civil, de onde proveio a desordem.

 

Nossa vocação consiste em agir no foco de onde partiu o erro 

Nossa vocação qual é? É agir no foco de onde partiu o erro. Ou seja ficar na sociedade civil e, dentro dela, enfrentar a fera onde estiver. Outros têm uma vocação mais elevada do que a nossa, como –  por exemplo – o clero. Porém, nossa vocação é de agir dentro da sociedade civil, e aí combater os seus erros, para evitar que eles – uma vez mais – pulem para dentro da Igreja. Fica aqui uma primeira noção.

Agora entra uma segunda noção: o Reino de Cristo e o Reino de Maria no mundo o que são?

O Reino de Cristo e o de Maria são um só e mesmo Reino, quer dizer, onde Cristo é Rei, Nossa Senhora é Rainha. Reciprocamente, onde Nossa Senhora é Rainha, Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei. São dois aspectos de uma situação.

O que significa na sociedade civil esse Reino? E na Igreja? A Igreja é muito mais forte e ricamente o Reino de Cristo e de Maria, do que a sociedade civil, porque Ela não está condicionada a certas circunstâncias que há na primeira. A sociedade civil tem problemas econômicos, sociais e de toda a ordem dos quais é preciso cuidar, que tomam o tempo, atravancam e caceteiam. A Igreja, normalmente, tem todas as condições para estar organizada segundo a vontade de Deus. Quando a Igreja se encontra no fervor em que deve estar, Ela é – no sentido pleno da palavra – o Reino de Cristo e de Maria.

Trata-se de um reino espiritual, pois Nosso Senhor Jesus Cristo não foi um Rei temporal. Ele descendia dos reis de Israel, mas não foi Rei temporal. Quando Pilatos Lhe perguntou: "Tu és rei?" Ele respondeu que era Rei, mas não deste mundo. É o Rei espiritual que dirige, encaminha e governa as almas, e quer receber a adoração, a obediência e a homenagem das almas. A relação d'Ele com os homens é toda ela espiritual.

Na sociedade temporal – no Estado –, Ele não tem nenhuma forma de reinado? Um Estado também não se pode dizer Reino de Cristo? Não pode dizer-se também Reino de Maria?

 

A consagração de Estados 

Por exemplo, vários Estados têm-se consagrado ao Sagrado Coração de Jesus. O Rei Afonso XIII, de Espanha, no Cerro de Los Angeles, também aclamou a nação espanhola como reino de Cristo. Em Portugal, o primeiro rei da dinastia dos Braganças consagrou a Nossa Senhora o reino de Portugal, constituindo-A sua Rainha. A coroa dos reis de Portugal nunca mais foi usada em Lisboa, e está depositada, desde 1640, aos pés da imagem de Nossa Senhora, em Vila Viçosa, para atestar ou certificar que Nossa Senhora é a Detentora do poder – a coroa é o símbolo do poder – em Portugal.

 O que significa Nossa Senhora Rainha de Portugal? Nosso Senhor Jesus Cristo Rei da Colômbia? Do Equador? O que significa concretamente? Quer dizer o seguinte:

1) a grande maioria dos membros dessa nação são católicos; 2) conhecem a Lei de Deus, a Lei da Igreja, a Moral católica e obedecem aos conselhos evangélicos, na medida em que toca a cada cidadão etc., de tal maneira que, pela obediência à voz da Igreja, pela obediência aos Seus ensinamentos, essa nação torna-se Reino de Jesus Cristo. Por que? Porque é Rei aquele cuja vontade é reconhecida como sendo de direito e de fato, a vontade à qual todos têm que se sujeitar. Esse é um Rei!

Nosso Senhor Jesus Cristo reconhecido como sendo o Homem-Deus, Nossa Senhora como sendo a Virgem-Mãe de Deus, todos os homens devem obedecer à vontade d’Eles. Quando todos os homens obedecem à vontade d’Eles, ali está uma terra que se chama Reino de Cristo ou Reino de Maria.

 

Nossa vocação é trabalhar na sociedade civil para que as almas não amoleçam 

Qual é a nossa vocação? É trabalhar dentro da sociedade civil para fazer com que não amoleçam dentro dela as resistências à vontade e ao ensinamento da Santa Igreja, para que cresça a apetência, a admiração por aquilo que Ela manda; que haja uma vontade ardente de que todas as coisas sejam conformes o espírito da Igreja. Ou seja, para a implantação do Reino de Cristo e de Maria naquela sociedade civil.

O que vem a ser, nisto, uma consagração? Entro aqui no tema que me foi pedido.

A consagração é o ato pelo qual uma pessoa (reconhecendo que Nosso Senhor Jesus Cristo é quem Ele é, reconhecendo que Nossa Senhora é quem Ela é) toma a seguinte atitude: dá-se-Lhe por inteiro, e torna-O inteiramente Senhor de quanto essa nação tem, e de tudo quanto essa nação é. Assim dá-se um passo a mais, do que a simples condição de uma pessoa.

Dou um outro exemplo: imaginem uma pessoa que foi batizada. Ela é membro da Igreja Católica Apostólica Romana. Contudo, não fez uma especial consagração, depois de adulta, de sua pessoa e do que ela tem a Nosso Senhor. Se ela fizesse a consagração, tudo o que ela tem oferece a Nosso Senhor, para que Ele disponha como quiser. Está disposta a aceitar de Nosso Senhor o que Ele quiser dela. Em compensação, Ele a toma debaixo de uma proteção especial, concede-lhe graças especiais e, por assim dizer, tudo quanto Ele tem fica da pessoa consagrada. É uma permuta de dons: nós ficamos pertencentes inteiramente a Ele; mas em um certo sentido da palavra, Ele fica pertencente a nós. Esta é a consagração.

 

Relação entre a Consagração a Nossa Senhora e a vocação da TFP 

Então, que relação há entre essa consagração e nossa vocação?

É extremamente árduo derrubar a Revolução gnóstica e igualitária. Os senhores estão vendo o seu poder, notam como é esmagador e como vai – de um modo ou de outro – avançando. Os senhores veem como somos poucos numerosos em comparação com a Revolução. E, sobretudo, como não temos os meios que ela tem para dominar.

Temos uma tarefa enorme a realizar: trabalhar para que as mentalidades manuseadas pela Revolução digam “não” cada vez que ela diz “sim”. E cada vez que a Revolução diga “não”, elas digam “sim”. Devemos querer fazer o contrário da Revolução.

A nossa vida e luta são duras. Todos nós somos convidados continuamente pela Revolução a trair Nosso Senhor, Nossa Senhora e a Igreja, e a abraçar a vida mole.

O Canon da Missa tem um trecho que trata dos ímpios, ao dizer: "in quorum manibus iniquitates sunt dextera eorum repleta est muneribus – eles têm a infâmia nas mãos, a direita deles está cheia de subornos (Salmos 25, 10).

Toda pessoa tem maus momentos, dificuldades, crises em que pode tender a trair. Então, a primeira dificuldade de nosso caminho é a perseverança.

Mas não basta a perseverança, temos que nos santificar. Quer dizer, devemos visar a perfeição moral, pela qual fiquemos, nesta batalha dos espíritos, das almas – as boas contra as más – gigantes. E para o alcançarmos não há outro meio senão cada vez mais ter piedade, devoção, ser exímio no amor de Deus, no amor a Nossa Senhora, à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, etc.

A primeira etapa de nosso combate espiritual não é o enfrentamento com os defeitos alheios, mas calcar aos pés os nossos defeitos e melhorarmos a nós mesmos. Nosso Senhor é um Deus onipotente, de uma misericórdia infinita. À Sua Mãe constituiu-A como advogada junto a Si.

Imaginem um juiz que tem um réu que precisa de uma advogado. O juiz diz: "Bem, vou indicar para advogar esta causa a minha mãe"... É sinal de que o réu já tem o coração do juiz ganho a seu favor. Antes de julgar, ao indicar o advogado, ele já capitulou. Ele não capitula diante da injustiça, não irá absolver um homem impenitente, que não quer abandonar o seu pecado. Mas  dará todas as graças necessárias para que a pessoa abandone o pecado e se santifique. É por esta forma que se estabelece o vínculo entre o consagrado e Aquele a quem se consagrou.

Alguém se consagra a Nosso Senhor. Nosso Senhor diz: "Minha Mãe, Vós sois advogada dele". Ela dirá: "Meu Filho, muito bem. Mas, sem Vossas graças, o que poderei? Dai-lhe tais graças, tais outras e outras..." As mães são assim...! Eu me lembro da minha: era afetuosamente insaciável de graças para si mesma, pois a primeira obrigação de cada um é para com a sua própria santificação. Em seguida, para com os dela: o esposo, o filho, a filha e os demais parentes. Depois, para todo o mundo. A mãe terrena é um exemplo do que é Nossa Senhora de um modo inefavelmente superior.

Nossa Senhora pedirá para nós uma graça, outra e outra, sem parar... Este fato é resultado de nós sermos batizados e filhos da Igreja. Depois também, a título especial, devido ao fato de nos termos consagrado a Ela. E, enquanto tais, pertencermos especialmente a Ela. E assim também Ela, de algum modo, nos pertencer. E pede, pede e pede... Deus Lhe concede generosamente as graças pedidas.

Ele nunca obriga pela graça uma pessoa a seguir os Mandamentos. O homem continua livre, mas Deus exerce tantos atrativos sobre nossa alma, que facilita enormemente o caminhar bem. Se não fossem essas graças, nenhuma pessoa andaria bem. Se não fosse a graça, a Revolução há muito tempo teria tomado conta do mundo, o demônio estaria sendo adorado por toda humanidade etc. É por causa da graça que a Revolução ainda não tomou conta do mundo.

Nossa Senhora tem uma hora marcada em que o mundo, se não se converter antes disso, terá pecado tanto, mas também será tão castigado que o perdão chegará. Nessa hora do perdão, aqueles que são d'Ela, sê-lo-ão inteiramente. Ao aproximar-se dos seus adversários, terão tais palavras de fogo, tais palavras de censura, de recriminação, que eles não ousarão enfrentar nem o olhar, nem a palavra, nem a presença dos filhos d'Ela. Será a hora em que Nossa Senhora terá resolvido mostrar a Sua onipotência.

O primeiro passo para tal é que estejamos, portanto, o mais possível dentro de Seus planos, isto é, repletos e saturados da graça que Ela nos destinou. E é um passo excelente para essa graça o fato de nos termos consagrados. Este é o sentido da consagração.

Se alguém deseja vencer nessa batalha espiritual, consagre-se a Nosso Senhor pela intercessão de Nossa Senhora! Porque o fato de se ter consagrado e, portanto, pertencer especialmente a Nossa Senhora, isto é uma couraça, um elmo, um escudo, uma lança, uma espada não mão daquele que estiver combatendo.

Os senhores estão vendo como eu promovo campanhas de esclarecimento da opinião pública e outros atos que entram na luta de todos os dias. E devo fazê-lo! Mas tudo isto só é bom na medida em que, realmente, estivermos unidos a Nossa Senhora, dependentes d'Ela, vivendo nossa consagração a Ela. E, por Ela, ao Sagrado Coração de Jesus, cujo mês de junho Lhe é consagrado.

 

Estado de espírito durante a campanha 

Quando os senhores saem para a campanha nas ruas, eu gostaria muito  que se perguntassem a si mesmos: “Estou bem consciente de que esta minha ação – ainda que seja a de ser membro da fanfarra – é feita todo o tempo por amor de Deus? Se for feita inteira e constantemente por amor de Deus, de Maria Santíssima e da Santa Igreja, conseguirei "n" vezes mais do que em caso contrário”.

A fanfarra é uma arte. E toda arte praticada com amor de Deus e por amor de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora e da Santa Igreja, toca os corações.

 Querendo fazer uma experiência disso, vão amanhã ou qualquer dia que possam à Sede do Reino de Maria, e entrem na Sala do Reino de Maria. Considerem ali um nicho onde está uma imagem de madeira de Nossa Senhora de Paris. Em torno desse nicho há umas pinturas sobre fundo dourado representando Anjos. São elas cópias bem feitas e de muito boa qualidade de anjos pintados pelo Beato Angélico. Esses anjos têm uma coisa qualquer que, quem olha, fica com o coração tocado por aquilo. Os Anjos angelizam...

Não se trata de tomar ares de quem está cheio de graça. Não faça assim. Não seja ator de qualquer espécie de comédia em matéria sagrada! Seja como é e que, se a graça quiser, transparecerá. “Seja como é”, não. Seja como deve ser e a graça transparecerá.

Alguém objetará: "Dr. Plínio, tudo isso é muito bonito. O Sr. está pintando essa luta de um fator imponderável, que é uma participação criada na própria vida incriada de Deus – ou seja, a graça – tocando as almas e passando por cima de tudo quanto é material. O Sr. faz desta batalha de alma a alma o essencial de uma luta. É muito bonito... Mas o Sr. já pensou como é difícil fazer isso?"

Respondo: "Meu filho, é. Nesta sala não há ninguém, neste mundo não houve ninguém – exceto Nossa Senhora que foi concebida sem pecado original e, naturalmente Nosso Senhor Jesus Cristo – sem tendência para o pecado. Em muitas ocasiões da vida é difícil não pecar. Vemos isso na hagiografia. Em toda  vida de santos há momentos em que foram muito duramente tentados, rezaram, resistiram à tentação e subiram na vida espiritual. Peça! Peça! Reze! Reze! Seja piedoso que tudo se resolverá”.

Contra isto se poderia objetar – e com isto estou terminando – uma anedota ou casinho, que se conta, acontecido algures por algum país da Europa.

Havia, numa diocese, uma paróquia desorganizada, inculta e menos arranjada do que as outras paróquias, uma parte era mato... O bispo mandou, então, para lá um padre piedoso e bom, mas ao mesmo tempo muito espirituoso. Como o padre tivera um belo sucesso na ordenação da paróquia, o bispo receava que o padre ficasse vaidoso ao lhe mostrar os resultados obtidos. Então, na visita episcopal, o padre ia mostrando e dizendo: "Sr. Bispo, aqui está a matriz!" – “Muito bem, muito bem – comentava o bispo. Não há dúvida nenhuma. Graças a Deus". E esse comentário era um modo de lembrar ao padre que o fator principal era Deus, e tinha toda a razão.

E assim o sacerdote foi-lhe mostrando tudo, ao que o bispo sempre dizia: "Graças a Deus!" Então o padre, voltando-se para o bispo, disse: "Se V. Excia. soubesse como estava esta paróquia, quando aqui só estava Deus...!" Isto era um modo de dizer que Deus age por meio dos homens, e que estes são livres de agir bem ou mal. Entra, portanto, um mérito humano subordinado à ação de Deus. Sem a ação de Deus, não faria nada. Deus quer que os homens façam. Muitas vezes, as coisas não saem, porque os homens não fizeram. Deus deu as graças, mas os homens não as aproveitaram ou não corresponderam, dormiram sobre as graças recebidas, foram ingratos e sem-vergonhas. Então, não se correspondeu à graça.

 

Se não houvesse a campanha da TFP em favor da independência da Lituânia...

 Nessa perspectiva, é confortador pensar, por exemplo, o seguinte sobre a campanha em favor da independência da Lituânia: já estamos caminhando para dois milhões de assinaturas! Os senhores estão vendo o governo da Lituânia que se move, que nos manda agradecer, reconhecendo que é uma das mais importantes ajudas que já recebeu do Ocidente etc.

Se nós não fizéssemos essa campanha, como estaria a opinião pública face o caso da Lituânia?...

Agora está um fogo lavrando a favor da Lituânia, porque as TFPs se dedicaram a isso. Por que as TFPs empreenderam essa campanha? Porque Nossa Senhora chamou, pela voz da graça, aos que estão colaborando com tais esforços.  Em concreto, chamou a todos os que estão dentro desta sala. Chamou-os pela graça e esta produziu este resultado.

Então, como Ela nos chamou e dissemos “sim”, o resto foi uma consequência. Deus quis que assim fosse: chamasse e ficasse dependendo de nós. Se não tivéssemos feito o que fizemos, haveria o sério risco de se ficar  dormindo e babando enquanto uma nação estava perecendo por falta de auxílio.

O fator primeiro foi a graça que nos chamou. Foi a graça que nos acompanhou, e para obtenção da qual devemos rezar continuamente. Só podemos obtê-la – com uma amplitude única – se rezarmos a Nossa Senhora, e Ela for a nossa medianeira. E Ela, por sua vez, rezar ao Seu Divino Filho, alcançando-nos tudo.

Então, primeiro passo: consagrar-se a Nossa Senhora e pedir a graça. Segundo passo: receber a graça. Terceiro passo: corresponder à graça, apesar de ser difícil, de haver sacrifícios dizer sempre: "Minha Mãe, eu arco com esse sacrifício por Vossa causa", e ficar um membro da TFP. Quarto ponto: não é só difícil ficar um membro da TFP, mas é difícil continuar. Então, ir continuando... Mas meu gesto foi errado quando indiquei, com um gesto de mão,  continuando horizontalmente. Porque na TFP nós continuamos assim: subindo!  E à medida que formos subindo, seremos “mutatis mutandis” semelhantes (nas nossas devidas proporções, obviamente) à Nossa Senhora da Qual as Sagradas Escrituras se referem como sendo “terribilis ut castrorum acies ordinata – terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 4). A Igreja diz que Ela é como “um exército em ordem de batalha”. Por efeito da consagração a Nossa Senhora, iremos sendo cada vez mais vitoriosos. Se todos fizermos isto, a Revolução estará com os dias contados.

Esta batalha é travada no exterior, mas na realidade profunda, é principalmente no interior de nós.

 
(Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia – 23 de junho de 1990 – Sábado)

 

 

 



[1] “HUMANISMO, RENASCENÇA E PROTESTANTISMO - Como Ruiu a Cristandade Medieval?” – João S. Clá Dias – Artpress – Indústria Gráfica e Editora ltda

terça-feira, 23 de julho de 2024

ANÁLISE PROFÉTICA DA SITUAÇÃO DO MUNDO LOGO APÓS O FIM DA SEGUNDA GUERRA

 





O Dr. Plínio Corrêa de Oliveira acostumou-se a fazer análises de caráter profético desde a mais tenra idade, desde sua juventude. Foi assim que apenas uma semana após o fim da Segunda Guerra Mundial publicou um extenso artigo no jornal "Legionário" com penetrante análise da situação do mundo.


A GRANDE EXPERIÊNCIA DE 10 ANOS DE LUTA


1 - O término da conflagração mundial, e o esmagamento das potências totalitárias, não poderia deixar de ser assinalado pelo "LEGIONÁRIO" com uma edição consagrada, quase toda ela, ao grande acontecimento.

Com efeito, a derrocada final do totalitarismo marca, para nós, o termo de uma longa e dolorosa campanha, na qual fomos obrigados aos mais duros sacrifícios, para esclarecer a opinião católica sobre o tremendo perigo que ameaçava a Igreja. De 1933 a 1942, a vida do "LEGIONÁRIO" foi, a este respeito, uma verdadeira via crucis, ao longo da qual não houve provação que nos fosse poupada. De 1942 a 1945, a luta, menos ostensiva e menos direta, não deixou entretanto de se fazer veladamente. O fim da guerra vem encerrar todo esse passado, e abrir um futuro em que os problemas se apresentam radicalmente diversos. Aproveitemos estes instantes fugazes, em que os cadáveres ainda estão quentes, em que as lágrimas ainda não secaram, em que a terra ainda não sorveu o sangue dos combatentes, em que os incêndios ainda fumegam, e os canos das metralhadoras ainda não esfriaram, para fixar em um quadro geral ainda bem vivo, a recordação destes anos de confusão e de tormenta. É este o instante propício para tal tarefa. A experiência histórica é muito mais substanciosa quando colhida em um passado recente e palpitante, do que nos herbários secos e fanados dos compêndios e dos arquivos.

2 - Será, por exemplo, muito difícil que a História venha a compreender, tão bem quanto nós, a época agitada, crepuscular, indecisa, em que irromperam no mundo os partidos totalitários. É preciso ter vivido em 1920, ou 1925, para compreender o tremendo caos ideológico em que se debatia a humanidade. A Cristandade parecia um imenso prédio em trabalhos finais de demolição. Não havia o que não se fizesse para a destruir. Aqui, especialistas silenciosos e metódicos arrancavam uma a uma as pedras, desconjuntavam as traves, tiravam as portas a seus batentes, e as janelas às suas esquadrias. Essa faina, que faziam com o mutismo, a solércia e a agilidade de conspiradores, progredia com frieza inexorável, sem perda de um instante, sem desperdício de um segundo. Revezavam-se os operários, mas de dia e de noite, enquanto os homens se divertiam, dormiam, trabalhavam ou passeavam, o trabalho não se interrompia. Mais além, monstros de figura humana assaltavam os muros vetustos da Cristandade com o furor delirante e impetuoso com que se atacaria, não um edifício de pedra, mas um edifício de carne viva, um grande corpo. Era a escalada de multidões raivosas, que entravam pelas portas e pelas janelas, saqueavam relíquias indefesas e tesouros abandonados, arrebentavam vitrais, profanavam altares, destruíam imagens ou abatiam com um só estampido de dinamite torres centenárias, muralhas imensas, contrafortes até há pouco inexpugnáveis. E a alguma distância, aos aplausos dos "gravoches", dos vadios, dos petroleiros, outros operários, procuravam com o material roubado à Casa de Deus, construir em suas linhas extravagantes e sensuais, a orgulhosa Cidade do Demônio.

3 - Tudo isto não é senão alegoria. E não há alegoria, nem imagem, nem descrição que possa retratar a confusão daqueles dias de "post-guerra".

A conversão dos povos ocidentais não foi um fenômeno de superfície. O germe da vida sobrenatural penetrou no próprio âmago de sua alma, e foi paulatinamente configurando à semelhança de Nosso Senhor Jesus Cristo o espírito outrora rude, lascivo e supersticioso das tribos bárbaras. A sociedade sobrenatural - A Igreja - estendeu assim sobre toda a Europa sua contextura hierárquica, e desde as brumas da Escócia até as encostas do Vesúvio foram florindo as Dioceses, os Mosteiros, as igrejas, catedrais, conventuais ou paroquiais, e, em torno delas, os rebanhos de Cristo.

Esta florescência religiosa projetou-se sobre a sociedade civil. O príncipe, o artesão, o filósofo, o guerreiro, o menestrel não era cristão apenas dentro do templo, no momento da oração. Ele reinava, produzia, pensava, guerreava e cantava como cristão. Seu reino era um reino cristão, seu trabalho era um trabalho cristão, seu pensamento era um pensamento cristão, sua guerra era uma guerra cristã, e seu canto era um canto cristão. Toda a vida civil, organizada com fundamento na Lei de Deus, ordenou-se segundo a vontade de Deus, e segundo a ordem natural por Deus estabelecida quando criou o universo, o mundo e o homem. Formou-se assim uma sociedade temporal estabelecida sob o signo de Cristo, segundo a lei de Cristo e conforme a ordem e a natureza própria de cada coisa criada por Deus.

4 - Tudo isto está longe de ser uma vã fraseologia. Exemplifiquemos com um relógio. O relojoeiro tem em vista fazer um instrumento para a marcação do tempo. Para isto, estabelece um plano em que se conjugam várias peças, trabalhando cada qual segundo seu feitio e natureza própria, para o fim visado pelo relojoeiro. Ora, a família é o instrumento humano de que Deus deseja a perpetuação da espécie. No caso do relógio, cada peça realiza o seu trabalho, atuando segundo a natureza e feitio com que a quis o relojoeiro. Se ela trabalhar segundo essa natureza e feitio, terá feito tudo quanto dela desejava seu autor, e tudo quanto era necessário de sua parte para o bom funcionamento do relógio. Assim também na sociedade doméstica: se cada membro agir retamente segundo sua situação e seu papel, terá feito tudo quanto era necessário para que a família funcione bem. E se todos os membros agirem com igual retidão, a vida doméstica terá chegado a sua perfeição própria: precisamente como o relógio atinge sua própria perfeição pelo perfeito funcionamento de cada uma de suas peças.

Ora, o mesmo que se diz do relógio ou da família pode dizer-se da sociedade civil. A sua grandeza própria, enquanto sociedade civil, resultará de que cada um dos elementos que a compõem, isto é, família, classe, associação, pessoa, atue retamente segundo seu feitio e natureza própria. E é este, e só este, o modo por que a sociedade civil chegará à sua grandeza.

Ora os Mandamentos são a expressão da vontade de Deus para os homens. Esses Mandamentos ensinam o homem a agir como Deus quer. Infinitamente sábio e bom, Deus não poderia querer que agíssemos em sentido diverso ou contrário da natureza que Ele nos deu. Assim portanto, os Mandamentos nos ensinam a proceder segundo nossa própria natureza. E eles contêm, pois, as regras fundamentais que se há de observar para conseguir a grandeza da sociedade civil, enquanto sociedade civil.

Esta glória e bem-estar temporal é o prêmio natural da sociedade civil. Mas ela tem, mesmo neste mundo, um prêmio mais alto. Explica Sto. Agostinho que os homens podem ser punidos ou premiados em outra vida, por suas ações boas ou más, mas que as nações recebem seus castigos ou prêmios nesta vida, porque a nação, como tal, não transpõe os umbrais da eternidade. No céu, haverá gregos, troianos, romanos ou egípcios. Não haverá nem Grécia, nem Tróia, nem Egito, nem Roma. Assim pois, é preciso que Tróia, ou a Grécia, ou qualquer outra nação receba seu prêmio neste mundo. Deus auxilia a grandeza dos povos fiéis, não só pelo jogo natural das causas segundas, mas por uma multidão de graças especiais e por vezes miraculosas, de que está cheia a História das nações cristãs.

5 - Isto explica porque, sob o influxo de todas as energias naturais e sobrenaturais entesouradas nas nações cristãs, foi emergindo lentamente do caos da barbárie na alta Idade Média, a sociedade civil cristã, a Cristandade. Sua beleza, de início indecisa e sutil, mais promessa e esperança que realidade, foi se afirmando à medida que, com o escoar dos séculos de vida cristã, a Europa batizada "crescia em graça e santidade". Nasceram por essas energias humanas vitalizadas pela graça, os reinos, e as estirpes fidalgas, os costumes corteses, e as leis justas, as corporações e a cavalaria, a escolástica e as universidades, o estilo gótico e o canto dos menestréis. Os admiradores da Idade Média se exprimem mal quando sustentam que o mundo atingiu nessa época o maximum de seu desenvolvimento. Na linha em que caminhava a própria civilização medieval, muito ainda haveria que progredir. O encanto grandioso e delicado da Idade Média não provém tanto do que ela realizou, como da harmonia profunda e da veracidade cintilante dos princípios sobre os quais ela construiu. Ninguém possuiu como ela, o conhecimento profundo da ordem natural das coisas; ninguém teve como ela o senso vivo da insuficiência do natural - mesmo quando desenvolvido na plenitude de sua ordem própria - e da necessidade do sobrenatural; ninguém como ela, brilhou ao sol da influência sobrenatural com mais limpidez e na candura de uma maior sinceridade. Ela foi feita de homens que lutaram e sofreram na realização desse ideal, e que na sua caminhada muitas vezes recuaram ou desfaleceram ao longo do caminho; mas de homens que sempre continuaram fiéis ao seu ideal, ainda mesmo quando dele se afastavam por seus atos. E daí uma consonância profunda de todas as instituições, de todos os costumes, de todas as tradições nascidas nessa época, não só com as circunstâncias contingentes e transitórias do tempo em que surgiram, mas com as exigências genéricas da alma humana "naturaliter christiana" e as tendências espirituais peculiares aos povos do Ocidente.

6 - Tocamos aí em um ponto de importância fundamental. Todos os povos tem sua mentalidade coletiva e seus problemas regionais. Entre um hindu e um sueco, um espanhol e um chinês, a diferença é enorme. Há um espírito nacional hindu, sueco, chinês ou espanhol, que permanece íntegro durante os séculos, enquanto a nação existir. Os homens, como os cursos de água, poderão ir correndo para a eternidade. Mas as nações, como os rios, continuam sempre os mesmos nos dados essenciais de seu temperamento. Além destas circunstâncias psicológicas, há problemas peculiares à situação geográfica de cada região: da Índia, da Suécia, da China ou da Espanha. Também estes problemas - ao menos os mais profundos e dignos de nota - são invariáveis.

Toda a civilização cristã há de ser inteiramente cristã, católica, universal, mas há de se ajustar, há de respeitar, há de desenvolver e estimular as características de cada região, e de cada povo.

A sociedade cristã, dissemos, é a que vive de acordo com sua própria ordem natural. E, por isto, ela há de respeitar integralmente as características regionais que pertencem à natureza de cada povo ou região. Respeitar e desenvolver, porque essas características são dons de Deus, e todos os dons de Deus merecem desenvolvimento.

7 - Nos séculos de civilização cristã, cada povo teve, pois, suas características próprias, bem definidas. A alma nacional, em todas as suas aspirações universais e humanas, em todas as suas aspirações nacionais e locais, encontrou plena e ordenada expansão dentro da civilização cristã. Daí a enorme variedade de formas de governo e de organização social ou econômica, de expressões artísticas e de produções intelectuais, nas várias nações da Europa medieval.

A expansão das tendências nacionais causa ao povo um grande bem estar físico. A mentalidade nacional inspira a formação de símbolos, costumes, artes, nos quais ela se exprime, se define e se afirma, se contempla a si mesma e se solidifica. Esses símbolos são um patrimônio nacional, uma condição essencial para a sobrevivência e progresso espiritual da nação. Eles tem uma consonância indefinível e profunda com a mentalidade nacional, uma consonância que é natural e verídica, e não puramente fictícia e convencional. Por isto, em via de regra, cada povo elabora uma só arte, uma só cultura e nela caminha enquanto existe. O maior tesouro natural de um povo é a posse de sua própria cultura, isto é, quase a posse de sua própria mentalidade.

8 - Uma civilização cristã só pode ser admirada pelas almas que, fora da Igreja, tendem para o Catolicismo; só pode ser admirada e vivida pelas almas que, dentro da Igreja, vivem do Catolicismo. Ela é incompreensível, é cheia de tédio, é odiosa até em sua superioridade solar, para as almas que começam a abandonar a Igreja, ou que, do lado de fora, blasfemam contra ela. A civilização cristã só viveu plenamente, enquanto foi sincera e profundamente católica a Europa.

E a grande tragédia da civilização ocidental foi precisamente a ruptura com o Catolicismo que, no século XVI, arrebatou ao grêmio da Igreja as nações protestantes.

9 - Não é aqui o momento de fazer a análise do Protestantismo. Ele representou, ao pé da letra, a realização da Revolução Francesa no terreno religioso, como a Revolução foi o Protestantismo aplicado ao âmbito civil. Nascido do orgulho e da lascívia, o Protestantismo negou ora explicitamente in radice tudo quanto significasse autoridade, ordem, ascese. Onde pode, proclamou a abolição de toda hierarquia eclesiástica, nivelando inteiramente os leigos aos clérigos, e abolindo a própria clericatura. Onde não lhe foi possível ir tão longe porque os espíritos ainda tinham alguns fragmentos de senso cristão, conservou o presbiterato, abolindo entretanto o episcopado e a supremacia pontifícia, ou admitindo mesmo o episcopado mas negando o Papa. Mas, analisada a fundo a situação de qualquer bispo ou ministro protestante perante seus fiéis, vê-se que seu cargo é mais aparência vã, que realidade, e que mesmo entre os episcopais o bispo pouco ou nada se diferencia em essência, de qualquer fiel. Isto, na ordem do governo e dos sacramentos. Em matéria de doutrina, o livre exame protestante é a afirmação do anarquismo na vida da inteligência. O dístico de 1789 "liberté, égalité, fraternité", entendido segundo e exegese do "Comité de Salut Public", poderia ser perfeitamente o lema da grande revolução religiosa do século XVI.

10 - Em sua magistral Encíclica "Parvenu à la Vingt-cinquième Année", mostra Leão XIII que o Protestantismo não foi senão uma etapa. De seus princípios, se desdobraram convulsões muito mais profundas do que as que se operaram sob o bafejo pessoal e direto de seus autores. A História do mundo, do século XVI para cá não é senão, em forma ora explícita ora larvar, [a história do desdobramento] dos princípios que constituem o substractum mais profundo do Protestantismo. A Contra-Reforma conseguiu conservar os povos católicos indenes da heresia protestante. Impedidos de irromper abertamente no terreno do dogma, eles se manifestaram entretanto através de mil tendências filosóficas, científicas, literárias, artísticas, pelas quais se infiltravam na sociedade católica os princípios básicos de que se originara o próprio Protestantismo.

Nos chamados "Tempos Modernos", muita coisa continuou a ser feita pelos povos católicos dentro da linha da civilização cristã. Mas muita coisa começou a ser feita sob o signo da Desordem. O relaxamento geral dos costumes indicava bem um borbulhamento interior de sensualidade nos povos ocidentais, que se exprimiu a princípio de modo sentimental e figurativo, mas que foi aos poucos rompendo todas as barreiras, até chegar à grande explosão de concupiscência de 1789, às "orgias cívicas" de 1792, e à completa paganização dos costumes modernos. O contínuo deperecimento da família ia aos poucos aniquilando as classes sociais. Aristocracia, burguesia, plebe, eram, na Idade Média, corpos sociais vigorosos, coesos, perfeitamente definidos e cônscios cada qual (inclusive, note-se bem, a plebe que se gabava de suas linhagens multisseculares de carvoeiros ou de artesãos com a ufania com que um aristocrata lembrava os príncipes visigóticos de que descendia) de sua dignidade. Nos "Tempos Modernos", as classes perderam a noção de seu papel. A nobreza tendia a emburguesar-se. A burguesia em "singer" a nobreza, a plebe em derrubar a nobreza e a burguesia, e assim por diante. O próprio absolutismo real, que parecia a consolidação do princípio de autoridade, não era senão um princípio revolucionário: a onipotência do Estado perante as leis de Deus e da Igreja.

11 - Na Filosofia, nas artes, na cultura, na política, na vida social, os móveis psicológicos que haviam determinado em outros países a explosão protestante e concomitantemente sua completa transformação, provocaram a pari passu nos países católicos uma transformação profunda da vida civil, e geraram um estado de contradição que se tornou crônico e habitual. Tudo se transformou nos países ocidentais sob o sopro do orgulho e do sensualismo moderno, com exceção das crenças religiosas. O desajuste entre as crenças e a vida se tornou cada vez mais profundo. Tudo se paganizou por obra dessas massas e dessas elites que, entretanto, continuavam a não ser pagãs, e que professavam em matéria religiosa convicções cada vez mais dissonantes de tudo quanto pensavam, sentiam ou faziam em outros terrenos. As instituições cristãs, os costumes cristãos, as tradições cristãs foram perdendo sua vitalidade durante os Tempos Modernos, foram tendendo a se transformar gradualmente em relíquias sem vida, em hábitos meramente protocolares, em vestígios de um passado mumificado. Em fins do século XVIII, havia, sob a aparência de uma sociedade cristã, uma realidade social que já tendia para o paganismo com toda a força de seu dinamismo. A Revolução Francesa, que se propagou por todo o orbe católico, foi a explosão insofrida dessa realidade nova, que atirava para os ares todos as destroços do passado. Nunca se compreenderá inteiramente a Revolução, enquanto não se reconhecer que ela foi ainda muito mais profunda e importante no terreno ideológico que no terreno político. Na França, na Itália, na Espanha em Portugal, a transferência do poder para os liberais, o advento de formas novas de organização estatal, simbolizou e a um tempo realizou o triunfo de novas formas de viver, de pensar, de sentir, de trajar, novos padrões de vida social, o aparecimento de um novo ideal de perfeição humano. Tudo mudou de face e de substância, e todas as transformações se fizeram no sentido de satisfazer melhor o orgulho e a sensualidade. O orgulho, pelo direito conferido a cada qual, de elaborar seu próprio pensamento sem nenhum respeito às leis da lógica e do bom senso; pela supressão ou minimalização de todos os cargos, graus, fórmulas, categorias e distinções que pudessem conter ou exprimir a autoridade; a sensualidade, pela transgressão cada vez mais ousada dos princípios de moral, pela abolição das tradições e costumes que salvaguardavam o pundonor e evitavam as familiaridades demasiadas, e por mil reformas que, davam na vida social a preeminência ao corpo sobre o espírito, à imaginação e ao sentimento sobre a razão, a instauração de mil meios destinados a debilitar a vontade e diminuir o esforço da razão para estudar.

12 - É um erro supor que a Revolução Francesa se encerrou com Napoleão ou com Luís XVIII. De fato, ela se espraiou ao longo dos anos, e seus frutos mais imediatos não cessaram de se produzir até 1925 ou 1926, na Europa, até 1933 ou 1936 no Brasil. Façamos, pois, um confronto entre a Europa de 1789 e a de 1918. Ao longo desses 140 ou 150 anos, por que transformações passou o mundo na ordem de coisas que nos ocupa? Puramente negativas:

Em matéria de Religião, as massas, de cristãs passaram a revolucionárias, as elites, de deístas a indiferentes ou ateias. Em matéria de filosofia, do cartesianismo passou-se para o materialismo evolucionista. Em matéria política, do Estado organizado a Rousseau, para a negação niilista de todo e qualquer Estado. Em matéria social a burguesia destruíra a aristocracia em nome da igualdade; e armada do mesmo princípio a plebe se aprestava a estrangular por sua vez a burguesia. Em matéria educacional, do autoritarismo pedagógico da velha escola, para o igualitarismo socialista e para o comodismo didático da escola nova. Em matéria artística e literária, do classicismo rígido e formalista, para as convulsões do romantismo, e daí para as extravagâncias dos modernos sistemas artísticos. Em matéria humana, do tipo semi-tísico, sentimental e "debraillé" dos heróis e das heroínas do romantismo, para o esportivismo, o espírito utilitário, e a ultra-vitaminose dos grã-finos de hoje. Tudo se tornou mais cômodo, mais acessível, e o prazer que se procurou nas coisas foi muito menos do belo do que do "gostoso". O belo encanta o espírito. Mas o "gostoso" delícia o corpo. Das cadeiras elegantes do estilo Luís XVI para as pesadas poltronas de couro modernas, que diferença de beleza! Mas, em compensação, como se sente melhor o corpo estirado sobre a lisura destes couros, afagado pela flexibilidade destas molas! Evoluções todas bem dignas do tipo moderno de habitação, em que por economia se deixa de fazer sala de visitas, mas o luxo não conhece limites para a comodidade das cozinhas, das copas e dos banheiros. Economizar no salão de honra o que se vai gastar no banheiro! A decrepitude dos salões dourados e o apogeu do banheiro! Que tema para uma meditação!

13 - Em 1918 um novo sopro de espírito revolucionário varreu a Europa. Deu-se o imenso estrondo do desabamento do czarismo, e se implantou o comunismo na Rússia. Toda a vida intelectual e social se seccionou ainda mais do passado. No Ocidente, a hegemonia se deslocava cada vez mais da Europa tradicional para os Estados Unidos niveladores. Em meio a todo esse desabamento, que evidenciava cada vez mais o próximo término da civilização cristã como tal, uma salutar reação se produzia. Muitos espíritos percebiam por fim para que abismos caminhava o mundo, e quais os guias que os levavam para o abismo. Como escreveu Pio XI, um sopro universal do Espírito Santo orientava para a Igreja os espíritos transviados. Em plena hecatombe da civilização cristã, a Igreja de Deus, como a vara milagrosa de Gedeão, começava a florir novamente, produzindo rebentos que atestavam iniludivelmente sua eterna pujança. O movimento católico se organizava por toda Europa. Eram legiões de moços que, desgostosos do curso das coisas, abriam os olhos para a Verdade Revelada, e almejavam de todo coração o triunfo da civilização cristã. As obras sociais católicas, a imprensa católica, o radio católico, a ação política dos católicos triunfava por toda a parte. Assim, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Itália, na França, no Brasil, na Holanda, na Bélgica, os êxitos eleitorais dos católicos eram cada vez mais estrondosos. E quanto mais crescia o perigo comunista, tanto mais se acendia o ardor da reação católica. A certas almas, Deus atrai ao Céu fazendo-lhes ver o Inferno. Foi dessa terapêutica que se serviu Deus com o mundo ocidental, permitindo que se lhe patenteasse em toda a hediondez a figura dos tormentos em que o comunismo mantinha a Rússia, o México e mais tarde a Espanha. Não há tormento maior do que esse de um povo a que se arranca dia a dia uma tradição, um hábito, um símbolo. É um esquartejamento terrível da alma, a que estavam expostos a pouco a pouco todos os povos cristãos.

14 - Sempre que o demônio está na eminência de perder uma partida, sua grande arma é a confusão. Utilizou-a ainda desta vez.

A História talvez diga, algum dia, em que antros o plano tenebroso se forjou. Mas o fato é que, para atender aos anseios das massas sedentas de civilização cristã, apareceu na Alemanha um partido logo copiado em outros lugares, que se propunha a implantar um novo mundo cristão. À primeira vista, nada mais simpático do que o nazismo, movimento místico-heróico, propugnador das tradições da Alemanha cristã e medieval, contra a dissolução demagógica e corruptora da propaganda bolchevista.

Os termos meramente negativos da doutrina nazista correspondiam em vários pontos com o que se sentia de mais vivo na consciência cristã, indignada com o enfraquecimento do princípio da autoridade, da ordem, da moral e do direito.

Mas, se se atentasse para o lado positivo dessa ideologia, lado que só aos poucos a maquiavélica propaganda parda revelava aos "iniciados", que terrível decepção. Ideologia confusa, impregnada de evolucionismo e materialismo histórico, saturada de influências filosóficas e ideológicas pagãs, programa político e econômico radical e caracteristicamente socialista, intoleráveis preconceitos racistas. Em uma palavra, por detrás dos bramidos anticomunistas do nazismo, era o próprio comunismo que se pretendia restaurar. Um comunismo ardiloso, de máscara cristã. Um comunismo mil vezes pior, porque mobilizava contra a Igreja as armas satânicas da astúcia, em lugar das armas inócuas e impotentes da força bruta. Um comunismo que começava por empolgar os espíritos por algumas verdades, punha-os em delírio sob pretexto de entusiasmo por essas verdades, e os atirava em seguida aos erros mais terríveis. Um comunismo, portanto, que significava, não a obliteração dos maus, mas dos bons, a mais terrível máquina de perdição e de mistificação que o demônio tenha engendrado ao longo da História.

15 - Tal é o peso da verdade, tão duro é o fardo do bem, que infelizmente muitos espíritos, embora sinceramente católicos, se deixaram transviar pela manobra. Não tinham aquela fome e sede de justiça, que é a raiz da santa intransigência. Não tinham aquele apetite de Catolicismo pleno, que os faria rejeitar como elemento impuro qualquer liga com os fermentos do século. As coisas muito acentuadamente católicas, declaradamente católicas, exclusivamente católicas, lhes pesavam como o sol fere a vista das aves noturnas. Preferiram as formas pálidas, diluídas, indiretas, de irradiação católica, como os mochos preferem a luz da lua. E se entregaram de corpo e alma a essas tendências de caráter nitidamente anti-católico. Na Itália, como na Alemanha, como em outros lugares, uma coorte de ingênuos, de desavisados, de pessoas entretanto bem intencionadas, se deixou embair e arrastar de roldão com facínoras e aventureiros de toda sorte. E só Deus sabe com que furor, com que iracúndia, com que abundância de ameaças se atiravam contra os irmãos de crença, que se permitiam o luxo de ser mais penetrantes, mais perspicazes, mais enérgicos na defesa da Fé.

16 - Ruiu o grande sonho, está em pedaços a terrível construção elevada pelos arquitetos dos sistemas totalitários pseudo-cristãos. Hoje em dia, ninguém ousaria sustentar a legitimidade dessa posição contra a qual clama todo o sangue que se derramou, todas as lágrimas que se choraram, todo o suor que se verteu nestes anos de guerra. Quando os campos de concentração forem expostos à visitação pública, e se perceber que terrível oficina de ódio era o totalitarismo, é de se esperar que as últimas vendas caiam dos últimos olhos voluntariamente cegos, e que por fim os escombros e os restos de todo esse passado sejam removidos dos últimos espíritos que o fanatismo ainda mantém em uma atitude de obstinação desvairada.

17 - Mas, como dissemos, desse passado ainda quente, se desprende uma grande lição. É inútil querer fazer sem a Igreja ou contra a Igreja, sem a hierarquia ou contra ela, a obra de Deus. "Enquanto o Senhor não edificar a cidade, trabalharão em vão os que construírem". "Enquanto Ele não a proteger, lutarão em vão os que a guarnecerem". O mundo não pode ser salvo por formas diluídas de Cristianismo, ou por sistemas que representem uma etapa comodista ou preguiçosa nas sendas da restauração da Cristandade. Nosso "leitmotiv" deve ser o de que para a ordem temporal do Ocidente, fora da Igreja não há salvação. Civilização católica, apostólica, romana, totalmente tal, absolutamente tal, minuciosamente tal, é o que devemos desejar. A falência dos ideais políticos, sociais ou culturais intermediários está patente. Não se para no caminho de volta para Deus: parar é retrogradar, parar é fazer o jogo da confusão. Nós só queremos uma coisa: o Catolicismo completo.

18 - Esta a grande verdade que o fracasso do totalitarismo revela. Relembramo-la nesta ocasião memorável, não para reavivar dissídios com irmãos de crenças, mas para declarar que, excetuada esta grave lição que contém o suco de toda a trágica experiência destes últimos anos tão ricos em ensinamentos, tudo esquecemos, e que só queremos olhar para o futuro. Do passado não trazemos nem queixa, nem ressentimentos, mas apenas a convicção da vitória desta tese, que deve ficar: os católicos vencerão desfraldando inteiro o estandarte católico e não ocultando-se sob as dobras de doutrinas políticas equívocas.

19 - Aí está diante de nós, hiante, o grande problema do comunismo. Mais uma vez, e com uma acuidade maior do que nunca, exige-se a luta contra a hidra que representa, tanto quanto o nazismo, a quintessência do espírito da Revolução. Os católicos devem unir-se diante do adversário comum, esquecidas todas as queixas e todos os ressentimentos e, consoante o ensinamento de Pio XI, devem aceitar a leal colaboração de todos os homens dignos, que estejam sinceramente empenhados na luta contra o totalitarismo rubro. Mas o segredo da vitória da Igreja consiste precisamente nisto: renunciarmos aos ideais intermediários, e, ligados a todos os que nos ofereçam sua cooperação, vencer a hidra bolchevista com a única arma que a esmagará: a Cruz, que representa a Igreja de Deus e as mais antigas e legítimas tradições da civilização cristã.

"In hoc signo vinces"[1] disse uma Voz a Constantino num momento em que parecia incerta a sorte das armas. Essa Voz não se calou durante quinze séculos, e ainda hoje é a mesma a sua mensagem para o mundo hodierno.

 

(Legionário, 13 de maio de 1945)

 

 

 



[1] Com este sinal vencerás.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O VALOR DA ADMIRAÇÃO

 






 

Em várias oportunidades, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira comentou sobre a importância da admiração para a prática das virtudes. Numa delas assim falou sobre a admiração:

 

“ADMIRAÇÃO DESINTERESSADA E INOCENTE

Precisamos admirar o que é superior a nós para sermos contrarrevolucionários. Se tivermos uma admiração verdadeiramente desinteressada, do fundo de nossas almas seremos solidários com a ordem reta das coisas e, portanto, com a homenagem que se deve a Deus. Ver alguém ser contrário a isso nos afeta mais do que se nos tivermos dito um desaforo. O suprassumo de nós mesmos é aquilo que amamos sem interesse mesquinho.[1]

“Se prestarmos atenção no mundo de hoje, veremos o quanto ele é feito quase exclusivamente de interesse individual. Quando se trata de ser elogiada, a pessoa gosta; mas já não lhe agrada ouvir elogios dirigidos a outro. O mesmo se aplica a ganhar dinheiro, ter saúde, conforto, enfim qualquer vantagem: o indivíduo fica muito contente desde que seja ele o beneficiado.

 

A inversão de valores no mundo atual

Ora, por vezes, quando nos reunimos, embora sejamos de nações, formação cultural e educação tão diversas, vibramos de alegria ao celebrarmos as glórias alheias, considerando a vida e os feitos de diversos personagens históricos. Qual é a razão dessa alegria?

O ser humano foi feito para crescer, tanto na alma quanto no corpo. De maneira tal que do próprio Menino Jesus diz o Evangelho que Ele “crescia e Se fortalecia, enchia-Se de sabedoria”  (Lc 2, 40). Ao ler isto, tem-se a impressão do Divino Infante crescendo, florescendo, da infância delicada e sacrossanta do presépio para a adolescência e a força da idade madura, em que Ele irá carregar o lenho.

Essa transformação gradual, dia a dia, em que Ele cada vez mais se transformava de flor em cruz, de encanto em esplendor de sacrifício, era uma coisa que aumentava a formosura varonil d’Ele cada vez mais; dava-Lhe aquela forma superior de beleza que é o charme, mas o charme do varão forte, varonil, empreendedor, sério, seguro, porém tão delicado, meigo, paterno, de tanta ternura, que quase não se sabia como conciliar uma qualidade com a outra. Isso era no Corpo, mas sobretudo na Alma.

A maior parte das pessoas pensa que a alma é uma espécie de radar feito para captar as necessidades do corpo e atendê-las, que ela existe para o corpo. Segundo esta concepção, o homem vive para fazer negócios bons a fim de comer. Então, a inteligência tem como função encontrar comida.

Ora, esse faro até cachorro ou um bicho pastando tem também. Para isso não é preciso possuir alma. Entretanto, a grande maioria das pessoas concebe as coisas assim. Formou-se e vai seguir tal carreira para quê? Ganhar dinheiro para poder comer, beber e dormir.

Então o homem não é senão um bicho mais complicado do que os demais e, enquanto tal, inferior aos outros animais. Porque se um boi, sem diplomas, encontra comida, o homem é apenas um bicho mais complicado do que o boi.

Nós vemos, então, como é absurdo admitir que o animal é mais do que o homem e a vida do animal mais perfeito do que a humana. O intelecto não pode ter como finalidade principal a manutenção do corpo. Contudo, se analisarmos o papel dado à alma no mundo contemporâneo, qual o interesse da maioria das pessoas pelos bens do espírito e pelas solicitações do corpo, notaremos uma desproporção arrasadora, simplesmente. As pessoas cuidam do corpo e a alma fica completamente do lado. É uma inversão de valores, por onde aquele que deverá ser rei é servo.

 

Alegria do relacionamento entre almas com qualidades diversas

Pois bem, há um instinto na alma humana profundo, chamado instinto de sociabilidade, que faz com que os semelhantes se procurem. Este instinto também leva o homem a alegrar-se e a relacionar-se quando nota em alguém qualidades aparentemente opostas às dele, mas que o completam harmoniosamente.

Imaginem Carlos Magno preparando os planos para uma invasão em terra de infiéis.

Sozinho na sua sala, caminhando de um lado para o outro com passos firmes e cadenciados, sobre um chão de mármore ou de granito polido, está o monarca de barba florida. O recinto, ainda com influência românica, possui arcadas que dão para um pátio interno onde há um pequeno chafariz sobre o qual pousa um pássaro que começa a saltitar. O Imperador interrompe seu caminhar, olha o passarinho e sorri amavelmente.

O passarinho é tão diferente dele! Entretanto Carlos Magno não olhou apenas para a ave, mas sentiu suas próprias vastidões interiores e compreendeu melhor a si mesmo.

O Imperador senta-se, manda vir um pouquinho de vinho e diz:

- Chame Alcuíno, meu ministro e conselheiro. Quero expor-lhe os planos de uma universidade e de uma batalha, porque as duas coisas eu resolvi agora.

O homem se completou.

Entra Alcuíno, monge famoso que organizou a renovação da cultura católica ocidental como ela se desenvolveu na Idade Média; foi o Carlos Magno da cultura. Podemos imaginá-lo como um homem venerável, de rosto comprido, fino, olhar que fita do fundo de arcadas oculares onde olhos pequenos e pretos dardejam, ou olhos azuis e inocentes sonham.

Alcuíno se inclina ante Carlos Magno, que faz um gesto e diz:

- Sentai-vos!

O sábio Monge pede licença para ficar ajoelhado, ao que o Monarca responde:

- Sois clérigo. Não é bom que um clérigo se ajoelhe diante um leigo. Sentai-vos!

Alcuíno afirma:

- Por vossa ordem e em obediência a Deus, que deseja que o clero seja reverenciado, senhor, eu me sento.

Começa a conversa durante a qual Carlos Magno apresenta as metas gerais para uma universidade. Alcuino ouve embevecido e pensa: “Que largueza de pensamento, que homem! Vejo todo um continente formando-se atrás da fronte desse Imperador. Que felicidade ter conhecido Carlos Magno!”

Dali a pouco o Monarca vai falando menos e o Monge toma a palavra. Enquanto a voz de Carlos Magno lembra espadas e escudos que se entrechocam, a de Alcuíno remonta a sinos que tocam. Diz o douto conselheiro:

- Senhor, para realizar as vossas imperiais e cristianíssimas intenções, que julgo ter bem apreendido, tenho o intuito de vos propor tais matérias, e tal outra tem tal riqueza...

De repente é Carlos Magno quem está entrando pelo mundo da cultura e do saber, e pergunta algo a respeito de Aristóteles, Santo Agostinho, São Jerônimo. Depois quer saber alguma coisa sobre o Concílio de Nicéia, tal pormenor concernente à virgindade da Mãe de Deus, e tal outro detalhe a propósito da união hipostática. Nesse momento Carlos Magno está longe... Não pensa mais no passarinho, nem na batalha contra os germanos ou os árabes. Ele tem apenas diante de si o mundo da cultura e a alma de Alcuíno que desdobra imensa diante dele, sabendo tudo, explicando tudo. Carlos Magno virou passarinho e saltita na cultura de Alcuíno, encantado!

É natural que isso tenha acontecido desse modo, porque assim é a alma humana. Carlos está diante de quem tem mais cultura do que ele. O passarinho o encantava por ser pequenino, e despertava na alma dele todas as afinidades harmonicamente opostas que o grande tem com o pequeno. Agora é o grande que tem alegria de sentir-se pequeno ao considerar alguém maior do que ele, não absolutamente falando, mas num ponto.

O grande Monarca tem a alegria de admirar e de crescer à medida que admira, saindo dessa conversa mais elevado de espírito e pensamento: “Agora sei tal coisa e tal outra. Hoje não conquistei nenhuma província, mas fiquei conhecendo Santo Agostinho. Quando morrer não conduzirei comigo uma província, mas levarei para o Céu o que eu soube e admirei da “Águia de Hipona”. Que grande dia este em que conversei com o Monge Alcuíno!”

 

Ao admirar os que lhe são iguais o homem tende à sua plenitude

Imaginemos agora outra cena que historicamente não se deu, mas poderia ter-se dado: o encontro dos dois imperadores, do Oriente e do Ocidente, em Constantinopla.

Vendo a cidade maravilhosa na praia do Bósforo, parado num cais o Imperador do Oriente espera a chegada de Carlos Magno.

Chega a hora em que desce do navio uma passarela com um tapete sobre o qual Carlos Magno caminha. Ambos de coroa na cabeça se cumprimentam, com ar de um rei que saúda outro rei. Nesse aperto de mãos os dois monarcas cristãos, Oriente e Ocidente, eles sentem a presença de Jesus Cristo e estreitam a amizade. Carlos Magno vê seu igual como seu irmão. Sua alma cresceu numa outra dimensão. De igual a igual, cada um deles é mais ele mesmo.

Houve interesse nisso? Não, mas houve vantagem. Essa alma tinha necessidade disso para crescer inteiramente. Todo ser vivo tende à sua plenitude, e Carlos Magno ganhou plenitude no que ele tinha de mais essencial nesses três episódios de sua vida. Ele ficou mais pleno, mais ele mesmo.

Voltando de Constantinopla, algum escudeiro do grande Carlos poderia dizer a alguém que não viu a cena: “Vós não sabeis o que é glória! Vós conheceis um imperador só – Carlos, o Grande – tratando com os que são inferiores a ele. Mas não vistes a glória de nosso Imperador quando ele tratou com um igual. Tinha-se a impressão de um arco-íris que ia de um ponto a outro! Aquilo é glória, quando se viu a soma dessas duas majestades altivas e cordiais entre si. Como é grande isso!”

Sem dúvida, houve vantagem para quem presenciou isso porque cresceu. Mas é preciso ter um espírito tal que se queira isso ainda que não houvesse vantagem; pela homenagem desinteressada e encantada em relação àquilo que é maior, igual ou menor em relação a nós.

 

Quando admiramos algo superior a nós, prestamos um ato de culto a Deus

Para o mundo contemporâneo esta posição é uma aberração, pois o princípio no qual se baseiam os pressupostos de quase todo mundo hoje em dia é: o que não diz respeito a mim, não me move.

Ora, o princípio que apresento é o contrário: movo-me para conhecer e admirar algo que não sou eu, mas um outro em relação ao qual me coloco numa posição de alegria porque ele é quem é, independente de pensar em mim.

Se isso parece absurdo para a mentalidade hodierna, existiu um ser mais inteligente do que todos os homens que houve, há e haverá até o fim do mundo, que também pensou do mesmo modo que a maioria das pessoas de hoje: Lúcifer.

Com efeito, é próprio à criatura, por não ser ela a fonte de seu próprio ser, viver para quem a fez. Logo, o centro de nosso ser está fora de nós,  é o nosso Criador.

Imaginem que um escultor esculpisse uma estátua e, miraculosamente, desse-lhe a vida. E tão logo ela acabasse de ser esculpida, dissesse para seu autor:

- Até logo, vou embora.

O escultor lhe passava um laço e dizia:

- Sem-vergonha! Eu te fiz, tudo o que há em ti foi dado por mim, e vais embora? Vou te liquidar, não existirás mais.

Sendo o autor da estátua, o artista tem o direito de servir-se dela. Pois bem, se isso é assim do escultor com a estátua, quanto mais de Deus para conosco. Eu nada era quando Deus resolveu que existisse Plínio. Ele criou a minha alma; devo, portanto, submeter-me a Ele.

De fato, quando admiramos algo superior a nós, estamos, no fundo, prestando um ato de culto a Deus. Admirar é a postura normal de nossa alma.

 

Os contrarrevolucionários vivem da admiração

Quando o homem está na postura normal ele sente bem-estar. Mas o bem-estar é um reflexo muito apreciável, porém colateral da ordem que está nele. Por exemplo, um auditório precisa ter cadeiras confortáveis para que os ouvintes se esqueçam do corpo e possa prestar atenção na conferência. Os acolchoados, os braços da cadeira postos a uma altura adequada, o apoio e a distensão que o corpo recebe evidentemente produzem um certo bem-estar. Entretanto, ninguém diria: “Eu vou agora ao auditório para sentar numa cadeira”. A pessoa vai para participar de uma reunião. A posição adequada produz, colateralmente, um bem-estar.

Assim também a própria felicidade que o entusiasmo produz é, ainda ela, secundária em relação a essa admiração desinteressada e cheia de amor que devemos ter para com Deus.

Santa Teresa de Jesus exprimia isso de um modo magnífico, quando disse que queria amar a Deus de tal maneira que “ainda que não houvesse Céu, eu Vos amaria, e ainda que não houvesse inferno, eu Vos temeria”. Quer dizer, “independente de tudo, por serdes Quem sois, eu Vos amo quanto posso e lamento não ter capacidade de adorar ainda mais”.

No Gloria in excelsis Deo, que se reza na missa, há um momento em que se diz Gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam: nós vos damos graças, ó Deus, por vossa grande glória. Não é minha glória, mas a d’Ele.

Consequentemente, quando vemos que alguém não dá a Deus a glória devida, não apenas porque não O admira, mas inclusive blasfema contra Ele, nossa alma é atingida no seu cerne. Se tivermos uma admiração verdadeiramente desinteressada, é do próprio fundo de nossa alma que seremos solidários com a ordem reta das coisas e, portanto, com a homenagem que se deve a Deus. Por isso, ver alguém ser contrário a isso é m\ais do que se nos tivesse dito um desaforo, roubado de nós um objeto ou lançado contra nós uma calúnia. O que foi atingido vale, para nós, muito mais. Não por ser interesse nosso, mas porque o suprassumo de nós mesmos é aquilo que amamos sem interesse mesquinho.

Há, pois, um entrechoque de revolucionários que se negam a admirar e contrarrevolucionários que vivem da admiração. Entretanto por detrás dessa luta há outra que se trava no interior de cada um de nós entre Deus e o demônio, entre a Virgem e a serpente, de maneira que somos um campo de batalha.

Para atuarmos nesses combates, tanto o externo quanto o interno, a Divina Providência nos concede auxílios maravilhosos. Um deles é a graça, participação que o homem tem na própria vida de Deus. A graça é uma criatura, mas ela nos faz participar da vida do Criador e confere à alma forças que estão na linha da sabedoria, da energia, da sagacidade e de todo o esplendor divinos. E isso nós aplicamos na luta também. Não é, portanto, a força natural.

 

Dentro de nosso campo de batalha interior os Anjos da Guarda são o auxílio poderoso

Outro auxílio poderoso são os nossos Anjos da Guarda. Embora sejam tão superiores a nós que constituam os nossos arquétipos, nessas batalhas eles estão para nós como os escudeiros em relação aos cavaleiros.

Por vezes, os Anjos da Guarda são representados naqueles quadrinhos encantadores, onde aparece um Anjo ajudando uma criança a não cair da bicicleta, por exemplo. É verdade, respeito enormemente, mas não é a função primordial do Anjo da Guarda. Sua principal missão é ajudar-nos a vencer a Revolução dentro e fora de nós, e sermos inteiramente contrarrevolucionários. Somos os combatentes, e ele nos dá conselhos e forças enquanto lutamos.

Quando somos fiéis à graça e à ação angélica, no meio dessa batalha há algo em nossa alma que entra como um coro, uma orquestra de guerra. Por outro lado, se pecamos começa a coaxar um sapo ou grunhir um porco É o demônio que faz a sua casa naquele que caiu no pecado. E nós, só pelo fato de estarmos em pecado, já passamos a lutar em favor do demônio. Embora nada façamos, o nosso existir em estado de pecado nos inscreve no lado do adversário. Donde a necessidade de, o mais cedo possível, sair dessa situação e voltar ao estado magnífico e diáfano da graça, onde nos transpomos de um exército para outro, e de anjos malditos passamos a ser novamente Anjos benditos.

Quiçá algumas pessoas colocadas diante das verdades acima expostas terão suas almas divididas em duas zonas opostas. Uma, luminosa, clara, alegre, porque ouvir alguém falar daquilo que merece todo o entusiasmo, ou seja, de Deus, de Nossa Senhora, da Santa Igreja Católica torna a alma límpida, leve, satisfeita.

A outra zona é obscurecida por interesses mesquinhos: vontade de fazer carreira, de ganhar dinheiro, de aparecer, de ser importante. Isso deixa a alma escura, pesada, abatida, arfando e pensando: “Quando me virão o dinheiro e o prazer que eu quero?” Se vierem, essas pessoas farão o mesmo que realizam todos aqueles que possuem essas coisas: quando a mão está bem cheia, deixam cair no chão porque de nada servia aquilo tudo. Essa é a realidade.

Peçamos a Nossa Senhora a admiração desinteressada e inocente, ponto de partida invencível de todo o ódio necessariamente fulminante, esmagador e vitorioso contra a Revolução”.    (Extraído de conferência de 27/10/1979)

 

 



[1] Todo o texto a seguir extraímos da revista  “Dr. Plínio”, junho de 2020, páginas 18/20