terça-feira, 1 de setembro de 2026

IGREJA DO PILAR E DE SANTA LUZIA, EM SALVADOR (BA)

 


A devoção a Nossa Senhora do Pilar é muito divulgada na Espanha. No período de 1580 a 1640 o Brasil ficou sob domínio espanhol, havendo muita influência de espanhóis em aspectos culturais e religiosos na Bahia daquele tempo, já que era a capital da Colônia. Exemplos: devoções a Nossa Senhora do Pilar e de Monteserrat.

A Irmandade do Pilar foi fundada em 1718 em Salvador. A construção de sua igreja, porém, se deu em 1756.. O cemitério foi concluído em 1799 em um nível mais alto do que o edifício da igreja, no estilo neoclássico. A igreja, seu pátio interno com uma fonte e o cemitério em um nível superior formam um complexo arquitetônico exclusivo da cidade de Salvador.

Salvador foi geograficamente dividida em dez paróquias, ou freguesias, no século XIX. A igreja tornou-se o ponto focal da freguesia de Santíssimo Sacramento do Pilar; os moradores eram batizados, casados, eleitos pelas autoridades locais e eram enterrados naquela igreja, como nas demais existentes na cidade. A igreja do Pilar, situada numa das áreas comerciais da cidade baixa, abrigava em seu cemitério comerciantes portugueses ricos e escravos e libertos afro-brasileiros.

Inicialmente, a capela dedicada a Santa Luzia havia se instalado no ano de 1718 num pequeno convento carmelita que existiu onde fica o Trapiche Barnabé, na avenida Jequitaia, e a edificação da atual igreja foi iniciada em 1739, sendo concluída em 1756 por imigrantes espanhóis, apresentando elementos dos estilos barroco, rococó e neoclássico. O frontispício foi executado entre 1770 e 1780, com representação da padroeira em mármore, segurando uma custódia, na base de uma grande encosta abaixo do Carmo. Á direita do templo, está o cemitério da Irmandade, edificado em 1799. Toda a cantaria dos arremates veio de Portugal.

Vale lembrar que a Irmandade do Santíssimo Sacramento foi responsável pela construção de várias igrejas do Brasil com a dedicação à Nossa Senhora do Pilar. Foi aquela Irmandade que também edificou belíssimas igrejas em Minas Gerais, como em São João del Rei e Ouro Preto.

Respeitando costume religioso da época, o rei de Portugal contribuiu financeiramente para as obras da capela.  No ano de 1756, os irmãos da confraria obtiveram autorização para aplainar uma parte do morro em frente à igreja, para que pudesse ser feito um adro.

O frontispício da igreja, até a base do frontão, possui ornamentação em pedras de lioz, que foram importadas de Lisboa.

 

FESTA DE SANTA LUZIA

 

Havia uma capela dedicada a Santa Luzia na região próxima ao porto de Salvador, tendo sido destruída por um incêndio em meados do século XIX. A imagem de Santa Luzia escapou ilesa do incêndio, sendo levada pelos devotos para um altar da Igreja do Pilar. Um fato ocorrido no início do século XX teria dado início às romarias na Igreja do Pilar em louvor à Santa Luzia. Conta-se que um cego que sentia muito calor resolveu lavar o rosto com a água da fonte que jorra na região do comércio. Ao levantar o rosto lavado pela água, o homem teria enxergado o azul do céu e, devido à forte emoção, teria morrido uma semana depois. A partir  daí, e até hoje, centenas de fiéis formam fila para armazenar a água da Fonte de Santa Luzia, localizada numa gruta ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. A Festa dedicada à Santa se inicia às 5:30 da manhã do dia 13 de dezembro com uma alvorada de fogos. Várias missas se seguem durante a manhã e à tarde. Após a missa das 16:30 horas, uma procissão percorre as ruas do Comércio em direção à Basílica da Conceição da Praia.

 


IGREJA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E NOSSA SENHORA DO PILAR

 

Situa-se a igreja na parte baixa da cidade, próxima ao porto, no sopé da montanha que divide a cidade em dois níveis. Está situada no final da Rua do Pilar, por detrás de onde era antigamente a Receita Federal e o antigo “Mercado do Ouro”.  Na vizinhança da igreja estão situados grandes armazéns e sobrados convertidos em pardieiros, muitos deles próximos à Praça Marechal Deodoro

Durante 17 anos ela permaneceu fechada, em reforma, tendo sido reaberta em abril de 2012, mostrando grande riqueza cultural em suas paredes.

A igreja é precedida de um amplo adro, à direita do qual se encontra, em cota mais elevada, o cemitério da Irmandade de feição neo-clássica. Portal e cercaduras de janelas da igreja são de lioz talhados em Lisboa. Os artistas que trabalharam nela são hoje pouco lembrados. O teto da nave foi pintado por José Teófilo de Jesus. Existem azulejos do período 1750/60 de diferentes oficinas portuguesas. Os painéis de azulejos da nave são atribuídos à oficina do Juncal; os da capela-mor possuem cercadura rococó e fundo marmoreado azul. Existem ainda azulejos nos corredores laterais à capela-mor e na sacristia também de gosto rococó. Dentre a imaginária, destaca-se a imagem de Santa Luzia, do século XVIII. A igreja é rica em alfaias, possuindo coroa com 140 brilhantes, diadema de ouro proveniente do Porto, além de custódias e cálices.

Esta é uma das raras igrejas baianas a apresentar um alongamento da planta, que foi a preocupação dos arquitetos mineiros, possivelmente inspirados na igreja de S. Paulo de Braga (Portugal) do final do séc. XVII. Os corredores laterais foram suprimidos ao longo da nave e reduzidos a estreitas ligações ao longo da capela-mor que conduzem à sacristia transversal. Esta disposição é adotada também nas igrejas dos conventos franciscanos do Nordeste. Sua fachada apresenta portas e janelas coroadas por frontões retilíneos e curvilíneos sem entablamento, executados em lioz de Lisboa, onde começava a florescer o espírito arquitetural que conduziria ao neo-clássico. Esta tendência, também notada em outras igrejas do mesmo período, como Conceição e Santana, não vingaria na Bahia, a não ser no século seguinte, na decoração interior. O frontão do corpo principal apresenta um tratamento rococó dos mais requintados e comprova a não aceitação na Bahia dos modelos que empolgavam Lisboa na época. A terminação da torre se assemelha às coberturas à Mansard, também notadas nas igrejas do convento do Carmo e Santana. O cemitério sob a influência do neo-clássico tomou a forma de um monumental pórtico eneástilo.[1]

Histórico arquitetônico: Frei Agostinho de Santa Maria informa que os fundadores da igreja foram Pe. Pascoal Duram de Carvalho, João Heitor e Manoel Gomes; 1718 - A Irmandade foi instituída e teve aprovação do seu compromisso em 1719; 1739 - Contribuição real para a edificação da capela-mor. Bazin acredita que a igreja tivesse sido iniciada nesse ano; 1756 - Decisão municipal autoriza desmontar encosta para construção do adro da igreja; 1770 - Execução do frontispício, segundo documento da Santa Casa de Misericórdia, citado por Bazin; 1796 - José Joaquim da Rocha faz o douramento e pintura da sacristia e seis painéis; 1798 - Fatura da cornija; 1799 - Encomenda a Felipe Ribeiro Filgueiras pedra do Reino para lajear a igreja e soleira das portas. Edificação do cemitério; 1834 - executados 8 painéis e douramento da talha por José Téofilo de Jesus; 1837 - Pintura do forro por José Téofilo de Jesus; 1838/39 - Encomendados a Joaquim Francisco de Mattos 4 altares da nave, 6 tribunas, 2 púlpitos, talha do coro, portas, molduras para painéis e obras do batistério; 1843 - Desabamento de terra arruína o consistório e retarda douramento da talha; 1848 - Douramento das novas talhas por Manoel Joaquim Lino; 1902 - Construção de dois novos altares laterais em gesso; 1903 - Substituição das grades de madeira do batistério por ferro.

(Fonte: Cd-room IPAC-BA: Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia, Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo.)

 

 

 



[1] Termo grego oriundo da arquitetura clássica que define um edifício com nove colunas em sua fachada principal.  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O JUIZO FINAL - V

 


O QUADRO DE SÃO METÓDIO E O JUÍZO UNIVERSAL

 

                                                 (Juízo particular e final)

“Um peregrino e o dia do Juízo universal.  – Um devoto peregrino atravessava um dia o Vale de Josafá na Palestina, e caminhando  recitava orações. Ao dizer o Credo, parou às palavras: Inde venturus est judicare vivos et mortuos, e começou a pensar: “Eis aqui o lugar onde Jesus virá do Céu para julgar os vivos e os mortos. Virá no dia da ira, das tribulações e da angústia, dia de calamidade e de miséria: Dies irae, dies tribulacionis et angustiae, dies calamitatis et miseriae (Sof 1, 15); dia que não teve e nem nunca terá igual no terror: Similis ei non fuit... et post eum non erit (Joel 2, 22).  Isso é também verdade de fé!”  - Parecia a esse peregrino ver no ar o divino Juiz em toda a sua majestade, no ato de julgar os pecadores; e diz a história que ele ficou tão apavorado, que ninguém mais o viu rir, e bastava lembrar-lhe o Juízo para o fazer tremer e chorar.

Quantos, no entanto, também entre os jovens, jamais pensam nessa verdade! Se pensassem nisso, sim, poriam o cérebro em condições, e viveriam como bons cristãos! – Consideremos agora o Juízo final; e quando ouvirdes a história de um quadro, ide em pensamento ao Vale do Josafá: 1) para ver o aparecimento do Filho de Deus; 2) para assistir ao grande exame de consciência; 3) para ouvir a sentença do divino Juiz.

 

I – 0 comparecimento do Filho de Deus

1. A TERRÍVEL CENA. – Um quadro do Juízo universal. – O monge S. Metódio († 861), que converteu à fé cristã a Bulgária e outras nações bárbaras, era também um bom pintor. Um dia ele foi chamado pelo rei dos búlgaros, de nome Bógoris, o qual lhe disse:  “Deveis fazer-me um belo quadro para eu pôr em meu palácio, e quero que esse quadro represente coisas que metam medo a todos os que o olharem”.  – É mister saber que esse rei era pagão e meio selvagem, e só se deleitava com caçadas de animais ferozes e cenas terríveis. O santo, então, recomendando-se a Deus, pintou o Juízo universal.

No meio do quadro via-se Jesus Cristo em sua tremenda majestade entre as nuvens e num trono de glória, rodeado pelos anjos; à direita uma fila de pessoas com os rostos esplendorosos de luz (os justos); à esquerda uma multidão de pessoas monstruosas com caras horríveis, cheias de pavor e de desesperada angústia (os pecadores). Em baixo afinal se via um abismo cheio de figuras horrendas de demônios, e desse abismo saíam chamas ameaçadoras e foscas. – Quando o rei viu esse quadro, ficou impressionado e perguntou: “Que espetáculo é esse tão magnífico e pavoroso?”  Aí Metódio lhe deu a seguinte explicação.

2. OS DOIS JUÍZOS. – S. Metódio e a explicação do quadro. – “Majestade (iniciou S. Metódio), esse quadro representa o Juízo Universal. Ficai sabendo que logo após a morte haverá, para todos, o Juízo Particular; isto é, deveremos todos comparecer perante Deus para dar contas do bem e do mal que tivermos feito em vida. Mas além do Juízo Particular, haverá outro Juízo, que se diz Universal, e este será feito por Jesus Cristo no fim do mundo no Vale de Josafá. Ao Juízo Universal deverão apresentar-se todos homens do mundo, que existiram, que existem e que existirem; grandes, pequenos, soberanos e súditos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, bons e maus”-   Ao ouvir isso, o rei já começava a empalidecer e indagou:

3. “QUANDO E COMO SERÁ O JUÍZO UNIVERSAL?’ – Responde Metódio: “Esse dia ninguém o sabe, nem os Anjos do Céu, exceto apenas o Pai (Deus):  De die autem illa et hora nemo scit, neque Angeli coelorum, nisi solus Pater” (Mt 24, 36). – Como depois se dará o Juízo, di-lo a Sagrada Escritura. Primeiro haverá sinais: guerras espantosas dos povos e dos reinos, que se lançarão uns contra os outros:  Consurget enim gens in gentem, et regnum in regnum (Mt 24, 7); pestes, carestias, terremotos; et erunt pestilentiae, et fames, et terraemotus (ibid.).  Depois o sol escurecerá, e a luz não dará mais a sua luz, e cairão do céu as estrelas, e haverá a destruição do Universo:  Sol obscurabitur, et luna non dabit lumen suum, et stellae cadent de coelo, et virtutes coelorum commovebuntur  (Mt 24, 29); depois vira do céu um dilúvio de fogo que destruirá tudo: terra autem, et quae in ipsa sunt opera, exurentur (2 Pedr 3, 10). E então será grande a tribulação, como não houve desde o início do mundo: Erit tunc tribulatio magna, qualis non fuit ab initio mundi (Mt ibid. 21). E tudo isso é verdade de Evangelho.

4. A RESSURREIÇÃO DIFERENTE – Quando estiver tudo destruído pelo fogo, os Anjos soarão uma trombeta que se fará ouvir nos quatro ventos: e os mortos ressuscitarão: Canet enim tuba, et mortui resurgent (1 Cor 15, 52). E aí se dará um grande espetáculo. Todos os mortos, saídos de seus túmulos, da terra, do mar, dos abismos, deverão estar vivos – Mas com que diferença! As almas dos bons, vindas do Céu, retomarão o seu corpo belo, resplendente, impassível: Tunc justi fulgebunt sicut sol  (Mt 13, 43).  As almas dos réprobos, surgidas do inferno, unir-se-ão a seus corpos que no entanto serão disformes, horríveis, esquálidos, fedorentos.

5. A SEPARAÇÃO. Depois virão os Anjos, e separarão os malvados dos justos: Exibunt Angeli, et separabunt malos et medio justorum (Mt 13, 49). E os justos ficarão à direita, e os pecadores à esquerda. Não vos parece vê-los?...  Todos os blasfemadores, caluniadores, desonestos, soberbos, ladrões, avarentos, escandalosos, sacrílegos, serão separados dos bons; e, vendo-os, dirão com raiva: Eis aqueles de quem zombamos em vida:  Hi sunt quos habuimus in derisum (Sab 5, 3). Estultos que fomos! Julgávamos uma insensatez a sua vida: eis no entanto como se incluíram entre os filhos de Deus: Nos insensati! vitam illorum aestimabamus insaniam...;  ecce quomodo computati sunt inter filios Dei (Sab 5, 4-5).

6. A CRUZ – Feita a separação, abrir-se-ão os Céus, e entre fileiras de Anjos aparecerá o sinal do Filho do Homem: a Santa Cruz:  Tunc parebit signum Filii hominis (Mt 24, 30).  E aí bater-se-ão no peito todas as tribos da terra: Et tunc plangent omnes tribus terrae  (ibid.).   E eis a descer nas nuvens Jesus Cristo com grande potestade e majestade: Et videbunt filium hominis venientem in nubibus coeli cum virtute multa et majestate  (ibid.). Aí os réprobos cairão como fulminados. E que berros de choro! Que pavor! Que desespero! Ao passo que os justos rejubilar-se-ão!

Depois o divino Juiz fará um exame público: manifestará as consciências todas, revelando as culpas, diante de todo mundo. Depois pronunciará a sentença de bênção sobre os bons e a de maldição sobre os maus; e estes irão para o eterno suplício com os demônios: os justos ao contrário para a vida eterna: Et ibuns hi in supplicium aeternum: justi autem in vitam aeternam (Mt 24, 46). Eis o que ouvistes no quadro pintado: a tremenda verdade do Juízo, que é verdade de Evangelho”.

Assim concluiu o monge S. Metódio. – Ao ouvir isso, o rei Bógoris ficou aterrorizado: fez-se logo instruir na religião, e, iluminado pela graça de Deus, converteu-se ao Cristianismo, e com ele se converteram também os seus súditos.

 

II – O exame de consciência

1. A VISTA DO JUIZ – Queridas crianças, ouvistes num só exemplo como se dará o comparecimento do Juiz divino. Agora assistis ao exame das consciências.

Um olhar investigador. – O rei Frederico II da Prússia (1756), durante a guerra dos 7 anos, após uma batalha vitoriosa, invernava na Saxônia. Ali um copeiro de nome Glasau deliberou matá-lo, e lhe apresentou num copo uma bebida envenenada. O rei, que havia notado qualquer coisa estranha na atitude de seu servo, fixou-o profundamente no rosto. Ante este olhar o servo começou a tremer tão forte, que lhe cai da mão o copo. Aí confessou ao rei o assassínio que havia meditado. – Eis como só o olhar penetrante de um rei bastou para fazer tremer e aniquilar um malvado.

Ora, como deverão tremer os pecadores  quando os fulminar o olhar de Deus que tudo conhece e que de tudo pedirá pormenorizadíssimas contas. Quantos tremor est futuros, Quando Judex est venturus, Cuncta stricte discussurus!

2. O LIVRO ABERTO. Será aberto então o grande livro onde tudo está anotado., o bem e o mal de cada qual:  Liber scriptus proferetur, In quo totum continetur.  E tudo será revelado diante dos Anjos e dos homens; tudo: não só as obras, mas também os segredos do coração; pois todas as coisas são nuas e reveladas aos olhos de Deus:  Omnia nuda et aberta sunt oculis eius  (Hebr 4, 13). Aí ele aclarará os esconderijos das trevas, e manifestará os conselhos dos corações: Illuminabit abscondita tenebrarum, et manifestabit consilia cordium (1 Cor 4, 5).  E tudo o que está oculto surgirá, e ninguém ficará impune: Quidquid latet apparebit: nil inultum remanebit.

Para os justos: Oh! Que consolo e glória, ao ouvir manifestar todas as suas boas obras, os esforços para vencer as tentações, as orações, as mortificações.

Para os maus: Que confusão e opróbrio, ao ouvir revelados todos os seus feios pecados, as imposturas, as mentiras, os furtos, as desobediências, os escândalos dados, as vinganças..., os sacrilégios cometidos desde o uso habitual da razão. Eram crianças de poucos anos, e já velhos na malícia!

3. AS DESCULPAS? – Que desculpas então, ante as censuras de Jesus Cristo Juiz que porá diante dos pecadores todo o mal que hajam cometido?

Nabucodonosor e o rebelde Sedecias. – Lê-se na História Sagrada que Nabucodonosor fez um terrível juízo de Sedecias que se rebelara contra ele. Primeiro lhe mostrou os benefícios que lhe fizera, depois lhe disse:  “Eu podia mandar cortar-te a cabeça; e no entanto te dei a coroa de rei. Eu podia enterrar-te numa cova, e no entanto te pus no trono. E tu?...  Ingrato! Viraste contra mim todas as tuas forças para trair-me!  Pois bem, fica sabendo que és indigno de ainda ver o meu rosto”.  E imediatamente mandou arrancar-lhe os olhos, e o fez meter numa prisão, todo acorrentado  (4 Rs 24-25). – Que desculpas podia dar Sedecias?

Também não poderão desculpar-se os pecadores no Juízo de Deus que, na presença do Universo, porá ante eles todos os seus benefícios, as suas graças, o seu sangue derramado, e todas as infidelidades e ingratidões deles. E então que desespero para os pecadores desgraçados que se encontrarem à esquerda! Trêmulos e berrando quererão esconder-se; mas onde?...  Gritarão às montanhas: “Cai sobre nós!”, e às colinas: “Sepultai-nos!”:   Tunc incipient dicere montibus: cadite super nos; et collibus: operite nos!   (Lc 23, 30) – Oh! Que dia haverá mais pavoroso do que esse!  Quantos pecadores converter-se-ão e tornar-se-ão santos ao pensar em se ver envergonhados no terrível exame que se fará nesse dia!

 

III – A sentença

1. AO JUSTOS. Feito o exame das consciências e revelados os pecados e as boas obras de todos, Jesus Cristo Juiz pronunciará a grande sentença que ficará para sempre. Qual será?  Ei-la.  Aos justos que estão à direita ele voltar-se-á com o olhar doce e benigno, e dirá: “Eis chegado o momento em que enxugarei vossas lágrimas, recompensarei vossas fadigas, premiarei vossas virtudes. Porque me servistes fielmente, vinde, ó abençoados de meu Pai;  tomai posse do Reino preparado para vós desde a fundação do mundo:  Tunc dicet his qui a dextris eius erunt: Venite benedicti Patris mei, possidete paratum vobis regnum a constitutione mundi  (Mt 25, 34). Oh! Que alegria para os jovens que no Juízo tiverem a sorte de ouvir dirigidas a eles tais palavras! Abençoados de Deus!... Ter dele a glória imortal! Eris corona gloriae in manu Domini (Is 62, 30). Que felicidade!

2. AOS RÉPROBOS. – Voltado em seguida para os réprobos com olhar fulmíneo dir-lhes-á:  “A vós que em vida não me quisestes conhecer nem servir, que me maltratastes com as iniqüidades, que desprezastes o meu sangue... a vós a minha maldição:  Fora daqui, malditos, para o fogo eterno!  Tunc dicet et his quia a sinistris erunt: Discedite a me maledicti in ignum aeternum!    (Mt 25, 41).

E aí eles aos montes, berrando, desesperadamente e blasfemando, cairão na voragem do inferno, e ouvirão fechar atrás de si a tremenda porta de fogo com eterno segredo. E Deus jogará as chaves da hórrida prisão no mar da eternidade. – O justos, ao contrário, voarão alegres e bendizendo a Deus, para a eterna felicidade do Céu. – Assim terá fim o dia do Juízo Universal, que a Igreja com razão chama “dia bem grande e amargo”:  Dies magna et amaris valde. E aí quem está salvo, está salvo, e quem está condenado, está condenado.

Conclusão:

Dizei agora, ó queridos filhos, em que Juízo nos devemos encontrar? E que sentença será a minha? Qual a vossa? Estaremos à direita com os eleitos, ou à esquerda com os condenados? Depende de nós.

São Jerônimo e a trombeta do Juízo. – S. Jerônimo († 420), grande doutor da Igreja e dos maiores penitentes, deixou todas as belezas e magnificências de Roma, para ir ocultar-se num deserto da Palestina. Ali não fazia mais do que pregar, estudar e mortificar-se com aspérrimas penitências. Amiúde tomava de uma pedra e com ela batia no peito já chagado e sangrento, pedindo a Deus piedade. Por que isto? Ele pensava sempre no Juízo Universal; e por isso aterrorizado exclamava:  “ Ai de mim! A todo momento me parece ter nos ouvidos o som da trombeta que se fará ouvir no Vale de Josafá com esta fala: Surgi, ó mortos, vinde ao Juízo! Semper videtur illa tuba insonare in auribus meis: Surgite mortui, venite ad judicium!  E nesse Vale qual será a minha sorte? Estarei com os eleitos ou com os réprobos? Terei a sentença da bênção ou da maldição?”. – Também S. Alberto Magno exclamava: “Toda vez que penso no dia do Juízo, tremo todo: Quoties diem Judicii cogito, toto corpore contremisco”.

Pensemos nele também nós. E se nesse grande dia vos quiserdes achar à direita entre os eleitos, ponde logo mãos à obra, remediando o passado e iniciando uma vida santa. -  Ó bom Jesus, Deus de misericórdia, recordai que pela nossa salvação sofrestes tantos padecimentos e derramastes o vosso sangue: a vós rogamos ter piedade de nós. Oh! Salvai-nos no dia do Juízo:  Recordare, Jesu pie, Quod sum causa tuae viae, Ne me perdas illa die! [1]

 

 



[1]              Cf. “A Palavra de Deus em Exemplos” – G. Morotarino J. C. – Ed.Paulinas, 1961 – págs. 68/75.

 


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - IV

 




DONDE HÁ DE VIR JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS

 “Julgar é função do rei: O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal (Prov. 20, 8). Porque Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus Pai como Senhor de todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso, pela regra da Fé Católica, confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto também foi dito pelo Anjo: Este Jesus, que do meio de vós foi elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir para os céus.  (Mt 1, 11).

Devemos considerar nesse juízo três coisas: primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como para ele devemos nos preparar.

No juízo devemos ainda distinguir três elementos componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do julgamento.

Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos (10, 42).  Pode este texto ser interpretado, ou chamado de mortos os pecadores e, de vivos, os que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e, mortos, todos os que morreram. Ele é juiz não só enquanto Deus, mas também como homem, por três motivos.

 

Jesus Cristo será nosso Juiz enquanto Homem

Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo aparecesse em forma só de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em São João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem  (5, 27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de todos. Lê-se: A tua causa foi julgada como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas  (Jo 37, 17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam desesperados, devido ao temor.  (Mas todos verão um homem julgar), pois se lê em São Lucas: Verão o Filho do Homem vindo na nuvem (21, 27).  Serão julgados os que existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo: Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal enquanto estava neste corpo  (2 Cor 5, 10).

 

 Haverá varões apostólicos que também julgarão sem serem julgados

Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que devem ser julgados. Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como os infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado  (Jo 3, 18). Outros, porém, serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a morte (Rom 6, 23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé que tiveram.

Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. Lê-se em São Mateus: vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-ei também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel (19, 28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis que julgamos os Anjos? (1 Cor 6, 3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu povo  (Is 3, 14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrena. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.


A matéria do julgamento

Todos serão julgados pelos atos bons e maus que praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os caminhos do teu coração...  mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11, 9); Deus citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más (Ecle 13, 14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo (Mt 12, 36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram.  Lê-se no Livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus pensamentos (Sab 1,9).

Fica assim esclarecida a matéria do julgamento.

 

Motivos pelos quais o Juízo Final deve ser temido

Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo.

Primeiro, devido à sabedoria do Juiz, porque ele conhece todas as coisas, os pensamentos, as palavras e as ações, já que, como se lê na Carta aos Hebreus, todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4, 13). Lê-se ainda na Escritura: Todos os caminhos dos homens estão diante dos seus olhos (Prov 16, 1).

Conhece Ele as nossas palavras: Os teus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1, 10).

Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor, penetro nos corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17, 9).

Haverá neste Juízo também testemunhas infalíveis, isto é, as próprias consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo: A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos pensamentos se acusam ou se defendem (Rom 2, 15-16).

Segundo, devido ao poder do Juiz, porque Ele é em si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o Senhor virá com fortaleza (Is 11, 10).

É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava com Ele. Lê-se: O universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5, 2);  Ninguém há que possa livrar-se de vossa mão (Jo 10, 7); e ainda: Se subo aos céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também (Sl 138, 8).

Terceiro, devido à justiça inflexível do Juiz. Agora é o tempo da misericórdia.  Mas o tempo futuro é tempo só de justiça.  Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus.

Lê-se: No tempo que eu determinar, farei justiça (Sl 134, 3). O varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação presentes, por maiores que sejam (Prov 6, 34).

Quarto, devido à ira do Juiz. Aparecerá aos justos doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão ao rei na sua beleza (Is 33, 17).  Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel, que eles dirão aos montes:  Cai sobre nós, e escondei-nos da ira do cordeiro (Apoc 6, 16).

Esta ira de Deus não significa uma comoção de espírito, mas significa o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no Juízo! No fim estará o Juiz irado.

 

Remédios para não cair neste temor

Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.

O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: Queres não temer a autoridade? Faze o bem e receberás dela o louvor (Rom 13, 3).

O segundo é a confissão dos pecados cometidos e a penitência feita por eles.  Na confissão deve haver três coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por eles. São essas três coisas que remediam a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que torna tudo puro, segundo as palavras do Senhor: Conquistai amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas tendas eternas  (Lc 26, 9).

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados  (I Ped 4, 8; cf Prov 10, 12). [1]

  

 O Juízo Final nas palavras do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo

No Evangelho estão consignadas as diversas profecias em que o próprio Nosso Senhor fala do Juízo Final.

“Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra até ao Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Em qualquer lugar, em que estiver um cadáver, juntar-se-ão as águias.

“Logo depois da tribulação daqueles dias, ‘escurecer-se-á o sol, a lua não dará a sua luz, as estrelas cairão’ do céu e as potências do céu serão abaladas. Então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu, e todas ‘as tribos da terra chorarão’ e verão o Filho do homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade. Ele mandará os seus anjos com poderosas trombetas, os quais juntarão os seus escolhidos dos quatro ventos, de uma extremidade dos céus até à outra”.  (Mt 24, 29-31).

“Mas, quanto àquele dia e àquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai. Assim como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porque, assim como nos dias antes do dilúvio (os homens) estavam comendo e bebendo, casando-se e casando seus filhos, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não souberam nada até que veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também na vinda do Filho do homem”.  (Mt 24, 36-39).

“Vigiai pois, porque não sabeis a que hora virá o vosso Senhor. Sabei que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque o Filho do homem virá na hora em que menos o pensardes”.  (Mt 24, 42-44).

“Quando pois vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se sentará sobre o trono da sua majestade. Serão todas as gentes congregadas diante dele, o qual separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos  de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e deste-me de comer; tive sede, e deste-me de beber; era peregrino, e recolheste-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitaste; estava na prisão, e fostes visitar-me. Então, lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, e te demos de comer; sequioso e te demos de beber? Quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? Respondendo o Rei, lhes dirá: Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era peregrino, e não me recolhestes; (estava) nu, e não me vestistes: enfermo e na prisão, e não me visitastes. Então, eles também responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te assistimos? Então, lhes responderá, dizendo: Na verdade vos digo: Todas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim o não fizestes. Esses irão para o suplício eterno, os justos para a vida eterna”.  (Mt 25, 31-45).

 

Qualidade do Juiz

O sumo sacerdote O conclama a se proclamar Filho de Deus, mas Nosso Senhor não só confirma tal título como declara que não é nesta qualidade que virá julgar a todos no Juízo Final, e sim de Filho do homem: “Jesus porém estava calado. E o sumo sacerdote disse-lhe: Eu te conjuro por Deus vivo que nos diga se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Jesus respondeu-lhe: Tu o disseste: mas também vos digo que vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, e vir sobre as nuvens do céu”.  (Mt 26, 63-64).

 

Juízos que serão feitos sobre cidades ou povos

“Ai de ti Corozain! Ai de ti, Betsaída! porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que eles teriam feito penitência em cilício e em cinza. Por isto vos digo que haverá menor rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Não, hás de ser abatida até ao inferno. se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que se fizeram em ti, ainda hoje existiria. Por isso vos digo que no dia do Juízo haverá menor rigor para a terra de Sodoma que para ti”   (Mt 11, 21-24)

 

N. Senhor não julgará sozinho: outros também julgarão com Ele

“Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que, no dia da regeneração, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da sua glória, vós, que me seguistes, também estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel”. (Mt 19, 28)

“Os habitantes de Nínive se levantarão no Juízo contra esta geração, e a condenarão, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas. A rainha do mei-dia levantar-se-á no dia do Juízo contra esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra a ouvir a sabedoria de Salomão.  Ora, aqui está quem é mais do que Salomão” (Mt 12, 41-42).

 

O Juízo sobre os Bons

“Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu peso leve”.   (Mt 11, 28-30)

 

A matéria do julgamento

“Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que a disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro. Ou dizei que a árvore é boa, e o seu fruto bom; ou dizei que a árvore é má, e o seu fruto mau; pois que pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, vós que sois maus? Porque a boca fala da abundância do coração. O homem bom tira boas coisas do bom tesouro (do seu coração); e o mau homem tira más coisas do mau tesouro. Ora, eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do Juízo. Porque pelas tuas palavras serás justificado ou condenado”  (Mt 12, 31-37)

 

As sentenças impostas pelo Juiz: castigo e prêmio

“De maneira que, assim como é colhida a cizânia e queimada no fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então, resplandecerão os justos como o sol no reino de seu Pai”.   (Mt 13, 40-43).

“Será assim no fim do mundo, virão os anjos, separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13, 49-50).

“Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; então dará a cada um segundo as suas obras. Em verdade vos digo que entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não morrerão, antes que vejam vir o Filho do homem ao seu reino”.  (Mt 16, 27-28). Quando Nosso Senhor precedia a expressão “em verdade vos digo”, queria dizer com isto que estava fazendo uma declaração solene, como que dogmática, uma espécie de juramento, a fim de que todos cressem que aquilo ocorreria da forma como dizia. Então, podemos crer que alguns daqueles que estavam a Lhe ouvir só morrerão no fim do mundo (poderiam muito bem ir fazer companhia a Elias e Enoch), ou então atingiriam uma santidade tão alta que chegariam a ver (misticamente) a posse de Nosso Senhor em Seu reino. Como as verdades divinas às vezes se cumprem em tempos e formas diferentes, e ao mesmo tempo, ambas as afirmações podem ser corretas.

 

No fim do mundo não haverá mais fé sobre a terra

“Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Isto combina com o que diz São João no Apocalipse: “conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas, porque és morno, nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitarda minha boca” (Apoc. 3, 15-16).

 

No Juízo Final, a presença de Jesus causará tormento e terror aos maus

“Saiba que, no último dia do Juízo, o Verbo, meu Filho, quando vir, não surgirá como um pobrezinho, como quando nasceu, saindo do ventre da Virgem, nascendo num estábulo entre os animais e morrendo depois entre ladrões.

Naquela oportunidade ocultei nEle o meu poder, deixando-O sofrer penas e tormentos, como homem. Não é que minha natureza divina estivesse separada da humana, mas que lhe deixei padecer como homem para satisfazer por todos vossos pecados.

Não virá assim agora, neste último momento, mas com autoridade, para repreender Ele mesmo em pessoa; e não haverá criatura alguma que não trema. Dará a cada um o merecido.

Nos infelizes condenados, sua presença produzirá tanto tormento e terror, que nenhuma língua será capaz de contá-lo. Nos justos produzirá temor reverencial, junto com grande alegria. Não é que se lhe mude o rosto, pois é imutável, por ser um comigo. É também imutável desde que tem a glória da ressurreição, segundo a natureza divina e igualmente segundo a natureza humana. Aos olhos do condenado, sem embargo, lhe aparecerá com aquele olhar terrível  e tenebroso, qual tem o mesmo condenado em si mesmo. Assim chegará.

Como o olho enfermo, que por si mesmo não vê mais que trevas, e  o olho são vê a luz – isto não porque a luz seja distinta para o cego e para o são, mas por defeito do olho que está enfermo, assim os condenados o vêem em trevas, em confusão e no ódio; não por defeito de minha Majestade, com a qual virei julgar o mundo, mas por defeito deles”.[2]

 

Nosso Senhor julgará a todos, e com mais rigor papas e bispos

A propósito, transcrevemos abaixo parte do sermão do Padre Vieira, pronunciado na Capela Real, em 1650, no Domingo do Advento:

 

“Sairão pois os anjos; vêde que suspensão e que tremor será o dos corações dos homens naquela hora. Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas: Et separabunt (faz horror só imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito Santo há de haver também que separar). Et separabunt malos de medio justorum. E separarão os pontífices maus dentre os pontífices bons. Eu bem creio que serão muito raros os que se hão de condenar, mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do mundo, é um peso tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns ao profundo. Todos nesta vida se chamaram padres santos; mas o dia do Juízo mostrará que a santidade não consiste no nome senão nas obras. Nesta vida beatíssimos, na outra mal-aventurados: Oh que grande miséria!

 

Sairão após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum. Lá vai aquele porque não deu esmolas: aquele porque enriqueceu os parentes com o patrimônio de Cristo: aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor dotada: aquele porque faltou com o pasto da doutrina a suas ovelhas: aquele porque proveu as igrejas nos que não tinham mais merecimento que o de serem seus criados: aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem sacramentos: aquele por não residir: aquele por simonias: aquele por irregularidades: aquele por falta de exemplo da vida e também algum por falta de ciência necessária, empregando o tempo e o estudo em divertimentos, ou da côrte e não de prelado, ou do campo e não de pastor. Valha-me Deus, que confusão tão grande! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e muitos outros varões santos e sisudos, que quando lhes ofereceram as mitras, não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipício. Pelo contrário, que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados? Maldito seja o dia em que nos elegeram, e maldito quem nos elegeu: maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou. Se um homem mal pode dar conta de sua alma, como a dará de tantas? Se este peso deu em terra com os maiores atlantes da Igreja, quem não temerá e fugirá dele?”[3]

  



[1]              “Exposição sobre o Credo” -  São Tomás de Aquino – Edições Loyola, págs. 63/67.

 [2]              Santa Catalina de Siena – “El Diálogo”  - Obras – BAC - pág. 121.

[3] DA OBRA DO SERMONISTA MOR, “GLÓRIA DE PORTUGAL  E GLÓRIA DE NOSSAS LETRAS” – Sermões do Padre Vieira, 2º. Volume.