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quinta-feira, 29 de maio de 2025

UM MEDIEVAL VISITA O SÉCULO XXI

 




 

O pequeno Rivière era muito meditativo, e por amar muito a Religião e a Pátria sonhava frequentemente com as duas. Consternava-lhe ver quão decadentes viviam as pessoas: sua época, o século XIII, já era profuso em costumes e ideias revolucionárias. Na cidade em que morava as pessoas muito comumente procuravam deleitar-se com os prazeres da vida, e tudo faziam para evitar qualquer sacrifício, dureza, cruz, sofrimento. E assim, muitos riam folgadamente, passeavam despreocupadamente, viajavam a procura de aventuras e novidades e, sobretudo os jovens, tinham como objetivo de suas vidas não mais o heroísmo e sim o romantismo amoroso.

E o jovem pensava: aonde vai dar tudo isto? “Se continuarem assim – dizia -, abandonando o dever pela busca do prazer, que restará de nossa juventude? Que será de nosso futuro?”

O sacrifício, antes tido como decorrência natural do pecado original, agora passa a ser desprezado a qualquer custo: deste modo, as roupas, as modas, os costumes, as preferências de todos, tudo enfim, tendia a caminhar para a gostosura da vida. E o garoto franzia o seu semblante, dia e noite, presenciando cenas, ouvindo conversas, vendo fatos que contradiziam, embora com pouca ênfase em alguns casos, todos os princípios cristãos para os quais houvera nascido e criado.

E foi assim que, certa noite, Rivière sonhou. Era um sonho bem diferente dos que costumava ter. Foi algo muito inusitado para ele. Em seu sonho ele se encontrava num mundo completamente diferente. Achava-se num futuro bem distante de seu tempo, quase oito séculos após. Em sua época já se falava que haveria um futuro cheio de paz e tranquilidade. Mas, na realidade, o que ele presenciava de paz em seu sonho era completamente diferente do que as pessoas imaginavam em sua época. Ele ficou muito chocado com o que viu:

- Que lugar estranho! – pensava. Para que tanto rebuliço? E quantas pessoas juntas! Quanta multidão a caminhar de um lado para o outro! Por que será que estão assim reunidos andando ao léu sem destino? Não vejo ninguém chamando-os para alguma batalha, nem tampouco para alguma peregrinação religiosa, e no entanto eles andam com pressa, embora sem rumo e sem um objetivo definido...

Repentinamente foi abordado por alguém que o observava:

- Olá, rapaz! Não está sentindo calor? Ou está vindo do frio?

- Calor? Que calor? Nós geralmente sentimos muito calor quando estamos empenhados numa batalha – sentimos o calor da luta. A que calor está se referindo?

- O calor do tempo, ora essa! Não ver que o sol está a pino? Por que não tira estas roupas pesadas? Refresque-se!

- Refrescar-me? Em minha terra nós nos refrescamos quando estamos cansados após dura batalha ou renhido trabalho, mas neste caso entramos em casa e nos recostamos a um leito.

- Não me diga que em sua terra as pessoas usam estas roupas pesadonas em pleno verão, suando deste jeito... é verdade? Se for assim, de que terra você veio?

- Olhe, amigo, antes do desconforto do meu corpo está a paz de minha alma, e porque a prezo muito é que procuro vestir-me dignamente; quanto ao corpo, porém, não é verdade que estou suando mais do que o senhor, nem tampouco sentindo mais calor...

- Pode chamar-me de você mesmo, pois eu não sou senhor. Quero ver você provar o que disse: como posso estar suando ou sentindo mais calor que você se uso roupa leve e fina?

- É simples: o calor não vem diretamente para o meu corpo, pois o mesmo está protegido pela roupa. Quanto ao senhor, verifique que nos lugares onde a roupa não cobre, ou protege menos, o suor é mais intenso. Se quer um exemplo melhor, veja aquele palacete quadrado ali defronte, onde várias pessoas estão vestidas apenas com alguns trapos e sendo servidas por alguns lacaios muito bem vestidos. Veja... ali em frente, senhor.

- Já disse que não sou nenhum senhor. Chame-me apenas de você. Estava se referindo àquele hotel quando mencionou “palacete quadrado”? As pessoas ali que você diz usarem trapos nós chamamos de turistas e o que denomina de “lacaios” nada mais são do que os garçons que os estão servindo.

- Turistas? Garçons? O que vem a ser isso?

- Ah, que ignorância! Turistas são estas pessoas que vivem viajando e se hospedando em hotéis, isto é, hospedarias, com piscinas e outras diversões. E garçons são estes homens que lhe servem bebidas e comidas enquanto se divertem. Vamos lá, que quer dizer sobre o calor que estão passando ali?

- Não importa como são chamados, pois, na realidade trata-se de lacaios servindo a seus senhores. Veja que os chamados “garçons” estão todos bem vestidos, com roupas “pesadas” como falou, alguns até de gravatas, enquanto que os “turistas” estão vestidos apenas com alguns trapos de panos. No entanto, não se vê um só garçom com calor e suando, enquanto entre os turistas há alguns que até estão se abanando de tanto calor.

- Nunca tinha notado isso. Como se explica?

- É que o calor vem direto para o corpo dos mal vestidos, que estão sem a proteção das roupas, enquanto que os garçons têm o corpo protegido pela roupa e sofrem menos os efeitos do tempo. Afinal, como se chama o senhor?

- Por que teima em chamar-me de senhor?  Veja que não sou tão velho assim. Para nós o termo senhor significa velhice, decadência, enquanto “você” é um tratamento mais igualitário e denota juventude. Deixemos isso de lado. Diga-me de onde veio e seu nome.

- Meu nome é Rivière: como vê sou jovem ainda, mas mesmo assim já estou me preparando para ser armado cavaleiro pelo meu senhor, o grande duque de Lyon. Venho sendo adestrado há bastante tempo pelo duque. Por enquanto estou sendo apenas seu pajem, mas ele me prometeu...

Rivière foi interrompido por uma estrepitosa gargalhada. Após breve silêncio, o estranho falou:

- Pois meu nome é Estrofe do Pé Quadrado e tudo o que você está dizendo bem demonstra sua insanidade mental. É pena, tão jovem e já um tanto desmiolado...

- Ah,é? Pois fale-me um pouco do senhor: quem é, de onde veio, o que faz aqui e o que pretende na vida em seu futuro.

- Apesar de não gostar que me chame de senhor, pois isto me aborrece, vou lhe falar um pouco de minha pessoa. Como disse, meu nome é Estrofe do Pé Quadrado, um nome estranho realmente mas muito do agrado de meu pai, que era poeta: como nasci aleijado deste pé esquerdo, ele por ironia e irreverência colocou-me tal nome. Hoje em dia, é bom que saiba, as pessoas usam muito de ironia e irreverência.

- Que horror! Ironia e irreverência – que absurdo!

- Por que se espanta? Saiba que vivemos numa época em que tudo caminha para a irreverência. E a ironia também está muito em voga. Como é lá na sua terra?

- Pois em minha terra, ou em meu tempo, os nomes das pessoas são postos conforme determinadas tradições religiosas ou de família, geralmente em homenagem a santos nossos protetores. Ao contrário, nós primamos pela reverência e respeito ás pessoas. Respeitamos muito a dignidade da pessoa humana. Por isso o tenho chamado de senhor.

- Pelo que vejo você não é deste mundo: onde nasceu? Em que época?

- Como já disse, sou de Lyon, França. Nasci em 1294, portanto, no final da Idade Média.

- Vou acreditar no que diz, somente para ver até onde quer chegar. Sendo assim, encontramo-nos, eu e você, nesta movimentadíssima avenida de Nova Yorque, conversando sobre nossas terras ou nossas eras históricas, sendo eu deste século XXI e você da Idade Média – uma diferença de quase oito séculos. Na realidade, estou aqui de passagem.

- Turista também?

- Um pouco de turista, mas muito mais de comerciante, pois venho sempre aqui fazer compras.

- Nasceu em que país?

- Sou brasileiro, nasci em São Paulo. Aqui estou a negócios, e você?

- Não sei como cheguei até aqui. Tudo é muito estranho, estou confuso e perplexo. Não entendo certas coisas que estou presenciando. Por exemplo, o que são aqueles bólides luminosos andando sobre caminhos negros lá embaixo?

- São veículos, espécie de carruagens de seu tempo, mas movidos por si mesmo, que chamamos de automóveis. As estradas negras chamamos de auto-estradas, e a cor escura é devida ao breu ou asfalto de que são feitas.

- E naquelas ruas,  para que tantas cordas esticadas naqueles postes?

- São fios elétricos. Através deles corre energia elétrica para acender as luzes e mover as máquinas e aparelhos elétricos em geral.

- E por que as pessoas andam assim tão confusamente pelas ruas? Veja quanta multidão andando ao léu sem destino... quanta balbúrdia, e como se vestem de maneira ridícula!

- As pessoas que você vê estão andando pelas calçadas, pois se andarem pelas ruas podem ser atropeladas pelos carros. Quanto às roupas,  não vejo nada de ridículo nas que as pessoas estão vestidas hoje em dia: ridículo está você aí com este jaquetão grosseiro!  As roupas modernas são leves, alegres, poucas pra não fazer calor, a fim de que as pessoas se sintam mais á vontade e livres, acabando com aquela ideia de sufoco que havia antigamente. O importante é a liberdade, que começa pelos movimentos do corpo.

- Mesmo que esta liberdade leve a pessoa para a imoralidade?

- Imoralidade? Nós não sabemos mais o que é isso: há muito tempo que não existe mais moral em nosso mundo.

- Não sei como pode haver uma sociedade onde não haja respeito pela moral. Como é, então, o relacionamento entre as pessoas? Há dignidade? Existem leis superiores para serem cumpridas e manter a paz? Há também alguns costumes que levem as pessoas a um mútuo respeito? Tanta liberdade não acaba suprimindo alguns direitos como, por exemplo, o da privacidade?

- Chega de tanta pergunta. Estou gostando agora mais da conversa porque esqueceu-se de chamar-me de senhor. Vamos em frente. Nós baseamos nossa convivência social, meu rapaz, apenas na luta pela sobrevivência. Ou então, pelo dinheiro, ou pela posição social. Somente isto faz com que as pessoas andem se respeitando uns aos outros. Por causa da posição social respeita-se o delegado, o juiz, o prefeito, o governador; por causa do dinheiro respeita-se o gerente de banco, o financista e o homem de negócios, como o comerciante ou o industrial. A dignidade só existe para quem tem dinheiro e posição social. E todos assim gozam de liberdade, vivendo somente para este fim: a luta pela sobrevivência.

- Ah! Agora entendo porque não quer que o chame de senhor. Neste seu mundo quem não possui dinheiro e posição social torna-se um pária. Não há respeito pelos pobres. Onde está a dignidade do homem como filho de Deus? Meu Deus, que horror!

- É o século XXI, meu chapa! Nós vivemos hoje a lei da selva: não a selva da floresta, mas a selva de pedra das grandes cidades, onde tudo converge para esta luta de que lhe falei. Quem não vencer neste mundo fará parte da escória e para este nossa sociedade tem reservado apenas alguns. cortiços, certas favelas, um submundo terrível, pois não há outra saída. Quanto aos demais, os que conseguirem se superar e vencer na vida, gozarão felizes a doçura do “bom viver”, com automóveis e aviões de luxo, viagens turísticas, luxuosos hotéis de veraneio e clubes com piscinas super-confortáveis. É a vida, meu caro! Alguns têm que penar para outros gozar!

- Como é triste teu mundo.

- Triste? Você está louco! Dê uma olhada nestas ruas e veja quantas casas de diversões e entretenimento irá encontrar. Aposto em que em sua terra, ou em seu tempo, nada disso havia.

- Não vejo tais diversões como fruto de uma verdadeira alegria. Não acredito que depois de tanto frenesi as pessoas não se sintam com a consciência pesada.

- Como é que a consciência pode ficar pesada?

- Pode ficar pesada e doer, sabendo-se que o resto do mundo pena muitas misérias e  há muita injustiças a corrigir, enquanto se diverte e se goza a vida de uma forma assim tão despreocupadamente.

- Não, meu caro, nós não temos problemas de consciência. Encontramos na vida moderna vários recursos com que possamos abafar a consciência. Procuramos sempre a fuga da dor, principalmente disso que se chama “dor da consciência”.

- Como é feito isso?

- Simplesmente não nos preocupamos com os outros! É cada um por si. E agindo assim não há como a consciência possa doer, ela parece nem sequer estar viva.

- Entendo. Gostaria de deixar patente, no entanto, que isto não lhes traz uma autêntica alegria. Não pode ser autêntica uma alegria que procura abafar a consciência ao ponto de deixá-la quase morta. A verdadeira alegria está no interior de cada um, onde deve morar com toda a força nossa consciência. Só pode ser verdadeira e autêntica esta alegria quando, ao nos divertirmos, a justiça, a paz e a união campearem ao nosso redor. Se o homem se diverte e goza, mas seus irmãos tudo sofrem, esta alegria é falsa. Mais ainda se a consciência não desperta e não lhe chama a atenção para a realidade que o cerca.

De repente, ambos percebem que há uma grande discussão numa rua onde se aglomerava pequena multidão. Perguntaram a um transeunte, tendo o mesmo dito que se tratava de um problema corriqueiro, uma briga por causa do lugar na fila.

- Como é isso? – pergunta Rivière – uma briga por causa de lugar na fila?

- Sim, isso ocorre com frequência hoje em dia. O sujeito está numa fila qualquer, ou para fazer uma compra, ou para ser atendido num banco, ou mesmo para embarcar num transporte, e de repente alguém “fura” a fila, isto é, passa na frente do outro. E daí surge a briga, pois o que está na frente não suporta ver o outro lhe passar na frente. É assim também na sociedade, de um modo geral, pois ninguém suporta ver outro passar na sua frente, e muita gente briga por causa disso.

- Mas, brigar por causa de um lugar numa fila?

- Sim, é um direito de quem estar na fila ter seu lugar respeitado – se alguém entra na frente está ferindo um direito...

- Oh mas que direito mais bobo? Como é que se briga por causa de uma coisa tão banal?

- No seu tempo ninguém brigava na fila?

- Não era costume haver filas no meu tempo, a não ser para se receber a Sagrada Comunhão, na Santa Missa. E aí, o normal é o contrário: as pessoas fazem questão de ceder seu lugar a outras.  Trata-se de um direito tão secundário, tão pequeno, que a gente pode ceder a outro sem qualquer dificuldade. Aliás, aprendemos que ser educado consiste exatamente em ceder alguns pequenos direitos nossos a outras pessoas. Se causam incômodos é para que nos acostumemos com eles.

- Já vi que você é um filósofo. Mas nosso mundo não vive mais de filosofia. Voltando ao assunto anterior, diga-me, como é que as pessoas se divertiam em seu tempo?

- Era algo muito diferente do que chamam hoje de diversão. Tínhamos naquele tempo cavalgadas, caçadas, jogos de armas, todo e qualquer passatempo era feito para aperfeiçoar o caráter das pessoas. Tudo era muito honesto e tão natural que a alegria se externava espontaneamente.

- Dir-lhe-ei o mesmo: como poderia ser verdadeira esta alegria em seu tempo se haviam guerras, injustiças praticadas pelos nobres, violência contra os pobres, etc?

- Era verdadeira nossa alegria porque a paz campeava em toda a sociedade e a justiça era aplicada em todo o corpo social. Haviam temporários rompimentos de paz, haviam alguns princípios de justiça feridos, mas logo, logo, eram corrigidos e reparados, pois haviam mecanismos sociais para reparar todos estes males, que sempre ocorrem entre os homens. Enquanto seu mundo é voltado para dentro de cada um, completamente egoísta, sem pensar senão no gozo e no prazer pessoal, o nosso, pelo contrário, tinha filosofia de vida completamente contrária: praticamos a caridade, amamos ao próximo como a nós mesmos e por amor a Deus, vivemos da abnegação e do sacrifício, temos cavaleiros que vivem para a proteção dos mais fracos, os pobres, os órfãos e as viúvas, nos preocupamos mais com a felicidade dos outros do que com a nossa. E isto nos torna mais felizes ainda.

- Pode ser verdade, mas não acredito no que diz. Não acreditamos, homens do século XXI, mais em ninguém. Para nós todos os homens são egoístas, interesseiros e ladrões. Todos são filhos do pecado e aqui pecam, alguns secretamente, os hipócritas, e outros abertamente, os sinceros. Não acreditamos mais em honestidade, em abnegação desinteressada, coisas do tipo amor ao próximo, não acreditamos mais em virgindade, etc. Pergunte por aí e não vai encontrar mais nenhum rapaz ou moça que saiba o que é castidade.

- Volto a repetir: como é triste o teu mundo! Nunca imaginaríamos que a busca desenfreada do prazer levasse o homem a tal decadência.

- Pois é: assim como não acreditamos no homem de nosso tempo, também não acreditamos no do seu. Acho que não é verdade que as pessoas de sua época eram abnegadas, desinteressadas, como dissestes. Pelo contrário, acho que eram todas interesseiras, egoístas e exploradoras umas das outras. Foi por causa delas que chegamos ao grau de miséria humana ainda existente no mundo atual.

- Seria impossível a construção da Civilização Cristã, palpitante na época medieval, sem que houvessem homens assim como lhe falei. Veja as catedrais góticas: quais interesses egoístas levariam os homens a construí-las? Veja as cruzadas à Terra Santa: que interesses pessoais e egoísticos levariam os homens a enfrentar uma guerra tão longínqua, sem qualquer objetivo expansionista ou de riquezas? Veja também os mosteiros, construídos em quantidade imensa: quais interesses egoístas em construir locais de oração, onde alguns se enclausuravam durante toda a vida, no mais completo recolhimento? E isto foi, meu caro senhor, o ponto alto da Idade Média.

- Já ouvi falar de algo assim, mas acho que tudo não passa de lendas.

- Então leia os compêndios de História, pesquise, procure conhecer o  período histórico de que falamos. O senhor precisa vencer sua descrença, e acreditar pelo menos na História de seus antepassados, que não são lendas, mas fatos que ocorreram em locais determinados com pessoas reais, e estão devidamente documentados. Além do mais, tanto as catedrais como os mosteiros e outros monumentos estão ainda de pé para atestar perante as gerações futuras  o que foi a Idade Média na alma de nosso povo.

- Por que continua me chamando de senhor?

- Porque assim o manda o respeito que tenho por sua dignidade, de ser dono de si, de deter o livre arbítrio e ser livre como deve ser todo filho de Deus. Nós nos chamamos de senhor por causa disso, e o senhor por que me chama de você o tempo todo?

- Porque somos todos iguais e este tratamento nos nivela, não dar a ideia de diferença e desigualdade. Nele não há destaque, não há distinção. Você é qualquer um, é igual a outro qualquer...

- Mas, não é verdade. Nós não somos qualquer um: somos filhos de Deus e detentores da dignidade própria desta condição. Além do mais, não somos iguais, somos completamente diferente e desiguais uns dos outros. Por isso, é necessário que sejamos tratados de forma diferente.

 

·                     *                      *                      *                      *                       *

 

 

 

Os sinos tocam pausadamente. As badaladas vão se sucedendo harmoniosamente, alternando sons graves e agudos de diversas igrejas. “Não, não pode ser – pensa Rivière – estes sinos não podem estar tocando no meio desta babilônica cidade. Estes toques me fazem lembrar meu mundo, minha cidade, minha querida Idade Média do século XIII e não no inferno desta babel”.

Sim, era verdade, os sinos da catedral e das outras igrejas de Lyon estavam tangendo. Logo, Rivière percebeu que seu sonho era um pesadelo. Levantou-se lépido da cama, pois não queria chegar atrasado à Santa Missa. Além do mais, o duque o estava esperando como sempre, e dormira além do normal. Ao sair, porém, na rua, ouviu certo murmúrio na praça. Eram comuns desde algum tempo aquelas azáfamas de vendedores que vinham de outras cidades. Um deles oferecia livros romanescos da cavalaria decadente: “O cavaleiro que salvou a princesa da prisão do castelo!” – gritava oferecendo seus cordéis. Era o título da obra. Alguns compravam, embora poucos soubessem ler.

Rivière vendo tudo isso, considerou pensativo:

- E pensar que tudo começou por aí. Estou presenciando o início do processo revolucionário em tudo o que se passa na minha cidade, cujo apogeu acabo de contemplar num terrível sonho que tive.

Soube de notícias do movimento renascentista que já se iniciara, uma tentativa de restaurar o mundo pagão depois que os grandes santos e doutores da Igreja haviam sepultado no pó da História aquelas velhas filosofias de vida que tantas misérias haviam produzido na humanidade antiga. Depois que a Igreja havia extirpado a escravidão, depois que as ciências, as artes, a cultura de modo geral começavam a tomar um impulso cristão e sadio, depois, principalmente, que predominava na sociedade católica um salutar convívio social e surgiam estudos para equacionar problemas seculares, os homens então começaram a querer retornar ao mundo romano-helênico e outros já decaídos.

E, aproveitando a ocasião, rezou algumas ladainhas e rosários pelo homem do século XXI. Pois, que solução poderia dar para problemas de tais magnitudes? Será que eles acreditariam, se lhes dissesse que estavam caminhando para aquela confusão vista em sonhos em época tão distante?

E o homem do século XXI? Seria ele capaz de sonhar como seria o futuro da humanidade, sete ou oito séculos após tanta decadência?

 (Extraído de "Choque de Mentalidades" - págs. 136/142 - séries de contos inéditos de minha autoria sob temas contrarrevolucionários)

 


segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

O NATAL DE DONA CHICA

 




Sentado na poltrona, o Sr. Manoel lia o jornal quando suas filhas se acercaram dele para um raro entretenimento, somente possível naquelas noites especiais em que algo de especial está para acontecer. Dona Marieta, esposa do Sr. Manoel, reclamava:

- Mas, logo hoje, que a novela estava tão atraente e cheia de suspenses, a TV foi se quebrar?

O Sr. Manoel, porém, estava gostando daquilo:

- Ah, Marieta, você não imagina como está bom assim. Pelo menos hoje a gente vai deixar de ouvir este suspense novelesco que não acaba nunca; é sempre um atrás do outro para deixar vocês nesta torcida. Só assim a gente vai ter oportunidade de conversar mais familiarmente, sem interferência desta famigerada caixinha eletrônica.

No entanto, Sr. Manoel não conseguia ler o seu jornal, pois Fabíola e Laura não o deixavam. A certa altura, Dona Marieta o interrompe:

- Pois bem: que entretenimento ou conversa familiar é essa? Você aí, sentado no sofá tendo ler o jornal?

O Sr. Manoel sobressaltou-se, jogou o jornal pro lado, beijou suas duas filhas, de 8 e 10 anos, dizendo:

- Desculpem-me, vamos conversar um pouco...

Não era de estranhar que procedesse dessa forma, pois tinha passado um dia estafante em seu trabalho. Era policial, e naquele dia de véspera de Natal sua presença no trabalho tinha sido indispensável. Ao chegar à sua casa é que se propunha a ler alguma coisa para saber as notícias do dia.

Repentinamente, lembrando-se de algo, colocou as duas filhas no colo e lhes perguntou:

- Que presentes vocês esperam receber de São Nicolau?

- São Nicolau? Quem é São Nicolau? – perguntaram as duas numa só voz.

- Ah, então vocês não sabem? São Nicolau foi um bondoso bispo, homem muito abastado e muito santo, que tornou-se o símbolo do espírito festivo natalino para os cristãos. Hoje existe a figura do Papai Noel, uma invenção comercial, mas está muito longe de representar o verdadeiro espírito natalino que tinha São Nicolau. Todo ano no Natal ele presenteava as crianças que haviam sido boas durante o ano, era um prêmio por terem praticado virtudes cristãs. No entanto, aquelas que haviam sido más ou cometido muitas indisciplinas ou pecados eram severamente advertidas. E uma ou outra que reincidia em erro e maldade recebiam, de seu secretário, uns bolos nas mãos. De costume andava ele carregado de presentes, doces, chocolates e outras iguarias, com o que alegrava as crianças e procurava sempre premiar as boas e castigar as más. Pois, vejam bem: as pessoas hoje nem falam mais em São Nicolau, só se lembram do Papai Noel inventado pelos comerciantes para vender seus produtos.

Dona Marieta intervém, então, na conversa.

- São Nicolau ou Papai Noel, o que vocês desejam ganhar neste Natal?

- Uma boneca! – Responderam as duas meninas em uníssono.

Dona Marieta saltou de lá, censurando:

- Ah, não! Outra boneca? Vocês não sabem pedir outra coisa? Já viram quantas delas possuem no quarto de vocês?

- Deixa as meninas, Marieta – intervém o Sr. Manoel – pois elas têm o direito de pedir o que mais gostam, não é verdade?

- Isso mesmo, papai, – pontificou Fabiana – o senhor tem toda razão!

- É verdade; mas, mesmo assim, seria muito bom que começassem a pensar em outras coisas. A gente tem de variar os gostos, não é mesmo? Agora mesmo lembrei-me de lhes contar um fato muito a propósito que presenciei hoje. Lembram-se da velha Chica, a catadora de lixo?

- Sim, mas que teve ela? – indagou Laura.

- É que hoje eu tive a oportunidade de saber toda a história da vida dela e fiquei muito comovido, pois é muito triste.

- Então não conta, que hoje é véspera de Natal, dia de alegria e não de tristeza – falou dona Marieta.

- Conta, papai! – pediu Fabiana.

- É, vamos lá! Conta, assim mesmo – completou Laura.

- Pois bem, eu vou contar, pois vai servir de exemplo para vocês. Eu estava fazendo a ronda quando vi dona Chica se meter em sérios apuros. Haviam nos chamado para prender uma suspeita ladra escondida num prédio velho abandonado. Pegamos o carro-patrulha, eu e um cabo, e quando lá chegamos vimos a mulher por entre uns escombros sentada no chão, de costas, como se estivesse arrumando algo. Aproximamo-nos, lentamente, e, ao chegar perto, vi que era dona Chica. Estava ali, fazendo sabem o quê?

- Ela é uma ladra, papai, estava escondendo o roubo? – perguntou Laura.

- Não, nada disso. Ela estava simplesmente brincando com uma boneca.

- Brincando com uma boneca!? – espantaram-se as meninas.

- Sim. E estava tão entretida que não notou nossa presença. Perguntei-lhe, então: “Onde conseguiu essa boneca, dona Chica? Não me diga que foi no lixo...” De um ímpeto, assustada, ela levantou-se e correu com a boneca na mão. Nós a pegamos rápido. Voltei, então, a perguntar:

- Vamos lá, diga-me dona Chica: de quem roubou esta boneca?

Verifiquei que a velha estava muito assustada e quase chorando. Disse-me logo em seguida:

- Sargento, eu nunca roubei e nunca roubarei jamais. O senhor sabe que sou uma pobre miserável, mas muito honrada neste aspecto. Esta boneca caiu de um caminhão de cargas que passava na estrada. Era uma caixa cheia delas: eu peguei esta e outras pessoas as demais. Isso é roubo? Quem lhe disse que eu roubei?

- Olhe, dona Chica; pode ser que a senhora esteja falando a verdade, mas tem que ir conosco até o distrito policial, pois alguém nos telefonou a acusando de roubo. Vamos investigar isso direito. Se for inocente, nada vai lhe acontecer.

- Quem telefonou?

- Não sabemos. Vamos lá que talvez a pessoa apareça reclamando o que é dela.

- Ah, deve ser alguma pessoa invejosa que me viu assim maltrapilha apanhar a boneca, e ela não conseguiu nada porque outras pessoas também as cataram na rua. Certamente vai dizer que a boneca é dela. Olhe, eu não tenho medo de ir ao distrito policial, pois tenho minha consciência tranqüila. Quando eu era criança aprendi desde cedo a respeitar os bens alheios, e quando ia às vezes me confessar contava ao padre até mesmo os pequenos furtos de comida que fazia escondida na cozinha de minha mãe. E hoje, já adulta, tenho como grande honra nunca haver roubado nada de ninguém, apesar de ser pobre e passar muitas privações.

- Eu sei, dona Chica, mas, mesmo assim, a senhora vai nos acompanhar para que possamos apurar este fato e esclarecer toda a questão. Vamos lá!

- Só quero que o senhor tenha um pouquinho de paciência e ouça-me. Quero lhe contar uma história que, ao ouvi-la, o senhor vai entender o que representa para mim esta boneca.

- Está bem; no caminho a senhora vai nos contando sua história.

Embarcamos na viatura, mas dona Chica não quis largar a boneca, dizendo ser muito importante para ela. A caminho, contou a seguinte história:

-“Sargento, na verdade em minha infância eu não era uma menina pobre e tinha um pai e uma mãe muito bondosos. Eles davam-me tudo o que necessitava e mais o que lhes pedia, como joias, pulseiras, relógios, roupas e, sobretudo, muitos brinquedos, como bonecas. Eles também tinham muito carinho por mim. Um dia, porém, minha mãe bateu-me muito porque lhe dei um grande desgosto. E ela, muito irritada, disse-me uma coisa que nunca deveria ter dito.

- Que disse-lhe ela assim de tão importante?

- Disse-me que não era minha mãe verdadeira. Contou-me que desejava muito ter um filho, mas, impossibilitada por problemas de saúde, resolveu adotar-me num orfanato. Estava bastante revoltada comigo e não sabia o que fazer de minha pessoa, afirmando que eu não merecia aquele carinho que ela e meu pai me davam. Insensatamente, pedi-lhe que me levasse à casa de minha verdadeira mãe, pois pretendia conhecê-la. E ela fez o que eu menos esperava: levou-me realmente à casa de minha mãe verdadeira, mas, chegando lá deixou-me com ela e afirmou categoricamente (juntamente com meu pai adotivo) que nunca mais queria ver-me, jamais deveria voltar à casa deles.

- Que mulher do gênio ruim! E você ainda diz que ela era bondosa...

- Foi aí, sargento, que eu comecei a entender o que é a verdadeira bondade. Eu pensava que meus pais eram bons porque me davam tudo o que eu queria. Enganei-me. Chegando à casa de minha mãe verdadeira, não vi que lá se gozava uma vida boa, como na casa de meus pais adotivos: havia muita carência, como das coisas essenciais à sobrevivência, tratava-se de uma família muito pobre, paupérrima mesmo. Mesmo assim, todos se contentavam com o pouco que tinham, quase não havia reclamações, e minha mãe verdadeira tinha muita paciência com os filhos, que eram muitos, em torno de sete inclusive eu. Corrigia os filhos com severidade, mas com amor.

- E neste novo lar, você era feliz?

- Não. Eu já estava muito mal acostumada com a vida fácil. Minha nova vida na casa de minha mãe verdadeira foi, na verdade, um inferno pra mim. Pois eu não suportava ver meus irmãos mal vestidos, aquela humildade que os fazia aceitar quase tudo sem reclamar, que me foi útil apenas para querer dominá-los. Havia aprendido a ser orgulhosa, e aquela vida pra mim era insuportável. Como foi duro, sargento: antes morava num palacete, e depois passei a morar num casebre, dentro de uma favela malcheirosa e, para piorar, não haviam me deixado levar meus pertences pessoais, como as roupas, joias, brinquedos, os vestidos elegantes e, sobretudo, minhas bonecas. Passava o tempo quase todo a chorar e a me maldizer.

- Então a senhora foi sempre malcriada, não foi?

- Nem tanto. Acontece que a vida levada na casa de minha mãe adotiva era muito artificial. E quando descobri o meu verdadeiro mundo, revoltei-me.

- Por que não voltou para a casa da mãe adotiva?

- Realmente, eu tentei voltar, mas eles repeliram-me. Lá havia outro filho adotivo mais novo. Era mais uma tentativa deles encontrar um filho que lhes fosse do agrado.

- A senhora deve ter aprontado uma boa com sua mãe adotiva, não foi?

- Apenas, inocentemente, contei um segredo a uma vizinha. Era criança, tinha lá meus 8 ou 9 anos, nem me lembro direito...

- Que fez na casa de sua mãe verdadeira, já que também lá não se deu bem?

- Não aguentei muito tempo, e fugi antes de completar meus 14 anos de idade. Apesar de minha pouca idade já tinha um corpo formoso e foi fácil se aproveitar disto para conquistar alguns homens e conseguir dinheiro. Tinha visto algumas meninas da mesma idade fazer o mesmo, e rapidamente aprendi como levar uma vida na prostituição. Algum tempo depois, arranjei um namorado que quis me ajudar e tentou conseguir emprego pra mim. Por sinal, não muito recomendável, num ambiente de gente de má fama. Fiquei junto com este rapaz por alguns anos, viajamos e fomos morar no Rio de Janeiro, vivendo lá a vida que Deus nos desse.

- E aí, se realizou com o rapaz?

- Que nada, era um embusteiro. Mesmo assim ainda convivi com ele uns 5 ou 6 anos. Não tivemos filhos, pois nos ensinaram a sempre “dar um jeito”. Sozinha no mundo passei a frequentar diversos ambientes para sobreviver, tendo ido uma vez aos estudos de uma TV para aprender a ser artista. Mas, nada consegui: eles exigiam curso de artes dramáticas, e eu nada disso tinha. Naquele ambiente onde morava, a única coisa que aprendi foi o uso de drogas e prostituição. Era comum ser seviciada e estuprada, pois convivia com gente da pior classe. Às vezes tinha saudades das famílias onde morei quando criança, mas não tinha coragem de voltar. Estive doente, fui internada num hospital para tratamento de drogados, mas nunca fui presa por motivo algum. Finalmente, na minha velhice, com a saúde tão abalada, sozinha no mundo, sem conseguir amparo de ninguém, sem família, sem marido ou filhos, consigo manter-me apenas como catadora de lixos. Recolho o que é útil daquilo que as pessoas jogam fora e tento vendê-lo. Sempre acho compradores.

- Tudo isto porque contou um segredo. Que segredo era este, posso saber?

- Era sobre um boneca...

Dona Chica começou a chorar e, soluçando, quase não falava.

- Uma boneca?

- Sim, uma boneca muito bonita que era de minha mãe adotiva. Ela a havia roubado de uma amiga, vizinha nossa, e nada disso eu o sabia. Havia possuído uma outra igual que se desmanchara num incêndio e, para manter a lembrança de algo que ela achava de tanto valor, roubou a da vizinha e a mantinha bem escondida. Dizia que a boneca, por ter sido tão importante, não se encontrava semelhante à venda em nenhuma loja.

- E a senhora teve a coragem de contar isso à vizinha?

-Foi sem querer. Eu vi uma foto, e disse: a mamãe tem uma boneca igual a essa da foto. Foi o bastante para a vizinha desconfiar, investigar e descobrir a verdade. Daí surgiu brigas o desfazimento da amizade das duas. E quem pagou mais caro foi eu...

- Ah, quer dizer que, por causa de uma simples boneca a senhora caiu no desamparo...

- Esta era a razão pela qual eu estava brincando com aquela boneca quando o senhor me encontrou. Não iria vendê-la, mas ficar com ela para matar saudades de meu tempo de infância. Relembrava todo o meu passado, embora cheio de amarguras, mas também de doçuras.

- Que havia de doçura na sua vida?

- Acho que nunca fui tão feliz senão quando morei com minha mãe adotiva. Naquele tempo eu ainda tinha inocência, e só é feliz quem se conserva inocente. Quando perdi a inocência, e depois a pureza, nasceu dentro de mim um verdadeiro inferno.

O sargento manda parar o carro, e virando-se para o cabo, pergunta:

- Que acha disso, Jorge?

- Não sei; eu também sou muito humano, mas não entendo como uma pessoa desta idade ainda queira brincar com bonecas. Mesmo se tratando de dona Chica.

- Olhem, meus caros, – responde a velha – eu não quero mais esta boneca. As recordações que ela me trouxe já me fez um pouco feliz durante o dia, mas também deixou-me bastante triste. O sargento não quer levá-la e dá-la a alguém?

- E se sua história for um embuste e aparecer alguém, verdadeiro dono da boneca, lá na delegacia?

- Dê-lhe, então.

- Não. A boneca é sua. Se for verdade o que disse, a terá merecido, pois noto que ainda resta um pouco de bondade na senhora. Se for mentira, eu saberei como encontrá-la e puni-la por querer nos enganar. Aliás, tenho convicção interior de que a senhora foi sincera conosco.  Admiro que em pessoas como a senhora ainda haja algum resquício de bondade e, sobretudo, de honestidade, virtudes muito raras nos dias atuais. Continue, dona Chica, seja sempre honesta, cate seus lixos para viver se não encontra outra atividade mais humana, mais nobre, mas nunca se desvie deste caminho. Desejo que o seu Natal, neste ano, seja o mais feliz de sua vida”.

Laura já dormia no colo do pai, mas Fabiana ainda estava atenta e perguntou contrafeita:

- Mas, papai, porque não trouxe a boneca pra mim?

- Não, minha filha, dona Chica precisava mais dela. Aquela velhinha necessitava ter um pouco de alegria, o que ela supõe ser a verdadeira felicidade. Notei que ela não estava mentindo, e depois constatamos que o telefonema realmente foi de alguém que queria se apossar da boneca caída do caminhão, que era de certo valor. Constatamos que houve realmente a queda do pacote de bonecas de um caminhão de cargas, o motorista nada viu, e várias pessoas apanharam a carga na estrada, dentre elas dona Chica.

- O senhor disse que dona Chica é bondosa: é verdade?

- Não completamente, mas algo de bondade ela ainda tem. Por ela se vê quantas histórias semelhantes e brutalmente desumanas ocorrem no mundo de hoje, tão materialista, tão egoísta. Não há mais candura, inocência, castidade, honestidade, e as pessoas levam uma vida materialista que parecem estar no supra-sumo da felicidade e do gozo, mas, no fim, é tudo falso. Um dia, como aconteceu com os pais adotivos de dona Chica, se descobre que em vez de bondade estas pessoas praticam uma autêntica maldade escondida.

- O que uma criança deve fazer para ser bondosa?

- Veja o exemplo do Menino Jesus, que adoramos no Natal. Inocência, pureza, candura. É a bondade inicial de todo ser humano, mas no Menino Jesus estas virtudes estavam como uma fonte para toda a humanidade. Se a pessoa conseguir manter-se em toda a vida, não tanto inocente no sentido de ignorante, mas no sentido de pureza, sem maldade, casta, com integridade de caráter, poderá ser uma pessoa boa até o fim da vida. Dona Chica vivia numa casa, com dos pais adotivos, em que a alegria era falsa. Tinha conforto material, mas não haviam virtudes sendo praticadas, nem caráter sendo aperfeiçoado, nem se praticavam bons costumes. Sua própria mãe adotiva era uma ladra sem escrúpulos. Talvez se dona Chica tivesse sido criada toda a sua vida pelos seus pais verdadeiros, embora numa situação de extrema pobreza, não tivesse se transformado e aprendido tanta maldade.

- Então ela se tornou uma pessoa má?

- Não, completamente; apenas aprendeu algumas coisas erradas convivendo com gente ruim, mas sempre guardando algo de bom dos tempos de criança.

- O senhor acha que neste Natal dona Chica aprendeu o que é bondade?

- Algo da bondade ela deve ter aprendido, como, por exemplo, viver resignadamente, na solidão, sem amparo de criatura alguma, procurando corrigir-se de seus defeitos ou seus erros do passado. Vamos rezar por ela, para que o Menino Jesus neste Natal lhe dê paz de espírito e a ajude na desesperança desta vida que leva.

Os sinos das igrejas tocavam pausadamente e ritmicamente; Dona Marieta trazia algumas bandejas com salgados, doces e outros quitutes. A mesa regiamente enfeitada fazia contraste com um singelo presépio colocado num canto da sala. A pequena família preparava-se para rezar suas orações, quando Laura acordou-se meio atordoada, perguntando:

- Mamãe, a senhora é minha mãe verdadeira?

Ao lado dos risos gerais veio a resposta sonora de dona Marieta:

- Mas, claro! Por que faz esta pergunta?

- Porque a senhora disse, há poucos instantes, que eu não pedisse uma boneca a São Nicolau...

- Ora, minha filha, não seja tolinha. São Nicolau já trouxe muitas bonecas para você, e mesmo que eu não fosse sua mãe de verdade eu lhe pediria que lhe desse mais bonecas, pois eu amo você como uma mãe deve amar sua filha, isto é, desinteressadamente. Lembre-se: o mais importante no Natal não são os presentes que ganhamos, mas o que podemos oferecer de bom ao Menino Jesus. Basta que você prometa ser tão pura e inocente como Ele foi, a fim de que um dia vá Lhe fazer companhia no Céu. E agora, vamos rezar para que possamos tomar a santa ceia de nosso Natal...

 

(Extraído de “CHOQUE DE MENTALIDADES, trabalho ainda inédito de minha autora, onde consta vários pequenos contos em que se mostra a prática de virtudes em choque com os maus costumes e vícios sociais atuais)