quarta-feira, 3 de junho de 2026

A REGÊNCIA DIVINA NAS CURVAS DA HISTÓRIA

 



A forma como Deus rege os homens pode ser constatada desde tempos imemoriais, a partir da primeira queda no Paraíso, passando pelo Patriarcado, pelos tempos dos juízes, da primeira monarquia (a hebraica) e pelo surgimento dos impérios vistos no sonho de Daniel. Esta regência teve novo ponto de partida no nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando o mesmo instituiu a Santa Igreja Católica, para, através d’Ela e seu Corpo Místico, reger os homens e instalar seu Reino sobre a terra..

E essa forma sempre se revelou a mesma. A Divina Providência rege os homens ora com brandura e pacificamente, ora com rigor e castigos.  A mais perfeita deve ser sempre aquela em que o Regente encontra acolhida entre os regidos, sendo esta pacífica e cheia de brandura. Quando os regidos, porém, se rebelam a Providência usa o recurso que chamamos de “correção de rumos”. E muitas vezes a forma de “correção de rumos”, os castigos, se faz pelo simples abandono daqueles que deveriam aceitar a regência divina mas querem fazê-lo por conta própria. Este abandono tem sido frequente, ocasionando o despenhadeiro das sociedades ditas fiéis em verdadeiras calamidades.

Quando a ação de homens fiéis a Deus consegue impor os rumos da história naquela forma pacífica e sem a necessidade de “correção de rumos” pela via de castigos, surge sempre uma multidão de homens, inspirados pelo reino das trevas, para fazer o oposto e tentar construir o maldito corpo místico de Satanás. Patenteia-se, assim, o acirramento da luta entre o Bem e o Mal, entre os filhos da  serpente e os da Virgem.

De outro lado, convém ressaltar que a Providência sempre age por intermédio de terceiros, cumprindo aquele princípio tomista de que Deus age por causas segundas. Assim, vê-se normalmente um intercessor que tem papel primordial em mudar ou impor os rumos da história. No Antigo Testamento tivemos os antigos Patriarcas, como Abraão, Isaac e Jacó, ou reis como Davi e Salomão, ou ainda Profetas como Elias e Eliseu, sem os quais a História teria tomado rumos diferentes. Até chegarmos a Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele mesmo, o Intercessor mais importante que fez com que os fatos passassem a ter importância somente enquanto se referissem a Deus e à eternidade. A História a partir daqui se definiu como Antes de Cristo e Depois de Cristo.

Veremos, cronologicamente, como esta regência se efetivou após o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, sob o patrocínio da Igreja e seu Corpo Místico..

 

As “Curvas da História” no período do Cristianismo

O início do Cristianismo não se deu com nenhuma conquista, seja ela de qualquer natureza, mas apenas com o nascimento de Cristo. Sua vida privada, no sacral lar da Sagrada Família, ficou inteiramente incógnita e durou nada menos do que 30 anos, deixando Ele os 3 últimos anos de sua vida para exercer sua vida pública e pregar o seu Reino. E sua vitória, sua maior glória, não foi também uma retumbante conquista militar ou de poder, mas o martírio na Cruz.

No entanto, o seu Reino havia sido propagado entre seus fiéis seguidores, entre os quais os 12 Apóstolos e, ao depois, o Apóstolo das Gentes, São Paulo: os Apóstolos, de início eram 12, mas depois, foram 13. Já se mostra, no tempo de Cristo, a atuação d’Ele e a do Espírito Santo. No Evangelho consta que Jesus convidou 5 Apóstolos, mas não fala dos outros 7, os quais aderiram a Ele por inspiração do Espírito Santo. Do mesmo modo, dentre os 4 Evangelistas, dois eram Apóstolos que seguiram Jesus em vida (São João e São Mateus) e os outros dois foram objeto da pregação do Corpo Místico de Cristo (São Lucas e São Marcos), agiram sob inspiração direta do Espírito Santo.

Logo, logo, assim que estes homens começaram a pregar o Reino de Deus, o reino das  trevas começou também as tramas de sentido contrário. E as perseguições eram comandadas, em geral, pelos próprios judeus. Tentando fazê-los compreender o erro a Providência os abandona completamente, deixando que a Cidade Santa, Jerusalém, seja destruída juntamente com o Templo, pouco menos de 40 anos após a morte de Cristo, no ano 70 de nossa era. Não somente isso: os judeus foram expulsos de suas terras e tiveram que fugir e emigrar para várias partes do mundo. Tal situação perdura até os dias atuais, com a atenuante da criação do estado de Israel, embora no meio de ferozes inimigos e sem paz.

As perseguições à Igreja iniciante duraram mais de 3 séculos até encontrar um rei (Constantino, no ano 313, venceu sob o  signo da Cruz) que reconhecesse a religião cristã, através do Edito de Milão. A Igreja, finalmente, tinha liberdade para pregar o Reino de Deus entre os povos.  Iniciava-se a construção da Civilização Cristã. Três santos tiveram papel importante para este início: Santo Agostinho, São Bento e São Jerônimo. Foram eles que lançaram as bases teológicas e social da nova sociedade que surgia.

Mas, o inimigo não dormia e lançou-se com ódio sobre a sociedade de então. Se iniciaram neste período as invasões bárbaras, ocasionando a ruína do Império Romano. Aproveitaram-se os pagãos romanos para acusar os católicos de que eram culpados por aquela desgraça, pois, diziam, se tivessem sido fiéis aos seus deuses não teriam sofrido aquela ruína. Santo Agostinho lançou, então, uma de suas maiores obras, chamada “Civilitate Dei” (A Cidade de Deus), na qual provou que, pelo contrário, foram os católicos que ajudaram a diminuir a tragédia, protegendo muitas populações em seus templos e enfrentando os bárbaros com mais valor e eficácia. Em cima das ruínas do império romano estavam lançadas as bases da nova sociedade que surgia. Na mesma obra, Santo Agostinho explicita como deveria ser a sociedade perfeita, cristã e católica: se na sociedade não somente o rei e sua corte fossem católicos fieis, mas todos os demais súditos, cumpridores dos mandamentos divinos, teríamos então uma sociedade perfeita, que ele chamou de “Cidade de Deus”. Pode-se dizer que data desta época o início da Idade Média católica, quando o monacato imprimiu rumo inovador em toda a sociedade civil, especialmente após São Bento.

Os mansos, no dizer da bem-aventurança evangélica, começavam a possuir a terra.  E novas elites passavam a se formar, desta vez sob o influxo da doutrina cristã que dizia que quem deseja ser o maior procure servir aos demais e se apresente como o menor.

Vejamos, cronologicamente, os fatos que se seguiram, segundo análise feita por Dr. Plínio e completada por seus seguidores, como o padre Caio Newton, EP, especialista dos Arautos do Evangelho no tema:

 

Avanço do Cristianismo na sociedade:

Ano 410 – saque de Roma pelos hunos; 411 – Átila é repelido pelo Papa São Leão Magno, mostrando a força moral e divina da Igreja; 476 – Queda do Império Romano do Ocidente; das ruínas deste império começavam a brotar os elementos de uma nova civilização; 496 – Conversão de Clóvis, rei dos francos, transforma a França no primeiro país oficialmente católico; 525 – São Bento funda Monte Cassino.

 

Surge o início do reino das trevas: o islamismo

622 – O reino das trevas inspira a criação de uma religião diabólica para fazer frente ao Cristianismo: Maomé cria, pela força das armas, o Islamismo, e inicia suas investidas tomando terras a partir da península arábica até o norte da África; 711 – Os mouros começam a invadir a Europa através da Espanha (Covadonga); 732 – Mas são repelidos por Carlos Martel em Poitiers, fronteira entre Espanha e França.

 

A Idade Média cristã se estabiliza na sociedade europeia

768 – Carlos Magno, rei dos francos (neto de Carlos Martel), surge como o grande conquistador e formador da unidade cristã na Europa; 800 – Carlos Magno é coroado, na noite de Natal, e sagrado pelo Papa como Imperador do Império Romano-Germânico; 814 – Morte de Carlos Magno e divisão de seu império; 910 - Fundação de Cluny, o apogeu da Civilização Cristã é atingida; 1073 – São Gregório VII, Papa, e o caso de Henrique IV (em 1077), em Canossa; 1095 – Urbano II convoca a primeira Cruzada; 1099 – Conquista de Jerusalém por Godofredo de Bouillon; 1146 – São Bernardo de Claraval prega a segunda Cruzada.

 

Início da decadência cristã e a reação de Santos históricos

1150 -  Marco do início da poesia trovadoresca e começo da decadência; 1167 – Heresia dos Cátaros e Albigenses (a cruzada de Saint Simon); 1215 – São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis; 1252 – São Tomás de Aquino e a Escolástica como fonte de riqueza teológica e filosófica; 1270 – Morte de São Luís IX, rei de França; 1303 – Bonifácio VIII é esbofeteado por ordem de Felipe, o Belo, neto de São Luís; marco do início da prepotência estatal através do absolutismo; foi este princípio filosófico, poder estatal acima de tudo, que norteou os lances futuros da Revolução e até hoje inspira as constituições dos países modernos; 1378 – Grande cisma do Ocidente: durou 40 anos, tendo Santa Catarina de Siena como principal opositora; Rei de Castela era favorável a um papa cismático, um dos principais motivos da resistência do povo português a suas investidas, todas repelidas por São Nuno de Santa Maria; 1429 – Santa Joana D’Arc consegue vencer as batalhas que  terminam com a guerra de cem anos e coroa o rei de França; 1453 – Queda de Constantinopla, fim da Idade Média e começo da Moderna; 1492 e 1500 – as grandes descobertas, América e Brasil, mostra ao mundo a grande decadência de algumas ordens religiosas, despreparadas para exercer as missões com os pagãos, ao mesmo tempo em que surgiram os Jesuítas, a Ordem mais preparada para tão grande missão; os renascentistas aproveitam para apregoar as benesses do naturalismo e condenar a vida social nas cidades; na Espanha, em 1492 os católicos conseguem expulsar o último mouro da Península Ibérica , cujo domínio durou mais de sete séculos (711 a 1492).

 

Surge da Revolução universal

1517 – I Revolução - O luteranismo, investida contra a primeira classe social – o clero; a Alemanha quase inteira adere à nova heresia, seguida de alguns outros países, como a Suíça e a Holanda; 1535 – Cisma da Inglaterra, o anglicanismo; 1539 – Santo Inácio funda a Companhia de Jesus; 1545 – Concílio de Trento refuta o protestantismo; 1561 – Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz e a reforma da Carmelo; 1571 – Lepanto; a Cristandade vence uma grande batalha, impedindo que os muçulmanos invadissem a Europa, cuja ponte seria Lepanto; 1675 – Revelações do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque; 1716 – Morte de São Luís Grignion de Montfort; 1751 – Inicia-se o enciclopedismo, de onde surgiu o Humanismo, fundamento da Revolução Francesa de 1789.

1789 – II Revolução – tomada da Bastilha e o terror – constituição civil do clero – abolição do culto católico na França; após a investida contra o clero, agora a Revolução avança contra a nobreza, derrubando tronos e dinastias;  1801 – Rendição da Vendeia; a partir de agora a Providência vai aos poucos abandonando os homens, deixando-os sob o influxo de suas paixões e dos poderes malignos;  1815 -  Napoleão havia tomado o poder e procurou difundir os princípios da Revolução na Europa através de guerras. Nesta data, ocorreu a derrota de Napoleão em Waterloo; 1848 – Manifesto comunista de Karl Marx; alguns anos depois, a revolta chamada de “Comuna de Paris”; 1869 – Concílio Vaticano I, invasão dos Estados Pontifícios (o Papa prisioneiro no Vaticano), proclamação dos dogmas da infalibilidade papal e da imaculada Conceição; estava se iniciando nesse Concílio as discussões sobre a aprovação do “exorcistado”, proposta através do Beato Palau, a qual, se aprovada, poderia opor sérios obstáculos ao avanço da Revolução; no entanto, por causa da invasão do Vaticano, o Concílio foi suspenso e não concluiu tal iniciativa. 1907 – São Pio X condena o modernismo; e prevê a primeira grande guerra, que eclode poucos dias após (1914);

1917 – III Revolução – O comunismo ganha o poder na Rússia -  Aparições de Fátima no mesmo ano da explosão da III Revolução na Rússia. A revolução comunista procura atingir a terceira classe social, o povo, constante da burguesia e dos operários. A principal base social na Idade Média era composta por estas classes sociais: clero, nobreza e povo, e as três fases da Revolução visaram todas as três (o protestantismo queria acabar com o clero, a Revolução Francesa de 1789 com a nobreza e a revolução comunista com o povo eliminando a burguesia, parte importante dele).

 

A Contra-Revolução

1908 – Nasce Plínio Corrêa de Oliveira (homem providencial no fundo do poço); 1939/1945 – Ocorre a II Grande Guerra seguida da capitulação vergonhosa do tratado de Yalta, quando o Ocidente entrega várias nações à URSS, fortalecendo o império soviético; em 1943, Dr. Plínio lança o livro “Em Defesa da Ação Católica”, um brado de alerta contra infiltrações na Igreja; 1951,  Dr. Plínio funda o jornal “Catolicismo”, em torno do qual se reúne seus discípulos que rapidamente crescem pelo Brasil e outros países; seu grupo de simpatizantes passou a ser chamado de “Grupo do Catolicismo; 1959, Dr. Plínio lança o livro “Revolução e Contra-Revolução”, estabelecendo as bases da reação contra a decadência na Igreja e na sociedade cristã; 1961, Dr. Plínio cria a TFP, sociedade civil destinada a atuar na prática dos princípios contrarrevolucionários; várias entidades semelhantes são fundadas em mais de 20 países; 1963, São iniciadas as sessões do Concílio Vaticano II, verdadeiramente a proclamação dos “estados gerais” da Igreja, a semelhança do que fez Luís XVI antes de eclodir a Revolução Francesa. A terra toda é invadida por utópicas ideias de liberdade, diálogo, consenso e paz. Mas o pecado continua a avançar de forma protuberante. Simultaneamente surgem modas nos costumes que preparam os espíritos para a revolução da Sorbonne.

1968 – IV Revolução - Revolução da Sorbonne em Paris – O tribalismo como princípio autogestionário da sociedade. Surgem os “Hippies”, o Rock n’rol e várias modas de costumes libertinos e sensuais. As portas da sociedade se escancaram para a invasão de costumes indigenistas, pagãos e libertinos. O amor livre avança. Estão lançadas as bases para a formação da igreja satânica, a adoração de Lúcifer, a formação do corpo místico de satanás.

 

A Revolução “morreu” em 1968?

O sentido da palavra “morreu” não quer dizer que já não existe mais, mas no sentido de que parou: é como uma cobra esmagada, ainda rastejando, mas prestes a falecer completamente. Os lances da Revolução a partir daquela data, são de declínio e pouco avanço, como veremos adiante.

A cronologia acima estaciona no ano de 1968 porque tudo o que sucedeu após aquela data foi decorrente dos princípios da revolução da Sorbonne. Assim, por exemplo, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira caracterizou aquela revolução como a IV e a definiu num acréscimo feito ao seu livro “Revolução e Contra-Revolução”. Os princípios daquela revolução inspiraram o partido socialista francês a aplica-los na França, mas Dr. Plínio publicou em todo o mundo um extraordinário manifesto denunciando aquele lance, provocando grande derrota da Revolução à aplicação de seus planos. No final da década de 80 em diante começava a fenecer em todo o mundo os planos da autogestão socialista. Uma das cabeças da Revolução estava morta.

No entanto, embora ele tenha internamente, entre seus discípulos, feito vários comentários sobre a V Revolução, que seria a adoração a Satanás, nunca a definiu publicamente como parte de seu livro. Provavelmente, não o fez porque o mundo estava mergulhando num caos, como consequência da perca do “lumen rationis” na humanidade, e não se consegue fazer prognósticos certos num caos.

Do mesmo modo, pode-se dizer que o movimento contrarrevolucionário por ele fundado teve sequência nos anos seguintes, inclusive após sua morte em 1995, como continuidade dos princípios explicitados em 1959 na obra RCR (Revolução e Contra-Revolução). A fundação e pujante atuação e crescimento dos Arautos do Evangelho nas quase três décadas que já se escoaram neste terceiro milênio, nada mais são do que o reflexo, do que a aplicação, daqueles ideais. Podemos dizer, então, que a Revolução parou em 1968, deixando o caminho para o mundo cair no caos completo (Dr. Plínio chegou a dizer: “a Revolução está morta, apenas se rasteja como uma cobra com a cabeça esmagada”); no entanto, a Contra-Revolução não parou e continua atuando para a completa restauração da sociedade e a implantação do Reino de Maria.

Dir-se-ia que a V revolução caminha a passos largos, pois o satanismo está em plena ascensão, enquanto, de outro lado, não se fala mais em autogestão ou tribalismo, sua fase anterior. A Revolução para dar seu impulso na sociedade o faz sempre com um ataque inicial sintomático e significativo, como ocorreu nas suas últimas quatro fases: a protestante (I), a francesa de 1789 (II), a  comunista de 1917 (III) e a da Sorbonne de 1968 (a IV). No entanto, não foi bem assim com a V fase, tudo indicando que não conseguiram lideranças à altura para lance tão ousado.

Vejamos a provável razão do que disse acima. Importante frisar que um corpo místico para conseguir seus objetivos precisa de seres humanos capazes para lograr seus objetivos. O Corpo Místico de Cristo, por exemplo, tem sua Cabeça que é o próprio Cristo e o Papa como seu representante aqui na Terra, mas o do demônio não possui ainda tal cabeça porque nenhum homem a assumiu  e nem sequer um  representante na terra, talvez só o consiga com o Anti-Cristo no fim do mundo. Com a perca do “lumen rationis” a humanidade está carente de líderes carismáticos e capazes para levar adiante os planos desta V Revolução, pois agora ela já prever a adoração do demônio e isso requer uma cabeça mística em sua liderança. Por isso ela estacionou em sua ação de corpo místico (lhes faltam líderes e a cabeça), atuando apenas com intervenções diretas dos demônios, atuação mais própria a  causar o caos por causa de serem malditos. Essa forma não é eficaz, está condenada de antemão à derrota, pois o Corpo Místico de Cristo, contra o qual lutam, possui pessoas que recebem de Deus tais dons e carismas, vencendo galhardamente esta guerra.

Quanto à Contra-Revolução, seu maior líder mundial foi realmente o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira que fez as denúncias com as quais conseguiu obstar o andamento da Revolução, parada em ações primordiais desde 1968. Após seu falecimento, ficou Monsenhor João Clá como seu sucessor, conseguindo dar grandes passos no crescimento do Movimento no mundo. Hoje, os Arautos do Evangelho estão presentes em quase 80 países e demonstra grande aceitação na sociedade. No entanto, alguém dirá: também a Contra-Revolução ficou sem líderes após o falecimento desses dois acima? Quando falamos em Revolução, lembremos que é o movimento dirigido pelo corpo místico do demônio, sendo ele que a move usando porém os homens; e quando falamos em Contra-Revolução, também a relacionamos com o Corpo Místico de Cristo, que é Quem a move através das graças divinas, mas da mesma forma usando os homens. Como supõe-se que a falta do “lumen rationis” tenha atingido toda a humanidade como castigo pelos pecados de Revolução, e pela falta deste carisma os homens perderam a capacidade de liderança (em outra parte falamos sobre a perca também da capacidade de direção ou orientação), é provável que também entre os contrarrevolucionários esteja ocorrendo tal dificuldade.

Sendo verdadeiro o que dissemos acima, a luta entre os corpos místicos será mais sobrenatural e preternatural do que com as forças naturais, mas, não por muito tempo, porque a Providência dirige os homens através de intermediários, de intercessores. Como os desígnios divinos devem ter estabelecido que esse castigo da falta do espírito de liderança (como causa da perca do “lumen rationis”) tenha atingido toda a humanidade, é normal que  também os membros do Corpo Místico de Cristo tenham sido atingidos por isso. E para seu retorno à normalidade, talvez tenha que haver uma medida a ser tomada pelo Papa, a maior autoridade da Igreja, e assim possamos retomar a posse desta graça tão importante para a Igreja e os destinos dos povos cristãos, e assim a Contra-Revolução possa dar também seu lance mundial para ser reconhecida no mundo inteiro e se iniciar o Reino de Maria, mesmo com a ausência de seus líderes e principais fundadores, ou então, numa situação inusitada, com a ressurreição dos dois a fim de reassumir seus postos no comando dos acontecimentos.

 

COMO CAMINHA A REVOLUÇÃO NO INÍCIO DO SÉCULO XXI?

 

Num estudo recente, que denominamos de “A Gênese da Quarta Revolução”, apenas levamos em consideração uma fase (a IV) do mesmo processo cinco vezes secular de uma só e única Revolução que predomina na  humanidade, buscando no passado as causas filosóficas daquela revolução independente das outras fases anteriores. Como foi explicitado na obra “Revolução e Contra-Revolução”, de Plínio Corrêa de Oliveira, as três fases anteriores da Revolução foram, 1) O Protestantismo; 2) A Revolução Francesa, e; 3) A Revolução Comunista. Na primeira, a Revolução visou abater o Clero, combatendo o Papado, o Sacerdócio e suas prerrogativas; na segunda, atacou a Nobreza, tentando eliminar as monarquias; e na terceira foi de encontro à burguesa, tentando impor ao mundo a ditadura do proletariado. Em busca de completar seu  ciclo de desordem e caos, a Revolução tentou uma nova fase, que foi o tribalismo. Felizmente, sem sucesso aparente, pois as ideias tribalistas caíram no descrédito popular. É o que analisamos no trabalho citado acima.

Qual seria a quinta fase da Revolução,  tendo em vista o insucesso das anteriores? Sim, porque o Papado não foi abalado pela revolta de Lutero – basta ver quanta popularidade possui nos dias de hoje. De outro lado, algumas monarquias foram extintas, mas muitas permaneceram em vigor, como a da Inglaterra, dando testemunho de vitalidade e maturidade deste regime político. Por último, a ditadura do proletariado redundou no mais profundo fracasso da Revolução, e onde foi tentada como na ex URSS (num total de 17 países) só deixou como resultado muita miséria, pobreza, fome e desgraças.

A Quarta Revolução, a volta do povo ao regime tribal, não foi senão uma tentativa de pregar uma filosofia, pois na prática nunca obteve êxito concreto num país ou em toda uma região. É certo que muita gente a aderiu com simpatia, mas ficou só no campo das ideias, pois na prática ninguém adotou o regime tribal como norma de vida. Aumentou muito a quantidade de ONGs em nossa região Amazônica, mas, na sociedade de modo geral nada prosperou como norma de vida.

Que nova fase a Revolução estaria tentando pôr em prática, em vista dos fracassos das anteriores?  Ao atualizar suas teses contidas no livro “Revolução e Contra-Revolução”, doutor Plinio Corrêa de Oliveira só chegou analisar e acrescentar a quarta fase. Em suas conferências privadas a discípulos falava de uma quinta fase, mas nunca teve tempo para elaborar alguma análise profunda desta fase e publicá-la, ou então julgou que não iria analisar algo ainda no nascedouro e sem perspectivas práticas para sua aplicação por causa dos fatores aqui analisados.

Seria esta quinta fase algo diferente, algo na linha do poder diabólico descendo até os homens para executar pessoalmente seus planos? Seria a fase da mística diabólica conduzindo os acontecimentos humanos? A “igreja de Satanás”, ou “corpo místico do demônio”, em oposição ao Corpo Místico de Cristo, estaria exercendo papel preponderante na condução dos acontecimentos humanos? E, neste sentido, é importante verificar como tem ocorrido fatos misteriosos que causam comoções sociais, cujos objetivos propendem a criar na população o desespero, o caos, a anarquia, e de roldão a ruína de todas as instituições que mantêm a ordem e a paz social. 

Se essa guerra agora é completamente mística, poderemos então dizer que o combate será entre os dois corpos místicos de uma forma direta. O Corpo Místico de Cristo, já formado, vencerá o inimigo se houver vítimas expiatórias que possam exorcizar todos os demônios que atuam no corpo místico de Satanás, o qual combaterá mas sem que a mística dele esteja completamente formada, pois, pela perca do “lumen rationis”, não há mais líderes humanos capazes de conduzir essa guerra, a qual será dirigida pelos próprios espíritos malignos. Basta o representante do Corpo Místico de Cristo, o Papa, tomar uma atitude universal exorcística para que seus membros recuperem o “lumen rationis” voltem a obter capacidade de liderança suficiente para governar o mundo.

O outro corpo maldito não obterá o seu objetivo final, pois Nossa Senhora já previu a derrota do demônio e a vitória da Santa Igreja e da Civilização Cristã, quando disse em Fátima: POR FIM, MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ. Chegado este dia, ouviremos talvez o Papa proclamar: “O Imaculado Coração de Maria triunfou!!!”

 

 

 


terça-feira, 2 de junho de 2026

O "SEGREDO" DE MARIA

 

                                           (Revista "Dr. Plínio" n, 234, setembro de 2017)


 

Analisando tudo quanto São Luís Grignion de Montfort diz sobre Nossa Senhora, o que mais me agrada é a doutrina sobre o “Segredo de Maria”, a qual foi matéria de um de seus livros.

Embora ele não tenha encontrado uma explicação completa para tal “Segredo” – caso isso se desse não lhe caberia mais o título de segredo! -, pelo que neste livro está dito, ele parece consistir numa forma misteriosa de união com Nossa Senhora, a qual faz com que a alma progrida rapidamente.

Tal fenômeno constitui a mais alta e sublime escala sobrenatural na vida do católico, assim como da ação de Nossa Senhora sobre as almas. Por este “Segredo” chega-se a um excelso grau de conhecimento acerca de Nossa Senhora. Trata-se, portanto, de uma forma de aliança de Nossa Senhora com as almas, pela qual Ela atua de modo especialíssimo, tornando mais fácil e frutuosa a vida espiritual e a obtenção de seus fins.

Para dar um exemplo do que pode ser isso, consideremos o seguinte:

Dom Chautard conta o famoso episódio ocorrido com certo advogado que foi a Ars a fim de conhecer São João Maria Batista Vianney. Ao retornar, perguntaram-lhe o que havia visto. Ao que ele respondeu: “Eu vi Deus num homem”.

Ou seja, à vista de São João Maria Vianney, transbordante de graça e virtude, aquele homem, arrebatado, compreendeu tratar-se de uma ação de Deus. Nas extraordinárias qualidades de São João Maria Vianney filtrava a ação da graça, pela qual se podia chegar ao conhecimento de Deus.

Nota-se nesse fato uma ação especial de São João Maria Vianney sobre aquele homem. Trata-se da graça de Deus atuando em São João Maria Vianney, que de algum modo se transmitiu à pessoa que o viu. Misteriosamente, a pessoa recebe uma participação da graça que há no outro.

Creio que com o “Segredo de Maria” dá-se algo semelhante. Pela vontade de Maria, em certo momento o espírito d’Ela passa a habitar uma pessoa, e a graça que há n’Ela toca-lhe a alma, dando-lhe um prolongamento de suas virtudes.

Ora, pelo próprio livro de São Luís Grignion tem-se a impressão de que, por uma ação misteriosa de Nossa Senhora, ao lê-lo adquire-se uma especial comunicação das virtudes da Santíssima Virgem.

Parece-me também que o “Segredo de Maria” pode atuar estável e fixamente numa alma, de tal modo que ela passa a participar habitualmente da vida sobrenatural de Nossa Senhora. Assim talvez de modo ainda mais radical do que o próprio São Paulo disse a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, a alma que vive nesta união pode afirmar: “Já não sou eu que vivo, mas é Maria quem vive em mim”.

Isto é, evidentemente, a mais alta forma de união que se pode ter com Deus. Pois, quanto mais se está unido a Nossa Senhora, mais se está unido a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, é muito oportuno pedirmos a Ela que nos conceda seu espírito, bem como a comunicação de suas graças de modo estável, de modo a sermos verdadeiros prolongamentos d’Ela. (Conferência de 2/5/1993).


(Extraído da revista "Dr, Plínioo", março de 2011, pág. 27)


DESNUDANDO O IGUALITARISMO EM CORDÉIS

 




 

                                     Uma vez um cientista pegou
Três gotas para examinar:
Deveria procurar descobrir
O que elas iam representar
 
A primeira a ser analisada
Era branca e luminosa
Tão simples e tão pura
Que brilhava radiosa
 
Passou para a segunda
Onde lhe pareceu brilho igual
Olhou logo a terceira
E nada viu de anormal
 
Pesquisando nas três gotas
Pensou alto, com seus botões:
- Parecem todas iguais
Nelas não há distinções
 
A terceira retrucou:
- "iguais coisa nenhuma
Pois sou uma lágrima
Que supera qualquer uma"
 
A segunda gota, então,
Ao ouvir o que esta dizia
Virou-se para a lágrima
E respondeu com ufania:
 
"Realmente não somos iguais
Pois sou uma gota de suor
E das outras gotas ademais
Sou eu mesma a melhor"
 
A gota de lágrima respondeu:
"Que há de melhor no suor?
Sua única vantagem é
Fácil de sair em seu senhor"
 
Para parar a discussão
Veio à fala o cientista:
"Descubro já se há diferença
Num só golpe de vista":
 
"Vejo nesta gota de suor
Muito sal e coisa orgânica
Que tem também na lágrima
De origem anatômica"
 
É bem verdade - diz a lágrima
Que trazemos do corpo humano
Substâncias que lá encontramos
Mas que somos iguais, é engano!
 
Se o suor vem do esforço
Eu nasci do sofrimento
E assim nossa diferença
Vem desde o nascimento
 
A primeira gota - água pura
Precipitou-se com afobamento:
"Lá vem você com elitismo
Com nobreza de nascimento!"
 
"Nascemos todas iguais
Frutos da mesma formação
O cientista aí bem já viu
Nossa orgânica composição "
 
"Ah, isso não é verdade -
Responde a gota de suor,
Pois você é água pura,
Nem cheira e nem tem cor"
 
 
Volta a falar o cientista
Para acabar a discussão
E explica para as três gotas
O que deduziu com exatidão:
 
"Na realidade eu descobri
Nas três uma só igualdade:
É que todas são de água
E brilham com intensidade
 
Mas logo a desigualdade
Se apresenta num só momento
Tanto no suor do esforço
Quanto na lágrima do sofrimento"
 
A gota d'água responde:
"É, mas as outras são iguais
Pois carregam consigo
Substâncias materiais"
 
- "Mesmo assim tais substâncias
Nada têm de igualdade
Pois a que vem do esforço
É inferior à da dor de verdade
 
A lágrima se torna assim
Superior por nascimento:
Ela vem da angústia, da dor,
É filha do sofrimento"
 
- "O cientista sabe - diz a água,
De que foi criado o mundo
Deus fez de simples gota d'água
Este Universo num segundo
 
Então, se há mérito no nascimento
Tenho mais, pois nasci primeiro
De mim surgiu todo o resto
Que compõe o mundo inteiro"
 
- "Se isto for mérito maior
O nascer primeiro tem mais valia
Então vale mais do que a água
O nada que lhe precedia
 
 
 
Pois, como reza a Tradição
Que no Catecismo é ensinada
Deus fez todo o mundo material
De nenhuma substância, do nada!"
 
O esforço vale pelo que faz
A dor pelo que se sente
Do que vem de dentro da alma
Do que se passa interiormente
 
Quando a dor é profunda
E atinge  o centro do coração
Ela compunge tanto nossa alma
Que produz a lacrimação
 
Por isto na hierarquia das gotas
A lágrima tem destaque especial
Ela é superior a qualquer oceano
E faz-se ser mui desigual
 
Pois ela vem do coração
Até chegar ao saco lacrimal
É filha da nobreza da dor
De importância sem igual
 
No calor da discussão
Chega ali outra pessoa
Gotejando sangue na mão
Dá um grito que reboa:
 
 
"Nenhuma gota é superior
A estas que trago na mão!
Foram elas sublimadas
Pela Cruz na Redenção!"
 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

DIVINO DESPONSÓRIO

 



 

(Revista “Dr. Plínio” n. 63, junho de 2003_

 

 

 

Ao comentar o desponsório da Santíssima Virgem com o Espírito Santo, Dr. Plínio excogita belas hipóteses teológicas acerca dos efeitos da Encarnação operados ao longo da História.

 

Farei algumas hipóteses, que me pareceu muito prováveis e poderão servir de ponto de partida para um estudo mais aprofundado.

 

Nosso Senhor é modelo perfeitíssimo

Os possíveis de Deus, ou seja, as coisas que Ele poderia criar, de algum modo existem em Nosso Senhor, pois Este é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a própria fonte de toda graça.

Na Pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, com duas naturezas, vou considerar sobretudo a humana, pois sua natureza divina já foi bastante estudada.  Na sua natureza humana, pelo fato da união hipostática, por ter sido Jesus gerado por Nossa Senhora pela ação do Espírito Santo, Ele é um compêndio de todas as perfeições as quais Deus desejou que a Humanidade tivesse , e em todos os graus possíveis. De maneira que toda a Humanidade, de algum modo, pelo menos no seu aspecto moral, está contida n’Ele.

 

A riquíssima relação entre a humanidade de Jesus e o gênero humano

Surge, então, uma pergunta linda, luminosa, para cuja resposta, no momento, não me sinto à altura para nem sequer levantar hipótese. A graça, participação de Jesus Cristo nos homens, nós entendemos perfeitamente bem no que diz respeito à natureza divina. Mas restaria saber como se dá quanto à sua natureza humana. Porque é a Pessoa d’Ele que se deixa participar por nós.

Há, portanto, uma relação entre a humanidade d’Ele e o gênero humano, que deve ser uma coisa riquíssima, inexaurível. Seria preciso imaginar uma participação por conaturalidade terrena na graça que Ele obteve, havendo a união hipostática.

Como pode haver uma tal participação entre a natureza humana e o Homem-Deus? E depois, como isso se dá de fato, considerando aquela frase de São Paulo Apóstolo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”?[1]

 

Da relação de Maria com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade decorre a geração da humanidade de Nosso Senhor

Ora, para se compreender bem essa questão, é preciso considerar o papel de Nossa Senhora.

De fato, nossa participação em Jesus Cristo far-se-ia um tanto ex abrupto, a ponto de causar um certo mal-estar, se não fosse por intermédio de sua Mãe, cuja perfeição decorre do desponsório com o Espírito Santo.

Nossa Senhora não teve a união hipostática. Mas o que significa a relação d’Ela, como Esposa, com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, para que dessa relação decorresse a geração da humanidade de Nosso Senhor?

Quer dizer, nesse momento houve uma operação divina, uma interferência evidentemente numa ordem toda sobrenatural, cuja repercussão foi produzir a geração. A carne d’Ela ficou em condições de receber a união hipostática.

Então, na Encarnação, a ação do Espírito Santo parece ter precedido cronologicamente a operação da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Primeiro o Espírito Santo se tornou esposo da Virgem Maria e depois Ela gerou. Houve, portanto, uma forma de união espiritual de todo o ser d’Ela com o Divino Espírito Santo, que preparou a Encarnação.

Porque quem se Encarnou a Si próprio foi o Verbo. Não creio que se possa dizer que o Espírito Santo encarnou o Verbo. Eles são perfeitamente iguais; portanto, não pode um ter Encarnado outro. O Verbo é que se Encarnou.

E, por um princípio ordinário que banha seu manto nas águas tão terrestres da cortesia, chego à conclusão de que, dada a igualdade absoluta entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não se poderia fazer uma operação tão alta estando o Pai alheio inteiramente: Seria “descortesia” da parte das outras duas Pessoas – o “descortês” aqui vai entre aspas.

Portanto, deve ter havido também ação do Pai Eterno.

 

Embora insignificantes se comparadas com a visão beatífica, tais considerações conduzem ao Reino de Maria

Depois de termos feito ideia de como e esse périplo, entenderíamos como Nossa Senhora gera os homens em Jesus Cristo, um gerar todo espiritual, de outra natureza. Mais uma vez é Ela quem gera.

Assim, compreenderíamos o “Segredo de Maria”[2], o segredo do relacionamento d’Ela com os homens, bem como da ordenação perfeita das relações humanas na Igreja e no plano temporal.

Talvez essas considerações sejam insignificantes em comparação com a realidade que teremos diante dos olhos na Eternidade. Mais ou menos como os primeiros mapas da América, os quais hoje nos fazem sorrir, mas que continham, apesar de tudo, uma figura do continente.

Não estamos descobrindo coisas que nunca nenhum teólogo explicou. Mas, do fundo de nossa ignorância de leigos, estamos redescobrindo o que estudar. E dessa redescoberta seríamos os cartógrafos que fazem esse primeiro mapa canhestro de um estudo, o qual conduziria ao Reino de Maria.

 

O processo de santificação de Nossa Senhora adquiriu maior profundidade no convívio com o Espírito Santo

Uma vez que Nossa Senhora se tornou esposa do Divino Espírito Santo, qual é a energia dessa condição de esposa, antes de tudo psicologicamente?

Concebida sem pecado original, julgo que Ela foi confirmada em graça desde o primeiro instante do seu ser. Mas, o processo pelo qual Nossa Senhora iria crescendo em santidade tomou uma energia, uma realidade, uma profundidade, num convívio especial com o Esposo d’Ela, o Espírito Santo.

Havia entre ambos uma constante união, onde o Espírito Santo – que não precisa de complementação para nada, porque é Deus – tinha sua glória, ressoando a santidade d’Ele no espírito e na alma de Nossa Senhora, como uma corda de violão que, colocada naquela caixa, ressoa de modo especial. Há um bem para a corda e para o som, e este se amplia. E todas as coisas que o Espírito Santo quereria falar aos homens ao longo da História até o fim do mundo, eu seria levado a achar que Ele disse a Ela, que foi a caixa de ressonância.

E porque houve no gênero humano quem recebesse isso perfeitamente, com tal plenitude, ficamos muito mais enriquecidos pelo fato de Ela ter sido santa como foi.

 

Qual caixa de ressonância celeste, Maria faz com que as maravilhas operadas em Si repercutam pela História inteira

No processo histórico da Revolução e da Contra-Revolução, compreende-se o progresso incessante da obra e da grandeza de Nossa Senhora, mesmo quando atua nos escombros ocasionados pela Revolução. É o contínuo progresso da união d’Ela com o Divino Espírito Santo, ao longo dos séculos.

A raça da Virgem prossegue por ascensão, até aquele conhecimento perfeito em que o Espírito Santo fale a Nossa Senhora: “Eu disse tudo”, e Ela responda: “Compreendi tudo”. E, por esse aspecto, a História do mundo acaba.

Se não fosse isso, Ela concebeu e depois tudo se acabou, pois não tiveram mais nexo nenhum, os desponsórios se esgotaram numa só produção. É claro que sim, porque Nosso Senhor é Filho unigênito do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora. Mas depois há um outro modo de conceber, e tenho a impressão de que todas essas coisas têm continuidades históricas que se refletem na vida dos homens.

E aqui compreendemos bem o papel d’Ela: é a caixa de ressonância celeste, que dá amplificações, fazendo com que tudo quanto foi realizado n’Ela repercuta pela História inteira.

 

Ao criar a alma de Nosso Senhor no seio de Maria Santíssima, o Pai Eterno elegeu o píncaro de sua ação criadora

Há em Nossa Senhora um papel contínuo com o Verbo, e um outro papel contínuo com o Espírito Santo.

Como será o papel com o Pai Eterno?

As três Pessoas da Santíssima Trindade, uma e trina, desenvolvem ao longo da História, em função de Nossa Senhora, um papel que é distinto e, ao mesmo tempo, único, sendo Ela, a um título especial, a Medianeira.

Sem prejuízo da perfeita igualdade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, eu diria que o Pai Eterno representa mais o rude e o Espírito Santo o requintado. O Divino Espírito Santo é a vida, a marcha de todas as coisas, por onde o ato criador se prolonga.

A alma de Nosso Senhor foi criada pelo Pai Eterno no seio de Maria Santíssima e este foi o píncaro de sua ação criadora.

O Pai Eterno criou o Céu e a Terra e depois as almas[3]. À sensibilidade desequilibrada do homem do século XX, a criação do Céu e da Terra parece ser mais importante, porque mais palpável e mais vasta do que a criação das almas dos homens. Mas isso é falso. Aqueles constituem o lado logístico; quando Ele começou a criar almas, sua ação criadora subiu para um patamar mais alto.

Se, por assim dizer, pudéssemos nos colocar no ângulo da visão do Padre Eterno, veríamos primeiro os anjos e depois as almas humanas numa ordem grandiosa. Não numa progressão retilínea, mas variada, circunstanciada, riquíssima, que nos deixaria extasiados.

E o centro dessa obra-prima é a Alma da natureza humana de Nosso Senhor. E essa Alma humana – que é um principium vitae d’Ele – seria o píncaro de toda a ação criadora de Deus.

Depois das almas humanas viria o plano sobrenatural, a criação da graça às torrentes.

Então, seria a ação criadora que toma dois aspectos: o plano natural e a vida divina, porque a graça é um dom criado, uma espécie de Pentecostes permanente.

Como, nas entranhas da Virgem Maria, se criou a matéria humana para receber a Alma de Nosso Senhor? Por ação do Espírito Santo, a alma de Nossa Senhora deveria estar pronta para que a Alma-píncaro fosse criada dentro d’Ela. Haveria reversibilidades e belos temas para se estudar: por exemplo, a Igreja.

A igreja é a sociedade em que as almas estão postas entre si numa inter-relação, formando uma espécie de  imensa família em que isso tudo circula vindo de Deus. É uma miniatura do Céu.

Tudo isso teve seu píncaro, seu desfecho e sua raiz inicial com a Anunciação na Casa de Nazaré. E para melhor se conhecer a Trindade, seria importante aprofundar o estudo sobre isso.

 

A Eucaristia no Paraíso para sustar a tendência descendente do homem

A Eucaristia é outro ponto que, de algum modo, se poderia estudar em função disso. Em consequência do pecado original, e talvez mesmo que ele não tivesse ocorrido, haveria Eucaristia.

No Paraíso terrestre, o homem, por natureza, era mortal e possuía imortalidade por um dom preternatural. Portanto, independente do pecado, e pelo fato de estarmos vinculados à carne, algo em nós é descendente. Nossa natureza tem, por assim dizer, uma apetência da morte e da inércia.

E para sustar essas coisas descendentes, um modo maravilhoso, excogitado pela sabedoria de Deus – não quero dizer que fosse o modo necessário -, teria sido de Ele vir habitar periodicamente ou sempre, nestas ou naquelas pessoas, e estar realmente presente, sob as espécies eucarísticas, em igrejas, basílicas, catedrais, dentro do Paraíso. De maneira que essa tendência descendente no homem fosse sustada pela Eucaristia, viático no sentido etimológico da palavra, ajudando-o a percorrer a via.

Então, a ação criadora de Deus Pai, a ação da segunda e terceira pessoa Pessoas da Santíssima Trindade, seria continuamente prolongada e reforçada, a seu modo, pela Sagrada Eucaristia. A ação criadora seria prolongada neste sentido: daria ao homem um sustento para evitar as forças da decadência.

A árvore da vida valeria para o corpo. Quem sabe se, instituída a Sagrada Eucaristia, esta seria a árvore da vida para a alma e talvez também para o corpo?

Tudo isso somado, percebo que temos perspectivas de um verum, bonum, pulchrum de uma altura inexcogitável; é um Céu! E ainda que ficássemos reduzidos a não poder fazer nada e estudar só isto, realizaremos uma coisa colossal!

 

O conhecimento do segredo de Maria

O Segredo de Maria, segundo a expressão de São Luís Grignion, não é concebido na pura especulação, mas é algo por onde Nossa Senhora nos salva. É um modo de Ela operar em nossas almas, que pressupõe um conhecimento nosso a respeito de Maria Santíssima, o qual determina em nós uma atitude especial diante d’Ela. Essa atitude é especialmente salvífica. Isso se refere à Fé.

Há depois a esperança, abrindo para nós uma viabilidade da salvação que parece extraordinariamente difícil, comprometida, nesse vale de lágrimas. A salvação se torna mais fácil, desde que tomemos em conta esse segredo, o amemos e procedamos em função dele.

É uma particular excelência do amor de Deus e de Nossa Senhora, à luz das maravilhas que o amor materno consegue especialmente de Deus. Ele quer esse amor materno e nossas almas crescem no amor a Ele, autor dessa Mãe. (Extraído de conferência de 9/8/1984)

 

(Revista “Dr. Plínio”, n. 171, junho de 2012, págs. 20/23)

 

 

 

 

 



[1] Gl 2, 20

[2] Cf. In: Plínio     n, 156, p. 27

[3] No início da criação Deus dizia “faça-se...” as coisas eram criadas; porém, ao criar o homem, disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, quer dizer, falou no plural dando a entender que nesse ato esteve presente toda a Santíssima Trindade.