segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - I

 



“A respeito da segunda vinda, a do Juízo, devemos considerar separadamente alguns fatos que se produzirão antes do que ocorra, e outros que a acompanharão.

Três tipos de coisas acontecerão no Juízo: sinais terroríficos, imposturas do Anticristo e incêndios espantosos.

Cinco serão os sinais terroríficos que precederão à vinda do Juiz. São Lucas os menciona no capítulo 21 de seu Evangelho:

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, as gentes se consternarão com o rugido do mar e o bramido das ondas.

 

1.  Os cinco primeiros sinais que precederão o Juízo Final

 

Os três primeiros sinais estão descritos no Apocalipse. No capítulo 6 lemos:

O sol se tornará negro como o surrão de pelo de cabra; a lua parecerá feita de sangue e as estrelas se despencarão sobre a terra.

Se disse que o sol se obscurecerá, porque desaparecerá sua luminosidade, como se quisesse chorar a morte do pai de família, o homem, ou bem porque sua  luz ficará anulada pelo resplendor de outra superior: a que irradiará de Jesus Cristo. Disse Santo Agostinho que também poderia tratar-se de metáfora com que se pretendesse significar que a vingança divina se mostrará tão rigorosa que o mesmo sol, assustado, se esconderá;  ou de uma expressão literária de caráter místico, para dar-nos a entender que Cristo, Sol de justiça, se ocultará, no sentido de que ninguém se atreverá a confiar nEle, e para o caso é como se desaparecesse.

O céu que aqui se fala é o dos ares. Por estrelas devem entender-se os astros, esses corpos celestes que têm forma estelar. Quando se disse que despencarão se trata de expressar a idéia de que cairão, tal como a gente correntemente entende o de cair: descendo, como descem das alturas os corpos pesados. A Escritura, geralmente, se atém a nossas próprias expressões e usa as que nós usamos.

A impressão que tudo produzirá será enorme, devido, principalmente, a que a natureza destas estrelas é constituída por fogo. Se o Senhor determinou  que as coisas ocorram assim é porque pretende despertar nos pecadores sensações de terror.

 O da queda das estrelas poderia significar também algumas destas três coisas:  ou que ao saracotear-se deixarão atrás de si longas caudas, como as dos cometas; ou que muitos dos que na Igreja pareciam brilhar cairão dos pedestais de sua fama; ou que a reputação de que gozavam ficará reduzida a nada.

Sobre o quarto sinal, que consistirá na consternação das gentes, diz a Escritura: “Haverá uma tribulação como nunca houve desde o começo do mundo,”  etc (Mateus, 24).

A respeito do quinto sinal, o do rugido do mar e bramido das ondas, opinam alguns que desaparecerão os oceanos em meio de um grande estrépito, baseando-se nesta afirmação do capítulo 21 do Apocalipse: “Já não existirá o mar”.  Outros supõem que se tratará de um feroz rugido produzido pelas águas ao elevar-se quarenta codos sobre a crista das montanhas para descer seguidamente e precipitar-se no abismo. São Gregório, baseando-se neste texto, “então ocorreu uma perpetuação nova e inaudita do mar e das ondas”, entende que este quinto sinal deve interpretar-se literalmente.   

 

2. Quinze sinais que precederão o Juízo, conforme os hebreus

 

São Jerônimo achou nos “Anais dos Hebreus” uma relação de até quinze sinais que precederão ao Juízo, embora não nos diga se esses quinze sinais haverão de aparecer imediatamente um após o outro, ou separados entre si por intervalos de tempo.

Eis aqui a relação dos quinze sinais:

No primeiro dia o mar se levantará quarenta codos por cima das montanhas e formará como um muro ao redor delas.

No segundo dia descerá até fazer-se invisível.

No terceiro dia, a superfície da água aparecerá coberta de bestas marinhas bramindo tão estrepitosamente que o fragor de seus rugidos chegará até o céu; porém só Deus entenderá o sentido de seu imponente alvoroço.

No quarto, as águas do oceano entrarão em ebulição.

No quinto, toda a vegetação da terra, todas as árvores e todas as ervas se cobrirão de orvalho sanguinolento e, segundo alguns, todas as aves do céu se congregarão e formarão manadas ingentes, reuindo-se em cada uma delas as da mesma espécie e se negarão a comer e beber e permanecerão aterradas, esperando a chegada do Juíz.

No sexto dia, todos os edifícios se desmoronarão, enquanto uma sarabanda de chispas e raios percorrerá o espaço do poente ao nascente sulcando o alto do firmamento.

No sétimo, umas pedras se chocarão com outras; cada uma delas se partirá em quatro pedaços; os fragmentos entrarão em colisão e ao chocar-se entre si produzirão espantosos trovões cujo significado, oculto ao homem, só Deus será capaz de interpretar.

No oitavo dia, haverá um terremoto geral, tão espantoso que pessoas e animais perderão o equilíbrio e rolarão por terra.

No nono, montanhas e colinas se reduzirão a pó e a terra ficará nivelada.

No décimo dia, os homens sairão das cavernas em que se haviam refugiado e vagarão como loucos, sem falar-se entre si, mudos de estupor.

No décimo primeiro, à saída do sol, se abrirão todos os sepulcros para que os mortos possam sair deles; sairão as ossadas e permanecerão imóveis à beira de suas respectivas covas até a chegada da noite.

No décimo segundo dia se despencarão as estrelas: todos os astros, tanto os fixos quanto os errantes, deixarão atrás de si longas caudas de fogo, e do interior de sua substância brotarão outros corpos siderais. Se diz também que neste dia todos os animais se congregarão no campo, rugindo e bramindo, sem comer nem beber.

No décimo terceiro, os seres humanos que estiverem todavia vivos morrerão, para ressuscitar depois com os demais mortos.

No dia décimo quarto arderão a terra e o céu.

No décimo quinto dia surgirão uma terra e um céu novos e tornarãoà vida todos os defuntos.

 

3. Quatro maneiras como o Anticristo tentará enganar

 

O segundo fato que precederá ao Juízo será o domínio das falácias do Anticristo, que se esforçará para enganar a todos, de quatro maneiras.

Primeira. Tratando habilmente de propagar uma falsa interpretação das Escrituras; desse modo persuadirá ao povo de que ele é o messias prometido, logrará a destruição da Lei de Cristo e implementará a sua. A Glosa comentando estas palavras do salmista: “institui, Senhor, um legislador sobre eles”., diz que esse legislador é o Anticristo, e explica estas outras do capítulo 11 de Daniel, “introduzirão no templo a abominação e desolação”, da seguinte maneira:  o Anticristo se apossará do templo como se fosse uma dinvidade e abolirá a Lei do verdadeiro Deus.

Segunda. Conseguindo enganar a muitos com suas obras malignas. Com efeito, na Segunda carta aos Tessalonicenses, capítulo segundo, versículo 9, lemos: “Se apresentará assistido pelo poder de Satanás e falará palavras mentirosas e fará sinais e prodígios enganosos”.  No Apocalipse (13,13), se diz: “Fará sinais tais como fazer descer do céu fogo sobre a terra”.   A Glosa comenta esta passagem desta maneira:  “Do mesmo modo que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em forma de fogo, assim os sequazes do Anticristo infundirão o espírito do mal em forma de fogo sobre as gentes.

Terceira. Semeando a confusão, valendo-se da abundância de seus dons, como adverte a Escritura: “Lhes concederá poder sobre muitos elementos, e dividirá a terra gratuitamente” (Daniel 11, 39), texto que a Glosa assim comenta: “O Anticristo distribuirá vultosos dons entre seus enganados prosélitos e dividirá a terra entre as hostes que lhe sigam”;  e, com efeito, isto fará: explorará a avareza e subjugará por esse procedimento aos que não possa submeter pelas vias do temor.

Quarta. Procurando-se sequazes na base do terror. Daniel afirma que produzirá uma incrível devastação. São Gregório, falando do Anticristo, escreve: “Dotado de força corporal para vencer aos que nunca haviam sido vencidos, poderá inclusive causar a morte aos mais robustos”.

 

4. O fogo que descerá do céu e sua finalidade

 

O  terceiro sinal precursor do Juízo consistirá na veemência do fogo, que aparecerá antes do aparecimento do Juiz.  Este fogo será enviado por Deus com estas quatro finalidades:

Primeira. Para renovar o mundo. Por este procedimento purificará e renovará todos os elementos. Se elevarão suas chamas quinze codos por cima das mais altas montanhas, como ocorreu com as águas do dilúvio. A “História Eclesiástica” assegura que jamais edifício humano alcançará a altura que terão as chamas desse fogo.

Segunda. Para purificar os homens; porque servirá de purgatório aos que então estiverem vivos.

Terceira. Para aumentar o tormento dos condenados.

Quarta. Para iluminar mais intensamente aos santos. Segundo São Basílio, enquanto o mundo seja purificado Deus separará a luz do calor, e enviará a totalidade do fogo à região dos condenados para incrementar seu tormento, e a totalidade da luz à região dos bem-aventurados para aumentar sua glória.

 

5. Circunstâncias especiais que acompanharão o Juízo

 

Eis aqui algumas das várias circunstâncias que rodearão ao Juízo:

Primeira. A vista da causa. O Juiz se apresentará no Vale de Josafá e julgará tanto aos bons quanto aos maus. Os bons colocá-los-á à sua direita e os maus à sua esquerda. Provavelmente Ele se situará num lugar alto para que possa ser visto por todos. Não é necessário crer que toda a humanidade vá caber na pequena área do referido vale. São Jerônimo adverte que essa crença seria pueril. Na superfície desse vale estarão os que caibam; o resto se situará em lugares adjacentes. Advertimos, sem embargo, que numa zona determinada de terreno cabem muitos milhões de pessoas, sobretudo se estão apinhadas. Ademais, se fosse necessário, os bem-aventurados, devido à agilidade de que já gozarão seus corpos, poderão ficar suspensos, como flutuando no ar. Inclusive os condenados poderiam, por concessão de Deus, suspender-se, sem gravidade, a certa altura no espaço. O Juiz começará o seu ofício julgando os maus, recriminando-lhes por não haver cumprido as obras de misericórdia. Eles prorromperão em prantos. São Crisóstomo comentando a correspondente passagem de S. Mateus, escreve:

“Chorarão sobre si os judeus, ao ver vivo e vivificador a quem creram homem definitivamente morto; ante o testemunho de seu corpo com as credenciais de suas chagas, não poderão negar o crime que cometeram.

Também chorarão sobre si os gentios, que enganados por falsas filosofias estimaram irracional e ingênuo dar culto a um Deus crucificado.

Chorarão sobre si os cristãos pecadores por haver amado ao mundo mais que a Cristo.

Chorarão sobre si os hereges ao dar-se conta de que esse Juiz que os está julgando é aquele a quem os judeus tanto fizeram sofrer, e lamentarão não haver visto eles nEle mais que a um mero homem crucificado.

Chorarão sobre si mesmas todas as tribos da terra ao advertir que já não têm forças para seguir opondo-se a Ele, nem possibilidade de fugir de seu olhar, nem oportunidade de fazer penitência, nem tempo para emendar seus passados erros.

Tudo será angústia na zona dos maus; para eles não haverá mais do que já eterno conflito”.

Segunda.  As diferenças quanto ao modo de ser uns e outros julgados.  Sobre isto escreve São Gregório:

“Quatro procedimentos diferentes se seguirão neste Juízo: dois para os réprobos e  dois para os eleitos. Quanto aos primeiros, alguns deles serão recriminados na consabida e dita maneira: ‘Tive fome e não me destes de comer’;  em troca, outros não serão expressamente interpelados, mas sim condenados.  “Todo o que crê”, diz a Escritura, “já está julgado”.  Isto significa que aqueles que não quiseram receber a Fé, nem escutar uma só palavra da doutrina de Jesus Cristo tampouco ouvirão nesta ocasião a interpelação do Juiz.

Pelo que toca aos eleitos, os mais perfeitos sim serão julgados, reinarão, e inclusive julgarão aos demais, não pronunciando sentenças, que isto compete exclusivamente ao Juiz, senão assistindo-lhe no ato judicial. Serão distinguidos com esta honra por várias razões: Em primeiro lugar, para sua própria honra: grande distinção supõe para os santos sentar-se no Tribunal com o Juiz, conforme a promessa de Cristo: “Os sentarei no trono para julgar, etc.”   (Mateus 5, 9).

Em segundo lugar para que colaborem na confirmação da verdade: porque eles referendarão a sentença do Juiz de modo semelhante aos que acompanham aos juízes da terra nos tribunais de justiça referendando e corroborando com sua assinatura a sentenças que estes emitam. Daí as palavras do salmista: “Assinarão com eles a ata do Juízo” (Salmo 149). Em terceiro lugar para que intervenham na condenação dos malvados, mostrando o testemunho de sua própria vida frente à conduta depravada dos réprobos”.

Terceira. A ostentação das insígnias da Paixão: a Cruz, os cravos e as chagas do corpo de Cristo. Com a apresentação destes sinais se pretende:

a) Dar testemunho da soberana vitória do Redentor, fazendo que todos vejam estas insígnias envoltas em gloriosos esplendores. “A Cruz e as chagas do Salvador brilharão mais que os raios do sol”, diz São Crisóstomo, comentando São Mateus. Se se tem em conta que então o sol estará obscurecido e a luz apagada, se compreenderá como a Cruz sobrepujará em claridade à lua e em resplendores ao sol.

b) Manifestar a divina misericórdia e deixar claro que por ela, benignamente, os justos obtiveram sua salvação.

c) Deixar constância da justiça de Deus e certificar quão justissimamente os réprobos incorreram em condenação por haver menosprezado o valor do sangue de Cristo. São Crisóstomo, comentando S. Mateus, põe na boca do Juiz estas censuras dirigidas aos malvados:

“Por vós me fiz homem e fui manietado, escarnecido, torturado e crucificado. Qual tem sido o fruto de injustiças que contra mim se perpetraram e das injúrias de que fui objeto? Eis aqui o preço do sangue que derramei para redimi-lo. Que me haveis dado vós em troca deste sangue de valor infinito? Os preferi à minha glória, posto que sendo Deus me fiz homem, e como homem vivi a vosso lado; vós não obstante me concedestes menos importância que a mais trivial coisa e prestastes mais atenção a qualquer das bagatelas da terra que a minha doutrina e a minha lei”.   Até aqui São Crisóstomo.

Quarta. A quarta circunstância que rodeará à celebração do Juízo é a severidade do Juiz, que é, diz São Crisóstomo, “Todo-Poderoso e invencível e impermeável a qualquer temor; não há força que possa resistir ante Ele; ninguém poderá escapar, etc;  é riquíssimo e insubornável”.  São Bernardo escreve:

“Virá o dia em que os corações puros valerão mais que as mais arranjadas desculpas, e as boas consciências sobrepujarão em valor as bolsas repletas de dinheiro. Este Juiz não se deixará abrandar nem pelas palavras nem pelas dádivas”.

“Chegará o esperado Juízo, lemos em Santo Agostinho, e comparecerá o justíssimo Juiz que não faz acepção de pessoas, por importantes que sejam, e mantém o palácio de sua justiça totalmente fechado e não o abrirá por muito que tratem de suborná-lo com dádivas de ouro ou prata bispos, abades ou condes”.  Nem atuará influenciado pelo ódio, porque é a suma bondade e na suma bondade o ódio não tem cabimento.

“Não tens aborrecido jamais nada de quanto fizeste”, se diz no capítulo 11 do Livro da Sabedoria. Nem se deixará se enternecer pelo amor, porque é justíssimo e não fará exceções nem sequer com os falsos cristãos que algum tempo foram seus irmãos. Já o diz o salmista: “O irmão não redimirá...etc”.  Nem cometerá erros, porque é sapientíssimo.

“Seu olhar”, escreve o Papa São Leão, é impressionante.  Ante ele, o compacto se torna transparente; o oculto, manifesto; o luminoso obscuro e os mudos se tornam loquazes; em sua presença até o silêncio fala e a mente, sem necessidade de vocábulos, declara seus pensamentos. Sendo, pois, tal sua sabedoria e tanta, de nada valerão frente a ela nem os discursos dos advogados nem os sofismas dos filósofos nem a brilhante eloqüência dos oradores nem a habilidade dos mais astutos e sagazes”.

Em relação com isto, diz São Jerônimo:

“Quantos mudos, em semelhante ocasião, se sentirão mais ditosos que muitos que foram expeditos conversadores! Quantos pastores mais felizes que os filósofos! Quantos rústicos mais alegres que os oradores e quantos ignorantes se mostrarão mais alegres que se houvessem tido a eloqüência de Cícero!”

Quinta circunstância.  É horrenda. Constituem-na os acusadores do pecador, que serão três: o diabo, a própria consciência e o mundo inteiro.  Primeiramente atuará o diabo, que segundo Santo Agostinho “com suma dilig6encia nos recordará as palavras de nossa profissão e frente a elas fará desfilar tudo o que temos obrado, o lugar e a hora em que pecamos e o que deveríamos ter feito em vez do que realmente fizemos. Nosso inimigo dirá:  Justíssimo Juíz, reconhecei que este homem me pertence posto que é culpável. Era teu por natureza, e teu deveria haver sido pela graça, mas é meu por sua desagradável conduta; verdade que o ganhaste por tua Paixão, porém eu te arrebatei com minhas persuações;  a Ti te desobedeceu por obedecer-me a mim; de Ti recebeu uma estola de imortalidade, porém a tirou para colocar esta túnica andrajosa que leva; despojou-se da vestidura que Tu lhe regalaste e cobriu-se com a que eu lhe entreguei; com ela vem para mim. Justíssimo Juiz, reconhece que deve ser condenado e ir-se comigo para o inferno.

Poderá abrir a boca para defender-se quem entenda que toda justiça merece ser companheiro do diabo?”   Até aqui Santo Agostinho.

Como segundo acusador atuará a própria consciência através das vozes dos correspondentes pecados. O afirma o Livro da Sabedoria no capítulo 4:

“Tremerão ao recordar suas culpas; suas iniqüidades se voltarão contra eles, acusando-os”.

“Todas suas obras”, comenta São Bernardo, “falarão ao mesmo tempo e dirão ao pecador: Tu nos tens feito; coisa tua somos; não te abandonaremos; permaneceremos sempre junto a ti; contigo estaremos quando fores julgado”.   Essas obras acusarão ao pecador de muitos e de diversas más ações.

O terceiro acusador será o mundo inteiro. “Se perguntas”, escreve São Gregório, “quem te acusará, responder-te-ei; todo o mundo;  porque quem ofende ao Criador, ao mundo em sua totalidade ofende”.  Em seu comentário sobre São Mateus, diz São Crisóstomo:

“Nada teremos que responder naquele dia, quando o céu, a água, o sol, a lua, os dias, as noite e todo o universo levante sua vós contra nós denunciando ante Deus nossos delitos; porém mesmo que todas as coisas calassem, não calarão ante o Senhor contra nós e darão testemunho de nossos pecados”.

Sexta circunstância.  As testemunhas que deporão contra o pecador. Serão três: Um que está por cima dele, que é Deus, que ainda que atue como Juiz atuará também como testemunha. “Eu Sou Juiz e testemunha”,  disse o Senhor (Jeremias 29). Outro que está dentro do próprio pecador e é sua consciência. Se temes ao Juiz que há de te julgar, conforma desde agora mesmo devidamente tua consciência, porque quando se julgue tua causa será chamada a declarar. O outro está situado ao lado do pecador e é seu Anjo da Guarda, conhecedor de quanto seu pupilo tem feito. Também ele aduzirá um testemunho desfavorável. Assim o assegura Jó no capítulo 20 de seu Livro: “Os céus, quer dizer, os anjos, descerrarão o véu e deixarão à vista as iniqüidades que fiz”.

Sétima circunstância. A acusação propriamente tal contra o pecador. Vejamos este texto de São Gregório:

“Oh, em que difícil transe acha-se então o pecador! Sobre ele, um Juiz irado; debaixo, um caos horroroso; à sua direita, acusando-lhe, seus pecados; à sua esquerda, uma plêiade de demônios preparando-se para levar-lhe aos suplício; dentro de si, sua consciência queimando-lhe as entranhas, e fora, o mundo inteiro excitado contra ele.

Oh, pecador miserável, colhido por todos os lados! Por onde poderás escapar? Conseguirás ocultar-te? Não; isso é impossível; visível permanecerás ainda que isso te resulte intolerável”.

Oitava Circunstância.  A irrevogabilidade da sentença, que não poderá nem ser modificada nem discutida nem apelada. Por três motivos uma sentença das emitidas pelos tribunais de justiça pode resultar inapelável: Primeiro: Quando for ditada por um juiz supremo. Por isso são inapeláveis os veredictos emitidos por um rei quando atua como juiz soberano em seu reino, porque em todo o território submetido à sua jurisdição não há ninguém superior a ele. Pela mesma razão são também inapeláveis as sentenças pronunciadas pelos imperadores e pelos papas. Segundo: Quando o delito que se julga foi suficientemente provado. Contra um crime notório não cabe recurso algum.  Terceiro: Quando a demora da aplicação da sentença acarretaria graves prejuízos. No caso do juízo do pecador a apelação é impossível, não já meramente por algum destes motivos, senão por todos eles. O juiz que emite o veredicto é absolutamente soberano e eterno em dignidade e poder; ninguém há sobre Ele nem o haverá nunca; os imperadores e papas estão debaixo dEle. Da sentença de um imperador ou de um Papa cabe apelar ante o tribunal de Deus. Da sentença dada por Deus não se pode apelar ante o tribunal de ninguém, porque ninguém há nem haverá superior a Ele.  Todos os delitos e iniqüidades dos réprobos ficarão postos de manifesto no juízo de que falamos, como disse Jeremias:

“Chegará o dia em que nossas obras ficarão tão patentes como se as houvéssemos pintado num quadro”.

O veredicto, finalmente, se executará sem demora, naquele mesmo instante, com a rapidez de um abrir e fechar de olhos”.[1]



[1]              Legenda Dourada”, versão espanhola, Editora Alianza Forma, páginas 25/29, volume 2


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