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sábado, 2 de outubro de 2021

COMO A ÁGUA É VISTA NAS SAGRADAS ESCRITURAS

 


                        (Nas Bodas de Caná a água foi transformada em vinho)

Nas Sagradas Escrituras a água é citada desde o Gênesis, na criação do mundo, com menção em todas as fontes, mares e rios: “...e o espírito de Deus era levado por cima das águas”...; “Faça-se o firmamento no meio das águas, das que estavam por baixo do firmamento, das que estavam por cima do firmamento”...; “As águas que estão debaixo do céu, ajuntem-se no mesmo lugar, e elemento árido apareça. E assim se fez. E chamou Deus ao elemento árido terra, e ao agregado das águas mares” (Gen 1, 2-10). Pela narrativa vê-se que o elemento primordial na Criação, entre nós, foi a água, coisa cientificamente comprovada.

 

Maldições pelas águas:

 

“Moisés e Aarão fizeram como o Senhor tinha ordenado. E Aarão levantou a sua vara e feriu as águas do rio na presença do faraó; e dos seus servos; e toda a água do rio transformou-se em sangue”. (Ex 7, 20)

“Por isso mesmo que este povo rejeitou as águas de Siloé, que correm em silêncio, e quis antes acostar-se ao partido de Rasin, e ao do filho de Romélia: por este motivo eis que o Senhor fará sobre eles vir as águas impetuosas e abundantes, ao rei dos assírios, e todo o seu poder: e subirá sobre ele todos os seus ribeiros, e correrá por cima de todas as suas margens. E se espraiará por Judá inundando-a, e indo assim passando, lhe chegará até o pescoço. E a extensão de suas asas encherá a largura da tua terra, ó Emanuel”  (Is 8. 6-8). Rasin foi um rei da Síria (século VIII a.C) que invadiu o reino de Judá (IV Rs 15,16; II Par 28,5) e cercou Acaz, em Jerusalém. Foi morto pelo rei da Assíria, Teflatfalasar.

 

“E se irá extinguindo a água do mar, e o rio minguará, e se secará. E as ribeiras se esgotarão: as levadas por entre açudes diminuirão e se secarão: as canas e os juncos murcharão: o álveo dos regatos ficará descoberto desde o seu olheiro, e toda sementeira de regadio se secará, ir-se-á murchando, e não vingará. E entristecer-se-ão os pescadores e chorarão todos os que lançam anzol ao rio, e desmaiarão os que estendem redes sobre a tona d’água. Confundidos serão os que trabalham em linho, frisando  e tecendo finas teias. E ficarão as suas terras de regadio assim fracas: todos os que faziam lagoas para apanhar peixes” (Is 19, 5-10).

 

Há uma expressão usada na Bíblia, chamada de “água da aflição” ou “água da angústia” que é usada para caracterizar um castigo semelhante ao que passa fome e sede: “Metei este homem na cadeia e sustentai-o com o pão de tribulação, e água de angústia, até que volte a paz”  (III Rs 22, 27 e II Par 18, 26).

 

A respeito do adultério, Moisés aprovou o seguinte procedimento legal:

“O sacerdote pois a oferecerá, e a apresentará diante do Senhor. E tomando da água santa num vaso de barro, lançará nela um pouco de terra do pavimento do tabernáculo. E tanto que a mulher se apresentar diante do Senhor, o sacerdote lhe descobrirá a cabeça, e lhe porá nas mãos o sacrifício de reconciliação, e a oferta de zelos: e ele mesmo terá as águas amaríssimas, sobre que pronunciou as maldições com execração: e a esconjurará, e lhe dirá: Se um homem estranho não dormiu contigo, e tu te não manchaste, largando o leito de teu marido, não te farão mal estas águas amaríssimas, sobre que eu lancei as maldições. Mas se tu te apartaste de teu marido, e te manchaste, e te deitaste com outro homem: cairão sobre ti estas maldições: o Senhor faça te faça um objeto de maldição, e um exemplo para todo o seu povo: Ele faça que apodreça a tua coxa, e que o teu ventre inchado arrebente. Estas águas de maldição entrem no teu ventre, e inchando-te o útero, apodreça a tua coxa.” (Num 5, 16-22). Tal ocorreria apenas se a mulher fosse culpada, pois se fosse inocente não sentiria a amargura da água.

 

As bênçãos, muitas vezes, são dadas através das águas:

 

“Tendo Moisés pois estendido a sua mão sobre o mar, o Senhor lhe dividiu as águas fazendo que toda a noite assoprasse um vento veemente, abrasador, que lhe secou o fundo. Estando a água assim dividida, entraram os filhos de Israel pelo meio do mar seco, pela direita e esquerda a água que lhes servia como um muro”. (Ex 14, 21-22).

 

“E sentindo grande sede, clamou ao Senhor, e disse: Tu foste o que salvaste o teu servo e o que lhe deste esta grande vitória: eis agora morro eu de sede, e cairei nas mãos dos incircuncidados. Abriu pois o Senhor um dos dentes molares na queixada do jumento, e saíram dele águas. E bebendo delas Sansão recobrou alento e recuperou as forças. Por isso foi àquele lugar chamado até o dia de hoje fonte do que invoca da Queixada”  (Jz 15, 18-19).

“Tão saborosa é a água fria à alma que tem sede como é uma boa nova que vem de um país remoto” (Provérbios 25, 25).

 

“Assim como na água resplandece o rosto dos que estão se vendo nela, assim os corações dos homens são descobertos aos prudentes” (Provérbios 27, 19).

“E dar-se-á chuva para o teu grão, onde quer que o semeares na terra: e o pão dos frutos da terra será abundantíssimo e pingue: naquele dia será o cordeiro apascentado em espaçosa extensão na tua herdade. E os teus touros, e jumentinhos, que lavram a terra, comerão toda a mistura de grãos como eles foram padejados na eira.  E sobre todo o monte alto, e sobre todo o outeiro elevado haverá arroios d’águas correntes no dia da mortandade de muitos, quando caírem as torres. (Is 30, 23-26).

 

“Porque eu derramarei águas sobre a terra sequiosa, e rios sobre a seca; derramarei o meu espírito sobre a tua posteridade, e a minha bênção sobre a tua descendência” (Is 44, 3).

 

“E todo o que der a beber a um daqueles pequeninos um copo d’água fria, só pela razão de ser meu discípulo, na verdade vos digo, que não perderá a sua recompensa”(Mt 10, 42).

 

“Em verdade, em verdade, te digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus”(Jo 3, 5).

 

A purificação pela água

 

São João Batista não foi o primeiro “Eu vos batizo em água para vos trazer à penitência” (Mt 3, 11), pois já havia o costume há muitos anos entre o povo eleito da purificação pela água, o que motivou, por exemplo, esta bênção de Ezequiel:

“E derramarei sobre vós uma água pura, e vós sereis purificados de todas as vossas imundícies, e eu vos purificarei de todos os vossos ídolos”. (Ez 36, 25).

No Cântico dos Cânticos, referindo-se a Nossa Senhora, chamada ali de “Jardim Fechado” e “Fonte Selada”, a produção é abundante: “As tuas produções são um jardim de romãs com frutos de macieiras. Chipres com o nardo, o nardo e o açafrão, a cana aromática e o cinamomo com todas as árvores do Líbano, a mirra e o aloés com todos os bálsamos da primeira estimação.  A fonte dos jardins: o poço das águas vivas que com ímpeto correm do Líbano” (Cânt 4, 13-15)

 

O pior dos males é a falta de água:

 

“... e não puderam beber das águas de Mara, porque eram amargas...” (Ex 15, 23); “...tu ferirás a pedra, e dela sairá água, para que o povo tenha donde beber” (Ex 17, 6).

“Disseram também a Eliseu os habitantes desta cidade: a habitação desta cidade é muito cômoda, como tu mesmo , senhor, vês: mas as águas são péssimas, e a terra estéril. E ele respondeu: Trazei-me um vaso novo, e deitai-lhe sal. Como lho tivessem trazido, saiu ele à fonte das águas, e deitou sal nela, e disse: Eis aqui o que diz o Senhor: Eu sarei estas águas, e elas não causarão mais nem morte, nem esterilidade. Tornaram-se pois sadias as águas até ao dia de hoje conforme a palavra que disse Eliseu”  (IV Rs 2, 19-22)

“Os magnates enviaram os seus inferiores por água: foram a tirá-la, não acharam água, voltaram com os seus cântaros vazios: confundiram-se e afligiram-se e cobriram as suas cabeças. Pela desolação da terra, porque não veio chuva sobre a terra, se confundiram os lavradores, cobriram as suas cabeças”. (Jer 14, 3-4). “... e a terceira parte das águas se converteu em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque elas se tornaram amargas.”(Apoc 8, 11).

 

Águas da contradição:

 

Nome dado para lembrar o lugar onde o povo eleito se revoltou e murmurou contra Deus, após Moisés haver batido com o cajado no rochedo e a água não haver brotado de imediato: “Esta é a água da contradição, onde os filhos de Israel murmuraram contra o Senhor, e onde o Senhor foi santificado no meio deles” (Num 20, 13). Por causa disso, tanto Moisés quanto os “anciãos do povo” não entraram na terra prometida, mas morreram todos antes: “...porque vós prevaricastes contra mim no meio dos filhos de Israel nas águas da contradição em Cades, do deserto de Sin: e não me santificastes entre os filhos de Israel. Tu verás defronte de ti a terra que eu hei de dar aos filhos de Israel, e não entrarás nela”  (Dt 32, 51). Quando Deus diz assim “tu verás diante de ti a terra que eu hei de dar...”, significa que era fácil identificar a terra prometida antes de entrar nela, talvez pela exuberância e riqueza de seu solo, como havia sido dito em várias passagens anteriores da Sagrada Escritura.

Mulheres vão em busca de água:

 

Em geral eram as mulheres, e não os homens, que buscavam água pra beber nas fontes. São Marcos dá ênfase ao fato de Jesus haver dito que um homem levaria água para a Santa Ceia: “... e lá vos sairá ao encontro um homem que levará uma bilha de água: ide atrás dele...” (Mc 14, 13), pois isso não era comum, mas não indica que ele tinha ido á fonte pegar aquela água ou se a trazia de sua casa. O costume era que as mulheres fossem ás fontes buscar água, como narra o episódio da Samaritana (Jo 4, 7-8): “Veio uma mulher de Samaria a tirar água...”

 

Deus é fonte de água viva:

 

“Porque dois males fez o meu povo: Deixaram-me , fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter as águas” (Jer 2, 13).

“Senhor, tu és a esperança de Israel! Todos os que te deixam, serão confundidos: os que se apartam de ti, serão escritos sobre a terra: porque deixaram o Senhor, que é a fonte das águas vivas” (Jer 17, 13).

 

“Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber: tu certamente lhe pedirás, e ele te daria a ti da água viva” (Jo 10, 11).

“Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sede; mas o que beber da água que eu lhe dar, nunca jamais terá sede.  Mas a água que eu lhe der virá a ser nele uma fonte de água, que salte para a vida eterna”  (Jo 4, 13-14).

"Se alguém tem sede, venha a mim e beba. O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios de água viva". (Jo 7, 38).  “...porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará, e os levará às fontes das águas da vida, e enxugará Deus toda a lágrima dos olhos deles” (Apoc 7, 17).

“De Vós tem sede a minha alma, por Vós desfalece a minha carne; Como a terra árida, esgotada e sem água”(Sl 62, 2).

 

“Eis aqui vêm os dias, diz o Senhor: e enviarei fome sobre a terra: não a fome de pão, nem a sede de água, mas de ouvir a palavra do Senhor. Eles se comoverão desde um mar até outro mar, e desde o aquilão até ao oriente, eles andarão por toda a parte buscando a palavra do Senhor, e não a acharão”(Am 8, 11-12).

 

Água batismal  

 

É a água benta solenemente no Sábado Santo e na vigília de Pentecostes, em todas as igrejas que tenham pia batismal, consistindo numa série de orações , cantos e bênçãos,  incluindo a imersão do círio pascal e a mistura da água com os óleos santos abençoados pelos bispos em todas as catedrais na Quinta-Feira Santa. Há no Ritual uma fórmula abreviada para essa bênção quando feita fora dos dias assinalados.

 

Água Benta  

 

Trata-se da água benta pelo celebrante durante os ofícios do Sábado Santo, ou quando for necessário, de preferência antes da missa principal aos domingos. Tem sido usada na Igreja desde o século IV, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Usa-se também como sacramental antes da Missa dominical de preceito; ao entrar e sair da igreja e em quase todas as bênçãos de pessoas, lugares e objetos de uso pessoal ou coletivo. A Igreja usa também a água benta como exorcismo, em nome da Santíssima Trindade, subtraindo-a ao poder do demônio e invoca sobre ela o poder para lançar fora ou dominar, pela presença do Espírito Santo, a influência dos demônios. Mistura-se também com a água benta o sal exorcizado para significar a preservação do pecado. O uso piedoso da água benta, como os demais sacramentais, traz benefícios aos que a usam, quer pela bênção da Igreja, quer pela fé e piedade que inspira.

 

Para que serve a água benta?

 

Há várias formas de usá-la. A mais comum é persignar-se com ela. Outra é aspergi-la sobre si mesmo, sobre outras pessoas, lugares ou objetos. Qualquer leigo ou leiga pode fazer isto. Naturalmente, quando feito por um sacerdote tem mais peso.Seu efeito mais importante é afastar o demônio. Este “ronda em torno de nós como o leão que ruge”, procurando fazer- nos toda espécie de mal, como nos adverte São Pedro (I Ped 5,8). Os espíritos malignos, cujas misteriosas e sinistras operações afetam às vezes até as atividades físicas do homem, querem, antes de tudo, induzir-nos ao pecado grave, que conduz ao inferno. Para isto empregam todos os recursos. Às vezes, por exemplo, provocam em nós um sem número de incômodos físicos ou psicológicos.

Outras vezes provocam pequenos incidentes, em nosso dia-a-dia, criam atrapalhações que parecem ter causas meramente naturais.Por exemplo, na hora de cumprir um dever, a pessoa sente um inexplicável mal-estar, um inesperado desânimo, uma estranha dor de cabeça… Em certas oportunidades, sem qualquer motivo, o marido fica repentinamente irritado contra a esposa, ou vice-versa, daí surge uma discussão e se quebra a paz do lar. Ou, então, o pai ou a mãe deixa-se levar por um movimento de impaciência e repreende duramente o filho, em vez de admoestá-lo com doçura. O filho se revolta, sai de casa. Está criado um problema! Tudo isso pode ser evitado afugentando o demônio com um simples sinal-da-cruz, feito com água benta. Quando você sentir uma irritação estranha, faça essa experiência, e preste atenção no efeito salutar que produz! Logo lhe voltará a serenidade.

 

Além do mais, a água benta é um sacramental que nos alcança o perdão dos pecados veniais, pode livrar-nos de acidentes (trânsito, assaltos, quedas), e ajuda até a curar doenças. O conhecido livro “Tesouro de Exemplos” conta que uma criança gravemente enferma ficou imediatamente curada ao receber a bênção de São João Crisóstomo com água benta.A água benta, como todo sacramental, leva-nos a invocar, nas diversas circunstâncias do dia, o socorro do Divino Espírito Santo, para o bem de nossa alma e de nosso corpo.

 

Outro benefício muito interessante e pouco conhecido: ela pode ser usada eficazmente em proveito de pessoas que se acham distantes de nós. E mais, cada vez que a utilizamos para fazer o sinal-da-cruz, na intenção das almas do purgatório, elas são aliviadas dos seus sofrimentos.

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O DESCANSO DIVINO

Descanso – No Gênesis está escrito que Deus ao concluir o Universo, descansou (Gên 2, 3). Quer dizer, foi dormir? Não, vendo que sua obra era boa passou a desfrutá-la, gozar dela. Na linguagem corriqueira descansar é livrar-se do cansaço, da fadiga do trabalho, etc, ou então, deixar de ter preocupações, esquecer-se dos problemas e repousar a mente e o pensamento, obter tranqüilidade. Também quando a pessoa morre diz que “descansou no Senhor” ou obteve o “descanso eterno”. Há, contudo, um sentido mais profundo, o qual explica o que diz o Gênesis ao falar do “descanso” divino. São Paulo condena acerbamente os hebreus porque não ouviram as palavras divinas e, por isso, perderam o direito do “descanso”: Para penetrar no Significado de “descanso”, precisamos fazer as seguintes indagações: o que é o verdadeiro descanso? Em que lugar se descansa? O lugar melhor para o descanso são as moradas, ou as interiores ou as celestes; e o verdadeiro descanso é a paz de espírito. Disse o Apóstolo: “Temamos, pois que, desprezando a promessa (de Deus) de entrar no seu descanso, haja algum dentre vós que dele seja excluído. Da mesma forma que eles (israelitas), também nós recebemos a boa nova; porém a palavra que eles ouviram, não lhes aproveitou, por não ser acompanhada da fé por parte daqueles que a tinham ouvido. Porém, nós, que cremos, entraremos no descanso (do céu), segundo disse: “Como jurei na minha ira, não entrarão no meu descanso”; e com certeza, concluídas as suas obras depois da criação do mundo. Com efeito, em certo lugar falou assim do sétimo dia: “E Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras”. E outra vez: “Não entrarão no meu descanso”. Como, pois, resta que alguns entrem nele, e que aqueles, a quem primeiro foi anunciada a boa nova, não entraram por causa de sua incredulidade, fixa de novo certo dia falando de hoje, dizendo por meio de Davi, tanto tempo depois, como acima foi dito: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações”. De fato, se Josué lhes tivesse dado o descanso, (Deus) não falaria, depois disso, de outro dia. Resta portanto um sabatismo para o povo de Deus. Realmente aquele que entrou no seu descanso, também descansou das suas obras, como Deus das suas” (Heb 4, 1-10). São Paulo refere-se ao Salmo 94-8 e 11, quando disse “Hoje, dizendo por meio de Davi”, que reza assim: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações”; e “Não conheceram os meus caminhos; pelo que jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso”. Continua São Paulo: “Apressemo-nos, pois, a entrar naquele descanso, para que ninguém caia em tal exemplo de incredulidade. Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura invisível na sua presença mas todas as coisas estão a nu e a descoberto, aos olhos daquele de quem falamos” (Heb 4, 11-13). Entrar no descanso de Deus, enquanto estamos vivos, Significa simplesmente penetrar nas moradas interiores. Para tanto, basta ouvir a Palavra de Deus, que, no caso, pode ser manifestada de várias formas, sendo a mais importante aquela que ressoa no interior de nossos corações. É tão forte esta palavra que São Paulo diz que é mais cortante do que uma espada de dois gumes, chegando até àquele lugar da “separação da alma e do espírito”, quer dizer, a região interior do homem que une corpo e alma, onde encontram-se alguns atributos como a “luz primordial”, a “luz do entendimento” , o “sacrário da alma”, o “templo de Deus”, etc.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

AGAR, ESCRAVA DE SARA, DEIXOU DESCENDENTES?

A Sagrada Escritura faz suas revelações colocando em destaque sempre os Patriarcas. Eva só é importante enquanto companheira do Patriarca Adão. Depois de Eva, por muito tempo não se fala senão nos homens ou patriarcas. Adão e Eva tiveram muitas filhas, mas na Bíblia só se fala em Caim e Abel. Quando Caim se casou se registra o fato assim: “E Caim conheceu sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Henoc”. Quem era esta mulher de Caim? Evidentemente que era uma filha de Adão, merecendo portanto ser pelo menos nominada, mas não se sabe quem foi. Importante é Caim, é Set, é Henoc, porque eram patriarcas. A Sagrada Escritura começa a falar de mulheres para registrar o surgimento da poligamia: “E este tomou duas mulheres, uma chamada Ada, e outra Sela” (Gn 4, 17-19). Mas logo em seguida os filhos masculinos de Ada são citados, Jabel e Jubal, assim como o de Sela, Tubalcain, ao lado de sua irmã Noema. Jabel era designado como um dos que “habitava sob tendas e dos pastores”, Jubal foi o mestre, o pai, dos que tocam cítara e órgão, Tubalcain era artífice em toda qualidade de obras de cobre e de ferro, mas de Noema nada se fala. Ela poderia ter sido, por exemplo, exímia na arte de tecer, mas nada se diz. Em seguida a Sagrada Escritura fala de Set, filho de Adão. Depois, dentre os filhos de Set fala-se apenas de Enós, por que este “começou a invocar o nome do Senhor”. E toda a genealogia de Adão segue assim: gerou filhos e filhas, mas depois de Set aparece apenas citado o nome de Enós, que gerou Cainan, que gerou Malaleel, que gerou Jared, que gerou Henoc, que gerou Matusalém, etc. Henoc também gerou filhos e filhas, mas apenas os filhos são citados. Matusalém gerou Lamec, que gerou Noé. Todos estes patriarcas viveram trezentos, quatrocentos, quinhentos ou até novecentos anos, e geraram filhos e filhas. Mas apenas seus nomes são citados. Por que? Porque eles eram os patriarcas, eram os chefes das clãs, os principais - os demais, dentre os quais as mulheres, não tinham tanta importância para serem citados ou lembrados. Inicialmente, a mulher foi citada como a grande vencedora da serpente: "Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela, e ela te pisará a cabeça com seu calcanhar" (Gên 3-15). Os teólogos vêm no texto uma clara alusão à Maria Santíssima, Mãe do Salvador. Depois, as mulheres começaram a ser referidas de uma forma coletiva (sem citar nomes) nas ocasiões em que causavam a perdição dos homens. Foi assim que “tendo os homens começado a multiplicar-se sobre a terra, e tendo gerado filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram por suas mulheres...” Na Sagrada Escritura, alguns interpretam que “filhos de Deus” eram aqueles que viviam santamente, os descendentes de Set, mas o próprio Santo Agostinho interpreta o termo "filhos de Deus" como sendo os anjos. A interpretação de Santo Agostinho é corretíssima, pois não haveria motivos para a Bíblia se referir aos "filhos de Deus" como sendo os homens, porquanto era comum os homens tomarem as mulheres para si. Embora não possa se descartar a idéia de se chamar os homens bons também de “filhos de Deus”, que realmente eles o são. Pelo texto se entende, então, que alguns anjos tomaram algumas das filhas dos homens como mulheres. E como se trata de uma ação maléfica, se depreende que tais anjos eram os demônios. De outro lado, as chamadas “filhas dos homens” eram as que praticavam o pecado, as descendentes de Caim. A coisa chegou a tal ponto que geraram gigantes entre eles, “homens possantes e desde há muito afamados” (Gên 6, 4). A decadência era tamanha que Deus resolveu acabar com a humanidade e mandou o dilúvio. Em atenção à Noé, Patriarca puro e fiel a Deus, foi preservada a sua posteridade e dado continuidade ao povoamento da terra pelos homens. Quando tinha quinhentos anos, Noé teve seus filhos. Quais eram os filhos de Noé? Sem, Cam e Jafet. Na hora de entrar na arca, entraram também as mulheres de Noé e dos filhos, mas quem eram elas? Não se sabe, pois seus nomes não são citados. Após o dilúvio, saíram todos da Arca e está escrito: “Estes são os três filhos de Noé, e por eles se propagou todo o gênero humano sobre a terra”. (Gn 9, 10). Se propagou como? A Sagrada Escritura não fala mais sobre as mulheres dos filhos de Noé nem de outras pessoas. A partir daí se começa a descrever toda a genealogia patriarcal da posteridade de Noé. Dois foram, portanto, os principais patriarcas da Humanidade, Adão e Noé, mas seus descendentes citados na Bíblia eram somente patriarcas das épocas em que viveram. Vieram depois os patriarcas do povo eleito, que veremos a seguir. AGAR – Escrava de Sara, esposa de Abraão. Como Sara era estéril a entregou a Abraão para com ela ter filho, segundo costumes daqueles tempos. Dela nasceu o primeiro filho de Abraão, Ismael, o patriarca que deu origem aos ismaelitas, atuais árabes. Como Sara a tratasse mal resolveu fugir para o deserto. Estando lá lhe apareceu um Anjo e lhe ordenou que voltasse para a companhia de sua antiga patroa (Gen 16, 1-16), indicando que a submissão pela escravidão não era condenada por Deus. Depois que nasceu o filho legítimo de Abraão com Sara (Isaac), esta pediu ao patriarca para expulsar Agar e Ismael de sua companhia. Novamente foram para o deserto, onde foram amparados por Deus. São Paulo se refere a Agar como figurando o Antigo Testamento e Sara o Novo (Gál. 4, 24), o filho da escravidão e o filho legítimo. Agarenos – Tribo de nômades árabes, descendentes de Ismael, filho de Agar. Por suas guerras contra atribo de Rubem deviam viver na antiga Transjordânia (I Par 5, 10). Foram vencidos e submetidos pelos israelitas no tempo do rei Saul (I Par 5, 18 e ss). A Wikipédia assim define o termo: Agarenos ou Hagarenos (em grego: Ἀγαρηνοί; transl.: Agarenoi; em siríaco: ܗܓܪܝܐ‎ ou ܡܗܓܪܝܐ; transl.: Hagráyé ou Mhaggráyé é um termo amplamente usado por fontes primitivas siríacas, gregas, coptas e armênias para se referirem aos primeiros conquistadores árabes da Mesopotâmia, Síria e Egito. O nome foi usado na literatura judaico-cristã e em crónicas bizantinas aplicado primeiro aos árabes Hanif[a] e posteriormente às forças islâmicas como sinônimo de sarracenos. O termo siríaco Hagraye pode ser traduzido como "os seguidores ou descendentes de Agar, enquanto Mhaggraye está provavelmente relacionado com o termo árabe Muhajir (primeiros seguidores de Maomé). Alguns estudiosos pensam que os termos podem não ter origem judaico-cristã. Patricia Crone e Michael Cook defendem no seu livro "Hagarism: The Making of the Islamic World" que o termo foi introduzido pelos próprios muçulmanos para descreverem o seu avanço militar para o Levante e Jerusalém em particular, como uma Hijra. O termo ismaelita, que usualmente designa especificamente um ramo do Xiismo é por vezes usado como sinônimo de agareno. Agareno pode ainda designar qualquer muçulmano. Um exemplo disso pode eventualmente ser Ahryani (Aхряни), uma designação para os búlgaros muçulmanos usada em búlgaro coloquial; no entanto a origem deste termo tem também sido explicado como resultado do paralelismo existente entre a expansão do Islão nos Balcãs com o Arianismo antitrinitário.[carece de fontes. Importante notar que os muçulmanos introduziram várias denominações em seus conceitos e na sua história a fim de justificar tratar-se de uma religião monoteísta, como serem descendentes de Abraão, etc., No entanto, a linha patriarcal naqueles tempos era tirada do ramo masculino e não feminino, trata-se de descendentes do Patriarca Abraão, que gerou em Agar o filho Ismael. Da mesma forma passaram chamar Deus pelo nome de Alá, pois trata-se que este era apenas um dos deuses antigos adorados pelo politeísmo em Meca e Medina. Talvez nisso esteja incluído o comentário feito pelos autores acima, Patrícia Crone e Michal Cook, sobre a origem do termo Agareno.

domingo, 5 de setembro de 2021

ABIGAIL – ESPÍRITO DE SERVIDÃO OU ESCRAVIDÃO VOLUNTÁRIA

Esposa de Nabal, criador que morava no Monte Carmelo no tempo de Davi e quis desafiá-lo. Abigail intercedeu pelo seu esposo fazendo uma inspirada declaração de servidão a Davi e lhe oferecendo muitos presentes. (I Sam 25, 14-36). Depois de morto Nabal, tornou-se esposa de Davi, já então rei de Israel, dando-lhe um filho por nome Queleab (2 Sam 3,3) ou Daniel (I Par 3, 1). Havia também uma irmã de Davi chamada Abigail (2 Sam 17, 25). Este espírito de servidão ou escravidão voluntária, comum entre bons israelitas, ocasionou episódios muito admiráveis, como por exemplo o de Abigail (Samuel I 25, 23-35). Davi mandara pedir ajuda a Nabal, esposo de Abigail, riquíssimo fazendeiro que tosquiava ovelhas ao pé do Monte Carmelo. Em resposta o avarento judeu diz: "Quem é Davi? E quem é o filho de Isaí?Hoje são numerosos os servos que fogem aos seus senhores. Pegarei eu portanto no meu pão, na minha água e na carne dos animais que matei para os que tosquiam minhas ovelhas, e dá-lo-ei a homens que não sei donde são?" Esta resposta era um insulto a Davi, pois o mesmo protegera aquele homem na guerra, Nabal devia portanto a Davi pelo menos o reconhecimento pelo que bem que lhe fizera. Irado, Davi se aprestava para ir com seus homens matar Nabal quando se encontra com Abigail, mulher de Nabal: “Mas Abigail, tendo visto Davi, apressou-se, desceu do jumento, prostrou-se diante de Davi, sobre o seu rosto, fez-lhe uma profunda reverência, lançou-se a seus pés e disse: Sobre mim caia, meu senhor, esta iniqüidade; peço-te que permitas à TUA ESCRAVA falar aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva.” Davi havia sido ungido por Samuel, mas ainda não reinava, pois Saul ainda era vivo. Abigail, que morava no Monte Carmelo, sabia no entanto que ele havia sido ungido. Continuando: “Não faças caso, MEU SENHOR E MEU REI, da injustiça de Nabal, porque, como o denota o seu próprio nome, é um insensato, e a loucura está com ele; mas eu, TUA ESCRAVA, não vi os criados que tu, MEU SENHOR, enviaste”. Continuando seu discurso, Abigal chama Davi de “meu senhor e meu rei” (embora ele de fato ainda não o fosse) e se declara sua escrava várias vezes, oferecendo-lhe dádivas para seus homens que trazia em seus jumentos: 200 pães, dois odres de vinho, 5 carneiros cozidos, 5 medidas de farinha, 100 cachos de uvas passas, 200 pastas de figo seco, etc. Logo depois, acrescenta ela profeticamente: “Perdoa à tua escrava a iniqüidade, porque certissimamente o Senhor estabelecerá em ti, meu senhor, uma casa estável, porque tu, meu senhor, combates pelo Senhor; não se encontre, pois, culpa em ti durante todos os dias da tua vida”. E mais adiante: “Quando, pois, o Senhor te tiver feito, MEU SENHOR, todos os bens que ele predisse de ti, e te tiver constituído general sobre Israel, não terás no coração este pesar, nem este remorso, MEU SENHOR, de ter derramado sangue inocente, ou de te teres vingado por ti mesmo”:.Profetizando que se tornaria, após a viuvez, esposa de Davi, declara: “e, quando o Senhor tiver feito bem ao meu senhor, LEMBRAR-TE-ÁS DA TUA ESCRAVA”. Em resposta, Davi diz a Abigail: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que te enviou hoje ao meu encontro, bendita a tua palavra, e bendita és tu, que me impediste hoje de derramar sangue, e vingar-me pela minha mão. Doutro modo juro pelo Senhor, Deus de Israel, que me impediu que te não fizesse mal: Se tu não viesses logo ao meu encontro, não teria ficado nada com vida desde hoje até amanhã em casa de Nabal, nem mesmo um dos que urinam à parede. Davi, pois, aceitou da sua mão tudo o que lhe tinha trazido e disse-lhe: Vai em paz para tua casa; eis que ouvi a tua voz e honrei a tua presença”.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O PODER DE REGÊNCIA DADO A ADÃO

Adão – O primeiro homem criado por Deus e o genitor de toda a raça humana. Deus poderia tê-lo criado por um simples ato de sua vontade, mas preferiu usar daquilo que havia criado antes, isto é, o “barro da terra”, e em seguida lhe criou, de Si mesmo,uma alma imortal, colocando-o no Paraíso, o Éden, a fim de que ali desfrutasse da Obra de Sua Criação e viesse feliz. Deu-lhe também poder de regência sobre toda a natureza, como o completo domínio sobre os animais, com a faculdade de lhes impor os nomes, representando nisso a autoridade sobre todos. Tudo o que houve no princípio da humanidade, com Adão e Eva no Paraíso estão narrados no livro do Gênesis, escrito por Moisés. O poder de regência dado a Adão e sua queda. Deus colocou o homem no Paraíso “para que o cultivasse e guardasse” (Gn 2.15), portanto, com duas funções derivadas do poder de reger, que é cultivar e guardar. O cultivo das plantas é algo natural e imanente ao controle humano: multiplicar as plantas e conservá-las ou, mesmo, aperfeiçoá-las; mas, guardar, isto é, proteger, defender, contra quem ou contra o quê? Talvez venha aqui a primeira missão de militância guerreira: guardar contra certo inimigo que poderia aparecer por lá e querer destruir ou danificar o seu sagrado convívio. Quando Adão foi expulso do Paraíso, Deus colocou querubins na porta do mesmo com o objetivo de guardá-lo. Se Adão havia recebido de Deus o mesmo poder de guardar o Paraíso, teria o homem então um poder semelhante não somente a um, mas a vários querubins? Ou será que Deus temia uma aliança entre os homens e os demônios para que, fortalecidos, investissem contra o Paraíso em busca da árvore da vida? Em seguida vem o preceito: não comer, ou nem sequer tocar, da árvore do bem e do mal (Gn 2,16). Havia uma outra árvore, da vida eterna, da qual não era proibido comer, mas esta da ciência do bem e do mal, sim. Uma das consequências mais desastrosas daquele fruto foi avisada por Deus: ele ocasionaria a morte. Tais preceitos parece que foram dados antes de Eva ser criada. Então ela não os teria ouvido diretamente de Deus, mas de Adão. Aqui há uma outra controvérsia: por que a serpente não os tentou para que comessem primeiramente da árvore da vida? Em primeiro lugar não era proibido comer dela; após comê-la se tornariam imortais e, aí sim, poderiam comer da ciência do bem e do mal, tornando a humanidade eterna neste mundo e aqui possibilitando a criação do reino do mal sem fim. No caso, comer da árvore da vida (como não era proibido) não representava uma afronta a Deus, não era um ato de revolta; portanto, a serpente queria primeiramente que nossos primeiros pais desobedecessem aos preceitos divinos para, depois, comer da outra árvore e viver eternamente. Só não esperava que Deus os expulsasse do Paraíso e deixasse lá os querubins guardando a árvore da vida. Isto para o bem do próprio homem: “...agora, pois, (expulsemo-lo do paraíso), para que não suceda que ele estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (3.22-23). Interessante notar que a Escritura usa o termo no singular, indicando que somente Adão foi expulso do Paraíso; “Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal, etc.”, e depois o expulsa... “e expulsou, pois, Adão...” (3, 24). Não fala em Eva, pois como pessoa secundária, não havia necessidade de citar seu nome. O patriarca era Adão, ele era o principal regente do paraíso, Eva era apenas um “adjutório” para conseguir o fim para o qual foi criado. No entanto, expulso Adão, Eva teve que segui-lo, pois a partir daquele momento ela estava debaixo do jugo dele. Não foi necessário que Deus a expulsasse, era o próprio Adão que a carregaria para fora do Paraíso. Eva diz que o preceito era não somente para não comer, mas nem sequer tocar na fruta (ou na árvore)(Gn 3,4). Talvez a norma de não tocar fosse exclusiva para ela, não se sabe. A serpente desperta o orgulho, dizendo “sereis como deuses” (Gn 3,5). Mas, que deuses? Não havia deuses ainda e sim um único Deus, o Criador de tudo. Então a pretensão não era de ser um deus qualquer, mas um que fosse igual ao Deus verdadeiro. No primeiro momento, Eva simplesmente ouve o mau conselho da serpente e come o fruto, sem que, por exemplo, fosse conversar ou pedir conselhos ao marido; em seguida, ela vê que não lhe acontece nada – quer dizer, nada de se transformar numa deusa, e mesmo assim vai oferecer o fruto a Adão com a mesma tentação de orgulho. Por aí se vê que nem toda tentação vem do demônio, às vezes são os próprios homens que levam tentação aos outros – embora ela sempre se origine no demônio. No momento em que pecou Eva não percebeu que estava nua, ou o casal só o perceberia na presença de Deus? Em seguida, vêm os atos de Adão. Mesmo vendo que Eva, após comer do fruto proibido, não tinha sofrido nenhuma transformação em deusa, come-o também, cego pela tentação do orgulho de se transformar num deus. O desejo, o orgulho de se ver igual a Deus era tanto que o cegou. Depois vem os castigos, especialmente os da mulher que passaria a ser submissa ao homem. Mas, a submissão não é um princípio universal de regência, pelo qual um ser inferior deve obediência e sub-regência de um superior? No caso, não há superioridade entre homem e mulher, pois ambos são seres da mesma espécie, mas, mesmo entre as mesmas espécies, como entre anjos, uns mandam e outros obedecem, uns são superiores e outros inferiores. Não deveria haver esta submissão da mulher mesmo que não tivesse havido o pecado? Há dois tipos de submissão: uma espontânea e outra imperada, isto é, por livre e espontânea vontade e por coação. No caso, deveria existir antes do pecado a submissão espontânea, mas, depois, Deus, por castigo, impôs a submissão imperada.