Mostrando postagens com marcador Meditações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meditações. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de novembro de 2021

A ALMA CULPADA DIANTE DO JUIZ DIVINO

 



Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor. 5, 10).

Sumário. Têm-se visto criminosos banhados em suor frio, na presença de um juiz terrestre. Que maior terror não deve sentir o pecador diante do tribunal de Jesus Cristo? Ó céus! Verá acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, ao outro os demônios armados para o seu suplício. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, impressionado por esta grande verdade, resolveu deixar o mundo e fez-se religioso. Meu irmão, o que farás? Continuarás a viver em teu estado de tibieza?

I. É sentimento comum entre os teólogos, que o juízo particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que não manda alguém em seu lugar, mas vem ele mesmo para a julgar. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez seu Redentor, o vir indignado!

Ante faciem indignationis eius quis stabit? (1) – “Diante da face de sua indignação quem é que poderá subsistir?” Este pensamento causava tal estremecimento ao Padre Luiz Dupont, que fazia tremer consigo a cela onde se achava. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, ouvindo cantar o Dies irae, e pensando no terror que se há de apoderar da alma ao comparecer em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. – O aspecto do Juiz indignado será o anúncio da condenação: Indignatio regis, nuntii mortis (2). Segundo São Bernardo, será maior sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.

Têm-se visto criminosos banhados em suor frio na presença de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado em traje de réu, sentiu tamanha confusão, que a si próprio se deu a morte. Que pena não é para um filho ou para um vassalo ver seu pai ou seu príncipe indignado! Que maior mágoa não deve sentir a alma à vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Videbunt in quem transfixerunt (3) – “Verão aquele a quem traspassaram”. Esse Cordeiro, tão paciente durante a vida do pecador, então mostrar-se-lhe-á irritado, sem esperança de se deixar aplacar. Pelo que a alma pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem às iras do Cordeiro indignado: Montes, cadite super nos, abscondite nos ab ira Agni (4).

II. Opinam os Doutores que o divino Juiz virá julgar a alma em forma humana, e portanto com as mesmas chagas com que deixou a terra. Estas chagas serão motivo de consolação para os justos, mas que terror e espanto não inspirarão ao pecador! A vista do Homem-Deus, que, morreu para o salvar, far-lhe-á sentir mais vivamente a sua ingratidão.

Quando José do Egito disse a seus irmãos: Eu sou José, a quem vendestes, diz a Escritura, que pelo terror perderam a fala e ficaram calados (5). Que responderá, pois, o pecador a Jesus Cristo? Terá coragem de lhe pedir misericórdia, quando, primeiro que tudo, tem de lhe dar contas do abuso que fez da misericórdia? Que fará então? Pergunta Santo Agostinho, para onde fugirá o miserável, quando vir acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, a outro os demônios armados para execução do suplício e dentro de si os remorsos de sua consciência?

Ó meu Jesus, quero chamar-Vos sempre Jesus; vosso nome me consola e me anima, recordando-me que sois o Salvador que morreu para me salvar. Aqui me tendes a vossos pés; confesso que mereci o inferno tantas vezes quantas Vos ofendi pelo pecado mortal. Sou indigno de perdão, mas Vós morrestes para me perdoar. Ah, meu Jesus, perdoai-me antes de virdes a julgar-me. Então não poderei implorar a vossa misericórdia; mas agora posso pedi-la e espero-a. Então vossas chagas me inspirarão terror, agora insipiram-me confiança. Meu querido Redentor, acima de todos os males, arrependo-me de ter ofendido a vossa bondade infinita. Estou resolvido, antes, a aceitar todas as penas, todos os sacrifícios, do que vir a perder a vossa graça. Amo-Vos de todo o coração. Tende piedade de mim, segundo a vossa grande misericórdia: Miserere mei secundum magnam misericordiam tuam (6). – Ó Maria, Mãe de misericórdia, Advogada dos pecadores, obtentede-me uma grande dor dos meus pecados, o perdão e a perseverança no amor divino. Amo-vos, ó minha Rainha, e em vós ponho minha confiança. (II 108.)

1. Nah. 1, 6.
2. Prov. 16, 14.
3. Io. 19, 37,
4. Apoc. 6, 16.
5. Gen. 45, 4.
6. Ps. 50, 1.

(Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso)

 


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

MEDITAÇÃO DE DR. PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA SOBRE O NATAL

 



Vou dar duas meditações e depois perguntarei aos senhores qual dos modos de considerar o Santo Natal lhes fala mais. Porque eu quereria fazer um pouquinho um teste como sopram os espíritos na geração que sucedeu a geração que sucedeu à minha.

Farei uma primeira meditação que tem uma altíssima autoridade, porque tirada diretamente de Santo Inácio de Loyola. Vou adaptá-la um pouco aos senhores. porque ele a faz sem adorno.

Diz ele que, no acontecimento do Natal, Nosso Senhor Jesus Cristo quis dar aos homens uma lição e o mundo, ou seja, o conjunto dos que vivem não para Deus mas para si mesmos, o conjunto dos egoístas, que são a imensa maioria dos homens, sobretudo nas épocas de decadência, como era quando Nosso Senhor nasceu e como é a época em que vivemos, o egoísmo deles propende para um dos três objetivos seguintes: em primeiro lugar, as riquezas; segundo lugar, as delícias; terceiro lugar, as honras.

Como delícias ele entende os prazeres que os sentidos podem dar, antes de tudo sensuais; depois, os prazeres da degustação, da vista, do olfato, do ouvido; enfim, tudo quanto a vida de luxo pode dar de agradável, de gostoso.

Por riquezas entende algo diferente: é a simples posse do dinheiro. É a avareza daqueles que procuram o dinheiro não por causa dos prazeres que este pode trazer, porque neste caso o que move as pessoas não é a sede do dinheiro, mas a sede dos prazeres - o dinheiro é um meio, não é um fim. Mas os que tem a mania do dinheiro, quer dizer, querem ser ricos por serem ricos. Não tiram proveito nenhum de sua fortuna, vivem às vezes de modo muito obscuro, muito apagado, muito banal, às vezes vivem até de modo miserável, para terem a alegria de sentirem-se continuamente de posse de uma grande quantia de dinheiro.

Depois há o prazer das honras. São as pessoas que não procuram tanto o dinheiro nem a vida agradável, quanto procuram a consideração dos outros, querem ser objeto de grandes homenagens, de grandes atenções, de grandes reverências; eles procuram o prestígio.

Essa classificação é perfeitamente bem feita! Em última análise, o egoísmo dos homens tem um desses três objetos. Os Senhores. notarão mesmo em torno de si - talvez notem em si mesmos, fazendo exame de consciência... Cada um dos Senhores, no fundo, se se deixasse atrair, iria atrás de um desses três polos.

Os Senhores. dirão: “Mas Dr. Plinio, está meio esquemática essa classificação, porque a pessoa pode ir trás das três coisas ao mesmo tempo: gostar muito do dinheiro, muito das delícias e muito do prestígio”.

Eu digo: é verdade. Mas está no espírito humano necessariamente o seguinte: a pessoa gosta de uma dessas coisas muito mais do que das outras. De maneira que, depois de ter experimentado todas elas, acaba fixando-se em uma, e fazendo desta a finalidade de sua vida.

Há no homem uma certa unidade pela qual ele tem também uma unidade de objetivos, conforme ensina São Tomás de Aquino. E quando não se procura a Deus como seu fim último, busca-se um desses três gêneros de prazeres como seu fim último.

Por Sua vida, Nosso Senhor provou o nada desses prazeres

Então, Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para provar aos homens como esses prazeres não valem nada.

Essa prova evidentemente só vale para os católicos. A prova tem como ponto de partida a convicção de que Nosso Senhor Jesus Cristo é Homem-Deus e que, portanto, toda a lição que Ele dá é infinitamente sábia, infinitamente verdadeira. Um ateu evidentemente não pode aceitar essa prova.

Mas como é que haveremos de fazer uma meditação de Natal para um ateu? É impossível, uma vez que ele nega os pressupostos do Natal. Estas considerações são, portanto, para um católico.

Mais ainda. Não é uma meditação para um católico qualquer, mas para um católico que tem algum fervor, ser capaz de algum modo, em alguma medida pelo menos, impressionar-se com as coisas da religião. Não é desses católicos tíbios, que os Senhores. encontram em tal quantidade por aí, que diga-se a eles o que se disser em matéria de religião, não se incomodam.

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio supõem um católico com alguma possibilidade de se impressionar e de se sensibilizar pelos temas da religião, algum desejo de ser coerente com sua Fé, que deduz dos princípios religiosos algumas consequências para o seu procedimento e considera insuportável estar em incoerência.

Então, Santo Inácio propõe uma meditação sobre o Natal e atrai a atenção das pessoas que são levadas, por um desses três objetivos idolátricos, a esquecer a Deus por causa do dinheiro, dos prazeres, ou das honras.

Ele visa - antes de tudo - as riquezas e pergunta: de que valem as riquezas deste mundo? Nosso Senhor Jesus Cristo é o criador do céu e da terra, é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, é Deus, e criou o Céu e a terra porque as operações de Deus são conjuntas das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Foram as três Pessoas da Santíssima Trindade que criaram conjuntamente o universo. Portanto criaram todas as riquezas que há na Terra. Quer dizer, tudo quanto existe na terra de maravilhoso, de belo, de útil, de capaz de fundamentar a prosperidade de um homem, foi Deus que criou. De maneira que ninguém pode ter uma riqueza comparável com a de Deus.

Deus que criou todas as riquezas que existem e - mais ainda - tem um poder inesgotável de criar quantas riquezas queira, sem o menor esforço, sem a menor aplicação especial, porque Ele é Onipotente e exerce sua onipotência com perfeitíssima facilidade. De maneira que basta olharmos para as estrelas do céu e compreendermos cada uma delas que riqueza representa, para entendermos com que facilidade Deus cria tudo. De modo que tudo quanto há na criação, Ele poderia criar um número insondável de vezes, outro tanto e mais tanto, inesgotavelmente e com a mesma facilidade com que cria um grão de areia, de tal maneira Deus é infinitamente rico. Rico na Sua essência, muito mais do que simplesmente por aquilo que Ele criou.

Ora, esse Deus tão infinitamente rico quis vir à Terra como pobre, quis nascer de um pai carpinteiro, de uma Mãe que executava serviços domésticos em casa; quis nascer numa manjedoura, ou seja, num lugar mais pobre que se possa imaginar; tendo como aquecimento apenas o bafo de alguns animais e as roupinhas que Nossa Senhora fez para Ele; tendo como asilo não uma residência de homens, mas um local para animais, era onde os bichos iam para comer. Foi ali que nasceu o Verbo de Deus!

Ele quis mostrar assim, o quanto o homem deve ser indiferente às riquezas quando se trata de compará-las com o serviço de Deus. E que, portanto, o homem deve viver - antes de tudo - não para ser rico, não para ter grandes cabedais, mas para amar a Deus, louvá-Lo, servi-Lo nesta terra, para depois ir adorá-Lo no Céu por toda a eternidade.

Então, esses homens que vemos em torno de nós que correm debandadamente atrás do dinheiro, que fazem da posse do dinheiro a única preocupação de sua vida, que fazem das conversas sobre o dinheiro o tema mais agradável, que mais os atrai, que mais os interessa; que colocam toda felicidade na idéia de que eles possuem dinheiro e que nunca ficarão pobres e, pelo contrário, vão ficar cada vez mais ricos... esses homens são uns verdadeiros insensatos. Porque os bens que possuem, por mais que valham, são uma parcela minúscula do que existe no Universo. E para Deus não são senão um pouquinho de poeira e de lama.

Admitamos que o homem mais rico do mundo seja um X. E que a relação de seus bens ocupasse um catálogo do tamanho de uma lista telefônica: imóveis, dinheiro, títulos, créditos, objetos de valor, etc., etc. O que seria tudo isto em comparação com Deus Nosso Senhor? Absolutamente nada.

Então, X e esses que vivem exclusivamente para o dinheiro, ou principalmente para o dinheiro e fazem de sua posse o único objetivo da vida, estes procedem como verdadeiros insensatos, porque calcam aos pés a lição que Nosso Senhor Jesus Cristo lhes deu no Presépio. Não compreendem que aí Nosso Senhor deu a entender o seguinte: o homem pode desejar riquezas, adquiri-las e conservá-las desde que não faça disto o objetivo supremo de sua vida. Este deve ser a glória de Deus, portanto, a glória da Igreja Católica, portanto, a vitória da Contra-Revolução sobre a Revolução. A preocupação financeira tem que ser uma preocupação colateral, sob pena de o católico - como um verdadeiro demente - inverter a ordem dos valores e amar mais o que devia amar menos, e amar menos o que devia amar mais. Isso é quanto ao dinheiro.

Quanto às delícias: Nosso Senhor Jesus Cristo - se tivesse querido - teria mandado reunir no Presépio todas as sedas, as mais deliciosas do universo; teria podido mandar os Anjos introduzirem no local onde nasceu todos os perfumes, os mais agradáveis; Ele poderia ter, para ouvir a música mais agradável que todas que existem na Terra. Porque se os Anjos cantaram para os pastores ouvirem, quanto mais eles cantariam para o Menino Jesus! E não há música terrena que de longe possa se comparar à música angélica. O Menino Jesus poderia ter tido agasalhos super-eficazes; poderia ter sido nutrido desde o começo com as melhores comidas que há no mundo; em uma palavra, Ele poderia se ter enchido de delícias logo no primeiro momento de Sua vida terrena.

O que Ele fez? Foi o contrário: quis nascer deitado sobre palha, um material cujo contato não dá nenhum regalo para o corpo; quis estar numa manjedoura, onde o cheiro normalmente não é bom, por mais que Nossa Senhora e São José tenham limpado o local antes; quis estar tiritando de frio, nascendo à meia-noite de um mês que nesse lugar onde nasceu é um mês de inverno e, portanto, de muito frio; quis ter como música apenas o mugido dos animais que estavam junto a Ele. Ou seja, o contrário de todas as delícias que se possam imaginar. Ele quis tudo isso para mostrar aos homens que é uma loucura fazer das delícias a principal finalidade da vida.

A lição que Ele nos dá é o contrário: desde que seja para o bem das almas, desde que seja para a glória de Deus, a gente deve desfazer-se imediatamente de todas as delícias e deve procurar apenas aquilo que seja para o bem da Causa de Nossa Senhora, embora com muito sacrifício e com muita renúncia, é o que se deve fazer.

Terceiro: as honras. As “honras” equivale a dizer um desejo desregrado do próprio prestígio, ou seja, a “megalice”. O que vem a ser as honras? É a pessoa ser objeto de reverências por ser mais do que outro. Por ser mais inteligente, ou ser mais jeitoso, ou por ser mais engraçado, ou por ser mais diplomático, ou por ser mais interessante, ou por ser mais simpático, ou por qualquer outra coisa que a pessoa possa encontrar no caminho, que tenha ou que imagine ter e então acha que tem direito a uma atenção especial.

Às vezes é tal a miséria humana que o homem se envaidece até das coisas que não seriam motivo para isso. O famoso São Paulo Eremita, depois que ficou muito velho, vivendo sozinho no deserto, num momento considerou que ele seria provavelmente o homem mais velho da Terra. Ora, o homem mais velho da terra é o que está mais perto da sepultura!... Não dava para ficar vaidoso disso. Pois ele teve que lutar contra essa tentação. Se ele dissesse: "Sou o homem mais maduro da Terra", que atingiu, embora efemeramente, o ponto de mais perfeita maturidade, de maior conciliação entre o que a idade pode dar e a juventude pode conservar, seria errado, mas ao menos haveria um fragmento de lógica dentro disso. Mas se o homem se envaidece por ser o mais velho da Terra, simplesmente é um disparate! Mas até com isso um homem pode envaidecer...

Nosso Senhor Jesus Cristo quis nascer despojado de tudo quanto pudesse envaidecer. É fato que Ele nasceu da Casa Real de David, era Príncipe dessa Casa que perdera seu poder político, seu prestígio social, seu dinheiro, em que Ele não era absolutamente nada na ordem terrena das coisas. Seu pai era carpinteiro, Sua Mãe fazia - como já disse - serviços domésticos...

Nasceu como um pária, fora da cidade, porque lá ninguém quis dar acolhida a Seus pais que iam de casa em casa pedindo lugar - não havia hotéis, eram hospedarias - e não lhes receberam. Por isso Ele quis nascer numa manjedoura, para provar até que ponto são loucos os que se fazem uma ideia fixa de parecer mais do que os outros. Em vez de procurarem servir à Causa Católica procuram ser mais, ser mais, ser mais e fazem, então, desta vaidade o fim de sua vida.

Então, o modo pelo qual um católico deve aproveitar esses raciocínios é fazendo uma aplicação aos outros e a si mesmo.

Aos outros: quando se vê alguém que não vive segundo a Lei de Deus e para a glória de Deus, mas exclusivamente para sua própria vantagem - tal amigo da família, tal vizinho, tal colega de profissão que tem prestígio político por este ou aquele motivo, ou que leva uma vida deliciosa, ou que tenha muito dinheiro - se se tiver tendência de admirar aquela pessoa só por isso, deve-se dizer: Não! O procedimento dessa pessoa é censurado por Nosso Senhor no Evangelho. Nosso Senhor, que é Rei da Sabedoria Eterna, ensinou o contrário, ou seja, que essas coisas são secundárias. E tais pessoas, pondo todo empenho de suas vidas nessas coisas, agem de modo irracional e serão condenadas por causa disso no último dia.

Pelo contrário, bem-aventurados serão os que renunciarem à riqueza, aos prazeres, às honras; ou tiverem riquezas, prazeres e honras, mas sempre na disposição de renunciar a qualquer minuto, caso a Causa católica peça. Estes do partido da renúncia, eu vou admirar! E vou desprezar os outros, não vou me permitir admirar uma pessoa que não vive como deve!

Aplicação a si próprio: nas relações com os outros, o que procuro? Busco ser considerado pela minha riqueza? pela vida regalada que levo? por algum título de superioridade que tenha? Então eu não valho nada! Porque o que eu devo é não procurar que os outros me considerem, mas que amem a Deus! encaminhar os outros para o amor de Deus, não querer fixar a atenção sobre mim. Pois nesse caso estarei roubando o que é devido a Deus. Eu devo apenas me preocupar com a dedicação inteira que minha alma deve a Deus Nosso Senhor, a Nossa Senhora e à Santa Igreja Católica.

Então, segundo a escola de Santo Inácio - que é a escola verdadeira - nós devemos de dia e de noite ter estas considerações diante dos olhos e eliminar de dentro de nossa alma, com energia como quem arranca erva daninha, essas considerações mundanas que levam-nos a adorar o dinheiro, os prazeres e as honras.

Isto supõe naturalmente muita oração, porque o homem não cumpre esse propósito de pensar sempre nisso apenas com atos de força de vontade. Este é um pensamento tantas vezes penoso que a pessoa tem dificuldade de mantê-lo sempre em vista. E, mesmo tendo em vista, ter-se-á dificuldade de renunciar a tais coisas. É preciso oração, graças, mortificação para conseguir realizar isso. Mas se se agir por esta forma, conseguir-se-á e dessa maneira se poderá agradar a Deus.

Então, trata-se de ter esta meditação diante dos olhos e orientar suas orações, seu rosário, sua Comunhão, sobretudo, as Missas que assista, enfim todos atos de piedade, de apostolado que se faça, deve-se orientar tudo segundo esta ideia: desapego do dinheiro, dos prazeres e das honras.

Aqui está uma meditação feita segundo a escola de Santo Inácio de Loyola.

(Plínio Corrêa de Oliveira – Santo do Dia – 29 de dezembro de 1973)

 


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O MISTÉRIO DA NOITE DE NATAL







Santa Teresa Benedita da Cruz, OCD. (Edith Stein) publicou uma meditação sobre o Natal no final de seus exercícios espirituais, em 9 de junho de 1939, onde a temática principal é a dualidade de mistérios que envolveu a Encarnação do Verbo: o da própria Encarnação e o da iniquidade. Os martírios a seguir o de Cristo (Santo Estêvão e os Inocentes) dão bem uma idéia do que representava para a luta entre o bem e o mal, o nascimento do Salvador.

Eis como ela introduz o tema:

“Todos nós já sentimos essa felicidade na véspera de Natal, mesmo quando o céu e a terra ainda não se uniram. A estrela de Belém ainda é uma estrela à noite escura.  Apenas dois dias depois, a Igreja tira as roupas brancas e se veste com a cor do sangue, no quarto dia da  púrpura da tristeza.  Santo Estêvão, o Protomártir, o primeiro a seguir o Senhor no martírio e os Santos Inocentes de Belém de Judá, os filhos do peito brutalmente decapitados pelos soldados de Herodes, são o cortejo do Menino do Presépio. O que significa isto ? Onde está a alegria dos exércitos celestiais? Onde a beatitude silenciosa da véspera de Natal? Onde a paz na terra? "Paz na terra para homens de boa vontade". Mas nem todos têm boa vontade.
É por isso que o Filho do Pai Eterno teve que descer da grandeza da sua glória para a pequenez da terra, já que o mistério da iniqüidade a cobriu com as sombras da noite.
A escuridão cobriu a terra e Ele veio a nós como a luz que brilha na escuridão, mas a escuridão não a recebeu. Ele trouxe aqueles que o receberam luz e paz; paz com o Pai do céu, paz com todos os que são igualmente filhos da luz e do Pai celestial e a paz profunda e íntima do coração. Mas de nenhuma maneira a paz com os filhos das trevas. O Príncipe da paz não lhes traz paz, mas a espada. Para eles é uma pedra de tropeço, contra a qual eles colidem e batem.
Esta é uma verdade difícil e muito séria de que não devemos nos esconder com o encanto poético do Menino de Belén. O mistério da Encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos. À frente da luz que veio de cima, a escuridão do pecado torna-se mais escura e mais sombria. O Menino na manjedoura estende seus braços pequenos e seu sorriso parece predizer o que os lábios do homem dirão mais tarde: "Venha para mim, todos vocês cansados ​​e sobrecarregados, para que eu descanse" (Mt.11,28). Para os que ouviram o seu chamado, aos pobres pastores, a quem o brilho dos céus e a voz dos anjos lhes anunciaram as boas novas nos campos de Belém e que, no caminho, responderam a esse chamado dizendo: "Nós iremos Belém "(Lc.2,15); também para os reis que, do Extremo Oriente, seguiram com fé simples a estrela maravilhosa, para todos eles o derramamento de graça que emanava das mãos do pequeno filho foi derramado e foram "cheios de grande alegria" (Mt.2 , 10).
Essas mãos concedem e exigem ao mesmo tempo: você é sábio, deixe de lado sua sabedoria e faça-se simples como crianças; os reis, dê suas coroas e tesouros e se incline humildemente diante do Rei dos Reis e aceite sem hesitação as obras, dores e sofrimentos que seu serviço exige. De vocês, filhos, que não podem dar nada de forma voluntária, de você as mãos do Menino Jesus tomam a ternura de sua vida, quase antes de começar. Ela não poderia ser melhor empregada do que no sacrifício para o Senhor da Vida.
Siga-me! Desta forma, as mãos da Criança são expressas, assim como serão os lábios do homem (Mc 1,17). Assim falou seus lábios ao discípulo que o Senhor amou e que agora também pertence a sua comitiva. O próprio João, o mais jovem de todos, o discípulo com o coração de uma criança, seguiu-o sem perguntar onde e para o que. Ele deixou o barco de seu pai e seguiu o Senhor em todos os seus caminhos até o topo do Gólgota.
Siga-me! Estêvão fez o mesmo. Ele seguiu os passos do Senhor na luta contra o poder das trevas e contra a cegueira da incredulidade inveterada; ele finalmente deu testemunho dele com Sua palavra e com Seu sangue. Ele também o seguiu no espírito; no espírito de Amor que luta contra o pecado, mas que ama o pecador e, mesmo diante da morte, intercede diante de Deus por seus assassinos.
Estas são as figuras da luz que se ajoelham ao redor da manjedoura: os ternos filhos inocentes, os pastores fiéis, os reis humildes, Santo Estêvão, o discípulo entusiasmado e João, o apóstolo do amor. Todos seguiram o chamado do Senhor. Diante deles estende a noite fechada da incompreensível dureza do coração e da cegueira do espírito: a dos escribas, que poderia apontar com precisão para o tempo e lugar onde o Salvador do mundo deveria nascer, mas quem, no entanto, não conseguiram deduzir a partir de lá uma decisão: "Vamos a Belém" (Lc.2,15); e a do rei Herodes, que queria tirar a vida do Senhor da Vida.
Em frente à Criança reclinada na manjedoura, os espíritos estão divididos. Ele é o Rei dos Reis e Senhor sobre a vida e a morte. Ele pronuncia o seu "segue-me" e aquele que não está com ele está contra ele. Ele também nos diz e nos coloca diante da decisão entre luz e escuridão”.
  
(“El Mistério de La Nochebuena” – Edith Stein – Biblioteca de Formación para Católicos – www.alexandriae.org, págs. 3/4 )


domingo, 1 de abril de 2012

Comentário inspirado sobre o “Pai Nosso”

Na vertente ocidental do Monte das Oliveiras foi que, segundo a Tradição, Nosso Senhor nos ensinou a Oração Dominical, o conhecido Padre Nosso, ou Pai-Nosso. Os Cruzados construíram naquele lugar uma igreja destinada a perpetuar aquela recordação, depois arruinada. Sobre as ruínas daquele santuário, a princesa de Tour d’Auvergne mandou construir um novo, colocando no claustro que rodeia o edifício 32 quadros com o “Pater Noster”, em 32 línguas diferentes.
Alguns anos depois, o missionário Frei Tomé de Jesus, prisioneiro dos maometanos, compôs estas inspiradas palavra sobre a Oração Dominical:

“Ajuntai-vos comigo céu e terra, anjos, homens e toda criatura; vinde todos, louvemos, adoremos e amemos a este Senhor. Todos, Senhor, com as palavras com que nos ensinastes a orar e acender em nós a fome e sede de Vós, e atiçar os desejos de vossos bens, Vos louvamos e Vos rogamos. A elas conhecereis, pois no-las ensinastes, a elas ouvireis, pois para sermos ouvidos no-las destes, por elas nos dareis vivos e perpétuos desejos de vos amar e servir, pois para isso no-las mandastes dizer.
“Pater-Noster – Padre Eterno, Padre Soberano, Padre Todo-Poderoso, Padre Infinito, Padre misericordiosíssimo, Padre amigo nosso, Senhor Nosso, que nos tendes escrito nesse eterno amor vosso. Padre, que assim sois nosso, que tudo fora de Vós nos é alheio, e que nos não olhais senão como amantíssimos filhos vossos.
”Qui es in Coelis – Com esse amor nos esperais nessa celestial casa em que morais, levantai a ela nosso desejo. Já que aqui nos trazei desterrados, não para aqui nos lançardes de Vós, mas para nos levardes por aqui a Vós; prendei convosco nossos desejos, para que com fastio das coisas da terra que nos tem degredados de Vós, sempre de todo, e em tudo, e com todo interior e exterior suspiremos a Vós.
“Santificetur nomen tuum – Fazei-nos estimar a grandeza, majestade, divindade deste paternal nome; fazei que nos prezemos todos de vossos filhos. Trazei o mundo a vosso conhecimento. Mostrem nossos desejos, nossas obras, nossas palavras, que somos filhos vossos, que só por vossa honra suspiramos, só vossa glória e serviço desejamos; e pareçamos, Padre-Santo, filhos dessa
de filhos vossos, todas as coisas que nos querem tirar de Vós, porque só Vós reineis em nós. Ó Padre-Nosso, olhai o perigo em que vivemos, encurtai este degredo e levai-nos a divina santidade.
“Adveniat ad Regnum tuum – Fujam de nós, como Vós. Como, Senhor, sofreis que Vos amemos e Vos não vejamos? E se cumpre estar ainda mais tempo degredados, Vós sabeis morar neste coração. Vinde, Padre e Senhor, aqui reinai, e aqui morai, e se fizerdes desta alma Vosso reino, detenha-se o celestial quanto quiserdes porque nem cá, nem lá, desejo senão que reineis Vós em mim, e tenhais plenário senhorio em todas nossas almas.
“Fiat voluntas tua – Ah! Vinde, Padre Eterno! Alargai, Senhor, vossa bondade, senhoreai tudo, fazei-Vos obedecer de todos. Vós sabeis que não aproveita nada todo nosso ser, senão quanto podeis ser em nós servido. Vossas vontades todas são de pai amigo, de pai cuidadoso de nosso bem. Pois quem nos engana para nos fiarmos doutra vontade, senão da vossa? Viva, viva Senhor essa vontade boníssima, todas as contrárias diferentes se consumam.
“Sicut in Coelo, et in terra – Dessa vossa vontade está a corte do Céu quieta, contente, segura, rica, sem temor e confirmada em todos os bens. Pois que tem a terra cheia de perigos e de inimigos, para se fiar doutras vontades diferentes das vossas? Ó Senhor meu, tirai esta presunção da terra, submetei-a toda a Vós, como submeteis o Céu.
“Panem nostrum quotidianum da nobis hodie – E pois a sustentação da nossa vida nesta vossa obediência se resume, e todas as almas de vossas paternais bondades e graças se mantêm, todos os dias nos ajudai com elas, seja cada dia vosso, e em cada um dos dias nos visitai com vossas mercês, para que renovados cada dia e cada hora com vosso espiritual mantimento, e amor e desejo de Vós, com viva fome cada dia e cada hora suspiremos por Vós, sem haver outro desejo que nestes corações entre. Comece isto hoje, pois nos não destes dia certo de amanhã e continuai-o em cada dia até que chegue aquele que não tem passado nem futuro.
“Dimite nobis debita nostra – Não impeçam estas vossas mercês nossos pecados. As dívidas, em que Vos estou de Vos servir e amar, nunca, meu Deus, mas quiteis, quero-as satisfazer, e quero-vos cada dia mais dever. Mas as dívidas do amor, que Vos tirei e dei a coisas baixas, saldai-mas Senhor, que vo-las não posso pagar senão com Vos tornar o amor. Aqui vo-lo restituo frio, e pervertido, Vós vos satisfazei com ele, e o purificai ao modo de Vosso gosto e o mais em que pequei, me perdoai com misericórdia.
“Sicut, et nos dimittimus debitoribus nostris – Penhorado estais, Senhor, a me perdoar como quem sois, pois que me obrigastes a perdoar com toda minha fraca possibilidade e graça vossa a quem me agravasse, ao modo que Vós perdoais tudo; e se tão largo quisestes que fosse de minha pouquidade, como haveis de ser comigo escasso de vossa largueza? Perdôo como me mandastes. Perdoai-me como podeis, para que entre Vós e mim não haja meio, nem impedimento, nem pejo.
“Et ne nos inducas in tentatione – Fazei, Senhor, em mim esta obra perfeita, tomai-me todo à vossa conta, e livrai-me das tentações que me perturbam. Padre Eterno, que não quisestes que vossos filhos terrenos fossem tentados para serem perdidos, e sabeis quantos bens perderemos se formos vencidos, tentai-nos, e provai-nos da maneira que quiserdes, mas pelejai e vencei em nós com amor.
“Sed libera nos a malo. Amem. – Olhai, Senhor, quão maliciosa é certa carne, de que estamos cercados, e de que só vossa mão nos pode livrar. Olhai quantos males nos cercam e por nós tiram. Olhai a quantos males estes vossos filhos desterrados estamos arriscados. Olhai, que sem vossa paternal ajuda nada podemos. Acudi com vossa poderosa mão, livrai-nos de todos os males, que de Vós nos podem apartar, para que em Vós vivamos seguros. Ó Padre celestial, que prometestes a vossos filhos águas vivas, que de seus corações correriam até Vós, vida nossa eterna! Deseja agora minha alma esta sede e esta água. Ó fonte de vida, farta-me da sede de ti, e farta minha sede contigo só, sempre cada hora, cada momento, para que não seja doutra sede entrada.
“Madre de misericórdia, que sempre desejáveis, e sempre vos fartáveis só destes soberanos bens. Compadecei-vos dos desterrados filhos de Eva. Venha por Vosso merecimento este fogo do Céu, que tudo abrase. Ó corte celestial, que seguramente desejais, e plenariamente fartais os desejos, que de cá levastes, fazei-nas sequer sempre desejar os bens que tendes, para que mereçamos ajudar-vos a nos fartar deles. Amém.

terça-feira, 10 de agosto de 2010