segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - II

 



DAS COISAS IMPORTANTES QUE HÃO DE OCORRER NO JUÍZO FINAL: A CONFLAGRAÇÃO DO FOGO, A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS, A PENA INFERNAL E A GLÓRIA DO PARAÍSO

 

1. Sobre a conflagração do fogo

 Pelo que diz respeito à conflagração, se há de saber que à presença do Juiz se adiantará o fogo que abrase a face da terra, de maneira que  a aparência deste mundo perecerá pelo concurso dos fogos do mundo, como ocorreu no dilúvio pela inundação das águas. E se disse a aparência deste mundo não referindo-se à destruição total do mundo sensível, senão porque, pela ação de tal fogo que inflamará os corpos elementares, serão abrasados os vegetais e os animais, se purificarão e renovarão os elementos, sobretudo o ar e a terra, e se acrisolarão os justos e arderão os réprobos, passado o qual cessará a perturbação do céu, para que assim, completado já o número dos escolhidos, tenha lugar de certo modo a inovação e a remuneração dos seres do mundo.

O que foi dito se entenderá pelo raciocínio que segue: como o Princípio universal das coisas seja sapientíssimo, se em tudo quanto faz visa a ordem da sabedoria , muito principalmente deve visá-lo no que se refere à consumação das coisas, para que assim não haja discordância no princípio e meio, nem entre o meio e o fim, senão que, na ordenação  de tudo resplandeça a sabedoria ordenadora, e a bondade, e a grandeza do dito primeiro Princípio. E pois Deus, segundo sua sabedoria ordenadíssima, fez todo este mundo sensível e grande pelo mundo pequeno, que é o homem, posto no meio entre Deus e estas coisas inferiores; para que haja correspondência em tudo e haja harmonia entre a morada e o que mora nela, assentado o homem no bem, deveu também estabelecer-se esse outro mundo em estado de bem e de paz; caindo o homem, deveu também o mundo segui-lo, desordenando-se o homem, o resto também se alterará; purificado o homem, o mundo também deverá purificar-se; renovado o homem, também se renovará, e consumado o homem, também se consumirá.

E em primeiro lugar, já que desregrando-se o homem deve desregrar-se o mundo, assim como este se manteve em ordem enquanto aquele se mantinha também, e decaiu de certo modo quando aquele decaía, é também necessário que, no juízo que há de sobrevir, para ostentação da severidade do juiz, os corações, sobretudo dos pecadores, que menosprezaram ao Senhor do mundo, se encham de terror, para que assim toda a criação experimente em si o zelo divino e se conforme ao autor ao mesmo tempo que se conforma ao morador; e necessário, digo, que os alicerces do mundo se comovam de maneira horribilíssima.  E porque nada por sua atividade comove dos outros elementos mais intensa, e pronta, e horrivelmente que o fogo, que o investe por todas as partes, é necessário que à aparição do Juiz preceda o fogo, não só por um mas por todos os lados do mundo; de sorte que haja concurso do fogo elementar e do terrestre; do fogo do purgatório e do inferno, para que por este fogo do inferno ardam os réprobos, pelo do purgatório se purifiquem os justos, pelo terrestre se consuma quanto da terra provenha, pelo elementar se adelgacem e se disponham os elementos para o aspecto que hão de apresentar ao renovar-se e, junto com isto, todas as demais coisas se perturbem também, a fim de que não somente os homens e os demônios, senão até os anjos, vendo-o, se encham de terror.

Ademais, como o mundo deve purificar-se com o homem submetido à purificação, e o homem viador no fim dos tempos necessita ser lavado da sordidez da avareza e da malícia, como nos princípios do tempo das fezes da luxúria, e necessita ser purificado não só pronta, senão também íntima e perfeitamente, segue-se que, assim como o mundo foi antes destruído e em certa maneira purificado pelo elemento da água, a qual é fria, em oposição ao ardor  e excremento da luxúria, assim o mundo que fenece o será pelo fogo, por causa do esfriamento da caridade e do gelo da malícia e da avareza, que reinariam no fim, por assim dizer, na velhice do mundo. E entranhando-se muitíssimo estes vícios, é necessário que o que há de tirá-los seja de eficácia íntima, violenta e pronta, condições que não se vêem  em nenhum outro elemento como o fogo. E por isso, como se verificou no dilúvio pela inundação das águas, assim a face sensível será arrasada pela ação do fogo.

Acrescente-se a isto que, devendo renovar-se o mundo junto com o homem que se renova, e não sendo possível tomar nova forma sem perder a anterior e dispor-se de algum modo revestida de uma disposição nova, segue-se que, tendo o fogo em grau máximo virtude de expelir toda forma estranha a si, e tendo também força para sutilizar com qualidades afins às dos corpos celestes, por ele deve fazer-se a purificação junto com a inovação; de sorte que, possuindo esta dupla eficácia, em parte deve preceder a vinda do Juiz, em parte deve seguir-lhe. E como a inovação se ordena a um novo estado, que já não voltará ao antigo, e, pelo mesmo,  a um novo estado de incorrupção, que, por certo, não está em mão de criaturas o dá-lo, segue-se que se o fogo naquela purificação e inovação há de fazer algo por sua própria virtude natural, como é inflamar, purificar, encarecer e sutilizar, é, contudo, necessário que junto com esta virtude natural haja outra virtude  que opere sobre a natureza, por cuja  aplicação terá principio a conflagração, da mesma forma que se completará com ela.

Por último, como queira que este mundo deve ser consumado, consumado o homem, e então se diz consumar-se o homem quando se completar na glória o número dos escolhidos, ao qual estado, por certo, tende tudo como a fim último e completo, é necessário que, completando-se dito número, terminem e se aquietem as perturbações dos corpos celestes e que, assim mesmo, se acabem as transformações dos elementos e que, por conseguinte, cesse a geração, que é própria dos animais e das plantas.  Pois, ordenando-se tudo isto à natureza nobilíssima, qual é a alma dotada de razão, fixado o fim nas almas, é necessário que haja também fim e complemento em todas as demais coisas supraditas.  E assim os corpos celestes, obtida a paz e a plenitude de luz, diz-se que são remunerados. Os elementos, porém, que carecem já do poder de multiplicar-se por mútua transmutação, se diz que perecem não certamente quanto à substância, mas quanto à atividade e passividade da mútua influência, e, sobretudo, quanto às propriedades ativas. Os vegetais e os dotados de sensibilidade, já que não têm capacidade de vida perpétua e duração eterna, como convém ao estado de tanta nobreza, é necessário que se consumam na própria natureza, porém de maneira que perdurem nos princípios e em certo sentido no semelhante; isto é, no homem, que tem semelhança com toda linhagem de criaturas e, pelo mesmo motivo, [pde dizer-se que em sua inovação e glorificação são de alguma maneira inovadas e premiadas todas as coisas.

 

2. Sobre a Ressurreição dos corpos

 No referente à ressurreição dos corpos, se há de estabelecer que no Juízo Universal ressuscitarão os corpos de todos os homens, sem distinção alguma quanto a ordem do tempo, bem que ela seja grande quanto ao grau de excelência. Porque os maus ressuscitarão com suas fealdades e penalidades, misérias e defeitos, que tiveram no estado de viadores. Nos bons, porém, salvo a condição particular de cada um, serão tirados os defeitos, e todos ressuscitarão com o corpo íntegro, qual corresponde à idade madura, e com os membros proporcionados, para que assim todos os santos saiam ao encontro, qual varões perfeitos, segundo a medida da idade cumprida de Cristo. Ressuscitarão, contudo, assim nos bons como nos maus, os mesmos corpos que numericamente existiam e, formados das mesmas partes, exceto a identidade da natureza toda inteira, não só quanto aos principais membros e ao humor radical, senão também salvos os cabelos e demais membros que se referem à harmonia do corpo, de maneira que “nas asas de qualquer vento ou em qualquer seio da terra que venham a parar as cinzas do corpo humano, voltará este a juntar-se com a mesma alma que o compôs antes para tivesse vida e desenvolvimento”.

 Se entenderá isto pelo seguinte raciocínio: como o primeiro Princípio, por si mesmo que é primeiro e sumo, é também universalíssimo e suficientíssimo, e por isto é a origem das naturezas, das graças e dos prêmios; princípio, ademais, poderosíssimo, clementíssimo e justíssimo, ainda que por certa apropriação seja poderosíssimo na constituição das naturezas, e clementíssimo na doação das graças, e justíssimo na retribuição das recompensas; cada um destes atributos, contudo, tem sua parte em cada obra destas, como queira que o poder, a clemência e a justiça de nenhuma maneira podem separar-se entre si.  E, por isto, a retribuição é de rigor se faça segundo o exige a retidão da justiça, e a reformação da graça, e a perfeição da natureza. E pois a justiça reclama necessariamente que o homem, que mereceu ou desmereceu não só na alma nem só no corpo, mas na alma e no corpo juntos, seja castigado ou premiado em ambos; e a reformação da graça requer  que o corpo todo inteiro se assemelhe a Cristo, que é cabeça, cujo corpo morto, por estar unido inseparavelmente à divindade, era necessário que ressuscitasse; e  a perfeição da natureza requer que o homem conste de corpo e alma juntos, como de matéria e forma, que têm mútua inclinação e mútua necessidade; por força se há de verificar a ressurreição, como queira que a reclamam assim a constituição da natureza, a infusão da graça e a retribuição da justiça, segundo os quais deve reger-se a totalidade das coisas.  E assim, como por estas três bocas, tudo pede a ressurreição do homem, a fim de tirar toda escusa àqueles que se fazem surdos para não ouvir esta verdade da fé e justificar por que todo o universo luta contra elas.

E primeiramente, porque a ressurreição há de ser segundo exigências da ordem da justiça divina, e a justiça dá a cada um o seu, conforme ao lugar e tempo, e toda alma, logo, ao unir-se com o corpo sequer por um instante, tem nele ou culpa ou graça, é necessário que todos ressuscitem. E porque o estado de retribuição deve ser distinto do de viadores, e a ressurreição diz referência ao estado da retribuição, para que a ordem do mundo não se perturbe e a fé, que crê o que não vê, tenha mérito, e para que se manifeste mais certa e claramente a equidade da justiça divina, e ao mesmo tempo tenha lugar a consumação e retribuição nos anjos e nos homens, requer também a justiça divina que todos ressuscitem de uma só vez os que estiveram sob a mesma lei geral. Digo isto por Cristo e por sua beatíssima Mãe, a gloriosa Virgem Maria. E porque aos maus corresponde pena e miséria e aos bons  glória, ainda ressuscitando juntamente, atendido ao tempo, serão muito dessemelhantes na condição. Com efeito, sendo a ressurreição nos maus não para a vida, mas para o suplício, é necessário que ressuscitem com suas fraquezas, deformidades e defeitos.

Ademais, pois a ressurreição deve ser segundo as exigências da consumação da graça, e a graça perfeita nos faz conformes a Cristo, nossa cabeça, quem não teve defeito algum nos membros senão perfeita idade e estatura proporcionada e semblante formoso, é conveniente que os bons ressuscitem nas melhores condições, e, por isto, necessário também que se tirem deles os defeitos, ressalvada, porém, a natureza. É também conveniente que se faltava algum membro, se supra a falta; se havia alguma superficialidade, se tire; se alguma desordem nos membros, se corrija; se alguém era párvulo, lhe sejam dada por virtude divina a total da idade de Cristo, isto é, a que tinha na ressurreição, bem que não igual na perfeição; se decrépito, se lhe retraia a mesma idade;  se gigante ou anão, que se lhe acondicione a conveniente estatura, para que assim todos saiam íntegros e perfeitos ao encontro, qual varões perfeitos, segundo a medida da idade de Cristo.

Por último, devendo ser a ressurreição conforme às exigências da perfeição e da natureza e exigindo a natureza da alma dotada de razão que dê vida ao seu próprio corpo, já que “o ato próprio há de verificar-se em matéria própria”, é necessário que ressuscite o mesmo corpo numericamente; de outra maneira não seria ressurreição verdadeira. Exige também a natureza da alma racional e imortal que, como é perfeita em seu ser, assim tenha também corpo a quem comunicar a vida perpetuamente, e por isto o corpo que se une à alma, pela mesma união está ordenado à incorrupção perpétua; de tal maneira, sem embargo, que aquilo no que consiste a substância de todo o corpo, como são os membros principais e o humor radical e a carne segundo a espécie, está ordenado de maneira necessária; porém o demais, a saber: a carne segundo a matéria e as partes que se referem à perfeição do corpo, se ordenam por congruência; e assim as primeiras partes mencionadas se ordenam à ressurreição segundo ordem de necessidade, enquanto as outras só segundo ordem de congruência. E porque Deus imprimiu esta ordem à natureza e a natureza por si não pode levá-la à perfeição, já que não lhe é dado ressuscitar o morto, e, por outra parte, a mesma Providência divina nada houve de fazer debalde, é necessário  que por virtude desta se restabeleça o mesmo corpo atendido o número, imortal e formado de todas as partes, salvo, ademais, de tudo a identidade da natureza. E como isto não é atribuição, mas só propensão da natureza, porque se pode restabelecer numericamente o mesmo corpo já destruído, por não alcançar seu poder à substância toda inteira; nem pode haver um corpo imortal, por ser corruptível enquanto procede da geração natural; nem pode reunir o que está esparramado, é necessário que a ressurreição se atribua não a causas seminais nem naturais, mas às primeiras, de maneira que se verifique conforme a um processo maravilhoso e sobrenatural segundo a ordenação da vontade divina.

 

3. Sobre o que seguirá após o Juízo Universal

 a) A pena infernal

 Agora corresponde tratar das coisas que se hão de seguir ao Juízo, que são duas: a pena infernal e a glória celestial.

Com relação à pena infernal há de saber isto: a pena infernal se verifica num lugar material situado debaixo da terra, no qual serão atormentados eternamente todos os réprobos, tanto homens como espíritos malignos.  E serão atormentados por um mesmo fogo material, que abrasará e afligirá espíritos e corpos – sem consumir, contudo, os corpos, apesar de os atormentar sempre – a uns mais, a outros menos, conforme o tenham merecido. E com este tormento do fogo terão também seu tormento todos os demais sentidos, e se acrescentará a pena do verme e a privação da vista de Deus, de maneira que nessas penas haverá variedade, e junto com a variedade haverá acerbidade, e junto com a acerbidade haverá interminabilidade, a fim de que se verifique para suplício dos réprobos, que “o fumo dos tormentos deles subirá pelos séculos dos séculos”.

Para entender isto observe-se que sendo sumo o primeiro Princípio, pelo fato do mesmo ser primeiro, enquanto possui o possui em proporção suma, pelo qual é necessário que seja retíssimo. E porque no retribuir se conduz conforme a retidão, como não pode operar contra si, não pode tampouco negar-se a si mesmo nem transgredir sua justiça ; e assim, por exigi-lo sua retidão, é necessário, de toda necessidade, que se castigue o pecado segundo a grandeza da culpa, sobretudo naqueles que, menosprezando a lei da misericórdia, investiram, pela impenitência,  contra a severidade da justiça. E porque compete à severidade da justiça olhar a culpa não somente quanto ao fundamento, mas também quanto às circunstâncias agravantes, é muito conveniente que o justo Juiz exija dos ímpios as penas devidas até o último oitavo, e assim não fique “a desonra do pecado com míngua da honra devida à justiça”;  e segundo é manifesto o poder na criação, e a sabedoria no governo, e a bondade na reparação, se manifeste assim a suma justiça no castigo.  Desta forma, a justiça divina deve castigar ao ímpio segundo merece a culpa, e a culpa mortal, à que segue a impenitência final, tem em si razão da perdição eterna, perdição deleitosa e perdição multiforme, é necessário que a culpa seja castigada com eternidade, acerbidade e multiformidade de penas.

Em primeiro lugar, pois, a pena da perdição eterna deve ser perpétua porque o pecado que um comete, e do qual nunca se arrepende, dura perpetuamente na alma e a separa da vida eterna, isto é, de Deus, e procede da vontade que desejava deleitar-se no pecado eternamente. E mesmo que o deleite que passa seja momentâneo, tendo a perdição razão de perpetuidade, a pena correspondente à perdição não deve ter fim, para que, como o homem em seu querer perpétuo não determinou fim para apartar-se do pecado, tampouco desista Deus no seu querer perpétuo de castigar; e porque pecou contra o Infinito, tenha pena infinita, e pois não é capaz de pena infinita em intensidade, a tenha ao menos em duração; e como sua vontade, depois da morte, permanece aderida para sempre ao mal, sem admitir penitência, assim Deus castigue para sempre sem mudar a sentença, segundo o pede a perpetuidade da perdição nos ímpios condenados.

Em segundo lugar porque a pena da perdição deleitosa deve ser aflitiva, posto que o deleite se castiga com seu contrário, a tristeza, e a alma dotada de razão, ao pecar se volta ao bem que lhe é próprio e que se lhe apresenta como bem digno de amor atual e deleitosa, e por isto menospreza o querer e a soberania de Deus, segue-se que para perfeito castigo de semelhante deleite malvado, em que se juntam de uma vez o deleite e o menosprezo, seja necessário que em castigo do menosprezo e do deleite, o pecador, homem ou espírito, seja precipitado no lugar mais baixo e mais afastado do estado da glória, isto é, nas profundezas do inferno.  E necessário que também se lhe exponha a ser atormentado ali pelo ser mais baixo, e assim não padeça por ser algum espiritual, mas por material e ínfimo, isto é, pelos excrementos dos corpos do mundo, de maneira que se afogue nos excrementos e seja atormentado com o fogo do enxofre. E porque a alma, que naturalmente é de maior excelência que o corpo, que tem a missão de exercer influxo e dar movimento ao corpo, perverte pala culpa a excelência de seu ser natural e se sujeita de certa maneira à vileza e ao nada do pecado, a justiça ordenada deve dispor que tanto o espírito como o homem pecador seja sujeitado ao fogo material, não para comunicar-lhe vida, mas para que, por disposição divina, receba dele pena, porque estando inseparavelmente ligado a uma coisa que lhe enche de horror por causa do temor infundido por Deus, e que o sente pela sensibilidade natural, é necessário que se atormente amargamente, porque este fogo  não opera senão segundo o exigem o pecado e reato  e mancha que provém da maldade do deleite, e este não é igual em todos, de forma que um mesmo fogo abrasa a uns mais e a outros menos, como um mesmo fogo abrasa de uma maneira a palha e de outra a lenha. E por causa desta diferença de pecado e de reato, que se ajusta à ação do fogo, permanece num mesmo uniforme e nunca aumenta nem diminui, nem muda, segue-se que, dispondo-o assim a vontade divina, de tal maneira opera aquele que sempre abrase porém não consume, atormenta sempre e não mata, porque não opera para obter aumento em si mesmo, mas para impedir a paz da alma no corpo ou do espírito em si mesmo. De onde não tem lugar nova privação da paz, mas continuação daquela perdida, para que assim, na mesma pena, nem a acerbidade tire a eternidade nem a eternidade a acerbidade.

Por último, devendo corresponder pena multiforme à perdição multiforme, e havendo em todo pecado mortal atual aversão desordenada da luz e bondade sumas, e propensão desornada a um bem mutável, e perdição da vontade contra o ditame da reta razão, segue-se que a todos os que pecam atualmente, que assim serão os condenados, atormentará tríplice pena: a privação da vista de Deus, por causa da aversão; a pena de um fogo material, por causa daquela propensão, e a pena do verme, por causa da transgressão da vontade e da razão, para que assim, atormentando-se nesta multiplicidade de penas padeçam  variada, acerba e eternamente “e o fumo dos tormentos suba nos séculos dos séculos. Amém”.

 

b) A glória do Paraíso

 Sobre a glória do céu se há de saber em resumo o que segue: que há nela prêmio substancial, consubstancial e acidental.

O prêmio “substancial” consiste na visão, fruição e posse do único sumo bem, que dizer, de Deus, que os bem-aventurados veem face a face, a saber: abertamente e sem véu; de quem gozarão avidamente e com deleite, a quem possuirão também sem fim, verificando-se assim o que disse São Bernardo, isto é, que  Deus será plenitude de luz para o entendimento, abundância de paz para a vontade e eternidade não interrompida para a memória”.

O prêmio “consubstancial” consiste na glória do corpo, que é chamada segunda estola, vestida a qual, a alma bem-aventurada tende mais perfeitamente “ao mais alto do céu”.  E esta estola consiste nos quatro dotes do corpo, a saber: claridade, sutileza, agilidade e impassibilidade, as quais se terão em maior ou menor grau, correspondente ao maior ou menor grau da caridade que antes havia tido.

E o prêmio “acidental” consiste em certa formosura acrescentada, que se chama auréola, e na opinião dos Doutores correspondente a três classes de obras: ao martírio, à pregação e à continência virginal.  Mas em tudo o supradito se guardará o grau e distinção que exige a diversidade dos méritos.

A razão para a inteligência disto é como segue: o primeiro Princípio, por ser primeiro, possui suma unidade, verdade e bondade, que é o mesmo que dizer sumo poder, e sabedoria, e clemência e justiça sumas. E porque estes atributos invisíveis de Deus convém que se manifestem por meio das obras, Deus, dando princípio a este mundo sensível, o fez, governa, repara, recompensa e consuma, de maneira que na criação se manifesta o sumo poder; no governo, a sabedoria; na reparação, a clemência; e na retribuição, a justiça perfeita. Para manifestar o poder, tudo o fez do nada para louvor, glória e honra de si mesmo, criando algumas coisas próximas ao nada, quer dizer, a matéria corporal, e outras próximas a si, que dizer, a substância espiritual, e unindo ao mesmo tempo entre ambas coisas, isto é, a alma espiritual e a matéria corporal no homem uno com unidade de natureza e pessoa. Para que se visse a sabedoria, Ele tudo o governa de maneira providencialíssima e ordenada. Com efeito, por si mesmo rege o supremo do homem, quer dizer, a mente, a qual esclarece, e o ínfimo, quer dizer, o corpo, o rege pelo livre arbítrio da vontade, para que assim o corpo e o corporal permaneçam submetidos ao espírito e o espírito a Deus. Para manifestação da clemência reparou ao homem caído a natureza de homem, aceitando suas penalidades e sofrendo por fim a pena de morte, para que assim a suma misericórdia fizesse que o sumamente misericordioso se assemelhasse ao miserável, para alívio da miséria não só na integridade original da natureza, mas também nos defeitos da mesma, caída em estado de miséria.  Para manifestar, enfim, a justiça dará a cada um segundo a exigência dos méritos não só castigo aos maus, mas também glória sem fim aos justos. Assim pede, com efeito, a retribuição justa, e a reparação gratuita,, e a governação ordenada, e a criação poderosa. Tudo isto terá sua consumação no final.

E primeiramente, devendo verificar-se o premiar a todos os justos segundo o pedem a retribuição justa e também a criação poderosa, e a criação pôs a alma racional próxima a Deus, capaz, digo, em virtude da imagem impressa nela da própria beatíssima Trindade, à qual serviu nos justos toda a alma do homem guardando íntegra sua imagem; daí que por nenhum outro, fora de Deus, pode premiar-se e encher-se a alma racional nem completar-se sua capacidade, pelo qual se lhe dá em prêmio a deiformidade da glória, que fazendo-a conforme a Deus a capacite para que o veja claramente com o entendimento, o ame plenamente com a vontade e o retenha eternamente com a memória, para que assim a alta toda viva, toda seja enriquecida em suas três potências, toda se configure com Deus, toda se lhe una, toda descanse n’Ele, encontrando n’Ele, como em todo bem, paz, luz e suficiência sempiterna, pelo que estabelecida “no estado que é perfeito pela reunião de todos os bens” e vivendo vida eterna, seja chamada bem-aventurada e gloriosa ao mesmo tempo.

Ademais, aquela retribuição deve fazer-se segundo exige não só a retribuição justa e a criação poderosa, senão também a governação ordenada, e Deus na criação uniu o corpo à alma e os atou por natural e mútua inclinação; mas quanto ao governo, submeteu o corpo à alma e fez que no estado de merecer o espírito se espelhasse pelo governo do corpo para exercitar-se no merecimento; nem a inclinação natural sofre que a alma seja plenamente bem-aventurada se não se lhe devolve o corpo, levando, como leva, entranhada a inclinação a voltar a juntar-se com ele; nem a ordem do governo sofre que o corpo se restitua à alma bem-aventurada senão do todo conforme e submetido  enquanto é dado ao corpo conformar-se ao espírito.  E como a alma é iluminada com a visão da luz eterna, deve por isto mesmo refletir em seu corpo a máxima claridade de luz. E já que pelo amor do sumo Espírito se fez a alma sumamente espiritual, deve ter também no corpo a correspondente sutileza e espiritualidade. E posto que na posse da eternidade se encontra a alma de todo impassível, deve, da mesma forma, haver em seu corpo, por dentro e por fora, omnímoda impassibilidade.  E porque por tudo isto a alma está muito disposta para tender a Deus, deve haver também no corpo suma agilidade. E pois por estas quatro propriedades se volta o corpo conforme a alma e sujeito ao mesmo tempo, destas quatro se disse que é dotado principalmente o corpo, em virtude das quais pode seguir à alma e ser posto na pátria do céu, que é a pátria dos bem-aventurados. Por estas propriedades, com efeito, adquire semelhança com os corpos celestes, segundo as quais precisamente, como por graus de distância, o corpo celeste dista dos quatro elementos; e assim, os quatros dotes dos corpos tornam ao corpo perfeito em si e disposto para a morada do céu e adaptado à alma bem-aventurada, pela qual desde a suma Cabeça, que é Deus, até à borda do vestido, isto é, do corpo, redunda e, enquanto seja possível, deriva a plenitude da doçura e a embriaguez da bem-aventurança.

Por último, porque o premiar deve verificar-se segundo exigem a retribuição justa , e a criação poderosa, e a governação ordenada, e também a reparação gloriosa, e nos diversos membros de Cristo há diversidade de carismas de graças não só quanto aos dons interiores, mas também quanto aos exteriores; não só quanto aos hábitos, mas quanto aos estados; não só quanto à perfeição da caridade na alma, mas também quanto à beleza e esplendor na atividade corporal, segue-se que a alguns membros se deve não somente a estola da alma com seus três dotes e a estola do corpo com os quatro, senão também alguma excelência de beleza e de gozo pela prestância de perfeição e de formosura obtida na prática da virtude.  Há três gêneros de operar sobremaneira perfeitos, formosos e harmoniosos, com harmonia especial em correspondência com as três tendências da alma: segundo o racional, a pregação da verdade, que leva a outros a salvação; segundo a concupiscível, a perfeita fuga das concupiscências pela integridade perfeita da continência virginal; segundo o irascível, o sofrer a morte pela honra de Cristo, segue-se que a estas três classes de justos, quer dizer, a pregadores, virgens e mártires, se deve a existência do prêmio acidental, que se chama auréola, que se refere à formosura não só da alma, mas também do corpo, posto que não se concede somente em atenção à vontade, mas ao operar exterior, tendo como base o mérito e o prêmio da caridade, que consiste nos sete dotes, três da alma e quatro do corpo, nos quais se encerra a consumação, a integridade e a plenitude de todos os bens referentes à glória completada.

Mas, quais e quão grandes sejam estes não o declaram minhas palavras, mas as de Santo Anselmo. Disse, pois, ao fim do Proslogio: “Desperta-te já, minha alma, e levanta tua mente toda, e medita quanto podes qual e quão grande é aquele bem. Se, com efeito, um por um os bens causam deleite, pensa com atenção quão deleitável é aquele bem que constitui o encanto de todos os bens, não por certo qual experimentamos nas coisas criadas, mas tão diferente como o Criador difere da criatura. E se é boa a vida criada, quão boa não será a vida criadora? Se é agradável a saúde comunicada, quão agradável não será a saúde que comunica toda saúde? Se é amável a sabedoria adquirida no conhecimento das coisas criadas, quão amável não será a sabedoria que as fez todas do nada? Enfim, se muitos e mui grandes prazeres há nas coisas prazenteiras, qual e quão grande não será o prazer em quem fez todo o prazenteiro?”

“Quem chegue a gozar deste bem, quê terá e o quê lhe faltará? Em verdade que terá o quanto quiser. Pois ali haverá bens do corpo e da alma como “nem o olho viu, nem o ouvido viu, nem veio à mente do homem”.  Por que, pois, vagas, homenzinho, por multidão de coisas em busca de bens para tua alma e para teu corpo? Ama o único bem, em quem estão todos os bens, e basta. Anela o simples bem, que é o bem todo inteiro, e é suficiente.  Pois, que amas, corpo meu; que desejas, alma minha?  Ali está quanto amais, quanto desejais. Se deleita  a formosura, os justos brilharão como o sol. Se agilidade, se força ou liberdade de corpo, sem coisa que possa estorvar-lhe , serão como anjos de Deus, porque se semeia corpo animal e se colhe espiritual pelo poder, não por natureza. Se vida durável e saudável, ali há sã eternidade e eterna sanidade, porque os justos vivem para sempre e do Senhor vem a salvação dos justos. Se fartura, se saciarão da glória de Deus. Se embriaguez, saciam-se da abundância da casa de Deus. Se melodia, ali cantam sem cessar os coros dos anjos louvando a Deus. Se qualquer prazer não sujo, mas limpo: “os afoga na torrente de tuas delícias, oh Deus”.  Se sabedoria, a mesma sabedoria de Deus se lhes mostrará a si mesma. Se amizade, amarão a Deus mais que a si mesmos e uns a outros como a si mesmos, e Deus os amará mais que eles a si mesmos, porque eles a Ele e a si, e uns aos outros por Ele, e Ele a si e a eles por si mesmo.  Se concórdia, todos eles terão um só querer, porque não terão outro que o querer de Deus. Se poder, tudo o poderão com seu poder, como Deus com o seu. Porque como Deus poderá por si mesmo o que quer, assim poderão eles por Ele o que quiserem, já que assim como eles não quererão nada distinto do que Ele quer, de igual maneira Ele quererá o que eles quiserem, e o que Ele quer é impossível que não se faça. Se honra e riquezas, Deus constituirá sobre o muito a seus servos bons e fiéis, e ainda mais: se lhes chamará e serão filhos de Deus e deuses, e onde está seu Filho ali estarão também eles, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo. Se verdadeira segurança, com toda certeza estarão certos de não perder nunca nem de nenhuma maneira esses bens, ou melhor, esse bem, como estarão certos de que nem hão de perdê-lo por próprio querer, nem Deus, que os ama, se o há de afastar-se deles, que lhe amam, nem nada mais poderoso que Deus há de separar a Deus e a eles contra sua vontade”.

“E o gozo, qual e quão grande onde tal e tão grande é o bem?  Coração humano, coração pobrezinho, coração que há experimentado fraquezas e talvez te sentes acabrunhado de fraquezas, quanto gozarias se tivesses tudo isto em abundância?  Pergunta a teu interior se pode caber nele o gozo de tão grande bem-aventurança. Mas, em verdade, se algum outro a quem amasses de todo como a ti mesmo tivesse a mesma bem-aventurança, se dobraria teu gozo, porque não te gozarias menos por ele que por ti.  E se tiverem o mesmo dois ou três ou muito mais, por cada um deles te alegrarias na mesma medida que por ti mesmo amando a cada um  como a ti mesmo. Assim, pois, naquela perfeita caridade de inumeráveis anjos e homens bem-aventurados onde nenhum ama menos a outro que a si mesmo, cada qual não se gozará por cada um dos demais de distinta maneira que de si mesmo. Se, pois, o coração do homem, por causa de tão grande bem próprio, apenas terá guarida  para seu gozo, como será capaz de tantos e tão grandes gozos? E certo, porque na medida em que cada um ama a alguém, na mesma se goza de seu bem; como naquela bem-aventurança perfeita cada um amará a Deus sem comparação muito mais que a si mesmo e a todos os demais consigo, assim se gozará também sem comparação mais da felicidade de Deus que da sua própria e de todos os demais consigo. Porém se amam a Deus de tal maneira com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, que, não obstante, todo o coração, toda a mente e toda a alma não baste à grandeza do amor, certo que se gozarão com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, de tal maneira que todo o coração, toda a mente e toda a alma não bastem para a plenitude do gozo”.

“Porém, Senhor,  todavia não tenho dito ou pensado quanto se gozarão esses teus bem-aventurados. Certo, tanto gozarão quando amarem, tanto amarão quanto conhecerem. Quanto te conhecerão e te amarão?  Em verdade que “nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem veio à mente do homem nesta vida” quanto te conhecerão e te amarão naquela vida. Rogo-te, oh Deus, que te conheça, que te ame, para gozar de ti; e se não posso isto por completo nesta vida, adiante ao menos de dia em dia até chegar à perfeição; aumente aqui em mim teu conhecimento e faça-se ali total; cresça aqui teu amor e seja ali cumprido, para que aqui meu gozo seja grande na esperança e ali cumprido na realidade. Senhor, tu mandas por teu Filho e ainda aconselhas pedir e prometes atender à petição, para que nosso gozo seja cumprido. Deus veraz, consiga já, te peço, que meu gozo seja cumprido. Peço, Senhor, o que por nosso admirável Conselheiro aconselhas; consiga eu o que prometes pela Verdade, para que meu gozo seja cumprido. Entretanto, pense ali minha mente, fale dali minha língua, ame aquilo meu coração, publique ele minha boca, saboreie aquilo minha alma, tenha sede daquilo minha carne, deseje-o quanto posso, até entrar no gozo de meu Senhor, que é trino e uno Deus, bendito por todos os séculos dos séculos. Amém”.[1]




[1]              “Obras de San Buenaventura” - BAC – volume I – págs. 511/539

 

O JUÍZO FINAL - I

 



“A respeito da segunda vinda, a do Juízo, devemos considerar separadamente alguns fatos que se produzirão antes do que ocorra, e outros que a acompanharão.

Três tipos de coisas acontecerão no Juízo: sinais terroríficos, imposturas do Anticristo e incêndios espantosos.

Cinco serão os sinais terroríficos que precederão à vinda do Juiz. São Lucas os menciona no capítulo 21 de seu Evangelho:

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, as gentes se consternarão com o rugido do mar e o bramido das ondas.

 

1.  Os cinco primeiros sinais que precederão o Juízo Final

 

Os três primeiros sinais estão descritos no Apocalipse. No capítulo 6 lemos:

O sol se tornará negro como o surrão de pelo de cabra; a lua parecerá feita de sangue e as estrelas se despencarão sobre a terra.

Se disse que o sol se obscurecerá, porque desaparecerá sua luminosidade, como se quisesse chorar a morte do pai de família, o homem, ou bem porque sua  luz ficará anulada pelo resplendor de outra superior: a que irradiará de Jesus Cristo. Disse Santo Agostinho que também poderia tratar-se de metáfora com que se pretendesse significar que a vingança divina se mostrará tão rigorosa que o mesmo sol, assustado, se esconderá;  ou de uma expressão literária de caráter místico, para dar-nos a entender que Cristo, Sol de justiça, se ocultará, no sentido de que ninguém se atreverá a confiar nEle, e para o caso é como se desaparecesse.

O céu que aqui se fala é o dos ares. Por estrelas devem entender-se os astros, esses corpos celestes que têm forma estelar. Quando se disse que despencarão se trata de expressar a idéia de que cairão, tal como a gente correntemente entende o de cair: descendo, como descem das alturas os corpos pesados. A Escritura, geralmente, se atém a nossas próprias expressões e usa as que nós usamos.

A impressão que tudo produzirá será enorme, devido, principalmente, a que a natureza destas estrelas é constituída por fogo. Se o Senhor determinou  que as coisas ocorram assim é porque pretende despertar nos pecadores sensações de terror.

 O da queda das estrelas poderia significar também algumas destas três coisas:  ou que ao saracotear-se deixarão atrás de si longas caudas, como as dos cometas; ou que muitos dos que na Igreja pareciam brilhar cairão dos pedestais de sua fama; ou que a reputação de que gozavam ficará reduzida a nada.

Sobre o quarto sinal, que consistirá na consternação das gentes, diz a Escritura: “Haverá uma tribulação como nunca houve desde o começo do mundo,”  etc (Mateus, 24).

A respeito do quinto sinal, o do rugido do mar e bramido das ondas, opinam alguns que desaparecerão os oceanos em meio de um grande estrépito, baseando-se nesta afirmação do capítulo 21 do Apocalipse: “Já não existirá o mar”.  Outros supõem que se tratará de um feroz rugido produzido pelas águas ao elevar-se quarenta codos sobre a crista das montanhas para descer seguidamente e precipitar-se no abismo. São Gregório, baseando-se neste texto, “então ocorreu uma perpetuação nova e inaudita do mar e das ondas”, entende que este quinto sinal deve interpretar-se literalmente.   

 

2. Quinze sinais que precederão o Juízo, conforme os hebreus

 

São Jerônimo achou nos “Anais dos Hebreus” uma relação de até quinze sinais que precederão ao Juízo, embora não nos diga se esses quinze sinais haverão de aparecer imediatamente um após o outro, ou separados entre si por intervalos de tempo.

Eis aqui a relação dos quinze sinais:

No primeiro dia o mar se levantará quarenta codos por cima das montanhas e formará como um muro ao redor delas.

No segundo dia descerá até fazer-se invisível.

No terceiro dia, a superfície da água aparecerá coberta de bestas marinhas bramindo tão estrepitosamente que o fragor de seus rugidos chegará até o céu; porém só Deus entenderá o sentido de seu imponente alvoroço.

No quarto, as águas do oceano entrarão em ebulição.

No quinto, toda a vegetação da terra, todas as árvores e todas as ervas se cobrirão de orvalho sanguinolento e, segundo alguns, todas as aves do céu se congregarão e formarão manadas ingentes, reuindo-se em cada uma delas as da mesma espécie e se negarão a comer e beber e permanecerão aterradas, esperando a chegada do Juíz.

No sexto dia, todos os edifícios se desmoronarão, enquanto uma sarabanda de chispas e raios percorrerá o espaço do poente ao nascente sulcando o alto do firmamento.

No sétimo, umas pedras se chocarão com outras; cada uma delas se partirá em quatro pedaços; os fragmentos entrarão em colisão e ao chocar-se entre si produzirão espantosos trovões cujo significado, oculto ao homem, só Deus será capaz de interpretar.

No oitavo dia, haverá um terremoto geral, tão espantoso que pessoas e animais perderão o equilíbrio e rolarão por terra.

No nono, montanhas e colinas se reduzirão a pó e a terra ficará nivelada.

No décimo dia, os homens sairão das cavernas em que se haviam refugiado e vagarão como loucos, sem falar-se entre si, mudos de estupor.

No décimo primeiro, à saída do sol, se abrirão todos os sepulcros para que os mortos possam sair deles; sairão as ossadas e permanecerão imóveis à beira de suas respectivas covas até a chegada da noite.

No décimo segundo dia se despencarão as estrelas: todos os astros, tanto os fixos quanto os errantes, deixarão atrás de si longas caudas de fogo, e do interior de sua substância brotarão outros corpos siderais. Se diz também que neste dia todos os animais se congregarão no campo, rugindo e bramindo, sem comer nem beber.

No décimo terceiro, os seres humanos que estiverem todavia vivos morrerão, para ressuscitar depois com os demais mortos.

No dia décimo quarto arderão a terra e o céu.

No décimo quinto dia surgirão uma terra e um céu novos e tornarãoà vida todos os defuntos.

 

3. Quatro maneiras como o Anticristo tentará enganar

 

O segundo fato que precederá ao Juízo será o domínio das falácias do Anticristo, que se esforçará para enganar a todos, de quatro maneiras.

Primeira. Tratando habilmente de propagar uma falsa interpretação das Escrituras; desse modo persuadirá ao povo de que ele é o messias prometido, logrará a destruição da Lei de Cristo e implementará a sua. A Glosa comentando estas palavras do salmista: “institui, Senhor, um legislador sobre eles”., diz que esse legislador é o Anticristo, e explica estas outras do capítulo 11 de Daniel, “introduzirão no templo a abominação e desolação”, da seguinte maneira:  o Anticristo se apossará do templo como se fosse uma dinvidade e abolirá a Lei do verdadeiro Deus.

Segunda. Conseguindo enganar a muitos com suas obras malignas. Com efeito, na Segunda carta aos Tessalonicenses, capítulo segundo, versículo 9, lemos: “Se apresentará assistido pelo poder de Satanás e falará palavras mentirosas e fará sinais e prodígios enganosos”.  No Apocalipse (13,13), se diz: “Fará sinais tais como fazer descer do céu fogo sobre a terra”.   A Glosa comenta esta passagem desta maneira:  “Do mesmo modo que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em forma de fogo, assim os sequazes do Anticristo infundirão o espírito do mal em forma de fogo sobre as gentes.

Terceira. Semeando a confusão, valendo-se da abundância de seus dons, como adverte a Escritura: “Lhes concederá poder sobre muitos elementos, e dividirá a terra gratuitamente” (Daniel 11, 39), texto que a Glosa assim comenta: “O Anticristo distribuirá vultosos dons entre seus enganados prosélitos e dividirá a terra entre as hostes que lhe sigam”;  e, com efeito, isto fará: explorará a avareza e subjugará por esse procedimento aos que não possa submeter pelas vias do temor.

Quarta. Procurando-se sequazes na base do terror. Daniel afirma que produzirá uma incrível devastação. São Gregório, falando do Anticristo, escreve: “Dotado de força corporal para vencer aos que nunca haviam sido vencidos, poderá inclusive causar a morte aos mais robustos”.

 

4. O fogo que descerá do céu e sua finalidade

 

O  terceiro sinal precursor do Juízo consistirá na veemência do fogo, que aparecerá antes do aparecimento do Juiz.  Este fogo será enviado por Deus com estas quatro finalidades:

Primeira. Para renovar o mundo. Por este procedimento purificará e renovará todos os elementos. Se elevarão suas chamas quinze codos por cima das mais altas montanhas, como ocorreu com as águas do dilúvio. A “História Eclesiástica” assegura que jamais edifício humano alcançará a altura que terão as chamas desse fogo.

Segunda. Para purificar os homens; porque servirá de purgatório aos que então estiverem vivos.

Terceira. Para aumentar o tormento dos condenados.

Quarta. Para iluminar mais intensamente aos santos. Segundo São Basílio, enquanto o mundo seja purificado Deus separará a luz do calor, e enviará a totalidade do fogo à região dos condenados para incrementar seu tormento, e a totalidade da luz à região dos bem-aventurados para aumentar sua glória.

 

5. Circunstâncias especiais que acompanharão o Juízo

 

Eis aqui algumas das várias circunstâncias que rodearão ao Juízo:

Primeira. A vista da causa. O Juiz se apresentará no Vale de Josafá e julgará tanto aos bons quanto aos maus. Os bons colocá-los-á à sua direita e os maus à sua esquerda. Provavelmente Ele se situará num lugar alto para que possa ser visto por todos. Não é necessário crer que toda a humanidade vá caber na pequena área do referido vale. São Jerônimo adverte que essa crença seria pueril. Na superfície desse vale estarão os que caibam; o resto se situará em lugares adjacentes. Advertimos, sem embargo, que numa zona determinada de terreno cabem muitos milhões de pessoas, sobretudo se estão apinhadas. Ademais, se fosse necessário, os bem-aventurados, devido à agilidade de que já gozarão seus corpos, poderão ficar suspensos, como flutuando no ar. Inclusive os condenados poderiam, por concessão de Deus, suspender-se, sem gravidade, a certa altura no espaço. O Juiz começará o seu ofício julgando os maus, recriminando-lhes por não haver cumprido as obras de misericórdia. Eles prorromperão em prantos. São Crisóstomo comentando a correspondente passagem de S. Mateus, escreve:

“Chorarão sobre si os judeus, ao ver vivo e vivificador a quem creram homem definitivamente morto; ante o testemunho de seu corpo com as credenciais de suas chagas, não poderão negar o crime que cometeram.

Também chorarão sobre si os gentios, que enganados por falsas filosofias estimaram irracional e ingênuo dar culto a um Deus crucificado.

Chorarão sobre si os cristãos pecadores por haver amado ao mundo mais que a Cristo.

Chorarão sobre si os hereges ao dar-se conta de que esse Juiz que os está julgando é aquele a quem os judeus tanto fizeram sofrer, e lamentarão não haver visto eles nEle mais que a um mero homem crucificado.

Chorarão sobre si mesmas todas as tribos da terra ao advertir que já não têm forças para seguir opondo-se a Ele, nem possibilidade de fugir de seu olhar, nem oportunidade de fazer penitência, nem tempo para emendar seus passados erros.

Tudo será angústia na zona dos maus; para eles não haverá mais do que já eterno conflito”.

Segunda.  As diferenças quanto ao modo de ser uns e outros julgados.  Sobre isto escreve São Gregório:

“Quatro procedimentos diferentes se seguirão neste Juízo: dois para os réprobos e  dois para os eleitos. Quanto aos primeiros, alguns deles serão recriminados na consabida e dita maneira: ‘Tive fome e não me destes de comer’;  em troca, outros não serão expressamente interpelados, mas sim condenados.  “Todo o que crê”, diz a Escritura, “já está julgado”.  Isto significa que aqueles que não quiseram receber a Fé, nem escutar uma só palavra da doutrina de Jesus Cristo tampouco ouvirão nesta ocasião a interpelação do Juiz.

Pelo que toca aos eleitos, os mais perfeitos sim serão julgados, reinarão, e inclusive julgarão aos demais, não pronunciando sentenças, que isto compete exclusivamente ao Juiz, senão assistindo-lhe no ato judicial. Serão distinguidos com esta honra por várias razões: Em primeiro lugar, para sua própria honra: grande distinção supõe para os santos sentar-se no Tribunal com o Juiz, conforme a promessa de Cristo: “Os sentarei no trono para julgar, etc.”   (Mateus 5, 9).

Em segundo lugar para que colaborem na confirmação da verdade: porque eles referendarão a sentença do Juiz de modo semelhante aos que acompanham aos juízes da terra nos tribunais de justiça referendando e corroborando com sua assinatura a sentenças que estes emitam. Daí as palavras do salmista: “Assinarão com eles a ata do Juízo” (Salmo 149). Em terceiro lugar para que intervenham na condenação dos malvados, mostrando o testemunho de sua própria vida frente à conduta depravada dos réprobos”.

Terceira. A ostentação das insígnias da Paixão: a Cruz, os cravos e as chagas do corpo de Cristo. Com a apresentação destes sinais se pretende:

a) Dar testemunho da soberana vitória do Redentor, fazendo que todos vejam estas insígnias envoltas em gloriosos esplendores. “A Cruz e as chagas do Salvador brilharão mais que os raios do sol”, diz São Crisóstomo, comentando São Mateus. Se se tem em conta que então o sol estará obscurecido e a luz apagada, se compreenderá como a Cruz sobrepujará em claridade à lua e em resplendores ao sol.

b) Manifestar a divina misericórdia e deixar claro que por ela, benignamente, os justos obtiveram sua salvação.

c) Deixar constância da justiça de Deus e certificar quão justissimamente os réprobos incorreram em condenação por haver menosprezado o valor do sangue de Cristo. São Crisóstomo, comentando S. Mateus, põe na boca do Juiz estas censuras dirigidas aos malvados:

“Por vós me fiz homem e fui manietado, escarnecido, torturado e crucificado. Qual tem sido o fruto de injustiças que contra mim se perpetraram e das injúrias de que fui objeto? Eis aqui o preço do sangue que derramei para redimi-lo. Que me haveis dado vós em troca deste sangue de valor infinito? Os preferi à minha glória, posto que sendo Deus me fiz homem, e como homem vivi a vosso lado; vós não obstante me concedestes menos importância que a mais trivial coisa e prestastes mais atenção a qualquer das bagatelas da terra que a minha doutrina e a minha lei”.   Até aqui São Crisóstomo.

Quarta. A quarta circunstância que rodeará à celebração do Juízo é a severidade do Juiz, que é, diz São Crisóstomo, “Todo-Poderoso e invencível e impermeável a qualquer temor; não há força que possa resistir ante Ele; ninguém poderá escapar, etc;  é riquíssimo e insubornável”.  São Bernardo escreve:

“Virá o dia em que os corações puros valerão mais que as mais arranjadas desculpas, e as boas consciências sobrepujarão em valor as bolsas repletas de dinheiro. Este Juiz não se deixará abrandar nem pelas palavras nem pelas dádivas”.

“Chegará o esperado Juízo, lemos em Santo Agostinho, e comparecerá o justíssimo Juiz que não faz acepção de pessoas, por importantes que sejam, e mantém o palácio de sua justiça totalmente fechado e não o abrirá por muito que tratem de suborná-lo com dádivas de ouro ou prata bispos, abades ou condes”.  Nem atuará influenciado pelo ódio, porque é a suma bondade e na suma bondade o ódio não tem cabimento.

“Não tens aborrecido jamais nada de quanto fizeste”, se diz no capítulo 11 do Livro da Sabedoria. Nem se deixará se enternecer pelo amor, porque é justíssimo e não fará exceções nem sequer com os falsos cristãos que algum tempo foram seus irmãos. Já o diz o salmista: “O irmão não redimirá...etc”.  Nem cometerá erros, porque é sapientíssimo.

“Seu olhar”, escreve o Papa São Leão, é impressionante.  Ante ele, o compacto se torna transparente; o oculto, manifesto; o luminoso obscuro e os mudos se tornam loquazes; em sua presença até o silêncio fala e a mente, sem necessidade de vocábulos, declara seus pensamentos. Sendo, pois, tal sua sabedoria e tanta, de nada valerão frente a ela nem os discursos dos advogados nem os sofismas dos filósofos nem a brilhante eloqüência dos oradores nem a habilidade dos mais astutos e sagazes”.

Em relação com isto, diz São Jerônimo:

“Quantos mudos, em semelhante ocasião, se sentirão mais ditosos que muitos que foram expeditos conversadores! Quantos pastores mais felizes que os filósofos! Quantos rústicos mais alegres que os oradores e quantos ignorantes se mostrarão mais alegres que se houvessem tido a eloqüência de Cícero!”

Quinta circunstância.  É horrenda. Constituem-na os acusadores do pecador, que serão três: o diabo, a própria consciência e o mundo inteiro.  Primeiramente atuará o diabo, que segundo Santo Agostinho “com suma dilig6encia nos recordará as palavras de nossa profissão e frente a elas fará desfilar tudo o que temos obrado, o lugar e a hora em que pecamos e o que deveríamos ter feito em vez do que realmente fizemos. Nosso inimigo dirá:  Justíssimo Juíz, reconhecei que este homem me pertence posto que é culpável. Era teu por natureza, e teu deveria haver sido pela graça, mas é meu por sua desagradável conduta; verdade que o ganhaste por tua Paixão, porém eu te arrebatei com minhas persuações;  a Ti te desobedeceu por obedecer-me a mim; de Ti recebeu uma estola de imortalidade, porém a tirou para colocar esta túnica andrajosa que leva; despojou-se da vestidura que Tu lhe regalaste e cobriu-se com a que eu lhe entreguei; com ela vem para mim. Justíssimo Juiz, reconhece que deve ser condenado e ir-se comigo para o inferno.

Poderá abrir a boca para defender-se quem entenda que toda justiça merece ser companheiro do diabo?”   Até aqui Santo Agostinho.

Como segundo acusador atuará a própria consciência através das vozes dos correspondentes pecados. O afirma o Livro da Sabedoria no capítulo 4:

“Tremerão ao recordar suas culpas; suas iniqüidades se voltarão contra eles, acusando-os”.

“Todas suas obras”, comenta São Bernardo, “falarão ao mesmo tempo e dirão ao pecador: Tu nos tens feito; coisa tua somos; não te abandonaremos; permaneceremos sempre junto a ti; contigo estaremos quando fores julgado”.   Essas obras acusarão ao pecador de muitos e de diversas más ações.

O terceiro acusador será o mundo inteiro. “Se perguntas”, escreve São Gregório, “quem te acusará, responder-te-ei; todo o mundo;  porque quem ofende ao Criador, ao mundo em sua totalidade ofende”.  Em seu comentário sobre São Mateus, diz São Crisóstomo:

“Nada teremos que responder naquele dia, quando o céu, a água, o sol, a lua, os dias, as noite e todo o universo levante sua vós contra nós denunciando ante Deus nossos delitos; porém mesmo que todas as coisas calassem, não calarão ante o Senhor contra nós e darão testemunho de nossos pecados”.

Sexta circunstância.  As testemunhas que deporão contra o pecador. Serão três: Um que está por cima dele, que é Deus, que ainda que atue como Juiz atuará também como testemunha. “Eu Sou Juiz e testemunha”,  disse o Senhor (Jeremias 29). Outro que está dentro do próprio pecador e é sua consciência. Se temes ao Juiz que há de te julgar, conforma desde agora mesmo devidamente tua consciência, porque quando se julgue tua causa será chamada a declarar. O outro está situado ao lado do pecador e é seu Anjo da Guarda, conhecedor de quanto seu pupilo tem feito. Também ele aduzirá um testemunho desfavorável. Assim o assegura Jó no capítulo 20 de seu Livro: “Os céus, quer dizer, os anjos, descerrarão o véu e deixarão à vista as iniqüidades que fiz”.

Sétima circunstância. A acusação propriamente tal contra o pecador. Vejamos este texto de São Gregório:

“Oh, em que difícil transe acha-se então o pecador! Sobre ele, um Juiz irado; debaixo, um caos horroroso; à sua direita, acusando-lhe, seus pecados; à sua esquerda, uma plêiade de demônios preparando-se para levar-lhe aos suplício; dentro de si, sua consciência queimando-lhe as entranhas, e fora, o mundo inteiro excitado contra ele.

Oh, pecador miserável, colhido por todos os lados! Por onde poderás escapar? Conseguirás ocultar-te? Não; isso é impossível; visível permanecerás ainda que isso te resulte intolerável”.

Oitava Circunstância.  A irrevogabilidade da sentença, que não poderá nem ser modificada nem discutida nem apelada. Por três motivos uma sentença das emitidas pelos tribunais de justiça pode resultar inapelável: Primeiro: Quando for ditada por um juiz supremo. Por isso são inapeláveis os veredictos emitidos por um rei quando atua como juiz soberano em seu reino, porque em todo o território submetido à sua jurisdição não há ninguém superior a ele. Pela mesma razão são também inapeláveis as sentenças pronunciadas pelos imperadores e pelos papas. Segundo: Quando o delito que se julga foi suficientemente provado. Contra um crime notório não cabe recurso algum.  Terceiro: Quando a demora da aplicação da sentença acarretaria graves prejuízos. No caso do juízo do pecador a apelação é impossível, não já meramente por algum destes motivos, senão por todos eles. O juiz que emite o veredicto é absolutamente soberano e eterno em dignidade e poder; ninguém há sobre Ele nem o haverá nunca; os imperadores e papas estão debaixo dEle. Da sentença de um imperador ou de um Papa cabe apelar ante o tribunal de Deus. Da sentença dada por Deus não se pode apelar ante o tribunal de ninguém, porque ninguém há nem haverá superior a Ele.  Todos os delitos e iniqüidades dos réprobos ficarão postos de manifesto no juízo de que falamos, como disse Jeremias:

“Chegará o dia em que nossas obras ficarão tão patentes como se as houvéssemos pintado num quadro”.

O veredicto, finalmente, se executará sem demora, naquele mesmo instante, com a rapidez de um abrir e fechar de olhos”.[1]



[1]              Legenda Dourada”, versão espanhola, Editora Alianza Forma, páginas 25/29, volume 2