Temos
uma ficha para hoje sobre São João Batista de la Salle, cujos dados biográficos
são tirados do livro “Saints de France”, de Henri Pourrat:
“São João Batista nasceu em Reims, em 1651, de uma família de
magistrados. Menino ainda, em meio a uma festa, sentiu uma náusea profunda de
tudo quanto o rodeava. Dirigiu-se a uma prima, que só conseguiu consolá-lo,
lendo uma vida dos Santos. Com 17 anos, tornou-se cônego, colocando-se sob a
direção de M. Troçont, conhecido como excelente diretor espiritual. Perdendo
seus pais, precisou cuidar de seus irmãos.
“Nessa época, em Rouen, uma senhora fundara uma escola gratuita
para meninos órfãos. Em Reims, quiseram imitar esse exemplo, mas para os
meninos. M. Nille, encarregado de iniciar as suas funções em Reims, foi
hospedado por São João Batista que escreveu então: ‘Se eu soubesse que os
cuidados, a simples caridade que eu tomava para com os mestres de escola,
transformar-se-iam no dever de morar com eles, eu os teria abandonado. Porque
como eu os colocava abaixo de meus criados, as pessoas que trabalhavam em
escolas, o único pensamento de que seria obrigado, a viver com eles, me
pareceria insuportável’.
“E assim começou a missão de São João Batista. A organização do
ensino primário católico gratuito, e os irmãos das escolas cristãs. E com isso,
seus sofrimentos. Sua cidade natal, seus parentes, puseram-se contra ele.
“Escrevendo suas regras para seus irmãos, quis que vivessem
confiados na Providência. Seus companheiros murmuraram que isso era fácil para
ele, cônego. Abandonou então a sua posição e distribuiu seus bens. Os
discípulos murmuraram agora ser crime distribuir bens senão entre eles mesmos.
Organizado o Instituto e as escolas, começaram as perseguições dos
mestres-leigos. Seu hábito simples, mereceu-lhe vaias na rua, e que lhe
lançassem lama no rosto.
“Mais tarde, difundindo a comunhão frequente, e recebendo cheio
de alegria e submissão a bula “Unigenitus”, João Batista é atacado pelos
jansenistas, e abandonado pelos próprios irmãos. Idoso e alquebrado por suas
austeridades, em 1717, la Salle pensa em descansar no noviciado de Saint Ior,
mas o padre que o serve em suas doenças, o maltrata. E dois dias antes de sua
morte, em suas querelas religiosas, o arcebispo de Rouen, tira-lhe todos os
poderes, como a um padre indigno.
‘Espere – diz João Batista com um sorriso – que logo serei
libertado do Egito, para ser introduzido na verdadeira terra prometida dos eleitos’.
E ele conseguiu isso, na Sexta-Feira Santa, de 1719.”
A ficha sobre São João
Batista de la Salle é unilateral porque fornece apenas as adversidades de sua
vida e não a outra face da moeda
Esta vida é uma
vida muito bonita de um lado, mas por outro é unilateral, pois ela apresenta
apenas o “rio chinês”, as dificuldades e não mostra como o “rio chinês” chegou
ao mar, ou seja, como os caminhos da Providência acabaram por se dar.
A realidade das
coisas põe-se nos seguintes termos: na época em que este Santo viveu, em
virtude das guerras de religião, que foram muito profundas na França, entre
protestantes e católicos, e que desorganizaram a estrutura eclesiástica da
Igreja Católica, de um lado. Depois, havia o fato de que estavam se
reintroduzindo no clero francês um grande relaxamento de costumes e de empenho
apostólico.
Acontece que o
apostolado junto aos mais ricos era muito procurado pelo clero. Ou seja, junto
aos nobres, às pessoas importantes da corte, aos magistrados, enfim, a quem – a
qualquer título – tivesse uma situação social. Mas desdenhava-se muito o
apostolado junto aos pobres, e sobretudo dentre os pobres, junto aos meninos.
Compreende-se
esta orientação completamente errada. Uma vez que se tratava de uma sociedade
fortemente hierárquica, as maiores vantagens só podiam provir do convívio com
as pessoas mais importantes. E então Padres sem zelo, relaxados, procuravam os penitentes que lhes pudessem
trazer vantagens, ou relações que lhes pudessem trazer vantagens, e desprezavam
o povinho.
O resultado é
que uma quantidade enorme de crianças do povo, se formavam sem ter ensino
religioso. Havia mestres de escolas, mas eram de escolas leigas e assim uma
multidão de elementos da França nova, que vinham nascendo, as gerações novas
ficavam completamente paganizadas.
O Clero novamente caindo
na decadência procura os grandes do dia; por isso torna-se anti-hierárquico e
anti-aristocrático
Era uma
situação, até certo ponto, diametralmente oposta à de hoje. Os senhores veem o
clero infelizmente caindo de novo no relaxamento, bajular os grandes do dia.
Mas acontece que estes últimos já não são mais os ricos, muito menos ainda o
são os nobres, também não são os intelectuais. Os grandes do dia são os homens soprados pela demagogia,
quer dizer, são os chefes populares, os líderes operários, os elementos que
dirigem sindicatos etc., e com os quais parece estar o poder no dia de amanhã. São os meios esquerdistas bafejados pela
imprensa e que proporcionam uma publicidade lisonjeira às pessoas que os apoiam.
E então os
senhores veem mais uma vez o clero, como disse antes, caindo em decadência, e,
pois, anti-hierárquico, anti-aristocrático, desdenhando os intelectuais e
procurando os revolucionários.
Mas naquele
tempo em que a Revolução não tinha destruído a ordem de coisas como veio a
fazer, o clero relaxado por análogas razões, desdenhava os pequenos e procurava
os que então eram grandes. Mas numa ou noutra situação, a constante é a mesma: o clero
relaxado procurando os grandes.
São João Batista de la
Salle segue uma orientação diversa do clero decadente e vai procurar os que
estão sendo abandonados
Acontece que
São João Batista de la Salle, que era de uma família entre burguesia e nobre,
portanto sem ser uma grande família, era de certa categoria, além do que era
cônego, e todos os cônegos naquela época tinham rendas. Assim sendo, ele que
podia seguir o movimento geral e candidatar-se para frequentar meios mais altos
que os dele, para fazer carreira, eventualmente ficar bispo, talvez cardeal,
São João Batista de la Salle segue uma orientação diversa.
Como pessoa modelar que
era, abnegado, desinteressado dos bens
desse mundo, vai à busca dos que estão sendo abandonados. Em nossa
época, ele procuraria quem a Revolução desdenha, portanto a classe oposta daquela
que procurou naquele tempo. E constituiu uma Congregação Religiosa de irmãos
leigos, especialmente destinados a ensinar a religião para as crianças.
Objeção contra o
apostolado feito com crianças
Os senhores me
dirão: “Mas Dr. Plinio, esse apostolado de ensinar Religião para crianças, não
é um apostolado muito “mocorongo”, de último nível? Um apostolado com
criancinhas em que todos levantam, cantam uma coisinha, sentam e depois vem o
bê-á-bá? Vale a pena um homem de maior voo, de inteligência maior consagrar
toda a sua vida a este tipo de apostolado?”
Respondo da
seguinte maneira: temos de distinguir. Em nossos dias, uma pessoa com vocação para o
apostolado católico e contrarrevolucionário da TFP, é
chamada para algo de muito mais alto e de muito mais eficiente do que apostolado junto
a crianças de grupo primário, evidentemente.
Não obstante
isto, fazer
apostolado em grupo primário, em si – não tomando a comparação com a TFP – se
faz uma coisa muito boa. Porque qualquer apostolado é uma grande coisa. Qualquer
alma, do último meninote de escola, foi remida pelo sangue infinitamente
precioso de Cristo, quem somos nós para julgar pouco fazer bem para esta alma?
Qualquer atividade apostólica, em si, é digníssima, é esplêndida, é digna de
toda a veneração.
De maneira que entre um homem passar a
vida procurando defender exclusivamente os seus interesses e não fazer
apostolado, ou ele fazer apostolado – ainda que seja o
modesto apostolado com crianças para ensinar catecismo – de algum modo, trabalhou pelo
Reino de Deus, salvou almas. Fez, portanto, muito melhor porque trabalhou para a eternidade, do que se
tivesse meramente acumulado fortuna, honras desse mundo, que são coisas que os
vermes da terra hão de comer. Quando morrermos, não levaremos nem nossas honrarias, nem nossas
fortunas; levamos nossas boas obras. Ensinar crianças, é uma muito boa obra!
Mas acontece
uma outra coisa sobretudo que devemos observar: São João Batista de la Salle,
não era um desses professorezinhos de Religião que se vê lecionar por aí, com
um ensino “mocorongo” de Catecismo.
Ou seja, um ensino tal que as crianças papagaiam o Catecismo, mas este absolutamente não lhes entrou na alma e não lhes marcou um rumo para
a vida inteira, sendo que há meios de lecionar o Catecismo em
nível primário, de maneira que isto não ocorra.
Para estudar a vida de um
Santo, deve-se conhecer sua mentalidade, suas intenções, para se conhecer o
verdadeiro alcance da obra que fundou
Há na vida de
São João Batista de la Salle, como de grandes outros Santos catequistas,
pessoas em grande quantidade que permaneceram católicas por toda a vida graças
a um ensino de Catecismo bem dado. Quer dizer, não devemos imaginar que ele
desse aulinhas de Catecismo…
Devemos
imaginar algo que nós não vimos – pelo menos eu não vi, e tenho razões sérias,
sólidas e robustas para imaginar que os senhores também não viram -, ou seja um
ensino ministrado com toda a atenção, o recolhimento, a influência que a aula
de um Catecismo dada por um Santo tem…
Acresce ainda
que ele fez coisa muito melhor: não só deu aulas de Catecismo, mas fundou uma Congregação Religiosa
inteira! Quer dizer, ele suscitou – no sentido humano da palavra – vocações de homens que deixavam o
mundo para se consagrarem exclusivamente ao ensino do Catecismo.
E, para simplificar – a terminologia canônica não é muito correta – ele fundou
uma Ordem Religiosa, especialmente destinada ao ensino do Catecismo.
Os senhores
estão vendo, portanto, que são centenas, milhares de pessoas, que ao longo de
séculos, passaram ensinando o Catecismo. Se essas pessoas tivessem sido fiéis à orientação dele até nossos dias, só sua Congregação –
e que se estendeu por inúmeros países, que ainda existe e é uma das pujantes da
Igreja Católica – já seria um baluarte de Contrarrevolução admirável.
Uma vez que
estamos estudando a
vida de um Santo, devemos conhecer sua mentalidade. E para tal devemos conhecer
sua intenção, o que é possível conhecendo o verdadeiro alcance da obra que ele
fundou. E é por causa disso, que eu estou me empenhando em mostrar, que
realmente, S. João Batista de la Salle teve em vista uma obra de grande
elevação.
Não seria
talvez a obra mais
indispensável a ser realizada, a obra mais necessária, mas é uma obra necessária;
não seria talvez a mais necessária, mas necessária porque é preciso que haja quem dê o Catecismo para as
crianças, de um lado.
Nem todo o mundo foi
chamado por Deus para fazer as mais altas obras
De outro lado,
nem todo o mundo foi chamado por Deus para fazer as mais altas obras. Também nas vocações dadas por
Deus, há uma hierarquia. E é excelente que uma pessoa que não
tenha sido chamada para o mais alto, faça de um modo altíssimo aquilo a que foi chamada, e foi
exatamente essa bonita realização de São João Batista de la Salle.
Os senhores
veem que ele teve êxito nisto. Sua Congregação se estende por toda a Terra e, durante muitos séculos,
fez muito bem. Quer dizer, esta é a linha mestra de seu apostolado.
É um homem chamado, que se esforçou e realizou aquilo para o que foi chamado. Esta é a linha
mestra.
Em torno disto
que é reto e claro, e de um traçado límpido como é um canal, se estabelece o
ziguezague do “rio chinês”.
Então, os
senhores têm todas essas dificuldades, que sua ficha biográfica menciona, e que
ele teve para de fato reunir sua Congregação.
Aí é que os
senhores veem, na sua verdadeira perspectiva, sua vida e a obra por ele
realizada. Os senhores compreendem, então, como é belo, ter tido de lutar
com tantas dificuldades, incompreensões, das quais certamente as mais dolorosas,
foram as que teve entre os seus, quer dizer, os que foram chamados para
trabalharem consigo. Parece não ter sido uma turma acomodatícia… Os senhores
viram que primeiro ele queria que o pessoal todo vivesse com muita pobreza,
confiados só à Providência, sem ter capitais… e o pessoal resmungou: “Você é
cônego, tem bom ordenado, é fácil confiar na Providência quando tem todos os
meses uma diocese que paga um dinheiro para você; nós, coitados, onde está o
nosso dinheiro? Nós queremos patrimônio!”
Ele vai e
renuncia ao patrimônio:
– Está aí, eu
estou pobre como vocês.
– Que loucura,
vai pôr fora esse dinheiro; era só o que nós tínhamos, por pouco que fosse
ainda dividia conosco…
Quer dizer, era um pessoal que não estava compreendendo
grande coisa do que ele estava querendo fazer.
É próprio das vidas dos
Santos mal escritas que não contem os aspectos mais interessantes
Como é que chegou a
se esclarecer esse conjunto de pessoas e como nessa turma rebarbativa – e, se se pudesse
dizer isto, inóspita, no sentido de dizer que no meio deles não devia ser
agradável estar… – clareou o zelo, limpou os horizontes e depois se tornou à altura do santo,
isto exatamente a ficha não diz…
Porque é
próprio da vida dos Santos mal escritas, que elas não contam os pontos
interessantes. Como foi alcançada esta grande vitória interna, a ficha não o diz.
A gente vê que isso lhe custou muito.
Porque como os senhores perceberam, ele tinha um sumo desprezo pelos professores primários.
Ele dizia que achava o ofício de professor primário, uma coisa tão inferior,
que preferia ser criado da casa dele mesmo, do que ser professor primário…
Vem a
Providência e o chama: “Meu filho, eu o convido para professor primário”…
“Está bem, eu
vou deixar esta gente toda, vou viver no meio dos professores primários”…
Reúne os
professores primários, uma companhia que deveria ser pelo visto – aliás, eu não participo desse desprezo
pelos professores primários como os senhores viram há
pouco – desagradável para ele; digamos uma palavra muito forte, mas talvez
verdadeira para o caso, nauseá-lo. Ele podia esperar ali, entre professores
primários, de ser bem tratado, porque era o único que era mais que os
professores primários. Qual o quê?! Entra na surra! Incompreensões, vistas
limitadas, estupidez etc.
Nossa Senhora quis que São
João Batista de la Salle com seu sangue regasse a semente que tinha sido
incumbido de plantar e de fazer vicejar
De outro lado,
os senhores viram bem…que ele manuseou o trabalho que costumamos conhecer:
“Não, onde é que se viu! Você, tão inteligente, vai entrar para essa história e
coisa e tal…”.
Ele adota um
hábito muito simples para indicar a modéstia da profissão e das condições. Qual
o resultado de sua atitude?
Na rua, as
pessoas chegam a jogar lama nele. Volta-se para o clero e este o maltrata de
todos os modos. Mas a obra indo para a frente… Eis aí o ponto interessante.
Nossa Senhora
quis que ele sofresse essas coisas todas para, com os méritos de seus
sofrimentos, com seu sangue portanto, regar a semente que ele tinha sido
incumbido de plantar e fazê-la vicejar.
Esta é uma regra à
qual não escapa, meus caros, nenhuma forma de apostolado!
O verdadeiro
apóstolo ou sofre pela obra que deseja realizar, mas mete sangue e dá a
alma dentro disso… Coisa muito pior do que sangue do corpo, muito pior, um
verdadeiro apóstolo ou mete sangue da alma e sofre por aquilo que ele quer realizar ou ele
absolutamente não é apóstolo.
Todo apóstolo
tem que ter sofrimentos. E um dos sofrimentos mais pungentes é a gente se sentir,
de um lado, chamado para
realizar uma vocação; e de outro perceber as ondas contrárias que parecem
tornar sem sentido o chamado que se recebeu. Esta coação ou
esta coarctação da vocação, este enfrentar obstáculos que parecem opor-se à via
do Espírito Santo, isto é uma das dilacerações mais penosas que uma alma pode sofrer.
De maneira que São João Batista de la Salle agiu
como verdadeiro homem de Deus, aguentando todas essas coisas.
Afinal de contas, a morte o libertou de tudo isto e ele encontrou a sua coroa
no Paraíso.
A Santa Igreja Católica
Apostólica Romana é uma instituição infinitamente maior do que a TFP!
Por que razão eu
insisti de um modo especial a respeito desta vida de Santo?
Os senhores
poderão me dizer que é uma vida de um Santo bem diferente da vida que
caracteriza um membro da TFP. E que, debaixo deste ponto de vista, talvez não
valesse a pena desenvolver tanto essa biografia.
Mas, foi intencionalmente que eu a
desenvolvi. Porque eu não quisera jamais que – por mais chamada, por
mais perdoada e por mais abençoada que seja a TFP – nossas vistas fossem tão
estreitas que não víssemos a Igreja a não ser dentro da TFP!
A Santa Igreja Católica,
Apostólica, Romana – instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, direta e
pessoalmente por Ele – é infinitamente maior do que a TFP. E o valor da TFP é
de ser um grãozinho cheio de
suco da Santa Igreja.
Mas o bom, o santo, o verdadeiro está na Igreja. E é da
Igreja que vem a TFP, que é um corpúsculo da Igreja. Da Igreja vem à TFP a
seiva, a vitalidade, a santidade que torna a TFP estimável.
Então, o bom membro da TFP,
que deve ser uma pessoa penetrada até
o fundo de sua alma, de intelecção, de compreensão nesse
sentido superior da palavra, de amor, de veneração, de ternura, para com a Igreja Católica verdadeira,
eterna. E deve ter uma compreensão admirativa por tudo aquilo que fizeram os
Santos por mais que suas atividades e suas vidas tenham sido diferentes das da
TFP, porque é só a gente tendo essa compreensão e a gente
percebe tudo isto que tesouro é; é só assim que a gente compreende o que é a TFP.
O que é a TFP
Por que o que é
a TFP?
Nós valemos na
medida em que vale o tesouro que defendemos. E o tesouro que defendemos é a Igreja Católica em sua totalidade, cuja
visão global nós devemos ter em vista.
A beleza de
nossa Causa exatamente é que defendemos a ortodoxia ao defender a Santa Igreja,
e assim defendemos todas essas outras coisas. Aqui está a beleza de nossa
causa.
De maneira que o verdadeiro membro da TFP se ele, por exemplo, naufragasse,
e o navio desse numa ilha onde não pudesse fazer outro apostolado a não ser o ensino primário,
ele se dedicasse a tal ensino com todo o fogo, e fosse um excelente professor primário, procurando
fazer o que São João Batista de la Salle realizou. Porque a
gente não tendo outro bem para fazer, deve fazer qualquer bem que esteja em
nossas mãos.
Mas servir à Santa Igreja de qualquer
forma, de qualquer jeito, sobre todos os modos possíveis, porque Ela é a
Igreja, digna de toda a nossa dedicação, de todo o nosso amor.
Em outros
termos eu quisera que o nosso amor à TFP tivesse como razão o nosso amor à Santa Igreja. Nós
compreendêssemos que a TFP é uma coisa a serviço da Igreja. Mas que fundada por Jesus Cristo é
a Igreja, anterior
incontavelmente à TFP e superior porque Ela é a Causa e a TFP é o efeito. E a Causa evidentemente é
superior ao efeito.
Ela é a cidade
e a TFP é a muralha. Ora a cidade vale mais que a muralha. A razão de ser da muralha é a cidade.
A TFP é o
escrínio – que é uma caixa de valor e forte dentro da qual se guardam joias; as
joias é a Santa Igreja. Ora, a joia vale mais do que o escrínio.
Os senhores me
dirão: “Mas tudo quanto há de bom na TFP não é uma beleza?” Eu digo: é, porque
a Igreja suscitou. E eu lhes explicarei como é que a Igreja suscitou.
A Igreja
suscitou, a Igreja deu a doutrina, a Igreja deu as graças para fazer – e
continua a dar. De maneira que tudo quanto há de valor na TFP, são valores da
Igreja.
Então, nós temos de amar a Igreja total, em
todos os seus aspectos, em todos os seus Santos, em todas as suas Ordens
Religiosas, em todas as suas obras, em todas as suas instituições. E, em razão disso, também a TFP,
que tem a glória – a única glória séria e que vale nessa Terra – que ser um
fragmento da Igreja. Esta é a visão das coisas que nós devemos ter.
A missão de ensinar, a seu
modo, é mais alta do que a missão de governar
Porque não
tenho aversão ao professor primário; acho que a missão de ser professor é sublime. A missão de
ensinar é, a seu modo, parecida com a de governar. E, a seu modo, é mais alta
do que a missão de governar. Os homens todos respeitam tanto o governo, mas não
compreendem que o ensino é – debaixo de certo ponto de vista – mais do que o
governo e a tarefa, o ato pelo qual uma pessoa comunica a outra um conhecimento, sobretudo,
sobretudo, sobretudo quando é o conhecimento embebido da doutrina Católica,
embebido de espírito
religioso, sobretudo quando é o conhecimento de Catecismo, é um ato super-excelente pelo qual o
professor abre para o aluno as portas do Céu. É como um Anjo que abre uma porta
de par em par, para que o outro entre. E é, portanto, uma missão magnífica!
E eu
absolutamente não posso concordar com a apreciação que está aqui e que, naturalmente,
São João Batista de la Salle tinha e depois abandonou, de que um professor é
menos do que um empregado doméstico. Ser um criado também é ser um filho de Deus, é uma
profissão modesta; a de carpinteiro também é modesta; São José a exerceu e Nosso
Senhor Jesus Cristo também.
Não devemos,
portanto, desprezar as profissões modestas. Mas a questão é que ser
um professor primário é ser mais do que um criado. É exercer um ofício que de
si é muito mais do que um criado. É exercer um ofício que de si é muito mais
nobre.
O que é mais nobre?
Levar conhecimento a alguém ou estender um prato com comida material? Na medida em que a alma é
mais do que o corpo, ensinar é mais do que estender um prato para alguém comer.
É evidente!
É claro que no
ensino, como em tudo que Deus instituiu, há graus e que há uma
diferença de grau entre o ensino primário e o secundário e o superior. E que a
dignidade do ensino superior é mais excelente, do que a dignidade do ensino
primário. O que não quer dizer que o ensino primário não tenha uma grande
dignidade.
Eu julgaria,
por exemplo, exagerada a sentença de Dom Pedro II: se ele não fosse Imperador,
ele quereria ser mestre-escola; aqui entra o Romantismo do século XIX…
Realmente, do
Imperador ao mestre-escola, há uma distância vertiginosa. E o próprio Dom Pedro
II tinha capacidade para ser um professor universitário; não tinha razão
portanto para querer ser um professor primário. Aqui entra o lirismo do século
XIX, o Romantismo, a coisa bonita do professor com a criancinha etc. Mas também
a Igreja não canonizou Dom Pedro II e nós não somos obrigados a concordar com
ele, nesse ponto.
Quer dizer, não
vamos exagerar as coisas, não vamos fazer lirismo com as coisas. Mas que é um
bonito ofício e muito respeitável, isso é. Incontestavelmente é.
Mas o que me
importa aqui é fixar a atenção dos senhores – a fim compreenderem a vida de um
Santo como S. João Batista de la Salle – para a imagem realmente difícil de
reconstituir de uma Santa Igreja onde a perfeição fosse frequente de se
encontrar em seus membros e a imagem do que seria um Santo comportando todo o
espírito ultramontano, de fidelidade total ao Magistério imutável da Santa
Igreja, e lecionando para crianças…
Então os
senhores têm a admiração por esta Ordem Religiosa que este Santo quis fundar. Mais do que isto: admiração pela
Igreja Católica Apostólica Romana!
A Igreja suscitou a TFP
porque todas as ideias que estão na minha mente decorreram de minha fidelidade
à Igreja
Em que sentido
a Igreja suscitou a TFP? Em que sentido a Igreja ensina a TFP e dá vitalidade à
TFP?
A Igreja
suscitou a TFP porque todas as ideias que estão na minha mente decorreram de
minha fidelidade à Igreja. Decorreram de eu ter sido educado numa família
católica onde eu aprendi muita coisa da Religião Católica; de ter sido aluno
dos padres jesuítas onde eu peguei também muita coisa do espírito de Santo
Inácio; de eu, em certa idade, ter verificado que tudo quando eu amava e tudo
aquilo para o que eu queria viver só tinha sentido em função da Religião
Católica, que sem a Igreja Católica nada prestava, nada era compreensível
sequer e nada era digno de apoio, e que não havia razão nenhuma para a gente se
privar dos prazeres dessa vida, a não ser em função do sobrenatural,
porque todas as outras razões de decoro, de moralidade, etc. concebidas de um
modo laico não resistem à menor análise.
E com isso ter
decidido pela Igreja, e porque a Igreja existe, porque Ela é Ela, e porque
Nossa Senhora me ajudou a compreender que Ela é verdadeira, daí veio o
itinerário que eu resolvi seguir.
De mais a mais
também – e eu posso dar disto testemunho – se não fossem as orações, se não fossem os sacramentos, as vidas dos
santos, eu nunca teria conseguido perseverar.
A perseverança me
veio da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana e me vem hoje ainda. Se eu
parasse de comungar – que Deus me livre! – se eu parasse de rezar o rosário –
que Deus me livre! – se a minha devoção a Nossa Senhora diminuísse – que Deus
mil vezes me livre! – imediatamente, todo o tônus do que eu faço, abaixaria.
Quer dizer, é a
Igreja Católica que misericordiosamente me tem na grei d’Ela e alimenta em mim
o por onde eu faço aquilo que eu sei que é o desejo de Nossa Senhora em relação
a mim.
Os que comigo
constituíram o primeiro núcleo da TFP, todos eles, tiveram um itinerário
mais ou menos semelhante, mas foram trazidos à TFP e aderiram ao que eu dizia, pela convicção que o que eu
estava dizendo era doutrina Católica. E eu nunca procurei persuadir uma pessoa
de algo, a não ser em nome da doutrina Católica.
A própria substância de
tudo quanto se faz na TFP é a Igreja Católica, é a doutrina Católica, é a
Religião Católica
Quer dizer é a
própria substância de tudo quanto se faz na TFP, é a Igreja Católica, é a
doutrina Católica, é a Religião Católica. E por causa disso, apesar de nós
vermos esse esboroar tristíssimo das coisas da Igreja, devemos amar a Igreja e
amá-la, por exemplo,
vendo na TFP um fruto d’Ela. A TFP, tão bela, a TFP tão
extraordinária, vendo na TFP um fruto d’Ela. Amando, portanto, na TFP a Igreja. E amando também na Igreja tudo o
que não é a TFP. Mas que os grandes Santos, os grandes Doutores, os homens de
Deus de todas as épocas, constituídos de acordo com o desígnio da Providência,
para ser a Igreja Católica, Apostólica, Romana. Sem isto, tudo é ininteligível.
Eu sei que eu já tenho dito isto aos senhores algumas
vezes. Mas eu creio
que não é mau martelar, e martelar, e martelar, para nós nos entendermos bem,
porque senão nós não nos entendemos. Porque toda a TFP só é inteligível a partir dessa perspectiva.
Uma comparação
entre o apostolado de São João Batista de Salle e o apostolado da TFP
(Pergunta: Seria possível reexplicar a comparação que existe no
apostolado de São João Batista de Salle e o apostolado da TFP?)
São João
Batista de la Salle foi chamado para um apostolado que era de formar uma Ordem
Religiosa para educar crianças no ensino primário. Esta obra, por si, é muito
grande, como eu expliquei. Mas ela tem qualquer coisa de auxiliar outras obras.
No seguinte sentido: habitualmente os frutos do ensino primário só dão tudo
quanto se pode esperar, se forem completados no ensino secundário ou, se as
pessoas não seguem o ensino secundário, em outras instituições Católicas que
vão afervorar as almas, mas, de si, não é normal que o homem saia com toda a
sua formação dada no curso primário. De maneira que ele fazia uma obra que
tomava uma parte apenas da atividade da Igreja, que era esta de educar
crianças. E com essa obra preparava a matéria-prima para as outras obras
católicas formarem e trabalharem. É uma obra indispensável – é bem verdade –
mas, como se vê, subsidiária de outras, auxiliar de outras, feita para servir a
outras.
Se se tomar a
TFP, vê-se que a questão é bem diversa. Na TFP, encontra-se uma obra que à
medida que vai se prolongando a crise dentro da Igreja, vai aparecendo mais
como um resíduo rutilante do que é a Igreja, não se deixando arrastar por esta
anti-Igreja que entrou dentro da Igreja. É uma obra que, portanto, conserva a
Fé como dentro de um vaso aromático, para que todos que queiram possam respirar
esta Fé e com isso possam se tonificar.
Porém a coisa
vai mais longe: é uma obra tal que a gente se pergunta – nas concretas
condições dos países onde a TFP existe hoje – se a grande maioria das almas que
ainda são fiéis, não perderiam a fidelidade se não fosse essa obra.
Quer dizer, é
uma obra que, dentro dessa derrocada que estamos presenciando no mundo de hoje,
seria como um ponto para ajudar a se agarrar, e para ajudar a se salvar.
Concretamente
falando, creio que nenhum dos que estão aqui nesta sala, ou quase nenhum, seria
inteiramente ortodoxo e teria evitado qualquer eiva da Revolução. Creio que
quase nenhum, ou nenhum, estaria compreendendo o que se passa na Igreja e teria
perdido completamente a cabeça e a Fé.
A TFP é uma
obra, portanto, que não se identifica com a Igreja. A gente vê que há muitas almas
católicas – graças a Deus – que não pertencem à TFP, mas em que a TFP faz o
papel de sal da terra. Quer dizer, apodreceria se não fosse a
TFP.
É uma obra, de outro lado, que luta
contra um adversário que deglutiria tudo e que é o comunismo. E
que com isto faz uma dupla tarefa de salvação: preservando os bons e combatendo os maus.
De onde decorre
que esta obra tem em si as cintilações vivíssimas do heroísmo, da grandeza, da
beleza, de todas as épocas passadas na Igreja. Isto é verdade.
Mas ela não é a
Igreja, obviamente. A Igreja Católica é outra coisa, distinta dela. A TFP é
algo que a Igreja engendrou para o serviço da Igreja, mas muito maior do que a
obra de São João Batista de la Salle. Porque uma questão é ser muita coisa de
um prédio, e outra coisa é ser o assoalho do prédio.
Se alguma definição se
devesse fazer da TFP seria: “Uma escola de cristão atrevimento, sob as bênçãos
de Maria”
Os senhores
vejam as coisas bonitas da vida da TFP. É só questão de saber vê-las.
Contaram-me esses dias que o Sr. “x” e três outros membros do Êremo de São
Bento, foram a Campos para falar com Dom Mayer. Com toda a naturalidade, quando
o avião – era um aviãozinho pilotado por um deles – estava voando alto, chegou
a hora de rezar o ofício. E o Sr. Fernando Antunes com outros abriram o ofício
e começaram a rezar, em rectus tônus, no mais alto
dos céus…
Não sei se os
senhores percebem a beleza: o avião roncando e o rectus tonus se fazendo
ouvir… Não sei se os senhores percebem a maravilha disto. Porque um eremita e um aviador são
figuras que o século considera completamente incompatíveis. O
eremita é exatamente o sujeito que tem medo de sair de dentro de casa, segundo a visão do século.
Quando falam de sair à rua, ele diz: “Não, eu não sei o que acontece lá fora”.
A gente pensa
que ele tem medo de tentação, tem pavor de andar até de automóvel… “Há muita
gente que tem morrido de automóvel, em desastre, tem cachorro bravo na rua”.
Quer dizer, um tipo aparvalhado, acretinado, incapaz de atravessar a calçada em
frente a sua própria casa.
O aviador, de
outro lado, é um tipo laico, audacioso, aventureiro, uma espécie de pirata
imbecil do ar, sem ideologia, sem doutrina, sem elevação de vistas, uma espécie
de galo de briga que voa com asas de ferro, não tem graça nenhuma.
Os senhores
estão vendo inteiramente nesse episódio o espírito da TFP: um que é eremita,
mas é aviador. Tem o arrojo do aviador, tem a facilidade de movimentos do
aviador, tem a eficiência do aviador, mas é eremita, quer dizer, vive na
clausura, tranca-se e ali dá glória a Nossa Senhora…!
Resultado:
quando chegou a hora de voar, ele, com toda a naturalidade, começa a entoar: Deus
in adjutorium meum intende… enquanto ronca o motor. Quer
dizer, é um
equilíbrio de desnortear o mundo. O mundo não compreende. Desses equilíbrios, é feita a TFP.
A TFP é feita
exatamente de todas as figuras de piedade tradicionais com todos os arrojos,
com todas as iniciativas, com todos os desembaraços, com todas as audácias que
caracterizaram a piedade corrente nos tempos em que a Religião Católica era bem
entendida e em que quando Camões cantava o espírito de empreendimento dos
primeiros navegantes portugueses que iam em boa parte para levar a Fé aos
países pagãos, ele falava em “sempre mais cristãos atrevimentos”.
A ideia do
atrevimento cristão… “Atrevimento” não tem esse sentido da palavra de hoje,
quer dizer o sujeito insolente, não são as “sempre mais cristãs insolências”,
não é isso não. Atrevimento é o sujeito atrever-se, quer dizer as audácias, o desafio
ao perigo, o arcar com esforço enorme, o heroísmo em todos
os seus aspectos, então, para sempre mais cristãos heroísmos, dizia Camões, que
caminhavam os portugueses. É propriamente o que exprime a TFP. Se alguma definição se devesse
fazer da TFP seria: “Uma escola de cristão atrevimento, sob as bênçãos de
Maria”. Isto é a TFP.
De onde é que
vem isto? Donde esse
heroísmo é belo? É porque é cristão. Quer dizer, a
substância de tudo quanto é belo aqui, é que reedita coisas que a Igreja já fez, dando-lhes um fulgor
e uma forma talvez ainda mais audaciosa para alguns aspectos e que às vezes, eu creio, nós mesmos
não percebemos bem tudo quanto tem de belo.
Por exemplo, eu não sei se nós mesmos percebemos bem tudo quanto de belo tem uma
Campanha da TFP. Eu não sei… Rapazes que saem à rua, vão ao
Viaduto do Chá – eu já tenho dito isto aqui – onde se crê que campeia Mamon, o
deus do dinheiro, aonde as modas imorais se estadeiam à vontade, e ali afirmam
audaciosamente o contrário, diante do trono de fumaça do demônio, que ruge e
não pode fazer nada.
Isto é um
atrevimento cristão muito mais bonito do que abater cem touros numa tourada. Touro é um bicho
estúpido: a gente põe aqui um pano vermelho e ele vem para cá. A gente passa
uma banderilha nele, e ele sai carregando… ele nem tem braços para pôr para
fora a banderilha que se pôs nele. Ele volta de novo.
Quando a gente
assiste uma tourada, a gente fica com pena do touro, não tanto pelo sangue que
o touro derrama, mas pelo fato dele ser tão imbecil: só tem fúria, não tem mais
nada… não vale nada! É um bicho raivoso, mais nada… “de lo último”.
A coisa bonita não
é enfrentar um touro, é enfrentar um outro homem, é enfrentar uma gargalhada, é enfrentar uma opinião pública
revolucionária. Isto a TFP faz. Mas ela faz, pelo auxílio de Nossa Senhora, com a graça
de Nossa Senhora.
(Plínio Corrêa de Oliveira – “Santo do Dia”, 15 de maio de 1971)