“DONDE HÁ DE
VIR JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS”
Devemos considerar nesse juízo três coisas:
primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como
para ele devemos nos preparar.
No juízo devemos ainda distinguir três elementos
componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do
julgamento.
Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos
vivos e dos mortos (10, 42). Pode
este texto ser interpretado, ou chamado de mortos os pecadores e, de vivos, os
que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que
agora vivem, e, mortos, todos os que morreram. Ele é juiz não só enquanto Deus,
mas também como homem, por três motivos.
Jesus Cristo será nosso Juiz
enquanto Homem
Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser
julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a
pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse
logo alegria, foi necessário que Cristo aparecesse em forma só de homem, para
que fosse visto por todos. Lê-se
Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem.
Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de
todos. Lê-se: A tua causa foi julgada
como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas (Jo 37, 17).
Terceiro, para que os homens não mais desesperem,
vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam
desesperados, devido ao temor. (Mas
todos verão um homem julgar), pois se lê
Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre
os que devem ser julgados. Estes, ou são bons, ou são maus.
Entre os maus, alguns serão condenados, mas não
julgados, como os
infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado (Jo 3, 18). Outros, porém, serão
condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal.
Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a
morte (Rom 6, 23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé
que tiveram.
Entre os bons também haverá os que serão salvos sem
o julgamento, os pobres
de espírito por amor de Deus. Lê-se
Estas palavras não se dirigem só aos discípulos,
mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que
trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto,
ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos.
Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis
que julgamos os Anjos? (1 Cor 6, 3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os
príncipes do seu povo (Is 3, 14).
Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrena. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.
A matéria do julgamento
Todos serão julgados pelos atos bons e maus que
praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os
caminhos do teu coração... mas fica
certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11, 9); Deus
citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer
sejam más (Ecle 13, 14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém,
este dará conta dela no dia do juízo
(Mt 12, 36).
Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que
tiveram. Lê-se no Livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus
pensamentos (Sab 1,9).
Fica assim esclarecida a matéria do julgamento.
Motivos pelos quais o Juízo Final
deve ser temido
Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo.
Primeiro, devido à sabedoria do Juiz, porque ele
conhece todas as coisas, os pensamentos, as palavras e as ações, já que, como
se lê na Carta aos Hebreus, todas as
coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4, 13). Lê-se ainda na
Escritura: Todos os caminhos dos homens
estão diante dos seus olhos (Prov 16, 1).
Conhece Ele as nossas palavras: Os teus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1,
10).
Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer?
Eu, o Senhor, penetro nos corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme
o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17, 9).
Haverá neste Juízo também testemunhas infalíveis,
isto é, as próprias consciências dos homens, segundo se lê
Segundo, devido ao poder do Juiz, porque Ele é em
si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o
Senhor virá com fortaleza (Is 11, 10).
É poderoso também sobre os outros, porque toda
criatura estava com Ele. Lê-se: O
universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5, 2); Ninguém há que possa livrar-se de vossa mão
(Jo 10, 7); e ainda: Se subo aos
céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também (Sl 138, 8).
Terceiro, devido à justiça inflexível do Juiz. Agora
é o tempo da misericórdia. Mas o
tempo futuro é tempo só de justiça. Por
isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus.
Lê-se: No
tempo que eu determinar, farei justiça (Sl 134, 3). O varão furioso de ciúmes
não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem
receberá como satisfação presentes, por maiores que sejam (Prov 6, 34).
Quarto, devido à ira do Juiz. Aparecerá aos justos
doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão ao rei na sua beleza (Is 33, 17). Aos maus, porém, aparecerá tão irado e
cruel, que eles dirão aos montes: Cai sobre nós, e escondei-nos da ira do
cordeiro (Apoc 6, 16).
Esta ira de Deus não significa uma comoção de
espírito, mas significa o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é,
a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no Juízo! No fim estará o Juiz irado.
Remédios para não cair neste
temor
Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.
O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se
O segundo é a confissão dos pecados cometidos e a
penitência feita por eles. Na confissão deve haver três
coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da
satisfação por eles. São essas três coisas que remediam a pena eterna.
O terceiro remédio é a esmola que torna tudo puro,
segundo as palavras do Senhor: Conquistai
amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam
nas tendas eternas (Lc 26, 9).
O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor
de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados (I Ped 4, 8; cf Prov 10, 12). [1]
No Evangelho estão consignadas as diversas profecias em que o próprio Nosso Senhor fala do Juízo Final.
“Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se
mostra até ao Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Em qualquer
lugar, em que estiver um cadáver, juntar-se-ão as águias.
“Logo depois da tribulação daqueles dias,
‘escurecer-se-á o sol, a lua não dará a sua luz, as estrelas cairão’ do céu e
as potências do céu serão abaladas. Então aparecerá o sinal do Filho do homem
no céu, e todas ‘as tribos da terra chorarão’ e verão o Filho do homem vir
sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade. Ele mandará os seus anjos
com poderosas trombetas, os quais juntarão os seus escolhidos dos quatro
ventos, de uma extremidade dos céus até à outra”. (Mt 24, 29-31).
“Mas, quanto àquele dia e àquela hora, ninguém
sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai. Assim como foi nos dias
de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porque, assim como nos
dias antes do dilúvio (os homens) estavam comendo e bebendo, casando-se e
casando seus filhos, até ao dia
“Vigiai pois, porque não sabeis a que hora virá o vosso
Senhor. Sabei que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o
ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai
vós também preparados, porque o Filho do homem virá na hora em que menos o
pensardes”. (Mt 24, 42-44).
“Quando pois vier o Filho do homem na sua majestade
e todos os anjos com ele, então se sentará sobre o trono da sua majestade.
Serão todas as gentes congregadas diante dele, o qual separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Porá as ovelhas à sua direita e
os cabritos à sua esquerda.
Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita:
Vinde, benditos de meu Pai, possuí o
reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e
deste-me de comer; tive sede, e deste-me de beber; era peregrino, e
recolheste-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitaste; estava na prisão, e
fostes visitar-me. Então, lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é
que nós te vimos faminto, e te demos de comer; sequioso e te demos de beber?
Quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te
vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? Respondendo o Rei, lhes dirá:
Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizeste isto a um destes meus
irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à
esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado
para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me destes de
comer; tive sede, e não me destes de beber; era peregrino, e não me
recolhestes; (estava) nu, e não me vestistes: enfermo e na prisão, e não me
visitastes. Então, eles também responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós
te vimos faminto ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e
não te assistimos? Então, lhes responderá, dizendo: Na verdade vos digo: Todas
as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim o não fizestes.
Esses irão para o suplício eterno, os justos para a vida eterna”. (Mt 25, 31-45).
Qualidade do Juiz
O sumo sacerdote O conclama a se proclamar Filho de
Deus, mas Nosso Senhor não só confirma tal título como declara que não é nesta
qualidade que virá julgar a todos no Juízo Final, e sim de Filho do homem:
“Jesus porém estava calado. E o sumo sacerdote disse-lhe: Eu te conjuro por
Deus vivo que nos diga se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Jesus respondeu-lhe:
Tu o disseste: mas também vos digo que vereis o Filho do homem sentado à
direita do poder de Deus, e vir sobre as nuvens do céu”. (Mt 26, 63-64).
Juízos que serão feitos sobre
cidades ou povos
“Ai de ti Corozain! Ai de ti, Betsaída! porque, se
em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós,
há muito tempo que eles teriam feito penitência em cilício e
N. Senhor não julgará sozinho:
outros também julgarão com Ele
“Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que, no dia
da regeneração, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da sua glória,
vós, que me seguistes, também estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis
as doze tribos de Israel”. (Mt 19, 28)
“Os habitantes de Nínive se levantarão no Juízo
contra esta geração, e a condenarão, porque fizeram penitência com a pregação
de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas. A rainha do mei-dia
levantar-se-á no dia do Juízo contra esta geração e a condenará, porque veio
dos confins da terra a ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está quem é mais do que Salomão”
(Mt 12, 41-42).
O Juízo sobre os Bons
“Vinde a mim todos os que estais fatigados e
carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave, e o meu peso leve”.
(Mt 11, 28-30)
A matéria do julgamento
“Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão
perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será
perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será
perdoado; porém o que a disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado,
nem neste século nem no futuro. Ou dizei que a árvore é boa, e o seu fruto bom;
ou dizei que a árvore é má, e o seu fruto mau; pois que pelo fruto se conhece a
árvore. Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, vós que sois maus?
Porque a boca fala da abundância do coração. O homem bom tira boas coisas do
bom tesouro (do seu coração); e o mau homem tira más coisas do mau tesouro.
Ora, eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os
homens, darão conta dela no dia do Juízo. Porque pelas tuas palavras serás
justificado ou condenado” (Mt 12, 31-37)
As sentenças impostas pelo Juiz:
castigo e prêmio
“De maneira que, assim como é colhida a cizânia e
queimada no fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os
seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a
iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de
dentes. Então, resplandecerão os justos como o sol no reino de seu Pai”. (Mt 13, 40-43).
“Será assim no fim do mundo, virão os anjos,
separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali
haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13, 49-50).
“Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu
Pai com os seus anjos; então dará a cada um segundo as suas obras. Em
verdade vos digo que entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não
morrerão, antes que vejam vir o Filho do homem ao seu reino”. (Mt 16, 27-28). Quando Nosso Senhor precedia a
expressão “em verdade vos digo”, queria dizer com isto que estava fazendo uma
declaração solene, como que dogmática, uma espécie de juramento, a fim de que
todos cressem que aquilo ocorreria da forma como dizia. Então, podemos crer que
alguns daqueles que estavam a Lhe ouvir só morrerão no fim do mundo (poderiam
muito bem ir fazer companhia a Elias e Enoch), ou então atingiriam uma
santidade tão alta que chegariam a ver (misticamente) a posse de Nosso Senhor
em Seu reino. Como as verdades divinas às vezes se cumprem em tempos e formas
diferentes, e ao mesmo tempo, ambas as afirmações podem ser corretas.
No fim do mundo não haverá mais
fé sobre a terra
“Mas,
quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Isto combina com o
que diz São João no Apocalipse: “conheço
as tuas obras, que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas,
porque és morno, nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitarda minha boca”
(Apoc. 3, 15-16).
No Juízo Final, a presença de
Jesus causará tormento e terror aos maus
“Saiba
que, no último dia do Juízo, o Verbo, meu Filho, quando vir, não surgirá como
um pobrezinho, como quando nasceu, saindo do ventre da Virgem, nascendo num
estábulo entre os animais e morrendo depois entre ladrões.
Naquela
oportunidade ocultei nEle o meu poder, deixando-O sofrer penas e tormentos,
como homem. Não é que minha natureza divina estivesse separada da humana, mas
que lhe deixei padecer como homem para satisfazer por todos vossos pecados.
Não virá
assim agora, neste último momento, mas com autoridade, para repreender Ele
mesmo em pessoa; e não haverá criatura alguma que não trema. Dará a cada um o
merecido.
Nos
infelizes condenados, sua presença produzirá tanto tormento e terror, que
nenhuma língua será capaz de contá-lo. Nos justos produzirá temor reverencial,
junto com grande alegria. Não é que se lhe mude o rosto, pois é imutável, por
ser um comigo. É também imutável desde que tem a glória da ressurreição,
segundo a natureza divina e igualmente segundo a natureza humana. Aos olhos do
condenado, sem embargo, lhe aparecerá com aquele olhar terrível e tenebroso, qual tem o mesmo condenado em si
mesmo. Assim chegará.
Como o
olho enfermo, que por si mesmo não vê mais que trevas, e o olho são vê a luz – isto não porque a luz
seja distinta para o cego e para o são, mas por defeito do olho que está
enfermo, assim os condenados o vêem em trevas, em confusão e no ódio; não por
defeito de minha Majestade, com a qual virei julgar o mundo, mas por defeito
deles”.[2]
Nosso Senhor julgará a todos, e
com mais rigor papas e bispos
A propósito, transcrevemos abaixo parte do sermão
do Padre Vieira, pronunciado na Capela Real, em 1650, no Domingo do Advento:
“Sairão
pois os anjos; vêde que suspensão e que tremor será o dos corações dos homens
naquela hora. Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas: Et separabunt (faz horror só
imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito
Santo há de haver também que separar). Et
separabunt malos de medio justorum. E separarão os pontífices maus
dentre os pontífices bons. Eu bem creio que serão muito raros os que se hão de
condenar, mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do mundo, é um peso
tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns ao profundo.
Todos nesta vida se chamaram padres santos; mas o dia do Juízo mostrará que a
santidade não consiste no nome senão nas obras. Nesta vida beatíssimos, na
outra mal-aventurados: Oh que grande miséria!
Sairão
após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum.
Lá vai aquele porque não deu esmolas: aquele porque enriqueceu os parentes com
o patrimônio de Cristo: aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor
dotada: aquele porque faltou com o pasto da doutrina a suas ovelhas: aquele
porque proveu as igrejas nos que não tinham mais merecimento que o de serem
seus criados: aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem
sacramentos: aquele por não residir: aquele por simonias: aquele por
irregularidades: aquele por falta de exemplo da vida e também algum por falta
de ciência necessária, empregando o tempo e o estudo em divertimentos, ou da
côrte e não de prelado, ou do campo e não de pastor. Valha-me Deus, que
confusão tão grande! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um
São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e
muitos outros varões santos e sisudos, que quando lhes ofereceram as mitras,
não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipício.
Pelo contrário, que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados?
Maldito seja o dia em que nos elegeram, e maldito quem nos elegeu: maldito seja
o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou. Se um homem mal
pode dar conta de sua alma, como a dará de tantas? Se este peso deu em terra
com os maiores atlantes da Igreja, quem não temerá e fugirá dele?”[3]

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