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sábado, 1 de março de 2025

QUAL DEVE SER O VERDADEIRO ESPÍRITO CRÍTICO DO CATÓLICO

 





A palavra “crítica” surgiu entre os filósofos antigos e destinava-se a criar uma discussão contrária aos princípios enunciados por algum expositor e permitir que ele comprove sua tese contestando os argumentos contrários. A partir do passar dos anos, porém, a palavra “crítica” passou a ter sentido o mais diverso possível, muitas vezes significando apenas a censura e condenação das ideias contrárias. Criticar hoje pode ser até crime.

Como deve ser o verdadeiro espirito crítico do católico em relação ao mundo em que vive?

Reproduzimos a seguir um artigo publicado por Dr. Plínio no jornal “Catolicismo” em que o mesmo explicita melhor essa questão: 

PALMATÓRIAS DO MUNDO? OU PALMATÓRIAS DO MAL?

 Plinio Corrêa de Oliveira           

 Sr. Redator:

Há católicos que julgam de sua obrigação manter-se em uma atitude de sistemática análise e comentário em relação a tudo o que se encontra nos diversos ambientes em que eles se movem.

Esta obrigação, eles julgam dever cumpri-la não só no quarto, em momento de meditação, mas em toda ocasião, e até na rua, onde se está geralmente para passeio ou trabalho. Se passa um bonde, analisam-lhe a forma, a cor, dizem se acham que sua velocidade é excessiva ou se é inferior à normal. Se passa um jovem, examinam se está vestido com extravagância ou compostura. Se passa uma jovem, têm imediatamente a atenção chamada para a observância do 6º Mandamento, e assim por diante. Nada lhes escapa. E até seu espírito se manifesta surpreendentemente destro em relacionar tudo com a moral. O bonde serve de exemplo. Se anda com velocidade exagerada, é expressão da mania de velocidade que o Papa acaba de condenar. Se anda com excessiva lentidão, é a modorra do Brasil inteiro que veem aflorar na indolência do motorneiro. E, assim por diante, não há o que não analisem, não classifiquem e não julguem.

Esta atitude que descrevo enquanto assumida por indivíduo, também pode ser de famílias ou de associações e de jornais. De jornais... sobretudo de um jornal: o "Catolicismo". Tudo quanto ele publica parece ser direta ou indiretamente calculado para pôr o leitor nesta atitude de sobreaviso sistemático. Basta pensar na secção "Ambientes, Costumes, Civilizações", que se me afigura feita para mostrar que na simples forma de uma cabeça de alfinete se pode refletir todo um firmamento de convicções artísticas, filosóficas ou até teológicas.

Confesso que tudo isto me causa não pequena estranheza. A meu ver, a naturalidade deve ser uma qualidade fundamental de toda mente equilibrada, e a fortiori do católico. Ora, o ponto de partida de toda naturalidade, aquilo que lhe é como que um pressuposto comezinho, é uma certa desprevenção de espírito, por onde nossa atenção caminha sem preocupações policiais, por todos os campos onde naturalmente venha a pousar, detendo-se sobre as coisas simplesmente como elas se apresentam espontaneamente à vista, vendo num bonde apenas um bonde, e numa cabeça de alfinete apenas uma cabeça de alfinete. Assim, fazer incursões pelas mais altas regiões da metafísica ou da teologia para julgar da forma de um chapéu, da velocidade de um veículo e do vôo de uma mosca, parece-me estreito, bizantino, antipático e, por assim dizer, torcicoloso.

Eu não diria tudo, se ficasse só nisto. Contra esse hábito de dividir longitudinalmente em quatro um fio de cabelo, para ver se nele se esconde uma heresia, tenho outra objeção a fazer. E é que ele conduz a um proselitismo incômodo e irritante. Como o comum dos homens não se preocupa com tais problemas quando vê moscas, bondes ou cabeças de alfinetes, o resultado está em que é necessário a todo momento fazê-los reparar nos monstros que nestes objetos, ou outros congêneres, se ocultam. Daí a toda hora o desejo de alertar o próximo. E de lhe perturbar o sossego. – Cuidado com isto. E mais com aquilo. Quando estiver, por exemplo, atravessando uma rua, cuidado com as mil influências ideológicas e morais que se desprendem dos veículos e transeuntes. Assim, é preciso cortar uma rua de intenso movimento, com a preocupação de evitar não só os atropelamentos físicos mas também os espirituais. E de tanto cuidado, para premunir o espírito contra uma agressão representada pelas linhas marcianas do automóvel que vem num sentido, cai-se debaixo das rodas de um ônibus que vem em sentido oposto.

Ora, pergunto, isto é cabível? E foi para que os homens vivessem metidos num tal formigueiro de preocupações, que Deus lhes deu este belo sol rutilante, este firmamento azul, esta linda natureza clara, lógica, sólida, amiga, em que eles se movem?

Francamente, não.

Não quero entrar em discussões com o Sr. Sei que os elementos imbuídos deste estado de espírito são esgrimistas temíveis, manejando o gládio da dialética com toda a espécie de citações dos Papas e de São Tomás. Não os quero acompanhar nesta esgrima fatigante, para a qual meu espírito não tem o menor pendor. Limito-me a manter o problema nos termos simples, claros, de uma clareza despretensiosa e quase diria caseira, em que o pus. É para viver neste dédalo de preocupações miúdas, incessantes, enervantes, que Deus colocou o homem no mundo? Não o creio. E, assim, a posição do tipo "Ambientes, Costumes, Civilizações" me parece totalmente falsa. Ela transforma a vida numa luta constante, em que uns poucos infelizes ficam na obrigação de dar com a palmatória em tudo e em todos, para se manterem fiéis aos princípios.

Ora, eu pretendo manter minha fidelidade aos princípios sem ser palmatória do mundo...

Um constante leitor      

Prezado leitor:

Deus é certamente o Deus dos simples. Não porém dos simplórios. Por isto mesmo, colocou-nos Ele num universo belo, claro, lógico, amigo, admirável pela simplicidade de suas grandes linhas harmoniosas; mas ao mesmo tempo dispôs, por detrás destes aspectos tão simples e graciosos, todo um insondável sistema de leis físicas ou biológicas em cuja consideração a mente se abisma. A inteligência humana, quando ágil, lúcida e equilibrada, ora repousa agradavelmente na contemplação dos aspectos aparentes, ora imerge, seduzida e entusiasmada, na análise de todas as maravilhas que esses aspectos encobrem, e na alternação entre preocupação e repouso, na passagem do fundo para a superfície, e vice-versa, realiza o plano de Deus, Criador infinitamente sábio e bom, tanto dos aspectos aparentes quando das realidades profundas do universo. E que dispôs que de umas e de outras tirasse o homem seu proveito.

Este princípio, prezado leitor, o Sr. o admite sem dúvida quanto ao universo material... Pois, do contrário, sua argumentação seria a glorificação do atraso e da ignorância. O que diria o Sr., com efeito, se um analfabeto lhe viesse falar contra os cientistas que, olhando para um aprazível panorama, longe de se contentarem com apreciar despreocupadamente a formosura da natureza, se perdessem em ponderações sobre a composição geológica do terreno, refletissem sobre os mil mistérios da vida vegetal e animal, e por fim se detivessem na análise de todo o microfirmamento de energias, equilíbrio e beleza que cabe em um grão de areia que um deles tivesse retirado com o dedo, da ponta do sapato, e considerassem os mistérios riquíssimos da vida microbiana que na superfície do grão de areia pode existir? Com o entusiasmo que sem dúvida tem pelas ciências, o Sr. teria redarguido a esse analfabeto que esses cientistas são admiráveis, precisamente porque sabem ir além das aparências acessíveis ao olho nu e à inteligência medíocre ou indolente. Sua indignação sagrada teria feito aflorar a seus lábios, numa desordem eloquente, os exemplos de pequenas realidades que, analisadas por gênios, revelaram leis naturais estupendas e utilíssimas ao homem. Por certo, o Sr. se teria lembrado das historietas ou das legendas pitorescas de Galileu que, vendo balançar uma lamparina, daí deduziu seu sistema; e de Newton que, vendo cair uma maçã ao solo, tomou este fato comezinho como ponto de partida para o estudo da gravidade. O Sr. teria terminado dizendo que não estaríamos na era atômica se os homens tivessem julgado ridículo estudar o que existe, não no grão de areia ou na cabeça de alfinete, mas no átomo, que é tão menor...

Se o objetante lhe tivesse afirmado que havia risco para um médico, de cair sob as rodas de um automóvel, se ele atravessasse uma rua pensando nos inconvenientes dos gases tóxicos e por isto suspendendo ligeiramente a respiração para não inalar a fumaça de um ônibus, o Sr. teria cortado a discussão, retrucando que só conversa com gente séria. E isto porque o Sr. sabe perfeitamente que o próprio de um homem culto está em poder fazer equilibradamente ações comuns, vendo nelas não apenas o que qualquer um vê, senão mais do que isto, e considerando com um mesmo olhar lúcido, os aspectos superficiais e profundos das coisas. Assim, um geógrafo, para guiar bem seu automóvel numa estrada, não está proibido de ver com olhos de técnico o panorama, e um artista pode estar num trem olhando a beleza da paisagem, sem por isto se jogar pela janela do vagão.

Tudo isto é tão banal que, enfarado, o Sr. deixaria de lado seu mofino e analfabeto interlocutor, e cuidaria de outra coisa.

Mas se tudo isto é tão banal, e se tudo isto o Sr. o sabe tão bem, porque não se lembrou de transpor estas considerações para o mundo das coisas espirituais?

É bem certo que este, por ser mais nobre que o da matéria, tem uma riqueza muito maior. E que num corpo pequeno como uma cabeça de alfinete – um cristal, por exemplo – o artista pode, tanto ou mais que o cientista, encontrar campo para considerações fecundas.

É certo, ainda, que o moralista pode descobrir em tudo uma significação moral importante, e que é para ele uma excelência o ser capaz de o fazer em tudo.

Então, se o Sr. acha ridículo imaginar um médico que atravessa a rua desvairado por reflexões técnicas, pois sabe que essa caricatura não corresponde à realidade, porque se compraz em pintar com estas cores ridículas o moralista?

Na verdade, caro leitor, ser o Sr. se maravilha vendo um cientista esmiuçar as coisas da matéria, e se enerva com um pensador que esmiúça as coisas do espírito, reconheça que é porque o Sr. tem compreensão para com as primeiras, sente por elas afinidade e simpatia, enquanto é infenso às outras, que não compreende porque nelas se perde como num dédalo.

Em uma palavra, o Sr. é filho ideológico do materialismo, embora provavelmente creia na espiritualidade da alma.

Por aí se vê como é difícil a alguém resistir às mil influências sub-reptícias, não só dos erros moderados e velados, mas até do mais crasso dos erros, que é o materialismo.

E o moralista que, dotado de um fino discernimento, aponta os sintomas dessas infiltrações ideológicas impalpáveis e ativas, deve parecer ao Sr. um amigo e não um carrasco. Pelo menos se realmente o Sr. preza a sua alma e tem o propósito de a manter livre de todo mal.

E mais uma vez o paralelo entre as coisas da alma e do corpo se impõe. Um médico de apurado senso clínico, que desvendasse todos os sintomas iniciais dos males que acometem seus doentes, não poderia ser visto por estes como inimigo. Só as crianças é que veem os médicos com prevenção, porque não gostam de remédios amargos.

Não gostar do moralista porque ele faz bem à alma mas nem sempre é cômodo, não é mostrar-se infantil?

Que se procure alertar os católicos contra as mil influências nefastas a que estão expostos hoje em dia, e especialmente contra as influências mais despercebidas, mais indiretas, mais sinuosas, nada melhor.

Por certo, isto não degenerará em psicose nem em mania, senão quando se tratar de maníacos e de psicóticos tão frequentes nesta era de almas "coca-cola", de uma simplicidade simplória...

Mas um espírito equilibrado sempre saberá praticar equilibradamente a virtude, e não será a virtude que o desequilibrará.

Que virtude? No caso, especialmente a da circunspeção, isto é, a de saber, do alto, olhar, ver, discernir em torno de si. Virtude de que nos deram exemplo todos os Santos, e que a Igreja preza tão alto que por assim dizer com ela identificou a missão do Bispo: episkopos, - de epi, sobre e spokein, inspecionar – é aquele que, de cima e com vigilância, olha em torno de si.

Vivemos em uma época que, sob muitíssimos aspectos, é para o neopaganismo o que para a Religião Católica foi o século XIII. Tudo hoje está embebido de neopaganismo, ele nos entra até pelos poros. Pio XII disse que em nossos dias a simples perseverança no estado de graça exige de inúmeras pessoas uma virtude heroica.

Viver nesta época com uma desprevenção absoluta, no culto da irreflexão e da espontaneidade ( eufemismo para designar o descontrole ), é ou não é entregar-se a essa mil influências?

E alertar alguém, com amenidade, com lucidez, com afetuosa insistência, sobre a necessidade dessa habitual vigilância, é ou não é apostolado?

Palmatória do mundo? Fórmula vaga e infeliz. Palmatória do erro, palmatória do mal, para o bem do próximo, porque não?

Em resumo, caro leitor, aqui está nossa justificação. Que acontecerá no dia em que o mal não tiver palmatórias no mundo? O que já em larguíssima medida ocorre em torno de nós. Solto, triunfante, insolente, ele perseguirá pelo silêncio, pelo ostracismo, pelo escárnio, mais tarde pelo ferro e pelo fogo, todos os bons.

Para chegar a este resultado, o que o mal mais deseja é não ter palmatórias.

Quer o Sr. arcar com a responsabilidade de reduzir à inação as palmatórias do erro e do vício, para que o mundo inteiro fique sujeito à palmatória do demônio?

Outrora, quando alguém atacava o mal com vigor, denodo, insistência, chamavam-no, não de palmatória, mas de martelo, o que é muito mais forte. Mas o apelido era uma honra. Carlos Martelo foi amado em toda a Cristandade por ter sido o martelo da França sobre a cerviz dos maometanos. E Santo Antônio de Pádua, porque abatia sobre os cátaros os golpes terríveis de sua dialética, era aclamado por todos os católicos como martelo dos hereges.

Hoje as coisas mudaram, e quem maneja, já não o rude martelo de outrora, mas a inofensiva palmatória, sente levantar-se contra si um clamor até em meios católicos.

Quando numa cidade sitiada há uma corrente que geme a cada tiro que se dispara contra o sitiante, o que se pode esperar?

É bem o caso de aplicar aqui, ligeiramente modificadas, as palavras de Voltaire: Deus me livre de tais amigos, mais ainda do que de meus próprios inimigos...

O Redator                   

Ambas estas cartas foram escritas pela mesma mão.

Procuram elas condensar os vários aspectos do debate da superficialidade, da moleza e da tibieza, com o zelo, a coerência e a santa intransigência; do entreguismo do gênero "terceira força", com a vontade de lutar. Dos troianos que amam Tróia, com os que sorriem ao cavalo de madeira...

 

(Jornal “Catolicismo” Nº 92 – Agosto de 1958)

 


domingo, 1 de dezembro de 2024

E HAVERÁ SINAIS NO FIRMAMENTO...

 

                           (Acima, aurora boreal vista sobre o Monte Saint Michel, na França)


            Ultimamente têm ocorrido muitos fenômenos na Natureza, dentre os quais se destacam as auroras boreais e austrais. Assim, como o Evangelho nos avisa que haverá sinais semelhantes no fim do mundo, do mesmo modo devemos crer que isso também ocorrerá em castigos universais de Deus sobre os homens. Tais sinais são vistos como avisos. A propósito, reproduzimos a seguir artigo de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira publicado em 1981, sob o título de "Sê Coerente...", ano em que ocorreu auroras boreais de uma forma pouco explicada pela mídia; nos dias atuais, tivemos não somente auroras boreais, mas também austrais, e em lugares onde as mesmas nunca ocorreram antes. 

"Tensões, crises? É só do que se ouve falar. Nem a atenção se põe em qualquer ponto do horizonte, por mais remoto que seja, sem as discernir, corroendo à termita ou derrubando a bulldozer, aqui, lá e acolá.

"Aqui": o que quer dizer isto? Sim, aqui mesmo. Isto é, no Brasil, em São Paulo, em torno de cada um, dentro mesmo de tantos e tantos! Tensões e crises, tanto do corpo quanto da alma. Para começar pelas do corpo, como vão longe os anos 30 – há meio século, pois – em que a média das pessoas não tomava remédios porque não adoecia. Ou porque, quando acontecia de adoecer, era tão levemente que a saúde robusta triunfava com o mero concurso de algum ingênuo remédio caseiro, ou com certa atitude de alma, levemente estoica, que o zé-povinho rotulava pitorescamente "chá de pouco caso".

Não só as saúdes eram habitualmente boas, mas as almas eram desanuviadas (tanto quanto neste vale de lágrimas se possa ser...). Por todos os lados se trabalhava. Mas em vários lados também se rezava. Rezava-se até mais do que nos anos 20. A grande renovação religiosa trazida pelo surto das Congregações Marianas soprava sobre o Brasil, de ponta a ponta. E havia alegria também, notadamente nas burguesias média e pequena, e na classe operária. Alegria na vida das famílias, resultante, em certa medida, dos elementos saudáveis de uma tradição cristã que teimava em não morrer. Alegria comunicativa, largamente refletida nas páginas dos jornais, e mais ainda nas das revistas. E que repercutia nas vitrolas e nos rádios, com os quais se deliciavam os contemporâneos.

Saúde e gosto de viver conferiam à sociedade humana um reluzimento de estabilidade distendida e farta, e de alegre expectativa quanto aos dias vindouros.

O homem superficial de então preferia não comentar a imoralidade que, entretanto, se avolumava nos ambientes insensíveis ao "renouveau" católico. Nem dar atenção aos fatores de agitação social e econômica, os quais cresciam mais rápidos do que o progresso industrial.

De repente, eis que sobre o grande festival alegre, gaiato, porém não sem traços de dignidade, projetou-se uma luz inesperada.

De 25 para 26 de janeiro de 1938, Portugal inteiro estremeceu. Pois aparecera nos céus noturnos da Lusitânia fenômeno jamais visto, isto é, uma imensa aurora boreal. O povo, quiçá impressionado pela perspectiva dos castigos com que, no declínio da 1ª Guerra Mundial, Nossa Senhora de Fátima, pela voz de Lúcia, Jacinta e Francisco, ameaçara o mundo impenitente (difusão dos erros da Rússia por toda a Terra, nova guerra mundial, nações que desapareceriam etc.) se punha a rezar pelas ruas, temendo a justiça de Deus. Sinos tocavam. As igrejas se enchiam. Amanheceu normalmente o dia, e a vida continuou sem mais. Em outras nações em que houvera a aurora boreal – o fenômeno foi visto até na Itália e na Grécia – ninguém se incomodara. Algum tanto tendenciosamente informada pelas agências noticiosas internacionais, a opinião pública de todos os países pôs-se a rir: "esse Portugal..."

Mas veio o castigo. Em março de 38, a Alemanha anexava a Áustria. Em outubro, os sudetos. Em março do ano seguinte foram invadidos a Checoslováquia e o Memel (Lituânia). Em setembro a Polônia. A guerra começara.

Essas foram as etapas da derrocada de um mundo, o qual só queria uma existência terrena impregnada do prazer de viver.

Já registrei quanto é diferente o mundo de hoje. Padecimentos no corpo de quase cada um. Padecimento das almas interesseiras, porque veem vãs as suas cobiças, no socialismo e na decadência. Padecimento das almas desinteressadas, por verem os padecimentos dos interesseiros. Padecimento dos que não têm fé, porque não a têm. Padecimento dos que têm Fé, por verem o estado em que se encontra a Santa Igreja de Deus... de tanta prostração que se diria não a terem podido prever, há algumas décadas, nem sequer os Anjos de Deus, no mais alto dos Céus!

Dir-se-ia que em todos zumbe, consciente ou inconsciente, confessado ou inconfessado, o receio de algo que vai acontecer.

Neste quadro, ocorre um fenômeno análogo ao de 1938. Na noite de 12 de abril p.p., um forte clarão avermelhado, visto também com tonalidades esverdeadas, alaranjadas e amarelo claro, iluminou o céu dos Estados Unidos. O fenômeno foi observado em mais de dois terços do território norte-americano, na Costa Oeste, no Meio-oeste e em todo o Sul, até o Golfo do México. A noite ficou tão clara, que automóveis transitavam de faróis apagados. Qual a causa do fenômeno? Nuvens luminescentes, aurora boreal? Cientistas abalizados discutem. Quanto às auroras boreais, são raramente visíveis ao sul do paralelo 50 e inteiramente excepcionais no paralelo 30, onde se situa a costa Sul dos Estados Unidos, no Golfo do México. O fenômeno do dia 12 de abril foi registrado pelo Serviço Nacional de Meteorologia, pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional em Boulder, Colorado, e pela NASA (cfr. "Reporter Dispatch" de White Plains, Nova York, de 13-4-81; "Folha da Tarde" e "Estado de Minas" de 14-4-81).

Novo sinal, a ameaçar de novos castigos uma Humanidade cuja impenitência vem afrontando Nossa Senhora de Fátima? Explosão, desta vez ocorrida não mais em um mundo alegre, que não a esperava, mas em um mundo opresso, desvairado e impenitente? Em um mundo cujos pecados vão assumindo todas as modalidades do escândalo?

Sinto a antipatia de alguns leitores contra a hipótese que acabo de lançar. Essa antipatia não provirá do fato de que desperto pressentimentos que estejam neles sem que ousem confessá-los a si próprios? Neste caso, suas antipatias não serão tanto mais acirradas quanto mais sintam, em seu foro íntimo, que minha hipótese tem razão de ser?

Pergunto-o com ânimo cristão para com todos, inclusive para com esses caros antipatizantes. Parece que o fenômeno luminoso insólito de 1981 é simétrico com o de 1938. Assim, penso ser razoável conjeturar que a "suite" da de 1981 será simétrica com a de 1938.

"Quem avisa amigo é". Meu comentário é feito à vista de que ainda é tempo de orar, de mudar de vida, e assim de evitar o castigo que ameaça as nações.

Tu, meu antipatizante, não exigias ainda ontem a liberdade para todos, inclusive para os terroristas? Sê coerente contigo, e respeita cordialmente minha própria liberdade.

Volto-me aos meus simpatizantes. Meditemos e peçamos juntos a Nossa Senhora de Fátima, para que os homens se emendem e o castigo seja assim evitado, na medida do possível.   

(“Folha de São Paulo”, 09 de maio de 1981 - Revista "Dr Plínio", n. 320, de novembro de 2024, págs. 25/27))


sábado, 30 de novembro de 2024

BELEZAS E SUBLIMIDADES DA APRESENTAÇÃO DE NOSSA SENHORA NO TEMPLO

 



             No dia 21 de novembro, comemora-se a Apresentação de Nossa Senhora no Templo. Esta festa possui alguma beleza especial?

 

A realização da promessa

Maria Santíssima, eleita desde todos os séculos, a Raiz de Jessé da qual haveria de nascer Nosso Senhor Jesus Cristo, é apresentada no Templo. A instituição incumbida de guardar a promessa da vinda do Salvador recebe Aquela que dá o primeiro passo para sua realização.

Dá-se uma espécie de encontro da esperança com a realidade. Nossa Senhora entra e se consagra ao serviço de Deus, levando uma alma insondável e incomparavelmente santa. Nesse momento, apesar de toda a putrefação da nação de Israel e de o Templo ter-se transformado num covil de fariseus, como Nossa Senhor estava ligada a ele, entrou ali uma luz incomparável, que foi exatamente a santidade d’Ela. Nesse local Ela começava a sua preparação para, sem saber, vir a ser a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na atmosfera e nas graças desse edifício sagrado, separada para servir a Deus, Ela foi aumentando de amor a Ele, até formar o desejo ardente de que o Messias viesse logo e formular o pedido de ser uma servidora daquela que seria a Mãe do Messias, pois sabia que seria Ela mesma.

Toda essa santificação preparatória da vinda de Nosso Senhor, essa inaudita e assombrosa preparação, se deu a partir do momento em que Nossa Senhora se apresentou no Templo. É essa primeira Apresentação que a Igreja celebra.

 

Nossa Senhora se dirige ao Templo

No livro de Régamey[1] Les plus beaux textes sur la Vierge, nós encontramos as seguintes reflexões baseadas em São Francisco de Sales:

“É um ato de admirável simplicidade o desta gloriosa criança que, presa ao regaço de sua mãe, não deixa, contudo, de conversar com a Divina Majestade. Ela se absteve de falar até o tempo apropriado e, ainda então, só o fazia como as outras crianças de sua idade, embora falasse sempre com muito acerto

“Ela permaneceu como um suave cordeiro junto a Santa Ana pelo espaço de três anos, após os quais foi conduzida ao Templo, para ali ser ofertada como Samuel, que também foi conduzido ao Templo, para aí ser oferecida como Samuel,  que também foi conduzido ao Templo por sua mãe e dedicado ao Senhor na mesma idade.

“Ó meu Deus, como desejaria poder representar vivamente a consolação e a suavidade dessa viagem, desde a casa de Joaquim até o Templo de Jerusalém! Que contentamento demonstrava essa criança vendo chegar a hora que tanto desejara!

“Os que iam ao Templo, para adorar e oferecer seus dons à Divina Majestade cantavam ao longo da viagem. E, para isso o real profeta David compusera expressamente um salmo, que a Santa Igreja nos faz repetir todos os dias no Ofício Divino. Ele começa pelas palavras: “Beati inmaculati in via”: “Bem-aventurados são aqueles, Senhor, que caminham na tua via sem mácula, sem mancha de pecado (Sl 118, 1).

“Na tu vida”, quer dizer na observância dos teus Mandamentos.

“Os bem-aventurados São Joaquim e Santa Ana cantaram então esse cântico ao longo do caminho, e com eles, e nossa gloriosa Senhora e Rainha com eles.

“Oh Deus, que melodia! Como Ela a entoava mil vezes mais graciosamente que os Anjos! Por isso ficaram estes de tal forma admirados que, aos grupos, vinham escutar essa celeste harmonia, e, os Céus abertos, inclinavam-se nos alpendres da Jerusalém Celeste para olhar e admirar essa  amabilíssima criança.

“Eu quis vos dizer isso, embora rapidamente, para que tenhais com que vos entreter o resto desse dia considerando a suavidade dessa Virgem; também para que fiqueis  comovidos escutando esse  cântico divino que nossa gloriosa Princesa entoa tão melodicamente, e  isso com os ouvidos de vossa devoção, porque o muito feliz São Bernardo diz que a devoção é o ouvido da alma.”

 

Uma infância comum, mas cheia de sabedoria e contemplação

O fundamento teológico de tudo quanto está dito aqui é a Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Como, desde o primeiro instante de seu ser, Ela foi concebida sem pecado original, não tinha as limitações inerentes a ele. E entre essas limitações está o fato da pessoa nascer sem o uso da sua inteligência. Esse uso só vem mais tarde, com o desenvolvimento do corpo.

Nossa Senhora teve, desde o primeiro instante, o uso da sua inteligência de modo altíssimo. Na infância d’Ela, como na de Nosso Senhor – e na d’Ele com uma sublimidade desconcertante -, reuniam-se, num contraste admirável, aspectos aparentemente contraditórios. De um lado, Ela tinha uma contemplação que, a meu ver, era maior do que os maiores Santos da Igreja, quando Ela estava ainda nos primeiros passos de sua vida. Mas, de outro lado, Ela mantinha toda a atitude de uma criança e não fazia uso externo disso, de sua sabedoria, querendo, por humildade, viver como uma criança qualquer.

De maneira tal que, quem tratasse com Ela, a não ser por alguma expressão de olhar ou algo semelhante, teria a sensação de estar tratando com uma criança comum, igual às demais, como Nosso Senhor Jesus Cristo que em todas as suas manifestações externas era como uma criança e, como tal, quis se nutrido, guardado, pajeado como uma criança, embora fosse Deus, soberano Senhor e Rei do Céu e da Terra; mas em todas as suas manifestações externar era como uma criança.

Podemos imaginar, então, na vida quotidiana de São José e Nossa Senhora , o momento em que era preciso dar-Lhe leite ou trocar-Lhe as roupas. Eles O pegavam, colocavam-No sobre uma mesa e vestiam-No com uma roupinha. Ver Aquele que eles sabiam ser Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade hipostaticamente unida à natureza humana, o Qual estava nos esplendores das alegras, da majestade e da grandeza da divindade e, ao mesmo tempo, era aquela criancinha que ria, não só fazendo que não entendia, mas com uma certa autenticidade nesse não entender, embora entendesse!

Pois bem, algo semelhante se dava igualmente com São Joaquim e Santa Ana. Não sei se eles sabiam que Nossa Senhora seria a Mãe do Verbo Encarnado, mas certamente sabiam ser Ela uma Menina designada a altíssimas coisas em ordem ao Messias. E essa Menina levava a vida de uma criancinha.

 

Beleza dos contrastes harmônicos

Isso nos faz compreender como se ajustam esses aspectos da benignidade extrema de Deus Nosso Senhor, da extrema afabilidade, da extrema acessibilidade, da extrema bondade de Nossa Senhora, com uma grandeza de que os maiores homens da Terra não são senão uma minúscula figura.

Por quê? Porque Nossa Senhora quis que as coisas fossem assim e, sendo Rainha incomparável, Ela era, ao mesmo tempo, Menina simplicíssima. O que, aliás, Santa Teresinha do Menino Jesus, discorrendo a respeito do modo de pregar sobre Nossa Senhora , comenta muito bem, dizendo que ela gostaria de fazer um sermão à sua maneira, ou seja, mostrando em Nossa Senhora todo esse lado de simplicidade, de acessibilidade, a ponto de comportar-se como uma criancinha obediente a seus pais, sendo a Rainha do Céu e da Terra.[2]

Esses contornos harmônicos têm uma tal beleza em si mesmos, que eu até digo que desdouramos o assunto tratando longamente dele. Porque eles têm qualquer coisa de insondável, sendo melhor mantermos silêncio do que propriamente o comentarmos.

 

Uma Menina com voz inefável caminha cantando o Salmo de Davi

Ora, segundo uma tradição muito generalizada, foi Nossa Senhora, nessas condições, aos 3 anos de idade, levada ao Templo, cantando durante o percurso, como os judeus costumavam fazer naquela época. É um fato lindíssimo!

O Templo ficava em Jerusalém. Em outros locais havia sinagogas para rezar; mas, para fazer os sacrifícios, somente o Templo de Jerusalém.

Os judeus de toda a nação, como também os da diáspora dispersos pelo mundo inteiro, iam periodicamente a Jerusalém para participar do sacrifício no Templo. E como era motivo de alegria ir aonde se manifestavam a glória e as consolações de Deus, ao lugar que representava o vínculo entre o Céu e a Terra, era bonito que fossem cantando, como tantas vezes acontecia em romarias antigas.

Os métodos de locomoção modernos conspiram contra o canto. Não se pode imaginar uma pessoa no subúrbio, partindo para Aparecida de trem, este a toda velocidade e ela cantando dentro dele. É melhor cantar do que não cantar. Mas, como é mais bonito ir a pé, pousando de quando em quando, parando, cantando, tocando para frente! Como isso tem outra plenitude humana, outra harmonia natural que o canto dentro de uma locomotiva não tem. Pior é o canto enlatado dentro do ônibus  Eu sou pouco viajante com este veículo, mas, presumo, há uma tal conjugação de lataria contra a harmonia, que cantar ali se torna impossível..

Imaginemos a beleza, quando chegava o mês da visita ao Templo, os judeus de todos os lados irem cantando até ele. E a nação judaica se encher, nos seus caminhos, de cânticos de todos os lados.

Por isso São Francisco de Sales imagina como algo normalmente certo, que quando Nossa Senhora se dirigiu ao Templo, foi cantando com São Joaquim e Santa Ana.

Como seria o cântico da Menina, entoando com uma voz inefável o salmo que Davi, por inspiração do Espírito Santo, havia composto para esta circunstância!

Ora, com uma finura de tato extraordinária, São Francisco de Sales não fala da impressão que esse canto produziu nos homens, porque precisamente como Nossa Senhora não manifestava a sua grandeza, era possível que Ela não cantasse com toda a perfeição com que sabia cantar O cântico de Nossa Senhora teria de ser o cântico por excelência. Antes e depois d’Ela ninguém cantou melhor, exceto Nosso Senhor Jesus Cristo. E depois disso, nenhum cântico foi cântico.

Isso nos faz imaginar outra coisa: os Anjos ouvindo o cântico d’Ela, porque eles ouviam as harmonias de alma com que Ela cantava, e isso os extasiava. E, como se pode comparar o Céu a uma cidade, a Jerusalém Celeste, São Francisco diz que dos alpendres ou dos terraços da Jerusalém Celeste, os Anjos debruçavam-se para ver Nossa Senhora cantando pelos caminhos da Judeia, e era para eles, então, um gáudio inexprimível, embora os homens ignorassem aquele canto.

Eu confesso que não conheço ideia mais apropriada para essa circunstância, nem mais bonita. Um pensamento mais belo do que esse só poderia haver no momento em que imaginássemos Nossa Senhora entrando no Templo.

 

Depois da grande plenitude, veio a grande tragédia

O Templo de Jerusalém, na sua majestade sacral, na sua grandeza, ainda habitado pela glória do Padre Eterno, onde se realizavam sacrifícios, era o lugar mais sagrado da Terra.

Meditemos no estremecimento de alegria de todos os Anjos que pairavam ali no momento em que Nossa Senhora entrou pela primeira vez, como uma rainha naquilo que lhe é próprio, como a joia no escrínio onde deve ser guardada.

Os Anjos sabiam que a grande história e, ao mesmo tempo, a grande tragédia do Templo ia se realizar. O Messias entraria no Templo e este iria recusá-Lo. E o fim dessa tragédia seria aquilo que Bossuet chamou magnificamente de as pompas fúnebres de Nosso Senhor Jesus Cristo, referindo-se ao momento em que Ele morreu e o Padre Eterno começou a preparar funerais: o céu se obscureceu, o Sol se toldou, a terra tremeu e, diz Bossuet, os Anjos sacudiram o Templo com indignação .

A meu ver, os Anjos receberam ordem de entregar o Templo aos demônios, à maneira de cem mil gatos selvagens soltos dentro do lugar sagrado, ou qualquer coisa desse gênero, fazendo estremecer o edifício todo. Deu-se aí o fim da história desse lugar.

 

Primeiro passo da plenitude do Templo

Mas, antes disso, o Templo conheceu sua plenitude quando Nossa Senhora levou até ele o Menino Jesus, e Ana e Simeão, que representavam a fidelidade da nação, receberam-Nos. Aí os fieis reconheceram o Enviado e se fechou o elo entre os justos da Antiga Lei e a promessa que se cumpria.

Entretanto, Nossa Senhora, quando entrou no Templo ainda Menina, no momento da sua Apresentação, realizava o primeiro passo nessa plenitude da história do Templo de Jerusalém. O que os “Simeões” e as “Anas” que havia por lá naquele momento devem ter sentido? Quais as graças e fulgurações do Espírito Santo deve ter havido ali nessa ocasião? Ninguém poderá dizê-lo, a não ser no fim do mundo.

Sigamos o conselho do suavíssimo São Francisco de Sales e fiquemos com todas essas recordações em nossas almas; pensemos nela suave e alegremente, tanto quanto possível ao cabo de um dia de luta: Nossa Senhora cantando pelos caminhos, entrando no Templo de Jerusalém e, dos alpendres da Jerusalém Celeste, os mais altos Anjos embevecidos com a alma dessa Menina.

Esta é uma meditação muito adequada para o dia da Apresentação de Nossa Senhora. (Extraído de conferências de 20 e 21.11.1965)

 

Revista “Dr. Plínio”, n. 320, de novembro de 2024, págs. 20/24 – Observação: o mesmo tema foi objeto da revista “Dr. Plínio”, nº 20, novembro de 1999, mas sem indicar a data da conferência)

 

 



[1] RÉGAMEY, Pie, OP, Les plus beaux textes sur la Vierge Marie, Paris, La Colombe, 1941, pág. 229/230

[2] SAINTE THÉRÉSE DE L’ENFANT-JESUS ET DE LA SAINTE-FACE OEuvres completes. Les Éditions du Cert et Desclée de Brouwer, Paris, 1992, p. 1102-1103.



sábado, 11 de novembro de 2023

PREVISÕES PROFÉTICAS SOBRE O BRASIL FEITAS QUARENTA ANOS ATRÁS

 





Quase ao findar o ano de 1983, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira publicou na "Folha de São Paulo" um artigo intitulado "Quatro Dedos Sujos e Feios", onde analisava a forma misteriosa como ele via a esquerda se transformar na violência urbana que crescia assustadoramente. Passados mais de 40 anos, vê-se hoje como aquelas previsões se cumprem, como se diz, "ao pé da letra". Após lê-lo, convém analisar como anda hoje a violência urbana no Brasil, especialmente a partir da posse do novo governo de esquerda. Então, conseguem impor o regime não através do Partido, mas dando o poder às facções criminosas.


Quatro Dedos Sujos e Feios


Plínio Corrêa de Oliveira


A perplexidade se dá bem com macias cadeiras de couro, nas quais o homem sente afundar-se gostosamente. É que há certa analogia entre estar atolado em questões perplexitantes, e em poltronas de molas macias. O homem perplexo, afundado em couros, fica atolado tanto de corpo como de alma, o que confere à situação dele essa unidade que nossa natureza pede insistentemente, a todo propósito.
É verdade que tal unidade não vai aí sem alguma contradição. As perplexidades constituem para a mente um atoleiro penoso. Um purgatório. Por vezes quase um inferno. Pelo contrário, os couros e as molas proporcionam ao corpo cansado um atoleiro delicioso, reparador. Mas essa contradição não fere a unidade. E diminui o tormento do homem, em vez de o acrescer.

Para prová-lo ao leitor, bastaria a este imaginar quão pior seria a situação de um homem perplexo, sentado num duro banco de madeira...

Ocorreu-me isto tudo ao recordar que, numa noite destas, chegado ao termo o jantar, resolvi refletir sobre a situação nacional, atoleiro no sentido mais preciso e sinistro do termo. E para isto me afundei instintivamente em uma profunda e macia poltrona de couro. Comecei então a pensar...

A ronda macabra dos vários problemas pátrios, ideológicos, sociais e econômicos, começou a dançar em meu espírito. A fim de ver claro, eu procurava deter a feia ciranda, de modo a analisar, uma por uma, as várias questões que a formavam. Mas estas pareciam fugir a toda avaliação exata, executando cada qual, diante de meus olhos por fim fatigados, um movimento convulsivo à maneira do "delirium tremens". Pertinaz, eu insistia. Mas elas, não menos pertinazes do que eu, aumentavam seu tremor, e de repente retomavam em galope sua ciranda.

Febre? Pesadelo? O certo é que me senti subitamente em presença de um personagem muito real, de carne e osso...

E eu, que tinha intenção de comunicar aos leitores o resultado de minhas lucubrações, fiquei reduzido a contar-lhes o que este personagem me disse.

O tal homem a-temporal me tratava de você, com uma certa superioridade que tinha seu tantinho de irônico e de condescendente. E, pondo em riste o indicador curto e pouco limpo da mão direita, como para me anunciar uma primeira lição, sentenciou: "Saiba que eu, o comunismo, fracassei neste sossegado Brasil. O PC é aqui um anão que dá vergonha. Por isso, evito de o apresentar sozinho em público. O sindicalismo não me adiantou de nada. Possuo muitos de seus chefes, mas escorre-me das mãos o domínio sobre suas bases bonacheironas ("pacifistas", diria você). Entrei pelas Cúrias, pelas casas paroquiais, seminários e conventos. Que belas conquistas eu fiz. Mas ainda aí prosperei nas cúpulas, porém a maior parte da miuçalha carola me vai escapando. Noto, Plinio, sua cara alegre ante minha envergonhada confidência. Você me reputa derrotado. Bobão! Mostrar-lhe-ei que tenho outros modos de progredir.

— Você duvida? — Sim, eu duvidava.

Então ele levantou teatralmente, ao lado do dedo indicador, o dedo médio, um pouco mais longo e não menos rejeitável. E entrou a dar sua segunda lição.

"Começarei por um sofisma. Farei o que você não imagina: a apologia do crime. Sim, direi por mil lábios, através de mil penas, milhões de vídeos e de microfones, que a onda de criminalidade, a qual tanto assusta os repugnantes burgueses, raramente nasce da maldade dos homens. Nas tribos indígenas, os crimes são mais raros do que entre os civilizados. O que quer dizer que o crime nasce entre nós das convulsões sociais originadas da fome. Elimine-se a fome, desaparece o crime. Como, aliás, também a prostituição.

"Quem você chama de criminoso é uma vítima. Sabe quem é o criminoso verdadeiro? É o proprietário. Sobretudo o grande proprietário. Principalmente este é que rouba o pobre.

"Enquanto um ladrão de penitenciária rouba um homem, o proprietário rouba um povo inteiro. Seu crime social é de uma maldade sem nome!"

O delírio leva a muita coisa. Pensei em expulsar o jactancioso idiota. Mas o comodismo me manteve atolado em minha poltrona. Furibundo e inerte, deixei-o continuar.

Ele levantou o dedo anular, feio irmão dos dois que já estavam erguidos. E prosseguiu.

"Há mais uma "seu" Plinio. À vista de tudo quanto eu disse, um governo consciente de suas obrigações tem por dever desmantelar a repressão e deixar avançar a criminalidadePois esta não é senão a revolução social em marcha. Todo assassino, todo ladrão, todo estuprador não é senão um arauto do furor popular. E por isto farei constar ao mundo inteiro que a explosão criminal no Brasil está sendo caluniada por reacionários ignóbeis. A criminalidade é a expressão deste furor justamente vindicativo das massas, que os sindicatos e a esquerda católica não souberam galvanizar."

Suspendendo o minguinho, miniatura fiel dos três dedos já em riste, meu homem riu. "Farei entrar armas no Brasil. Quando os burgueses apavorados estiverem bem persuadidos de que não há saída para mais nada, suscitarei dentre os que você chama "criminosos", um ou alguns líderes, que saberei camuflar de carismáticos. E farei algum bispo anunciar que, para evitar mal maior, é preciso que os burgueses se resignem a tratar com aqueles que têm um grau de banditismo menor.

"Vejo a sua careta. Você está achando a burguesia preparada para cometer mais esse erro. Tem razão. Assim se constituirá um governo à Kerensky, bem de esquerda. O dia seguinte será do Lênin que eu escolher."

Levantei-me para agarrar o homem. Quando fiquei de pé, acabei automaticamente de acordar. Ou cessou a febre...

Escrevi logo quanto "vira" e "ouvira", pois só até poucos minutos depois da febre ou do sono, tais impressões se podem conservar com alguma vitalidade.

Leitor, desejo que elas não lhe dêem febre. Se é que, antes de terminar a leitura, elas não lhe darão sono.

Este não será, em todo caso, um tranqüilo sono de primavera. Mas estará em consonância com essa metereologia caótica dos dias aguados e feios com que vai começando novembro.

P.S. — A Polícia paulista parece hoje em reviravolta. Que diria a isto o hominho dos quatro dedos sujos? Em São Paulo, e pelo Brasil afora, que rumo tomará o buscapé da subversão? Parar, não parará...

("Folha de S. Paulo", 16 de novembro de 1983)



Observação: não teria sentido qualquer ligação entre o personagem do Dr. Plínio, o "homenzinho de quatro dedos sujos e feios", e o presidente Lula, o qual, apesar de também possuir quatro dedos numa mão (por sinal, o "minguinho" é o único que falta nele, mas é um dos citados no artigo), na época do presente artigo nem sequer cogitava de se candidatar a presidente, embora seu partido já começasse a disputar cargos importantes como a prefeitura de São Paulo.