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quarta-feira, 25 de maio de 2022

COMENTÁRIOS DE SÃO BERNARDO SOBRE A ANUNCIAÇÃO DO ANJO À NOSSA SENHORA

 





A mais importante das comunicações angélicas foi a que São Gabriel fez à Santíssima Virgem, a Anunciação, que é contada com encanto pela Legenda Dourada, com comentários de São Bernardo:

“Disse, pois, o anjo a Maria: “Deus te Salve, cheia de graça”. Comentário de São Bernardo: “Cheia da graça da divindade em seu ventre; da graça da caridade em seu coração; da graça da afabilidade em sua boca; da graça da misericórdia e da generosidade em suas mãos... Verdadeiramente cheia; e tão cheia, que de sua plenitude recebem todos os cativos, redenção; os enfermos, saúde; os tristes, consolo; os pecadores, perdão; os justos, santidade; os anjos, alegria; a Trindade, glória, e o Filho do homem a natureza de sua humana condição.

“O Senhor é contigo”. Contigo o Senhor enquanto Pai, que é quem engendra eternamente ao que engendra em seu seio; contigo o Senhor enquanto Espírito Santo, por cuja virtude concebes; contigo o Senhor enquanto Filho, ao que revestes com tua própria carne”

“Bendita entre todas as mulheres”. Segundo São Bernardo isto quer dizer: Bendita sobre todas e mais que todas as mulheres, posto que tu fostes Virgem, Mãe e Mãe de Deus.

“As mulheres estavam submetidas a uma destas três maldições: ou de opróbrio, ou de pecado ou de suplício. A de opróbrio afetava às que não tinham filhos; neste caso havia estado, por exemplo, Raquel, que a ela havia se referido quando disse: “O Senhor me livrou do opróbrio em que me achava”. A de pecado alcançava às que concebiam: esse é o sentido das palavras do Salmo 50: “Olha que em maldade fui formado e em pecado concebeu minha mãe”. A de suplício recaia sobre as parturientes, as quais, como se adverte no Gênesis, “parirão com dor”.

“Bendita foi e é Maria entre todas as mulheres e sobre todas as mulheres, porque somente ela esteve isenta destas maldições: em sua virgindade não houve opróbrio, posto que concebeu sem detrimento de sua integridade; em sua concepção não houve pecado, senão que, pelo contrário, concebeu em santidade;  nem houve tormento em seu parto, posto que pariu, não já sem dor, mas com inefáveis transportes de alegria.

“Com razão Maria foi chamada “cheia de graça”, porque, como observa Bernardo, em sua alma se deram quatro plenitudes, a saber: plenitude em sua humilde devoção, em sua santíssima pureza, em sua fé sem limites e na imolação de seu coração.

“Com razão também pôde dizer o anjo: “o Senhor é contigo”, porque a presença do Senhor em sua alma se acreditou sobejamente, disse o mesmo São Bernardo, com os quatro portentos celestiais de que Maria foi objeto: a santificação de seu ser, a saudação do anjo, a intervenção do Espírito Santo e a Encarnação do Filho de Deus.

“Com razão, igualmente, foi proclamada “bendita entre as mulheres”, posto que, como o citado São Bernardo nota, Deus concedeu a seu corpo estes quatro privilégios: virgindade absoluta, fecundidade sem corrupção, prenhez sem moléstias e parto sem dor.

 “Ela se turbou ao ouvir estas palavras e tratou interiormente de averiguar o significado que poderia ter tudo o que o anjo lhe dizia”.

“Este texto do Evangelho constitui um elogio do comportamento da Virgem, da atenção com que escutou o anjo, das disposições internas de sua alma e do discurso de seu pensamento. O evangelista pondera a modéstia com que acolheu aquela mensagem, ouvindo e calando, o pudor de seus sentimentos e a prudência de sua mente, posto que, raciocinando, tratou de buscar explicação ao que o anjo lhe dizia.

“A turbação de sua alma procedeu, não de ver ao angélico mensageiro – estas criaturas celestes eram-lhe já conhecidas, porque anteriormente já as havia visto muitas vezes -; proveio de ouvir o que estava ouvindo, porque até então nunca havia ouvido coisas semelhantes. A respeito desta turbação, eis aqui o que escreveu Pedro de Ravena: “Não se impressionou Maria por ver o anjo, que se apresentou perante ela sob uma aparência doce e normal, mas pelo estranho conteúdo de sua mensagem. A turbação chegou à sua alma, não através dos olhos do corpo, posto que o que via era muito agradável, mas através dos ouvidos, enquanto que o que estava ouvindo resultava-lhe inaudito”. Por sua parte, São Bernardo comenta: “Turbou-se por seu pudor virginal, porém não se alarmou, porque era mulher de notável fortaleza, nem se assustou, nem se calou, em silêncio refletiu, dando provas de admirável prudência e suma discrição”.

“O anjo lhe disse: “Não temas, Maria, porque encontrastes graças diante do Senhor”. “Encontrastes”, disse São Bernardo, “a graça de Deus, a paz para os homens, a destruição da morte e a restauração da vida”.

Conceberás em teu seio e darás á luz um filho a quem porás o nome de Jesus, que quer dizer Salvador, porque Ele salvará ao povo de seus pecados; esse filho será grande e chamado Filho do Altíssimo”. “As palavras anteriores”, comenta São Bernardo, “querem dizer: este Filho, que já é grande enquanto Deus, será também grande enquanto homem, grande enquanto doutor, e grande enquanto profeta”.

“Disse Maria ao Anjo: Como poderá ser isto se eu não conheço varão?”   Como poderá ocorrer tudo quanto dizes se eu me comprometi a não ter contato carnal com homem algum? Mediante tais palavras Maria declara que era Virgem em sua alma, em seu corpo e em seus propósitos com relação ao futuro.

“Observe-se que Maria pergunta. Quem pergunta é que tem alguma dúvida: logo duvidava. E se duvidava, como se explica que não incorresse em semelhante penalização imposta a Zacarias, de quem sabemos que por suas dúvidas foi castigado com a pena de ficar mudo? Pedro de Ravena responde a esta questão da seguinte maneira, e observemos que em suas palavras se contêm, não uma senão quatro respostas: “Aquele que sabe perscrutar o fundo dos homens, não se guia tanto pelo som dos vocábulos, quanto pelo que se vê no fundo dos corações; do mesmo modo julga os pecadores não ao teor do que dizem, mas atendendo-se ao que sentem. A razão que moveu a ambos interrogadores a formular suas perguntas foi diferente quanto à sua origem e quanto ao seu alcance. Maria admitiu sem vacilação algo que parecia ir contra a natureza; Zacarias, pelo contrário, não admitiu, mas duvidou de algo e fundamentou sua dúvida precisamente numa circunstância que não ia realmente contra a natureza. Maria, ao perguntar, tratou de conhecer como sucederia o que lhe anunciava, enquanto que Zacarias, sem mais, descartou a possibilidade de que se realizasse o que Deus havia determinado que aí se realizasse.  Este homem, apesar de que já anteriormente houvesse ocorrido casos semelhantes, se obstinou em qualificar de impossível o que, sim, era possível. Maria, pelo contrário, ainda sabendo que nunca havia ocorrido nada parecido ao que o anjo lhe comunicava, teve fé no poder divino. Maria se limitou a mostrar-se admirada ante o anúncio de que uma virgem ia ser mãe; coisa muito distinta da atitude de Zacarias, que pôs em tela de juízo a possibilidade de que uma relação conjugal dele com sua esposa desse resultado positivo. Maria, pois, não abrigou dúvidas acerca da divindade da mensagem angélica, mas tratou de conhecer o procedimento mediante o qual ela chegaria a ser mãe; sua pergunta foi muito razoável, já que à maternidade se pode chegar por três caminhos diferentes: o da concepção natural ou normal, o da concepção espiritual e o da concepção milagrosa; ela, ao perguntar, procurou informar-se acerca de qual delas ia a seguir-se em seu caso”.        

 “O anjo lhe contestou: O Espírito Santo virá sobre ti. Quer dizer: O divino Espírito, em virtude de recursos sobrenaturais fará que concebas um filho. Por isso se diz que Jesus Cristo foi concebido por obra e graça do Espírito Santo”  e mais adiante: “A virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”. [i]

 



[i] La Leyenda Dorada” – Santiago de la Vorágine – Ed. Alianza Forma – vol. 1 – págs. 211/214.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

COMENTÁRIOS DE SÃO BERNARDO SOBRE A ANUNCIAÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA






Mais do que os castigos divinos, os Anjos têm sido portadores de muitas bênçãos para os homens. Uma delas foi a Anunciação. A mais importante das comunicações angélicas foi a que São Gabriel fez à Santíssima Virgem, a Anunciação, que é contada com encanto pela Legenda Dourada, com comentários de São Bernardo:
“Disse, pois, o anjo a Maria: “Deus te Salve, cheia de graça”. Comentário de São Bernardo: “Cheia da graça da divindade em seu ventre; da graça da caridade em seu coração; da graça da afabilidade em sua boca; da graça da misericórdia e da generosidade em suas mãos... Verdadeiramente cheia; e tão cheia, que de sua plenitude recebem todos os cativos, redenção; os enfermos, saúde; os tristes, consolo; os pecadores, perdão; os justos, santidade; os anjos, alegria; a Trindade, glória, e o Filho do homem a natureza de sua humana condição.
“O Senhor é contigo”. Contigo o Senhor enquanto Pai, que é quem engendra eternamente ao que engendra em seu seio; contigo o Senhor enquanto Espírito Santo, por cuja virtude concebes; contigo o Senhor enquanto Filho, ao que revestes com tua própria carne”
“Bendita entre todas as mulheres”. Segundo São Bernardo isto quer dizer: Bendita sobre todas e mais que todas as mulheres, posto que tu fostes Virgem, Mãe e Mãe de Deus.
“As mulheres estavam submetidas a uma destas três maldições: ou de opróbrio, ou de pecado ou de suplício. A de opróbrio afetava às que não tinham filhos; neste caso havia estado, por exemplo, Raquel, que a ela havia se referido quando disse: “O Senhor me livrou do opróbrio em que me achava”. A de pecado alcançava às que concebiam: esse é o sentido das palavras do Salmo 50: “Olha que em maldade fui formado e em pecado concebeu minha mãe”. A de suplício recaia sobre as parturientes, as quais, como se adverte no Gênesis, “parirão com dor”.
“Bendita foi e é Maria entre todas as mulheres e sobre todas as mulheres, porque somente ela esteve isenta destas maldições: em sua virgindade não houve opróbrio, posto que concebeu sem detrimento de sua integridade; em sua concepção não houve pecado, senão que, pelo contrário, concebeu em santidade;  nem houve tormento em seu parto, posto que pariu, não já sem dor, mas com inefáveis transportes de alegria.
“Com razão Maria foi chamada “cheia de graça”, porque, como observa Bernardo, em sua alma se deram quatro plenitudes, a saber: plenitude em sua humilde devoção, em sua santíssima pureza, em sua fé sem limites e na imolação de seu coração.
“Com razão também pôde dizer o anjo: “o Senhor é contigo”, porque a presença do Senhor em sua alma se acreditou sobejamente, disse o mesmo São Bernardo, com os quatro portentos celestiais de que Maria foi objeto: a santificação de seu ser, a saudação do anjo, a intervenção do Espírito Santo e a Encarnação do Filho de Deus.
“Com razão, igualmente, foi proclamada “bendita entre as mulheres”, posto que, como o citado São Bernardo nota, Deus concedeu a seu corpo estes quatro privilégios: virgindade absoluta, fecundidade sem corrupção, prenhez sem moléstias e parto sem dor.
 “Ela se turbou ao ouvir estas palavras e tratou interiormente de averiguar o significado que poderia ter tudo o que o anjo lhe dizia”.
“Este texto do Evangelho constitui um elogio do comportamento da Virgem, da atenção com que escutou o anjo, das disposições internas de sua alma e do discurso de seu pensamento. O evangelista pondera a modéstia com que acolheu aquela mensagem, ouvindo e calando, o pudor de seus sentimentos e a prudência de sua mente, posto que, raciocinando, tratou de buscar explicação ao que o anjo lhe dizia.
“A turbação de sua alma procedeu, não de ver ao angélico mensageiro – estas criaturas celestes eram-lhe já conhecidas, porque anteriormente já as havia visto muitas vezes -; proveio de ouvir o que estava ouvindo, porque até então nunca havia ouvido coisas semelhantes. A respeito desta turbação, eis aqui o que escreveu Pedro de Ravena: “Não se impressionou Maria por ver o anjo, que se apresentou perante ela sob uma aparência doce e normal, mas pelo estranho conteúdo de sua mensagem. A turbação chegou à sua alma, não através dos olhos do corpo, posto que o que via era muito agradável, mas através dos ouvidos, enquanto que o que estava ouvindo resultava-lhe inaudito”. Por sua parte, São Bernardo comenta: “Turbou-se por seu pudor virginal, porém não se alarmou, porque era mulher de notável fortaleza, nem se assustou, nem se calou, em silêncio refletiu, dando provas de admirável prudência e suma discrição”.
“O anjo lhe disse: “Não temas, Maria, porque encontrastes graças diante do Senhor”. “Encontrastes”, disse São Bernardo, “a graça de Deus, a paz para os homens, a destruição da morte e a restauração da vida”.
Conceberás em teu seio e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus, que quer dizer Salvador, porque Ele salvará ao povo de seus pecados; esse filho será grande e chamado Filho do Altíssimo”. “As palavras anteriores”, comenta São Bernardo, “querem dizer: este Filho, que já é grande enquanto Deus, será também grande enquanto homem, grande enquanto doutor, e grande enquanto profeta”.
“Disse Maria ao Anjo: Como poderá ser isto se eu não conheço varão?”   Como poderá ocorrer tudo quanto dizes se eu me comprometi a não ter contato carnal com homem algum? Mediante tais palavras Maria declara que era Virgem em sua alma, em seu corpo e em seus propósitos com relação ao futuro.
“Observe-se que Maria pergunta. Quem pergunta é que tem alguma dúvida: logo duvidava. E se duvidava, como se explica que não incorresse em semelhante penalização imposta a Zacarias, de quem sabemos que por suas dúvidas foi castigado com a pena de ficar mudo? Pedro de Ravena responde a esta questão da seguinte maneira, e observemos que em suas palavras se contêm, não uma senão quatro respostas: “Aquele que sabe perscrutar o fundo dos homens, não se guia tanto pelo som dos vocábulos, quanto pelo que se vê no fundo dos corações; do mesmo modo julga os pecadores não ao teor do que dizem, mas atendendo-se ao que sentem. A razão que moveu a ambos interrogadores a formular suas perguntas foi diferente quanto à sua origem e quanto ao seu alcance. Maria admitiu sem vacilação algo que parecia ir contra a natureza; Zacarias, pelo contrário, não admitiu, mas duvidou de algo e fundamentou sua dúvida precisamente numa circunstância que não ia realmente contra a natureza. Maria, ao perguntar, tratou de conhecer como sucederia o que lhe anunciava, enquanto que Zacarias, sem mais, descartou a possibilidade de que se realizasse o que Deus havia determinado que aí se realizasse.  Este homem, apesar de que já anteriormente houvesse ocorrido casos semelhantes, se obstinou em qualificar de impossível o que, sim, era possível. Maria, pelo contrário, ainda sabendo que nunca havia ocorrido nada parecido ao que o anjo lhe comunicava, teve fé no poder divino. Maria se limitou a mostrar-se admirada ante o anúncio de que uma virgem ia ser mãe; coisa muito distinta da atitude de Zacarias, que pôs em tela de juízo a possibilidade de que uma relação conjugal dele com sua esposa desse resultado positivo. Maria, pois, não abrigou dúvidas acerca da divindade da mensagem angélica, mas tratou de conhecer o procedimento mediante o qual ela chegaria a ser mãe; sua pergunta foi muito razoável, já que à maternidade se pode chegar por três caminhos diferentes: o da concepção natural ou normal, o da concepção espiritual e o da concepção milagrosa; ela, ao perguntar, procurou informar-se acerca de qual d’Elas ia a seguir-se em seu caso”.        
 “O anjo lhe contestou: O Espírito Santo virá sobre ti. Quer dizer: O divino Espírito, em virtude de recursos sobrenaturais fará que concebas um filho. Por isso se diz que Jesus Cristo foi concebido por obra e graça do Espírito Santo”  e mais adiante: “A virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”.

(“La Leyenda Dorada” – Santiago de la Vorágine – Ed. Alianza Forma – vol. 1 – págs. 211/214.)





terça-feira, 21 de agosto de 2018

COMENTÁRIOS A UMA ORAÇÃO COMPOSTA POR SÃO BERNARDO







 Por: Plínio Corrêa de Oliveira - 

Inigualável cantor das glórias de Maria Santíssima, São Bernardo compôs tocantes e piedosas orações dirigidas a Ela. Entre outras, uma que me apraz comentar, porque repassada de sentido e admirável sob todos os pontos de vista. Ei-la:
 "Ó doce Virgem Maria, minha augusta soberana, minha amável Senhora, minha Mãe amorosíssima! Ó doce Virgem, eu coloquei em Vós toda minha esperança e eu não serei confundido. Doce Virgem Maria, eu creio tão firmemente que do alto do Céu Vós velais dia e noite sobre mim e sobre aqueles que esperam em Vós;  estou tão intimamente convencido de que jamais pode faltar nada quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver daqui para o futuro sem nenhuma apreensão, e me descarregar inteiramente sobre Vós em todas as minhas iniqüidades.
Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável confiança. Mil vezes obrigado por uma graça tão preciosa!Ficarei daqui por diante em paz sob vosso Coração tão puro. Não pensarei mais senão em Vos amar, em Vos obedecer, enquanto Vós gerireis, Vós mesma, minha boa Mãe, os meus mais caros interesses.
Ó doce Virgem Maria, que entre os filhos dos homens, uns esperem sua felicidade de sua riqueza, outros a procurem em seus talentos; que outros se apóiem sobre a inocência de sua vida ou sobre o rigor de sua penitência, ou sobre o fervor de suas orações, ou sobre o grande número de suas boas obras. Por mim, ó Mãe, eu esperarei só em Vós, só em Vós depois de Deus. E todo o fundamento de minha esperança será minha confiança mesmo em vossa bondade materna.
Doce Virgem Maria, os maus poderão me roubar a reputação e o pouco de bem que possuo. As doenças poderão me tirar as forças e a faculdade exterior de Vos servir. Eu poderei mesmo, infelizmente, minha terna Mãe, perder vossas boas graças pelo pecado. Mas minha amorosa confiança em vossas maternais bondades, esta jamais eu perderei. Eu a conservarei, essa confiança inabalável até o meu último suspiro. Todos os esforços do inferno não ma roubarão. Eu morrerei repetindo mil vezes vosso nome bendito e fazendo repousar sobre vosso Imaculado Coração toda a minha esperança.
E porque estou eu tão firmemente seguro de esperar sempre em Vós, senão é porque Vós me ensinastes, Vós mesma, ó doce Virgem, que Vós sois toda misericórdia e que não sois senão misericórdia? Estou, portanto, seguro, ó boa e amorosa Mãe, eu estou seguro de que Vos invocarei sempre e estou seguro de que Vós me consolareis. Eu Vos agradecerei sempre porque Vós sempre me aliviareis. Eu Vos servirei sempre porque Vós sempre me ajudareis. Eu Vos amarei sempre porque Vós sempre me amareis. Eu obterei tudo de Vós porque vosso amor, sempre generoso, irá além de minha esperança.
Sim, é de Vós só, ó doce Virgem que, apesar de minhas faltas, eu espero o único bem que desejo, o meu Jesus, no tempo e na eternidade. É de Vós só, porque Vós é que meu Divino Salvador escolheu para me dispensar todos os favores, para me conduzir seguramente até Ele. Sim, é de Vós Mãe, que depois de ter aprendido a participar das humilhações e sofrimentos de vosso Divino Filho, me introduzireis na glória e nas delícias, para O louvar e bendizer, junto a Vós e conVosco, nos séculos dos séculos. Assim seja.
Eis a minha maior confiança e toda a razão da minha esperança. "Ecce mea maxima fiducia et tota ratio spei mei." [1]

Confiança sem limites em Nossa Senhora

A oração é verdadeiramente maravilhosa! Ela tem as características da oração de São Bernardo. Quer dizer, uma oração com um misto de humildade e de arrojo, de ternura e de fogo, de varonilidade, que é difícil a gente encontrar reunidas nas expressões de um só homem.
De um lado, a ternura para com Nossa Senhora chega ao último limite a que pode chegar. Sobretudo, chega ao último limite a persuasão da ternura d’Ela para conosco.
Mas, de outro lado, mesmo no modo de cantar a ternura d’Ela, nada há de efeminado, nada há de indigno de um varão. Pelo contrário, há uma espécie de audácia nessa ternura, de audácia encorajada por essa ternura, estimulada por essa ternura, que faz exatamente dessa oração uma obra prima, porque tem toda a suavidade própria à uma pomba, mas tem um vôo de águia.
Em sua prece, o Santo penetra diretamente no Coração Imaculado de Maria. E com uma liberdade, com um desembaraço – eu ousaria dizer, com uma familiaridade - cheios de veneração, mas de intimidade, que verdadeiramente nos espanta.
Ele fala da virtude da confiança e mostra no que esta consiste. Depois ele mostra as razões dessa virtude. Para São Bernardo, a confiança consiste fundamentalmente em saber que Nossa Senhora é toda ternura, e n’Ela não há severidade. E como essa é a disposição d’Ela em relação a todos os homens, torna-se lógico, forçoso, inevitável que cada homem conhecedor disso deposite em Maria uma confiança sem limites.
O autor da oração estabelece essa confiança em duas gamas: primeiro , quanto à vida terrena; em segundo lugar, quanto à vida eterna.
Confiança de que Nossa Senhora vai gerir os interesses d’Ele nessa vida. E é uma confiança que abrange portanto, de algum modo, também os interesses terrenos verdadeiramente ditos.
São Bernardo exprime sua certeza de que Nossa Senhora vai gerir os interesses dele nesta existência, e interesses terrenos propriamente ditos. É verdade que ele era religioso e que não tinha preocupações materiais, pois eram todas atendidas no mosteiro. Porém, ele compôs essa oração para ser rezada por qualquer fiel, e não apenas pelos monges. Então se entende que nós, nos nossos interesses terrenos, naquilo que eles têm de legítimos, de santificante, devemos confiar em Nossa Senhora.

O auge das provações, confiança ainda maior
 
Mais. Devemos pedir que Ela faça por nós aquilo que não somos capazes de fazer.
Sabemos todos que a Providência tem desígnios insondáveis e que pode, portanto, querer nos sujeitar, de um momento para o outro, a um sofrimento que não prevemos. Sabemos também que a Providência quer, genericamente, daqueles a quem Ela ama, que passem por muitas provações. Nós sabemos, portanto, que nessa vida temos de sofrer.
Sem embargo disso, por um movimento interno da graça, por um certo senso das proporções etc., nós vemos que, muito provavelmente a Providência não quer que se percam e sejam imolados. Estes interesses nós devemos entregar aos maternais cuidados de Nossa Senhora. Ela velará por eles, os apoiará, os protegerá, de tal maneira que não precisamos nos deixar tomar de ansiedades, nem de torcidas, nem de sofreguidões.
Mas no pior das nossas angústias e das nossas preocupações,  devemos nos lembrar daquilo que diz o Pe. Saint-Laurent no “Livro da Confiança”: quando a tormenta tenha chegado ao auge, é hora de preparar o incenso e todo o necessário para cantar o “Magnificat”, porque nesse momento Nossa Senhora intervirá e nos salvará. Quer dizer, essa é uma confiança inabalável. E Confiança que cresce de ponto quando não se trata de nossos interesses terrenos individuais, mas se trata das questões de apostolado. A Santíssima Virgem deseja que procuremos o maior bem para as almas, e multiplica seu infalível socorro para que nossa missão evangelizadora seja coroada de sucesso. E mesmo quando nossos problemas apostólicos pareçam por demais complicados e comprometidos, devemos ter inteira certeza de que Ela tudo resolverá.
Numa palavra, como Medianeira onipotente junto a Deus, Nossa Senhora nos alcança a solução para todas as nossas dificuldades, sejam grandes ou pequenas, corriqueiras ou imensas.

Se desconfiarmos de Nossa Senhora, tudo se perde
 
Essa verdade se aplica ainda mais à nossa vida espiritual. Nossa Senhora chama cada um de nós para a santidade. Se Ela assim nos atrai, não interromperá a obra que iniciou e nos conduzirá, se soubermos confiar, até o extremo da perfeição a que fomos convidados.
Alguém dirá: “Dr. Plinio, belas palavras... Na realidade, elas são vácuas e não correspondem a nada, porque se eu pecar eu estou criando obstáculos à ação de Nossa Senhora. E se procedo dessa maneira, não posso supor que Ela vá me santificar. Quer dizer, o senhor está afirmando algo muito bonito, mas vazio, sem consistência. É uma quimera”.
A resposta está na própria oração composta por São Bernardo. Ainda que tenhamos a dor enorme de ter ofendido a Nossa Senhora, ainda que tenhamos o pesar de A ter ofendido gravemente, é preciso continuar a confiar n’Ela. Porque se desconfiarmos de Maria, então, está tudo perdido. A porta do Céu é Ela! E se, pela nossa falta de confiança, fecharmos a porta do Céu, nós mesmos nos condenamos.
Pelo contrário, se continuarmos a confiar n’Ela contra toda confiança, Ela pelo menos receberá de nós essa forma de glória, que é a do pecador que continua a confiar n’Ela. É a homenagem da confiança daquele que A ofendeu e, nesse sentido, uma categoria de louvor que nenhum justo Lhe poderá dar.
Então, esperemos contra toda esperança, mesmo dentro das dificuldades e da buraqueira da nossa vida espiritual. É o que São Bernardo recomenda intensamente, fazendo-nos recordar aquela palavra de São Francisco Xavier, que o pior do pecado – ainda o mais horroroso – o pior do pecado não é tanto a falta em si, mas é o fato de o pecador, depois da queda, perder a confiança em Deus. Porque enquanto confia, o caminho permanece aberto. Tudo é possível.

Na hora da morte, a suprema proteção de Maria
 
Após falar dos interesses nesta vida, São Bernardo se refere aos da vida eterna. E manifesta este pensamento admirável: quando chegar a hora da morte dele, espera que a sua confiança seja tal que morra com o seu coração  recostado sobre o Imaculado Coração de Maria.
É expressão, naturalmente, simbólica, mas revestida de um imenso valor, porque revela uma esperança muito grande em que Nossa Senhora, na hora da morte, nos ajude de modo particularíssimo. Que Ela diminua os horrores desse transe, nos dê até uma passagem cheia dos sentimentos da presença d’Ela, se isso for para a sua maior glória e bem de nossa alma.  E se, pelos superiores desígnios de Deus, devemos falecer em meio a grande aridez, tenhamos completa confiança de que Nossa Senhora fará redundar essa derradeira provação em maior benefício para nós.  Ela se valerá desse sofrimento para abreviar nosso Purgatório, para salvar muitas outras almas, e para, afinal, nos levar ao mais alto do Céu, bem junto ao seu trono de Rainha e de Mãe indizivelmente amorosa.

(Revista “Dr. Plínio”, nº 41, agosto de 2001 - "Conferência" de 3 de janeiro de 1967)





[1]Acte d'aveugle abandon et d'amoureuse confiance en la douce Vierge Marie - cfr. "Livre d'Or - Manuel complet de la parfaite dévotion à la très sainte Vierge d'après S. Louis-Marie de Montfort", 6e. édition, Pères Montfortains, Louvain, 1960, pages 689-692):