sábado, 24 de outubro de 2026

SANTO ANTONIO MARIA CLARET SEGUNDO PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA

 


 

Aconselho a todos que aqui se encontram que procurem ver na biblioteca a biografia de Santo Antônio Maria Claret, em espanhol, editada pelos padres claretianos. Ela é de certo tamanho, não é dessas pequenininhas. Eu a li quando tive que fazer uma conferência a seu respeito em Rio Claro (Estado de São Paulo), há muitos anos. Fui lendo durante a viagem para lá e me maravilhei simplesmente com sua vida!

São tantas coisas extraordinárias que se poderiam narrar de Santo Antônio Claret – como, aliás de todo o Santo cuja biografia é bem feita... e que se leia – que isto convidaria muito mais a uma conferência do que propriamente a dar umas notas resumidas.

A Santa Igreja desaconselha que se faça comparações entre santo e santo. Eu não vou dizer, portanto, que Santo Antônio Claret foi o maior santo de sua época. Mas  diria que, se é verdade que em cada período histórico existem alguns grandes santos que transcendem a todos os outros em importância segundo os planos da Providência, um desses foi certamente Santo Antônio Claret.

Foi muito mais do que fundador de uma congregação religiosa, mas um desses personagens que, ainda que não tenham tido uma ação muito profunda sobre sua época, pelo simples fato de existir, a domina completamente.

Os senhores considerem o seguinte: um homem de baixa estatura, espanholzinho, vivo, catalão apimentado, que faz, sucessivamente, as coisas seguintes: vai estudar em Barcelona, mete-se com questões de tecelagem. Por causa de seu temperamento extremamente vivo e embombante, deixa o interesse por sua vocação sacerdotal e passa um certo período envolto em questões de máquinas, teares e coisas destas, completamente absorto nisso. Praticava ainda a religião mas, verdadeiramente, estava “sabugo”. E o exemplo do “sabugo” é Santo Antônio Maria Claret nesse período de sua vida, conforme ele mesmo narra em sua autobiografia. Ele conta que ia à Missa, comungava, mas que exceto o cumprimento estrito dessas obrigações, tinha mais máquinas na “cabeça do que santos no altar”, e não pensava em mais nada. Isto é um “sabugo” e “sabugo” sinarquisado, “sabugo” com veneno.

Até que um certo dia, recebe uma graça especial e tem uma espécie de conversão que nele se opera. Neste sentido, é o padroeiro dos “sabugos”. Ele se converteu porque tinha uma grande devoção a Nossa Senhora, que o chamava para coisas muito grandes, que fez com que se reerguesse, se reafervorasse.  A partir daí, enceta a marcha ininterrupta rumo aos píncaros da santidade, que veremos mais adiante alcançar.

É ordenado sacerdote e se torna missionário. E se revela o tipo do missionário popular, com algumas características verdadeiramente eminentes. Era uma pessoa de voz possante. Se estivesse nas igrejas de hoje, não precisaria de auto-falante para se fazer ouvir. E não só pregava dentro das igrejas, que eram pequenas para acolher as multidões populares que atraía – e quero acentuar a palavra “populares” –, sendo preciso reuni-las em praça pública, onde sua voz portava longe. E eram tantas as multidões que o ouviam que, às vezes, as praças públicas não eram suficientes.

Quando se deslocava de uma cidade para outra, sua fama de orador sacro era tal que grande parte da população da cidade onde estivera o acompanhava até meio caminho. Aí então vinha processionalmente para recebê-lo a população da cidade onde ia pregar. No encontro, sermão de despedida para uns, sermão de saudação aos outros, grandes prantos, porque ele sabia despertar o dom das lágrimas em alto grau nos seus ouvintes.

Depois ia falar como orador popular muito vivo, muito interessante, muito ardente, muito profundo, muito sólido, muito substancioso, mas tomado por carismas extraordinários, e que davam origem a fatos durante as suas pregações espetaculares.

Por exemplo, ele passava e dizia: “A senhora - e apontava para uma mulher que estava em meio ao público -, a senhora pensa que não vai morrer, que vai viver não sei quantos anos, mas sua morte não vai passar de... – suspense – seis meses!” Desmaio da grande interessada, naturalmente, pranto. E, muitas vezes, se cumpria.

Em outras ocasiões dizia: “Eu vou expulsar o demônio que está pairando sobre este auditório”. Pronunciava a fórmula do exorcismo e se ouvia um estrépito: raio em céu sereno, caem os sinos do campanário! E a população fica toda assim... Naturalmente, conversões em massa. Porque podemos bem imaginar o efeito de pregações dessa natureza...

Suas grandes qualidades de orador sacro, de missionário, se completavam com uma coisa curiosa: ele sabia bem que sua missão consistia em ser missionário; nunca quis se dar a teólogo profundo, ser orador de alto vôo, ser algum padre Antônio Viera, algum Bossuet, Bourdaloue... Mas compreendeu que era nascido para falar para o povo, e assim fazia. Dava um exemplo edificante em relação, por exemplo, a certas ordens religiosas que são feitas para converter e formar gente do povo através de uma oratória popular esplêndida, e está acabado.

Muito interessante, por outro lado, é o seguinte: os “democratas cristãos” daqueles tempos diziam que era impossível conduzir o povo para posições contra-revolucionárias, e que era preciso inventar métodos de apostolado completamente novos porque os antigos não davam resultado. Sem embargo, ele alcançou um resultado fabuloso manejando destramente o método antigo.

Assim, ele dava a resposta a essa gente: “Vocês não têm resultado nos métodos de apostolado antigo que pregam. Yo lo creo! Com os novos também não terão, mas é porque vocês não prestam”... É, mais ou menos, como alguém que está cantando no rádio e que diz: “Eu não canto bem por causa do alto-falante”... Não é! Você é desafinado. Pondo o alto-falante, de qualquer jeito sai uma bobagem.

Santo Antônio Claret compreendeu muito bem uma outra coisa: que ele era  homem feito para suscitar zelo, mais do que para coordenar o zelo que tinha suscitado. E, por isso, passava pelas províncias despertando, por toda parte, o amor de Deus, deixando que outros pegassem aquela semente, pegassem aquele fogo e o aproveitassem para outra finalidade. Quer dizer, modelo de desprendimento, sem  preocupação de colher para si, mas plantando para que outros colhessem.

Ao mesmo tempo que continuava a desempenhar uma missão muito grande como missionário em toda a Espanha, foi durante esse período que teria fundado a Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria. A designação da congregação está toda relacionada com a devoção ao Imaculado Coração de Maria, da qual tenho tratado aqui em outras oportunidades e que não preciso me estender a respeito desta matéria. 

              É nomeado Arcebispo de Cuba, onde começa uma verdadeira conversão da ilha que era nascente. Os inimigos da Igreja Católica começaram a lhe desencadear uma intensa ação contrária, pois provocava a emenda dos costumes e conversões. Sofre uma série de atentados e oposições tão fortes que a rainha da Espanha teve que afastá-lo da ilha por causa exatamente disso.

Estando ainda em Cuba, profetizou o terremoto e a peste que lá aconteceriam, como de fato sucedeu.

Foi transferido, pelo Papa, de Arcebispo de Santiago de Cuba, para Patriarca da Índia e Capelão da Corte Real de Madri, mas cujo título não tinha qualquer relação com as Índias, tratando-se de algo meramente convencional.

            Acaba sendo o confessor da rainha Isabel II, que pertencia ao ramo liberal da casa real espanhola, estando em luta contra os carlistas (fiéis ao pretendente ao trono Carlos María Isidro de Borbón "en nombre de Cristo Rey").

Como sempre acontece com esses ramos liberais, a razão de ser deles é de fazer o jogo da Revolução. E quando não o realizam, a Revolução os joga logo por terra. E a rainha se prestava ao jogo da Revolução. Mas em contato com Santo Antônio Claret, ela foi aos poucos se modificando, tornando-se antiliberal. De tal maneira seguiu uma política contrária aos intuitos da Revolução que acabou sendo exilada para a França, bem como seu santo confessor. Foi Santo Antônio Claret que provocou, pelo seu zelo, esse “terremoto” na Espanha.

Foi uma grande vitória para a boa causa que Isabel II fosse, por essa forma, deposta. Porque a Revolução não queria fazer sua república na Espanha naquela conjuntura, porque ainda era cedo. A Revolução queria por uma monarquia constitucional, mas foi obrigada a antecipar sua república. E isto lhe acarretou muitas cristalizações na opinião pública. E, pouco tempo depois, a monarquia teve que ser restaurada. Essa república revolucionária teria triunfado na Espanha de modo definitivo se não fosse a atuação de Santo Antônio Claret.

            E se dá o Concílio Vaticano I. Ele estava com a saúde alquebrada, doente, aureolado pelas mais altas graças que uma pessoa possa ter. Por exemplo, a partir de 1861, o Santíssimo Sacramento não Se deteriorava dentro dele de uma comunhão a outra, sendo um sacrário vivo, como Nossa Senhora teve Jesus vivendo n’Ela durante o período da encarnação e da gestação.

Assiste indignado, no Concílio Vaticano, algumas tiradas de alguns bispos contra a infalibilidade papal. E ele, que não era teólogo, levanta-se e faz um famoso discurso defendendo a infalibilidade.

Dois anos mais tarde (em 1870), faleceu no exílio, no mosteiro cisterciense de  Fontfroide, na França, pois tivera de fugir de seus perseguidores que queriam prendê-lo e levá-lo à Espanha para julgá-lo e condená-lo.

Ele é nosso patrono, enquanto patrono dos “sabugos”. É nosso patrono, enquanto patrono dos que são fiéis e que correspondem à graça. É nosso patrono, enquanto promovendo a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a Nossa Senhora intensamente durante toda a sua vida. É um modelo e patrono, enquanto lutador contra Revolução na Espanha. É um modelo e patrono para nós, enquanto exemplo de que, nas camadas populares – ao contrário do que pretende a Revolução – uma pregação verdadeira, boa, ultramontana, cabe perfeitamente. E ele é nosso patrono, enquanto devoto da Santa Sé Apostólica.

Todas estas razões nos levam, amanhã, a confiar, de um modo particular no patrocínio dele e lhe pedir graças muito especiais.

(Conferência "Santo do Dia", 23 de outubro de 1964)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

UMA VÍTIMA EXPIATÓRIA EXORCÍSTICA ESPECIAL


SERVA DE DEUS MARIA DE LOS DOLORES Y PATROCÍNIO E A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO TRIUNFO


Quando analisamos a vida da Beata Ana Catarina de Emmerich, notamos que foi uma vítima expiatória que exorcizou as forças secretas e maçônicas de seu tempo, até mesmo descobrindo e revelando suas tramas diabólicas. 

Vivemos no século XIX uma época em que o corpo místico do demônio possuía enorme poder e desferia golpes incríveis contra a Igreja. Por causa disso, Deus suscitou algumas almas com vocações especiais de se tornarem vítimas expiatórias cujo resultado final era frustrar os planos do demônio. Uma delas foi o Papa Pio IX, eleito como uma esperança de maçons e socialistas, mas cujo pontificado foi o oposto, sendo vítima de perseguições cruéis das forças secretas, mas deferindo rudes golpes contra o corpo místico do demônio. 

Destaca-se dentre tais vocações, semelhante a de Catarina de Emmerich (1774-1824), a de Soror Maria de los Dolores y Patrocínio, a qual viveu na mesma época (1811-1891), um pouco depois, enfrentando por mais tempo os problemas da Igreja de que falamos. Do mesmo modo que Catarina de Emmerich, Maria de los Dolores recebeu os estigmas das chagas da Paixão de Cristo e sofreu durante toda a sua vida terrível perseguição, além do próprio demônio, também de seu corpo místico representado pelas seitas secretas maçônicas daquele tempo. 

Trata-se de uma alma privilegiada, e scolhida por Deus para ser vítima expiatória numa época de grandes crises morais e de fé. O principal motivo de sua vocação, o que mais ela sofreu, foi uma intensa e contínua perseguição pessoal do próprio demônio. 

Isso já se nota desde o seu nascimento. Seus pais fugiam da guerra (em 1811) na ocasião em que sua mãe estava grávida prestes a nascer a criança. Na aflição da fuga, a mulher terminou entrando num lugar ermo, onde nasceu a criança, estando a mãe sozinha sem ninguém que a socorresse. Após o parto, porém, a mãe deixa a recém-nascida abandonada naquele ermo e continua sua fuga. A Providência, porém, já protegia aquela criança de uma forma singular: seu pai, passando por perto, ouviu como que sua voz pedindo ajuda, foi ao local e pegou o bebê, salvando-a da morte certa. Logo ele descobriu que a mãe fez aquilo por maldade, pois nunca amou a filha e até, algum tempo depois, tentou matá-la envenenada, e também auxiliando o trabalho de perseguição à filha quando a tiraram do Convento à força para exílios ou mesmo, simplesmente, para afastá-la de sua vocação. 

Sendo criada por uma mãe tão má, era preciso que a Providência determinasse outras pessoas de grande virtude para educa-la. Nisso se destacou muito seu próprio pai, algumas parentas e a madrinha, os quais fizeram tudo para lhe dá uma esmerada educação religiosa, pois eram de família nobre. 

Recebeu sua primeira comunhão quando tinha apenas 6 anos de idade, o que não era comum naqueles tempos. Já no início da adolescência, perto dos 15 anos, a mãe procurou induzi-la a um casamento, mas foi recusado pela mesma. 

Nesse caso houve auxílio de seus parentes interferindo junto à mãe, do que resultou a ideia de interna-la num convento para estudar, o Convento das Comendadoras de Santiago, em Madrid. Três anos depois, em 1829, a 19 de janeiro, vestia o hábito da Ordem Concepcionista (fundada por Santa Beatriz) no convento do Cavaleiro da Graça. Os votos solenes foram feitos no ano seguinte, no dia 20 de janeiro. Segundo seus biógrafos adotou o nome religioso de Maria de los Dolores de San Rafael, acrescentando depois o nome de Patrocínio após uma aparição de Nossa Senhora. Lembremos que o Arcanjo São Rafael, conforme referido no livro de Tobias, exerceu especial vocação exorcística, expulsando no final o demônio que atribulava a futura esposa de Tobias filho. 

No mesmo ano em que fez os votos, ainda noviça, em 30 de julho de 1829, recebe pela primeira vez os estigmas das chagas de Cristo, desta vez, as de Seu Costado. No ano seguinte, no dia 20 de maio, recebe as chagas de pés e mãos. Pelo fato de sua família ser de origem nobre e ter relações na corte, as notícias sobre seus estigmas chegaram aos olhos das forças secretas como uma guinada mística muito forte no país, principalmente porque tramavam eles derrubar a realeza e implantar uma república e sempre fazem isso combatendo também a Religião Católica naquilo que ela tem de mais sagrado. Cinco anos depois se iniciam as perseguições das forças secretas contra a santa. Sua fama de santidade incomodava os revolucionários maçons e o demônio os inspirava tal perseguição por ódio ao papel que ela desempenhava junto à Providência Divina, reparando os pecados e combatendo o corpo místico do demônio. 

A Espanha atravessava convulsões políticas. Em 1833 falece o rei Fernando VII e deixa a jovem esposa como regente, a qual passa a coroa para sua filha Isabel II, com apenas 3 anos de idade. Logo eclodem guerras pelo trono, movidas especialmente pelo irmão do rei falecido, D. Carlos. Aproveitou-se a maçonaria do ambiente de instabilidade para iniciar a perseguição religiosa. 

Nesse período (1835-1836), o “Ministro de Gracia e Justicia” deu ordem ao Juiz, Sr. Cortázar, para que processasse Soror Patrocínio sobre “uma impostura artificiosa e fanática e uma tentativa de sublevar o Estado e favorecer à causa do príncipe rebelde”. (1) Um dos principais dirigentes dessa perseguição pelo menos em sua primeira investida, era Salustiano Olózaga, chefe do Partido Progressista, deputado e tutor da rainha, braço direito de um ministro da corte, chefe da Milícia Nacional e do Conselho Nacional da Maçonaria. 

Usaram para isso de muito aparato de autoridades civis e eclesiásticas, médicos e outros, sobre o fenômeno das chagas e algumas visões, que se haviam difundido de forma que podiam ser prejudiciais aos interesses da coroa reinante (2). As forças secretas tiveram, então, o apoio de sua própria mãe e uma irmã, que tentavam fazer com que Soror Maria de Los Dolores renunciasse à vida religiosa. Tiraram-na do Convento sob ordem judicial e civil e em seguida  levaram-na para uma casa particular, e mais tarde para outro local, a “Casa das Arrependidas de Santa Madalena”, em Madrid, espécie de albergue onde se recolhiam moças destinadas à correção da vida por causa do pecado contra a virgindade. Aí permaneceu até 26 de abril de 1837, quando foi transferida para o convento das Concepcionistas Calçadas. 

Perseguição do corpo místico do demônio 

No início das perseguições diabólicas contra a freira era o próprio demônio que as fazia. Certo dia, porém, o mesmo foi exorcizado por Nossa Senhora, mas, prometeu que continuaria a perseguição através dos homens, isto é, de seu corpo místico. Assim o relata uma biógrafa da Madre Patrocínio: 

“No dia 13 de agosto de 1831 (Foi tradicional em nossa Comunidade esta data da aparição, e a confirmou antes de morrer a mesma Serva de Deus) estando minha Reverenda Madre Soror Maria de Los Dolores y Patrocínio no coro, na oração da Comunidade, entre cinco a seis da tarde, se lhe apareceu a Santíssima Virgem, numa formosíssima e resplandecente nuvem, cercada de Querubins e a apresentou uma preciosa imagem sua, que levava o glorioso Príncipe São Miguel com o título de Olvido, Triunfo e Misericórdias. A Virgem Santíssima lhe disse que aquela imagem vinha enriquecida com muitas graças e privilégios para seus verdadeiros devotos, que cuidasse de lhe dar culto, que a deixava na Comunidade. Disse também que, desde então, tirava a permissão a Satanás para atormentá-la por si mesmo. 

E pusera a figura do dragão amarrado aos pés da Sagrada Imagem, que Ela mesma a atara com uma cadeia e pusera esta nas mãos da Santa Imagem em sinal de que ficava sujeito. O demônio, furioso, desceu aos abismos, assegurando a minha venerada Madre que já não podia persegui-la por si – como o havia feito até então de uma maneira terrível -, o faria através dos homens, e não somente em vida senão depois de morta a perseguiria também. 

Durante esta admirável visão, o Príncipe São Miguel colocou a Sagrada Imagem no altar do coro, ouvindo a celestial música dos anjos a exemplaríssima religiosa Soror Maria Juana da Santíssima Trindade e outras duas outras religiosa; porém, ignorando o que sucedia, para elas invisível, guardaram por então o mais profundo silêncio” (3)

Evidentemente que, tudo isso, levando-se em conta também a atuação da Divina Providência, mas que esta a depender, por decisão divina, da atuação do Corpo Místico de Cristo aqui na terra. 

Um exemplo do modo como era atormentada diretamente pelo demônio, está nesse trecho de uma biografia deixada pela Madre Pilar: “Escrever tudo o que ocorreu durante esta permissão que teve o demônio para atormentá-la é quase impossível; porém, embora somente ela mesma poderia declará-lo, pelo pouco que diga pode-se conhecer quanto seria o que sofresse interiormente; pois permitiu Deus que viéssemos e tocássemos por dizê-lo assim coisas tão raras e pouco frequentes. Os golpes e ruídos que o demônio fazia no Convento eram grandes, e no coro, entrando ela, maiores; parecia que, se iniciando o Ofício Divino, tocavam o alarme; e, em sua cela e nas vizinhas davam uns golpes tão fortes nos caixões que causavam perturbação e por todas as partes havia ruídos; se ouvia como falar; porém tão raramente, tantas sombras, enfim, tais coisas que a Comunidade chegou a acovardar-se; porém o mais doloroso eram os golpes que dava este cruel inimigo de dia e de noite nesta criatura; não a deixava sossegar em nenhum momento. 

A víamos tão formosa e com aquela graça natural que tem, e logo se notava como uma mudança triste; íamos vê-la e já estava cheia de cardeais. Outras vezes, se ouviam claramente as bofetadas; e embora não víssemos quem as dava, víamos no seu rosto o sinal. Debaixo de seus pés sempre estavam dando golpes; e quando se deitava soavam debaixo de seu corpo. A todas as horas, se  lhe punha diante; e ela só poderá dizer como e em que figuras e sempre atormentando-a” (4)

Piores perseguições viriam depois através do maldito corpo místico do demônio, assumido pelas seitas secretas. O pai dela era da nobreza e tinha relações próximas com os reis ou rainhas daquele tempo. Isso aproximou a corte real da Madre do Patrocínio e, como a vinham ver no convento, deduziam que ela influenciava decisões reais. Com base nesse pressuposto eram movidas as perseguições que duraram todo o resto de sua vida. Havia também tremenda trama para derrubar a monarquia e implantar a república, (como ocorreu na França em 1789), fato consumado na Espanha daqueles tempos, mas com pouca duração. As forças secretas imaginavam, inspiradas pelo próprio demônio, que Madre Patrocínio dava orientação aos reis e atrapalhava os ideais republicanos. É provável que, por inspiração divina, ela tenha dado salutares  conselhos, mas não há como sabe-lo, a não ser em matéria explicitamente religiosa. 

Um dado registrado por seus biógrafos sobre sua influência na corte: 

“A respeito da relação da Irmã Patrocínio com Isabel II, a Infanta Eulália, filha da rainha, relata: “Muitas vezes ouvi minha mãe falar de como o Padre  Claret (5) , seu confessor e figura de grande influência próxima a ela, e a freira Irmã Patrocínio (...) sugeriram que ela se aproximasse de Pio IX para solicitar a declaração do novo dogma. Minha mãe, muito religiosa (...) conseguiu que outros soberanos católicos o assinassem com ela e também intercedessem em seu nome junto ao Pontífice”. A Infanta se refere ao dogma da Imaculada Conceição de Maria, definido em 8 de dezembro de 1854. A Irmã Patrocínio, portanto, passou a ter influência teológica por meio de suas altas conexões sociais. 

A respeito da inocência da Madre Maria Dolores em torno do tema político ou de governo, eis a resposta dela a uma pergunta de um inquiridor: 

“...Os Reis, segundo todos os sinais, são piedosos e não deixariam de fazer tudo quanto possam; e assim anime-as Você, que Deus pode mais do que todo o Inferno junto. Veja Você o ano passado, durante meu desterro, quem imaginaria então que tudo aqui havia de resultar em tanto bem; e que aquilo, sabendo os Reis de nenhuma parte que eu tinha nos transtornos do Governo lhes havia de servir de desengano tal que eles mesmos me dizem não terem acreditado no que ocorreu. 

Deus permitiu aqueles sucessos porque assim convinha; digo porque nosso entendimento é muito limitado e não miramos os males de aparentes penas, mas que com uma olhada triste, e Deus quer nisso nosso maior bem”.

As perseguições dirigidas pelas forças secretas contra a Madre duraram até o fim de sua vida, não havendo, aparentemente, nenhum motivo político pois ela não interferiu nunca nesses assuntos. Desde a violenta expulsão de seu próprio convento até exílios ela sofreu.

Houve, também, duas tentativas de assassinato. Uma delas ocorreu logo depois do rei dá licença à freira transferir-se com suas discípulas para um convento apropriado, em 29 de outubro de 1845. 

O bandido pediu para falar com ela no locutório do convento, e quando ela ali surgiu juntamente com a Madre Superiora o sujeito atirou para matá-la, não logrando êxito porque Deus não o permitiu. Alguns anos depois, em outro convento, houve outro atentado, também frustrado. 

 A respeito de tais perseguições, assim comenta uma sua biógrafa: “Pouco durou sua ditosa felicidade e paz das religiosas; pois não satisfeitos seus inimigos com as perseguições levadas a efeito contra minha amada Madre na época passada de seus desterros, em seus desejos de vingança, ao vê-la alegre e com pleno gozo de seu amado retiro, se valeram de uma mudança de Ministério para atribuí-lo à sua vítima; a qual ocupada somente em suas ocupações de religiosa e no cumprimento mais exato de sua santíssima Regra e Constituições, nem entendia de tais assuntos, nem atendia a eles, nem sabia que tal mudança havia ocorrido”.Novamente a desterravam de seu convento, sendo que, algum tempo depois, do próprio país, pois foi forçada a refugiar-se na França. 

Visões sobre a “bagarre” e “grand retour” 

A Serva de Deus teve várias visões místicas, destacando-se duas, entre elas, por nos remeter aos dias atuais. A primeira foi a aparição ocorrida em 13 de agosto de 1831 de Nossa Senhora sob a invocação de “Nuestra Señora del Olvido, Triunfo e Misericórdias”, quando a própria Virgem Santíssima lhe deu uma imagem dessa invocação, pedindo que seja venerada e a seguinte mensagem: “Ela será consoladora do mundo e todo afligido encontrará em mim pela mediação desta imagem o consolo. A alma que rendida a seus pés me pedisse alguma coisa jamais se lhe negará meu amor. Será o consolo do mundo e a alegria da Igreja Católica e, por seu intermédio, meu Filho e eu receberemos culto. Tu, filha minha, alcançarás vitória do poder de Satanás e tua comunidade perfeição em servir-Me”.

A Virgem Santíssima estava acompanhada de São Miguel Arcanjo, Serafins e Querubins, mostrando todo seu poder celeste. 

A segunda visão, a que nos referimos, foi a seguinte, ocorrida no dia de Santo Agostinho do ano de 1835: 

“No dia de Santo Agostinho do ano de 1835, no momento em que a Comunidade ia se recolher deixando a reverenda Madre em sua cama no chão, teve um êxtase admirável, uma visão muito misteriosa no conceito da Reverenda Madre Pilar que a presenciou, por algumas palavras muito soltas que ouviram e pelo que a mesma Madre, obrigando-a a falar, pôde revelá-la. Parecia que via uma grande batalha; a Rainha dos Anjos sentada com seu Divino Filho na figura de um Menino dormindo; a quatro doutores da Igreja e a muitos personagens, dois detrás de um leão que aparecia sentado com uma cruz na frente. A luta era contra outro leão, que depois se converteu em serpente. O leão assinalado com uma cruz estava como quem não pode se mover, e, a princípio, só movia a juba e alguma pata, mas sempre permanecia imóvel apesar dos esforços de seu contrário. Quando alentava o leão da cruz para o Menino Deus que tinha a Virgem em seus braços, despertava este e então cobrava o leão novos brios e pelejava com mais força. Por fim, tomou a Senhora a seu Doce Menino dormido e o pôs sobre o leão da cruz, e então foi feita a vitória; e os dois personagens que estavam detrás do leão, um deles com uma cruz, se uniram e tudo foi alegria e louvor a Deus”.

A visão dos dois leões nos levam a considerar o confronto entre os dois corpos místicos, o do demônio e o de Cristo, sendo que o primeiro logo se vê que era a própria serpente e não um leão, enquanto o segundo, o de Cristo, traz consigo a Cruz e é animado pelo Menino Jesus, que exorcizou todos os demônios que dominavam os ídolos quando a Sagrada Família passava por aqueles templos indo para o Egito. Tudo nos leva a crer que os acontecimentos que envolvem os últimos tempos sejam decorrentes desta luta entre estes dois corpos místicos. 

Últimos anos de sua vida 

Com o restabelecimento da monarquia em 1874, Afonso XII ascendeu ao trono e ela retornou à sua atividade religiosa sem perseguição governamental. 

Fundou dezenove conventos e faleceu no Convento do Carmo de Guadalajara, “sem a menor agonia”, em 27 de janeiro 1891 perto de completar os oitenta anos de idade e com 62 de vida religiosa.. Seu processo de beatificação teve início em 1907.


NOTAS:

(1) - Diziam que ela estava favorecendo D. Carlos, o rebelde irmão do rei falecido, pelo simples fato de, dentro de um convento, ter visões de Nossa Senhora e aparecer com os estigmas da paixão de Cristo. 

(2) Fizeram algo parecido com Catarina de Emmerich na Alemanha: autoridades maçônicas enviaram uma “comissão” de médicos e naturalistas com a intenção de desmascarar “o embuste”, levaram a vidente para fora do convento, em outra casa, e a mesma foi  rigorosamente observada, de 7 a 29 de agosto de 1819, sem que tais “autoridades” tenham descoberto nenhum logro, mas comprovando a realidade mística dos fatos, mesmo não a reconhecendo oficialmente. 

(3) - Fica demonstrado, no relato acima, que a vítima expiatória agora passaria a sofrer pelo exorcismo do prolongamento do demônio, ou seja, seu corpo místico, que atuava na época através principalmente das forças secretas como a maçonaria. É provável que até hoje perdure tal perseguição, pois ele disse “até depois de morta”. Daí a pouca divulgação de sua vida, e a insistência até hoje das calúnias contra ela que, provavelmente, prejudicam os trabalhos que conduzem à sua beatificação.

(4) - Os dados relatados aqui foram extraídos da obra “Vida Admirable de la Sierva de Dios Madre Patrocinio – Concepcionista Franciscana” – Escrita por Sor Maria Isabel de Jesus (da mesma Ordem e secretária por muitos anos da Serva de Deus) – Editora “Concepcionistas Franciscanas” – imprime: Ediciones Potón S. A – Guadalajara, Espanha – 1991 – página 49 e seguintes).

(5) - Santo Antonio de Maria Claret era confessor da rainha. 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

MORTE DE SANTO ODILON


(Comentários de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a morte de Santo Odilon, monge beneditino na abadia de Cluny. Foi o quarto abade de Cluny. A Igreja lhe deve o mérito da instituição da Festa de Todos os Santos. Ele viveu de 962 a 1049. Sua festa ocorre a 11 de maio).:

É para nós uma alegria ver que o grande Santo Odilon, que está na raiz de todos os esplendores da Idade Média, pertencia a essa gloriosa família de almas, da qual nós desejamos ser continuadores, embora apagados. 

“Na hora das Vésperas, os irmãos levaram seu leito diante do altar de Nossa Senhora...” 

Isso é quando ele estava doente para morrer. 

“Ele encontrou ainda um resto de forças para entoar os Salmos. A emoção e a tristeza acabrunhavam os monges beneditinos. Eles erram na salmódia, mas imediatamente o Abade retifica o erro e prossegue o canto. 

“Fica um momento a sós, em oração, após o Ofício. Depois, é reconduzido novamente à enfermaria. Ele se preocupa do que fazem os irmãos porque era sábado: receava que a hora em que eles costumavam lavar os pés fosse deixada para uma hora muito avançada, pois a noite já caía”. 

A Regra marcava um hora para cada ato do dia.  

Síntese de sua vida 

”Ele descansou um instante. Quando voltou a si, estava sem forças. 

Ajudaram-no a se pôr sentado sobre sua cama, mas subitamente a sua cabeça se inclinou. 

“Imediatamente todos se aproximaram dele, e deitaram-no no chão sobre o cilício e a cinza, acendendo velas.” 

(Prof. Furquim: esse era o modo de morrer de todos os cluniacenses) 

De todos os cluniancenses, é? Vejam que beleza! 

“Com o tumulto que os monges fizeram ao se dar conta de que o Abade morria, este vendo que eles davam livre curso ao seu pesar, acordou e ainda fez sinal de silêncio, e perguntou onde estava. 

‘Senhor, vós repousais sobre a cinza e o cilício’ disseram-lhe. Ao que ele respondeu: ‘Graças a Deus!’ 

“Em seguida, perguntou se todos estavam ali. Todos o assistem. 

Pronunciou palavras ininteligíveis; alternativamente calava-se e falava. Deitou um olhar terrível rumo ao Oriente...” 

Onde estavam os inimigos da Fé Católica, os sarracenos. 

“Fixou seus olhos sobre a cruz. Sua face parecia sorrir. E enquanto seus lábios proferiam em voz baixa as palavras de uma última oração, sem nenhum abalo de seu corpo, sem manifestar a menor perturbação na harmonia de seu ser, com seus olhos fechados, adormeceu na paz. Era a primeira Vigília do primeiro Domingo de janeiro.” 

Os Srs. vêem que não podia uma morte ser mais impressionante e mais bonita! Aí é que a gente compreende que morrer é nascer. Porque isso não é propriamente morrer; isso é nascer para uma outra vida! 

Noção do dever que o acompanhou até o fim de seus dias 

O que é muito bonito e impressiona especialmente aí é como a noção do dever que esse santo tinha, e que o acompanhou em todos os atos de sua vida e até na hora da morte! 

Os Srs. o considerem sendo conduzido já muito doente, junto a um altar de Nossa Senhora. Junto a esse altar ele ainda participa da salmódia, mas com tanto senso do que dever que os monges, perturbados ao ver que o Abade  estava morrendo, erram. Entretanto o Abade tem de tal maneira o senso da Regra, o senso da ordem, que não se perturba e os corrige. 

Quer dizer, ele que era o moribundo, estava mais “compos sui”, mais senhor de si do que todos os outros. E caminhava de encontro à morte com um passo que tinha uma nobre e natural firmeza. Ele estava como todos os dias, embora estivesse morrendo, embora os seus filhos já não aguentassem mais. 

Mais ainda: ele presenciava naturalmente um vaivém muito grande e achava natural que seus discípulos quisessem estar consigo à última hora... porém a preocupação da Regra não o abandonava. E então perguntou: vós não estais adiando a hora em que devem lavar os pés? 

Na Idade Média, as estradas eram muito poeirentas e ascircunstâncias pediam cuidados assíduos nesse sentido. E havia no Ordo quotidiano do mosteiro uma ocasião para isso. Era sábado e devia ser feito isso. Então, perguntou se eles não iam atrasar com essa obrigação, porque os atos da Regra não podiam ser atrasados. 

Depois quando ele percebe que o processo de agonia estava indo mais adiante, pergunta se todos estavam presentes para assistir a morte. Porque é, com certeza, uma disposição da Regra. Todo o mosteiro deve estar presente para assistir a morte do Abade.

(Plínio Corrêa de Olivieira - Santo do Dia, 13 de outubro de 1972 - Comentários sobre a obra do Pe. Jardet, "Saint Odilon, abbé de Cluny – Sa vie, son temps, ses oeuvres", Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898).

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MARIA ANTONIETA, VITIMA DA REVOLUÇÃO

 



Os reis não são julgados, neste mundo, nem pelos seus súditos, nem pelos seus tribunais, nem tampouco pelos historiadores, mas pela História. Por tudo o que fazem ou são, os reis têm seu lugar no julgamento da História e nunca ficam sem uma sentença correta oriunda da própria ordem dos fatos de suas vidas. As palavras ditas a respeito de Maria Antonieta por um grande pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira podem ser aplicadas muito bem a respeito de outra rainha, Maria Stuart:

"Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína" 

Quando enfrentou o calvário do fim de sua vida, Maria Antonieta demonstrou coerência com sua alta nobreza e dignidade, já antevisto a partir de 20 de julho de 1792. Naquele dia houve o famoso assalto às Tulherias, onde o rei, a rainha e o delfim, ameaçados, insultados, seus aposentos revolvidos, saqueados, sofreram terrível drama, quando às vezes uma faca ou um pique ameaçou o peito da rainha ou mesmo um feroz punho fechado prestes a esbofeteá-la. Enquanto assassinos rondam o palácio, a resistência cifra-se a poucos amigos dispostos a fazerem de seus corpos uma muralha para proteger a família real. Não houve medo, covardia, nem tampouco sinais de fraqueza e desespero. 

Após cenas tão dramáticas seguiram-se, dias depois, a derrubada do trono, a chacina da guarda suíça que lhes dava proteção, tempestuosas reuniões na Assembléia Legislativa para decidir seus destinos e finalmente o encarceramento no Templo. A 20 de janeiro de 1793, a rainha perde o seu rei e esposo; a 3 de julho do mesmo ano arrancam-lhe o filho de seus braços para entregá-lo ao sapateiro remendão Simon. Aos poucos os familiares que com ela dividiam a prisão foram sendo executados. 

A todo este martírio, Maria Antonieta sofria porém com resignação, grandeza de alma e elevação de espírito, que foram demonstrados em todos os lances que se seguiram até sua morte. No simulacro de julgamento a que foi submetida demonstrou tal equilíbrio emocional e intrepidez que motivou a suspensão abrupta do júri faccioso, pois arrancava aplausos da platéia, e que platéia! Finalmente, ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. 

Preparou-se convenientemente para o sacrifício. Recusou um padre "convencional", como eram chamados os clérigos que haviam jurado a república e abjurado da Fé católica, pois fora assistida anteriormente por um sacerdote fiel. Foi a execução mais esperada em Paris. 

Abaixo, os principais relatos sobre o martírio de Maria Antonieta: 

Primeira prisão - em seu próprio palácio 

A 20 de junho de 1792, começou o assalto contra as Tulherias. É conhecida esta cena, reprodução agravada das jornadas de outubro do ano anterior. O rei, a rainha, o delfim, com o barrete vermelho que lhes haviam posto à força, ameaçados, insultados, escarnecidos durante um dia inteiro por uma plebe assanhada, ébria de fúria, seus aposentos revolvidos, saqueados, a corja humana só se retirando depois da intervenção de Pètion, o prefeito da Comuna. 

Dez vezes, cem vezes, no decurso dessas horas trágicas, uma faca ou um pique ameaçara o peito da rainha impassível, cercada de seus filhos. Um punho chegara a adiantar-se raivosamente em sua direção no gesto de bater, mas o seu admirável sangue-frio impusera àquela súcia imunda o respeito pelo menos à sua vida, e mesmo quando ela dissera com indizível melancolia: "Que vos fiz eu? Eu era feliz quando me queríeis bem...", uma comoção, como se fora de piedade, perpassara por aqueles corações, abalando-os durante um instante no seu ódio selvagem. 

Em agosto do mesmo ano escreveu ela a Ferson: "Os assassinos rondam continuamente o palácio. A resistência que se pode opor cifra-se em algumas pessoas resolvidas a fazerem de seus corpos uma muralha para a família real e no regimento de guardas suíços. Há muito tempo que os facciosos já não se dão ao trabalho de ocultar o plano de aniquilar a família real. Se não vier auxílio, só a Providência poderá salvar o rei e sua família"; 

Queda do trono - prisão no Templo 

De 9 para 10 de agosto, nas Tulherias, a família real passou a noite em claro, na expectativa do que estava para acontecer. Cada um, em torno do rei, munira-se de uma arma para se defender: faca, espada, garrucha... 

Por volta das três horas da madrugada, tocou o rebate. Os defensores do rei tinham tomado todas as disposições para resistir à investida pelo maior tempo possível, vendendo caro a vida. Maria Antonieta falava a uns e a outros, a todos fortalecendo com a sua indômita energia. 

Ao aproximar-se a manhã, o procurador geral, síndico Roederer, veio aconselhar a família real a colocar-se debaixo da proteção da Assembléia Legislativa. 

É - disse ele - a única coisa que o povo respeita neste momento. A rainha, a princípio, recusou indignada. 

- Então o senhor sugere que procuremos refúgio entre os nossos mais cruéis perseguidores! Nunca! Nunca! Prefiro que me preguem nestas paredes a consentir em deixá-las! 

- Senhora - insistiu Roederer - devo repetir, a resistência é impossível. Quer que o rei e seus filhos sejam trucidados? Mais um minuto, mais um segundo talvez, e já não responderei pelos dias do rei, de Vossa Majestade e de seus filhos! 

- De meus filhos! - murmurou a rainha abalada - Não! Eu não os entregarei à lâmina dos assassinos! 

E resolveu seguir Roederer. 

O rei caminhava na frente, ereto e com atitude decidida. A rainha, em pranto, vinha em seguida, apoiada no braço do Conde de La Rochefoucauld. O delfim era levado no ombro de um granadeiro. Madame Lamballe e Madame Elisabeth seguiam-nos. 

O aparecimento da família real foi na Assembléia acolhido com uma saraivada de insultos, de ameaças e de vociferações. Talvez os mais furiosos trucidassem o rei como já tinham trucidado, nessa mesma manhã, o jornalista Suleau et Vigier. 

Roederer, porém, parlamentou e acabou obtendo que os deixassem passar. O rei, como indiferente ao perigo, e com uma impassibilidade admirável ou desconcertante, dizia, contemplando pensativo os castanheiros das Tulherias, já amarelados e murchos: 

- Que cedo as folhas estão caindo este ano! 

A Assembléia Legislativa colocou a família real "sob a proteção da lei", e localizou-a na tribuna do logógrafo (chamava-se assim, nessa época, o estenógrafo). Era um compartimento muito exíguo. No seu interior era impossível ficar de pé e o calor sufocava. Foi aí que, durante dezessete horas, os soberanos decaídos tiveram de ficar. 

Entretanto, a Assembléia Legislativa continuava reunida no meio de uma desordem e de uma anarquia inenarráveis, cortadas por trágicos incidentes. 

Foi assim que, cerca das dez horas, um considerável bando de facínoras em mangas de camisa, cobertos de suor e de sangue, irrompem na sala. Vinha trazer à Assembléia a "oferenda de sua pilhagem". 

Perto das sete horas da noite na tribuna onde estava o rei, guardavam-na apenas alguns miseráveis, que estavam bêbados. Perto do rei estava a rainha, cujas lágrimas e cuja transpiração lhe tinham molhado inteiramente o fichu e o lenço. Tinha no regaço o delfim, que dormia, e repousava a cabeça nos joelhos de Mme. De Tourzel. Mme. Elisabeth, a princesa de Lamballe e Madame Royale, filha do rei, estavam no fundo da tribuna. 

Que quadro! 

Fora, as ruas estavam inteiramente iluminadas, cheias de mortos, de agonizantes e de ébrios dormindo na vizinhança daqueles. No pátio da residência real, uma enorme fogueira consumia os móveis do palácio e os cadáveres. Alguns amantes de sangue humano corriam ainda por baixo das grandes árvores das Tulherias, armados de espingardas, em busca de suíços ou de aristocratas. 

As Tulherias era uma prisão demasiado suntuosa, que Luís XVI não devia tornar a ver. Foi para o Convento dos Cistercienses que Suas Majestades foram passar a noite do dia 10 para 11 de agosto, enquanto esperavam que se decidisse a sua sorte. Medonha noite em que, por várias vezes, a grade esteve a ponto de ser arrombada por sediciosos ávidos de carnificina e de sangue, os quais preten-diam acrescentar as cabeças do rei e da rainha às que levavam na ponta dos piques. 

Exceto o delfim, ninguém pôde dormir. Ouviu-se distintamente até as três horas da madrugada o rumor da Assembléia sempre em sessão, os gritos, os aplausos, o alarido das galerias. 

A detenção provisória no Convento durou quatro dias, de 10 a 13 de agosto. A Assembléia hesitava quanto ao lugar onde transferir o rei. Falou-se sucessivamente no Luxemburgo, no arcebispado, ou no palácio do ministério da justiça, à praça Vendôme. A Comuna, porém, interveio, opondo-se. Não se tratava de procurar um palácio para o rei, mas uma prisão. Escolheram o Templo. 

O Templo 

O lugar chamado Templo, para onde Capeto e sua família foram levados e encerrados a 16 de agosto de 1792, é um edifício sem vista, situado em Paris, na rua e perto do boulevard do mesmo nome. No meio de um jardim, eleva-se uma torre muito alta, muito sólida e flanqueada por quatro torreões. As muralhas da torre grande têm sete pés de espessura, o que dá aos vãos das janelas o aspecto de pequenos compartimentos. 

Só se recebia luz de cima, e não era possível ver nada a não ser o que se chama céu. As portas de carvalho maciço, munidas de sólidas fechaduras, de enormes ferrolhos, contribuíam ainda mais para a impressão de cárcere dada pela torre. 

Essa fortaleza de aspecto severo e áspero que Maria Antonieta sempre encarara com horror, numa espécie de pressentimento, interessando-se que a mandassem arrasar, era antiqüíssima e fora edificada por ordem dos Templários. Foi na larga torre central que os prisioneiros foram encerrados, sob a guarda permanente de comissários da Comuna e de soldados da guarda municipal. 

A 3 de setembro, a quadrilha de chacinadores veio para debaixo das janelas da torre reclamar em altos brados Maria Antonieta. Eram os ferozes degoladores que, nesse dia, visitando as prisões, assassinaram tantas mulheres, padres e nobres. 

Acabavam de matar, com selvageria inaudita,a desventurada Princesa de Lamballe. Tinham-lhe literalmente desmembrado e estripado. Levavam na ponta dos piques a sua cabeça e o seu coração, e arrastavam-lhe o cadáver mutilado. 

Tinham o diabólico propósito de obrigar a rainha a aparecer e beijar a cabeça ensangüentada de sua desgraçada amiga, que lhe apresentavam na ponta de um pique. Com grande custo, Danjon, que estava de guarda, conseguiu contê-los parcialmente. A rainha, porém, aproximou-se da janela e, por uma dolorosa intuição, compreendeu. 

Entreviu, adivinhou sua infeliz amiga na cabeça mutilada que balançava diante da janela na ponta de um pique. Não diz uma palavra, não lança um grito, mas, ferida em cheio no coração, fica de pé, muda de horror, os olhos fixos arregalados de espanto e dor. 

Morte de Luís XVI 

A 20 de janeiro (de 1793), Garet, ministro da Justiça, veio notificar Luís XVI de sua condenação à morte. O rei teve permissão de tornar a ver pela última vez a mulher e os filhos. Essa entrevista suprema foi particularmente comovente e deixou nos que a presenciaram uma lembrança indelével. Quando foram levados à presença do rei, a rainha e os filhos se lançaram aos seus pés, sem dizer uma palavra, e não se percebeu a princípio senão os longos soluços de toda a família estreitamente abraçada. 

A noite dessa véspera de cadafalso, a rainha passou na cama toda vestida, tremendo de dor e de frio. Não tornou a ver o marido no dia seguinte, como esperava. Aguardava-o ainda quando compreendeu, pelo clamor da multidão e pelo burburinho da rua chegando até ela, que o "filho de São Luís subira ao céu". 

Pediu em seguida vestidos pretos, que lhe foram concedidos, e ficou muito tempo abismada na sua dor". Conta-se que teria dito, após ouvir o clamor denunciando o guilhotinamento do rei: "Viva o rei!" e abraçou o delfim. 

Separação do delfim 

A 3 de julho de 1793, guardas municipais apresentaram-se para notificar a Maria Antonieta o decreto que acabava de ser assinado pela Junta de Salvação Pública: 

- A Junta resolve que o filho de Capeto será separado de sua mãe! 

- Matem-me antes! - exclamou ela, num arranco de todo o seu ser em revolta. 

E durante mais de uma hora, fazendo de seu corpo muralha, diante da cama em que dormia o delfim, lutou como uma leoa que defende as crias, com a energia do desespero. Mas, por fim, teve de ceder á força, e o pequeno delfim foi arrebatado á sua ternura para ser confiado à custódia aviltante do sapateiro remendão Simon. 

Ela conhecera o calvário de rainha, o calvário da amiga, o calvário da esposa, ela tudo suportara! Mas foi o calvário de mãe, o mais atroz, o mais desumano de todos, o que acabou de a aniquilar.  

Sabemos como o desgraçado delfim, trabalhado pelo infame Hébert, martirizado, embrutecido pelo álcool e pelo vício, ameaçado com a guilhotina se não obedecesse, aterrorizado a tal ponto que algumas vezes o viram desmaiar de medo, sofrendo com as conversas ignóbeis dos carcereiros a pior corrupção moral, acabou renegando os seus e repetindo docilmente diante dos carrascos, transformados em juízes de sua mãe, as revoltantes acusações que tinham cometido a ignomínia de lhe inculcar. 

Esta atrocidade, cuja infâmia se nos afigura inacreditável se os documentos mais fidedignos não a atestassem, dá a medida dos meios empregados pelos revolucionários para abater Maria Antonieta. 

Finalmente, o delfim foi assassinado a 8 de junho de 1794. 

Enquanto definha na prisão, enxurrada de calúnias O jornal do covarde Hébert, o ignóbil "Le Père Duchesne",é que se assinalava entre todos pelo seu encarniçamento e pelas suas célebres "grandes cóleras". Em todos os seus números, invectivava "Madame Veto". Cobria-a de epítetos os mais variados. Era a "loba austríaca", a "onça sedenta de sangue", a "megera sanguinária", a "ninhada de mochos do Templo", a "besta fera", a "viúva Capeto", a "patifa". 

Atribuiu-lhe, no decurso de diálogos imaginários que teria sustentado com ela, as palavras mais insolentes com relação ao povo, as intenções mais criminosas contra a França, os mais revoltantes projetos de chacina contra os patriotas. 

Enquanto isso, Maria Antonieta definhava no Templo... Não é mais que a sombra de si própria. Durante horas inteiras, fica à espreita a fim de entrever o delfim, de longe, por alguns breves segundos, quando sobe para o seu compartimento, escoltada pelo seu carcereiro. Acompanha com angústia e dor, na fisionomia do filho querido, o progresso dos estigmas do vício com que o corrompem. 

E, na rua, os panfletos, as canções, as gravuras, os jornais, os discursos, continuam a atiçar contra ela a opinião desvairada. É a "pantera austríaca" apon-tada á execração da nação até sua mais remota posteridade. É o seu retrato, emoldurado por um lampião, com esta legenda gratuita: "A Médicis do século XVIII, a hedionda Messalina cuja boca fedorenta e infecta esconde uma língua cruel, que se confessa eternamente sedenta de sangue francês". 

A caminho da morte 

A 1 de agosto, Maria Antonieta foi transferida do Templo para a Conciergerie. Era a última escala para o cadafalso. A maior parte dos que lá estavam devam deixar qualquer esperança. Mas isso pouco importava àquele coração crucificado em todas as suas afeições mais caras, e para a qual a esperança não estava mais neste mundo! 

Uma expressão de Maria Antonieta revela com perfeição o seu estado de alma nesse momento. Foi à uma hora da manhã que a vieram despertar para levá-la para a Conciergerie. Docilmente vestira-se e seguia o guarda. Mas, ao sair do Templo, deu uma violenta cabeçada na porta demasiado baixa. Como cambaleava sob a rudeza da pancada, perguntaram-lhe: "Machucou-se?". 

 - Não - respondeu ela com infinita lassidão - Agora nada mais pode machucar-me! 

Na Conciergerie, viu-se na miséria absoluta. No Templo, tinham-lhe recusado um cobertor e um lençol que ela pedia. Aqui não teve nem mesmo roupa interior para mudar. Restavam-lhe ao todo, dois vestidos: um branco e um preto, ambos mofados pela umidade, caindo aos pedaços. Aqui também, no cubículo sombrio e exíguo, conservam-se dois guardas que fumam cachimbo, jogam cartas e têm conversas próprias do corpo da guarda. 

Ela está irreconhecível; os cabelos brancos, descarnada, macilenta, é apenas a sombra de si mesma. A sua magreza causa lástima a todos os que se aproximam dela. A sua desventura inspira ainda dedicação às vezes anônimas, que são, por isso mesmo, mais comoventes. Negociantes do mercado trazem ao porteiro da prisão "pêssegos e um melão para a sua boa rainha". Assim, o povo, de alma inconsciente e móvel, sem dúvida lamenta na desgraça do momento aquela a quem maldizia no tempo de sua felicidade. 

O “julgamento” 

O julgamento de Maria Antonieta já havia sido decidido muito tempo antes: durante o desfile comemorativo da abertura dos Estados Gerais, em 5 de maio de 1789, ao ver a rainha passar garbosamente, vociferou Mirabeau: “Voilà la victime!” (eis a vítima!). Chegada a hora de seu “julgamento” no tribunal revolucionário, ao saber da pretensão desses singulares magistrados de a julgarem, exclamara num belo impulso de desdém e desprezo: 

- Eles podem ser meus carrascos, mas nunca serão meus juízes. 

É preciso ter estado presente - diz Chaveau-Lagarde, seu advogado - para se ter uma idéia justa do belo caráter que a rainha demonstrou possuir. 

Deixara sem resposta, na primeira investida, a pergunta relativa à posição diante do filho. Haviam lhe feito uma cínica pergunta sobre sua suposta participação na corrupção moral do filho. Um jurado, seguramente inspirado por Hébert que estava presente, insistiu e perguntou por que a rainha não respondera. Então, soberba de indignação, ela teve um grito de revolta que fez toda a sala vibrar. 

"Se não respondi - exclamou - é que a natureza se recusa a responder semelhante inculpação feita a uma mãe: apelo para todas as que porventura se encontram aqui!" 

Esta apóstrofe direta, lançada com vibrante voz de emoção, que fustigou em pleno rosto o bando ignóbil de covardes acusadores, causou tal impressão no público (e, todavia, que público eram os freqüentadores das audiências do Tribunal Revolucionário!) que foi preciso suspender por um instante a sessão. Algumas mulheres desmaiaram e foram retiradas; ouviam-se gritos e aplausos; o presidente ameaçou evacuar a sala. 

Entretanto, tendo recobrado o sangue-frio, a rainha inclinava-se para Chaveau-Lagarde e lhe perguntava: 

- Acha que respondi com demasiada altivez? 

E como o advogado, surpreso, lhe assegurasse o contrário, admirando-se de semelhante pensamento: 

 - É que - explicou ela - ouvi uma mulher do povo dizer á vizinha "Repara como é arrogante!"  (7)

Essa observação da rainha - acrescenta Chaveau-Lagarde - prova que ela ainda "esperava" e mostra também a que ponto estava alerta e atenta aos menores incidentes. 

A sentença 

Os jurados tinham se retirado para deliberar. Logo depois voltaram à sala e deram a conhecer a sua resposta. Por unanimidade, a rainha era declarada culpada e condenada á morte. Ela ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. Desceu sozinha os degraus, atravessou a sala e voltou para a Conciergerie. Eram quatro horas e meia da madrugada. A audiência começara na véspera, às oito horas da manhã. 

Só restavam a Maria Antonieta algumas horas de vida. Ela começou elevando a alma ao céu e implorando a misericórdia divina. No seu livrinho de orações (que se encontra na biblioteca de Châlons-sur-Marne), escreveu estas simples linhas: 

“Aos 18 de outubro 

Meu Deus! Tende compaixão de mim! 

Os meus olhos não têm lágrimas para chorar por vós, meus pobres filhos!” 

A morte de Maria Antonieta 

Oito horas. Há que preparar-se para o sacrifício. Vestir a roupa com que vai morrer. O guarda decide assistir aos mais íntimos dos preparativos. Instala-se no próprio leito da rainha, quando ela troca sua camisola. "Em nome da honra, senhor, permiti que troque a roupa de baixo sem testemunha", protesta. O outro retruca cinicamente: "Eu não poderia consentir nisso; minhas ordens dizem que devo manter o olho sobre todos os vossos movimentos". 

Pela manhã bem cedo encontrara tempo para escrever estas palavras para sua cunhada, Madame Elisabeth: 

“Estou calma como se é quando a consciência nada acusa... Morro na religião católica, apostólica e romana, na de meus pais, na qual fui criada e a qual sempre professei... Peço sinceramente perdão a Deus de todas as faltas que posso ter cometido desde que existo. Espero que em sua bondade Ele quererá receber meus últimos desejos, assim como os que faço há muito tempo para que queira receber minha alma em sua misericórdia e sua bondade. Perdôo a todos meus inimigos o mal que me fizeram”. 

Para ir ao cadafalso, a rainha troca seu vestido de viúva por um vestido branco. Depois envolve-se em seu xale de musselina. Retira da touca de cambraia as fitas pretas, a fim de evitar insultos do populacho. Única marca negra: uma tira de pano no pulso. Vestida, pronta então para tudo, espera agora que venham buscá-la. Primeiro, apresenta-se a ela um padre constitucional, cujo ofício recusa. 

"Mas, senhora, replica o abade, que dirão quando souberem que recusaste o socorro da religião?" "Direis às pessoas que vos perguntarem que a Misericórdia de Deus já se encarregou disso". O indigno sacerdote ainda insiste que ela precisa se armar de coragem, confessando-se com ele. Ao que ela responde: “Coragem, ah! Senhor, há diversos anos dedico-me à aprendizagem dela, não será no momento em que meus males vão terminar que me verão sentir falta da mesma”. A misteriosa réplica explica-se pelo fato de, alguns dias antes, um padre não juramentado ter chegado a cruzar as portas da prisão para levar-lhe a Eucaristia. 

Dez horas. O porta-chaves Larivière vem retirar as vasilhas que se encontram sobre a mesa. Encontra a rainha ajoelhada, rezando. Faltavam 15 dias para que completasse 38 anos e já envelhecera bastante. Seguem-no o escrivão Fabricius e três juízes. Novamente lêem a sentença à condenada; é então que entra o carrasco Sanson. "Como vindes cedo, senhor! exclama. Não poderíeis atrasar?" 

"Não, senhora, tenho ordens de vir", e pede-lhe que estenda as mãos. Como protestasse, pois não amarraram as do marido, o executor agarra brutalmente seus punhos e os amarra às costas. Logo em seguida tira-lhe a touca e lhe corta os cabelos, que mete no bolso. Feita a "toalete", abre-se a porta da cela sobre duas alas de guardas. 

A carreta de Sanson está estacionada a alguns passos do portão da Conciergerie, ladeada por um destacamento armado. Nada de carruagem para a rainha. 

É o carretão comum da guilhotina que a conduzirá a seu suplício. São onze horas quando ela aparece, seguida de Sanson, que segura a corda que lhe liga as mãos. Ela não pode deixar de estremecer á visão do horrível veículo onde é convidada a instalar-se, no seu único banco. 

Começa a caminhada rumo ao suplício. Ao sair da Conciergerie, multidão compacta mas silenciosa segue com os olhos a condenada. A grande escadaria do Parlamento, as balaustradas, as janelas, os telhados, foi tudo invadido. Paris inteira levantou-se para assistir ao calvário, á execução. O poder mobilizou suas forças, disposto a fazer frente a qualquer eventualidade. Trinta mil homens armados em alerta. Canhões engatilhados nos cruzamentos, nas praças, nas cabeceiras das pontes. 

O cavalo branco avança passo a passo, abre com dificuldade seu caminho entre a multidão. Maria Antonieta, com quem se jurou "fazer beber longamente a morte", guarda uma postura majestosa, por mais decrépita que esteja em conseqüência das provações sofridas. 

À dignidade da condenada, responde a da multidão, que não manifesta, até a rua Saint-Honoré, nenhuma hostilidade para com ela. Mas, nos degraus da igreja Saint-Roch, a Comuna reunira um batalhão de lambedeiras de guilhotina decididas a romper o silêncio e a enlamear a condenada com os insultos mais grosseiros. Nada conseguiram a não ser fazer pequeno barulho... 

A rainha conserva sempre seu sangue-frio, o cortejo desemboca na praça da Revolução. De um lado, o castelo das Tulherias, símbolo de seu poder desmoronado, do outro a guilhotina, símbolo do poder revolucionário. 

Chegando ao destino, se bem que sofresse muito com os ferimentos causados nos pulsos pelas cordas, desce da carreta sem ajuda. Não abandona a nobre postura, o que lança os jornalistas presentes no mais negro furor. Morrerá da mesma maneira, sem gritos nem protestos. Esta atitude digna, própria de uma autêntica rainha, não poderia deixar de causar furor entre os revolucionários, que desejavam vê-la gritar pedir clemência, chorar, espernear, protestar ou até mesmo blasfemar, como eles mesmos o faziam ao sofrerem semelhante suplício. O historiador francês Jean Chalon comenta: “Sua impostação de cabeça, a majestade de seu porte, a elegância e a graça de sua pessoa, tudo nela respirava a grandeza de sua raça, a doçura e a nobreza de sua alma; ela atraía todos os corações”. 

Assim conclui outro escritor francês, Henri Robert: "Sozinha contra todos, inocente pelo seu sexo, sagrada pelo seu título de mãe, uma mulher, já então inofensiva, é imolada numa terra estrangeira por um povo que nada sabe perdoar à juventude, à beleza, à vertigem da adoração. Chamada por esse povo para ocupar um trono, esse povo não lhe dá sequer um túmulo. 

"E, efetivamente, no cemitério de Madeleine, para o qual foi transportado de mistura com outros cadáveres, o corpo decapitado de Maria Antonieta ficou de 16 de outubro até os primeiros dias de novembro esquecido sobre a relva" 

Mais uma vez vejamos o que diz o grande pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira, citado no início: 

"Terminou esta história? Se há uma história que não terminou foi esta. Porque a memória de Luís XVI, como a de Maria Antonieta, continuam vivas. São símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos... Quer por serem amados como merecem, quer por serem odiados como não merecem. Mas, de algum modo, simbolizam a luta entre o Bem e o Mal, a Revolução e a Contra-Revolução. Eles serão sempre lembrados, com profundo respeito e profunda dor, por todos aqueles que têm uma fagulha de Contra-Revolução na alma. E serão vistos com extremo ódio por todos aqueles que, portadores do espírito de Sata-nás, e odiando todas as desigualdades, odeiam a esse rei (e a essa rainha), cujo grande defeito, entretanto, foi o excesso de mansidão (isto se pode dizer também de Maria Antonieta)".


 (Obras consultadss:

 - Plínio Corrêa de Oliveira - in "Catolicismo", julho de 1989)

- Os Grandes Processos da História - de Henri Robert )


terça-feira, 13 de outubro de 2026

O QUE SERÁ DO BRASIL NO FUTURO?



De repente, a situação política no Brasil atingiu uma grande radicalidade ideológica. Nunca, em época de eleição, houve um tal confronto entre direita e esquerda. Isso porque, a mídia antes dava o tom político enaltecendo esquerda e centro. Era antipático ser de direita. Com o predomínio das redes sociais houve grande incremento da direita em todo o mundo e o centro perdeu sua importância.

O QUE DESEJA A PROVIDÊNCIA DIVINA COM O BRASIL?

O povo brasileiro torce em política como no futebol. Por sermos uma das nações mais reflexivas e dedutivas do mundo, o pensamento nosso é muito intuitivo e rápido. Todo mundo quer opinar sobre o assunto.

Vejamos o que a Divina Providência pode estar preparando para nosso próximo futuro. 

O que virá para nós nestes próximos anos? Imaginemos...

1. Por ser uma nação predestinada, onde provavelmente deve se iniciar o Reino de Maria (ou já se iniciou), deve ser também a mais provada;

2. Durante a bagarre (os castigos universais previstos em Fátima) o Brasil deve sofrer castigos que possam servir de exemplo para o mundo, isto é, fazendo surgir ou crescer aqui uma forte têmpera de um povo preparado para grandes lances históricos;

3. Assim, a temática esquerda-direita não tem tanta importância, a não ser momentaneamente, devendo permanecer na opinião pública uma pujante opinião católica capaz de influenciar o mundo;

4. Deste modo, espera-se que a aparente vitória da esquerda, continuando a assumir o poder no país, possa servir para provar o povo, que pode ficar decepcionado com seus líderes, mas se ficar fiel as suas tradições cristãs superará todo impasse;

5. O que pode ocorrer no momento: uma grande frustração e indignação da população a fará lutar contra as atuais situações de uma forma diferente, enfrentando problemas com garra e combatividade; essa provação será enviada pela Providência divina pelos seguintes motivos:

a) O povo vem cometendo grandes pecados coletivos, como o da sensualidade e do liberalismo, ou mesmo do relativismo, sendo merecedor de tais castigos para que possa  reparar tais pecados;

b) Na contingência de ser tolhida sua liberdade deverá purgar o pecado do liberalismo, e o sofrimento o fará engrandecer mais a alma;  de outro lado, as privações econômicas o fará pecar menos sensualmente, isto é, a miséria como castigo pode levar um povo a reparar pecados de sensualidade;

c) Mas, sendo provado e reparando seus pecados, deverá surgir uma plêiade de católicos que possa levar a população a construir uma nova sociedade, nascida sob os escombros da velha então falida e arruinada. 

d) Num outro panorama em que haja grande progresso social e econômico o povo afundaria mais ainda nos pecados; por isso, a Providência permitiu a vitória da esquerda que vai promover grande decadência econômica e sofrimentos sem conta. Isso pode durar pouco tempo, mas com intensidade suficiente para produzir os efeitos que a divina Providência deseja para nosso povo. De outro lado, outros castigos, como pragas e desastres naturais poderão produzir muitas mortes e despertar nas populações o temor de Deus, aproximando mais ainda as pessoas da Religião e de suas obrigações e necessidades espirituais. 

e) Por fim, o Reino de Maria virá após muita catequese, muito ensino dado às populações sobre a natureza de tais eventos e a necessidade de se arrepender de seus pecados, tanto individuais quanto sociais ou coletivos, reparando-os e mudando de vida. Os bons serão martirizados, como disse Nossa Senhora em Fátima, mas deixarão o legado de uma nova sociedade que servirá de modelo para o mundo. Como se viu, é a conjugação de vários fatores que poderá fazer este povo reconhecer seus pecados, pedir perdão e mudar de vida, e dentre estes fatores o domínio ignominioso da esquerda poderá produzir os frutos desejados pela Providência divina para educar as populações, assim como o povo hebreu viveu 4 séculos como escravos dos egípcios a fim de vencer seu orgulho e se privar de tantos pecados que cometiam, principalmente o da idolatria.

f) Há ainda uma questão: como a Providência pode permitir que membros do corpo místico do demônio obtenham o poder de governar um povo católico? Sim, pode permitir para a própria ruína deste corpo maldito, pois o Corpo Místico de Cristo continuará vivo e alimentado pelo poder e das graças divinas vencerá de qualquer  forma o corpo místico do demônio. Talvez isso até sirva para fazer crescer mais ainda o Corpo Místico de Cristo, pois o confronto atrairá muitas graças de Nossa Senhora para este povo. 

A QUESTÃO DIREITA-ESQUERDA PERANTE A VISÃO RCR

O Senhor Doutor Plínio Corrêa de Oliveira nos ensinou a ver o papel preponderante da Revolução universal nos últimos acontecimentos. Disse ele certa vez que a Revolução estava “morta”. Isso queria dizer que ela estava como uma cobra mortalmente ferida pela cabeça, embora ainda rastejando. E este rastejo pode ser visto nos seus últimos lances. Desesperada porque nunca conseguiu apoio popular às suas idéias, tramaram nova forma de ação. Essa nova modalidade dela pode ser sintetizada num livro escrito pelo americano Gene Sharp sob o título de “como fazer uma revolução pacífica”. Trata-se de um manual orientando como fazer a Revolução sem violência. Se alguém tiver o trabalho de confrontar o que diz aquele manual e como agem os “direitistas” de  hoje vai ver que há inteira consonância entre eles. Quer dizer: a Revolução resolveu queimar as etapas de avanço para tentar aplicar um retrocesso. Eles querem transparecer a idéia de que a Revolução seja “espontânea”, partida de grupos naturais sem qualquer influência de organizações políticas ou sociais. Primeiramente, este método é aplicado contra regimes políticos de esquerda, antipáticos à população e fácil de angariar opositores. Nota-se uma aparente teatralização destes governos de esquerda na América Latina, parecendo que agem de propósito com o fim de incrementar as ações “pacíficas” da direita. Muitos estranham suas atitudes pois só fazem lhes dar mais impopularidade e crescimento da indignação popular. O trabalho do STF no Brasil visa então estimular o crescimento popular da direita, despertando enorme reação popular contra o golpe que deram.  E no final, o que viria se a direita vencesse? Dizem que uma era de prosperidade. Mas, não é bem assim. Nos países onde venceu essa “revolução pacífica”, o que houve depois da queda do governo de esquerda foi o caos. O  caso característico foi a Colômbia (antes do atual governo) teve um governo muito “direitista” que deu anistia às FARCs e contribuiu para eles tomarem o poder. Hoje, a direita voltou ao poder por lá. Essa nova direita só leva em conta velhos chavões revolucionários “como o poder emana do povo” e ‘liberdade de expressão”. No Egito também usaram essa tática de “revolução pacífica”, derrubaram o governo, mas nada de bom surgiu depois, só o caos político e social. Observem que os elementos que falam na internet usam muitos palavrões e dão sinais de serem realmente filhos das trevas. A própria maçonaria já andou tomando ares de direitista e se pronunciando contra a esquerda. Não pode ser boa coisa.  Por causa disso, entende-se a razão de tanto Monsenhor João Clá quanto seus sacerdotes nada falarem sobre o assunto. A missão dos Arautos do Evangelho é evangelizar e nisso vão preparando as populações para construir uma nova civilização. Os acontecimentos políticos passam, mas as instituições e as construções nascidas como fruto destas evangelizações vão ficar para sempre, além da boa formação moral e religiosa do povo.

Os principais líderes políticos da direita são protestantes, inclusive um membro do STF. No entanto, o maior líder direitista que se diz católico (Bolsonaro) foi afastado da política e está inelegível. Parece haver uma trama pra enaltecer essa gente, na falta de um movimento político católico de direita: "católico" mesmo só o pessoal da TL, mas, mesmo assim, ainda sem agremiação ou partido que se diga católico. Talvez obtenham maior crescimento das seitas protestantes, minando mais ainda a já decrescente influência do Catolicismo no país.

No momento, observa-se um impasse criado para a esquerda, pois, qualquer que seja o resultado ela sairá derrotada. Vencendo não terá como aplicar seus programas, haja vista que a maioria no Parlamento é de direita. E nem se fala no assunto caso seja derrotada, com desastrosas consequências para seus líderes e seus programas sociais, todos antipáticos para a população.

Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, nossa Rainha e Padroeira, que guie os passos de nosso povo para  construir um venturoso porvir fazendo surgir aqui os alicerces do Reino de Maria e propagá-lo a todos os povos da terra.