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terça-feira, 1 de agosto de 2023

O RELATIVISMO E SEUS EFEITOS PSICOLÓGICOS NAS POPULAÇÕES

 


 

Relativismo é uma teoria filosófica criada por Hegel, também chamada de “hegelianismo”, pela qual não há verdades objetivas, tudo é relativo. Baseado nesse pressuposto ele ampliou o sentido da dialética, pelo qual há uma infinita disputa entre tese e antítese sem nunca se chegar a uma conclusão. Quando se afirma alguma coisa é uma tese e sua negação é uma antítese; esta por sua vez é uma tese que gera uma outra antítese, e assim indefinidamente sem nunca se chegar a uma conclusão, a uma verdade absoluta. Tais conceitos confusos sobre a dialética deu lugar ao relativismo, pois, não há verdade dogmática e estável, tudo é relativo.

O relativismo hegeliano pode ser visto apenas no campo das opiniões, pois na opinião pode haver mais dúvida do que certeza. As pessoas emitem opiniões, espécies de sentenças ou juízos pessoais, aceitando ou repudiando aquilo que está sob seu julgamento. Mas, emitir opinião simplesmente não basta para fazer juízo e ter certeza, pois nossa opinião é falha e cheia de amor-próprio. São Tomás de Aquino diz que o homem não deve ter somente opiniões, mas Fé, pois esta é firme e inabalável enquanto nossas opiniões são vulneráveis e cheias de erros. Daí o erro de Descartes e seus seguidores em eleger a dúvida como ponto de partida da certeza. O ponto final de um perfeito juízo deve, pois, ser consequência de nossa Fé, e esta é uma certeza inabalável.

Quem nos dá uma ligeira ideia a respeito do que seja “opinião” é o padre Leonel Franca numa de suas famosas obras:

“Aparentando ao que duvida é o estado de quem “opina”. Aqui o equilíbrio que caracterizava a dúvida é destruído em favor de uma das alternativas. A inteligência adere, pronuncia-se, afirma.[1] Mas as razões, as probabilidades, as verossimilhanças que a inclinam não lhe parecem decisivas e tranquilizadoras. O objeto não se ilumina com toda a sua claridade. Há uma região de penumbra e de sombra. A luz total faria talvez vê-lo do outro modo e determinaria quiçá outra atitude da inteligência. Os argumentos, por mais numerosos e sedutores que pareçam, não ultrapassam os limites do provável, deixam ainda aberta a possibilidade de outros argumentos que viriam mudar o estado da questão. A nota característica da opinião é esta inquietude, esta consciência de que a solução a que se chegou não é definitiva, este receio, não sem fundamento, de que talvez a verdade esteja do outro lado; esta “formido oppositi” de que nos falam os velhos e modernos lógicos.[2]

No caso da dúvida como no da opinião, achamo-nos em face de uma “cogitatio informis”, na expressão de S. Tomás,[3] de um pensamento que não se completou. Os dados intelectuais em jogo não levaram definitivamente à solução final. O espírito ficou suspenso sem possibilidade de uma adesão tranquilizadora.

Eis o que explica o aspecto “afetivo” que acompanha esta diferença de estados intelectuais: segurança, tranquilidade, paz, como corolários da segurança; inquietude, temor, angústia, como repercussões dolorosas da dúvida. Se a incerteza concerne não já um problema científico de alcance puramente especulativo, mas uma questão pessoal que interessa todo o nosso ser e a nossa atividade e em que se jogam os nossos destinos, esta angústia, filha da dúvida, pode atingir em almas grandes a profundidade interior de dilacerações e de torturas indizíveis. Toda a faculdade que se exerce normalmente, segundo as leis de sua natureza, dá uma impressão de prazer e de bem-estar. A dor e o sofrimento são o grito de um órgão que não funciona bem. Feita, por natureza, para a verdade, a ser possuída conscientemente na segurança da certeza, a inteligência move-se, debate-se, sofre enquanto não atinge a convicção profunda própria de sua atividade específica.

A fé não é dúvida, não é opinião; é certeza. No crente nenhuma suspensão de juízo, nenhuma adesão oscilante e tímida, mas a convicção profunda de quem está com a verdade.

Entre as certezas, porém, a fé ocupa um lugar distinto que só lhe podemos assinalar com um exame mais detido dessa atitude intelectual”.[4]

 

Entre a fé e a opinião a diferença é visível[5]

Ainda estamos falando de opinião pessoal. Mas, como fica a opinião pública? Se toda ela é baseada na soma das opiniões individuais, não há firmeza em seus conceitos, não pode haver certezas firmes nela? Evidentemente que a opinião pública necessariamente não deve ser firme e certa, ela pode estar errada ou cheia de dúvidas. O que se diz é que ela deve refletir com exatidão o consenso das opiniões individuais de seus participantes, das pessoas que a formam. É tanto que pode haver duas opiniões públicas diferentes e até divergentes uma da outra: a manifestada pelo verdadeiro povo e a das massas, sendo aquela firme e baseada na chamada “fé pública” e esta última baseada apenas em impulsos momentâneos. A diferença visível falada acima é no que se refere à opinião pessoal

Há, portanto, uma opinião pública volúvel e outra firme e inabalável. Esta última é alicerçada pela Fé de cada indivíduo ao se manifestar no conjunto da sociedade. Há também uma espécie de “Fé Pública”, que é o conjunto das crenças dogmáticas e inabaláveis manifestadas pela sociedade dos fiéis, a Santa Igreja. É ela a expressão viva do Corpo Místico de Cristo.

São Tomás disse, conforme acima, que quem tem opinião não quer dizer que tem Fé, porque a opinião é algo inconsistente, não é uma convicção inabalável como a Fé, que nunca é o parecer ou a opinião pessoal. Mas, ele está se referindo aí à opinião pessoal. A opinião pública é, portanto, diversificada, nunca é a mesma, nunca é unânime numa determinada sociedade, haja vista uma de suas definições que diz ser ela “o conjunto das impressões” de determinado grupo de pessoas. Quer dizer, “impressões” não é certeza. Exceção feita aos que manifestam sua Fé de forma pública, pois aí temos algo firme, uma certeza, sendo manifestada na opinião pública. Podemos dizer que há outra opinião pública, considerada mais legítima, pois não baseada em impressões, mas em raciocínios lógicos e racionais, que não é fruto dos sentidos mas da mente, da razão, do intelecto, ou então, da Fé.

Hoje em dia, com as opiniões oriundas dos impulsos da mídia eletrônica, constata-se o retrato fiel desse tipo de opinião pública volúvel, inconstante e, portanto, falsa. Embora, de certo modo, ela reflita realmente a opinião das pessoas, pelo fato de ser inconsistente, baseada apenas em impressões passageiras, mudará facilmente seus conceitos para outros conforme a leve as impressões do momento.

 

Relativismo ou indiferença?

Mas, aqui vamos ver o relativismo segundo outros parâmetros. Trata-se do modo comportamental com que as pessoas vivem os princípios da Fé e não das opiniões de um ou de outro. O modo como as pessoas negam as verdades eternas dos princípios morais de convivência social e vivem como se os mesmos não existissem. Talvez o termo correto seria “indiferentismo” e não relativismo, haja vista que as pessoas se comportam de forma indiferente com relação às verdades eternas.

Que verdades são estas? Que princípios morais são estes decorrentes de tais verdades?

As principais verdades ignoradas por tal comportamento são aquelas decorrentes da Fé. As pessoas não se dizem ateus ou sem Fé, mas vivem como se ela não existisse, como se de fato não acreditassem em Deus e na doutrina cristã. Como se nota tal comportamento? É na indiferença com que se trata as coisas divinas e religiosas, negligenciando-as, não praticando-as, ou mesmo tratando-as com desprezo. Às vezes não é simplesmente o fato do católico deixar de assistir às Santas Missas, mas menosprezar quem as assiste. No seu dia a dia o mais importante são os problemas corriqueiros, as compras, as comidas, as bebidas, as festas, os passeios, etc. Deus e a Religião fica para depois, ou para nunca. Um exemplo disso é a completa ausência de qualquer símbolo religioso nos locais frequentados pelas multidões de hoje em dia, dando a impressão de que tudo pode estar ali, menos Deus.

Certo religioso (que agora não recordo o nome) fez uma homilia em que dizia que a pessoa nunca se afasta de Deus lhe dando logo as costas. Geralmente a pessoa vai se afastando, se distanciando, de frente para Ele, mas a partir de certa distância não terá nenhum escrúpulo em lhe virar completamente as costas, de tão longe que já chegou d’Ele. O que leva muita gente a se afastar assim de Deus é o relativismo.

Esse relativismo religioso da Fé manifesta-se também dentro de casa, na vida do lar. Não se reza antes e depois do deitar, ou antes e depois das refeições. Reza-se apenas quando há algo terrível acontecendo e se necessita de Deus para ajudar a resolvê-lo, como uma doença grave ou algum acidente. Também não se ensina mais as orações e o catecismo às crianças em casa. Ensinam-se aos inocentes coisas mundanas em profusão, até mesmo imoralidades a palavrões, mas nada que diga respeito à Fé cristã. Aí já não é indiferença ou relativismo, mas ateísmo prático.

 



[1] São Tomás escreveu alguma vez que na opinião não havia assentimento: “dubitans non habet assensum... similiter nec opinans”. De Verit, q. XIV, a I. Cfr. III Sent. dist. 23, q. 2, a 2, sol. 1. Ambas estas obras são trabalho de juventude. Nas posteriores, o santo afirma explicitamente a existência de uma adesão, posto que destituída de firmeza, no espírito de quem opina. Cfr. S. Theol. 2, 2ae q. 1 a 4; q. 2, a. 1.

[2] “A opinião é uma adesão mesclada de dúvida e, por isso, mais ou menos vacilante e inconstante”. E. Boirac, ‘Cours élémentaire de philosophie”, Logique. c. V, Paris, 1900, p. 287. « De ratione opinionis est quod id quod est opinatum, existimetur possibile aliter se habere ». S. Tomás, Summa II, Iiae, q. 1, a. 5, ad 4m.

[3] Questio namque quamdiu probabilibus rationibus sub dubio agitatur, quasi informis est, nondum ad veritatis certidudinem pertingens”. In Boeth, de Trinitate, Proemii explanatio.

[4] “A Psicologia da Fé”, Pe. Leonel Franca, Livraria Agir Editora, 1952, págs. 20/21.

[5] S. Tomás assim se exprime: “É da essência da opinião julgar que a cousa poderia ser diversa enquanto que, na fé, por causa de sua certeza, se julga que a cousa afirmada não pode ser diversa”.  Summa Theol. 2, 2ae q. I,  a 5, ad 4m


sábado, 29 de julho de 2023

O MUNDO E OS PECADOS SOCIAIS DAS NAÇÕES

 





No Evangelho consta que o homem tem 3 inimigos da alma, que são a carne, o mundo e o demônio. A carne são nossos instintos com suas más inclinações; o mundo é a sociedade em que vivemos, e o demônio é o anjo mau que vive constantemente nos tentando na revolta contra Deus. E, talvez, o que mais influi em nós para a vida pecaminosa são os pecados sociais, quer dizer a vida do mundo, pois muitos vivem assim pecando sem perceber o mal que fazem pelo fato de ser algo comum a todos. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira define muito bem esse “mundo”, que ele denomina de “mentalidade das Nações”:

“O ESPÍRITO DO MUNDO - E a mentalidade das Nações

Na primeira parte de sua preparação para a Consagração, São Luís Maria Grignion de Montfort deseja que as pessoas façam uma operação de esvaziamento do espírito do mundo.

Para esvaziar-se do espírito do mundo, devemos começar por saber como ele é.

O mundo é a sociedade temporal na qual o indivíduo vive. Em todo país católico, como o Brasil, existem duas sociedades: a espiritual e a temporal. Num certo sentido, a sociedade temporal vive na espiritual e, em certo outro sentido, a espiritual vive na temporal.

Habitualmente, o mundo tem um determinado modo de pensar, de agir e de viver, que todos os seus habitantes – ou pelo menos uma boa parte deles – reputa verdadeiro, exato, conforme a suas tradições, a seus costumes, a seu modo de ser, a sua cultura, etc., e querem conservá-lo.

O mundo considerado assim, ou é definidamente católico, e neste caso é um colaborador da Igreja, ou não é inteiramente católico mas, em parte ou no todo de sua mentalidade, é considerado de um modo oposto ao que a Igreja ensina e, neste segundo caso, é adversário da Igreja.

Isso supõe o princípio de que cada sociedade temporal tem uma mentalidade, ou seja, um conjunto de princípios, de modos de viver e de sentir, uma cultura, uns costumes, uma tradição, esperanças, preferências, etc., e esse conjunto representa as aspirações de todos os seus integrantes.

O indivíduo que tem a mentalidade do mundo vive muito bem nesse ambiente no qual ele tem o consenso geral, pois ele está de acordo com esse consenso. Acontece que se esse consenso não é inteiramente católico, o homem que vive nesse ambiente sofre uma solicitação contínua para deixar a mentalidade da Igreja e tomar a do mundo. E, nesse sentido, o mundo, então, é o grande inimigo da alma.

Nesse caso, a Igreja adverte seus filhos: ”Não tomem a mentalidade do mundo, que é má!”

Ter uma idéia bem clara do espírito do mundo

Nossa defesa contra o espírito do mundo, então, tem de ser termos uma idéia bem clara do que é esse espírito, como ele se estrutura, qual é a sua força e como se pode produzir a sua derrota.

Alguém dirá: “Isso é impossível”.

Eu lhe perguntaria: “Você examinou? Você tem sequer idéia de qual é o adversário que estamos combatendo? Como é que você diz ser impossível uma coisa que você não conhece?”

É claro que todas as coisas que não conhecemos podem nos parecer impossíveis. Mas, na realidade, são francamente possíveis se as conhecermos bem.

Derrotar o espírito do mundo é possível em duas dimensões: individual e coletiva. Individualmente, apontando a um indivíduo bem precisamente o que é o espírito do mundo, para ele o combater em si. Pois se ele não sabe o que é, não poderá combatê-lo; no máximo, fará uns combates esporádicos contra um aspecto ou outro, mas não arrancará o monstro inteiro de dentro de si. 

No início, a Igreja tinha diante de si “mundos” diferentes

Se tomarmos a História da Igreja nos primeiros séculos – em face dos povos do Mediterrâneo, onde ela se desenvolveu inicialmente, e do Oriente Próximo – veremos que ela encontrava mundos diferentes, porque as estradas eram muito pouco transitáveis, as comunicações eram difíceis, e por isso cada país tinha sua mentalidade, sua cultura, e formava um “mundo” próprio. Ora podia um determinado “mundo” – neste sentido da palavra – estar muito próximo da Igreja, ora podia estar mais longínquo dela.

Por exemplo, os romanos eram muito primitivos quando a Grécia estava no seu apogeu. Por sua vez, quando Roma chegou a seu apogeu, a Grécia era um conjunto de decadentes, mas a cultura grega tinha sido inteiramente assimilada pelos romanos, os quais passaram a viver segundo a mentalidade dos gregos.

A cultura grega tinha-se espalhado por um “mundo” que abrangia, além da Grécia propriamente dita, parte da Península Balcânica, Bizâncio, e parte da Península Itálica, inclusive Roma. Mas uma parte desse mundo era bárbara ainda.

Do outro lado do Mediterrâneo estava o Egito, com uma cultura sensivelmente diferente da cultura grega.

Em cada país a Igreja tinha uma posição diferente perante o mundo.

Como a mentalidade gera o estilo

Antigamente via-se como uma nação era diferente da outra considerando os monumentos, a literatura, e tudo o que havia sido legado pela tradição. Isso foi assim desde o antigo Egito até a Revolução Francesa e as grandes invenções. Até o século XIX, as nações eram muito diferenciadas umas das outras; cada uma com sua mentalidade, com seu modo de ser, com sua filosofia, constituía um mundo à parte.

Por exemplo, o estilo arquitetônico clássico grego, superconhecido, superlouvado, como é que se formou? Houve um tempo em que os gregos viviam em choupanas. Em certo momento, eles começam a construir, e começam a aparecer obras monumentais, extraordinárias, não pelo tamanho, mas pelo gosto, pela harmonia, pela simetria.

Como se chegou da barraca de um povo de pescadores mais ou menos ignorantes ao Parthenon de Atenas, por exemplo?

Alguém dirá: “Dr. Plínio, é muito simples. Um belo dia, apareceu um homem com talento, e havia outro homem que queria construir um templo e lhe deu o dinheiro necessário. Aquele, então, o construiu. Pronto”.

Não é assim. O estilo clássico grego, quando apareceu, encontrou o apoio entusiástico de toda a população, porque um estilo apresenta sempre a imagem de uma mentalidade. Era preciso, pois, que essa mentalidade já estivesse meio incubada nos atenienses para que, quando aparecesse o estilo, eles exclamassem “É isto!” Quer dizer, houve, em primeiro lugar, uma elaboração do estilo no subconsciente dos atenienses.

Não é que eles estivessem o tempo inteiro à sua procura, pois há certas coisas que o homem só encontra  quando não pensa muito nelas.

O conjunto dos habitantes de Atenas tinha uma espécie de avidez daquele estilo.  Quando apareceu um homem especialmente capaz de sentir em si – por ser um ateniense muito típico – aquela avidez coletiva, e dotado dos meios artísticos para dar expressão arquitetônica a esses sentimentos, ele fez o Parthenon. Mas quando o fez, ele agiu como um porta-voz de todos os moradores da cidade, de tal maneira que houve uma aclamação geral por sua obra.

Estilo, aqui, não é só o estilo arquitetônico. No caso grego, é toda uma mentalidade ateniense, todo um espírito que, em alguma medida – sem exagerar nada – os filósofos de Atenas e seus grandes intelectuais exprimiram.

Duas mentalidades refletidas num pequeno episódio

Por exemplo. Conta uma lenda que houve um concurso de escultura em Atenas, para o qual se admitiu toda espécie de escultores que quisessem concorrer. E as duas estátuas mais avaliadas foram uma deusa esculpida por um grego e uma rainha esculpida por um persa.

O escultor persa talhou sua estátua com um vestido riquíssimo, à maneira dos potentados persas. A Pérsia, sendo um rico império, tinha todo o luxo, todo o esplendor da corte imperial. Por isso, aparecia neles a preocupação de apresentar nas suas esculturas o esplendor da corte, como um elemento integrante da mentalidade nacional.

Por sua vez, os gregos em Atenas constituíam uma república que se tornou célebre. O fato concreto é que o grego esculpiu uma deusa muito bonita, mas vestida de uma túnica simplicíssima.

O júri, constituído por gregos, fez uma apreciação entre as duas obras de arte e deu a vitória à estátua grega. O escultor persa, naturalmente, ficou indignado – é clássica a oposição entre os dois povos – e protestou:

- Por que é que minha escultura não ganhou? Ela está tão ricamente adornada!

Os membros do júri lhe responderam:

- Tu a esculpistes rica porque não a soubestes esculpir bela.

Os senhores estão vendo que, num pequeno episódio, são duas filosofias e duas mentalidades que se deixam ver.

A consonância atrai, a dissonância repele

Numa cidade antiga havia bairros, havia estrangeiros, havia tudo o que há nas cidades de hoje. Nas cidades, hoje como antigamente, os vários bairros entram numa espécie de contato mudo uns com os outros, muito mais pelo olhar e pela convivência do que pela conversa. E o modo pelo qual um bairro influencia outro, cria nele uma mentalidade de conjunto que é propriamente a sua “filosofia”.

Desta maneira, cada bairro tem sua filosofiazinha própria e acaba tendo um certo contato – mais próximo ou mais remoto – com outro bairro. Forma-se, assim, uma espécie de “bolsa de filosofias”.  Essas filosofias são afins, por causa da vizinhança. E, postas numa mesma bolsa, engendram uma “filosofia comum”, a qual é uma filosofia ampla, abrangendo todos os aspectos da vida, e constituem uma mentalidade total.

Em geral, quando um indivíduo é político e quer ser esperto, ele percebe que quanto mais suas opiniões forem características de um certo ambiente, mais ele atrairá esse ambiente em torno de si. E que quanto mais, em vez de características, suas opiniões forem dissonantes, mais ele repelirá o ambiente que o rodeia.

Qual é o resultado disso?

É que o ser humano, desde menino, vai instintivamente procurando ficar parecido com os outros e tomar a mentalidade dos outros, para ter um convívio agradável com eles. Percebe, às vezes, as dissonâncias de um modo muito vivo, e aceita algumas coisas, mas recusa outras. A maior parte das pessoas aceita tudo, e forma esse “bolo” que, no seu conjunto, se chama “opinião pública”.

Portanto, se alguém quiser ter um rumo na vida, precisa perceber que efeito está causando e julgá-lo: se for um efeito razoável, aceitar; se for de acordo com a fé, aceitar; se for bom, aceitar ainda muito mais. Se for contrário em algo ao espírito, sobretudo, à doutrina da Igreja, recusar. E fazê-lo a qualquer preço. Se a pessoa assim não proceder, se ela não exercer uma vigilância contínua sobre si mesmo nesse ponto, acabará se tornando peteca nas mãos dos circunstantes”.[1]

O mundo ateu

Em outra oportunidade, Dr. Plínio assim se refere a um pecado social muito comum na sociedade moderna, que é o do ateísmo:

"...Assim, há ateus que se alegram com a convicção de que "Deus não existe". A tal ponto que se algum fato evidente — um milagre retumbante por exemplo — o convencesse do contrário, bem poderia acontecer que ele passasse a odiar a Deus, e até a matá-Lo, se fosse possível.

Outros ateus estão de tal maneira enchafurdados nas coisas da terra, que seu ateísmo não consiste em negar que Deus existe, mas em desinteressar-se inteiramente do assunto. Se é cabível a distinção, eles não são "ateus", no sentido mais radical e aliás corrente da palavra, mas "a-teus", ou seja, laicos. Concebem sem Deus a vida e o mundo. Caso se lhes provasse que Deus existe, veriam n’Ele um ser "con il quale o senza il quale, il mondo va tale quale". Sua reação consistiria em decretar contra Ele um total e perpétuo banimento dos assuntos terrenos.

Mas há um terceiro gênero de ateus. A este pertencem os que, acabrunhados pelos trabalhos e decepções da vida, e vendo bem, por amarga experiência pessoal, que as coisas desta terra não passam de "vaidade e aflição de espírito" (Eccles. 1, 14), gostariam que Deus existisse. Mas tropeçando nos sofismas do ateísmo, aos quais outrora haviam aberto o espírito, atados pelos hábitos mentais racionalistas a que aferraram a mente, tateiam agora nas trevas sem conseguir encontrar o Deus a quem outrora rejeitaram. Quando medito na apóstrofe de Jesus Cristo: "Vinde a mim, ó vós todos que estais sobrecarregados e fatigados, e eu vos restaurarei" (Mt. 11, 28), penso mais especialmente neste tipo de ateus. E tenho mais especialmente vontade de os chamar "caros ateus"...[2]



[1]Revista “Dr. Plínio”, nº 63, junho de 2003

[2] PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA - Artigo “A ti caro ateu”, "Folha de S. Paulo", 31 de agosto de 1980


sábado, 15 de abril de 2023

O ESCÂNDALO NA PROPAGAÇÃO DOS PECADOS SOCIAIS

 



“E aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome, recebe a mim. Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e fosse precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem!” (Mt 18, 5-7)).

Praticamente, toda a doutrina sobre escândalos encontra-se nessa passagem do Evangelho. Nosso Senhor Jesus Cristo mostrou uma criança para que todos vissem ali uma alma inocente que pode ser atingida pelos escândalos feitos pelos pecadores que lhe querem tirar a inocência. Ele frisa também que aquela criança, ou “aqueles pequeninos” são escandalizados porque creem n’Ele, quer dizer, a Fé deve estar com ela e a animar para a prática do Bem. Quanto ao causador de escândalos entre os inocentes, as crianças, os pequeninos, Nosso Senhor não fala que melhor seria lhe colocar uma “pedra de tropeço” ao pescoço, mas uma “pesada mó”, quer dizer, uma grande rocha, pois além de tropeço o causador deste tipo de escândalo fica preso eternamente por algo do qual ele não pode se desvencilhar. No fim, vem a apóstrofe: “ai do homem pelo qual o escândalo vem”, embora seja necessário que haja escândalos. Essa necessidade não é porque eles façam algum bem ás pessoas, mas para advertir os bons sobre as ciladas dos maus, pois o escândalo surge como uma cilada, uma “pedra de tropeço” e serve de advertência para o justo evitar cair nela..

Essa imagem da grande pedra atada ao pescoço significa que o fato do pecador provocar escândalo com seus atos também fica imobilizado sem poder sair de sua perdição, especialmente quando tal escândalo fere a inocência. Isso ocorre porque o escândalo é consequência de um pecado social, tornado assim por causa de sua propagação na sociedade. Aí está também representado o encalhe espiritual de muitos, como fala Dr. Plínio (comentários sobre o livro o poder da oração de Santo Afonso de Ligório) presos a uma pesada mó. Nesse sentido, pode-se dizer que, de algum modo, o pecado social e os escândalos que ele provoca são pecados contra o Espírito Santo, pelos quais a perdição é certa.

Segundo a etimologia da palavra, escândalo é um fato ou acontecimento que contraria e ofende sentimentos ou o pensamento comum, crenças sociais, convenções morais, sociais ou religiosas de um povo. O escândalo é provocado porque o fato causa indignação, perplexidade ou até mesmo sentimento de revolta entre parte ou de toda a sociedade envolvida. Pode também servir de mal exemplo e divulgar um mal costume. 

Vejamos a definição dada pelo Catecismo da Igreja Católica: “O escândalo é a atitude que leva outrem a praticar o mal. Aquele que escandaliza torna-se o tentador do próximo. Atenta contra a virtude e a retidão; pode arrastar seu irmão à morte espiritual. O escândalo constitui uma falta grave se, por ação ou omissão, conduzir deliberadamente o outro a uma falta grave” (tópico 2284). Se é grave conduzir “um outro” a uma falta grave, imaginem se levar toda uma sociedade ou parte dela à prática ou pertinácia no pecado: nesse caso a gravidade do mal é maior ainda.

De modo geral, o termo se origina da expressão “pedra de tropeço”, tanto em hebraico quanto em grego. O termo português se origina do grego “skandalon”, que significa também “pedra de tropeço”, ao qual se associa o verbo “skandalizo”, com o mesmo sentido de fazer alguém tropeçar, ou pecar.  Esta expressão era usada no Antigo Testamento, como em Isaías, quando comparou o próprio Deus como “pedra de tropeço e rocha de escândalo” para ambos os reinos de Israel daquele tempo (Judá e Israel) (Is 8, 14). Isso quer dizer que até mesmo o próprio Deus pode causar escândalo, desde que a sociedade não entenda suas revelações e até se revolte contra elas pelo fato de contrariar certos costumes sociais. Em outra ocasião Isaías se refere aos “tropeços do caminho” que devem ser removidos para a chegada do Messias   (Is 57, 14), semelhante ao que pregou São João Batista pedindo para “preparar os caminhos e endireitar as veredas”(Mt 3, 3), isto é, retirar do caminho aquilo que poderia atrapalhar o Messias, como, por exemplo, os escândalos que dava a sociedade judaica como os pecados de adultério de Herodes..

A Revolução usa escândalos para propagar os pecados sociais

Assim, quando alguém comete um grande pecado que chama a atenção de todos, nem sempre é porque o próprio pecador quis que o fato fosse de conhecimento geral, muitas vezes ocorre fortuitamente de haver tal revelação pública. E qual a causa do escândalo?

Primeiramente, isso ocorre quando a pessoa é tida como virtuosa, mas comete alguns pecados graves às escondidas que são depois revelados, ou então, no dia em que resolveu cometer um deles é descoberta em flagrante por alguém que o revela aos demais. Aqui temos o exemplo do escândalo mais comum, que é a revelação pública de um pecado, ou prática habitual dele, por uma pessoa tida como boa e virtuosa. Por exemplo, uma pessoa tida por todos como bom esposo e pai de família é flagrado num romance amoroso adulterino com outra mulher: não somente sua esposa e família, mas a sociedade em peso fica escandalizada com o ato dele; isso só não ocorreria com todo o corpo social se as pessoas já estivessem vivendo naquele modo de vida pecaminosa como coisa normal.

Em segundo lugar há casos também de escândalos causados por pessoas que os provocam de propósito, isto é, praticando atos imorais e pecados públicos a fim de que todos o saibam e propaguem seu modo de vida. O escândalo ocorre porque as pessoas não aceitam pacificamente aqueles atos como exemplo para a sociedade, daí o escândalo. Faz parte de uma técnica revolucionária de mover a opinião pública através da divulgação de escândalos a fim de que as pessoas se acostumem aos poucos com pecados sociais transformadores dos bons costumes. Quando a primeira mulher usou os reduzidos biquínis numa praia causou grande escândalo na época, mas aos poucos a sociedade foi aceitando aquilo como normal até que tornou-se um hábito corriqueiro como ocorre hoje em dia.

Sobre a natureza do escândalo assim falou São Paulo: “Deixemos, portanto, de nos julgar uns aos outros, cuidai antes de não colocar tropeço ou escândalo diante de vosso irmão”  (Rom 14, 13). Quer dizer, em vez de julgar devemos servir de bom exemplo e nunca causar escândalos.

Em algumas passagens do Antigo Testamento é usada a expressão “pedra de tropeço” ou simplesmente “tropeço”, como em Ezequiel 14, 3-4, cujo escândalo ou tropeço era a idolatria, quer dizer, um pecado social. Esse mesmo sentido é usado por São Paulo, ou de pedra de tropeço ou de escândalo, advertindo os cristãos para não provocarem escândalos que levam os outros a pecar (Rom. 14, 13 e I Cor 8, 9). Também São João em seu Apocalipse usa a expressão “pedra de tropeço” (Ap 2, 14).

"Escândalo ativo" é realizado por uma pessoa; "escândalo passivo" é a reação de uma pessoa ao escândalo ativo (escândalo fornecido ou em Latim scandalum datum), ou a atos que, por causa da ignorância do espectador, ou sua fraqueza, ou malícia, são considerados como escandalosos (escândalo aceito ou em latim ”scandalum acceptum”).

Escândalo ou “Pedra de Tropeço”?

Ocorre também chamar de escândalo um ato virtuoso, praticado por uma pessoa santa, mas que choca a sociedade porque rompe com alguns maus costumes sociais. São Bento, por exemplo, resolveu deixar a corrupta sociedade romana de seu tempo para viver na solidão, causando certo escândalo em pessoas de sua família ou de seu relacionamento pelo fato de romper completamente com os péssimos costumes sociais. Outros exemplos desta natureza podemos ver entre os antigos mártires, que escandalizavam a sociedade pagã pelo fato de não aceitar a idolatria dos falsos ídolos.

Embora chamem de escândalo, na verdade tais atos podem ser considerados o que na Sagrada Escritura se chama de “pedra de tropeço”, expressão usada em outras ocasiões como, por exemplo, no nascimento de Cristo, quando São Lucas escreveu no Evangelho o que disse Simeão: Ele seria motivo de quedas, mas também de soerguimento de muitos (Lc  2.34). Isso foi explicado depois por São Paulo, citando o Antigo Testamento: “Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço, uma rocha de escândalo, mas quem nela crer não será confundido” (Rom 9, 32-33). São Pedro usou da mesma expressão para se referir aos que rejeitaram a Revelação (I Ped 2, 7-9). Em outra ocasião São Paulo afirma que Cristo crucificado era motivo de escândalo para os judeus e loucura para os gentios (I Cor 1, 23).

Dr. Plínio Corrêa de Oliveira assim comentou sobre isso:

“Quando o Profeta Simeão teve nos braços o Menino Jesus e entoou o seu famoso cântico Nunc dimittis servum tuum, Domine… – Senhor, agora envia em paz o teu servo… –, ele disse que Nosso Senhor foi enviado como pedra de escândalo para a perdição e salvação de muitos, e para que se conhecessem as cogitações ocultas dos corações.

Portanto, Nosso Senhor foi mandado para salvar a todos, mas a perdição daqueles que O recusassem não significava o fracasso d’Ele, e sim um elemento intrínseco à sua Missão, ou seja, criar condições para os justos conhecerem a verdade e se salvarem, para os ímpios manifestarem a sua impiedade e, não se arrependendo, irem para o Inferno.

Christianus alter Christus – o cristão é um outro Cristo. Também nós somos pedra de escândalo posta para a salvação e a perdição de muitos, e para que se revelem as cogitações dos ímpios. A nossa missão é, pois, suscitar nas pessoas a definição, para a salvação dos bons”.[1]

O próprio Dr. Plínio Corrêa de Oliveira foi, em toda a sua vida, uma espécie de “pedra de tropeço”, pois todas as suas atitudes demonstravam as divisões latentes entre bons e maus e, com isso, ao mesmo tempo provocava a fidelidade a Deus dos bons e uma maior prevaricação dos maus. Os verdadeiros escândalos, porém, começaram com a investida dada pelos progressistas apresentando ao público católico reformas litúrgicas ofensivas às leis divinas, como o caso de Taubaté citado na revista Dr. Plínio (edição de março 2023, página 18). De modo que quando Dr. Plínio, em 1943, lançou seu livro “Em Defesa da Ação Católica”, causou uma espécie de escândalo entre alguns católicos, especialmente, nos meios eclesiásticos, mas podemos classificar isso como se fosse uma “pedra de tropeço”. O seu brado de alerta abriu os olhos dos bons, provocando entre os maus uma reação fulminante contra ele, causando-lhe grande ostracismo, pelo que ele mesmo disse que sua atitude foi um ato semelhante aos dos pilotos japoneses “kamikazi”: destrói o inimigo mas também morre...

Em depoimento sobre os episódios que antecederam ao lançamento de seu livro “Em Defesa da Ação Católica”, declarou ele alguns anos depois:

“Eu notava que a corrente oposta ia crescendo cada vez mais, não só em São Paulo, mas no Brasil, e penetrando nos seminários, tomando influência no clero, enfim, entrando como uma torrente em todos os lados.

Percebi, num relance só, o seguinte: se nós demorássemos para ataca-los, acabariam levando para o lado deles todo o mundo, inoculando sua mentalidade. Ou eu denunciava toda a trama para a maioria ingênua que, tomando a sério os esmagaria pela recusa, ou ela se deixaria cominar completamente. Existia um só meio de conter a gangrena: criar um escândalo. Criado esse escândalo, muitos ficariam atemorizados e recuariam. Essa gente não se uniria a nós, mas também não aderiria a eles. Ficaria com uma interrogação na cabeça.

Tornava-se, pois, urgente preparar uma denúncia monumental, que não podia ser feita num artigo de jornal ou de revista, porque tantos eram os fatos a mencionar e os argumentos a dar, que só mesmo redigindo um livro.”  (revista “Dr. Plínio”, março 2023, pág. 19)

Este livro deixou-o em completo isolamento, mas, aos poucos foi se unindo em torno dele um pequeno punhado de seguidores, aumentando gradativamente ao longo dos anos, até que ao final de sua vida constituiu um grandioso movimento católico que se espalhou pelo mundo todo. Então, aquilo que pode ser chamado por alguns de escândalo, ou de “pedra de tropeço”, tornou-se, nada mais nada menos, do que a “pedra angular” de uma grande obra.

Há referências também à chamada “pedra angular” porque esta era a pedra principal das construções antigas, aquela pedra que sustentava as demais numa edificação. Após narrar a parábola dos vinhateiros, Nosso Senhor assim se refere à tal Pedra que Ele representava:  “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular: pelo Senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos? Por isso vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que o fará produzir seus frutos. Aquele que cair sobre esta pedra ficará em pedaços, e aquela sobre quem ela cair, ficará esmagado” (Mt 21. 42  Mc 12, 10, e Lc 20, 17).

Tudo indica que Nosso Senhor está se referindo acima ao que consta no livro de Isaías: “É por esta razão que assim diz o Senhor Javé: Eis que porei em Sião uma pedra, uma pedra de granito, pedra angular e preciosa, uma pedra de alicerce bem firmada: aquele que nela puser a sua confiança não será abalado” (Is 28, 16).

O mesmo sentido é utilizado nos Atos dos Apóstolos: “É Ele a pedra desprezada por vós, os construtores, mas que se tornou a pedra angular” (At 4, 11). A mesma pedra pode ser motivo de escândalo, sendo por isso desprezada, mas também ser alicerce e sustentação para os que a aceitam, por isso chamada de angular, conforme explica detalhadamente São Pedro: “Com efeito, nas Escrituras se lê: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; quem nela crê não será confundido. Isto é, para vós, que credes, ela será um tesouro precioso, mas para os que não creem, a pedra que os edificadores rejeitaram, essa tornou-se a pedra angular, uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair. Eles tropeçam porque não creem na Palavra, para os que também foram destinados”  (I Ped 2, 6-8)

O Juízo Final – Revelação e eliminação de todos os escândalos de uma só vez e de forma universal

Nosso Senhor disse: “O Filho do Homem enviará seus anjos e eles apanharão do seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha ardente”  (Mt 14, 41). “De maneira que, assim como é colhida a cizânia e queimada no fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então, resplandecerão os justos como o sol no reino de seu Pai”.   (Mt 13, 40-43).

São Crisóstomo comentando a correspondente passagem de S. Mateus, escreveu alguns comentários sobre o Juízo Final, assim concluindo: “Oh, pecador miserável, colhido por todos os lados! Por onde poderás escapar? Conseguirás ocultar-te? Não; isso é impossível; visível permanecerás ainda que isso te resulte intolerável”.

Todos os delitos e iniquidades dos réprobos ficarão postos de manifesto no juízo de que falamos, como disse Jeremias: “Chegará o dia em que nossas obras ficarão tão patentes como se as houvéssemos pintado num quadro”. O veredito, finalmente, se executará sem demora, naquele mesmo instante, com a rapidez de um abrir e fechar de olhos”.[2]

Segundo Santo Agostinho “com suma diligência nos recordará as palavras de nossa profissão e frente a elas fará desfilar tudo o que temos obrado, o lugar e a hora em que pecamos e o que deveríamos ter feito em vez do que realmente fizemos

O pecador verá que todos seus males praticados em vida ficarão expostos, como afirma o Livro da Sabedoria no capítulo 4: “Tremerão ao recordar suas culpas; suas iniqüidades se voltarão contra eles, acusando-os”. “Todas suas obras”, comenta São Bernardo, “falarão ao mesmo tempo e dirão ao pecador: Tu nos tens feito; coisa tua somos; não te abandonaremos; permaneceremos sempre junto a ti; contigo estaremos quando fores julgado”.   Essas obras acusarão ao pecador de muitos e de diversas más ações.

Até mesmo o mundo em que viveu acusará o pecador. “Se perguntas”, escreve São Gregório, “quem te acusará, responder-te-ei; todo o mundo;  porque quem ofende ao Criador, ao mundo em sua totalidade ofende”.  Como os escândalos foram pecados sociais, estes afetaram o mundo em que o pecador viveu, sendo este um dos acusadores no referido Juízo. Sobre isso diz São Crisóstomo: “Nada teremos que responder naquele dia, quando o céu, a água, o sol, a lua, os dias, as noite e todo o universo levante sua vós contra nós denunciando ante Deus nossos delitos; porém mesmo que todas as coisas calassem, não calarão ante o Senhor contra nós e darão testemunho de nossos pecados”.

O olhar de Jesus no Juízo Universal

Podemos apenas imaginar, ter uma pálida ideia, de como o olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo refletiu o Seu bondoso coração. Já antes de nascer, os místicos dizem que Ele se privou da luz de seus olhos no seio virginal de Maria Santíssima como um verdadeiro martírio, prevendo já os piores momentos que iria passar ao final de Sua vida. Ao nascer, derramou todo seu inocente olhar dentro dos olhos de Sua Mãe Santíssima, com a qual teve colóquios e olhares amorosos durante toda a vida terrena.

Em Sua Paixão e Morte, os olhares de Nosso Senhor percorriam a multidão à procura de um coração piedoso que tivesse compaixão d’Ele. Até que os ímpios lhe vendaram os olhos para que não tocasse tão bondosamente os olhares das pessoas que estavam ali e os convertesse, como o fez a Madalena.

Na Cruz, Nosso Senhor pronunciou o “Consumatum est” referente à Sua Missão na primeira vinda à terra; no Juízo Final, repetirá a frase, mas desta forma como sinal da consumação de sua Obra e do fim dos tempos: após o sétimo anjo derramar a sua taça pelo ar, saiu uma grande voz do templo (vindo) do trono, que dizia: está feito ou então, estão consumados os tempos. (Ap 16, 18).

Finalmente, no Juízo Final teremos o último olhar de Jesus Cristo, que será terrível para os ímpios e cheio de bondade para os justos. Naquele momento ninguém terá poder suficiente para lhe colocar uma venda como o fizeram na sua Paixão. Santa Catarina de Sena diz como será aquele olhar final: Aos olhos do condenado, sem embargo, ele aparecerá com aquele olhar terrível e tenebroso, que tem o mesmo condenado em si mesmo”. Completa Santa Catarina dizendo que isto não quer dizer que Jesus Cristo, a Bondade suma e infinita, tenha um “olhar temível e tenebroso”, mas sim que será esta a forma com que o condenado O verá por “ter o mesmo olhar dentro de si mesmo”... Este olhar será bastante forte e poderoso para destruir todos os escândalos produzidos pelos pecados dos homens naquele Juízo Universal.

Santa Teresa de Jesus manifesta também grande temor daquele olhar terrível: “Nunca tive tanto medo dos tormentos do inferno que não fosse menos que nada em comparação do que tinha quando me lembrava que os condenados haviam de ver irados estes olhos tão formosos e mansos e benignos do Senhor...”[3]

“Seu olhar”, escreve o Papa São Leão, é impressionante.  Ante ele, o compacto se torna transparente; o oculto, manifesto; o luminoso obscuro e os mudos se tornam loquazes; em sua presença até o silêncio fala e a mente, sem necessidade de vocábulos, declara seus pensamentos. Sendo, pois, tal sua sabedoria e tanta, de nada valerão frente a ela nem os discursos dos advogados nem os sofismas dos filósofos nem a brilhante eloquência dos oradores nem a habilidade dos mais astutos e sagazes”.

Da vida de São Metódio relata-se o fato de ter pintado um quadro representando o Juízo Final. São Metódio converteu à fé cristã a Bulgária no século IX. Um dia ele foi chamado pelo rei dos búlgaros, de nome Bógoris, o qual lhe pediu que pintasse um quadro para colocar em seu palácio. Queria que ao olhar no quadro todas as pessoas sentissem terrível medo. O santo, então, recomendando-se a Deus, pintou o Juízo universal. No meio do quadro via-se Jesus Cristo em sua tremenda majestade entre as nuvens e num trono de glória, rodeado pelos anjos; à direita uma fila de pessoas com os rostos esplendorosos de luz (os justos); à esquerda uma multidão de pessoas monstruosas com caras horríveis, cheias de pavor e de desesperada angústia (os pecadores). Em baixo afinal se via um abismo cheio de figuras horrendas de demônios, e desse abismo saíam chamas ameaçadoras e foscas.

 Quando o rei viu esse quadro, ficou impressionado e perguntou: “Que espetáculo é esse tão magnífico e pavoroso?” Após narrar a explicação do significado do Juízo Final que São Metódio deu ao rei pagão, conclui o Autor no texto que ora citamos que, apenas mediante o olhar de Jesus como supremo Juiz de todos houve um “exame de consciência” geral dos pecadores. Em seguida o Autor narra um exemplo de como um simples olhar pode revelar a consciência pecaminosa. 

O rei Frederico II da Prússia (1756), durante a guerra dos 7 anos, após uma batalha vitoriosa, invernava na Saxônia. Ali um copeiro de nome Glasau deliberou matá-lo, e lhe apresentou num copo uma bebida envenenada. O rei, que havia notado qualquer coisa estranha na atitude de seu servo, fixou-o profundamente no rosto. Ante este olhar o servo começou a tremer tão forte, que lhe cai da mão o copo. Aí confessou ao rei o assassínio que havia meditado. – Eis como só o olhar penetrante de um rei bastou para fazer tremer e aniquilar um malvado.

Ora, como deverão tremer os pecadores quando os fulminar o olhar de Deus que tudo conhece e que de tudo pedirá pormenorizadíssimas contas.

E tudo o que está oculto surgirá, e ninguém ficará impune.”[4]

 

Os escândalos do mundo moderno que difundem pecados sociais

Quatro vícios e crimes predominam hoje em toda a sociedade humana, em todo o orbe terrestre: o homicídio, a sodomia, a opressão dos pobres e viúvas e a defraudação do salário do trabalhador. Com estas quatro espécies de vícios e torpes crimes todos os outros se difundem na sociedade. Alguns anos atrás tais pecados sociais, ou crimes, causavam grande escândalo na sociedade. Mas, hoje, por tornarem-se prática comum vão aos poucos deixando de causar escândalos. No entanto, são pecados que por si mesmo pedem a Deus por vingança, pois se não causam escândalos entre os homens o promovem entre os Santos Anjos, os Bem-Aventurados e a Santíssima Trindade.

Tudo começou, mais ou menos na Renascença, após a decadência da Idade Média. E os escândalos a partir dessa época começavam sempre nas cortes e na nobreza, que deveriam ser modelo de pureza e castidade. Havia sempre um “caso” amoroso de um rei ou de um príncipe ou princesa que causava escândalo à sociedade da época. Até culminar com os escândalos mais audazes no período que antecedeu à Revolução Francesa, geralmente girando em torno do adultério e pecados da carne. A moda, a forma de propagar costumes de vestir, surgiu nessa época já escandalizando o público com vestidos decotados. No âmbito civil e religioso os escândalos ficavam por conta das heresias como o protestantismo, preparando o terreno para o surgimento das filosofias agnósticas e ateias que vieram depois. Com o passar dos anos a sociedade ocidental e cristã foi se acostumando com tais escândalos e começou a achar normal o adultério, a poligamia, a vida conjugal irregular, ou concubinato, como se fosse um casamento normal. Hoje, é tão comum tais uniões malformadas como os adultérios que já não causam mais escândalos como antigamente. O que poderia causar escândalo na atualidade seria o casamento monogâmico e indissolúvel como prescreve as leis divinas.

Outros pecados sociais foram se disseminando na sociedade através de escândalos. A assombrosa liberdade sexual do mundo atual começou com os filmes eróticos de Hollywood da década de 50 em diante. No começo as atrizes apenas ficavam despidas e gravavam cenas de amor lúbrico escandaloso. Com o passar do tempo foram sempre avançando e gravando cenas mais escandalosas, chegando aos filmes abertamente eróticos dos dias atuais, sem qualquer censura, divulgados em todos os recursos de imagens e vídeos da internet. Não se admira que haja tantos tarados sexuais agindo e promovendo horrendos crimes até mesmo contra crianças, pois seus baixos instintos são cotidianamente estimulados por tais filmes.

Os pecados sociais citados acima são no âmbito da moral e da castidade. No entanto, outros escândalos foram amortecendo na população os sadios convívios sociais em torno de direitos familiares e individuais, ocorrendo por causa da investida das idéias socialistas no mundo. De tal forma que em muitos ambientes o ato de roubar o próximo já não causa estranheza e até é tido como um “bem social” em favor dos “menos favorecidos”.

 

Escândalos para todos, mas “blindagem” de donos de jornais e TV

Um dos meios com que a mídia propaga os males sociais, os pecados mais horrendos, é através da divulgação de escândalos. Não podem pregar abertamente a violência urbana, mas divulgam incansavelmente reportagens sobre os crimes mais hediondos, dando grande destaque aos mais escandalosos e impactantes na opinião pública. O amor livre, o adultério, o liberalismo exacerbado, o relativismo, principalmente moral e religioso, são temas em que eles são especialistas, mas não os pregam abertamente, apenas dão destaque espalhafatoso aos crimes que servem para espalhar tais pecados na sociedade. Um exemplo: o aborto não é defendido abertamente pela mídia, isto é, não dão grande ênfase aos que propagam tal crime; no entanto, fazem reportagens escandalosas onde mostram mulheres que morreram por ocasião de um aborto clandestino, dando destaque à idéia de que se fossem feitos oficialmente pelo governo não causariam tais mortes.

De modo geral, todas as redes de TV e emissoras de rádio possuem programas de crimes policiais de grande alcance no público e expostos em horários de grande audiência. Tais empresas da mídia gastam fortunas no aparelhamento de tais reportagens, usando até helicópteros e equipamentos caríssimos, tudo com o objetivo de pregar e banalizar a criminalidade. E o que eles dão muito destaque são os escândalos causados por políticos ou empresários de grande porte, pois precisam expor à execração pública os dirigentes da nação e suas elites. .

No entanto, qual a razão de os donos de empresas jornalísticas nunca serem  envolvidos em escândalos políticos ou financeiros? Há fatos que podem até ser vazados mas não são divulgados, ou esquecidos após a primeira notícia. Não se sabe quantos porque a falta de divulgação nos impede de sabê-lo. No entanto, é muito estranho que riquíssimos proprietários de empresar jornalísticas, muitos deles sócios de outras envolvidas em escândalos públicos, não tenham seus nomes incluídos quando são divulgados pela mídia. Protegidos pelo silêncio cumplicioso de seus empregados, tais cidadãos vivem incólume da degradação pública. Um exemplo foi o famoso Roberto Marinho, proprietário da maior rede de jornais e TVs do Brasil, homem que enriqueceu ás custas de golpes e tramas financeiras, mas que nunca teve seu nome ventilado pela mídia sobre tais aspectos negativos de sua atividade. Quando falavam dele era para homenageá-lo por alguma medalha de “honra ao mérito” recebida por alguma instituição que lhe devia alguma coisa. E passado tanto tempo depois de sua morte, até hoje seus escândalos continuam encobertos. O mesmo ocorre com os demais proprietários de grandes empresas jornalísticas: trata-se de uma elite que é “blindada” (protegida) por seus veículos de publicidade, sempre concordes umas com as outras.

 



[1] Plínio Corrêa de Oliveira - Extraído de conferência de 31/1/1966

[2]              Legenda Dourada”, versão espanhola, Editora Alianza Forma, páginas 25/29, volume 2

[3] Obras Completas de Santa Teresa de Jesus – Carmelo do Porto, Portugal – pág. 801

[4] Extraído com adaptações de  “A Palavra de Deus em Exemplos” – G. Morotarino J. C. – Ed.Paulinas, 1961 – págs. 68/75.