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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

SÃO GREGÓRIO MAGNO





  

LANÇOU as sementes da Idade Média


No "Dictionnaire de la Conversation et de la Lecture" ( William Duckett ), encontramos as seguintes indicações biográficas sobre São Gregório Magno.

“(...) São Gregório nasceu em Roma, em torno do ano 540, filho do rico Senador Gordien. Uma juventude estudiosa o tornou, pela variedade de seus conhecimentos, digno de ser elevado, primeiro à dignidade de Pretor pelo imperador Justino, o Jovem. Gregório se fez notar pelas luzes de seu espírito, a maturidade de seu julgamento e um amor extremo da justiça. A única coisa que se imputava a ele era um grande luxo e um esplendor inteiramente mundano em suas roupas e em seus hábitos, e tudo fazia temer que ele dissipasse a imensa fortuna que lhe tinha deixado seu pai.
Mas, por ocasião da morte de seu pai, Gregório, cuja piedade tinha lutado incessantemente contra seu fausto, apareceu, de repente, como um homem novo. Funda sete mosteiros, dos quais seis na Sicília e um em Roma, distribui aos pobres seus ricos trajes, seus preciosos móveis, e toma o hábito monástico no claustro de Santo André, do qual ele era tornou fundador, e do qual, em breve, se tornou abade, contra sua vontade, pela escolha de seus irmãos.
O jejum, a oração e o estudo tornaram-se suas ocupações únicas. Impressionando pela beleza de alguns jovens ingleses expostos como escravos à venda, no mercado de Roma, e sabendo com dor que esses insulares não eram cristãos, obteve do papa Bento I a autorização de ir pregar a fé na Grã-Bretanha. Mas mal se pôs a caminho, o clero e o povo forçaram o Papa chamá-lo de volta. Feito diácono da igreja Romana no ano de 578, foi enviado a Constantinopla pelo papa Pelágio II, em torno do ano de 580. Várias negociações importantes o detiveram por muito tempo nesta capital, onde adquiriu a estima de toda a corte. (...)
Por ocasião de sua volta a Roma, (...) o papa Pelágio procurou retê-lo, junto a si, na qualidade de secretário. O mundo pesava, entretanto, demais a Gregório, para que este cargo lhe conviesse por muito tempo. A força de orações ficou, afinal, livre para se retirar junto a seus monges. Mas, por ocasião da morte de Pelágio, as aclamações de Roma inteira o chamaram ao pontificado. Gregório estremeceu de temor. Ele fugiu da Cidade Eterna e escreveu ao imperador para lhe suplicar de não o confirmar na sua eleição e escondeu-se numa caverna. Mas o povo o descobriu, levou-o a Roma e o entronizou, apesar dele, no dia 13 de Setembro de 590.
Esse santo homem tinha, entretanto, inimigos que o acusaram de dissimulação e de hipocrisia. Sua vida inteira repudia essas acusações. Sua modéstia, sua humildade se manifestaram pela simplicidade de sua casa. Seu palácio tomou todas as aparências de um mosteiro; sua igreja mesmo, era sem fausto e sem pompas. Suas rendas foram consagradas ao alívio dos pobres. Sua constante ocupação era a instrução do povo. De acordo com o imperador Maurício, ele acabou com o cisma dos bispos da Ístria. (...) A conversão dos lombardos e a destruição do arianismo foram também sua obra, e ele testemunhou uma alegria extraordinária pelo fato, nas cartas à Rainha Theodelide. (...)
Gregório não tinha, no entanto, esquecido dos pagãos da Grã-Bretanha. Seus missionários, partidos em 595, sob a direção do monge Agostinho, chegaram dois anos depois ao reino de Kent, onde a Rainha Berta já tinha preparado seu triunfo. O rei Ethelbert e uma grande parte de seu povo se converteram. (...)
Ele teve menos trabalho em reformar a liturgia do que a disciplina. Depois de ter composto um Antifonário, regulou a ordem dos salmos, as orações, os cânticos. Institui uma academia de cantores (scholam ... cantorum ) e,  de chicote em punho, dava ele mesmo lições de cantochão aos jovens clérigos. (...)
Quanto aos templos dos pagãos, queria que fossem respeitados, mas que fossem transformados em Igrejas. (...)
Tantos trabalhos e fadigas não eram próprias a curá-lo das enfermidades que não cessavam de o assediar. A gota o retinha freqüentemente no leito mas suas horríveis dores não detinham a atividade prodigiosa de seu espírito. Nenhum papa escreveu mais cartas do que ele (...)
Tinha um tato maravilhoso para distinguir a verdade da calúnia nas acusações que lhe chegavam contra os padres. Os falsários, os bruxos os simoníacos, os cismáticos, tiveram nesse papa um adversário terrível
Esse grande pontífice morreu no dia 12 de Março de 604, depois de treze anos, seis meses e dez dias de pontificado.
Os comentários que ele fez à Sagrada Escritura exerceram no pensamento cristão da Idade Média influência considerável, que lhe valeu o título de Doutor. É com Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Jerônimo, um dos quatro grandes doutores da Igreja Latina”.

É muito merecida a consideração de que São Gregório Magno foi o verdadeiro fundador da Idade Média. Porque notamos nos traços de sua vida extraordinariamente rica, quer enquanto simples sacerdote ou diácono, quer depois quando foi elevado ao pontificado, que, de algum modo, acabava de se fechar a última réstia da porta que nos separava da antigüidade pagã, e que ele, por outro lado, abre a porta para a idade nova que ia nascer.
Do ponto de vista da antigüidade pagã, vemos como combateu os restos do paganismo. Ele determinou que as últimas Igrejas pagãs existentes ainda não fossem destruídas, mas também que não continuassem o culto dos pagãos e fossem transferidas para o culto católico. Ele exterminou o arianismo, que era uma praga que provinha ainda do tempo do Império Romano do Ocidente, quando os arianos penetraram na Europa, perverteram os bárbaros e com as invasões bárbaras invadiram o Império Romano do Ocidente.
Ele liquidou com a imoralidade e com os outros inconvenientes decorrentes da era antiga e, ao mesmo tempo, ele nos aparece como o construtor da era nova. Ele é fundador de conventos - e essa é uma das obras mais características: a expansão da vida cenobítica é um dos fatos mais característicos do começo da Idade Média -  e foi, ele mesmo, superior de convento; de outro lado, trabalhou pelo cantochão.
E é pitoresca essa imagem do grande papa, Doutor da Igreja, político eminente, de chicote em punho ensinando cantochão para os seus alunos não de vareta em punho, mas de chicote em punho. A imagem é pitoresca e pediria uma iluminura, ou talvez um vitral. Com a fundação do cantochão ele propriamente deu voz à Idade Média. Porque o cantochão foi a grande voz cantante da Idade Média, de ponta a ponta. E ele deu seu caráter à vida beneditina, que São Bento tinha lançado, mas que ainda não tinha tomado o seu cunho de firmeza e definição que tomou com ele.
Por outro lado é admirável na vida dele o sentido missionário. Nós o vemos ser dos que lançam a idéia das missões na Inglaterra e na Irlanda. E de lá, então, o defluxo da grande corrente dos missionários que da Inglaterra e da Irlanda voltam para o continente e vão desbravar a Germânia. Quer dizer, nós o vemos deitar as sementes da Idade Média. Nós vemos, ao mesmo tempo, esse homem tratar, inutilmente, da grande chaga da Cristandade naquele tempo: era o Império Romano do Oriente cada vez mais tendente ao cisma. Esse império cambaleava sempre entre a heresia e a verdade católica.
E por fim, como os senhores sabem, acabou ruindo. Mas os senhores vêem que foi lá que ele tentou segurar esse muro da cidade de Jesus Cristo, que ameaçava cair e os senhores têm mais um exemplo da suma ingratidão de Bizâncio diante do zelo dos papas. Homem como esses chegam até a ser bem quistos lá e a conquistar influência, mas não chegam a arrancar a cidade maldita, a cidade pervertida, da sua imoralidade, da sua moleza, de sua imprevidência e de seu pendor para a heresia.
Assim, pode-se dizer que todos os problemas do tempo passaram pela mente desse grande homem. Ele os analisou, ele os enfrentou, e ao mesmo tempo, escreveu obras que foram obras pilares do pensamento medieval. Vida riquíssima, vida admirável, toda voltada ao serviço da Igreja Católica e da Civilização Cristã.
Se São Gregório ressuscitasse hoje, o que é ele diria? O que do alto do céu ele dirá deste mundo de hoje, tão diferente do mundo que ele conheceu? Ele viveu numa época dura, época de desordem, época até de crimes aberrantes. Mas vejam os senhores que povo! Um povo que participava dos males da época mas, ao mesmo tempo, aclamava um santo como papa; e o santo fugia do povo e o povo ia no encalço do santo e o colocava no papado. Era um povo capaz de discernir um santo do que não era santo e capaz de preferir o santo em relação ao que não era santo. Hoje seria a mesma coisa? São muitos o que fogem do papado? E o povo iria ao encalço do santo para o levar ao papado? Como tudo mudou...
Vamos pedir a São Gregório I, a São Gregório Magno, que ele trabalhe para conseguir que a nossa época, depois das punições purificadoras pelas quais ela deve passar, se transforme numa nova Idade Média, ainda mais requintada. Pedido que ele compreenderá, ele que foi um dos fundadores da gloriosíssima Idade Média.

(Plinio Corrêa de Oliveira – Conferência "Santo do Dia", 11 de março de 1967)

NOTA: Antigamente, São Gregório Magno era festejado no dia 12 de março, data de seu falecimento no ano 604; No calendário atual a festa de São Gregório Magno se celebra no dia 3 de setembro.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

SANTA ROSA DE LIMA







SANTA ROSA DE LIMA FREOU EM GRANDE PARTE A CORRUPÇÃO DOS COSTUMES E CRIARAM-SE CONDIÇÕES MENOS FAVORÁVEIS Á REVOLUÇÃO

A respeito de Santa Rosa de Lima temos uma ficha biográfica tirada da obra “L’Année Liturgique”, de Dom Guéranger:

“Infelizmente, algum tempo após a gloriosa conquista da América pelos espanhóis, em Lima, fundada aos pés das cordilheiras andinas como a metrópole de uma província, a corrupção era tal que São Francisco Solano precisou imitar ao profeta Jonas e ameaçá-la como Nínive dos castigos divinos. Mas a misericórdia divina já se manifestara na alma de uma criança capaz de todas as expiações.

“Tinha ela somente 31 anos quando em meio à noite que iniciava a festa de São Bartolomeu, no ano de 1617, ouviu o brado: ‘Eis o esposo’ (MT. 25, 6). Em Lima, em todo Peru, na América inteira, prodígios de conversão e graça assinalaram a passagem da humilde virgem desconhecida até então. Atestou-se juridicamente, afirma o Sumo Pontífice (em sua bula de canonização), que desde a descoberta do Peru nenhum missionário foi encontrado que tivesse produzido semelhante espírito universal de penitência. E cinco anos mais tarde era dedicado o mosteiro de Santa Catarina de Siena que devia continuar em Lima a obra de santificação, de cura, de defesa social, e que se chamaria o Mosteiro de Rosa, que ela de fato diante de Deus era fundadora e a mãe.

“E esta criança que só fizera rezar e sofrer, que no meio da corrupção do mundo oferecera a Deus sua virgindade, que só buscava o silêncio e a obscuridade, tornou-se a padroeira do Peru e mesmo o Papa Clemente X estendeu a sua proteção às Índias, às Filipinas e à América inteira”.

A seguir, uma ficha de Daras:

“O zelo da casa de Deus a devorava. Quando voltava os olhos para as nações infiéis da América meridional, sofria em sua alma torturas indizíveis e chorava. Concitava os sacerdotes, religiosos, de voarem em socorro dessas almas. Ela pensou em adotar e educar um menino para consagrá-lo depois às missões. A morte impediu-a de realizar este projeto.

“Um dia ela pensou que ia colher a palma do martírio e grande foi o seu entusiasmo. Avistou-se ao largo uma frota holandesa que parecia querer tentar um desembarque em Lima. Para os marinheiros heréticos isto era o sinal para a pilhagem das igrejas. O alarme foi dado à cidade. Rosa dirigiu-se à igreja de São Domingos e demonstrou sua intenção de se fazer massacrar cobrindo o tabernáculo com seus braços. Viu-se esta virgem tímida rasgar a barra de seu vestido para ter mais agilidade e, desarmada, colocar-se ao pé do altar em postura de guerreira. Mas Deus contentou-se somente com essa demonstração de zelo. A frota inimiga afastou-se sem fazer dano.

“Esta santa colocara em Deus toda sua esperança. Cantava com frequência esse versículo familiar aos Padres do deserto: Ó Deus vinde em meu auxílio, dignai-vos socorrer-me. Aconteceu que sua alma fosse abalada considerando o mistério da predestinação. O Senhor a acalmou assegurando Ele mesmo: Minha filha, eu só condeno aquele que se quer condenar. Guarda em paz a tua alma”.

Estes fatos da vida de Santa Rosa de Lima nos põem um pouco diante das condições da América Latina naquele tempo. Aconteceu que no Brasil, tanto quanto na América Espanhola, a vinda dos ibéricos para cá produzia um trauma moral dos mais perigosos. Eles eram os homens que vinham da Europa, que tinham sede de aventura, de natureza rústica e selvagem, e que chegando aqui se entregavam às aventuras. Encontrando aqui uma natureza tropical exuberante, com condições climáticas que favoreciam a luxúria e a nudez, eles de todos os modos se deixavam dissolver num ambiente onde a vulgaridade e a corrupção moral ombreavam, o que determinava uma baixa de nível tremenda.


 Santa Rosa de Lima viu que se não houvesse uma grande graça e uma grande reação, seria impossível evitar que essas povoações frustrassem os desígnios santos da Providência, quando encaminhou exatamente os povos ibéricos para cá. Povos que haveriam de ser tão fiéis à fé católica, o que determinaria exatamente a formação desse imenso bloco católico que ia antigamente desde os Estados Unidos até o litoral extremo sul da Argentina e do Chile.
Nessas condições, era preciso fazer uma grande obra. O curioso é que Deus não suscitou para a América inteira um grande pregador. Ele pôs aqui, lá, acolá grandes pregadores, mas de âmbito restrito. Uma pessoa que tivesse uma missão de caráter universal foi Santa Rosa de Lima! E o foi porque era uma alma penitente, uma alma suplicante e Deus queria que se fizesse, no plano da Comunhão dos Santos, aquilo que era necessário para salvar a América.
Veio daí exatamente que sua fama de santidade percorreu toda América e determinou incontáveis milagres e conversões. E - fato particularmente precioso - o espírito que ela suscitava em torno de si era o de penitência, o espírito de mortificação, que é tão duro e tão difícil de despertar.
Com isso naturalmente ela freou em grande parte a corrupção dos costumes e por sua ação, que foi correspondida pelas pessoas de um modo apenas incompleto, criaram-se condições menos favoráveis à Revolução, o que determinou por sua vez uma marcha mais lenta da Revolução em nosso continente.
Vemos assim o que pode uma alma só, desde que se entregue a Nossa Senhora de fato, desde que resolva renunciar a todas as vantagens e todas as molezas da terra, entregando-se realmente à misericórdia de Deus e à penitência.
Aqui está uma grande lição!
Uma pessoa que corresponda inteiramente à graça pode fazer um bem indizível, se se santificar. E é a coragem de se deixar fazer santo de altar que se deve pedir a Nossa Senhora.
Que Ela nos dê essa coragem pela via que entender e, especialmente, pela pequena via de Santa Teresinha do Menino Jesus, em que não é o homem que vai à frente da coragem, mas é a coragem que vai de encontro ao homem e nele habita quando menos se espera, a fim de realizar grandes obras.
Vamos pedir, portanto, a Santa Rosa de Lima que tanto bem faz a este continente, para que ela faça bem a nós também para preservação e continuação de sua obra, para que realmente a América Latina possa ser o campo de escol para o Reino de Maria.
(Plinio Corrêa de oliveira, parte da conferência “Santo do Dia”, 29 de agosto de 1967)