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sábado, 22 de maio de 2021

Caracteres do reinado do Sagrado Coração de Jesus

 




Quais são os caracteres do reinado do Sagrado Coração?

Nosso Senhor mostrou á B. Margarida Maria que o reinado do seu divino Coração teria quatro qualidades muito particulares : a) há de ser Impugnado ; b) certo e seguro ; c) será universa! ; d) será cheio de doçura e de força.

Como será impugnado o reino do Sagrado Coração?

“Satanás, diz a serva de Deus, está desesperado, vendo que por meio da devoção ao Sagrado Coração muitas almas, que julgava suas, lhe escaparão!

Por isso resolveu pôr obstáculos a quanto eu empreender.(*)

Devemos preparar-nos para a luta por isso, suportando com valor as guerras do inimigo, não nos surpreendendo as contradições que se levantarem diante dos nossos esforços para estabelecer o reinado deste Sagrado Coração. Sejam quais forem  estas contradições, não desistamos do nosso propósito, nem desanimemos.

Este divino Coração servir-se-á deles como de sólida base para estabelecer o seu reinado, porque nesta gloriosa e santa empresa as crises e contrariedades são sinais infalíveis e seguros de que a obra é de Deus, e de que Deus deve ter grande glória por meio do reinado do Sagrado Coração de seu divino Filho”

“Regozijemo-nos muito, e tanto mais, quanto o trabalho for maior e trouxer  alguma humilhação e mortificação: são estes os sinais evidentes de que o Sagrado Coração o aceita, porque as suas obras não se realizam senão no meio das contradições” .

(*) ·cartas 46, 471 1001 w5. Vida por ella, 3 5

É certo e seguro o reinado do Sagrado Coração?


Várias vezes, Nosso Senhor significou à B . Margarida Maria, que o reinado do seu divino Coração havia de chegar, apesar de todas as contradições.

“Não temas, lhe disse ele um dia; reinarei apesar de Satanás e dos seus sequazes; espero aqueles que se querem opor ao meu reinado. Satanás será confundido com todos os que aderem á sua causa” .

“Ó' meu amável Salvador, lhe respondeu ela, quando chegará esse feliz momento? Enquanto o esperamos, entrego-vos a defesa da vossa causa e sofrerei em silêncio. Ouvi então estas palavras: “Crês tu que eu o posso fazer? Se assim é, verás o poder do meu Coração na magnificência do meu amor” .

Sim! este divino Coração reinará ! Esta palavra transporta-me de alegria, é toda a minha consolação.

Mas agora é tempo de trabalhar e sofrer em silêncio, como o Sagrado Coração de Jesus trabalhou e sofreu por nosso amor” .

Deverá o reinado do Sagrado Coração ser universal?

“O Coração de Jesus quer reinar no mundo inteiro, porque todos os corações 'lhe foram dados por herança. “A devoção a este divino Coração foi-me representada semelhante o uma formosa árvore que devia germinar  e lançar raízes no meio do nosso Instituto, diz a B. Margarida Maria, e logo desenvolverá os seus ramos nas casas que o compõem: mas quer que as filhas da Visitação distribuam com abundância os frutos desta árvore sagrada a todos os que os desejarem, sem recear que se acabem, pois quer dar por este meio vida ás almas, fazendo-as sair do caminho da perdição. O seu amor não deixará perecer nenhuma das que lhe forem consagradas”.

Reinará o Sagrando Coração  pela doçura e força do seu amor?

“Estou convencida, escreve a Bem-aventurada, que o Sagrado Coração quer estabelecer o seu reinado pela suavidade do amor, e não pelos rigores da justiça. A devoção a este Coração Sagrado não deve estabelecer-se pela força.

Este divino Coração é todo brandura, humildade e paciência; por isso quer insinuar-se em nossos corações pela unção da sua caridade, semelhante a um óleo ou balsamo precioso, cuja essência e aroma se espalham suavemente.

“E' preciso, pois, que tudo se faça com brandura e suavidade, e ao mesmo tempo com fortaleza e diligência, segundo os meios que nos deu o Sagrado Coração.

Devemos (sem dúvida), prosseguir a obra de Deus, sem desistência nem aborrecimento, em despeito dos obstáculos e contradições que sobrevierem; este divino Coração tem muita força para vencer tudo, e muito poder para confundir os seus inimigos ; mas é necessário esperar com paciência, porque este Coração adorável saberá realizar todas as coisas a seu tempo. A sua graça atua suave e docemente, ainda que com fortaleza e eficácia” .

A Bem-aventurada Margarida Maria tomou parte nos primeiros combates que se deram para estabelecer o reinado do Sagrado Coração, viu as primeiras vitórias, e morreu antes de ver o seu completo triunfo.

Como recebeu o demônio esta nova devoção?

O inferno estremeceu, como era de esperar, e fê-Io sentir de uma forma terrível à Bem-aventurada Margarida Maria, cuja vida foi uma série de sofrimentos e  provas extraordinárias.

“Satanás está exasperado, morde-se de raiva ao ver espalhar-se a devoção ao Sagrado Coração, porque muitas almas lhe hão de fugir por meio dela. Mas tenhamos confiança, o Sagrado Coração reinará ! Ele mo disse, e Satanás será confundido” .

Como recebeu a Igreja esta devoção nos seus princípios?

Esta devoção espalhou-se a pouco e pouco pela Igreja: estabeleceu-se primeiro nos conventos da Visitação e nalgumas comunidades. Algumas dioceses a aceitaram também.

A Santa Sé vigiava esse movimento com atenção e muita prudência ; animava-o com bênçãos, com indulgências e com outras graças, mas esperava o sinal da Providência para tomar a direção dele. Só em 1.899 se manifestou este sinal. Alumiado por uma luz sobrenatural, Leão XIII, anunciou a consagração do mundo inteiro ao Sagrado Coração de Jesus para o dia 11 de junho de 1.899. Um ato solene precedeu esta consagração: foi a promulgação da Encíclica Annum sacrum de 25 de maio, na qual o Vigário de J . C. apresenta oficialmente a imagem do Sagrado Coração como a nova bandeira dos cristãos, e declara a devoção a este Coração divino como a devoção vital da Igreja, destinada a produzir nos ultimas tempos as maravilhas realizadas nos primeiros pela cruz.

Depois de recordar o Labarum de salvação mostrado a Constantino, e fazer resenha dos males que afligem a Igreja, o Vigário de J. C. pronuncia estas palavras memoráveis que são, por assim dizer, a entrega oficial do estandarte do Sagrado Coração à Igreja :

“En a lterum hodie oblatum oculis signum, auspicatissimum divinissimumque : videlicet Cor Jesu sacratissimum, superimposita Cruce, splendidissimo andare inter flammas elucens. In eo omnes collocandre spes, ex eo hominum petenda atque expectanda salus» .

“Eis que hoje se oferece aos nossos olhos outro sinal de salvação; sinal diviníssimo e de suprema esperança : E' o Coração Sacratíssimo de Jesus, que, encimado pela Cruz, resplandece no meio de chamas com o mais vivo fulgor. E' nele que havemos de colocar todas as nossas esperanças ; a ele havemos de pedir e dele havemos de esperar a salvação dos homens” .

Estas palavras são talvez as mais extraordinárias que os Papas têm  pronunciado, depois que S. Melchiades, arvorou oficialmente na Igreja, o estandarte da Cruz, no ano de 312, em seguida á visão de Constantino.

Por estas palavras tão claras e tão expressivas o Vigário de Jesus Cristo, em virtude da sua autoridade divina, reconhece e levanta o novo estandarte de salvação e de vitória mostrado. á Bem-aventurada Margarida Maria, sob o qual se devem ferir os últimas combates e alcançar os grandes triunfos da Igreja contra o inferno.  “Sim ! Este divino Coração reinará ! - repetia com prazer a serva de Deus ! Sim, há de reinar, ele mo disse ! Esta palavra transporta-me de alegria” .

A fim de preparar e apressar este triunfo, é necessário, como indica Leão XIII, corresponder ao seu chamamento, e prestar ao Coração de Jesus as homenagens que ele espera de nós, e que a Bem-aventurada Margarida Maria vai indicar-nos.

(Extraído de “O Coração de Jesus Segundo a Doutrina da Beata Margarida Maria Alacoque” – Por um Oblato de Maria Imaculada, Capelão de Montmarfe – Introdução do Pe. Joaquim dos Santos Abranches -  Editor Manuel Pedro dos Santos, 1907, Lisboa –págs. 55/88)

 

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

O REINO DE CRISTO SE INICIA COM A ANUNCIAÇÃO DO ANJO A MARIA

 





 Segundo Bento XVI foi na Anunciação do Anjo, comemorada em 25 de março, que começou o Novo Testamento. São Tomás de Aquino, ao comentar a Ave Maria, diz que foi a única vez em que um Anjo curvou-se aparecendo a  uma ser humano. Foi também nesse dia que se deu realce às principais características do Reino de Cristo, com regências temporais e espirituais.

Após a saudação "Ave, Maria", inclinando-se, “o Anjo disse-lhe: "Não temas Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó e o seu reino não terá fim." (Lc 1, 30-34)

 

Vê-se que o Anjo fala em “casa de Jacó”, mas o patriarca teve seu nome mudado por um Anjo para Israel (Gên 32, 28). Poderia ter dito “casa de Israel”, mas na linguagem corrente entre os hebreus o nome Jacó estava ligado à descendência real através da tribo de Judá (poder temporal), enquanto Israel tinha sentido mais espiritual e divino. O Anjo, portanto, falava claramente também numa descendência real terrena. É como se estivesse definido aí a diferença entre o poder temporal e o espiritual, que, no entanto, devem reger unidos.

O Profeta Isaías também chama a dinastia que dominava os hebreus de “Casa de Jacó” e não “Casa de Israel”, indicando um reinado meramente terreno: “Casa de Jacó, vinde e caminhemos à luz do Senhor. Pois tu (ó Senhor) rejeitaste o teu povo, a casa de Jacó, porque eles se encheram (de superstições) como noutro tempo tiveram agoureiros como os filisteus, e se uniram aos filhos dos estranhos” (Is 2, 5-6).  Note-se que quando o Profeta fala “rejeitaste o teu povo”, logo a seguir completa, “a casa de Jacó”, quer dizer, Deus recusou os dirigentes, os filhos de Judá, (hoje conhecidos como judeus), e não o povo israelita. . Mais adiante, o Profeta dá a entender essa distinção entre governantes e o povo quando diz: “Agora, pois habitantes de Jerusalém, e homens de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha” (Is 5, 3). Habitantes de Jerusalém eram apenas os que moravam na capital, dominada por duas tribos, Benjamin e Judá, e “homens de Judá”, claramente, eram os dirigentes, os príncipes e reis que lá dominavam.

Quando o Profeta se refere à “casa de Jacó” sempre dá a entender que está falando dos reis, da dinastia real, e não do povo eleito em geral, como nestes textos: “E acontecerá isto naquele dia: Os que tiverem ficado de Israel e os da casa de Jacó, que se tiverem salvado, não se apoiarão mais sobre aquele que os fere; mas apoiar-se-ão sinceramente sobre o Senhor, o Santo de Israel” (Is 10, 20-21). Em seguida o profeta fala que se converterão apenas “as relíquias”, isto é, uma pequena porção, tanto da “casa de Jacó” quanto do povo em geral.

Em outra passagem, diz: “Apesar dos que investem com ímpeto contra Jacó, Israel florescerá” (Is 27-6), deixando bem claro a diferença entre o poder temporal (Jacó) e o espiritual (Israel), indicando que mesmo que as elites recusem o poder divino, este terminará por prevalecer.

Em outra parte vemos: “Por esta causa, o Senhor, que resgatou Abraão, diz isto à casa de Jacó: Agora não será confundido Jacó, nem agora se envergonhará o seu rosto; mas, quando vir no meio dele os seus filhos, obra das minhas mãos, dar glória ao seu nome, também eles santificarão o Santo de Jacó e glorificarão o Deus de Israel” (Is 29, 22-23). O “Santo de Jacó” é, pois, Jesus Cristo, descendente da “casa de Jacó” (do poder temporal)e o “Deus de Israel” nem precisa dizer Quem é, representando aí o poder espiritual.

E, no entanto, as profecias diziam “E tu Belém de Efrata, tu és pequenina entre as milhares de Judá; mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel”. (Miq 5, 2). Há, portanto, dois significados nos títulos reais dados a Jesus Cristo: o terreno e o divino, sendo rei da “casa de Jacó” o faz com o título meramente terreno, mas como “Rei de Israel” (nome com que o Anjo mudou o nome de Jacó) ele reina sobre todos os homens, pois este título é divino.

Estão bem definidos aí os poderes temporal e espiritual, cujas características comportam todo o Reino de Cristo.