DAS COISAS IMPORTANTES QUE HÃO DE OCORRER NO JUÍZO FINAL: A CONFLAGRAÇÃO DO FOGO, A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS, A PENA INFERNAL E A GLÓRIA DO PARAÍSO
1. Sobre a conflagração do fogo
O que foi dito se entenderá pelo raciocínio que
segue: como o Princípio universal das coisas seja sapientíssimo, se em tudo
quanto faz visa a ordem da sabedoria , muito principalmente deve visá-lo no que
se refere à consumação das coisas, para que assim não haja discordância no
princípio e meio, nem entre o meio e o fim, senão que, na ordenação de tudo resplandeça a sabedoria ordenadora, e
a bondade, e a grandeza do dito primeiro Princípio. E pois Deus, segundo sua
sabedoria ordenadíssima, fez todo este mundo sensível e grande pelo mundo
pequeno, que é o homem, posto no meio entre Deus e estas coisas inferiores;
para que haja correspondência em tudo e haja harmonia entre a morada e o que
mora nela, assentado o homem no bem, deveu também estabelecer-se esse outro
mundo em estado de bem e de paz; caindo o homem, deveu também o mundo segui-lo,
desordenando-se o homem, o resto também se alterará; purificado o homem, o
mundo também deverá purificar-se; renovado o homem, também se renovará, e
consumado o homem, também se consumirá.
E em primeiro lugar, já que desregrando-se o homem
deve desregrar-se o mundo, assim como este se manteve em ordem enquanto aquele
se mantinha também, e decaiu de certo modo quando aquele decaía, é também
necessário que, no juízo que há de sobrevir, para ostentação da severidade do
juiz, os corações, sobretudo dos pecadores, que menosprezaram ao Senhor do
mundo, se encham de terror, para que assim toda a criação experimente em si o
zelo divino e se conforme ao autor ao mesmo tempo que se conforma ao morador; e
necessário, digo, que os alicerces do mundo se comovam de maneira
horribilíssima. E porque nada por
sua atividade comove dos outros elementos mais intensa, e pronta, e
horrivelmente que o fogo, que o investe por todas as partes, é necessário que à
aparição do Juiz preceda o fogo, não só por um mas por todos os lados do mundo;
de sorte que haja concurso do fogo elementar e do terrestre; do fogo do
purgatório e do inferno, para que por este fogo do inferno ardam os réprobos,
pelo do purgatório se purifiquem os justos, pelo terrestre se consuma quanto da
terra provenha, pelo elementar se adelgacem e se disponham os elementos para o
aspecto que hão de apresentar ao renovar-se e, junto com isto, todas as demais
coisas se perturbem também, a fim de que não somente os homens e os
demônios, senão até os anjos, vendo-o, se encham de terror.
Ademais, como o mundo deve purificar-se com o homem
submetido à purificação, e o homem viador no fim dos tempos necessita ser
lavado da sordidez da avareza e da malícia, como nos princípios do tempo das
fezes da luxúria, e necessita ser purificado não só pronta, senão também íntima
e perfeitamente, segue-se que, assim como o mundo foi antes destruído e em
certa maneira purificado pelo elemento da água, a qual é fria, em oposição ao
ardor e excremento da luxúria, assim o
mundo que fenece o será pelo fogo, por causa do esfriamento da caridade e do
gelo da malícia e da avareza, que reinariam no fim, por assim dizer, na velhice
do mundo. E entranhando-se muitíssimo estes vícios, é necessário que o que
há de tirá-los seja de eficácia íntima, violenta e pronta, condições que não se
vêem em nenhum outro elemento como o
fogo. E por isso, como se verificou no dilúvio pela inundação das águas,
assim a face sensível será arrasada pela ação do fogo.
Acrescente-se a isto que, devendo renovar-se o
mundo junto com o homem que se renova, e não sendo possível tomar nova forma
sem perder a anterior e dispor-se de algum modo revestida de uma disposição
nova, segue-se que, tendo o fogo em grau máximo virtude de expelir toda forma
estranha a si, e tendo também força para sutilizar com qualidades afins às dos
corpos celestes, por ele deve fazer-se a purificação junto com a inovação; de
sorte que, possuindo esta dupla eficácia, em parte deve preceder a vinda do
Juiz, em parte deve seguir-lhe. E como a inovação se ordena a um novo estado,
que já não voltará ao antigo, e, pelo mesmo,
a um novo estado de incorrupção, que, por certo, não está em mão de
criaturas o dá-lo, segue-se que se o fogo naquela purificação e inovação há de
fazer algo por sua própria virtude natural, como é inflamar, purificar,
encarecer e sutilizar, é, contudo, necessário que junto com esta virtude
natural haja outra virtude que opere
sobre a natureza, por cuja aplicação
terá principio a conflagração, da mesma forma que se completará com ela.
Por último, como queira que este mundo deve ser
consumado, consumado o homem, e então se diz consumar-se o homem quando se
completar na glória o número dos escolhidos, ao qual estado, por certo, tende
tudo como a fim último e completo, é necessário que, completando-se dito
número, terminem e se aquietem as perturbações dos corpos celestes e que, assim
mesmo, se acabem as transformações dos elementos e que, por conseguinte, cesse
a geração, que é própria dos animais e das plantas. Pois, ordenando-se tudo isto à natureza
nobilíssima, qual é a alma dotada de razão, fixado o fim nas almas, é
necessário que haja também fim e complemento em todas as demais coisas
supraditas. E assim os corpos celestes,
obtida a paz e a plenitude de luz, diz-se que são remunerados. Os elementos,
porém, que carecem já do poder de multiplicar-se por mútua transmutação, se diz
que perecem não certamente quanto à substância, mas quanto à atividade e
passividade da mútua influência, e, sobretudo, quanto às propriedades ativas.
Os vegetais e os dotados de sensibilidade, já que não têm capacidade de vida
perpétua e duração eterna, como convém ao estado de tanta nobreza, é necessário
que se consumam na própria natureza, porém de maneira que perdurem nos
princípios e em certo sentido no semelhante; isto é, no homem, que tem
semelhança com toda linhagem de criaturas e, pelo mesmo motivo, [pde dizer-se
que em sua inovação e glorificação são de alguma maneira inovadas e premiadas
todas as coisas.
2. Sobre a Ressurreição dos corpos
Se entenderá
isto pelo seguinte raciocínio: como o primeiro Princípio, por si mesmo que é
primeiro e sumo, é também universalíssimo e suficientíssimo, e por isto é a
origem das naturezas, das graças e dos prêmios; princípio, ademais,
poderosíssimo, clementíssimo e justíssimo, ainda que por certa apropriação seja
poderosíssimo na constituição das naturezas, e clementíssimo na doação das
graças, e justíssimo na retribuição das recompensas; cada um destes atributos,
contudo, tem sua parte em cada obra destas, como queira que o poder, a clemência
e a justiça de nenhuma maneira podem separar-se entre si. E, por isto, a retribuição é de rigor se faça
segundo o exige a retidão da justiça, e a reformação da graça, e a perfeição da
natureza. E pois a justiça reclama necessariamente que o homem, que mereceu ou
desmereceu não só na alma nem só no corpo, mas na alma e no corpo juntos, seja
castigado ou premiado em ambos; e a reformação da graça requer que o corpo todo inteiro se assemelhe a
Cristo, que é cabeça, cujo corpo morto, por estar unido inseparavelmente à
divindade, era necessário que ressuscitasse; e
a perfeição da natureza requer que o homem conste de corpo e alma
juntos, como de matéria e forma, que têm mútua inclinação e mútua necessidade;
por força se há de verificar a ressurreição, como queira que a reclamam assim a
constituição da natureza, a infusão da graça e a retribuição da justiça,
segundo os quais deve reger-se a totalidade das coisas. E assim, como por estas três bocas, tudo pede
a ressurreição do homem, a fim de tirar toda escusa àqueles que se fazem surdos
para não ouvir esta verdade da fé e justificar por que todo o universo luta
contra elas.
E primeiramente, porque a ressurreição há de ser
segundo exigências da ordem da justiça divina, e a justiça dá a cada um o seu,
conforme ao lugar e tempo, e toda alma, logo, ao unir-se com o corpo sequer por
um instante, tem nele ou culpa ou graça, é necessário que todos ressuscitem. E
porque o estado de retribuição deve ser distinto do de viadores, e a
ressurreição diz referência ao estado da retribuição, para que a ordem do mundo
não se perturbe e a fé, que crê o que não vê, tenha mérito, e para que se
manifeste mais certa e claramente a equidade da justiça divina, e ao mesmo
tempo tenha lugar a consumação e retribuição nos anjos e nos homens, requer
também a justiça divina que todos ressuscitem de uma só vez os que estiveram
sob a mesma lei geral. Digo isto por Cristo e por sua beatíssima Mãe, a
gloriosa Virgem Maria. E porque aos maus corresponde pena e miséria e aos bons glória, ainda ressuscitando juntamente,
atendido ao tempo, serão muito dessemelhantes na condição. Com efeito, sendo a
ressurreição nos maus não para a vida, mas para o suplício, é necessário que
ressuscitem com suas fraquezas, deformidades e defeitos.
Ademais, pois a ressurreição deve ser segundo as
exigências da consumação da graça, e a graça perfeita nos faz conformes a
Cristo, nossa cabeça, quem não teve defeito algum nos membros senão perfeita
idade e estatura proporcionada e semblante formoso, é conveniente que os bons
ressuscitem nas melhores condições, e, por isto, necessário também que se tirem
deles os defeitos, ressalvada, porém, a natureza. É também conveniente que se
faltava algum membro, se supra a falta; se havia alguma superficialidade, se
tire; se alguma desordem nos membros, se corrija; se alguém era párvulo, lhe
sejam dada por virtude divina a total da idade de Cristo, isto é, a que tinha
na ressurreição, bem que não igual na perfeição; se decrépito, se lhe retraia a
mesma idade; se gigante ou anão, que se
lhe acondicione a conveniente estatura, para que assim todos saiam íntegros e
perfeitos ao encontro, qual varões perfeitos, segundo a medida da idade de
Cristo.
Por último, devendo ser a ressurreição conforme às
exigências da perfeição e da natureza e exigindo a natureza da alma dotada de
razão que dê vida ao seu próprio corpo, já que “o ato próprio há de
verificar-se em matéria própria”, é necessário que ressuscite o mesmo corpo
numericamente; de outra maneira não seria ressurreição verdadeira. Exige também
a natureza da alma racional e imortal que, como é perfeita em seu ser, assim
tenha também corpo a quem comunicar a vida perpetuamente, e por isto o corpo
que se une à alma, pela mesma união está ordenado à incorrupção perpétua; de
tal maneira, sem embargo, que aquilo no que consiste a substância de todo o
corpo, como são os membros principais e o humor radical e a carne segundo a
espécie, está ordenado de maneira necessária; porém o demais, a saber: a carne
segundo a matéria e as partes que se referem à perfeição do corpo, se ordenam
por congruência; e assim as primeiras partes mencionadas se ordenam à
ressurreição segundo ordem de necessidade, enquanto as outras só segundo ordem
de congruência. E porque Deus imprimiu esta ordem à natureza e a natureza por
si não pode levá-la à perfeição, já que não lhe é dado ressuscitar o morto, e,
por outra parte, a mesma Providência divina nada houve de fazer debalde, é
necessário que por virtude desta se
restabeleça o mesmo corpo atendido o número, imortal e formado de todas as
partes, salvo, ademais, de tudo a identidade da natureza. E como isto não é
atribuição, mas só propensão da natureza, porque se pode restabelecer
numericamente o mesmo corpo já destruído, por não alcançar seu poder à
substância toda inteira; nem pode haver um corpo imortal, por ser corruptível
enquanto procede da geração natural; nem pode reunir o que está esparramado, é
necessário que a ressurreição se atribua não a causas seminais nem naturais,
mas às primeiras, de maneira que se verifique conforme a um processo
maravilhoso e sobrenatural segundo a ordenação da vontade divina.
3. Sobre o que seguirá após o Juízo Universal
Com relação à pena infernal há de saber isto: a
pena infernal se verifica num lugar material situado debaixo da terra, no qual
serão atormentados eternamente todos os réprobos, tanto homens como espíritos
malignos. E serão atormentados por
um mesmo fogo material, que abrasará e afligirá espíritos e corpos – sem
consumir, contudo, os corpos, apesar de os atormentar sempre – a uns mais, a
outros menos, conforme o tenham merecido. E com este tormento do fogo terão
também seu tormento todos os demais sentidos, e se acrescentará a pena do verme
e a privação da vista de Deus, de maneira que nessas penas haverá variedade, e
junto com a variedade haverá acerbidade, e junto com a acerbidade haverá
interminabilidade, a fim de que se verifique para suplício dos réprobos, que “o
fumo dos tormentos deles subirá pelos séculos dos séculos”.
Para entender isto observe-se que sendo sumo o
primeiro Princípio, pelo fato do mesmo ser primeiro, enquanto possui o possui
em proporção suma, pelo qual é necessário que seja retíssimo. E porque no
retribuir se conduz conforme a retidão, como não pode operar contra si, não
pode tampouco negar-se a si mesmo nem transgredir sua justiça ; e assim, por
exigi-lo sua retidão, é necessário, de toda necessidade, que se castigue o
pecado segundo a grandeza da culpa, sobretudo naqueles que, menosprezando a lei
da misericórdia, investiram, pela impenitência,
contra a severidade da justiça. E porque compete à severidade da justiça
olhar a culpa não somente quanto ao fundamento, mas também quanto às
circunstâncias agravantes, é muito conveniente que o justo Juiz exija dos
ímpios as penas devidas até o último oitavo, e assim não fique “a desonra do
pecado com míngua da honra devida à justiça”;
e segundo é manifesto o poder na criação, e a sabedoria no governo, e a
bondade na reparação, se manifeste assim a suma justiça no castigo. Desta forma, a justiça divina deve castigar
ao ímpio segundo merece a culpa, e a culpa mortal, à que segue a impenitência
final, tem em si razão da perdição eterna, perdição deleitosa e perdição
multiforme, é necessário que a culpa seja castigada com eternidade, acerbidade
e multiformidade de penas.
Em primeiro lugar, pois, a pena da perdição eterna
deve ser perpétua porque o pecado que um comete, e do qual nunca se arrepende,
dura perpetuamente na alma e a separa da vida eterna, isto é, de Deus, e
procede da vontade que desejava deleitar-se no pecado eternamente. E mesmo que
o deleite que passa seja momentâneo, tendo a perdição razão de perpetuidade, a
pena correspondente à perdição não deve ter fim, para que, como o homem em seu
querer perpétuo não determinou fim para apartar-se do pecado, tampouco desista
Deus no seu querer perpétuo de castigar; e porque pecou contra o Infinito,
tenha pena infinita, e pois não é capaz de pena infinita em intensidade, a
tenha ao menos em duração; e como sua vontade, depois da morte, permanece
aderida para sempre ao mal, sem admitir penitência, assim Deus castigue para
sempre sem mudar a sentença, segundo o pede a perpetuidade da perdição nos
ímpios condenados.
Em segundo lugar porque a pena da perdição
deleitosa deve ser aflitiva, posto que o deleite se castiga com seu contrário,
a tristeza, e a alma dotada de razão, ao pecar se volta ao bem que lhe é
próprio e que se lhe apresenta como bem digno de amor atual e deleitosa, e por
isto menospreza o querer e a soberania de Deus, segue-se que para perfeito
castigo de semelhante deleite malvado, em que se juntam de uma vez o deleite e
o menosprezo, seja necessário que em castigo do menosprezo e do deleite, o
pecador, homem ou espírito, seja precipitado no lugar mais baixo e mais
afastado do estado da glória, isto é, nas profundezas do inferno. E necessário que também se lhe exponha a ser
atormentado ali pelo ser mais baixo, e assim não padeça por ser algum
espiritual, mas por material e ínfimo, isto é, pelos excrementos dos corpos do
mundo, de maneira que se afogue nos excrementos e seja atormentado com o fogo
do enxofre. E porque a alma, que naturalmente é de maior excelência que o
corpo, que tem a missão de exercer influxo e dar movimento ao corpo, perverte
pala culpa a excelência de seu ser natural e se sujeita de certa maneira à
vileza e ao nada do pecado, a justiça ordenada deve dispor que tanto o espírito
como o homem pecador seja sujeitado ao fogo material, não para comunicar-lhe
vida, mas para que, por disposição divina, receba dele pena, porque estando
inseparavelmente ligado a uma coisa que lhe enche de horror por causa do temor
infundido por Deus, e que o sente pela sensibilidade natural, é necessário que
se atormente amargamente, porque este fogo
não opera senão segundo o exigem o pecado e reato e mancha que provém da maldade do deleite, e
este não é igual em todos, de forma que um mesmo fogo abrasa a uns mais e a
outros menos, como um mesmo fogo abrasa de uma maneira a palha e de outra a
lenha. E por causa desta diferença de pecado e de reato, que se ajusta à ação
do fogo, permanece num mesmo uniforme e nunca aumenta nem diminui, nem muda,
segue-se que, dispondo-o assim a vontade divina, de tal maneira opera aquele
que sempre abrase porém não consume, atormenta sempre e não mata, porque não
opera para obter aumento em si mesmo, mas para impedir a paz da alma no corpo
ou do espírito em si mesmo. De onde não tem lugar nova privação da paz, mas
continuação daquela perdida, para que assim, na mesma pena, nem a acerbidade
tire a eternidade nem a eternidade a acerbidade.
Por último, devendo corresponder pena multiforme à
perdição multiforme, e havendo em todo pecado mortal atual aversão desordenada
da luz e bondade sumas, e propensão desornada a um bem mutável, e perdição da
vontade contra o ditame da reta razão, segue-se que a todos os que pecam
atualmente, que assim serão os condenados, atormentará tríplice pena: a
privação da vista de Deus, por causa da aversão; a pena de um fogo material,
por causa daquela propensão, e a pena do verme, por causa da transgressão da
vontade e da razão, para que assim, atormentando-se nesta multiplicidade de
penas padeçam variada, acerba e eternamente
“e o fumo dos tormentos suba nos séculos dos séculos. Amém”.
b) A glória do Paraíso
O prêmio “substancial” consiste na visão, fruição e
posse do único sumo bem, que dizer, de Deus, que os bem-aventurados veem face a
face, a saber: abertamente e sem véu; de quem gozarão avidamente e com deleite,
a quem possuirão também sem fim, verificando-se assim o que disse São Bernardo,
isto é, que “Deus será plenitude de
luz para o entendimento, abundância de paz para a vontade e eternidade não
interrompida para a memória”.
O prêmio “consubstancial” consiste na glória do
corpo, que é chamada segunda estola, vestida a qual, a alma bem-aventurada
tende mais perfeitamente “ao mais alto do céu”.
E esta estola consiste nos quatro dotes do corpo, a saber: claridade,
sutileza, agilidade e impassibilidade, as quais se terão em maior ou menor
grau, correspondente ao maior ou menor grau da caridade que antes havia tido.
E o prêmio “acidental” consiste em certa formosura
acrescentada, que se chama auréola, e na opinião dos Doutores correspondente a
três classes de obras: ao martírio, à pregação e à continência virginal. Mas em tudo o supradito se guardará o grau e
distinção que exige a diversidade dos méritos.
A razão para a inteligência disto é como segue: o
primeiro Princípio, por ser primeiro, possui suma unidade, verdade e bondade,
que é o mesmo que dizer sumo poder, e sabedoria, e clemência e justiça sumas. E
porque estes atributos invisíveis de Deus convém que se manifestem por meio das
obras, Deus, dando princípio a este mundo sensível, o fez, governa, repara,
recompensa e consuma, de maneira que na criação se manifesta o sumo poder; no
governo, a sabedoria; na reparação, a clemência; e na retribuição, a justiça
perfeita. Para manifestar o poder, tudo o fez do nada para louvor, glória e
honra de si mesmo, criando algumas coisas próximas ao nada, quer dizer, a
matéria corporal, e outras próximas a si, que dizer, a substância espiritual, e
unindo ao mesmo tempo entre ambas coisas, isto é, a alma espiritual e a matéria
corporal no homem uno com unidade de natureza e pessoa. Para que se visse a
sabedoria, Ele tudo o governa de maneira providencialíssima e ordenada. Com
efeito, por si mesmo rege o supremo do homem, quer dizer, a mente, a qual
esclarece, e o ínfimo, quer dizer, o corpo, o rege pelo livre arbítrio da
vontade, para que assim o corpo e o corporal permaneçam submetidos ao espírito
e o espírito a Deus. Para manifestação da clemência reparou ao homem caído a
natureza de homem, aceitando suas penalidades e sofrendo por fim a pena de
morte, para que assim a suma misericórdia fizesse que o sumamente
misericordioso se assemelhasse ao miserável, para alívio da miséria não só na
integridade original da natureza, mas também nos defeitos da mesma, caída em
estado de miséria. Para manifestar,
enfim, a justiça dará a cada um segundo a exigência dos méritos não só castigo
aos maus, mas também glória sem fim aos justos. Assim pede, com efeito, a
retribuição justa, e a reparação gratuita,, e a governação ordenada, e a
criação poderosa. Tudo isto terá sua consumação no final.
E primeiramente, devendo verificar-se o premiar a
todos os justos segundo o pedem a retribuição justa e também a criação poderosa,
e a criação pôs a alma racional próxima a Deus, capaz, digo, em virtude da
imagem impressa nela da própria beatíssima Trindade, à qual serviu nos justos
toda a alma do homem guardando íntegra sua imagem; daí que por nenhum outro,
fora de Deus, pode premiar-se e encher-se a alma racional nem completar-se sua
capacidade, pelo qual se lhe dá em prêmio a deiformidade da glória, que
fazendo-a conforme a Deus a capacite para que o veja claramente com o
entendimento, o ame plenamente com a vontade e o retenha eternamente com a
memória, para que assim a alta toda viva, toda seja enriquecida em suas três
potências, toda se configure com Deus, toda se lhe una, toda descanse n’Ele,
encontrando n’Ele, como em todo bem, paz, luz e suficiência sempiterna, pelo
que estabelecida “no estado que é perfeito pela reunião de todos os bens” e
vivendo vida eterna, seja chamada bem-aventurada e gloriosa ao mesmo tempo.
Ademais, aquela retribuição deve fazer-se segundo
exige não só a retribuição justa e a criação poderosa, senão também a
governação ordenada, e Deus na criação uniu o corpo à alma e os atou por
natural e mútua inclinação; mas quanto ao governo, submeteu o corpo à alma e
fez que no estado de merecer o espírito se espelhasse pelo governo do corpo
para exercitar-se no merecimento; nem a inclinação natural sofre que a alma
seja plenamente bem-aventurada se não se lhe devolve o corpo, levando, como
leva, entranhada a inclinação a voltar a juntar-se com ele; nem a ordem do
governo sofre que o corpo se restitua à alma bem-aventurada senão do todo
conforme e submetido enquanto é dado ao
corpo conformar-se ao espírito. E como a
alma é iluminada com a visão da luz eterna, deve por isto mesmo refletir em seu
corpo a máxima claridade de luz. E já que pelo amor do sumo Espírito se fez a
alma sumamente espiritual, deve ter também no corpo a correspondente sutileza e
espiritualidade. E posto que na posse da eternidade se encontra a alma de todo
impassível, deve, da mesma forma, haver em seu corpo, por dentro e por fora,
omnímoda impassibilidade. E porque por
tudo isto a alma está muito disposta para tender a Deus, deve haver também no
corpo suma agilidade. E pois por estas quatro propriedades se volta o corpo
conforme a alma e sujeito ao mesmo tempo, destas quatro se disse que é dotado
principalmente o corpo, em virtude das quais pode seguir à alma e ser posto na
pátria do céu, que é a pátria dos bem-aventurados. Por estas propriedades, com
efeito, adquire semelhança com os corpos celestes, segundo as quais
precisamente, como por graus de distância, o corpo celeste dista dos quatro
elementos; e assim, os quatros dotes dos corpos tornam ao corpo perfeito em si
e disposto para a morada do céu e adaptado à alma bem-aventurada, pela qual
desde a suma Cabeça, que é Deus, até à
borda do vestido, isto é, do corpo, redunda e, enquanto seja possível,
deriva a plenitude da doçura e a embriaguez da bem-aventurança.
Por último, porque o premiar deve verificar-se
segundo exigem a retribuição justa , e a criação poderosa, e a governação
ordenada, e também a reparação gloriosa, e nos diversos membros de Cristo há
diversidade de carismas de graças não só quanto aos dons interiores, mas também
quanto aos exteriores; não só quanto aos hábitos, mas quanto aos estados; não
só quanto à perfeição da caridade na alma, mas também quanto à beleza e
esplendor na atividade corporal, segue-se que a alguns membros se deve não
somente a estola da alma com seus três dotes e a estola do corpo com os quatro,
senão também alguma excelência de beleza e de gozo pela prestância de perfeição
e de formosura obtida na prática da virtude.
Há três gêneros de operar sobremaneira perfeitos, formosos e
harmoniosos, com harmonia especial em correspondência com as três tendências da
alma: segundo o racional, a pregação da verdade, que leva a outros a salvação;
segundo a concupiscível, a perfeita fuga das concupiscências pela integridade
perfeita da continência virginal; segundo o irascível, o sofrer a morte pela
honra de Cristo, segue-se que a estas três classes de justos, quer dizer, a
pregadores, virgens e mártires, se deve a existência do prêmio acidental, que
se chama auréola, que se refere à formosura não só da alma, mas também do
corpo, posto que não se concede somente em atenção à vontade, mas ao operar
exterior, tendo como base o mérito e o prêmio da caridade, que consiste nos
sete dotes, três da alma e quatro do corpo, nos quais se encerra a consumação,
a integridade e a plenitude de todos os bens referentes à glória completada.
Mas, quais e quão grandes sejam estes não o
declaram minhas palavras, mas as de Santo Anselmo. Disse, pois, ao fim do Proslogio: “Desperta-te já, minha alma, e
levanta tua mente toda, e medita quanto podes qual e quão grande é aquele bem.
Se, com efeito, um por um os bens causam deleite, pensa com atenção quão
deleitável é aquele bem que constitui o encanto de todos os bens, não por certo
qual experimentamos nas coisas criadas, mas tão diferente como o Criador difere
da criatura. E se é boa a vida criada, quão boa não será a vida criadora? Se é
agradável a saúde comunicada, quão agradável não será a saúde que comunica toda
saúde? Se é amável a sabedoria adquirida no conhecimento das coisas criadas,
quão amável não será a sabedoria que as fez todas do nada? Enfim, se muitos e
mui grandes prazeres há nas coisas prazenteiras, qual e quão grande não será o
prazer em quem fez todo o prazenteiro?”
“Quem
chegue a gozar deste bem, quê terá e o quê lhe faltará? Em verdade que terá o
quanto quiser. Pois ali haverá bens do corpo e da alma como “nem o olho viu,
nem o ouvido viu, nem veio à mente do homem”.
Por que, pois, vagas, homenzinho, por multidão de coisas em busca de
bens para tua alma e para teu corpo? Ama o único bem, em quem estão todos os
bens, e basta. Anela o simples bem, que é o bem todo inteiro, e é
suficiente. Pois, que amas, corpo meu;
que desejas, alma minha? Ali está quanto
amais, quanto desejais. Se deleita a
formosura, os justos brilharão como o sol. Se agilidade, se força ou liberdade
de corpo, sem coisa que possa estorvar-lhe , serão como anjos de Deus, porque
se semeia corpo animal e se colhe espiritual pelo poder, não por natureza. Se
vida durável e saudável, ali há sã eternidade e eterna sanidade, porque os
justos vivem para sempre e do Senhor vem a salvação dos justos. Se fartura, se
saciarão da glória de Deus. Se embriaguez, saciam-se da abundância da casa de
Deus. Se melodia, ali cantam sem cessar os coros dos anjos louvando a Deus. Se
qualquer prazer não sujo, mas limpo: “os afoga na torrente de tuas delícias, oh
Deus”. Se sabedoria, a mesma sabedoria
de Deus se lhes mostrará a si mesma. Se amizade, amarão a Deus mais que a si
mesmos e uns a outros como a si mesmos, e Deus os amará mais que eles a si mesmos,
porque eles a Ele e a si, e uns aos outros por Ele, e Ele a si e a eles por si
mesmo. Se concórdia, todos eles terão um
só querer, porque não terão outro que o querer de Deus. Se poder, tudo o
poderão com seu poder, como Deus com o seu. Porque como Deus poderá por si
mesmo o que quer, assim poderão eles por Ele o que quiserem, já que assim como
eles não quererão nada distinto do que Ele quer, de igual maneira Ele quererá o
que eles quiserem, e o que Ele quer é impossível que não se faça. Se honra e
riquezas, Deus constituirá sobre o muito a seus servos bons e fiéis, e ainda
mais: se lhes chamará e serão filhos de Deus e deuses, e onde está seu Filho
ali estarão também eles, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo. Se
verdadeira segurança, com toda certeza estarão certos de não perder nunca nem
de nenhuma maneira esses bens, ou melhor, esse bem, como estarão certos de que
nem hão de perdê-lo por próprio querer, nem Deus, que os ama, se o há de
afastar-se deles, que lhe amam, nem nada mais poderoso que Deus há de separar a
Deus e a eles contra sua vontade”.
“E o
gozo, qual e quão grande onde tal e tão grande é o bem? Coração humano, coração pobrezinho, coração
que há experimentado fraquezas e talvez te sentes acabrunhado de fraquezas,
quanto gozarias se tivesses tudo isto em abundância? Pergunta a teu interior se pode caber nele o
gozo de tão grande bem-aventurança. Mas, em verdade, se algum outro a quem
amasses de todo como a ti mesmo tivesse a mesma bem-aventurança, se dobraria
teu gozo, porque não te gozarias menos por ele que por ti. E se tiverem o mesmo dois ou três ou muito
mais, por cada um deles te alegrarias na mesma medida que por ti mesmo amando a
cada um como a ti mesmo. Assim, pois,
naquela perfeita caridade de inumeráveis anjos e homens bem-aventurados onde
nenhum ama menos a outro que a si mesmo, cada qual não se gozará por cada um
dos demais de distinta maneira que de si mesmo. Se, pois, o coração do homem,
por causa de tão grande bem próprio, apenas terá guarida para seu gozo, como será capaz de tantos e
tão grandes gozos? E certo, porque na medida em que cada um ama a alguém, na
mesma se goza de seu bem; como naquela bem-aventurança perfeita cada um amará a
Deus sem comparação muito mais que a si mesmo e a todos os demais consigo,
assim se gozará também sem comparação mais da felicidade de Deus que da sua
própria e de todos os demais consigo. Porém se amam a Deus de tal maneira com
todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, que, não obstante, todo o
coração, toda a mente e toda a alma não baste à grandeza do amor, certo que se
gozarão com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, de tal maneira
que todo o coração, toda a mente e toda a alma não bastem para a plenitude do
gozo”.
“Porém,
Senhor, todavia não tenho dito ou
pensado quanto se gozarão esses teus bem-aventurados. Certo, tanto gozarão
quando amarem, tanto amarão quanto conhecerem. Quanto te conhecerão e te
amarão? Em verdade que “nem o olho viu,
nem o ouvido ouviu, nem veio à mente do homem nesta vida” quanto te conhecerão
e te amarão naquela vida. Rogo-te, oh Deus, que te conheça, que te ame, para
gozar de ti; e se não posso isto por completo nesta vida, adiante ao menos de
dia em dia até chegar à perfeição; aumente aqui em mim teu conhecimento e
faça-se ali total; cresça aqui teu amor e seja ali cumprido, para que aqui meu
gozo seja grande na esperança e ali cumprido na realidade. Senhor, tu mandas
por teu Filho e ainda aconselhas pedir e prometes atender à petição, para que
nosso gozo seja cumprido. Deus veraz, consiga já, te peço, que meu gozo seja
cumprido. Peço, Senhor, o que por nosso admirável Conselheiro aconselhas;
consiga eu o que prometes pela Verdade, para que meu gozo seja cumprido.
Entretanto, pense ali minha mente, fale dali minha língua, ame aquilo meu
coração, publique ele minha boca, saboreie aquilo minha alma, tenha sede
daquilo minha carne, deseje-o quanto posso, até entrar no gozo de meu Senhor,
que é trino e uno Deus, bendito por todos os séculos dos séculos. Amém”.[1]

