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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O MISTÉRIO DA NOITE DE NATAL







Santa Teresa Benedita da Cruz, OCD. (Edith Stein) publicou uma meditação sobre o Natal no final de seus exercícios espirituais, em 9 de junho de 1939, onde a temática principal é a dualidade de mistérios que envolveu a Encarnação do Verbo: o da própria Encarnação e o da iniquidade. Os martírios a seguir o de Cristo (Santo Estêvão e os Inocentes) dão bem uma idéia do que representava para a luta entre o bem e o mal, o nascimento do Salvador.

Eis como ela introduz o tema:

“Todos nós já sentimos essa felicidade na véspera de Natal, mesmo quando o céu e a terra ainda não se uniram. A estrela de Belém ainda é uma estrela à noite escura.  Apenas dois dias depois, a Igreja tira as roupas brancas e se veste com a cor do sangue, no quarto dia da  púrpura da tristeza.  Santo Estêvão, o Protomártir, o primeiro a seguir o Senhor no martírio e os Santos Inocentes de Belém de Judá, os filhos do peito brutalmente decapitados pelos soldados de Herodes, são o cortejo do Menino do Presépio. O que significa isto ? Onde está a alegria dos exércitos celestiais? Onde a beatitude silenciosa da véspera de Natal? Onde a paz na terra? "Paz na terra para homens de boa vontade". Mas nem todos têm boa vontade.
É por isso que o Filho do Pai Eterno teve que descer da grandeza da sua glória para a pequenez da terra, já que o mistério da iniqüidade a cobriu com as sombras da noite.
A escuridão cobriu a terra e Ele veio a nós como a luz que brilha na escuridão, mas a escuridão não a recebeu. Ele trouxe aqueles que o receberam luz e paz; paz com o Pai do céu, paz com todos os que são igualmente filhos da luz e do Pai celestial e a paz profunda e íntima do coração. Mas de nenhuma maneira a paz com os filhos das trevas. O Príncipe da paz não lhes traz paz, mas a espada. Para eles é uma pedra de tropeço, contra a qual eles colidem e batem.
Esta é uma verdade difícil e muito séria de que não devemos nos esconder com o encanto poético do Menino de Belén. O mistério da Encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos. À frente da luz que veio de cima, a escuridão do pecado torna-se mais escura e mais sombria. O Menino na manjedoura estende seus braços pequenos e seu sorriso parece predizer o que os lábios do homem dirão mais tarde: "Venha para mim, todos vocês cansados ​​e sobrecarregados, para que eu descanse" (Mt.11,28). Para os que ouviram o seu chamado, aos pobres pastores, a quem o brilho dos céus e a voz dos anjos lhes anunciaram as boas novas nos campos de Belém e que, no caminho, responderam a esse chamado dizendo: "Nós iremos Belém "(Lc.2,15); também para os reis que, do Extremo Oriente, seguiram com fé simples a estrela maravilhosa, para todos eles o derramamento de graça que emanava das mãos do pequeno filho foi derramado e foram "cheios de grande alegria" (Mt.2 , 10).
Essas mãos concedem e exigem ao mesmo tempo: você é sábio, deixe de lado sua sabedoria e faça-se simples como crianças; os reis, dê suas coroas e tesouros e se incline humildemente diante do Rei dos Reis e aceite sem hesitação as obras, dores e sofrimentos que seu serviço exige. De vocês, filhos, que não podem dar nada de forma voluntária, de você as mãos do Menino Jesus tomam a ternura de sua vida, quase antes de começar. Ela não poderia ser melhor empregada do que no sacrifício para o Senhor da Vida.
Siga-me! Desta forma, as mãos da Criança são expressas, assim como serão os lábios do homem (Mc 1,17). Assim falou seus lábios ao discípulo que o Senhor amou e que agora também pertence a sua comitiva. O próprio João, o mais jovem de todos, o discípulo com o coração de uma criança, seguiu-o sem perguntar onde e para o que. Ele deixou o barco de seu pai e seguiu o Senhor em todos os seus caminhos até o topo do Gólgota.
Siga-me! Estêvão fez o mesmo. Ele seguiu os passos do Senhor na luta contra o poder das trevas e contra a cegueira da incredulidade inveterada; ele finalmente deu testemunho dele com Sua palavra e com Seu sangue. Ele também o seguiu no espírito; no espírito de Amor que luta contra o pecado, mas que ama o pecador e, mesmo diante da morte, intercede diante de Deus por seus assassinos.
Estas são as figuras da luz que se ajoelham ao redor da manjedoura: os ternos filhos inocentes, os pastores fiéis, os reis humildes, Santo Estêvão, o discípulo entusiasmado e João, o apóstolo do amor. Todos seguiram o chamado do Senhor. Diante deles estende a noite fechada da incompreensível dureza do coração e da cegueira do espírito: a dos escribas, que poderia apontar com precisão para o tempo e lugar onde o Salvador do mundo deveria nascer, mas quem, no entanto, não conseguiram deduzir a partir de lá uma decisão: "Vamos a Belém" (Lc.2,15); e a do rei Herodes, que queria tirar a vida do Senhor da Vida.
Em frente à Criança reclinada na manjedoura, os espíritos estão divididos. Ele é o Rei dos Reis e Senhor sobre a vida e a morte. Ele pronuncia o seu "segue-me" e aquele que não está com ele está contra ele. Ele também nos diz e nos coloca diante da decisão entre luz e escuridão”.
  
(“El Mistério de La Nochebuena” – Edith Stein – Biblioteca de Formación para Católicos – www.alexandriae.org, págs. 3/4 )


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Santa Teresa Benedita da Cruz, Co-Patrona da Europa




Hoje é dia de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), a filósofa judia convertida ao Catolicismo e feita Carmelita de clausura. Foi uma das vítimas do socialismo nazista, executada na câmara de gás em 9 de agosto de 1942. Exponho abaixo um esboço biográfico dessa grande santa, futura doutora da Igreja.

Nos séculos anteriores, algumas vozes já haviam se levantado para divulgar a bandeira do que se denominou depois de “feminismo”. Mary Wollstonecraft , por exemplo, foi considerada por alguns historiadores como a primeira feminista por defender pontos de vista sempre com a idéia de igualdade entre homens e mulheres. Algumas suas seguidoras como Lady Wollstonecraft, Mary Farifax Somerville, Lucretia Coffin Mott e Lady Elizabeth Cady Stanton chegaram até a organizar a primeira Convenção pelos Direitos das Mulheres em Nova York. Outras ainda se destacaram, em sua maioria oriundas do protestantismo, como Lucy Stone e Susan Brownell Anthony, pertencentes aos Quakers;
Destacou-se, dentre todas, a escritora socialista francesa George Sand como uma das precursoras do movimento feminista de nossa época. Outras ativistas do século XIX foram as puritanas da seita Quaker, nascidas nos Estados Unidos, Lucretia Coffim Mott e Susan Brownell Anthony, as ativistas Elizabeth Cady Stanton, Lucy Stone (americana), Sophia Jex-Blake (escocesa), todas elas personalidades de destaque no meio da alta sociedade.
Muitos consideram falsa a idéia de que somente em meados do século XX foi que tal movimento tomou corpo e se expandiu por toda a terra com Simone de Beauvoir. No tempo de Edith Stein, início do século XX, a “questão feminista” estava candente e com todo vigor, embora mais especificamente na Europa. Antes de sua conversão, Edith Stein chegou a se inscrever como membro da “Associação Prussiana para Defesa do Direito do Voto da Mulher”, um movimento acusado de ter cunho socialista. Não se ouviu mais falar de que tenha se envolvido nunca mais com tais movimentos, parecendo ter sido este um “pecado de juventude”.
Era uma época em que, principalmente na Alemanha, a mulher não tinha quase nenhuma chance de ensinar nas faculdades. Mas Edith Stein, que considerava o ensino como uma atividade tipicamente feminina, enfrentando o respeito humano e as opiniões contraditórias (não havia mulheres no corpo docente das faculdades alemãs), concorreu a uma vaga na Universidade de Götingen. Foi recomendada em tom meio irônico por seu orientador no doutorado, o filósofo Husserl, que assim se expressou: “Se a carreira acadêmica fosse aberta às mulheres, então eu recomendaria em primeiríssimo lugar e calorosamente a admissão de sua candidatura”. De nada adiantou indicação de tanto peso, já que Husserl era nada mais nada menos do que um filósofo famoso e respeitado tanto na Alemanha quanto no exterior, um dos principais mentores da escola da “Fenomenologia” : sua inscrição foi rejeitada em 1919, num rápido processo que decepcionou profundamente Edith Stein. O seu caso nem sequer foi levado à Congregação da Faculdade que ela pleiteava, pois uma comissão prévia a rejeitava alegando que a ocupação de cátedras por mulheres sempre trazia problemas para a Escola.
Nem por isso Santa Edith Stein ficou conformada: recorreu ao ministério competente na Capital, argumentando que o fato de ser mulher não poderia ser um impedimento para o avanço de uma carreira científica. O ministro concordou e mandou uma portaria às universidades, recomendando que o fato de ser mulher não fosse impedimento para o acesso ao ensino superior. Mesmo assim, a Universidade de Götinger não voltou atrás, perdendo a oportunidade de ter em seu corpo docente uma grande doutora. No entanto, nota-se no episódio a diferença da atitude de Santa Edith Stein com a das mulheres ditas “feministas”: estas provavelmente procurariam provocar um confronto com as autoridades e fariam um discurso inflamado ou até passeata em defesa da igualdade entre homens e mulheres. Embora Edith Stein ainda não fosse católica, estava no entanto possuída de bom espírito. Alguns anos depois, quando já crescia sua fama como conferencista e filósofa renomada, foi indicada para a universidade de Freiburg, mas recusou educadamente o cargo pois pleiteava escolas de níveis melhores

Porta-voz dos legítimos direitos da mulher

O espírito de Santa Edith Stein sempre se revelou como recatado e humilde, até mesmo antes de sua conversão. Conhecia perfeitamente os ditames da moda, porém não gostava de bailes nem de exibicionismos sociais, que na época era coisa comum onde andasse. Até mesmo nas festas estudantis, onde todos são descontraídos, ela sempre se mostrava recolhida. Isto fazia-a estar sempre pensativa e analisando antes de fazer qualquer coisa.
Aos poucos foi amadurecendo no interior dela as definições que precisava para caracterizar o modo de proteger a mulher contra situações de opróbrio e de indignidade. Estudava e vivia quotidianamente situações que a levaram como conceber a melhor forma de encarar o problema do lugar da mulher na sociedade. Havia sido enfermeira e ido para o “front” de batalha na primeira grande guerra; voltando às atividades normais, trabalhou em hospitais de desvalidos, mas sempre com a idéia de dedicar-se com afinco aos estudos. Em 1911, quando iniciara o curso de filosofia na universidade de Breslau, era a única mulher no curso de psicologia. Formou-se em janeiro de 1915, em pleno período de Guerra. Este curso lhe possibilitaria depois uma cadeira de ensino em escola secundária. Alguns anos depois, tornou-se assistente do famoso Husserl, seu orientador na tese de doutorado e para o qual redigiu (como secretária) a principal obra de Husserl sobre a “Fenomenologia”.
No final da década de 20, a doutora Edith Stein já se destacava nos meios intelectuais da Alemanha. Em 1928, a Associação Católica de Professoras da Baviera convida-a para fazer uma conferência. O tema, “O valor genuíno da mulher e seu significado para a vida do povo”, foi mais ou menos o assunto de todas as suas palestras e estudos quando versava sobre o papel da mulher na sociedade. Nos anos seguintes foi convidada para várias conferências e simpósios, sempre tendo como tema a mulher, em Heidelberg, em Freiburg, depois em cidades maiores como Colônia, Zurique, Viena e Praga. O que chamava a atenção sobre ela era exatamente que seu discurso distanciava-se completamente dos ideais “feministas” da esquerda. Um repórter do jornal “Heidelberger Boten” declarou que a palestra de Edith Stein no movimento católico tornou-se mais convincente porque “não se ateve ao caráter patético do movimento feminista”, formulando seus pensamentos de forma concreta e sem rodeios.
As conferências se sucediam, e a bandeira da defesa da mulher passou para as mãos de uma pessoa que, a estas alturas, já era uma católica fervorosa. O público em geral ficava surpreso, pois muitos esperavam algo diferente: em vez de arroubos retóricos e inflamados em defesa da liberdade da mulher, Edith Stein, com sua simplicidade, modestamente vestida, convidava todos a respeitarem os direitos da mulher sem que fosse necessário a convocação para uma luta de libertação do sexo feminino, como o faziam sempre as feministas de esquerda. Isto lhe acarretou o confronto com várias ativistas da época, as quais condenavam a forma como Santa Edith Stein debatia o assunto, acusando-a de ser uma “patriarcalista” disfarçada.
Não se tratava disso: ela defendia com ardor os verdadeiros direitos da mulher. Ao mesmo tempo que afirmava categoricamente os papéis que cabiam a ambos os sexos, contestava vigorosamente a existência de qualquer igualdade sexual. Numa conferência ela definiu os dois papéis: “A profissão primordial do homem é o domínio sobre a terra. A mulher coloca-se ao seu lado como colaboradora. A profissão primária da mulher é a criação e educação dos descendentes. O homem se encaixa nessa tarefa como seu protetor. Isso significa que os dotes mencionados estão presentes em ambos, embora em diferentes medidas e proporções. Ao homem sobretudo os dotes para a luta, a conquista e domínio: a força física para a tomada de posse externa, a inteligência para penetrar o mundo de forma sagaz, força de vontade e energia para realização criadora. Para a mulher, a capacidade de guardar, proteger e estimular o desenvolvimento daquele que está crescendo e promover o seu desdobramento”. Em síntese: com o homem estaria mais a razão, enquanto que com a mulher o coração.
A par disso, Edith Stein afirmava com destemor os direitos da mulher exatamente numa época e num país onde eles eram menos respeitados, na Alemanha. Segundo críticos dela, uma de suas realizações que deu mais fruto foi exatamente banir a idéia da impossibilidade do ingresso da mulher no chamado “mercado de trabalho”, ou seja, no mundo profissional moderno. Ela afirmava que não há profissão que não possa ser exercida por uma mulher. Ao lado de mostrar de forma convicta a responsabilidade de ambos os sexos na sociedade, estabelece, todavia, a mulher num papel bem específico e mais valorizado.

O texto completo sobre Edith Stein poderá visto clicando em seu nome.


Em Fortaleza, está para se realizar importante simpósio internacional sobre Santa Edith Stein - Maiores informações, clique aqui.

Há um filme sobre a Santa no Yotube.

Abaixo, um vídeo em espanhol sobre a Santa: