terça-feira, 14 de abril de 2026

São Telmo, companheiro de São Fernando de Castela

 

                 


 

Pedro Gonçalves, em castelhano Pedro González, também conhecido como São TelmoSantelmo ou Corpo Santo  foi um sacerdote católico castelhano. Após ser presbítero canónico em Astorga, ingressou na Ordem dos Dominicanos, onde se distinguiu pela sua retórica e capacidade de pregação. Foi capelão do rei Fernando III de Leão e Castela antes de ser nomeado prior do Convento de São Domingos de Guimarães. É o santo padroeiro dos homens do mar e dos barqueiros, tendo cedo desfrutado de grande devoção popular. O Papa Bento XIV confirmou o seu culto em 1714. É o santo padroeiro ainda da cidade de Tui e da diocese de Tui-Vigo, onde se celebra a sua festa na segunda-feira da segunda semana da Páscoa.

Alguns autores dão como local de seu nascimento ora Palência, ora cidade de Astorga.

De família distinta, estudou na Universidade de Palência e foi ordenado sacerdote; graças à proteção de um tio, bispo de Astorga, foi-lhe atribuído o título de canónico e uma bula especial permitiu que fosse nomeado deão sem que tivesse ainda a idade requerida. Conta-se que, ao chegar a Astorga para ocupar o seu posto, com os seus melhores trajes e num cavalo ricamente ajaezado, o animal tropeçou e o cavaleiro estatelou-se no chão. A humilhação sofrida enfureceu-o, tendo decidido de imediato recolher-se a um convento, afastando-se do mundo.

 

COMO FAZ BEM A HUMILHAÇÃO

 

Bem pouca gente conhece, mesmo de nome, a São Telmo.
Chamava-se, antes, Pedro Gonzalez. Era ainda muito moço quando seu
tio, o bispo de Palência, o nomeou cônego daquela catedral. Era esse
jovem cônego muito vaidoso e gostava demais das honrarias e
dignidades. Sua vida contrastava com a de seus colegas que se
escandalizavam com a sua repreensível conduta mundana. Apesar disso,
consegue de seu tio bispo que ele fosse nomeado deão (presidente,
chefe) do cabido (assembléia dos cônegos da catedral). A posse foi
marcada para o dia de Natal.

Chegado esse dia, Gonzalez vestiu um elegante traje cortesão
(palaciano), e montando um ginete (cavalo de raça) magnificamente
enfeitado, atravessou as ruas da cidade, com grande escândalo para o
povo que veio assistir a cerimônia.

Entretanto, a Divina Providência em seus insondáveis desígnios,
queria servir-se da vaidade de Gonzalez para impor-lhe uma grande
humilhação. Queria por esse meio levá-lo a melhores sentimentos
fazendo-o perceber quão superficiais e passageiras são as honras
mundanas.

Chegando à grande praça de Palência, o vaidoso personagem quis fazer
seu cavalo corcovear (dar saltos) graciosamente a fim de provocar
admiração do público e arrancar-lhe aplausos. Largou o cavalo a toda
rédea, mas no meio da carreira o animal empacou, deu um pinote e
lançou o cavaleiro no meio da lama.

A multidão assistiu a queda com uma estrondosa gargalhada. A vaia
foi tremenda. Envergonhado como nunca, o vaidoso deão coberto de
lama em todo o corpo e até no rosto, não ousava levantar-se do chão
para encarar os que riam dele.

Todavia, essa tamanha confusão lhe foi muito salutar para a alma até
então voltada só para satisfazer seu amor próprio. Qual novo São
Paulo, erguendo os olhos ao céu, exclamou: “Como pode ser isso? Este
mundo a quem eu desejava agradar, agora zomba de mim?! Pois bem, eu
me rirei dele, pois de agora em diante serei outro homem: voltar-lhe-ei as costas, e mudarei totalmente de vida.

Assim procedeu. Abandonou tudo, riquezas, honras e comodidades.
Fez-se dominicano e com o nome de Frei Telmo, viveu santamente
edificando a todos na comunidade e na região onde outrora deu tão
mal exemplo.

Como frade, ocupou o posto de capelão militar, ofício em que o seu dom de oratória chamou a atenção do rei Fernando III, que o convocou para a sua Corte. Como confessor do rei, incentivou-o a renunciar às hostilidades contra a Andaluzia, e acompanhou-o na campanha de conquista de Córdoba e Sevilha; consagrou como igrejas as mesquitas das cidades conquistadas. No regresso da campanha, abandonou a Corte para pregar nas Astúrias e na Galiza. É nesta fase de sua vida que a tradição popular lhe atribuiu a realização de diversos milagres, em particular os relacionados com a vida dos pescadores e marinheiros da Galiza, a quem teria dedicado muito do seu labor de pregador.

Entre estes, afirma-se que, estando a pregar em Baiona, ocorreu uma tempestade que perturbou a prédica. Seguindo o exemplo de Jesus Cristo, conforme os Evangelhos, Pedro González ordenou ao vento e aos outros elementos que cessassem, fazendo-se a bonança.

Foi nomeado prior do Convento de Guimarães, em Portugal, onde contou, entre os seus frades Gonçalo de Amarante.

Já sexagenário, retirou-se para Tui, onde travou amizade com o arcebispo Lucas de Tui; na Páscoa de 1246, veio a falecer durante uma peregrinação a Santiago de Compostela. Está sepultado na Catedral de Tui.

Foi beatificado pelo Papa Inocêncio IV em 1254 e canonizado pelo Papa Benedito XIV em 1741.

 

           São Fernando III

 

São Fernando III, era rei de Castela e Leão, enquanto Frei Telmo era um simples frade, mas muito próximo do rei e seu confessor e grande amigo..

Desde o ano de 1031 que a cidade de Córdoba havia deixado de ser a sede do califado, passando a ser dominada pelos mouros reunidos em torno de suas “taifas”, pequenos reinos cujos potentados viviam lutando uns contra os outros. São Fernando via naquela cidade uma importância vital para conquistar o restante do território ainda em poder dos mouros.

Saiu pelas portas de Ubeda um animoso esquadrão de jovens cavaleiros, armados até os dentes e bem providos de todos os apetrechos de guerra. Souberam através de um mouro amigo que seria muito fácil penetrar na cidade de Córdoba e que havia grandes falhas na guarnição das muralhas. Partiram para lá sem avisar o rei...

Após cansativa viagem chegaram a Córdoba e acamparam nas cercanias sem levantar suspeitas. Com muito tato e esperteza conseguiram entrar na cidade e dominaram com facilidade um bairro inteiro, chamado Ajarquia, que foi logo fortificado. Em seguida reuniram-se os comandantes da missão para decidir o que fazer.

A situação dos invasores não era nada favorável, porque estavam dentro de uma grande cidade inimiga, tomando apenas uma parte desta e sem qualquer esperança de socorro externo. Apesar disto todos tinham em mente que a vitória lhes favoreceria no final, pois eram homens de fé robustíssima e depositavam uma confiança sem limites em seu Senhor Jesus Cristo, de quem esperavam poderosa ajuda lá do Céu. Decidem enviar um emissário ao condestável real, para que venha com os seus homens, e outro até o rei.

Chegando no local onde estava o rei, em poucos instantes o mensageiro foi autorizado a entrar, fez uma genuflexão e beijou a  mão do rei dizendo:

- Senhor, sabei que sois dono de Córdoba!

- Que dizes, Ordoño? Dissestes Córdoba?

- Córdoba, meu senhor! Córdoba, que numa escuríssima noite escalamos as muralhas. Tomai e lei – disse, entregando-lhe a mensagem.

Lendo o documento, pôs-se de pé e mandou o mensageiro aguardar um instante. Vira-se para um dos cortesãos e diz:

- Mandai chamar todos os meus cavaleiros e dizei-lhes que se armem e encilhem seus cavalos.

Chamou outros e a cada uma dava uma ordem, esquecendo-se por completo da refeição que estava ainda sobre a mesa. Os cortesãos saíram apressadamente para cumprir as ordens. Assistindo a tudo estavam São Pedro Telmo, que havia sido convidado por São Fernando para ser seu confessor e lhe fazer companhia nas guerras. Estava com São Telmo um outro religioso, que lhe diz:

- Frei Pedro, “Irruit Domini spiritus in Rege..."[1]

São Pedro Telmo responde:

- Vamos com ele, Dom Lope...

Todo rei católico, na Idade Média, levava sacerdotes consigo em suas batalhas, a fim de celebrarem missas e levar os sacramentos aos soldados e combatentes, especialmente o da Confissão, da Comunhão e Unção dos Enfermos. De modo geral, só iniciavam o dia com uma Missa, ocasião em que comungavam, com o rei dando o exemplo. São Pedro Telmo e dom Lope acompanharam o exército de São Fernando III nessa empreitada guerreira.

O religioso, com espírito profético, percebia que o santo rei estava cheio do espírito de  Deus e que valia a pena pois segui-lo aonde fosse.

Uma hora depois aparecia o rei, fortemente armado e coberto de uma grande capa com capuz, e fica no pátio aguardando a chegada de seus cavaleiros.  Quando grande parte havia chegado, diz o rei:

- Sigam-me os amigos!

- Santiago e Castela! – respondem os cavaleiros.

Apesar da tempestade que caía, São Fernando, impaciente para ir ao combate, não esperou o restante de seus homens e partiu logo em direção de Córdoba.

A cidade não tinha uma boa guarda, pois os cavaleiros cristãos que haviam tomado o bairro de Ajarquia resistiam há um mês, sem que os muçulmanos conseguissem vencer e entrar no recinto. No meio de uma cidade inimiga e populosa, um punhado de cavaleiros resistiam até chegar seu rei e conquistá-la.

Quando São Fernando chegou a um acampamento próximo, grande foi a alegria dos acampados. O rei!  O rei! Ouviam-se gritos de todas as partes. A alegria dos homens era tão grande que se felicitavam uns aos outros, cantando e rindo com grande alvoroço.

Foi naquele acampamento que São Fernando conseguiu realmente descansar de tão fatigante viagem.

No outro dia, saiu o rei para estudar o terreno e planejar as operações militares e decide que, ele mesmo, seria o primeiro a tomar um castelo para ali instalar seu QG. Com uma intrepidez incrível foi ali instalado o Quartel General de São Fernando, tendo diante de si a cidade inimiga e pelas costas o exército do mouro Aben-Ilud.  Porém bem sabia ele que, enquanto na terra estava cercado de inimigos, pela frente e pelas costas, sobre sua cabeça se estendia a mão de Deus para ajudá-lo. E firme em seu posto, orava noite e dia, e era o primeiro a sofrer as privações e os trabalhos de guerra.

Após demorado cerco, um dia os habitantes de Córdoba concordaram em negociar a capitulação nas mesmas condições já tentadas antes, que era sair livres da cidade e com os bens que pudessem levar. Concedeu-as São Fernando, que era muito condescendente com os vencidos.

Ao receber as chaves da cidade das mãos do mouro o rei elevou os olhos ao céu e exclamou em voz alta:

- Louvor para sempre a Ti, Jesus Cristo, meu Senhor, que por tua grande misericórdia e os rogos da gloriosa Santa Maria, valestes deste servo e cavaleiro e por meio dos meus suores ganhastes para tua santa Lei esta cidade de Córdoba!

Na mesma tarde, Dom Juan de Osma e Dom Lope de Fitero entraram na mesquita a fim de purificá-la e consagrá-la como igreja e catedral cristã. São Fernando marcou para a semana seguinte uma entrada triunfal e festiva na cidade. A comitiva real foi recebida pelas autoridades religiosas em procissão, onde se faziam presentes todas as Ordens de cavalaria e os demais homens de seu séquito. Todos entraram na grandiosa mesquita com grande solenidade e pompa.

Algum tempo depois, foram encontrados numa mesquita os sinos que Almanzor havia mandado retirar de Compostela e ser trazidos para ali nos ombros de escravos cristãos. No mesmo instante, São Fernando se lembrou de uma promessa feita à Santa Maria, quando ainda era bem mais jovem, e determinou que aqueles sinos fossem colocados nos ombros de prisioneiros mouros para serem levados de volta a Compostela como sinal de reparação à afronta feita em tempos passados ao cristianismo.

Conquistar uma praça, e tão forte e importante como Córdoba, custava muito sangue e suor. As lágrimas das contrariedades ficaram para depois, quando se fazia necessário consolidar aquela conquista. Ali haviam muitas dificuldades a superar, mas a pior era convencer seus próprios homens a ficar administrando aquela cidade e adjacências. Os mouros, é verdade, abandonaram em grande número a cidade, mas por pouco tempo, pois muitos deles logo resolviam voltar. Um fato inusitado é que muitos se converteram ao cristianismo como fruto apostólico incansável do santo frei Telmo. Assim, duramente, as coisas foram se tornando mais fáceis de serem conduzidas.

Talvez a conquista de Córdoba se tivesse dado muito tempo depois, com muito mais sacrifício e martírio, se aquele punhado de heróis que tomaram no início o bairro de Ajarquia não tivessem tido a santa ousadia de partir sozinhos para a conquista, sem o conhecimento do rei porque tinham pressa.

 (O relato acima sobre São Fernando III, resumido e adaptado, foi extraído do livro “Nuestra Señora en el Arzon”, de C. Fernandez de Castro, A. C. J., publicada em 1948 pela Editora Escelicer, S.L., de Cádiz, Espanha).

 


[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.


 

 



[1] O Espírito do Senhor veio sobre o rei.

 

sábado, 11 de abril de 2026

OS TRÊS CAVALEIROS DE SÃO JOÃO E A VIRGEM MILAGROSA DE NOSSA SENHORA DAS ALEGRIAS

 



(Uma gesta milagrosa da Idade Média)

 

1. Num campo de batalha, com vários cavaleiros caídos, três jovens monges procuram mortos e feridos. Diante dos mortos fazem o sinal da cruz e os encomendam a Deus

           

Por entre os cavaleiros monges da ordem dos Hospitalários de São João de Jerusalém, viviam três magníficos jovens, três irmãos da casa de Eppe, senhorio das proximidades de Laon.

A Ordem dos Hospitalários[1] era a herdeira de um estabelecimento de caridade, fundado em Jerusalém, bem antes das Cruzadas, hotel e hospital para os pobres peregrinos, situados todos próximos do Santo Sepulcro.

Este hospital, vivendo de subvenções dos ricos Sicilianos, foi organizado por Gerardo Tenque, o glorioso menino da cidade dos Martigues, na Provença, e colocado sob a proteção de São João Evangelista.

A tomada de Jerusalém e a fundação de seu reino transforma, naturalmente, as instituições e a ordem dos monges beneditinos de Gerardo Tenque, deixando de ser unicamente hospital, para se tornar também ordem militar. Foulque d’Anjou, quarto rei de Jerusalém, lhes tinha confiado a guarda do forte de Betsabé.

Sua fé, sua coragem, seu ardor os faziam se encontrar sempre nos lugares os mais perigosos da batalha, atendendo aos feridos, defendendo os vivos, vingando os mortos.

Uma noite, após um sangrento combate, em que eles recolhiam os mortos e confessavam os agonizantes, os três irmãos, cavaleiros de Eppe, foram indignamente atacados por uma tropa de piratas turcos, que retornavam aos lugares do massacre para roubar aos que tinham sido assassinados:

-- Peguem-nos, tomem as suas armas e amarrem-nos, vamos levá-los a Ascalão -, ordena o mais mal-encarado, que parecia ser o chefe.

 

2. Perseverança dos cavaleiros cristãos desespera o sultão

 

Os turcos de Ascalão procuravam por todos os meios a aliança do sultão ou sudam do Cairo e um dos chefes teve a idéia de lhe oferecer os cativos em sinal de amizade.

 Os infelizes, após uma viagem ainda mais penosa que a primeira, se crêem no fim de seu calvário, na presença do sultão do Egito, homem mais civilizado que os Turcos Seljúcidas[2]. Este monarca tendo igualmente ouvido falar dos grandes serviços que tinha prestado, em outros tempos, um janízaro[3] cristão na corte de seu pai[4], propõe naturalmente aos três Cruzados de recuperar suas liberdades combatendo por ele.

-- Nosso coração e nossos braços pertencem a Nosso Senhor Jesus Cristo e, vencedores ou vencidos, esperamos jamais faltar a Deus e a nosso país, respondeu o mais velho.

O sultão, que não esperava esta resposta, sentiu a necessidade de refletir sobre este novo aspecto do problema. Tendo feito lançar os três cristãos num calabouço, mandou chamar o seu grão vizir, que passava por muito astucioso.

-- Dai um pouco de ouro a esses cristãos... Ah, ah, ah, ah, e essa obstinaçãozinha, cristã, amolecerá! Sugeriu, ironicamente, o vizir, que o sultão aprova, e, no dia seguinte...

-- Então, meus belos cristãos, grita fortemente, fiz preparar para cada um de vocês uma jarra cheia de ouro e um palácio de mármore. Aqui estão então meus janízaros! Bem melhor!

O mais velho dos três cavaleiros tinha tanta fome e tanta sede que não pôde falar. Mas o de menos idade respondeu com uma voz fraca:

-- Não, não, senhor infiel! Somos os soldados de Cristo que morreu sobre a cruz e, fora d’Ele, não existe salvação para nós. Agradecemos pela jarra e pelo palácio. Nós não queremos nada.

O sultão ficou tão estupefato que mastigou com negligência uma semente de pistácio[5] que ele gostava de mordiscar. Ele devolveu os Hospitalários para sua gaiola, a fim de pensar mais um pouco, e chamou seu vizir. Este chegou de cabeça baixa e o turbante desfeito.

-- Ao cair da tarde, eu te darei como pasto aos meus crocodilos queridos, grita seu senhor. Tu não és mais que um filho de um idiota e esta espécie de francês me tem ridicularizado. Sim, eu sou o mais ridicularizado dos sultãos do Egito! Jamais me recuperarei!

E ele se põe a chorar com amargura.

-- Não choreis mais, meu senhor! Suplica o vizir, lançando-se a seus pés. Não choreis mais, pois acabo de ter uma idéia.

-- É a última chance que te dou, esbraveja o Sultão, mas se tu fracassares, não somente tu engordarás meus crocodilos, mas lançaremos juntos teu velho pai e tuas trezentas e dezessete esposas.

-- Não façais isto, ó luz do Islã! Vossos pequenos animais queridos morrerão de indigestão e eu não ousarei mais entrar no Paraíso. Eis a minha idéia: enviai os Francos para as minas de cobre e vereis que, ao fim de dois anos, vós não tereis mais que lhes pedir sua opinião.

 

3. Surge Ismael, príncipe muçulmano de bom coração.

 

Dois anos mais tarde, os três cavaleiros de São João reaparecem diante de seu tirano. Antes que ele tivesse tempo de abrir a boca, o mais jovem avança e diz, com ar tranquilo:

-- Nós te agradecemos, ó monarca infiel, de nos ter mostrado as consolações imensas que Deus dispensa sobre os que estão com Ele...

Uma hora mais tarde, ouve-se um concerto horrível de gritos e de lamentações, do lado da fossa dos crocodilos. O filho do Sultão, moço forte e valente, que, apesar da pouca idade, já participou de inúmeras guerras em defesa de seu povo e de seu país, sai de seus aposentos.

            -- Que gritos horríveis são estes, meu querido pai. Estou com uma dor de cabeça insuportável. O que se passa e por que tendes o ar furibundo?

            -- Eu tenho o ar furibundo porque eu sou furibundo, replica o sultão, com amargura e roendo nervosamente as unhas. Eu sou o mais ridicularizado dos sultões do Egito e meus crocodilos queridos vão seguramente arrebentar de indigestão.

-- Melhor assim, aplaudiu o jovem príncipe. Eu sempre reprovei vossa paixão por estes horríveis animais. Mas por que sois ridicularizado, ó meu pai?

-- Eu sou ridicularizado porque três miseráveis e insignificantes cruzados zombam de mim, recusam de abraçar nossa fé, a única verdadeira e, sobretudo, recusam de me servir como janízaros contra esses sacripantas Turcos Seljúcidas, os quais estão prestes a nos atacar a qualquer momento.

-- Ah bom, confiai vossos futuros recrutas aos nossos mais célebres doutores. A Universidade do Cairo é a mais célebre e a mais rica do mundo. Entregai-os aos nossos lentes que eles voltarão obedientes como cordeiros.

E sob estas boas palavras, o sultão entrou nos seus aposentos, mastigando nervosamente.

 

4. Ismael conhece os cavaleiros cristãos presos no calabouço

 

Fatigados! Os três cavaleiros de Eppe esgotaram os setecentos e quatro doutores da Universidade de Olivier e o sultão fez vir seu filho bem amado.

-- Eu te chamei, meu filho, para te mandar chicotear, anuncia com dor o sultão. Para te ensinar a não zombar assim de teu velho pai, que está tão ridicularizado, que a segurança do trono está ameaçada.

-- Meu Deus! Como isso é interessante, grita Ismael. Que direis se eu experimentar, a meu modo, já que falo o francês? Não sou o mais sábio e o mais espirituoso dos moços do Islã? Mas... Bem entendido, não quereis mais tentar a experiência!

O sultão teve um gesto de desencorajamento... Sentia que seu Alá não lhe estava ajudando.

Muito alegre, o príncipe desceu aos subterrâneos.

A aparição do belo príncipe Ismael, com seu turbante dourado, ricos trajos, muitos anéis e alfinetes, portando bela adaga e punhais de ouro e prata, com jóias engastadas, o ar altivo, mas com uma bondade quase angelical nos olhos, foi como um raio de sol no esconderijo infame onde enferrujavam os três infelizes. Ordenou, imediatamente, que desamarrassem-nos e, com suas mãos rijas, incrustada de anéis de ouro cravejados de pedras preciosas, habituadas ao cabo do alfanje, lava as feridas que lhes tinham sido infligidas pelas cadeias. Em seguida, dá-lhes de comer, enquanto fala-lhes – durante todo o tempo – das maravilhas de seu país, de seus costumes e de mil e uma coisa sem importância.

-- Como sois bom! Diz o mais velho dos três irmãos.

-- Como é agradável ouvi-lo falar nossa doce língua, diz o caçula.

-- Como gosto de ouvir de um moço sobre tudo o que nos é caro, diz ainda o outro. Reaparecereis logo, jovem príncipe?

-- Amanhã, amanhã!... Durmam bem, senhores!

E pela primeira vez em três anos dormiram tranquilamente.

 

5. Ismael fala sobre as guerras contra os seljúcidas. Ao fim, para falar de religião, lamenta-se de sentir que Alá não tem ajudado muito ao seu povo

 

No dia seguinte reaparece mais alegre como nunca; falando de umas coisas e de outras, ele deslizou, com habilidade, a conversa para os problemas de religião.

-- O que é isto? Pergunta ele, mostrando um rosário de madeira, pendurado aos andrajos do mais velho.

--Um rosário, senhor. Pedro, o Eremita, o inventou quando atravessava as planícies da Hungria com sua cruzada. Calculavam as distâncias pelo número de dezenas, e cada novena lhes dava direito à remissão de um pecado. Isso impedia de se extraviarem e sustentava maravilhosamente as almas.

-- Verdade? Disse o príncipe. Ah! O sol já se apressa a manchar o nosso céu com as cores do sangue de nossos antepassados, eu voltarei amanhã. Gosto de ouvi-los falar de vossos símbolos.

Eles estavam espantados, de suas próprias palavras, pois não pretendiam ser nem clérigos nem pregadores.

 

6. Ismael reaparece com um ar sério e narra o sonho que teve com Nossa Senhora

 

O príncipe reaparece no dia seguinte.

-- Meu pai está radiante de saber que nossas relações tomam boa direção, diz ele inicialmente. Bom dia... De quê falávamos ontem?... Ó! É verdade! Eu esqueci de vos contar a aventura extraordinária que me sobreveio nesta noite. Eu vi, creiam-me, uma mulher de uma beleza incomparável. Na verdade, ela era tão bela e tão boa que me deixou inquieto. Ela tinha o ar o mais amável do mundo, sob um véu azul, e de suas mãos espargiam, sobre o meu colo, uma grande quantidade de rosas. De manhã, encontrei essas flores junto a mim.

E ele estendeu aos três cavaleiros uma rosa cujo perfume era quase miraculoso.

O mais velho então lhe disse:

-- Se desejardes, eu posso esculpir uma imagem de Nossa Senhora, vossa visitante.

O príncipe bateu as mãos e fez trazerem para dentro da cela tudo o que era preciso para um escultor: um pesado toro de madeira preciosa e uma grande lanterna, a fim de enxergarem melhor.

 

7. O príncipe muçulmano promete converter-se, caso seja feita a imagem de seu sonho 

 

Não sendo mais artista que doutor, o generoso cavaleiro concluiu com dificuldade uma escultura disforme. Seus irmãos o ajudaram com zelo, mas o príncipe, desapontado, considerou o trabalho com uma careta desprezante.

-- Eu me converterei a vossa fé, se eu encontrar amanhã de manhã uma imagem tão bela quanto a senhora de meu sonho. Boa noite, senhores cruzados!

            E ele os deixou, levando a lâmpada, por perfídia juvenil.

Os três cavaleiros se lançam de joelhos e rezam longamente, desnorteados e aflitos. Depois adormecem sobre seus catres, sonhando com tristeza no dia seguinte.

 

8. Uma luz forte, direcionada, ilumina uma imagem de Nossa Senhora. O príncipe, ao postar-se de joelhos, depõe suas armas aos pés da Virgem

 

Ora, no dia seguinte, eles foram acordados por um barulho insólito. Circunspectos por tantos anos de sofrimentos, de pé, se olham vivamente. Qual não foi o seu assombro e, em seguida, seu êxtase vendo se dirigir sobre o solo viscoso daquele lugar sombrio uma maravilhosa, uma divina imagem da Mãe de Deus! A seus pés, um dos irmãos apanha um pouco de pluma coberta de neve, caída da asa de um dos anjos que a haviam trazido.

Ismael não tardou a aparecer. Ele detém-se à entrada por um instante, muito estupefato para falar... E, extasiado, cai de joelhos.

-- É esta a efígie com a qual sonhei, murmura, lhe beijando os pés. Eu sou cristão, meus irmãos, diz ainda e, lhes estendendo a bilha d’água, implora: Batizem-me.

 Eles batizaram o filho do tirano e, até à noite, a prisão ressoou de hinos de alegria, de Salmos de contentamento.

-- Que esta Virgem seja Nossa Senhora das Alegrias, declara o mais jovem, em lembrança da letícia que ela pôs em nosso coração.

 

9. Fuga dos três cavaleiros e do príncipe árabe

 

Na noite seguinte, Maria apareceu ainda a Ismael e lhe falou. Anunciou-lhe que um lugar no céu lhe será reservado, se ele ajudasse os cavaleiros a se salvarem.

Na noite subsequente Ismael ficou escondido nos corredores da prisão e se postou, habilmente, para roubar as chaves dos guardas adormecidos. Ele tinha já depositado entre os três irmãos um pacote muito pesado, fabulosa quantidade de pedras preciosas, atadas numa echarpe.

Ele abriu a porta aos cativos e tomou a frente lhes mostrando o caminho. Seu pequeno cortejo se agitou, o mais velho dos irmãos portando a imagem, o mais jovem as pedras preciosas.

Diante deles, ó milagre! as portas se abriam uma a uma, como empurradas pelas mãos dos anjos.

Eles saíram para os campos e só encontraram guardas sonolentos ou vigias adormecidos.

Sobre o Nilo, deslizando sob um raio da lua, uma barca vem a eles, guiada por um remador do qual não se vislumbrava o rosto. Ele encosta e os fugitivos sobem, no momento em que uma música celeste os acompanhava. O barqueiro atravessou o largo curso d’água, deixou-os num lugar desconhecido, e... desapareceu imediatamente nas trevas, sem que tivessem tempo de lhe agradecer.

O dia nasceu. Eles avançavam no deserto, sob um sol escaldante... Então, surgiu um milagroso bosque de palmeiras onde, vencidos pela fadiga, os quatro caíram no sono. Todos os quatro, pois os cavaleiros que tinham prometido de velar cada um por seu turno, sucumbiram também ao cansaço.

Oito badaladas do sino de uma igreja despertam-nos em sobressalto.

-- Milagre! Prodígio inacreditável! Dizem os quatro numa só voz.

Eles se encontram no meio de uma pradaria sombreada por altos choupos. Um vaqueiro guia a sua boiada, cantando, num caminho estreito e solitário.

Um dos três irmãos, o mais disposto a restabelecer os ânimos, correu até o camponês e, após ter feito o sinal da cruz, fez os cumprimentos de praxe:

-- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

-- Para sempre seja louvado!

-- Senhor, que lugar é este, pela graça de Deus?

O camponês, reconhecendo o manto negro dos Hospitalários, tornado milagrosamente novo com a grande cruz púrpura que o ornava, se põe de joelhos diante do defensor da fé e lhe beija as mãos. Mas o cavaleiro o levanta com bondade.

-- Vós estais sobre o domínio dos três senhores de Eppe, mortos na Cruzada, respondeu o inocente.

-- Nós estamos em casa! Grita o cavaleiro. Ó Senhor, ó Doce Virgem Maria, ó graça do Céu! Em casa!

E ele aperta contra o seu coração o aldeão muito espantado.

-- Senhor... não sereis vós o senhor Teodorico, meu bom mestre?

-- Mas sim, Joaquim! E tu, tu és o filho da velha Francisca. Eis os meus irmãos: Pedro, o mais velho e Gerardo, o mais jovem. E aqui tendes o príncipe Ismael, filho de Jefté, sultão do Cairo.

O aldeão não acreditava nos seus olhos, nem nos seus ouvidos.

-- Ah, vós não estais mortos! É isto possível, meu Deus! Ah! Que o Céu seja louvado! E dizer que nesta manhã teve lugar na abadia uma missa pelo repouso de vossas almas!

-- Bom, vamos indo, a fim de tranquilizar nossa gente e agradecer ao bom Deus, nos pés de seu altar.

-- Esperem, diz o mais jovem, convém enviarmos Joaquim na frente a fim de que não nos tomem por três almas errantes.

Joaquim se benze precipitadamente.

-- Não, não, tranquiliza-o o mais novo, nós estamos bem vivos e tu podes tocar... nossa mão é sólida e nosso coração bate sob nossa armadura.

Joaquim, um tanto mortificado, desabalou sem nada dizer, abandonando suas vacas, correndo até à abadia de Forgny onde toda a cidade se apressava...

 

10. Batismo de Ismael, que adota o nome de Mariano

 

O senhor abade batizou oficialmente e com grande pompa Ismael e lhe deu o nome cristão de Mariano, em honra da Virgem. A imagem milagrosa encontrou o seu lugar numa magnífica igreja que Mariano mandou construir, oferecendo as pedras preciosas que ele tinha levado.

Ele escreveu a seu pai narrando a sua aventura e o exortando a se fazer cristão. A história não nos diz o que ele fez...

Mas é verdade e confirmado que Mariano morreu muito mais tarde em odor de santidade na abadia de Forgny, e figura no número dos bem-aventurados da Ordem de Citeaux. Sua festa é comemorada no dia 6 de junho, aniversário de sua morte.

No lugar em que ele despertou com seus três companheiros, brotou desde então uma fonte milagrosa e foi sempre um lugar de peregrinações dos arredores de Laon. Esta história, a mais célebre do martirológio dos cavaleiros de São João de Malta, foi retratada em nove quadros, numa das salas do palácio da Ordem, na Ilha de Malta, e compõe os vitrais da abadia de Laon.

O papa Clemente VII ordenou a veneração particular da imagem na sua bula de 28 de maio de 1384.

Tal é a origem da imagem de Nossa Senhora das Alegrias, louvada seja Ela.

 

 (*) Traduzido e adaptado dos “Contes et Légendes des Croisades”, de Maguelonne Toussaint-Samat – Fernand Nathan, Éditeur – Paris – 1961. Por: Jurandir Josino Cavalcante – Fortaleza, CE, 25-08-2000.

Veja também: como surgiu no Brasil a devoção à Nossa Senhora das Alegrias - https://quodlibeta.blogspot.com/2009/08/nossa-senhora-das-alegrias.html



[1] Hospitalários, ordem religiosa voltada ao serviço dos viajantes, peregrinos ou doentes, na Terra Santa.

[2] Clã criada pelo turco Seljuc (séc. IX), cujo império abrangia a Pérsia, a Síria e a Armênia.

[3] Janízaros, soldados muçulmanos que apostataram da fé católica e formavam grupo de elite.

[4] Gilles de Trazegnies.

[5] Pistácio, noz que contém uma única semente, oblonga, esverdeada, edule (Aurélio).