sábado, 11 de abril de 2026

OS TRÊS CAVALEIROS DE SÃO JOÃO E A VIRGEM MILAGROSA DE NOSSA SENHORA DAS ALEGRIAS

 



(Uma gesta milagrosa da Idade Média)

 

1. Num campo de batalha, com vários cavaleiros caídos, três jovens monges procuram mortos e feridos. Diante dos mortos fazem o sinal da cruz e os encomendam a Deus

           

Por entre os cavaleiros monges da ordem dos Hospitalários de São João de Jerusalém, viviam três magníficos jovens, três irmãos da casa de Eppe, senhorio das proximidades de Laon.

A Ordem dos Hospitalários[1] era a herdeira de um estabelecimento de caridade, fundado em Jerusalém, bem antes das Cruzadas, hotel e hospital para os pobres peregrinos, situados todos próximos do Santo Sepulcro.

Este hospital, vivendo de subvenções dos ricos Sicilianos, foi organizado por Gerardo Tenque, o glorioso menino da cidade dos Martigues, na Provença, e colocado sob a proteção de São João Evangelista.

A tomada de Jerusalém e a fundação de seu reino transforma, naturalmente, as instituições e a ordem dos monges beneditinos de Gerardo Tenque, deixando de ser unicamente hospital, para se tornar também ordem militar. Foulque d’Anjou, quarto rei de Jerusalém, lhes tinha confiado a guarda do forte de Betsabé.

Sua fé, sua coragem, seu ardor os faziam se encontrar sempre nos lugares os mais perigosos da batalha, atendendo aos feridos, defendendo os vivos, vingando os mortos.

Uma noite, após um sangrento combate, em que eles recolhiam os mortos e confessavam os agonizantes, os três irmãos, cavaleiros de Eppe, foram indignamente atacados por uma tropa de piratas turcos, que retornavam aos lugares do massacre para roubar aos que tinham sido assassinados:

-- Peguem-nos, tomem as suas armas e amarrem-nos, vamos levá-los a Ascalão -, ordena o mais mal-encarado, que parecia ser o chefe.

 

2. Perseverança dos cavaleiros cristãos desespera o sultão

 

Os turcos de Ascalão procuravam por todos os meios a aliança do sultão ou sudam do Cairo e um dos chefes teve a idéia de lhe oferecer os cativos em sinal de amizade.

 Os infelizes, após uma viagem ainda mais penosa que a primeira, se crêem no fim de seu calvário, na presença do sultão do Egito, homem mais civilizado que os Turcos Seljúcidas[2]. Este monarca tendo igualmente ouvido falar dos grandes serviços que tinha prestado, em outros tempos, um janízaro[3] cristão na corte de seu pai[4], propõe naturalmente aos três Cruzados de recuperar suas liberdades combatendo por ele.

-- Nosso coração e nossos braços pertencem a Nosso Senhor Jesus Cristo e, vencedores ou vencidos, esperamos jamais faltar a Deus e a nosso país, respondeu o mais velho.

O sultão, que não esperava esta resposta, sentiu a necessidade de refletir sobre este novo aspecto do problema. Tendo feito lançar os três cristãos num calabouço, mandou chamar o seu grão vizir, que passava por muito astucioso.

-- Dai um pouco de ouro a esses cristãos... Ah, ah, ah, ah, e essa obstinaçãozinha, cristã, amolecerá! Sugeriu, ironicamente, o vizir, que o sultão aprova, e, no dia seguinte...

-- Então, meus belos cristãos, grita fortemente, fiz preparar para cada um de vocês uma jarra cheia de ouro e um palácio de mármore. Aqui estão então meus janízaros! Bem melhor!

O mais velho dos três cavaleiros tinha tanta fome e tanta sede que não pôde falar. Mas o de menos idade respondeu com uma voz fraca:

-- Não, não, senhor infiel! Somos os soldados de Cristo que morreu sobre a cruz e, fora d’Ele, não existe salvação para nós. Agradecemos pela jarra e pelo palácio. Nós não queremos nada.

O sultão ficou tão estupefato que mastigou com negligência uma semente de pistácio[5] que ele gostava de mordiscar. Ele devolveu os Hospitalários para sua gaiola, a fim de pensar mais um pouco, e chamou seu vizir. Este chegou de cabeça baixa e o turbante desfeito.

-- Ao cair da tarde, eu te darei como pasto aos meus crocodilos queridos, grita seu senhor. Tu não és mais que um filho de um idiota e esta espécie de francês me tem ridicularizado. Sim, eu sou o mais ridicularizado dos sultãos do Egito! Jamais me recuperarei!

E ele se põe a chorar com amargura.

-- Não choreis mais, meu senhor! Suplica o vizir, lançando-se a seus pés. Não choreis mais, pois acabo de ter uma idéia.

-- É a última chance que te dou, esbraveja o Sultão, mas se tu fracassares, não somente tu engordarás meus crocodilos, mas lançaremos juntos teu velho pai e tuas trezentas e dezessete esposas.

-- Não façais isto, ó luz do Islã! Vossos pequenos animais queridos morrerão de indigestão e eu não ousarei mais entrar no Paraíso. Eis a minha idéia: enviai os Francos para as minas de cobre e vereis que, ao fim de dois anos, vós não tereis mais que lhes pedir sua opinião.

 

3. Surge Ismael, príncipe muçulmano de bom coração.

 

Dois anos mais tarde, os três cavaleiros de São João reaparecem diante de seu tirano. Antes que ele tivesse tempo de abrir a boca, o mais jovem avança e diz, com ar tranquilo:

-- Nós te agradecemos, ó monarca infiel, de nos ter mostrado as consolações imensas que Deus dispensa sobre os que estão com Ele...

Uma hora mais tarde, ouve-se um concerto horrível de gritos e de lamentações, do lado da fossa dos crocodilos. O filho do Sultão, moço forte e valente, que, apesar da pouca idade, já participou de inúmeras guerras em defesa de seu povo e de seu país, sai de seus aposentos.

            -- Que gritos horríveis são estes, meu querido pai. Estou com uma dor de cabeça insuportável. O que se passa e por que tendes o ar furibundo?

            -- Eu tenho o ar furibundo porque eu sou furibundo, replica o sultão, com amargura e roendo nervosamente as unhas. Eu sou o mais ridicularizado dos sultões do Egito e meus crocodilos queridos vão seguramente arrebentar de indigestão.

-- Melhor assim, aplaudiu o jovem príncipe. Eu sempre reprovei vossa paixão por estes horríveis animais. Mas por que sois ridicularizado, ó meu pai?

-- Eu sou ridicularizado porque três miseráveis e insignificantes cruzados zombam de mim, recusam de abraçar nossa fé, a única verdadeira e, sobretudo, recusam de me servir como janízaros contra esses sacripantas Turcos Seljúcidas, os quais estão prestes a nos atacar a qualquer momento.

-- Ah bom, confiai vossos futuros recrutas aos nossos mais célebres doutores. A Universidade do Cairo é a mais célebre e a mais rica do mundo. Entregai-os aos nossos lentes que eles voltarão obedientes como cordeiros.

E sob estas boas palavras, o sultão entrou nos seus aposentos, mastigando nervosamente.

 

4. Ismael conhece os cavaleiros cristãos presos no calabouço

 

Fatigados! Os três cavaleiros de Eppe esgotaram os setecentos e quatro doutores da Universidade de Olivier e o sultão fez vir seu filho bem amado.

-- Eu te chamei, meu filho, para te mandar chicotear, anuncia com dor o sultão. Para te ensinar a não zombar assim de teu velho pai, que está tão ridicularizado, que a segurança do trono está ameaçada.

-- Meu Deus! Como isso é interessante, grita Ismael. Que direis se eu experimentar, a meu modo, já que falo o francês? Não sou o mais sábio e o mais espirituoso dos moços do Islã? Mas... Bem entendido, não quereis mais tentar a experiência!

O sultão teve um gesto de desencorajamento... Sentia que seu Alá não lhe estava ajudando.

Muito alegre, o príncipe desceu aos subterrâneos.

A aparição do belo príncipe Ismael, com seu turbante dourado, ricos trajos, muitos anéis e alfinetes, portando bela adaga e punhais de ouro e prata, com jóias engastadas, o ar altivo, mas com uma bondade quase angelical nos olhos, foi como um raio de sol no esconderijo infame onde enferrujavam os três infelizes. Ordenou, imediatamente, que desamarrassem-nos e, com suas mãos rijas, incrustada de anéis de ouro cravejados de pedras preciosas, habituadas ao cabo do alfanje, lava as feridas que lhes tinham sido infligidas pelas cadeias. Em seguida, dá-lhes de comer, enquanto fala-lhes – durante todo o tempo – das maravilhas de seu país, de seus costumes e de mil e uma coisa sem importância.

-- Como sois bom! Diz o mais velho dos três irmãos.

-- Como é agradável ouvi-lo falar nossa doce língua, diz o caçula.

-- Como gosto de ouvir de um moço sobre tudo o que nos é caro, diz ainda o outro. Reaparecereis logo, jovem príncipe?

-- Amanhã, amanhã!... Durmam bem, senhores!

E pela primeira vez em três anos dormiram tranquilamente.

 

5. Ismael fala sobre as guerras contra os seljúcidas. Ao fim, para falar de religião, lamenta-se de sentir que Alá não tem ajudado muito ao seu povo

 

No dia seguinte reaparece mais alegre como nunca; falando de umas coisas e de outras, ele deslizou, com habilidade, a conversa para os problemas de religião.

-- O que é isto? Pergunta ele, mostrando um rosário de madeira, pendurado aos andrajos do mais velho.

--Um rosário, senhor. Pedro, o Eremita, o inventou quando atravessava as planícies da Hungria com sua cruzada. Calculavam as distâncias pelo número de dezenas, e cada novena lhes dava direito à remissão de um pecado. Isso impedia de se extraviarem e sustentava maravilhosamente as almas.

-- Verdade? Disse o príncipe. Ah! O sol já se apressa a manchar o nosso céu com as cores do sangue de nossos antepassados, eu voltarei amanhã. Gosto de ouvi-los falar de vossos símbolos.

Eles estavam espantados, de suas próprias palavras, pois não pretendiam ser nem clérigos nem pregadores.

 

6. Ismael reaparece com um ar sério e narra o sonho que teve com Nossa Senhora

 

O príncipe reaparece no dia seguinte.

-- Meu pai está radiante de saber que nossas relações tomam boa direção, diz ele inicialmente. Bom dia... De quê falávamos ontem?... Ó! É verdade! Eu esqueci de vos contar a aventura extraordinária que me sobreveio nesta noite. Eu vi, creiam-me, uma mulher de uma beleza incomparável. Na verdade, ela era tão bela e tão boa que me deixou inquieto. Ela tinha o ar o mais amável do mundo, sob um véu azul, e de suas mãos espargiam, sobre o meu colo, uma grande quantidade de rosas. De manhã, encontrei essas flores junto a mim.

E ele estendeu aos três cavaleiros uma rosa cujo perfume era quase miraculoso.

O mais velho então lhe disse:

-- Se desejardes, eu posso esculpir uma imagem de Nossa Senhora, vossa visitante.

O príncipe bateu as mãos e fez trazerem para dentro da cela tudo o que era preciso para um escultor: um pesado toro de madeira preciosa e uma grande lanterna, a fim de enxergarem melhor.

 

7. O príncipe muçulmano promete converter-se, caso seja feita a imagem de seu sonho 

 

Não sendo mais artista que doutor, o generoso cavaleiro concluiu com dificuldade uma escultura disforme. Seus irmãos o ajudaram com zelo, mas o príncipe, desapontado, considerou o trabalho com uma careta desprezante.

-- Eu me converterei a vossa fé, se eu encontrar amanhã de manhã uma imagem tão bela quanto a senhora de meu sonho. Boa noite, senhores cruzados!

            E ele os deixou, levando a lâmpada, por perfídia juvenil.

Os três cavaleiros se lançam de joelhos e rezam longamente, desnorteados e aflitos. Depois adormecem sobre seus catres, sonhando com tristeza no dia seguinte.

 

8. Uma luz forte, direcionada, ilumina uma imagem de Nossa Senhora. O príncipe, ao postar-se de joelhos, depõe suas armas aos pés da Virgem

 

Ora, no dia seguinte, eles foram acordados por um barulho insólito. Circunspectos por tantos anos de sofrimentos, de pé, se olham vivamente. Qual não foi o seu assombro e, em seguida, seu êxtase vendo se dirigir sobre o solo viscoso daquele lugar sombrio uma maravilhosa, uma divina imagem da Mãe de Deus! A seus pés, um dos irmãos apanha um pouco de pluma coberta de neve, caída da asa de um dos anjos que a haviam trazido.

Ismael não tardou a aparecer. Ele detém-se à entrada por um instante, muito estupefato para falar... E, extasiado, cai de joelhos.

-- É esta a efígie com a qual sonhei, murmura, lhe beijando os pés. Eu sou cristão, meus irmãos, diz ainda e, lhes estendendo a bilha d’água, implora: Batizem-me.

 Eles batizaram o filho do tirano e, até à noite, a prisão ressoou de hinos de alegria, de Salmos de contentamento.

-- Que esta Virgem seja Nossa Senhora das Alegrias, declara o mais jovem, em lembrança da letícia que ela pôs em nosso coração.

 

9. Fuga dos três cavaleiros e do príncipe árabe

 

Na noite seguinte, Maria apareceu ainda a Ismael e lhe falou. Anunciou-lhe que um lugar no céu lhe será reservado, se ele ajudasse os cavaleiros a se salvarem.

Na noite subsequente Ismael ficou escondido nos corredores da prisão e se postou, habilmente, para roubar as chaves dos guardas adormecidos. Ele tinha já depositado entre os três irmãos um pacote muito pesado, fabulosa quantidade de pedras preciosas, atadas numa echarpe.

Ele abriu a porta aos cativos e tomou a frente lhes mostrando o caminho. Seu pequeno cortejo se agitou, o mais velho dos irmãos portando a imagem, o mais jovem as pedras preciosas.

Diante deles, ó milagre! as portas se abriam uma a uma, como empurradas pelas mãos dos anjos.

Eles saíram para os campos e só encontraram guardas sonolentos ou vigias adormecidos.

Sobre o Nilo, deslizando sob um raio da lua, uma barca vem a eles, guiada por um remador do qual não se vislumbrava o rosto. Ele encosta e os fugitivos sobem, no momento em que uma música celeste os acompanhava. O barqueiro atravessou o largo curso d’água, deixou-os num lugar desconhecido, e... desapareceu imediatamente nas trevas, sem que tivessem tempo de lhe agradecer.

O dia nasceu. Eles avançavam no deserto, sob um sol escaldante... Então, surgiu um milagroso bosque de palmeiras onde, vencidos pela fadiga, os quatro caíram no sono. Todos os quatro, pois os cavaleiros que tinham prometido de velar cada um por seu turno, sucumbiram também ao cansaço.

Oito badaladas do sino de uma igreja despertam-nos em sobressalto.

-- Milagre! Prodígio inacreditável! Dizem os quatro numa só voz.

Eles se encontram no meio de uma pradaria sombreada por altos choupos. Um vaqueiro guia a sua boiada, cantando, num caminho estreito e solitário.

Um dos três irmãos, o mais disposto a restabelecer os ânimos, correu até o camponês e, após ter feito o sinal da cruz, fez os cumprimentos de praxe:

-- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

-- Para sempre seja louvado!

-- Senhor, que lugar é este, pela graça de Deus?

O camponês, reconhecendo o manto negro dos Hospitalários, tornado milagrosamente novo com a grande cruz púrpura que o ornava, se põe de joelhos diante do defensor da fé e lhe beija as mãos. Mas o cavaleiro o levanta com bondade.

-- Vós estais sobre o domínio dos três senhores de Eppe, mortos na Cruzada, respondeu o inocente.

-- Nós estamos em casa! Grita o cavaleiro. Ó Senhor, ó Doce Virgem Maria, ó graça do Céu! Em casa!

E ele aperta contra o seu coração o aldeão muito espantado.

-- Senhor... não sereis vós o senhor Teodorico, meu bom mestre?

-- Mas sim, Joaquim! E tu, tu és o filho da velha Francisca. Eis os meus irmãos: Pedro, o mais velho e Gerardo, o mais jovem. E aqui tendes o príncipe Ismael, filho de Jefté, sultão do Cairo.

O aldeão não acreditava nos seus olhos, nem nos seus ouvidos.

-- Ah, vós não estais mortos! É isto possível, meu Deus! Ah! Que o Céu seja louvado! E dizer que nesta manhã teve lugar na abadia uma missa pelo repouso de vossas almas!

-- Bom, vamos indo, a fim de tranquilizar nossa gente e agradecer ao bom Deus, nos pés de seu altar.

-- Esperem, diz o mais jovem, convém enviarmos Joaquim na frente a fim de que não nos tomem por três almas errantes.

Joaquim se benze precipitadamente.

-- Não, não, tranquiliza-o o mais novo, nós estamos bem vivos e tu podes tocar... nossa mão é sólida e nosso coração bate sob nossa armadura.

Joaquim, um tanto mortificado, desabalou sem nada dizer, abandonando suas vacas, correndo até à abadia de Forgny onde toda a cidade se apressava...

 

10. Batismo de Ismael, que adota o nome de Mariano

 

O senhor abade batizou oficialmente e com grande pompa Ismael e lhe deu o nome cristão de Mariano, em honra da Virgem. A imagem milagrosa encontrou o seu lugar numa magnífica igreja que Mariano mandou construir, oferecendo as pedras preciosas que ele tinha levado.

Ele escreveu a seu pai narrando a sua aventura e o exortando a se fazer cristão. A história não nos diz o que ele fez...

Mas é verdade e confirmado que Mariano morreu muito mais tarde em odor de santidade na abadia de Forgny, e figura no número dos bem-aventurados da Ordem de Citeaux. Sua festa é comemorada no dia 6 de junho, aniversário de sua morte.

No lugar em que ele despertou com seus três companheiros, brotou desde então uma fonte milagrosa e foi sempre um lugar de peregrinações dos arredores de Laon. Esta história, a mais célebre do martirológio dos cavaleiros de São João de Malta, foi retratada em nove quadros, numa das salas do palácio da Ordem, na Ilha de Malta, e compõe os vitrais da abadia de Laon.

O papa Clemente VII ordenou a veneração particular da imagem na sua bula de 28 de maio de 1384.

Tal é a origem da imagem de Nossa Senhora das Alegrias, louvada seja Ela.

 

 (*) Traduzido e adaptado dos “Contes et Légendes des Croisades”, de Maguelonne Toussaint-Samat – Fernand Nathan, Éditeur – Paris – 1961. Por: Jurandir Josino Cavalcante – Fortaleza, CE, 25-08-2000.

Veja também: como surgiu no Brasil a devoção à Nossa Senhora das Alegrias - https://quodlibeta.blogspot.com/2009/08/nossa-senhora-das-alegrias.html



[1] Hospitalários, ordem religiosa voltada ao serviço dos viajantes, peregrinos ou doentes, na Terra Santa.

[2] Clã criada pelo turco Seljuc (séc. IX), cujo império abrangia a Pérsia, a Síria e a Armênia.

[3] Janízaros, soldados muçulmanos que apostataram da fé católica e formavam grupo de elite.

[4] Gilles de Trazegnies.

[5] Pistácio, noz que contém uma única semente, oblonga, esverdeada, edule (Aurélio).


DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA, UM DOS PILARES DA PIEDADE “PLINIANA”

 




 Com imenso gosto tratarei do tema em questão, pois versa ele a respeito de valores absolutamente essenciais para nós. De fato, somos inspirados constantemente por essas devoções que Mons. de Ségur considerava as três rosas dos bem-aventurados. Comecemos pelo culto a Nossa Senhora.

 

“Maria mons, Maria fons, Maria pons”

Creio não faltar com a verdade, dizendo que sempre estimulamos a todos a crescer na devoção a Ela, para terem a força necessária nos embates da vida. E “todos” abrange até mesmo os que ofendem a Deus e à própria Santíssima Virgem. Pois ainda que um homem esteja em estado de pecado, Nossa Senhora o ouvirá se ele Lhe pedir. Quer dizer, por pior que seja a condição de uma alma, se implorar muito, acaba obtendo as graças de que necessita para praticar a virtude. Isto é uma proclamação de confiança. Em nenhum caso podemos deixar de confiar em Nossa Senhora, na bondade, na  misericórdia, na intercessão d’Ela junto a Deus Nosso Senhor, porque Eles sempre nos atendem.

Numa linda e piedosa canção litúrgica, Nossa Senhora é assim chamada: Maria mons, Maria fons, Maria pons. Maria é montanha (mons) de todas as virtudes; é a fonte (fons) de todas as graças; é a ponte (pons) por cima de todos os abismos.

Então, nos momentos em que nos sentimos acabrunhados sob o peso de nossas misérias, devemos dirigir a Ela nossa súplica repassada de confiança: “Senhora, quando pensamos que Vós sois tudo quanto sois, e que não somos senão aquilo que somos, sentimo-nos profundamente indignos de vossa solicitude. Mas sabemos também que nunca, nunca, nunca deixareis de olhar com boa vontade para o filho que implora a vossa assistência. Assim, pedimos com insistência: tende pena de nós e acabai nos arrancando dos nossos pecados.”

Agindo dessa maneira, estejamos certos de que seremos atendidos.

 

A Onipotência Suplicante, alegria de nossas almas

Compreendamos, portanto, como é absolutamente de primeira importância termos devoção a Nossa Senhora. Deus é tão perfeito, é tão supremo, nós somos tão zeros, que era necessário uma ligação entre Ele e nós. Esse elo é Nossa Senhora.

Com efeito, mediante a Encarnação do Verbo no seio puríssimo de Maria, o Padre Eterno, por um ato de sua infinita bondade, criou os vínculos que O ataram ao gênero humano. E Nossa Senhora, tornando-se Mãe d’Ele, passou a ser também a Mãe espiritual de todos os homens.

Em vista disto, quando Ela pede a seu Divino Filho por nós, é como uma mãe que intercede junto a um filho em benefício de outro irmão deste. É impossível não atendê-la. Por isso os teólogos atribuem a Nossa Senhora o título de “Onipotência suplicante”. Em virtude de suas insondáveis perfeições, Ela é sempre ouvida por Deus em suas preces a nosso favor, e d’Ele nos obtém aquilo que, por nós mesmos, não mereceríamos.

Um exemplo pode ilustrar esta verdade. Imagine-se uma mãe que tenha dois filhos: um, reto e probo, exerce a função de juiz; o outro é simplesmente um criminoso, ao qual o irmão deste deve julgar. Que acontece, então?

A mãe se dirige ao filho magistrado e lhe diz: “Meu filho, sei que tu és juiz e que a ti cabe aplicar a justiça. Os defeitos de teu irmão são tais que exigem a pena de morte. Na verdade, porém, tu, ó juiz, me deves igualmente a vida. Poupa a desse homem que merece a pena capital, em atenção aos rogos daquela que te gerou!”

Que filho recusaria tão extremosa súplica?

Pois bem, semelhante a esta intercessão é a de Maria em favor da humanidade pecadora. E, havendo nascido d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo, Lhe concede tudo o que o melhor dos filhos pode dar à melhor das mães. Tal é o valor da impetração de Nossa Senhora que, segundo o ensinamento da teologia, todas as orações de todas as criaturas devem ser apresentadas por Ela a seu adorável Filho, porque assim o dispôs a vontade divina. De maneira que — dizem os doutores — se todos os Anjos e Santos que há no Céu pedissem algo a Deus que não fosse por meio de Nossa Senhora, Ele não atenderia. Mas se Nossa Senhora, sozinha, pedir, Ela é ouvida

Essa é a Mãe de uma doçura insondável, de uma compaixão que não conhece limites.

Assim, uma vez mais, compreendemos a importância da devoção a Nossa Senhora. Como seria soturna a nossa vida de católicos, se não existisse esse vínculo com a Santíssima Virgem! E como é leve essa devoção, como é a alegria de nossas almas, como é cheia de esperança, de perdão e de  afeto materno, essa contínua assistência de Nossa Senhor![1]

  

 



[1] Excerto do artigo “Os Três Pilares da piedade “pliniana” – Revista “Dr. Plínio”, nº 19, de outubro de 1999

 


terça-feira, 7 de abril de 2026

A CORTESIA NO OLHAR SEGUNDO SÃO JOÃO BATISTA DE LA SALLE

 

São João Batista de La Salle discorre sobre a importância do olhar na cortesia cristã:

O Sábio diz: Muitas vezes, por aquilo que aparece nos olhos[1], se conhece o que uma pessoa tem no fundo de sua alma e qual é sua boa ou má disposição. E embora não se possa ter plena certeza disso, não deixa de ser um sinal bastante geral. Assim, um dos primeiros cuidados que se deve ter no que se refere ao exterior é compor bem os olhos e regular bem a vista.

Uma pessoa que quer fazer profissão de humildade e modéstia e ter um exterior correto e sossegado deve procurar ter os olhos meigos, serenos e recatados.

Aqueles a quem a natureza não deu esta vantagem e que não têm esse encanto precisam procurar corrigir a falta por uma atitude alegre e modesta e cuidar de não tornar seus olhos mais desagradáveis por sua negligência.

Há pessoas que têm os olhos horríveis, que manifestam um homem encolerizado ou violento; e há outros que sempre têm os olhos extremamente abertos e que olham com ousadia, o que ordinariamente denota um espírito insolente que não tem respeito com as pessoas.

Outras pessoas há que têm os olhos soltos e que nunca param, olham ora de um lado e ora de outro o que é próprio de uma cabeça leviana. Encontram-se algumas vezes outras que mantêm os olhos fixos num objeto que parece querem devorar com os olhos. Entretanto acontece muitas vezes que essas pessoas não prestam a mínima atenção ao objeto que lhes é apresentado. São ordinariamente pessoas que pensam forte em algum negócio que lhes é muito importante, ou que têm um espírito vago sem se fixar em nada determinado.

Há outras ainda que olham fixamente para o chão e também algumas vezes para os lados como pessoas que procuram com os olhos alguma coisa que tivessem perdido. São espírito inquietos e atrapalhados que não sabem o que fazer para sair de sua inquietação.

Todas essas maneiras de manter os olhos e de olhar são completamente contra a cortesia e as boas maneiras e só se podem corrigir mantendo o corpo e a cabeça eretos e os olhos modestamente abaixados e procurando ter um exterior livre e acolhedor. Como não é educado ter a vista muito para cima, também os que vivem no mundo não devem mantê-la baixa demais, porque isto seria mais próprio de um religioso do que de um secular. Os eclesiásticos, contudo, e os que pretendem sê-lo, devem todos aparecer com os olhos e um exterior muito reservado.

Pois é de boa educação para os que se comprometeram ou que pretendem comprometer-se nesse estado de vida, se acostumarem à mortificação de seus sentidos e mostrarem, por sua modéstia, que, sendo consagrados a Deus ou querendo consagrar-se a Deus, têm o espírito ocupado com ele e com o que se refere a ele.

A regra que se pode tomar com referência com os olhos é mantê-los medianamente abertos e proporcionais com o tamanho de seu corpo, de modo que se possa ver distinta e facilmente todas as pessoas com quem se está. Contudo não se deve olhar fixamente sobre o que quer que seja, especialmente sobre pessoas de sexo diferente, ou os superiores, e se for preciso olhar alguém, deve ser de maneira natural, bondosa e honesta e que não se possa notar nos olhares nenhuma paixão nem afeição desregrada.

É muito incivil olhar de soslaio, pois isto é sinal de desprezo e não pode ser permitido, exceto aos patrões para com os empregados para os repreender de alguma falta grosseira em que tivessem incorrido. Também é desagradável mover constantemente os olhos, pestanejar seguidamente, porque isto é próprio de pouco talento.

Não menos contra a cortesia como contra a piedade é olhar leviana e curiosamente tudo o que se apresenta, e deve-se procurar não olhar de longe demais, e olhar diante de si, sem mover nem a cabeça nem os olhos de um lado para o outro. Mas como o espírito do homem é naturalmente levado a ver e a saber tudo, é muito necessário vigiar sobre si para abster-se disso e dirigir muitas vezes a Deus estas palavras do Profeta-Rei: Meu Deus, desviai meus olhos e não permitais que se fixem olhando coisas inúteis.[2]

É uma grande descortesia olhar por cima dos ombros voltando a cabeça; agir assim é desprezar as pessoas com quem se está. Outra grande descortesia é olhar por cima dos ombros e por detrás de uma pessoa que está lendo ou segurando alguma coisa, para ver o que está lendo ou segurando.

Há alguns defeitos referentes à vista os quais estão muito perto da baixeza ou da leviandade, de maneira que ordinariamente as crianças ou os escolares são capazes de cair neles. Por mais grosseiros que sejam esses defeitos, ninguém deve surpreender-se de que se fale disto aqui, para que as crianças tomem cuidado nisso e que se possa vigiar sobre elas para as impedir que se permitam tais coisas.

Às vezes encontram-se pessoas que fazem caretas com os olhos para se mostrar horríveis; e outras que imitam os vesgos e os zarolhos para fazer rir os outros. Algumas vezes se veem alguns que esbugalham os olhos com os dedos. Encontram-se também alguns que olham com um dos olhos fechado, como fazem os atiradores de balestra[3] quando visam ao alvo. Todas estas maneiras de olhar são completamente descorteses e inconvenientes. Não há pessoa razoável nem as crianças de boa família que não considerem todas essas caretas como coisas indignas de um homem honesto”.

 

(“As Regras de Cortesia e de Civilidade Cristã”, de São João Batista de La Salle, Capítulo VI, Dos olhos e da vista)



[1] Eclo 19, 26

[2] Sl 118 (119), 37

[3] Espécie de atiradeira, também chamada de besta.