quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - IV

 




DONDE HÁ DE VIR JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS

 “Julgar é função do rei: O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal (Prov. 20, 8). Porque Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus Pai como Senhor de todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso, pela regra da Fé Católica, confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto também foi dito pelo Anjo: Este Jesus, que do meio de vós foi elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir para os céus.  (Mt 1, 11).

Devemos considerar nesse juízo três coisas: primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como para ele devemos nos preparar.

No juízo devemos ainda distinguir três elementos componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do julgamento.

Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos (10, 42).  Pode este texto ser interpretado, ou chamado de mortos os pecadores e, de vivos, os que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e, mortos, todos os que morreram. Ele é juiz não só enquanto Deus, mas também como homem, por três motivos.

 

Jesus Cristo será nosso Juiz enquanto Homem

Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo aparecesse em forma só de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em São João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem  (5, 27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de todos. Lê-se: A tua causa foi julgada como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas  (Jo 37, 17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam desesperados, devido ao temor.  (Mas todos verão um homem julgar), pois se lê em São Lucas: Verão o Filho do Homem vindo na nuvem (21, 27).  Serão julgados os que existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo: Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal enquanto estava neste corpo  (2 Cor 5, 10).

 

 Haverá varões apostólicos que também julgarão sem serem julgados

Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que devem ser julgados. Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como os infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado  (Jo 3, 18). Outros, porém, serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a morte (Rom 6, 23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé que tiveram.

Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. Lê-se em São Mateus: vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-ei também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel (19, 28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis que julgamos os Anjos? (1 Cor 6, 3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu povo  (Is 3, 14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrena. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.


A matéria do julgamento

Todos serão julgados pelos atos bons e maus que praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os caminhos do teu coração...  mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11, 9); Deus citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más (Ecle 13, 14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo (Mt 12, 36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram.  Lê-se no Livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus pensamentos (Sab 1,9).

Fica assim esclarecida a matéria do julgamento.

 

Motivos pelos quais o Juízo Final deve ser temido

Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo.

Primeiro, devido à sabedoria do Juiz, porque ele conhece todas as coisas, os pensamentos, as palavras e as ações, já que, como se lê na Carta aos Hebreus, todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4, 13). Lê-se ainda na Escritura: Todos os caminhos dos homens estão diante dos seus olhos (Prov 16, 1).

Conhece Ele as nossas palavras: Os teus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1, 10).

Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor, penetro nos corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17, 9).

Haverá neste Juízo também testemunhas infalíveis, isto é, as próprias consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo: A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos pensamentos se acusam ou se defendem (Rom 2, 15-16).

Segundo, devido ao poder do Juiz, porque Ele é em si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o Senhor virá com fortaleza (Is 11, 10).

É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava com Ele. Lê-se: O universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5, 2);  Ninguém há que possa livrar-se de vossa mão (Jo 10, 7); e ainda: Se subo aos céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também (Sl 138, 8).

Terceiro, devido à justiça inflexível do Juiz. Agora é o tempo da misericórdia.  Mas o tempo futuro é tempo só de justiça.  Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus.

Lê-se: No tempo que eu determinar, farei justiça (Sl 134, 3). O varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação presentes, por maiores que sejam (Prov 6, 34).

Quarto, devido à ira do Juiz. Aparecerá aos justos doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão ao rei na sua beleza (Is 33, 17).  Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel, que eles dirão aos montes:  Cai sobre nós, e escondei-nos da ira do cordeiro (Apoc 6, 16).

Esta ira de Deus não significa uma comoção de espírito, mas significa o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no Juízo! No fim estará o Juiz irado.

 

Remédios para não cair neste temor

Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.

O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: Queres não temer a autoridade? Faze o bem e receberás dela o louvor (Rom 13, 3).

O segundo é a confissão dos pecados cometidos e a penitência feita por eles.  Na confissão deve haver três coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por eles. São essas três coisas que remediam a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que torna tudo puro, segundo as palavras do Senhor: Conquistai amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas tendas eternas  (Lc 26, 9).

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados  (I Ped 4, 8; cf Prov 10, 12). [1]

  

 O Juízo Final nas palavras do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo

No Evangelho estão consignadas as diversas profecias em que o próprio Nosso Senhor fala do Juízo Final.

“Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra até ao Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Em qualquer lugar, em que estiver um cadáver, juntar-se-ão as águias.

“Logo depois da tribulação daqueles dias, ‘escurecer-se-á o sol, a lua não dará a sua luz, as estrelas cairão’ do céu e as potências do céu serão abaladas. Então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu, e todas ‘as tribos da terra chorarão’ e verão o Filho do homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade. Ele mandará os seus anjos com poderosas trombetas, os quais juntarão os seus escolhidos dos quatro ventos, de uma extremidade dos céus até à outra”.  (Mt 24, 29-31).

“Mas, quanto àquele dia e àquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai. Assim como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porque, assim como nos dias antes do dilúvio (os homens) estavam comendo e bebendo, casando-se e casando seus filhos, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não souberam nada até que veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também na vinda do Filho do homem”.  (Mt 24, 36-39).

“Vigiai pois, porque não sabeis a que hora virá o vosso Senhor. Sabei que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque o Filho do homem virá na hora em que menos o pensardes”.  (Mt 24, 42-44).

“Quando pois vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se sentará sobre o trono da sua majestade. Serão todas as gentes congregadas diante dele, o qual separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos  de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e deste-me de comer; tive sede, e deste-me de beber; era peregrino, e recolheste-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitaste; estava na prisão, e fostes visitar-me. Então, lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, e te demos de comer; sequioso e te demos de beber? Quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? Respondendo o Rei, lhes dirá: Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era peregrino, e não me recolhestes; (estava) nu, e não me vestistes: enfermo e na prisão, e não me visitastes. Então, eles também responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te assistimos? Então, lhes responderá, dizendo: Na verdade vos digo: Todas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim o não fizestes. Esses irão para o suplício eterno, os justos para a vida eterna”.  (Mt 25, 31-45).

 

Qualidade do Juiz

O sumo sacerdote O conclama a se proclamar Filho de Deus, mas Nosso Senhor não só confirma tal título como declara que não é nesta qualidade que virá julgar a todos no Juízo Final, e sim de Filho do homem: “Jesus porém estava calado. E o sumo sacerdote disse-lhe: Eu te conjuro por Deus vivo que nos diga se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Jesus respondeu-lhe: Tu o disseste: mas também vos digo que vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, e vir sobre as nuvens do céu”.  (Mt 26, 63-64).

 

Juízos que serão feitos sobre cidades ou povos

“Ai de ti Corozain! Ai de ti, Betsaída! porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que eles teriam feito penitência em cilício e em cinza. Por isto vos digo que haverá menor rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Não, hás de ser abatida até ao inferno. se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que se fizeram em ti, ainda hoje existiria. Por isso vos digo que no dia do Juízo haverá menor rigor para a terra de Sodoma que para ti”   (Mt 11, 21-24)

 

N. Senhor não julgará sozinho: outros também julgarão com Ele

“Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que, no dia da regeneração, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da sua glória, vós, que me seguistes, também estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel”. (Mt 19, 28)

“Os habitantes de Nínive se levantarão no Juízo contra esta geração, e a condenarão, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas. A rainha do mei-dia levantar-se-á no dia do Juízo contra esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra a ouvir a sabedoria de Salomão.  Ora, aqui está quem é mais do que Salomão” (Mt 12, 41-42).

 

O Juízo sobre os Bons

“Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu peso leve”.   (Mt 11, 28-30)

 

A matéria do julgamento

“Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que a disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro. Ou dizei que a árvore é boa, e o seu fruto bom; ou dizei que a árvore é má, e o seu fruto mau; pois que pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, vós que sois maus? Porque a boca fala da abundância do coração. O homem bom tira boas coisas do bom tesouro (do seu coração); e o mau homem tira más coisas do mau tesouro. Ora, eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do Juízo. Porque pelas tuas palavras serás justificado ou condenado”  (Mt 12, 31-37)

 

As sentenças impostas pelo Juiz: castigo e prêmio

“De maneira que, assim como é colhida a cizânia e queimada no fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então, resplandecerão os justos como o sol no reino de seu Pai”.   (Mt 13, 40-43).

“Será assim no fim do mundo, virão os anjos, separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13, 49-50).

“Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; então dará a cada um segundo as suas obras. Em verdade vos digo que entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não morrerão, antes que vejam vir o Filho do homem ao seu reino”.  (Mt 16, 27-28). Quando Nosso Senhor precedia a expressão “em verdade vos digo”, queria dizer com isto que estava fazendo uma declaração solene, como que dogmática, uma espécie de juramento, a fim de que todos cressem que aquilo ocorreria da forma como dizia. Então, podemos crer que alguns daqueles que estavam a Lhe ouvir só morrerão no fim do mundo (poderiam muito bem ir fazer companhia a Elias e Enoch), ou então atingiriam uma santidade tão alta que chegariam a ver (misticamente) a posse de Nosso Senhor em Seu reino. Como as verdades divinas às vezes se cumprem em tempos e formas diferentes, e ao mesmo tempo, ambas as afirmações podem ser corretas.

 

No fim do mundo não haverá mais fé sobre a terra

“Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Isto combina com o que diz São João no Apocalipse: “conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas, porque és morno, nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitarda minha boca” (Apoc. 3, 15-16).

 

No Juízo Final, a presença de Jesus causará tormento e terror aos maus

“Saiba que, no último dia do Juízo, o Verbo, meu Filho, quando vir, não surgirá como um pobrezinho, como quando nasceu, saindo do ventre da Virgem, nascendo num estábulo entre os animais e morrendo depois entre ladrões.

Naquela oportunidade ocultei nEle o meu poder, deixando-O sofrer penas e tormentos, como homem. Não é que minha natureza divina estivesse separada da humana, mas que lhe deixei padecer como homem para satisfazer por todos vossos pecados.

Não virá assim agora, neste último momento, mas com autoridade, para repreender Ele mesmo em pessoa; e não haverá criatura alguma que não trema. Dará a cada um o merecido.

Nos infelizes condenados, sua presença produzirá tanto tormento e terror, que nenhuma língua será capaz de contá-lo. Nos justos produzirá temor reverencial, junto com grande alegria. Não é que se lhe mude o rosto, pois é imutável, por ser um comigo. É também imutável desde que tem a glória da ressurreição, segundo a natureza divina e igualmente segundo a natureza humana. Aos olhos do condenado, sem embargo, lhe aparecerá com aquele olhar terrível  e tenebroso, qual tem o mesmo condenado em si mesmo. Assim chegará.

Como o olho enfermo, que por si mesmo não vê mais que trevas, e  o olho são vê a luz – isto não porque a luz seja distinta para o cego e para o são, mas por defeito do olho que está enfermo, assim os condenados o vêem em trevas, em confusão e no ódio; não por defeito de minha Majestade, com a qual virei julgar o mundo, mas por defeito deles”.[2]

 

Nosso Senhor julgará a todos, e com mais rigor papas e bispos

A propósito, transcrevemos abaixo parte do sermão do Padre Vieira, pronunciado na Capela Real, em 1650, no Domingo do Advento:

 

“Sairão pois os anjos; vêde que suspensão e que tremor será o dos corações dos homens naquela hora. Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas: Et separabunt (faz horror só imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito Santo há de haver também que separar). Et separabunt malos de medio justorum. E separarão os pontífices maus dentre os pontífices bons. Eu bem creio que serão muito raros os que se hão de condenar, mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do mundo, é um peso tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns ao profundo. Todos nesta vida se chamaram padres santos; mas o dia do Juízo mostrará que a santidade não consiste no nome senão nas obras. Nesta vida beatíssimos, na outra mal-aventurados: Oh que grande miséria!

 

Sairão após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum. Lá vai aquele porque não deu esmolas: aquele porque enriqueceu os parentes com o patrimônio de Cristo: aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor dotada: aquele porque faltou com o pasto da doutrina a suas ovelhas: aquele porque proveu as igrejas nos que não tinham mais merecimento que o de serem seus criados: aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem sacramentos: aquele por não residir: aquele por simonias: aquele por irregularidades: aquele por falta de exemplo da vida e também algum por falta de ciência necessária, empregando o tempo e o estudo em divertimentos, ou da côrte e não de prelado, ou do campo e não de pastor. Valha-me Deus, que confusão tão grande! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e muitos outros varões santos e sisudos, que quando lhes ofereceram as mitras, não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipício. Pelo contrário, que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados? Maldito seja o dia em que nos elegeram, e maldito quem nos elegeu: maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou. Se um homem mal pode dar conta de sua alma, como a dará de tantas? Se este peso deu em terra com os maiores atlantes da Igreja, quem não temerá e fugirá dele?”[3]

  



[1]              “Exposição sobre o Credo” -  São Tomás de Aquino – Edições Loyola, págs. 63/67.

 [2]              Santa Catalina de Siena – “El Diálogo”  - Obras – BAC - pág. 121.

[3] DA OBRA DO SERMONISTA MOR, “GLÓRIA DE PORTUGAL  E GLÓRIA DE NOSSAS LETRAS” – Sermões do Padre Vieira, 2º. Volume.

 

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