domingo, 19 de abril de 2026

DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA: CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA A CONTRA-REVOLUÇÃO


               (Revista "Dr. Plínio" n. 233, agosto de 2017)


 

Meus jovens e brilhantes amigos da Sociedade Argentina de Defesa da Tradição, Família e Propriedade pediram-me, para esta nova edição de Revolução e Contra-Revolução, um prólogo sobre os pontos de contato deste livro com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís Maria Grignion d Montfort.

Muitos são hoje – fora dos meios progressistas, é claro – os católicos que conhecem e admiram a obra do fogoso e grande missionário popular do século XVIII.

Nasceu em  Montfort-sur-Meu ou Montfort-la-Cane (Bretanha) no ano de 1673. Ordenado sacerdote em 1700, dedicou-se, até sua morte no ano de 1716, a pregar missões às populações rurais e urbanas da Bretanha, Normandia, Poitou, Vendée, Aunis, Saintonge, Anjou, Maine. As cidades em que pregou, inclusive as mais importantes, viviam em grande medida da agricultura e estavam profundamente marcadas pela vida rural. De sorte que São Luís Maria, se bem não havia pregado de forma exclusiva a camponeses, pode ser considerado essencialmente um apóstolo de populações rurais.

Em suas prédicas, que em termos modernos poderiam ser chamadas “aggiornate”, não se limitava a ensinar a doutrina católica de modo que servissem para qualquer época e qualquer lugar, senão que sabia dar realce aos pontos mais necessários para os fiéis que o ouviam.

O gênero de seu “aggiornamento” deixaria provavelmente desconcertados a muitos dos prosélitos do aggiornamento moderno.  Não via os erros de seu tempo como meros frutos de equívocos intelectuais, oriundos de homens de insuspeitável boa fé: erros que por isto mesmo seriam sempre dissipados por um diálogo destro e ameno.

Capaz do diálogo afável e atraente, não perdia de vista, sem embargo, toda a influência do pecado original e dos pecados atuais, assim como a ação do príncipe das trevas, na gênese e no desenvolvimento da imensa luta movida pela impiedade contra a Igreja e a Civilização Cristã.

A célebre trilogia demônio, mundo e carne, presente nas reflexões dos teólogos e missionários de boa lei em todos os tempos, ele e a tinha em vista como um dos elementos básicos para o diagnóstico dos problemas de seu século. E assim, conforme as circunstâncias o pediam, sabia ser ora suave e doce, como um anjo-mensageiro da dileção ou do perdão de Deus, ora batalhador e invicto, como um anjo incumbido de anunciar as ameaças da Justiça Divina contra os pecadores rebeldes e endurecidos. Esse grande apóstolo soube alternadamente dialogar e polemizar, e nele o polemista não impedia a efusão das doçuras do Bom Pastor, nem a mansidão pastoral aguava os santos rigores do polemista.

Estamos, com este exemplo, bem longe de certos progressistas para os quais todos nossos irmãos separados, heréticos ou cismáticos, seriam necessariamente de boa fé, enganados por meros equívocos, de sorte que polemizar com eles seria sempre um erro e um pecado contra a caridade.

A sociedade francesa dos séculos XVII e XVIII (nosso Santo viveu, como vimos, no ocaso de um e nas primeiras décadas do outro) estava gravemente enferma. Tudo a preparava para receber passivamente a inoculação dos germens do Enciclopedismo e desmoronar-se em seguida na catástrofe da Revolução Francesa.

Apresentando aqui um quadro circunscrito dela e, portanto, forçosamente muito simplificado – indispensável, sem embargo para compreender a pregação de nosso Santo – pode dizer-se que nas três classes sociais, clero, nobreza e povo, preponderavam dois tipos de alma: os laxos e os rigoristas. Os laxos, tendentes a uma vida de prazeres que levava à dissolução e ao ascetismo. Os rigoristas, propensos a um moralismo rígido, formal e sombrio, que levava à desesperação quando não à rebelião. Mundanismo e jansenismo eram os dois pólos que exerciam uma nefasta atração, inclusive e meios reputados como os mais piedosos e moralizados da sociedade de então.

Um e outro – como tantas vezes sucede com os extremos do erro – levavam a um mesmo resultado. Com efeito, cada qual por seu caminho apartavam as almas do santo equilíbrio espiritual da Igreja. Esta, efetivamente, nos ensina em admirável harmonia a doçura e o rigor, a justiça e a misericórdia. Nos afirma por um lado a grandeza natural autêntica do homem – sublimada por sua elevação à ordem sobrenatural e sua inserção no Corpo Místico de Cristo – e por outro lado nos faz ver a miséria em que nos lançou o pecado original, com toda sua sequela de nefastas consequências.

Nada mais normal que a coligação dos erros extremos e contrários frente o apóstolo que pregava a doutrina católica autêntica: o verdadeiro  contrário de um desequilíbrio não é o desequilíbrio oposto, senão o equilíbrio. E assim, o ódio que anima os sequazes dos erros opostos não os lança uns contra outros, senão que os joga contra os Apóstolos da Verdade. Máxime quando essa verdade é proclamada com uma vigorosa franqueza, pondo em realce os pontos que discrepam mais agudamente com os erros em voga.

Exatamente assim foi a pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort. Seus sermões, pronunciados em geral ante grandes auditórios populares, culminaram, não poucas vezes, em verdadeiras apoteoses de contrição, de penitência e de entusiasmo. Sua palavra clara, chamejante, profunda, coerente, sacudia as almas abrandadas pelos mil graus de moleza e sensualidade que naquela época se difundiam desde as classes mais altas até os demais estratos da sociedade.

Ao final de seus sermões, frequentemente os ouvintes reuniam na praça pública pirâmides de objetos frívolos ou sensuais e de livros ímpios, aos quais acendiam fogo. Enquanto ardiam as chamas, nosso infatigável missionário fazia novamente uso da palavra, incitando o povo à austeridade.

Esta obra de regeneração moral tinha um sentido profundamente sobrenatural e piedoso. Jesus Cristo crucificado, seu Sangue precioso, suas Chamas sacratíssimas, as Dores de Maria eram o ponto de partida e o término de sua pregação. Por isto mesmo promoveu em Pont-Chateau a construção de um grande Calvário que deveria ser o centro de convergência de todo o movimento espiritual suscitado por ele.

Na Cruz via nosso Santo a fonte de uma superior sabedoria, a Sabedoria cristã, que ensina ao homem a ver e amar nas coisas criadas manifestações e símbolos de Deus; a sobrepor a Fé à razão orgulhosa, a Fé e a reta razão aos sentidos rebeldes, a moral à vontade desordenada, o espiritual ao material, o eterno ao contingente e transitório.

Mas este ardoroso pregador da genuína austeridade cristã nada tinha da austeridade taciturna, biliosa e estreita de um Savonarola ou de um Calvino. Ela era suavizada por uma terníssima devoção à Nossa Senhora.

Pode se dizer que ninguém levou mais alto que ele a devoção à Mãe de Misericórdia. Nossa Senhora, enquanto Mediadora necessária – por eleição divina – entre Jesus Cristo e os homens, foi o objeto de seu contínuo enlevo, o tema que suscitou suas meditações mais profundas, mais originais. Nenhum crítico sério pode lhes negar a qualificação de inspiradamente geniais. Em torno da Mediação Universal de Maria – hoje verdade de Fé – São Luís Maria Grignion de Montfort construiu toda uma mariologia que é o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus.

Estes são os principais recursos de sua admirável pregação.

Toda esta prédica está condensada nos três trabalhos principais escritos pelo Santo: a Carta Circular aos Amigos da Cruz, o Tratado da Divina Sabedoria e o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma espécie de trilogia admirável, toda de ouro e de fogo, da qual se destaca, como obra-prima entre as obras-primas, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Por estas obras podemos nos dar conta da substância da pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort.

Nosso Santo foi um grande perseguido. Este aspecto de sua existência é realçado por todos seus biógrafos.

Um vendaval furioso, movido pelos mundanos, pelos céticos enfurecidos ante tanta Fé e tanta austeridade e pelos jansenistas indignados ante uma devoção insigne a Nossa Senhora, da qual dimanava uma suavidade inefável, ergueu-se contra sua prédica. Daí originou-se um torvelinho que levantou contra ele, por assim dizer, toda a França.

Não poucas vezes, como sucedeu em 1705 na cidade de Poitiers, seus magníficos “autos de fé”  contra a imoralidade foram interrompidos por ordem de autoridades eclesiásticas, as quais evitavam assim a destruição desses objetos de perdição. Em quase todas as dioceses da França lhe foi negado o uso de ordens. Depois de 1711, somente os Bispos de La Rochelle e de Luçon permitiram-lhe a atividade missionária. E, em 1710, Luis XIV ordenou a destruição do Calvário de Point-Chateau.

Ante esse imenso poder do mal, nosso Santo revelou-se profeta. Com palavras de fogo, denunciou os germens que minavam a França de então e vaticinou uma catastrófica subversão que deles haveria de derivar. O século em que São Luís Maria morreu não terminou sem que a Revolução Francesa confirmasse de modo sinistro suas previsões.

Fato ao mesmo tempo sintomático e entusiasmante: as regiões onde nosso Santo teve liberdade de pregar sua doutrina e nas quais as massas humildes o seguiram, foram aquelas em que os chouans se levantaram, armas na mão, contra a impiedade e a subversão. Eram os descendentes dos camponeses que haviam sido missionados pelo grande Santo e preservados assim dos germens da Revolução.

Do nexo entre a obra mestra deste grande Santo e o contido em nosso ensaio – tão diminuído pela comparação – é que nos devemos ocupar.

Comecemos por expor aqui alguns pensamentos contidos em Revolução e Contra-Revolução.[1]

 

Orgulho e impureza na origem da Revolução

A Revolução é apresentada nela como um imenso processo de tendências, doutrinas, de transformações políticas, sociais e econômicas, derivado em última análise – estaria tentado a dizer em ultíssima análise – de uma deterioração moral nascida de dois vícios fundamentais: o orgulho e a impureza, que suscitam no homem uma incompatibilidade profunda com a doutrina católica.

Com efeito, a Igreja Católica como Ela é, a doutrina que ensina, o universo que Deus criou e que podemos conhecer tão esplendidamente através de seus prismas, tudo isso excita no homem virtuoso, puro e humilde, um profundo enlevo. Ele sente alegria ao considerar que a Igreja e o universo são como são.

Mas se uma pessoa cede em algo aos vícios do orgulho ou da impureza, começa a se criar nela uma incompatibilidade com vários aspectos da Igreja ou da ordem do Universo. Essa incompatibilidade pode começar, por exemplo, com uma antipatia com o caráter hierárquico da Igreja, depois se desdobrar e alcançar a hierarquia da sociedade temporal, para mais tarde manifestar-se em relação à ordem hierárquica da família. E assim, uma pessoa pode, por várias formas de igualitarismo, chegar a uma posição metafísica de condenação de toda e qualquer desigualdade, e do caráter hierárquico do Universo. Seria o efeito do orgulho no campo da metafísica.

De modo análogo se pode delinear as consequências da impureza no pensamento humano. O homem impuro, por regra geral, começa por tender para o liberalismo: o irrita a existência de um preceito, de um freio, de uma lei que circunscreva o transbordamento de seus sentidos. E, com isto, toda ascese lhe parece antipática. Dessa antipatia, naturalmente, vem uma aversão ao próprio princípio de autoridade, e assim sucessivamente. O anelo de um mundo anárquico – no sentido etimológico da palavra – sem leis nem poderes constituídos, e no qual o próprio Estado não seja senão uma imensa cooperativa, é o ponto extremo do liberalismo gerado pela impureza.

Tanto do orgulho quanto do liberalismo nasce o desejo de igualdade e liberdade totais, que é a medula do comunismo.

A partir do orgulho e da impureza se vão formando os elementos constitutivos de uma concepção diametralmente oposta à obra de Deus. Essa concepção, em seu aspecto final, já não difere da católica somente em um ou outro ponto. A medida que, ao longo das gerações, esses vícios se vão aprofundando e voltando mais acentuados, vai se estruturando toda uma concepção gnóstica e revolucionária do Universo.

A individualidade, que para a gnose é o mal, é um princípio de desigualdade. A hierarquia –qualquer que seja – é filha da individualidade. O universo segundo o gnóstico se resgata da individualidade e da desigualdade num processo de destruição do “eu”, que reintegra os indivíduos no grande Todo homogêneo. A realização, entre os homens, da igualdade absoluta, e de seu corolário, a liberdade completa – numa ordem de coisas anárquica – pode ser vista como uma etapa preparatória dessa reabsorção total.

Não é difícil perceber, nesta perspectiva, um nexo entre gnose e comunismo.

 

A devoção a Nossa Senhora é essencial para a Contra-Revolução

Assim, a doutrina da Revolução é a gnose, e suas causas últimas têm suas raízes no orgulho e na sensualidade. Dado o caráter moral destas causas, todo o problema da Revolução e da Contra-Revolução é, no fundo, e principalmente, um problema moral. O que se disse em Revolução e Contra-Revolução é que, se não fosse pelo orgulho e a sensualidade, a Revolução como movimento organizado no mundo inteiro não existiria, não seria possível.

Ora, se no centro do problema da Revolução e da Contra-Revolução há uma questão moral, há também e eminentemente uma questão religiosa, porque todas as questões morais são substancialmente religiosas. Não há moral sem religião. Uma moral sem religião é o que de mais inconsistente se possa imaginar. Todo problema moral é, pois, fundamentalmente religioso. Sendo assim, a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é uma luta que, em sua essência, é religiosa. Se é religiosa, se é uma crise moral que dá origem ao espírito da Revolução, então, essa crise só pode ser evitada, só pode ser remediada com o auxílio da graça.

É um dogma da Igreja que os homens não podem, somente com os recursos naturais, cumprir duravelmente, e em sua integridade, os preceitos da Moral católica, sintetizados na Antiga e na Nova Lei. Para cumprir os Mandamentos, é necessária a existência da graça.

Por outro lado, se o homem cai em estado de pecado, acumulando-se nele as apetências pelo mal, a fortiori não conseguirá levantar-se do estado em que caiu sem o socorro da graça. Provindo da graça toda preservação moral verdadeira ou toda regeneração moral autêntica, é fácil ver o papel de Nossa Senhora na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução. A graça depende de Deus, mas Deus, por um ato livre de sua vontade, quis fazer depender de Nossa Senhora a distribuição das graças. Maria é a Medianeira Universal, é o canal por onde passam todas as graças. Portanto, seu auxílio é indispensável para que não haja Revolução, ou para que esta seja vencida pela Contra-Revolução.

Com efeito, quem pede a graça por intermédio d’Ela, a obtém. Quem tente consegui-la sem o auxílio de Maria, não a obterá. Se os homens, recebendo a graça, correspondem a ela, está implícito que a Revolução desaparecerá. Pelo contrário, se eles não corresponderem, é inevitável  que a Revolução surja e triunfe. Portanto, a devoção a Nossa Senhora é conditio sine qua non[2] para que a Revolução seja esmagada, para que vença a Contra-Revolução.

Insisto no que acabo de afirmar. Se uma nação for fiel às graças  necessárias e até suficientes que recebe de Nossa Senhora, e se se generaliza nela a prática dos Mandamentos, é inevitável que a sociedade se estruture bem. Porque, com a graça, vem a sabedoria, e com a sabedoria, todas as atividades do homem entram nos eixos.

Isso se verifica, de certo modo, com a análise do estado em que se encontra a civilização contemporânea. Construída sobre uma recusa da graça, alcançou alguns resultados estrepitosos. Estes, porém, devoram o homem. Na medida em que tem por base o laicismo e viola, sob vários aspectos, a ordem natural ensinada pela Igreja, a civilização atual é nociva ao homem.

Sempre que a devoção a Nossa Senhora seja ardorosa, profunda, de rica substância teológica, é claro que a oração de quem pede será atendida. As graças choverão sobre a pessoa que reza a Ela devota e assiduamente. Se, pelo contrário, essa devoção for falsa ou tíbia, manchada por restrições de sabor jansenista ou protestante, há grave risco de que a graça seja dada menos largamente, porque encontra por patê do homem nefastas resistências. O que se diz do homem pode dizer-se, mutatis mutandi, da família, de uma região, de um país, ou de qualquer outro grupo humano.

É costume dizer-se que na economia da graça, Nossa Senhora é o pescoço do Corpo Místico, do qual Nosso Senhor Jesus Cristo é a Cabeça, porque tudo passa por Ela.

A imagem é inteiramente verdadeira na vida espiritual. Um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora é como alguém que tem uma corda atada ao pescoço e conserva apenas um fio de respiração. Quando não tem nenhuma devoção, se asfixia. Tendo uma grande devoção, o pescoço fica completamente livre e o ar penetra abundantemente no pulmão, podendo o homem viver normalmente.

A esterilidade e até a nocividade de tudo quanto se faz contra a ação da graça, e a enorme fecundidade do que se faz com seu auxílio, determinam bem a posição de Nossa Senhora nesse combate entre a Revolução e a Contra-Revolução, pois a intensidade das graças recebidas pelo homem depende da maior ou menor devoção que a Ela tiverem.

 

O concurso do espírito do mal

Uma visão da Revolução e da Contra-Revolução não pode ficar apenas nestas considerações. A Revolução não é o fruto da exclusiva maldade humana. Esta última abre as portas ao demônio, pelo qual se deixa estimular, exacerbar e dirigir.

É, pois, importante considerar, nesta matéria, a oposição entre Nossa Senhora e o demônio. O papel do demônio na eclosão e nos progressos da Revolução foi enorme. Como é lógico pensar, uma explosão de paixões desordenadas tão profunda e tão geral como a que originou a Revolução não teria ocorrido sem uma ação preternatural. Além disso, seria difícil que o homem alcançasse os extremos de crueldade, de impiedade e de cinismo, aos quais a Revolução chegou várias vezes ao longo de sua história, sem o concurso do espírito do mal.

Ora, esse fator de propulsão tão forte está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Basta que Ela fulmine um ato de seu império sobre o inferno, para que ele estremeça, se confunda, se encolha e desapareça do cenário humano. Pelo contrário, basta que Ela, para castigo dos homens, deixe ao demônio um certo raio de ação, para que a ação deste progrida. Portanto, os enormes fatores da Revolução e da Contra-Revolução, que são respectivamente o demônio e a graça, dependem de seu império e seu domínio.

 

Efetiva realeza de Maria

A consideração deste soberano poder de Nossa Senhora nos aproxima da ideia da realeza de Maria. É preciso não ver essa realeza como um título meramente decorativo. Embora submissa em tudo à vontade de Deus, a realeza de Nossa Senhora importa num poder de governo pessoal muito autêntico.

Tive ocasião de empregar certa vez, numa conferência, uma imagem que facilita a compreensão do papel de Nossa Senhora como Rainha.

Imaginemos um diretor de colégio com alunos muito insubordinados. Ele os castiga com uma autoridade de ferro. Depois de os ter submetido à ordem, retira-se dizendo à sua mãe: “Sei que governareis este colégio de modo diferente do que estou fazendo agora. Vós tendes um coração materno. Tendo eu castigado esses alunos, quero agora que os governeis com doçura”. Essa senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, porém com um método diverso daquele que usou o diretor. A atuação dela é distinta da dele; não obstante, ela faz inteiramente a vontade dele.

Nenhuma comparação é exata. Entretanto, julgo que, sob certo aspecto, esta imagem nos ajuda a entender a questão.

Análogo é o papel de Nossa Senhora como Rainha do Universo. Nosso Senhor Lhe deu um poder régio sobre toda a Criação, cuja misericórdia, sem chegar a nenhum exagero, chega entretanto a todos os extremos. Ele colocou-A como Rainha do Universo para governá-lo e, especialmente, para governar o pobre gênero humano decaído e pecador. E é vontade d’Ele que Ela faça o que Ele não quis fazer por Si, mas por meio d’Ela, régio instrumento de seu Amor. Há, pois, um regime verdadeiramente marial no governo do Universo. E assim se vê como é que Nossa Senhora, embora sumamente unida a Deus e dependente d’Ele, exerce sua ação ao longo da História. Nossa Senhora é infinitamente inferior a Deus – é evidente porém, Deus quis dar a Ela esse papel por um ato de liberalidade. É Nossa Senhora quem, distribuindo ora mais largamente a graça, ora menos, freando ora mais, ora menos, a ação do demônio, exerce sua realeza sobre o curso dos acontecimentos terrenos. Nesse sentido, depende d’Ela a duração da Revolução e a vitória da Contra-Revolução. Além disso, às vezes Ela intervém diretamente nos acontecimentos humanos, como o fez, por exemplo, em Lepanto. Quão numerosos são os fatos da História da Igreja em que ficou clara sua intervenção direta no curso das coisas! Tudo isto nos faz ver de quantos modos é efetiva a realeza de Nossa Senhora.

Quando a Igreja canta a seu respeito: “Tu só exterminaste as heresias no mundo inteiro”, diz que seu papel nesse extermínio foi de certo modo único. Isso equivale a dizer que Ela dirige a História, porque quem dirige o extermínio das heresias dirige o triunfo da ortodoxia, e dirigindo uma e outra coisa, dirige a História no que ela tem de mais medular.

Haveria um trabalho de História interessante para fazer: o de demonstrar que o demônio começa a vencer quando consegue diminuir a devoção a Nossa Senhora. Isso se deu em todas as épocas de decadência da Cristandade, em todas as vitórias da Revolução. Exemplo característico é o da Europa antes da Revolução Francesa. A devoção a Nossa Senhora nos países católicos foi prodigiosamente diminuída pelo jansenismo, e é por isso que eles ficaram como uma floresta combustível, onde uma simples chispa pôs fogo em tudo.

Estas e outras considerações tiradas do ensinamento da Igreja abrem perspectivas para o Reino de Maria, isto é, uma era histórica de Fé e de virtude que será inaugurada com uma vitória espetacular de Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio será expulso e voltará aos antros infernais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das instituições que para isso escolheu.

 

O Reino de Maria e a união de almas

Quanto a essa perspectiva do Reino de Maria, encontramos na obra de São Luís Maria Grignion de Montfort algumas alusões dignas de nota. Ele é, sem dúvida, um profeta que anuncia essa vinda. Disso fala claramente: “Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a Terra de um modo tão suave e tão veemente, que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?” [3] Esse dilúvio, que lavará a humanidade, inaugurará o Reino do Espírito Santo, que ele identifica com o Reino de Maria. Nosso santo afirma que vai ser uma era de florescimento da Igreja como até então nunca houve. Chega inclusive a afirmar que “o Altíssimo, com sua Santa Mãe, devem formar para Si grandes santos, que sobrepujarão em santidade a maior parte dos outros santos, como os cedros do Líbano se avantajam aos pequenos arbustos”.[4]

Considerando os grandes santos que a Igreja já produziu, ficamos deslumbrados ante a envergadura desses que surgirão sob o bafejo de Nossa Senhora. Nada é mais razoável do que imaginar um crescimento enorme da santidade numa era histórica em que a atuação de Nossa Senhora aumente também prodigiosamente. Podemos, pois, dizer que São Luís Maria Grignion de Montfort, com seu valor de pensador, mas sobretudo, com sua autoridade de santo canonizado pela Igreja, dá peso, autoridade, consistência, às esperanças que brilham em muitas revelações particulares, de que virá uma época na qual Nossa Senhora verdadeiramente triunfará.

A realeza de Nossa Senhora, embora tenha uma soberana eficácia em toda a vida da Igreja e da sociedade temporal, realiza-se em primeiro lugar no interior das almas. Daí, do santuário interior de cada alma, é que ela se reflete sobre a vida religiosa e civil dos povos, enquanto considerados como um todo.

O Reino de Maria será, pois, uma época em que a união das almas com Nossa Senhora alcançará uma intensidade sem precedentes na História (exceção feita, é claro, de casos individuais).

 

Escravidão a Nossa Senhora e Apóstolos dos Últimos Tempos

Qual é a forma dessa união em certo sentido suprema? Não conheço mais perfeito para enunciar a realizar essa união do que a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, tal como é ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort no “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Considerando que Nossa Senhora é o caminho pelo qual Deus veio aos homens e estes vão a Deus, tendo presente a realeza universal de Maria, nosso santo recomenda que o devoto da Santíssima Virgem  se consagre inteiramente a Ela como escravo. Essa consagração é de uma radicalidade admirável. Ela abarca não só os deveres materiais do homem, como também até o mérito de suas boas obras e orações, sua vida, seu corpo e sua alma. Ela é sem limites, porque o escravo por definição nada tem de seu.

Em troca dessa consagração, Nossa Senhora atua no interior de seu escravo de modo maravilhoso, estabelecendo com ele uma união inefável.

Os frutos dessa união serão vistos nos Apóstolos dos Últimos Tempos, cujo perfil moral ele traça, a fogo, em sua famosa “Oração abrasada”. Ele usa, para isso, uma linguagem de uma grandeza apocalíptica, na qual parece reviver todo o clamor de um São João Batista, todo o fogo de um São João Evangelista, todo o zelo de um São Paulo. Os varões portentosos que lutarão contra o demônio pelo Reino de Maria – conduzindo gloriosamente, até o fim dos tempos, a luta contra o demônio, o mundo e a carne – São Luís os descreve como magníficos modelos que convidam desde já à perfeita escravidão a Nossa Senhora, os que, nos tenebrosos dias de hoje, lutam nas fileiras da Contra-Revolução.

Assim, com estas considerações sobre o papel de Nossa Senhora na luta da Revolução e da Contra-Revolução, e sobre o Reino de Maria, vistas segundo o “Tratado da Verdadeira Devoção”, creio ter enunciado os principais pontos de conta entre a obra-prima do grande santo e meu ensaio – tão apequenado pela comparação – sobre “Revolução e Contra-Revolução”.[5]



[1] A partir daqui, texto transcrito da Revista Dr. Plínio n. 158, de maio de 2011

[2] Condição indispensável.

[3] Oração Abrasada de S.Luís Grignion, “Oeuvres Complètes”, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 681..

[4] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S.Luís Grignion, Oeuvres Completes, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 512 e 513, N. 47.

[5] PRÓLOGO à 1ª edição argentina de "Revolución y Contra-Revolução"

 


terça-feira, 14 de abril de 2026

São Telmo, companheiro de São Fernando de Castela

 

                 


 

Pedro Gonçalves, em castelhano Pedro González, também conhecido como São TelmoSantelmo ou Corpo Santo  foi um sacerdote católico castelhano. Após ser presbítero canónico em Astorga, ingressou na Ordem dos Dominicanos, onde se distinguiu pela sua retórica e capacidade de pregação. Foi capelão do rei Fernando III de Leão e Castela antes de ser nomeado prior do Convento de São Domingos de Guimarães. É o santo padroeiro dos homens do mar e dos barqueiros, tendo cedo desfrutado de grande devoção popular. O Papa Bento XIV confirmou o seu culto em 1714. É o santo padroeiro ainda da cidade de Tui e da diocese de Tui-Vigo, onde se celebra a sua festa na segunda-feira da segunda semana da Páscoa.

Alguns autores dão como local de seu nascimento ora Palência, ora cidade de Astorga.

De família distinta, estudou na Universidade de Palência e foi ordenado sacerdote; graças à proteção de um tio, bispo de Astorga, foi-lhe atribuído o título de canónico e uma bula especial permitiu que fosse nomeado deão sem que tivesse ainda a idade requerida. Conta-se que, ao chegar a Astorga para ocupar o seu posto, com os seus melhores trajes e num cavalo ricamente ajaezado, o animal tropeçou e o cavaleiro estatelou-se no chão. A humilhação sofrida enfureceu-o, tendo decidido de imediato recolher-se a um convento, afastando-se do mundo.

 

COMO FAZ BEM A HUMILHAÇÃO

 

Bem pouca gente conhece, mesmo de nome, a São Telmo.
Chamava-se, antes, Pedro Gonzalez. Era ainda muito moço quando seu
tio, o bispo de Palência, o nomeou cônego daquela catedral. Era esse
jovem cônego muito vaidoso e gostava demais das honrarias e
dignidades. Sua vida contrastava com a de seus colegas que se
escandalizavam com a sua repreensível conduta mundana. Apesar disso,
consegue de seu tio bispo que ele fosse nomeado deão (presidente,
chefe) do cabido (assembléia dos cônegos da catedral). A posse foi
marcada para o dia de Natal.

Chegado esse dia, Gonzalez vestiu um elegante traje cortesão
(palaciano), e montando um ginete (cavalo de raça) magnificamente
enfeitado, atravessou as ruas da cidade, com grande escândalo para o
povo que veio assistir a cerimônia.

Entretanto, a Divina Providência em seus insondáveis desígnios,
queria servir-se da vaidade de Gonzalez para impor-lhe uma grande
humilhação. Queria por esse meio levá-lo a melhores sentimentos
fazendo-o perceber quão superficiais e passageiras são as honras
mundanas.

Chegando à grande praça de Palência, o vaidoso personagem quis fazer
seu cavalo corcovear (dar saltos) graciosamente a fim de provocar
admiração do público e arrancar-lhe aplausos. Largou o cavalo a toda
rédea, mas no meio da carreira o animal empacou, deu um pinote e
lançou o cavaleiro no meio da lama.

A multidão assistiu a queda com uma estrondosa gargalhada. A vaia
foi tremenda. Envergonhado como nunca, o vaidoso deão coberto de
lama em todo o corpo e até no rosto, não ousava levantar-se do chão
para encarar os que riam dele.

Todavia, essa tamanha confusão lhe foi muito salutar para a alma até
então voltada só para satisfazer seu amor próprio. Qual novo São
Paulo, erguendo os olhos ao céu, exclamou: “Como pode ser isso? Este
mundo a quem eu desejava agradar, agora zomba de mim?! Pois bem, eu
me rirei dele, pois de agora em diante serei outro homem: voltar-lhe-ei as costas, e mudarei totalmente de vida.

Assim procedeu. Abandonou tudo, riquezas, honras e comodidades.
Fez-se dominicano e com o nome de Frei Telmo, viveu santamente
edificando a todos na comunidade e na região onde outrora deu tão
mal exemplo.

Como frade, ocupou o posto de capelão militar, ofício em que o seu dom de oratória chamou a atenção do rei Fernando III, que o convocou para a sua Corte. Como confessor do rei, incentivou-o a renunciar às hostilidades contra a Andaluzia, e acompanhou-o na campanha de conquista de Córdoba e Sevilha; consagrou como igrejas as mesquitas das cidades conquistadas. No regresso da campanha, abandonou a Corte para pregar nas Astúrias e na Galiza. É nesta fase de sua vida que a tradição popular lhe atribuiu a realização de diversos milagres, em particular os relacionados com a vida dos pescadores e marinheiros da Galiza, a quem teria dedicado muito do seu labor de pregador.

Entre estes, afirma-se que, estando a pregar em Baiona, ocorreu uma tempestade que perturbou a prédica. Seguindo o exemplo de Jesus Cristo, conforme os Evangelhos, Pedro González ordenou ao vento e aos outros elementos que cessassem, fazendo-se a bonança.

Foi nomeado prior do Convento de Guimarães, em Portugal, onde contou, entre os seus frades Gonçalo de Amarante.

Já sexagenário, retirou-se para Tui, onde travou amizade com o arcebispo Lucas de Tui; na Páscoa de 1246, veio a falecer durante uma peregrinação a Santiago de Compostela. Está sepultado na Catedral de Tui.

Foi beatificado pelo Papa Inocêncio IV em 1254 e canonizado pelo Papa Benedito XIV em 1741.

 

           São Fernando III

 

São Fernando III, era rei de Castela e Leão, enquanto Frei Telmo era um simples frade, mas muito próximo do rei e seu confessor e grande amigo..

Desde o ano de 1031 que a cidade de Córdoba havia deixado de ser a sede do califado, passando a ser dominada pelos mouros reunidos em torno de suas “taifas”, pequenos reinos cujos potentados viviam lutando uns contra os outros. São Fernando via naquela cidade uma importância vital para conquistar o restante do território ainda em poder dos mouros.

Saiu pelas portas de Ubeda um animoso esquadrão de jovens cavaleiros, armados até os dentes e bem providos de todos os apetrechos de guerra. Souberam através de um mouro amigo que seria muito fácil penetrar na cidade de Córdoba e que havia grandes falhas na guarnição das muralhas. Partiram para lá sem avisar o rei...

Após cansativa viagem chegaram a Córdoba e acamparam nas cercanias sem levantar suspeitas. Com muito tato e esperteza conseguiram entrar na cidade e dominaram com facilidade um bairro inteiro, chamado Ajarquia, que foi logo fortificado. Em seguida reuniram-se os comandantes da missão para decidir o que fazer.

A situação dos invasores não era nada favorável, porque estavam dentro de uma grande cidade inimiga, tomando apenas uma parte desta e sem qualquer esperança de socorro externo. Apesar disto todos tinham em mente que a vitória lhes favoreceria no final, pois eram homens de fé robustíssima e depositavam uma confiança sem limites em seu Senhor Jesus Cristo, de quem esperavam poderosa ajuda lá do Céu. Decidem enviar um emissário ao condestável real, para que venha com os seus homens, e outro até o rei.

Chegando no local onde estava o rei, em poucos instantes o mensageiro foi autorizado a entrar, fez uma genuflexão e beijou a  mão do rei dizendo:

- Senhor, sabei que sois dono de Córdoba!

- Que dizes, Ordoño? Dissestes Córdoba?

- Córdoba, meu senhor! Córdoba, que numa escuríssima noite escalamos as muralhas. Tomai e lei – disse, entregando-lhe a mensagem.

Lendo o documento, pôs-se de pé e mandou o mensageiro aguardar um instante. Vira-se para um dos cortesãos e diz:

- Mandai chamar todos os meus cavaleiros e dizei-lhes que se armem e encilhem seus cavalos.

Chamou outros e a cada uma dava uma ordem, esquecendo-se por completo da refeição que estava ainda sobre a mesa. Os cortesãos saíram apressadamente para cumprir as ordens. Assistindo a tudo estavam São Pedro Telmo, que havia sido convidado por São Fernando para ser seu confessor e lhe fazer companhia nas guerras. Estava com São Telmo um outro religioso, que lhe diz:

- Frei Pedro, “Irruit Domini spiritus in Rege..."[1]

São Pedro Telmo responde:

- Vamos com ele, Dom Lope...

Todo rei católico, na Idade Média, levava sacerdotes consigo em suas batalhas, a fim de celebrarem missas e levar os sacramentos aos soldados e combatentes, especialmente o da Confissão, da Comunhão e Unção dos Enfermos. De modo geral, só iniciavam o dia com uma Missa, ocasião em que comungavam, com o rei dando o exemplo. São Pedro Telmo e dom Lope acompanharam o exército de São Fernando III nessa empreitada guerreira.

O religioso, com espírito profético, percebia que o santo rei estava cheio do espírito de  Deus e que valia a pena pois segui-lo aonde fosse.

Uma hora depois aparecia o rei, fortemente armado e coberto de uma grande capa com capuz, e fica no pátio aguardando a chegada de seus cavaleiros.  Quando grande parte havia chegado, diz o rei:

- Sigam-me os amigos!

- Santiago e Castela! – respondem os cavaleiros.

Apesar da tempestade que caía, São Fernando, impaciente para ir ao combate, não esperou o restante de seus homens e partiu logo em direção de Córdoba.

A cidade não tinha uma boa guarda, pois os cavaleiros cristãos que haviam tomado o bairro de Ajarquia resistiam há um mês, sem que os muçulmanos conseguissem vencer e entrar no recinto. No meio de uma cidade inimiga e populosa, um punhado de cavaleiros resistiam até chegar seu rei e conquistá-la.

Quando São Fernando chegou a um acampamento próximo, grande foi a alegria dos acampados. O rei!  O rei! Ouviam-se gritos de todas as partes. A alegria dos homens era tão grande que se felicitavam uns aos outros, cantando e rindo com grande alvoroço.

Foi naquele acampamento que São Fernando conseguiu realmente descansar de tão fatigante viagem.

No outro dia, saiu o rei para estudar o terreno e planejar as operações militares e decide que, ele mesmo, seria o primeiro a tomar um castelo para ali instalar seu QG. Com uma intrepidez incrível foi ali instalado o Quartel General de São Fernando, tendo diante de si a cidade inimiga e pelas costas o exército do mouro Aben-Ilud.  Porém bem sabia ele que, enquanto na terra estava cercado de inimigos, pela frente e pelas costas, sobre sua cabeça se estendia a mão de Deus para ajudá-lo. E firme em seu posto, orava noite e dia, e era o primeiro a sofrer as privações e os trabalhos de guerra.

Após demorado cerco, um dia os habitantes de Córdoba concordaram em negociar a capitulação nas mesmas condições já tentadas antes, que era sair livres da cidade e com os bens que pudessem levar. Concedeu-as São Fernando, que era muito condescendente com os vencidos.

Ao receber as chaves da cidade das mãos do mouro o rei elevou os olhos ao céu e exclamou em voz alta:

- Louvor para sempre a Ti, Jesus Cristo, meu Senhor, que por tua grande misericórdia e os rogos da gloriosa Santa Maria, valestes deste servo e cavaleiro e por meio dos meus suores ganhastes para tua santa Lei esta cidade de Córdoba!

Na mesma tarde, Dom Juan de Osma e Dom Lope de Fitero entraram na mesquita a fim de purificá-la e consagrá-la como igreja e catedral cristã. São Fernando marcou para a semana seguinte uma entrada triunfal e festiva na cidade. A comitiva real foi recebida pelas autoridades religiosas em procissão, onde se faziam presentes todas as Ordens de cavalaria e os demais homens de seu séquito. Todos entraram na grandiosa mesquita com grande solenidade e pompa.

Algum tempo depois, foram encontrados numa mesquita os sinos que Almanzor havia mandado retirar de Compostela e ser trazidos para ali nos ombros de escravos cristãos. No mesmo instante, São Fernando se lembrou de uma promessa feita à Santa Maria, quando ainda era bem mais jovem, e determinou que aqueles sinos fossem colocados nos ombros de prisioneiros mouros para serem levados de volta a Compostela como sinal de reparação à afronta feita em tempos passados ao cristianismo.

Conquistar uma praça, e tão forte e importante como Córdoba, custava muito sangue e suor. As lágrimas das contrariedades ficaram para depois, quando se fazia necessário consolidar aquela conquista. Ali haviam muitas dificuldades a superar, mas a pior era convencer seus próprios homens a ficar administrando aquela cidade e adjacências. Os mouros, é verdade, abandonaram em grande número a cidade, mas por pouco tempo, pois muitos deles logo resolviam voltar. Um fato inusitado é que muitos se converteram ao cristianismo como fruto apostólico incansável do santo frei Telmo. Assim, duramente, as coisas foram se tornando mais fáceis de serem conduzidas.

Talvez a conquista de Córdoba se tivesse dado muito tempo depois, com muito mais sacrifício e martírio, se aquele punhado de heróis que tomaram no início o bairro de Ajarquia não tivessem tido a santa ousadia de partir sozinhos para a conquista, sem o conhecimento do rei porque tinham pressa.

 (O relato acima sobre São Fernando III, resumido e adaptado, foi extraído do livro “Nuestra Señora en el Arzon”, de C. Fernandez de Castro, A. C. J., publicada em 1948 pela Editora Escelicer, S.L., de Cádiz, Espanha).

 


[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.


 

 



[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.

 

sábado, 11 de abril de 2026

OS TRÊS CAVALEIROS DE SÃO JOÃO E A VIRGEM MILAGROSA DE NOSSA SENHORA DAS ALEGRIAS

 



(Uma gesta milagrosa da Idade Média)

 

1. Num campo de batalha, com vários cavaleiros caídos, três jovens monges procuram mortos e feridos. Diante dos mortos fazem o sinal da cruz e os encomendam a Deus

           

Por entre os cavaleiros monges da ordem dos Hospitalários de São João de Jerusalém, viviam três magníficos jovens, três irmãos da casa de Eppe, senhorio das proximidades de Laon.

A Ordem dos Hospitalários[1] era a herdeira de um estabelecimento de caridade, fundado em Jerusalém, bem antes das Cruzadas, hotel e hospital para os pobres peregrinos, situados todos próximos do Santo Sepulcro.

Este hospital, vivendo de subvenções dos ricos Sicilianos, foi organizado por Gerardo Tenque, o glorioso menino da cidade dos Martigues, na Provença, e colocado sob a proteção de São João Evangelista.

A tomada de Jerusalém e a fundação de seu reino transforma, naturalmente, as instituições e a ordem dos monges beneditinos de Gerardo Tenque, deixando de ser unicamente hospital, para se tornar também ordem militar. Foulque d’Anjou, quarto rei de Jerusalém, lhes tinha confiado a guarda do forte de Betsabé.

Sua fé, sua coragem, seu ardor os faziam se encontrar sempre nos lugares os mais perigosos da batalha, atendendo aos feridos, defendendo os vivos, vingando os mortos.

Uma noite, após um sangrento combate, em que eles recolhiam os mortos e confessavam os agonizantes, os três irmãos, cavaleiros de Eppe, foram indignamente atacados por uma tropa de piratas turcos, que retornavam aos lugares do massacre para roubar aos que tinham sido assassinados:

-- Peguem-nos, tomem as suas armas e amarrem-nos, vamos levá-los a Ascalão -, ordena o mais mal-encarado, que parecia ser o chefe.

 

2. Perseverança dos cavaleiros cristãos desespera o sultão

 

Os turcos de Ascalão procuravam por todos os meios a aliança do sultão ou sudam do Cairo e um dos chefes teve a idéia de lhe oferecer os cativos em sinal de amizade.

 Os infelizes, após uma viagem ainda mais penosa que a primeira, se crêem no fim de seu calvário, na presença do sultão do Egito, homem mais civilizado que os Turcos Seljúcidas[2]. Este monarca tendo igualmente ouvido falar dos grandes serviços que tinha prestado, em outros tempos, um janízaro[3] cristão na corte de seu pai[4], propõe naturalmente aos três Cruzados de recuperar suas liberdades combatendo por ele.

-- Nosso coração e nossos braços pertencem a Nosso Senhor Jesus Cristo e, vencedores ou vencidos, esperamos jamais faltar a Deus e a nosso país, respondeu o mais velho.

O sultão, que não esperava esta resposta, sentiu a necessidade de refletir sobre este novo aspecto do problema. Tendo feito lançar os três cristãos num calabouço, mandou chamar o seu grão vizir, que passava por muito astucioso.

-- Dai um pouco de ouro a esses cristãos... Ah, ah, ah, ah, e essa obstinaçãozinha, cristã, amolecerá! Sugeriu, ironicamente, o vizir, que o sultão aprova, e, no dia seguinte...

-- Então, meus belos cristãos, grita fortemente, fiz preparar para cada um de vocês uma jarra cheia de ouro e um palácio de mármore. Aqui estão então meus janízaros! Bem melhor!

O mais velho dos três cavaleiros tinha tanta fome e tanta sede que não pôde falar. Mas o de menos idade respondeu com uma voz fraca:

-- Não, não, senhor infiel! Somos os soldados de Cristo que morreu sobre a cruz e, fora d’Ele, não existe salvação para nós. Agradecemos pela jarra e pelo palácio. Nós não queremos nada.

O sultão ficou tão estupefato que mastigou com negligência uma semente de pistácio[5] que ele gostava de mordiscar. Ele devolveu os Hospitalários para sua gaiola, a fim de pensar mais um pouco, e chamou seu vizir. Este chegou de cabeça baixa e o turbante desfeito.

-- Ao cair da tarde, eu te darei como pasto aos meus crocodilos queridos, grita seu senhor. Tu não és mais que um filho de um idiota e esta espécie de francês me tem ridicularizado. Sim, eu sou o mais ridicularizado dos sultãos do Egito! Jamais me recuperarei!

E ele se põe a chorar com amargura.

-- Não choreis mais, meu senhor! Suplica o vizir, lançando-se a seus pés. Não choreis mais, pois acabo de ter uma idéia.

-- É a última chance que te dou, esbraveja o Sultão, mas se tu fracassares, não somente tu engordarás meus crocodilos, mas lançaremos juntos teu velho pai e tuas trezentas e dezessete esposas.

-- Não façais isto, ó luz do Islã! Vossos pequenos animais queridos morrerão de indigestão e eu não ousarei mais entrar no Paraíso. Eis a minha idéia: enviai os Francos para as minas de cobre e vereis que, ao fim de dois anos, vós não tereis mais que lhes pedir sua opinião.

 

3. Surge Ismael, príncipe muçulmano de bom coração.

 

Dois anos mais tarde, os três cavaleiros de São João reaparecem diante de seu tirano. Antes que ele tivesse tempo de abrir a boca, o mais jovem avança e diz, com ar tranquilo:

-- Nós te agradecemos, ó monarca infiel, de nos ter mostrado as consolações imensas que Deus dispensa sobre os que estão com Ele...

Uma hora mais tarde, ouve-se um concerto horrível de gritos e de lamentações, do lado da fossa dos crocodilos. O filho do Sultão, moço forte e valente, que, apesar da pouca idade, já participou de inúmeras guerras em defesa de seu povo e de seu país, sai de seus aposentos.

            -- Que gritos horríveis são estes, meu querido pai. Estou com uma dor de cabeça insuportável. O que se passa e por que tendes o ar furibundo?

            -- Eu tenho o ar furibundo porque eu sou furibundo, replica o sultão, com amargura e roendo nervosamente as unhas. Eu sou o mais ridicularizado dos sultões do Egito e meus crocodilos queridos vão seguramente arrebentar de indigestão.

-- Melhor assim, aplaudiu o jovem príncipe. Eu sempre reprovei vossa paixão por estes horríveis animais. Mas por que sois ridicularizado, ó meu pai?

-- Eu sou ridicularizado porque três miseráveis e insignificantes cruzados zombam de mim, recusam de abraçar nossa fé, a única verdadeira e, sobretudo, recusam de me servir como janízaros contra esses sacripantas Turcos Seljúcidas, os quais estão prestes a nos atacar a qualquer momento.

-- Ah bom, confiai vossos futuros recrutas aos nossos mais célebres doutores. A Universidade do Cairo é a mais célebre e a mais rica do mundo. Entregai-os aos nossos lentes que eles voltarão obedientes como cordeiros.

E sob estas boas palavras, o sultão entrou nos seus aposentos, mastigando nervosamente.

 

4. Ismael conhece os cavaleiros cristãos presos no calabouço

 

Fatigados! Os três cavaleiros de Eppe esgotaram os setecentos e quatro doutores da Universidade de Olivier e o sultão fez vir seu filho bem amado.

-- Eu te chamei, meu filho, para te mandar chicotear, anuncia com dor o sultão. Para te ensinar a não zombar assim de teu velho pai, que está tão ridicularizado, que a segurança do trono está ameaçada.

-- Meu Deus! Como isso é interessante, grita Ismael. Que direis se eu experimentar, a meu modo, já que falo o francês? Não sou o mais sábio e o mais espirituoso dos moços do Islã? Mas... Bem entendido, não quereis mais tentar a experiência!

O sultão teve um gesto de desencorajamento... Sentia que seu Alá não lhe estava ajudando.

Muito alegre, o príncipe desceu aos subterrâneos.

A aparição do belo príncipe Ismael, com seu turbante dourado, ricos trajos, muitos anéis e alfinetes, portando bela adaga e punhais de ouro e prata, com jóias engastadas, o ar altivo, mas com uma bondade quase angelical nos olhos, foi como um raio de sol no esconderijo infame onde enferrujavam os três infelizes. Ordenou, imediatamente, que desamarrassem-nos e, com suas mãos rijas, incrustada de anéis de ouro cravejados de pedras preciosas, habituadas ao cabo do alfanje, lava as feridas que lhes tinham sido infligidas pelas cadeias. Em seguida, dá-lhes de comer, enquanto fala-lhes – durante todo o tempo – das maravilhas de seu país, de seus costumes e de mil e uma coisa sem importância.

-- Como sois bom! Diz o mais velho dos três irmãos.

-- Como é agradável ouvi-lo falar nossa doce língua, diz o caçula.

-- Como gosto de ouvir de um moço sobre tudo o que nos é caro, diz ainda o outro. Reaparecereis logo, jovem príncipe?

-- Amanhã, amanhã!... Durmam bem, senhores!

E pela primeira vez em três anos dormiram tranquilamente.

 

5. Ismael fala sobre as guerras contra os seljúcidas. Ao fim, para falar de religião, lamenta-se de sentir que Alá não tem ajudado muito ao seu povo

 

No dia seguinte reaparece mais alegre como nunca; falando de umas coisas e de outras, ele deslizou, com habilidade, a conversa para os problemas de religião.

-- O que é isto? Pergunta ele, mostrando um rosário de madeira, pendurado aos andrajos do mais velho.

--Um rosário, senhor. Pedro, o Eremita, o inventou quando atravessava as planícies da Hungria com sua cruzada. Calculavam as distâncias pelo número de dezenas, e cada novena lhes dava direito à remissão de um pecado. Isso impedia de se extraviarem e sustentava maravilhosamente as almas.

-- Verdade? Disse o príncipe. Ah! O sol já se apressa a manchar o nosso céu com as cores do sangue de nossos antepassados, eu voltarei amanhã. Gosto de ouvi-los falar de vossos símbolos.

Eles estavam espantados, de suas próprias palavras, pois não pretendiam ser nem clérigos nem pregadores.

 

6. Ismael reaparece com um ar sério e narra o sonho que teve com Nossa Senhora

 

O príncipe reaparece no dia seguinte.

-- Meu pai está radiante de saber que nossas relações tomam boa direção, diz ele inicialmente. Bom dia... De quê falávamos ontem?... Ó! É verdade! Eu esqueci de vos contar a aventura extraordinária que me sobreveio nesta noite. Eu vi, creiam-me, uma mulher de uma beleza incomparável. Na verdade, ela era tão bela e tão boa que me deixou inquieto. Ela tinha o ar o mais amável do mundo, sob um véu azul, e de suas mãos espargiam, sobre o meu colo, uma grande quantidade de rosas. De manhã, encontrei essas flores junto a mim.

E ele estendeu aos três cavaleiros uma rosa cujo perfume era quase miraculoso.

O mais velho então lhe disse:

-- Se desejardes, eu posso esculpir uma imagem de Nossa Senhora, vossa visitante.

O príncipe bateu as mãos e fez trazerem para dentro da cela tudo o que era preciso para um escultor: um pesado toro de madeira preciosa e uma grande lanterna, a fim de enxergarem melhor.

 

7. O príncipe muçulmano promete converter-se, caso seja feita a imagem de seu sonho 

 

Não sendo mais artista que doutor, o generoso cavaleiro concluiu com dificuldade uma escultura disforme. Seus irmãos o ajudaram com zelo, mas o príncipe, desapontado, considerou o trabalho com uma careta desprezante.

-- Eu me converterei a vossa fé, se eu encontrar amanhã de manhã uma imagem tão bela quanto a senhora de meu sonho. Boa noite, senhores cruzados!

            E ele os deixou, levando a lâmpada, por perfídia juvenil.

Os três cavaleiros se lançam de joelhos e rezam longamente, desnorteados e aflitos. Depois adormecem sobre seus catres, sonhando com tristeza no dia seguinte.

 

8. Uma luz forte, direcionada, ilumina uma imagem de Nossa Senhora. O príncipe, ao postar-se de joelhos, depõe suas armas aos pés da Virgem

 

Ora, no dia seguinte, eles foram acordados por um barulho insólito. Circunspectos por tantos anos de sofrimentos, de pé, se olham vivamente. Qual não foi o seu assombro e, em seguida, seu êxtase vendo se dirigir sobre o solo viscoso daquele lugar sombrio uma maravilhosa, uma divina imagem da Mãe de Deus! A seus pés, um dos irmãos apanha um pouco de pluma coberta de neve, caída da asa de um dos anjos que a haviam trazido.

Ismael não tardou a aparecer. Ele detém-se à entrada por um instante, muito estupefato para falar... E, extasiado, cai de joelhos.

-- É esta a efígie com a qual sonhei, murmura, lhe beijando os pés. Eu sou cristão, meus irmãos, diz ainda e, lhes estendendo a bilha d’água, implora: Batizem-me.

 Eles batizaram o filho do tirano e, até à noite, a prisão ressoou de hinos de alegria, de Salmos de contentamento.

-- Que esta Virgem seja Nossa Senhora das Alegrias, declara o mais jovem, em lembrança da letícia que ela pôs em nosso coração.

 

9. Fuga dos três cavaleiros e do príncipe árabe

 

Na noite seguinte, Maria apareceu ainda a Ismael e lhe falou. Anunciou-lhe que um lugar no céu lhe será reservado, se ele ajudasse os cavaleiros a se salvarem.

Na noite subsequente Ismael ficou escondido nos corredores da prisão e se postou, habilmente, para roubar as chaves dos guardas adormecidos. Ele tinha já depositado entre os três irmãos um pacote muito pesado, fabulosa quantidade de pedras preciosas, atadas numa echarpe.

Ele abriu a porta aos cativos e tomou a frente lhes mostrando o caminho. Seu pequeno cortejo se agitou, o mais velho dos irmãos portando a imagem, o mais jovem as pedras preciosas.

Diante deles, ó milagre! as portas se abriam uma a uma, como empurradas pelas mãos dos anjos.

Eles saíram para os campos e só encontraram guardas sonolentos ou vigias adormecidos.

Sobre o Nilo, deslizando sob um raio da lua, uma barca vem a eles, guiada por um remador do qual não se vislumbrava o rosto. Ele encosta e os fugitivos sobem, no momento em que uma música celeste os acompanhava. O barqueiro atravessou o largo curso d’água, deixou-os num lugar desconhecido, e... desapareceu imediatamente nas trevas, sem que tivessem tempo de lhe agradecer.

O dia nasceu. Eles avançavam no deserto, sob um sol escaldante... Então, surgiu um milagroso bosque de palmeiras onde, vencidos pela fadiga, os quatro caíram no sono. Todos os quatro, pois os cavaleiros que tinham prometido de velar cada um por seu turno, sucumbiram também ao cansaço.

Oito badaladas do sino de uma igreja despertam-nos em sobressalto.

-- Milagre! Prodígio inacreditável! Dizem os quatro numa só voz.

Eles se encontram no meio de uma pradaria sombreada por altos choupos. Um vaqueiro guia a sua boiada, cantando, num caminho estreito e solitário.

Um dos três irmãos, o mais disposto a restabelecer os ânimos, correu até o camponês e, após ter feito o sinal da cruz, fez os cumprimentos de praxe:

-- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

-- Para sempre seja louvado!

-- Senhor, que lugar é este, pela graça de Deus?

O camponês, reconhecendo o manto negro dos Hospitalários, tornado milagrosamente novo com a grande cruz púrpura que o ornava, se põe de joelhos diante do defensor da fé e lhe beija as mãos. Mas o cavaleiro o levanta com bondade.

-- Vós estais sobre o domínio dos três senhores de Eppe, mortos na Cruzada, respondeu o inocente.

-- Nós estamos em casa! Grita o cavaleiro. Ó Senhor, ó Doce Virgem Maria, ó graça do Céu! Em casa!

E ele aperta contra o seu coração o aldeão muito espantado.

-- Senhor... não sereis vós o senhor Teodorico, meu bom mestre?

-- Mas sim, Joaquim! E tu, tu és o filho da velha Francisca. Eis os meus irmãos: Pedro, o mais velho e Gerardo, o mais jovem. E aqui tendes o príncipe Ismael, filho de Jefté, sultão do Cairo.

O aldeão não acreditava nos seus olhos, nem nos seus ouvidos.

-- Ah, vós não estais mortos! É isto possível, meu Deus! Ah! Que o Céu seja louvado! E dizer que nesta manhã teve lugar na abadia uma missa pelo repouso de vossas almas!

-- Bom, vamos indo, a fim de tranquilizar nossa gente e agradecer ao bom Deus, nos pés de seu altar.

-- Esperem, diz o mais jovem, convém enviarmos Joaquim na frente a fim de que não nos tomem por três almas errantes.

Joaquim se benze precipitadamente.

-- Não, não, tranquiliza-o o mais novo, nós estamos bem vivos e tu podes tocar... nossa mão é sólida e nosso coração bate sob nossa armadura.

Joaquim, um tanto mortificado, desabalou sem nada dizer, abandonando suas vacas, correndo até à abadia de Forgny onde toda a cidade se apressava...

 

10. Batismo de Ismael, que adota o nome de Mariano

 

O senhor abade batizou oficialmente e com grande pompa Ismael e lhe deu o nome cristão de Mariano, em honra da Virgem. A imagem milagrosa encontrou o seu lugar numa magnífica igreja que Mariano mandou construir, oferecendo as pedras preciosas que ele tinha levado.

Ele escreveu a seu pai narrando a sua aventura e o exortando a se fazer cristão. A história não nos diz o que ele fez...

Mas é verdade e confirmado que Mariano morreu muito mais tarde em odor de santidade na abadia de Forgny, e figura no número dos bem-aventurados da Ordem de Citeaux. Sua festa é comemorada no dia 6 de junho, aniversário de sua morte.

No lugar em que ele despertou com seus três companheiros, brotou desde então uma fonte milagrosa e foi sempre um lugar de peregrinações dos arredores de Laon. Esta história, a mais célebre do martirológio dos cavaleiros de São João de Malta, foi retratada em nove quadros, numa das salas do palácio da Ordem, na Ilha de Malta, e compõe os vitrais da abadia de Laon.

O papa Clemente VII ordenou a veneração particular da imagem na sua bula de 28 de maio de 1384.

Tal é a origem da imagem de Nossa Senhora das Alegrias, louvada seja Ela.

 

 (*) Traduzido e adaptado dos “Contes et Légendes des Croisades”, de Maguelonne Toussaint-Samat – Fernand Nathan, Éditeur – Paris – 1961. Por: Jurandir Josino Cavalcante – Fortaleza, CE, 25-08-2000.

Veja também: como surgiu no Brasil a devoção à Nossa Senhora das Alegrias - https://quodlibeta.blogspot.com/2009/08/nossa-senhora-das-alegrias.html



[1] Hospitalários, ordem religiosa voltada ao serviço dos viajantes, peregrinos ou doentes, na Terra Santa.

[2] Clã criada pelo turco Seljuc (séc. IX), cujo império abrangia a Pérsia, a Síria e a Armênia.

[3] Janízaros, soldados muçulmanos que apostataram da fé católica e formavam grupo de elite.

[4] Gilles de Trazegnies.

[5] Pistácio, noz que contém uma única semente, oblonga, esverdeada, edule (Aurélio).