quarta-feira, 22 de abril de 2026

MARIA, NOS PLANOS DE DEUS

 


(Revista "Dr. Plínio" n. 152, novembro de 2010)

  

 

Entre o Padre Eterno e a criação existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade; tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão.

Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver um outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato?

Ora, a criatura chamada a completar este vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora.

A Virgem Santíssima é para Deus Padre a mais eleita das criaturas, escolhida por Ele, desde toda a eternidade, para ser Esposa de Deus Espírito Santo e a Mãe de Deus Filho. Para estar à altura dessa dignidade, Maria havia de ser a ponta de pirâmide de toda a criação, acima dos próprios Anjos, elevada a uma inimaginável plenitude de glória, de perfeição e de santidade.

Por isso, Dante, na Divina Comédia (que alguns dizem ser a Suma Teológica de São Tomás de Aquino posta em verso), depois de ter passado pelo Inferno e pelo Purgatório, percorre os vários círculos dos bem-aventurados no Céu. Quando chega no mais alto coro angélico, ou seja, no píncaro da mansão celeste, o Poeta começa a divisar a glória de Deus. É uma luz difusa, que seus olhos não conseguem sustentar.

Ele repara então num outro ser que está acima dos Anjos: Nossa Senhora. A Virgem Santíssima lhe sorri, e Dante contempla nos olhos d’Ela o reflexo da luz de Deus.

Acabou-se a Divina Comédia.

O olhar humano fitou o olhar puríssimo, o olhar sacralíssimo, o olhar sumamente régio, o olhar indizivelmente materno de Nossa Senhora. Tudo então está consumado: a Divina Comédia termina na mais alta das cogitações humanas.

Nossa Senhora é o grampo de ouro que une a Nosso Senhor Jesus Cristo toda a criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza.[1]

 

A Onipotência Suplicante

 

Mediante a Encarnação do Verbo no seio puríssimo de Maria, Deus, por um ato de sua infinita bondade, criou os vínculos que O ataram ao gênero humano. E Nossa Senhora, tornando-se Mãe d’Ele, passou a ser também a Mãe espiritual de todos os homens.

Em vista disto, quando Ela pede a seu Divino Filho por nós, é como uma mãe que intercede junto a um filho em benefício de outro irmão deste. É impossível não atendê-la. Por isso os teólogos atribuem a Nossa Senhora o título de Onipotência Suplicante. Em virtude de suas insondáveis perfeições, Ela é sempre ouvida por Deus em suas preces a nosso favor, e d’Ele nos obtém aquilo que, por nós mesmos, não mereceríamos.

Um exemplo pode ilustrar esta verdade.

Imagine-se uma mãe que tenha dois filhos: um, reto e probo, exerce a função de juiz; o outro é simplesmente um criminoso, ao qual o irmão deve julgar.

Que acontece, então?

A mãe se dirige ao filho magistrado e lhe diz: “Meu filho, sei que tu és juiz e que a ti cabe aplicar a justiça. Os defeitos de teu irmão são tais que exigem a pena de morte. Na verdade, porém, tu, ó juiz, me deves igualmente a vida. Poupa a desse homem que merece a pena capital, em atenção aos rogos daquela que te gerou!”

Que filho recusaria tão extremosa súplica?

Pois bem, semelhante a esta, é a intercessão de Maria em favor da humanidade pecadora. E por ser Ela a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele Lhe concede tudo o que o melhor dos filhos pode dar à melhor das mães.

E é tal o valor da impetração de Nossa Senhora que, segundo o ensinamento da teologia, todas as orações de todas as criaturas devem ser apresentadas por Ela a seu adorável Filho, porque assim o dispôs a vontade divina.

Essa é a Mãe de uma doçura sem nome, de ilimitada compaixão para com seus miseráveis filhos, em favor dos quais Ela obtém o perdão e as graças do Juiz.

Quantos exemplos não atestam essa incansável solicitude de Maria para com os homens! Tome-se, entre outros, o do Bom Ladrão, a quem o Divino Crucificado, atendendo às súplicas de sua Mãe aos pés do Madeiro, perdoou na hora extrema com a estupenda promessa: “Tu hoje estarás comigo no Paraíso”  (Lc XXIII, 43).

Compreende-se, assim, a importância de Nossa Senhora , como ela alivia a nossa penosa existência, e enche de júbilo nossas almas. Como seria soturna a vida de um católico, se não fosse a proteção da Virgem. Ao contrário, como ela é leve, cheia de esperança, de perdão e de afeto materno, com a contínua assistência de Maria – a Onipotência Suplicante.[2]

 

Maria reconcilia os pecadores com Deus

 

Nossa Senhora tem olhos de misericórdia, e um simples olhar d’Ela pode nos salvar. Sua doçura é invariável, seu auxílio ilimitado, pronto a nos atender a qualquer momento, sobretudo nas dificuldades de nossa vida espiritual. Estas costumam ser de duas ordens.

Em primeiro lugar, a crise que se poderia chamar clássica, quando a pessoa se sente tentada e, portanto, hesitante entre o bem e o mal, com a possibilidade de ser arrojada no precipício do pecado de um momento para outro. É bem evidente que Maria é nosso auxílio, na plenitude do termo, nessas circunstâncias.

Contudo, a solicitude de Mãe de misericórdia se volta também para aquele que se encontra em apuro espiritual muito mais grave, e que se traduz por esta súplica: “Minha Mãe, eu, sucumbindo ao peso da tentação, não andei bem. Pequei. Tenho o receio de me habituar ao pecado e de nele me embrutecer. Por outro lado, imensa é a minha vontade de me regenerar. Sei que não mereço a vossa proteção, mas, porque sois a Auxiliadora de todos os  cristãos, não apenas dos bons, senão até dos mais miseráveis, pelo-Vos: vinde e auxiliai-me”.

Portanto, nessa visualização, é o próprio fato de se ter caído em pecado que se alega diante de Nossa Senhora, como razão para obter seu socorro. É o desamparado que encontra no seu infortúnio o motivo pelo qual deve implorar a misericórdia de Maria.

E está na missão da Santíssima Virgem, é o movimento profundo de seu coração materno, reconciliar os pecadores com Deus. Porque a Mãe tem bondades, ternuras, indulgências e paciências que outros não possuem. Ela pede, então, ao seu Divino Filho por nós, e nos obtém uma série de graças, um sem número de perdões que jamais alcançaríamos sem a sua intercessão.[3]

 

Maria, Templo onde Jesus quer ser invocado

Jesus viveu em Maria e, de Maria, Jesus se comunicou aos homens. Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para o gênero humano.

Por isso, devemos rezar a Jesus enquanto vivendo em Maria, porque Ele quer ser invocado dentro do seu templo, que é a Santíssima Virgem. Pedir a Ele o quê? Que Ele venha e viva em nós, como vivia n’Ela.

Viver em nós, quer dizer, é ter o espírito da santidade de Jesus Cristo, que é o espírito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E é, portanto, o espírito “ultramontano”, a expressão mais característica do espírito da Santa Igreja.

Isto é o que devemos pedir a Jesus, por meio de Nossa Senhora, enquanto vivendo n’Ela.[4]

 

Terrível adversária do demônio

 

“Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele Lhe deu até, desde o Paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha serpente, tanta força para vencer, esmagar a aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os Anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus.

“Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os Santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos”.[5]

Inimizade posta por Deus. É Nossa Senhora que aparece com tudo que há de terrível em seu poder voltado contra o demônio e seus sequazes, e com aquela maldição de Mãe arrasando até os alicerces do reino dele.

Lindíssima é a ideia de que, já no Paraíso Terrestre, quando Nossa Senhora existia apenas na mente de Deus, Ela A adornou de algo como um instinto antidiabólico, à vista do demônio serpeando por aquele Éden.

Com efeito, a primeira característica de Nossa Senhora face ao demônio é o ódio. Assim como Ela foi cheia de graça, assim Ela foi cheia de ódio contra esse amaldiçoado inimigo de Deus. Porque o ódio santo é, evidentemente, um dom do Altíssimo. Ora, Maria está toda cheia dos dons de Deus, logo está cheia de ódio ao demônio.,

Em seguida, São Luís Grignion fala da clarividência que foi dada por Deus a Maria, para descobrir a malícia da velha serpente. É, portanto, o ver claro, é a sagacidade, é a virtude evangélica da astúcia, recomendada por Nosso Senhor, jogando contra a diabólica astucia e liquidando o demônio! Donde as palavras de São Luís Grignion: “Tanta força para vencer, esmaga e aniquilar esse ímpio orgulhoso”. É a batalha enunciada em todos os seus termos. Assim, cheia de sagacidade e cheia de ódio, Nossa Senhora só pode ter vitórias.

“O temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os Anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus”.

É uma maravilha de audácia, mas é a pura verdade. Comparada com Deus, Nossa Senhora é menos do que uma pequena milícia em comparação com o maior exército da terra. Assim, compreende-se o pensamento de São Luís Grignion: é tal a humilhação que sofre o demônio sendo esmagado por Nossa Senhora, que ele tem disto especial medo. E um único bater de cílios de Maria, porque carregado de ódio a Satanás, põe em polvorosa o Inferno inteiro.

Ela é a inimiga por excelência do demônio; é Aquela que passa sua eternidade lutando contra ele.

Na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus há este lindo traço: ela disse que haveria de passar o Céu dela fazendo o bem sobre a Terra. Interrogada por sua superiora se ela, então, do Céu protegeria os homens, a Santa teve esta magnífica resposta: “Não, eu descerei!”

Nossa Senhora passa o Céu d’Ela fazendo o bem sobre a terra, e se há quem possa dizer “Eu descerei”, é Ela, que tantas e tantas vezes se tem mostrado aos homens. Mas, Ela faz duas formas de bem: o bem para o homem e o mal para o demônio. De maneira que o “Eu descerei” da Santíssima Virgem é também descer com o látego, com o castigo para o demônio e seus empedernidos agentes humanos.[6]

 

AS PRECES DE MARIA ANTECIPARAM A REDENÇÃO

 

...Todos os teólogos são acordes em afirmar que, se a salvação raiou para o mundo na época em que raiou, devemo-lo às preces onipotentes de Maria, que conseguiu antecipar o dia do nascimento do Messias. Ninguém pode dizer quantos anos ou quantos séculos teria ainda demorado a Redenção, sem as preces de Maria.

Não foi, pois, daqueles que, no tempo de Augusto, se agitavam nas praças públicas ou nos conciliábulos políticos para conseguir a reorganização do mundo, que esta reorganização veio. Ela veio da oração humilde e confiante da Virgem Maria, inteiramente ignorada por seus contemporâneos, e vivendo uma vida contemplativa e solitária, no pequeno recanto, onde a Providência a fez nascer.

Sem com isto, desmerecer por pouco que seja a vida ativa, é preciso notar que foi por meio da oração e da contemplação, que se antecipou o momento da Redenção. E que os benefícios que o gênio de Augusto, o tino de todos os grandes políticos, todos os grandes generais, financistas e administradores de seu tempo não puderam dar ao mundo, Deus os dispensou por meio de Maria Santíssima. Quem mais beneficiou ao mundo não foi quem mais estudou, nem quem mais agiu, mas quem mais e melhor soube orar.[7]



[1] Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado, João Clá Dias, pág. 60.

[2] op. cit. págs. 68/69.

[3] Santa Gertrudes rezava, dizendo “Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, quando Nossa Senhora lhe aparece mostrando-lhe os olhos do Menino Jesus e dizendo: “Estes são meus olhos sobremaneira misericordiosos que posso proveitosamente inclinar sobre quantos me invocam, enriquecendo-os com abundante fruto da salvação eterna”. (op. cit. pág. 70).

[4] op. cit. pág. 86).

[5] Cf. “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís Grignon de Montfort.

[6] op. cit. págs. 108/110

[7] Revista “Dr. Plínio”, nº 33, dezembro de 2000

 


terça-feira, 21 de abril de 2026

PEREGRINANDO NO OLHAR DE DONA LUCÍLIA

 



                 Os olhos são a janela da alma. De fato, nada se compara ao olhar cheio de unção de uma alma virtuosa, cuja expressão transmite infinitas lições, eleva, santifica.

 

Eu creio que uma das coisas mais pungentes na vida é conhecer um grande olhar – de uma grande alma – e, de repente, ver-se privado dele, porque ele se fechou para sempre e a alma foi-se para Deus. Aquilo que se viu não se verá mais, não se aprofundará mais, não conhecerá mais como deveria ter conhecido, e daí por diante é só a eternidade.

 

Comunicações de olhares para além da morte

Mil vezes eu peregrinei dentro dos olhos de mamãe, mas quantas e quantas vezes, e a partir de quantas portas deste olhar! O olhar dela quando me olhava, quando eu a via olhando para dentro do meu olhar, o olhar dela quando rezava, o olhar dela visto de lado, o olhar dela visto por detrás, o qual era percebido apenas por imponderáveis, sem se olhar.

Quando ela faleceu eu me pus esta pergunta: ‘Para esta vida terminou, acabou, nunca mais eu passearei dentro deste olhar e nunca mais desvendarei esta alma. Agora, Plínio, pergunte-se: Você aproveitou o tesouro? Você olhou tudo o que tinha para que ver e chegou até o conhecimento último? Você será capaz de fazer a viagem retrospectiva e complementar através dos véus sucessivos?’

Eu me fiz a pergunta distendido e calmo, em meio ao pranto da morte. E com toda a serenidade respondi a mim mesmo: ‘Sim e inteiramente’. Acabou, mas eu tenho tudo, levo tudo, oxalá assimilo tudo! Talvez ela tenha morrido a tempo para me comunicar os últimos fogos de um olhar em que a luz da vida, o “lumen rationis”, bruxuleavam, mas que ainda tinham belezas novas para me comunicar. No entanto, sinto que foi talvez há pouco que eu me comuniquei com ela.

 

Uma janela da eternidade que se abre

Outro dia um raio de Sol incidiu sobre uma fotografia dela, atingindo inclusive as flores ao redor, que tomaram vida, parecendo flores paradisíacas, iluminadas por dentro. Algo de extraordinário!

Se quiséssemos fazer a iluminação de uma foto, jamais conseguiríamos fazer algo parecido. Lembrou-me um pouco essas imagens modernas que há hoje em dia nas ruas, iluminadas por dentro. Mas era, sem comparação, melhor.

A fisionomia dela reluziu, dando a ideia de uma janela da eternidade que se abria, transmitindo algo que não tem nada a ver com esta Terra. Deu-me a impressão de ela estar tão viva, que se diria que começaria a falar com alguém que estivesse ali para fazer-lhe uma pergunta. Vou dizer mais: com uma animação que anos antes da morte ela já não tinha, já muito abatida pela idade. Ela parecia bem disposta, forte até. Dir-se-ia que havia passado uma temporada fora, que descansou...

 

Olhar de futuro, de metafísica e de fé

Há um outro olhar de uma fisionomia dela aos cinquenta anos. É de uma tal seriedade que poderia ser colocada ao lado de uma foto de São Pio X ou de São Charbel Makhlouf, embora o olhar dele não tenha essa tristeza.

É um olhar ordenativo para nossa alma e, posto em quadro num ambiente, influencia a vida, acompanha as pessoas. Se alguém me perguntar qual foi a influência de Dona Lucília em minha formação, eu diria: “Veja, está aí!”

Precisamos nos sentir em casa em presença dessa fisionomia, a qual se poderia denominar: “Contra-Revolução tendencial”. Mamãe exercia uma ação pacificante já à distância. Paz é isso.

Ela fez verdadeira psicologia com os brasileiros, permitindo que antes dessa foto nos chegasse às mãos o “Quadrinho”.

Os dois quadros fazem uma combinação perfeita. O “Quadrinho” a reflete muito mais na intimidade. O outro exprime a fisionomia dela quando se encontrava em outros ambientes. Vê-se que ela faz um esforço para não romper o que resta de amizade com os outros, para poder fazer-lhes bem.

O olhar reflete uma visão do futuro, mas sobretudo em função da ofensa a Deus, daquilo que ela via no Coração de Jesus, entristecido pelos pecados dos homens. É um ato de fé, de metafísica viva. Quem fez esse ato de fé tem uma limpeza de senso metafísico colossal.

Há uma tal integridade, por onde vemos que ela era consciente de que, se aceitasse, por exemplo, uma joia um pouco moderna, ela quebrava a fé.

É a fisionomia mais séria que eu vi na vida, mas, ao mesmo tempo, com uma calma extraordinária, a qual se reflete muito pelo conjunto da fisionomia e por todo o corpo, no qual não há um músculo contraído.

Ela tinha uma noção de delicadeza vinda do fato de ser muito digna, séria, sendo ela mesma, não querendo ser senão o que era, sem ganância. Ela não tinha jamais um sorriso que significasse qualquer conivência com o que de revolucionário houvesse no ambiente. É uma fisionomia que nos prepara para os acontecimentos de Fátima.

 

Exercício para visão beatífica

Assim eu olho sucessivamente para os olhares, para as coisas que esta vida se nos representa. Isso é viver. E não fazer isso é não viver. Falar, no fundo, é dizer coisas dessas. E quem nunca pensou nem viu, e não teve coisas semelhantes em vista, e nunca fez isso, este eu tenho dificuldade de explicar para mim mesmo como ele estará pronto para a visão beatífica. Porque a visão beatífica é isso: olhar Deus face a face e peregrinar dentro d’Ele e sempre, sempre, e imutável e novo para nós, afável, majestoso, acolhedor!

E nós dentro d’Ele superpondo os aspectos sucessivos, para formar uma cognição que nunca cessará. Porque jamais O conheceremos em sua totalidade. Isso será a nossa alegria no Céu!” (Extraído de conferências de 23/12/1976, 7/3/1982 e 20/8/1987)[1]




[1] Revista “Dr Plínio”, edição n. 312, março de 2024, págs. 7/9

 


domingo, 19 de abril de 2026

DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA: CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA A CONTRA-REVOLUÇÃO


               (Revista "Dr. Plínio" n. 233, agosto de 2017)


 

Meus jovens e brilhantes amigos da Sociedade Argentina de Defesa da Tradição, Família e Propriedade pediram-me, para esta nova edição de Revolução e Contra-Revolução, um prólogo sobre os pontos de contato deste livro com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís Maria Grignion d Montfort.

Muitos são hoje – fora dos meios progressistas, é claro – os católicos que conhecem e admiram a obra do fogoso e grande missionário popular do século XVIII.

Nasceu em  Montfort-sur-Meu ou Montfort-la-Cane (Bretanha) no ano de 1673. Ordenado sacerdote em 1700, dedicou-se, até sua morte no ano de 1716, a pregar missões às populações rurais e urbanas da Bretanha, Normandia, Poitou, Vendée, Aunis, Saintonge, Anjou, Maine. As cidades em que pregou, inclusive as mais importantes, viviam em grande medida da agricultura e estavam profundamente marcadas pela vida rural. De sorte que São Luís Maria, se bem não havia pregado de forma exclusiva a camponeses, pode ser considerado essencialmente um apóstolo de populações rurais.

Em suas prédicas, que em termos modernos poderiam ser chamadas “aggiornate”, não se limitava a ensinar a doutrina católica de modo que servissem para qualquer época e qualquer lugar, senão que sabia dar realce aos pontos mais necessários para os fiéis que o ouviam.

O gênero de seu “aggiornamento” deixaria provavelmente desconcertados a muitos dos prosélitos do aggiornamento moderno.  Não via os erros de seu tempo como meros frutos de equívocos intelectuais, oriundos de homens de insuspeitável boa fé: erros que por isto mesmo seriam sempre dissipados por um diálogo destro e ameno.

Capaz do diálogo afável e atraente, não perdia de vista, sem embargo, toda a influência do pecado original e dos pecados atuais, assim como a ação do príncipe das trevas, na gênese e no desenvolvimento da imensa luta movida pela impiedade contra a Igreja e a Civilização Cristã.

A célebre trilogia demônio, mundo e carne, presente nas reflexões dos teólogos e missionários de boa lei em todos os tempos, ele e a tinha em vista como um dos elementos básicos para o diagnóstico dos problemas de seu século. E assim, conforme as circunstâncias o pediam, sabia ser ora suave e doce, como um anjo-mensageiro da dileção ou do perdão de Deus, ora batalhador e invicto, como um anjo incumbido de anunciar as ameaças da Justiça Divina contra os pecadores rebeldes e endurecidos. Esse grande apóstolo soube alternadamente dialogar e polemizar, e nele o polemista não impedia a efusão das doçuras do Bom Pastor, nem a mansidão pastoral aguava os santos rigores do polemista.

Estamos, com este exemplo, bem longe de certos progressistas para os quais todos nossos irmãos separados, heréticos ou cismáticos, seriam necessariamente de boa fé, enganados por meros equívocos, de sorte que polemizar com eles seria sempre um erro e um pecado contra a caridade.

A sociedade francesa dos séculos XVII e XVIII (nosso Santo viveu, como vimos, no ocaso de um e nas primeiras décadas do outro) estava gravemente enferma. Tudo a preparava para receber passivamente a inoculação dos germens do Enciclopedismo e desmoronar-se em seguida na catástrofe da Revolução Francesa.

Apresentando aqui um quadro circunscrito dela e, portanto, forçosamente muito simplificado – indispensável, sem embargo para compreender a pregação de nosso Santo – pode dizer-se que nas três classes sociais, clero, nobreza e povo, preponderavam dois tipos de alma: os laxos e os rigoristas. Os laxos, tendentes a uma vida de prazeres que levava à dissolução e ao ascetismo. Os rigoristas, propensos a um moralismo rígido, formal e sombrio, que levava à desesperação quando não à rebelião. Mundanismo e jansenismo eram os dois pólos que exerciam uma nefasta atração, inclusive e meios reputados como os mais piedosos e moralizados da sociedade de então.

Um e outro – como tantas vezes sucede com os extremos do erro – levavam a um mesmo resultado. Com efeito, cada qual por seu caminho apartavam as almas do santo equilíbrio espiritual da Igreja. Esta, efetivamente, nos ensina em admirável harmonia a doçura e o rigor, a justiça e a misericórdia. Nos afirma por um lado a grandeza natural autêntica do homem – sublimada por sua elevação à ordem sobrenatural e sua inserção no Corpo Místico de Cristo – e por outro lado nos faz ver a miséria em que nos lançou o pecado original, com toda sua sequela de nefastas consequências.

Nada mais normal que a coligação dos erros extremos e contrários frente o apóstolo que pregava a doutrina católica autêntica: o verdadeiro  contrário de um desequilíbrio não é o desequilíbrio oposto, senão o equilíbrio. E assim, o ódio que anima os sequazes dos erros opostos não os lança uns contra outros, senão que os joga contra os Apóstolos da Verdade. Máxime quando essa verdade é proclamada com uma vigorosa franqueza, pondo em realce os pontos que discrepam mais agudamente com os erros em voga.

Exatamente assim foi a pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort. Seus sermões, pronunciados em geral ante grandes auditórios populares, culminaram, não poucas vezes, em verdadeiras apoteoses de contrição, de penitência e de entusiasmo. Sua palavra clara, chamejante, profunda, coerente, sacudia as almas abrandadas pelos mil graus de moleza e sensualidade que naquela época se difundiam desde as classes mais altas até os demais estratos da sociedade.

Ao final de seus sermões, frequentemente os ouvintes reuniam na praça pública pirâmides de objetos frívolos ou sensuais e de livros ímpios, aos quais acendiam fogo. Enquanto ardiam as chamas, nosso infatigável missionário fazia novamente uso da palavra, incitando o povo à austeridade.

Esta obra de regeneração moral tinha um sentido profundamente sobrenatural e piedoso. Jesus Cristo crucificado, seu Sangue precioso, suas Chamas sacratíssimas, as Dores de Maria eram o ponto de partida e o término de sua pregação. Por isto mesmo promoveu em Pont-Chateau a construção de um grande Calvário que deveria ser o centro de convergência de todo o movimento espiritual suscitado por ele.

Na Cruz via nosso Santo a fonte de uma superior sabedoria, a Sabedoria cristã, que ensina ao homem a ver e amar nas coisas criadas manifestações e símbolos de Deus; a sobrepor a Fé à razão orgulhosa, a Fé e a reta razão aos sentidos rebeldes, a moral à vontade desordenada, o espiritual ao material, o eterno ao contingente e transitório.

Mas este ardoroso pregador da genuína austeridade cristã nada tinha da austeridade taciturna, biliosa e estreita de um Savonarola ou de um Calvino. Ela era suavizada por uma terníssima devoção à Nossa Senhora.

Pode se dizer que ninguém levou mais alto que ele a devoção à Mãe de Misericórdia. Nossa Senhora, enquanto Mediadora necessária – por eleição divina – entre Jesus Cristo e os homens, foi o objeto de seu contínuo enlevo, o tema que suscitou suas meditações mais profundas, mais originais. Nenhum crítico sério pode lhes negar a qualificação de inspiradamente geniais. Em torno da Mediação Universal de Maria – hoje verdade de Fé – São Luís Maria Grignion de Montfort construiu toda uma mariologia que é o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus.

Estes são os principais recursos de sua admirável pregação.

Toda esta prédica está condensada nos três trabalhos principais escritos pelo Santo: a Carta Circular aos Amigos da Cruz, o Tratado da Divina Sabedoria e o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma espécie de trilogia admirável, toda de ouro e de fogo, da qual se destaca, como obra-prima entre as obras-primas, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Por estas obras podemos nos dar conta da substância da pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort.

Nosso Santo foi um grande perseguido. Este aspecto de sua existência é realçado por todos seus biógrafos.

Um vendaval furioso, movido pelos mundanos, pelos céticos enfurecidos ante tanta Fé e tanta austeridade e pelos jansenistas indignados ante uma devoção insigne a Nossa Senhora, da qual dimanava uma suavidade inefável, ergueu-se contra sua prédica. Daí originou-se um torvelinho que levantou contra ele, por assim dizer, toda a França.

Não poucas vezes, como sucedeu em 1705 na cidade de Poitiers, seus magníficos “autos de fé”  contra a imoralidade foram interrompidos por ordem de autoridades eclesiásticas, as quais evitavam assim a destruição desses objetos de perdição. Em quase todas as dioceses da França lhe foi negado o uso de ordens. Depois de 1711, somente os Bispos de La Rochelle e de Luçon permitiram-lhe a atividade missionária. E, em 1710, Luis XIV ordenou a destruição do Calvário de Point-Chateau.

Ante esse imenso poder do mal, nosso Santo revelou-se profeta. Com palavras de fogo, denunciou os germens que minavam a França de então e vaticinou uma catastrófica subversão que deles haveria de derivar. O século em que São Luís Maria morreu não terminou sem que a Revolução Francesa confirmasse de modo sinistro suas previsões.

Fato ao mesmo tempo sintomático e entusiasmante: as regiões onde nosso Santo teve liberdade de pregar sua doutrina e nas quais as massas humildes o seguiram, foram aquelas em que os chouans se levantaram, armas na mão, contra a impiedade e a subversão. Eram os descendentes dos camponeses que haviam sido missionados pelo grande Santo e preservados assim dos germens da Revolução.

Do nexo entre a obra mestra deste grande Santo e o contido em nosso ensaio – tão diminuído pela comparação – é que nos devemos ocupar.

Comecemos por expor aqui alguns pensamentos contidos em Revolução e Contra-Revolução.[1]

 

Orgulho e impureza na origem da Revolução

A Revolução é apresentada nela como um imenso processo de tendências, doutrinas, de transformações políticas, sociais e econômicas, derivado em última análise – estaria tentado a dizer em ultíssima análise – de uma deterioração moral nascida de dois vícios fundamentais: o orgulho e a impureza, que suscitam no homem uma incompatibilidade profunda com a doutrina católica.

Com efeito, a Igreja Católica como Ela é, a doutrina que ensina, o universo que Deus criou e que podemos conhecer tão esplendidamente através de seus prismas, tudo isso excita no homem virtuoso, puro e humilde, um profundo enlevo. Ele sente alegria ao considerar que a Igreja e o universo são como são.

Mas se uma pessoa cede em algo aos vícios do orgulho ou da impureza, começa a se criar nela uma incompatibilidade com vários aspectos da Igreja ou da ordem do Universo. Essa incompatibilidade pode começar, por exemplo, com uma antipatia com o caráter hierárquico da Igreja, depois se desdobrar e alcançar a hierarquia da sociedade temporal, para mais tarde manifestar-se em relação à ordem hierárquica da família. E assim, uma pessoa pode, por várias formas de igualitarismo, chegar a uma posição metafísica de condenação de toda e qualquer desigualdade, e do caráter hierárquico do Universo. Seria o efeito do orgulho no campo da metafísica.

De modo análogo se pode delinear as consequências da impureza no pensamento humano. O homem impuro, por regra geral, começa por tender para o liberalismo: o irrita a existência de um preceito, de um freio, de uma lei que circunscreva o transbordamento de seus sentidos. E, com isto, toda ascese lhe parece antipática. Dessa antipatia, naturalmente, vem uma aversão ao próprio princípio de autoridade, e assim sucessivamente. O anelo de um mundo anárquico – no sentido etimológico da palavra – sem leis nem poderes constituídos, e no qual o próprio Estado não seja senão uma imensa cooperativa, é o ponto extremo do liberalismo gerado pela impureza.

Tanto do orgulho quanto do liberalismo nasce o desejo de igualdade e liberdade totais, que é a medula do comunismo.

A partir do orgulho e da impureza se vão formando os elementos constitutivos de uma concepção diametralmente oposta à obra de Deus. Essa concepção, em seu aspecto final, já não difere da católica somente em um ou outro ponto. A medida que, ao longo das gerações, esses vícios se vão aprofundando e voltando mais acentuados, vai se estruturando toda uma concepção gnóstica e revolucionária do Universo.

A individualidade, que para a gnose é o mal, é um princípio de desigualdade. A hierarquia –qualquer que seja – é filha da individualidade. O universo segundo o gnóstico se resgata da individualidade e da desigualdade num processo de destruição do “eu”, que reintegra os indivíduos no grande Todo homogêneo. A realização, entre os homens, da igualdade absoluta, e de seu corolário, a liberdade completa – numa ordem de coisas anárquica – pode ser vista como uma etapa preparatória dessa reabsorção total.

Não é difícil perceber, nesta perspectiva, um nexo entre gnose e comunismo.

 

A devoção a Nossa Senhora é essencial para a Contra-Revolução

Assim, a doutrina da Revolução é a gnose, e suas causas últimas têm suas raízes no orgulho e na sensualidade. Dado o caráter moral destas causas, todo o problema da Revolução e da Contra-Revolução é, no fundo, e principalmente, um problema moral. O que se disse em Revolução e Contra-Revolução é que, se não fosse pelo orgulho e a sensualidade, a Revolução como movimento organizado no mundo inteiro não existiria, não seria possível.

Ora, se no centro do problema da Revolução e da Contra-Revolução há uma questão moral, há também e eminentemente uma questão religiosa, porque todas as questões morais são substancialmente religiosas. Não há moral sem religião. Uma moral sem religião é o que de mais inconsistente se possa imaginar. Todo problema moral é, pois, fundamentalmente religioso. Sendo assim, a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é uma luta que, em sua essência, é religiosa. Se é religiosa, se é uma crise moral que dá origem ao espírito da Revolução, então, essa crise só pode ser evitada, só pode ser remediada com o auxílio da graça.

É um dogma da Igreja que os homens não podem, somente com os recursos naturais, cumprir duravelmente, e em sua integridade, os preceitos da Moral católica, sintetizados na Antiga e na Nova Lei. Para cumprir os Mandamentos, é necessária a existência da graça.

Por outro lado, se o homem cai em estado de pecado, acumulando-se nele as apetências pelo mal, a fortiori não conseguirá levantar-se do estado em que caiu sem o socorro da graça. Provindo da graça toda preservação moral verdadeira ou toda regeneração moral autêntica, é fácil ver o papel de Nossa Senhora na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução. A graça depende de Deus, mas Deus, por um ato livre de sua vontade, quis fazer depender de Nossa Senhora a distribuição das graças. Maria é a Medianeira Universal, é o canal por onde passam todas as graças. Portanto, seu auxílio é indispensável para que não haja Revolução, ou para que esta seja vencida pela Contra-Revolução.

Com efeito, quem pede a graça por intermédio d’Ela, a obtém. Quem tente consegui-la sem o auxílio de Maria, não a obterá. Se os homens, recebendo a graça, correspondem a ela, está implícito que a Revolução desaparecerá. Pelo contrário, se eles não corresponderem, é inevitável  que a Revolução surja e triunfe. Portanto, a devoção a Nossa Senhora é conditio sine qua non[2] para que a Revolução seja esmagada, para que vença a Contra-Revolução.

Insisto no que acabo de afirmar. Se uma nação for fiel às graças  necessárias e até suficientes que recebe de Nossa Senhora, e se se generaliza nela a prática dos Mandamentos, é inevitável que a sociedade se estruture bem. Porque, com a graça, vem a sabedoria, e com a sabedoria, todas as atividades do homem entram nos eixos.

Isso se verifica, de certo modo, com a análise do estado em que se encontra a civilização contemporânea. Construída sobre uma recusa da graça, alcançou alguns resultados estrepitosos. Estes, porém, devoram o homem. Na medida em que tem por base o laicismo e viola, sob vários aspectos, a ordem natural ensinada pela Igreja, a civilização atual é nociva ao homem.

Sempre que a devoção a Nossa Senhora seja ardorosa, profunda, de rica substância teológica, é claro que a oração de quem pede será atendida. As graças choverão sobre a pessoa que reza a Ela devota e assiduamente. Se, pelo contrário, essa devoção for falsa ou tíbia, manchada por restrições de sabor jansenista ou protestante, há grave risco de que a graça seja dada menos largamente, porque encontra por patê do homem nefastas resistências. O que se diz do homem pode dizer-se, mutatis mutandi, da família, de uma região, de um país, ou de qualquer outro grupo humano.

É costume dizer-se que na economia da graça, Nossa Senhora é o pescoço do Corpo Místico, do qual Nosso Senhor Jesus Cristo é a Cabeça, porque tudo passa por Ela.

A imagem é inteiramente verdadeira na vida espiritual. Um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora é como alguém que tem uma corda atada ao pescoço e conserva apenas um fio de respiração. Quando não tem nenhuma devoção, se asfixia. Tendo uma grande devoção, o pescoço fica completamente livre e o ar penetra abundantemente no pulmão, podendo o homem viver normalmente.

A esterilidade e até a nocividade de tudo quanto se faz contra a ação da graça, e a enorme fecundidade do que se faz com seu auxílio, determinam bem a posição de Nossa Senhora nesse combate entre a Revolução e a Contra-Revolução, pois a intensidade das graças recebidas pelo homem depende da maior ou menor devoção que a Ela tiverem.

 

O concurso do espírito do mal

Uma visão da Revolução e da Contra-Revolução não pode ficar apenas nestas considerações. A Revolução não é o fruto da exclusiva maldade humana. Esta última abre as portas ao demônio, pelo qual se deixa estimular, exacerbar e dirigir.

É, pois, importante considerar, nesta matéria, a oposição entre Nossa Senhora e o demônio. O papel do demônio na eclosão e nos progressos da Revolução foi enorme. Como é lógico pensar, uma explosão de paixões desordenadas tão profunda e tão geral como a que originou a Revolução não teria ocorrido sem uma ação preternatural. Além disso, seria difícil que o homem alcançasse os extremos de crueldade, de impiedade e de cinismo, aos quais a Revolução chegou várias vezes ao longo de sua história, sem o concurso do espírito do mal.

Ora, esse fator de propulsão tão forte está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Basta que Ela fulmine um ato de seu império sobre o inferno, para que ele estremeça, se confunda, se encolha e desapareça do cenário humano. Pelo contrário, basta que Ela, para castigo dos homens, deixe ao demônio um certo raio de ação, para que a ação deste progrida. Portanto, os enormes fatores da Revolução e da Contra-Revolução, que são respectivamente o demônio e a graça, dependem de seu império e seu domínio.

 

Efetiva realeza de Maria

A consideração deste soberano poder de Nossa Senhora nos aproxima da ideia da realeza de Maria. É preciso não ver essa realeza como um título meramente decorativo. Embora submissa em tudo à vontade de Deus, a realeza de Nossa Senhora importa num poder de governo pessoal muito autêntico.

Tive ocasião de empregar certa vez, numa conferência, uma imagem que facilita a compreensão do papel de Nossa Senhora como Rainha.

Imaginemos um diretor de colégio com alunos muito insubordinados. Ele os castiga com uma autoridade de ferro. Depois de os ter submetido à ordem, retira-se dizendo à sua mãe: “Sei que governareis este colégio de modo diferente do que estou fazendo agora. Vós tendes um coração materno. Tendo eu castigado esses alunos, quero agora que os governeis com doçura”. Essa senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, porém com um método diverso daquele que usou o diretor. A atuação dela é distinta da dele; não obstante, ela faz inteiramente a vontade dele.

Nenhuma comparação é exata. Entretanto, julgo que, sob certo aspecto, esta imagem nos ajuda a entender a questão.

Análogo é o papel de Nossa Senhora como Rainha do Universo. Nosso Senhor Lhe deu um poder régio sobre toda a Criação, cuja misericórdia, sem chegar a nenhum exagero, chega entretanto a todos os extremos. Ele colocou-A como Rainha do Universo para governá-lo e, especialmente, para governar o pobre gênero humano decaído e pecador. E é vontade d’Ele que Ela faça o que Ele não quis fazer por Si, mas por meio d’Ela, régio instrumento de seu Amor. Há, pois, um regime verdadeiramente marial no governo do Universo. E assim se vê como é que Nossa Senhora, embora sumamente unida a Deus e dependente d’Ele, exerce sua ação ao longo da História. Nossa Senhora é infinitamente inferior a Deus – é evidente porém, Deus quis dar a Ela esse papel por um ato de liberalidade. É Nossa Senhora quem, distribuindo ora mais largamente a graça, ora menos, freando ora mais, ora menos, a ação do demônio, exerce sua realeza sobre o curso dos acontecimentos terrenos. Nesse sentido, depende d’Ela a duração da Revolução e a vitória da Contra-Revolução. Além disso, às vezes Ela intervém diretamente nos acontecimentos humanos, como o fez, por exemplo, em Lepanto. Quão numerosos são os fatos da História da Igreja em que ficou clara sua intervenção direta no curso das coisas! Tudo isto nos faz ver de quantos modos é efetiva a realeza de Nossa Senhora.

Quando a Igreja canta a seu respeito: “Tu só exterminaste as heresias no mundo inteiro”, diz que seu papel nesse extermínio foi de certo modo único. Isso equivale a dizer que Ela dirige a História, porque quem dirige o extermínio das heresias dirige o triunfo da ortodoxia, e dirigindo uma e outra coisa, dirige a História no que ela tem de mais medular.

Haveria um trabalho de História interessante para fazer: o de demonstrar que o demônio começa a vencer quando consegue diminuir a devoção a Nossa Senhora. Isso se deu em todas as épocas de decadência da Cristandade, em todas as vitórias da Revolução. Exemplo característico é o da Europa antes da Revolução Francesa. A devoção a Nossa Senhora nos países católicos foi prodigiosamente diminuída pelo jansenismo, e é por isso que eles ficaram como uma floresta combustível, onde uma simples chispa pôs fogo em tudo.

Estas e outras considerações tiradas do ensinamento da Igreja abrem perspectivas para o Reino de Maria, isto é, uma era histórica de Fé e de virtude que será inaugurada com uma vitória espetacular de Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio será expulso e voltará aos antros infernais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das instituições que para isso escolheu.

 

O Reino de Maria e a união de almas

Quanto a essa perspectiva do Reino de Maria, encontramos na obra de São Luís Maria Grignion de Montfort algumas alusões dignas de nota. Ele é, sem dúvida, um profeta que anuncia essa vinda. Disso fala claramente: “Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a Terra de um modo tão suave e tão veemente, que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?” [3] Esse dilúvio, que lavará a humanidade, inaugurará o Reino do Espírito Santo, que ele identifica com o Reino de Maria. Nosso santo afirma que vai ser uma era de florescimento da Igreja como até então nunca houve. Chega inclusive a afirmar que “o Altíssimo, com sua Santa Mãe, devem formar para Si grandes santos, que sobrepujarão em santidade a maior parte dos outros santos, como os cedros do Líbano se avantajam aos pequenos arbustos”.[4]

Considerando os grandes santos que a Igreja já produziu, ficamos deslumbrados ante a envergadura desses que surgirão sob o bafejo de Nossa Senhora. Nada é mais razoável do que imaginar um crescimento enorme da santidade numa era histórica em que a atuação de Nossa Senhora aumente também prodigiosamente. Podemos, pois, dizer que São Luís Maria Grignion de Montfort, com seu valor de pensador, mas sobretudo, com sua autoridade de santo canonizado pela Igreja, dá peso, autoridade, consistência, às esperanças que brilham em muitas revelações particulares, de que virá uma época na qual Nossa Senhora verdadeiramente triunfará.

A realeza de Nossa Senhora, embora tenha uma soberana eficácia em toda a vida da Igreja e da sociedade temporal, realiza-se em primeiro lugar no interior das almas. Daí, do santuário interior de cada alma, é que ela se reflete sobre a vida religiosa e civil dos povos, enquanto considerados como um todo.

O Reino de Maria será, pois, uma época em que a união das almas com Nossa Senhora alcançará uma intensidade sem precedentes na História (exceção feita, é claro, de casos individuais).

 

Escravidão a Nossa Senhora e Apóstolos dos Últimos Tempos

Qual é a forma dessa união em certo sentido suprema? Não conheço mais perfeito para enunciar a realizar essa união do que a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, tal como é ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort no “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Considerando que Nossa Senhora é o caminho pelo qual Deus veio aos homens e estes vão a Deus, tendo presente a realeza universal de Maria, nosso santo recomenda que o devoto da Santíssima Virgem  se consagre inteiramente a Ela como escravo. Essa consagração é de uma radicalidade admirável. Ela abarca não só os deveres materiais do homem, como também até o mérito de suas boas obras e orações, sua vida, seu corpo e sua alma. Ela é sem limites, porque o escravo por definição nada tem de seu.

Em troca dessa consagração, Nossa Senhora atua no interior de seu escravo de modo maravilhoso, estabelecendo com ele uma união inefável.

Os frutos dessa união serão vistos nos Apóstolos dos Últimos Tempos, cujo perfil moral ele traça, a fogo, em sua famosa “Oração abrasada”. Ele usa, para isso, uma linguagem de uma grandeza apocalíptica, na qual parece reviver todo o clamor de um São João Batista, todo o fogo de um São João Evangelista, todo o zelo de um São Paulo. Os varões portentosos que lutarão contra o demônio pelo Reino de Maria – conduzindo gloriosamente, até o fim dos tempos, a luta contra o demônio, o mundo e a carne – São Luís os descreve como magníficos modelos que convidam desde já à perfeita escravidão a Nossa Senhora, os que, nos tenebrosos dias de hoje, lutam nas fileiras da Contra-Revolução.

Assim, com estas considerações sobre o papel de Nossa Senhora na luta da Revolução e da Contra-Revolução, e sobre o Reino de Maria, vistas segundo o “Tratado da Verdadeira Devoção”, creio ter enunciado os principais pontos de conta entre a obra-prima do grande santo e meu ensaio – tão apequenado pela comparação – sobre “Revolução e Contra-Revolução”.[5]



[1] A partir daqui, texto transcrito da Revista Dr. Plínio n. 158, de maio de 2011

[2] Condição indispensável.

[3] Oração Abrasada de S.Luís Grignion, “Oeuvres Complètes”, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 681..

[4] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S.Luís Grignion, Oeuvres Completes, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 512 e 513, N. 47.

[5] PRÓLOGO à 1ª edição argentina de "Revolución y Contra-Revolução"