A primeira referência à escravidão a
encontramos no episódio do dilúvio universal. Após o mesmo, Noé fez o cultivo
da uva e dela tirou vinho, que, ao bebê-lo pela primeira vez, embriagou-se e
tirou a roupa perante os filhos. Como Cam, ao contrário dos outros, riu de sua
nudez, Noé amaldiçoou sua descendência (Gn 9, 25-27). A escravidão é imposta
como uma maldição, trata-se portanto de um castigo por causa do ato indigno que
o filho praticara, porém não recai sobre ele, Cam, mas sobre a sua descendência,
representada por seu filho Canaã. Tornou-se este, pois, escravo de seus tios.
Seria uma espécie de maldição ou condição imposta ao filho para
reparar o erro praticado pelo pai?
Talvez não tenha sido um ato simplesmente
punitivo, mas corretivo, pois a escravidão possibilitaria aos descendentes de
Cam aprender mais eficazmente a virtude da obediência, e como seriam escravos
de seus tios tratar-se-ia de uma forma de servidão amorosa e familiar.
A escravidão volta a ser naturalmente
comentada pelo que se deduz do texto do Gênesis 12, 5: "Levou consigo
Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, e todos os bens que possuíam, e
as pessoas que tinham adquirido em
Haran". Que pessoas eram estas que tinham sido adquiridas? Deveriam ser os
escravos, pois o texto já fala anteriormente na parentela. Poderiam ser também
os empregados, os servos como se dizia antigamente, mas estes não teriam
obrigação de acompanhar seus senhores se fossem livres.
Quando Abraão esteve no Egito pela
primeira vez (Gn 12, 10), recebeu do Faraó vários presentes, entre os quais
“servos e servas”, isto querendo dizer que naquele país se praticava a
escravidão, como é fato histórico incontestável. Pode ser também que Abraão os
tenha recebido, não como escravos, mas como servos comuns: quando teve que
fazer guerra contra os reis inimigos já contava com 318 servos (Gn 14, 14). No
entanto, houve entre eles alguns que se tornaram escravos, como é citado em
Gênesis 15-3, Eliezer de Damasco, e depois a escrava Agar (Gn 15,2-4).
Talvez tenha sido no Egito que Agar tenha
sido dada a Sara (que então se chamava Sarai, indicando esta mudança de nome,
talvez a exemplo do patriarcalismo espiritual que faz os Patriarcas mudar de
nome, um certo matriarcado também espiritual) como escrava (Gn 16, 1). Como
Abraão era um Patriarca de Deus e respeitava o livre arbítrio humano, é
provável que tenha aceito que Sara ficasse com Agar como um mal menor, talvez a
livrando de uma outra escravidão pior que devesse estar submetida no Egito. De
outro lado, se ela fosse camita talvez tivesse nascido já escrava de um semita,
(Gn 9, 25), mas não há referência sobre isso. Os costumes escravocratas eram de
tal forma, naquela era remota, que a
senhora oferece sua escrava ao seu marido para ter um filho (Gn 16, 3). Quer
dizer, um escravo era parte integrante da família. Gerado um filho deste (ou
desta) com o chefe da casa (ou com a esposa deste), se tornaria ele um herdeiro
do Patriarca. Era um costume do patriarcalismo, que obrigava-os a ter um
herdeiro para dar continuidade à descendência pelo ramo masculino. Agar era uma
escrava que se encontrava sob o total domínio de Sara (Gn 16, 6).
A forma como Sara passou a tratar sua escrava
era muito ruim, dando-lhe maus-tratos. Por isso Agar foge para o deserto. Mas
um anjo ordena-lhe que volte para sua senhora (Gn 16, 9), indicando com isso
que Sara praticava um domínio legítimo sobre sua escrava. Agar não só deveria
voltar, mas humilhar-se perante sua senhora.
Alguns anos depois, quando Isaac nasceu, Sara pede a Abraão que ordene a
expulsão de Agar e Ismael (Gn 21, 8-13). Vê-se no episódio que Deus respeita os
direitos de Sara sobre Agar mandando cumprir o que ela determinara, mas quem
deveria decidir tudo ao final era o Patriarca Abraão.
Adonai, Senhor de
escravos?
Adonai, nome hebraico de Deus, Significa
“Meu Senhor”. Sempre que nas Sagradas Escrituras aparece o nome de Javé, vem em
seguida “Adonai” (Judite 16,16). A Moisés o termo Adonai foi declarado desta
forma: “Eu sou o Senhor que apareci a Abraão, Isaac e Jacó, como o Deus todo
poderoso: mas eu não lhes dei a conhecer o meu nome Adonai” (Ex 6, 3). O termo
“Javé” Significava Deus como ser absoluto, todo poderoso, e Adonai o designava
como Senhor, como possuidor do homem. No tempo de Moisés o Senhor era aquele que
possuía poder e tinha escravos sob seu domínio, a própria posse dos escravos
era sinal de poder e influência. Daí o fato de Deus haver pedido que O
chamassem de Senhor, ou Adonai. A escravidão foi utilizada por Deus como
instrumento de aperfeiçoamento social de um povo, como ocorreu com o Povo
Eleito ao torná-lo escravo dos egípcios durante 400 anos! E, embora naqueles
tempos a escravidão fosse algo horrível e ultrajante, Deus o permitiu durante
muitos séculos a fim de ensinar aos povos um princípio básico da auto-regência,
que é a obediência aos superiores. Não se tratava de algo feito por amor, e sim
por subserviência ou servilidade, mas, mesmo assim, útil para educar um povo
hostil e propenso à revolta e ao orgulho.
E quando foi necessário que essa servilidade
do homem fosse feita entre ele e seus familiares, de homem pra homem, surgiu o
Patriarcado e o poder de um homem sobre outro já começava dentro da família. E
a extensão dos laços familiares à toda a sociedade ocorria naturalmente. Nos
primórdios da humanidade, porém, o homem criou seus deuses e fugia da adoração
ao Deus verdadeiro, adorando seus senhores de natureza meramente humana ou até
animais. Chegado o tempo de Abraão, Deus promete, como castigo, a escravidão a
seus descendentes (Gn 15, 9-13), e num longo período de 4 séculos. Vê-se aí,
claramente, que foi criada uma situação de dependência a fim de que o seu povo
aprendesse a auto-reger-se pela obediência e pelo serviço. E, no entanto, todas
as tribos da região estariam debaixo de seu poder (Gen 15, 18). Essa
dependência naqueles tempos era de natureza puramente familiar, portanto,
patriarcal. Então, Deus como “o meu Senhor” (ou Adonai) era não somente
possuidor dos homens como patrão, mas também como pai e patriarca (embora, na
natureza divina esse tipo de posse seja mais espiritual).
Deus faz seu povo eleito escravo
de um outro
A descendência de Abraão é prometida
profeticamente como numerosa, mas que “será reduzida à escravidão” (Gn 15, 13)
por mais de 400 anos. Então, Deus desejava que houvesse uma escravidão que
fosse exercida sobre todo um povo, e o seu Povo Eleito, como meio de fazê-lo
perfeito. Aqui não se trata propriamente de uma maldição, mas algo parecido,
pois Deus assim condena a descendência de Abraão, depois que "um horror grande
e tenebroso o acometeu"(Gn 15, 13-14).
Quando Deus dava a Abraão instruções sobre
a circuncisão, uma aliança que fazia com seu Patriarca e seu Povo, falou dos
escravos como coisa natural e sem censura:(Gn 17, 12). Então, haviam dois tipos
de escravos que moravam com Abraão: os nascidos em casa e alguns que ele havia
comprado, ou que alguém os comprara, sem que isso fosse motivo de censura e
recriminação por parte de Deus. Os “nascidos em casa” deveriam ser os parentes
oriundos dos camitas, declarados escravos dos semitas como vimos antes.
Entre os hebreus
A escravidão proporcionava um espírito, o
de servir. Desta forma, todos os bons procuravam imitar aqueles escravos mais
fiéis que lhe serviam de forma voluntária e simples. E assim, também os
senhores tinham vontade de ser escravos, mas de alguém superior ou do próprio
Deus. Havia não só o desejo de servir, como falamos acima, mas também o de
participar da mesma família, pois os servos e escravos eram considerados como
membros da família. Quando os três anjos apareceram a Abraão, este os chama de
senhor, prostrado em terra: (Gn 18, 3). Neste momento, Abraão presta um preito
de vassalagem, chama o anjo de Senhor
(ele o vê em figura humana) e se proclama seu servo, ou seu escravo,
oferecendo-lhe em seguida comida e hospedagem.
Um dos escravos mais fiéis a Abraão foi
sem dúvida Eliezer, portador de uma mensagem aos seus parentes a fim de conseguir
uma esposa para o filho Isaac (Gn 24, 34-36).
Eliezer intercede aqui como se fosse um parente da família, tal era o
papel que os escravos desempenhavam nas famílias de então. Seria ele também um
remanescente dos escravos dos primitivos camitas? Após descrever tudo, Eliezer
pede finalmente aos parentes de Abraão uma esposa para Isaac. Quando ouviu a
resposta prostrou-se por terra, adorou o Senhor, e voltou com Rabeca para seu
país.
O costume de manter escravos era mais
usado por pessoas de grandes posses, como era o caso de Abraão. Apesar de habitualmente
presenteado com riquezas, Abraão dava o melhor de si a Deus, inclusive quis
imolar o próprio filho (Gn 22), a Quem considerava seu Senhor e de Quem se
considerava um servo, um escravo.
Esta disposição de servir, este desejo de
se tornar até mesmo escravo de alguém que considere seu superior, de tal forma
estava enraizado na família de Abraão, que inspirou os belos episódios futuros
em seus descendentes, como foi o caso do Patriarca Jacó.
Nova escravidão como castigo
Quando os hebreus se estabeleceram na
Palestina e já progrediam materialmente com sua cultura, tinham um Templo muito
rico e uma elite cultural respeitada e em ascensão, Deus os fez tornar-se
escravos novamente. Desta vez o castigo foi mais doloroso do que ao tempo de
Abraão, pois Nabucodonosor levou não só a elite judaica como sua escrava, mas
carregou consigo todas as riquezas do templo sagrado.
Qual a razão disso? É que eles, como a
elite dirigente, não vinham cumprindo os princípios da regência divina,
querendo reger-se sem a participação de Deus, ou até mesmo com a influência do
demônio através dos ídolos. Tornando-se escravo de um outro povo, seria mais
inclinado à prática de humildade e aceitar a vontade de Deus.
A primeira deportação em grande escala de
hebreus para o cativeiro da Babilônia deu-se no reinado de Oséias (732-724 a. C.), por causa da grande decadência que havia
no reino da Samaria: o povo eleito já estava dividido em dois reinos, o da
Samaria e o de Judá.
No entanto, a pior escravidão é a que foi
imposta ao reino de Judá, deportado para a Assíria (Babilônia) no reinado de Manassés
(693-639 a.
C.) e durou setenta anos. A respeito
dessa escravidão, assim falou Neemias: “Eis que nós mesmos hoje somos escravos,
como também o é a terra que deste a nossos pais, para lhe comerem o pão e os
frutos que ela produzisse, nós mesmos também somos escravos nela. Os seus
frutos multiplicam para os reis que tu puseste sobre nós, por causa dos nossos
pecados, e eles dominam sobre nossos corpos e sobre nossos animais, como bem
lhes apraz, e nós estamos numa grande tribulação”. (Neemias 9, 36-37).
Rabeca
e Jacó, prefiguras bíblicas da Sagrada Escravidão
A melhor descrição sobre prefiguras
bíblicas da Sagrada Escravidão, encontramos nas vidas de Rebeca e Jacó
descritas por São Luís Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem: “De todas verdades que acabo de descrever em relação à
Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn),
uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac,
graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca.
Havia
uma dependência de vassalagem entre Esaú e Jacó
São Luís Grignion não esmiúça o caso de
Esaú e Jacó inteiramente, detendo-se apenas no essencial e fazendo a comparação
naquilo que os dois prefiguram: os predestinados e os réprobos. No entanto, a
Sagrada Escritura nos fornece mais detalhes a respeito do espírito de
escravidão que vigorava então.
Quando Isaac deu a segunda bênção
(meramente terrena) a Esaú, atendendo seu insistente pedido, afirmou que constituiu
Jacó como Senhor de Esaú: “Eu o constituí teu senhor, e sujeitei à sua
servidão todos os seus irmãos; estabeleci-o na posse do trigo e do vinho;
depois disto, meu filho, que te posso eu fazer?” (Gn 27, 37). Em seguida Isaac
o abençoa “na abundância da terra , e no orvalho do alto do céu” e que,
doravante, Esaú viveria da espada e “servirá a teu irmão”. Havia, portanto, duas bênçãos: uma provinda
do poder divino (regência divina) e outra e outra meramente terrena. Quer
dizer, ao mesmo tempo que Esaú era servo
de seu irmão deveria também servi-lo com sua espada, com seu poder, com
sua força, com suas riquezas, etc.
Veremos de que forma Esaú cumpriu ou não esta bênção.
Já Jacó entendeu a coisa de forma
diferente. Como a bênção foi dada por engano, Isaac pensando que era Esaú que
estava ali presente, para todos os efeitos era como se tivesse sido dado a Esaú
o senhorio sobre o irmão e não a Jacó sobre Esaú. Talvez seja por haver
entendido a coisa assim, e também por ser mais servil do que o irmão, que Jacó
mais adiante considere Esaú como seu senhor, como veremos mais abaixo.
De imediato o que tomou conta do coração
de Esaú foi uma grande inveja e um profundo ódio contra seu irmão. E tal foi o
ódio que planejava matá-lo. Veja-se nesse ódio invejoso o mesmo que Caim teve
contra Abel. A história estava se repetindo: o ódio de um irmão contra outro. A
única diferença é que Jacó se livrou de haver sido morto pelo irmão por causa
da intervenção materna. Virtude que certamente faltou à Eva para salvar Abel
das mãos de Caim. Rebeca, sabendo de tudo, chama Jacó e o avisa dos propósitos
de Esaú e aconselha-o a fugir (Gn 27, 41-45). Completando a sua preocupação
bondosa para com o filho, promete depois mandar buscá-lo, pois julgava que não
teria condições de vir sozinho. Talvez pensasse ela que Jacó, deserdado dos
bens terrenos, pois tinha recebido apenas a bênção celeste, viveria lá em
situação de penúria e não teria condições de retornar por si mesmo à sua
casa. Realmente, era esta a situação de
Jacó, pois ainda a caminho, depois da visão celeste que teve, dizia: “Se Deus
for comigo, e me proteger na viagem que empreendi, e me der pão para comer e
vestido para me cobrir, e eu voltar felizmente à casa de meu pai, o Senhor será
meu Deus” (Gn 28, 20-21).
Notem bem a expressão final: “o Senhor
será meu Deus” – isto quer dizer que ele desejava prestar vassalagem e
tornar-se escravo de Deus, pois, em geral, a expressão “Senhor” naqueles tempos
era dada ao possuidor de escravos..
Jacó fugiu então para a casa de seus tios.
Sua mãe, preocupada havia pedido a Isaac que mandasse o filho lá para conseguir
uma noiva e se casar. E foi com este propósito que Isaac autorizou a viagem do
filho. Enquanto Jacó foge para não ser morto e conseguir uma esposa proba e
honesta para se casar, Esaú faz o contrário causando grande desgosto a seus
pais ao realizar um mau casamento.
Quanto a Jacó, teve em país estranho uma
vida muito abençoada. Por causa de sua
obediência, recebeu copiosas graças de Deus. Ainda a caminho da casa dos tios,
teve a famosa visão da Igreja, representada por uma grande escada que ia da
terra até tocar no céu, e os anjos descendo e subindo por ela. E Deus, no alto
da escada, dava-lhe uma bênção (Gn 28,
13-16).
Depois que consagrou aquele lugar,
chamando-o de Betel, Jacó continua sua viagem até chegar a Haran. Envolvido por
artifícios criados pelo seu tio e suas mulheres, Jacó termina se casando com as
duas filhas de Labão, Lia e Raquel, e ainda tendo filhos de suas escravas,
chamadas Bala e Zelfa. Os primeiros
filhos, Rubem, Simeão, Levi e Judá, nasceram de Lia; o quinto e sexto filhos,
Dan e Neftali, nasceram da escrava Bala; o sétimo e oitavo filhos, Gad e Aser,
nasceram de Zelfa; o nono e décimo filhos, Issacar e Zabulão, vieram novamente
de Lia, e ainda uma filha chamada Dina; finalmente, Raquel consegue ter dois
filhos, José e Benjamin, completando os doze varões que formaram as tribos
judaicas.
De tal forma Deus cumulou Jacó de bênçãos
que ao retornar para a casa de seus pais, possuía além de numerosa prole grande
fortuna. Da mesma forma, foi beneficiado por visões angélicas, num lugar
chamado Maanaim ou “acampamento de Deus”
(Gn 32, 2), tal era a quantidade de anjos que foram ao seu encontro.
Espírito de escravidão e vassalagem
entre irmãos
Veremos como Jacó se comporta com relação
a seu irmão. Partindo do pressuposto de que a bênção de Isaac tinha constituído
Esaú como seu senhor (assim ele o entendeu), passa a considerá-lo como tal.
Quando se dirigia à casa de seus pais, para onde retornava com suas esposas e
filhos, Jacó manda avisar a seu irmão Esaú, dizendo aos mensageiros: “Falai
assim a Esaú, meu senhor..”
Primeiramente, Jacó dá a entender a Esaú que reconhece-lhe a servidão e
o chama de senhor, pois parece-lhe que foi este o desejo de Isaac na hora de
sua bênção. Em seguida, manda o mensageiro dizer a Esaú que ele estava
retornando muito rico, cheio de gado e de posses: ”Tenho bois, jumentos, ovelhas, servos e servas, e mando agora
um embaixador ao meu senhor, para achar graça diante dele”.
Dizer que tinha muitos animais não era
suficiente para comprovar sua riqueza, era necessário que tivesse também
“servos e servas”, quer dizer, escravos, a seu serviço, e ainda por cima um
embaixador para levar sua mensagem. Em seguida, o chama novamente de
“senhor” e lhe pede graças, pede o seu
beneplácito, como que autorização para entrar em seus domínios.
Trata-se
evidentemente de um preito de vassalagem. Ao receber a mensagem, Esaú saiu a
toda pressa para encontrar-se com o irmão acompanhado de quatrocentos homens.
Jacó temia que ele viesse com más intenções e por isso usou de um
estratagema. Dividiu o povo que estava
com ele, assim como seu rebanho, em duas partes, dizendo: “Se vier Esaú a uma
partida, e a desbaratar, a outra partida, que resta, se salvará”. Em seguida
separou os presentes que iria dar a seu irmão. Certamente havia escolhido os
melhores animais de seu rebanho. Finalmente, ordenou que seus servos
conduzissem os rebanhos separadamente, com intervalos entre um rebanho e outro,
com a seguinte estratégia: “Se te encontrares com meu irmão Esaú, e ele te
perguntar: De quem és? ou, para onde vais? ou, de quem são estes animais que
conduzes? Responderás: são de teu servo Jacó, ele os mandou de presente
a meu senhor Esaú; ele mesmo vem atrás de nós”. As mesmas ordens foram dadas a todos os que
conduziam os rebanhos, sempre insistindo que chamassem Jacó de servo e Esaú de
senhor.
A estratégia deu certo. Com isso, Jacó
conseguiu aplacar o ódio de Esaú, que via agora em seu irmão um homem poderoso
a seu serviço. Dir-se-ia que haveria luta, mas Deus abençoou tudo de tal forma
que Esaú recebeu bem a seu irmão. Fê-lo talvez por temer seu poder, mas daí
resulta que a humildade de Jacó produziu bons frutos até mesmo no coração de um
homem mau.
Mesmo no momento de encontrar-se, Jacó não
confiou inteiramente em Esaú. Colocou na
frente as escravas Bala e Zelfa com seus filhos, e logo atrás as esposas Lia e
Raquel com os delas também. O momento do encontro foi muito cerimonioso e
respeitoso da parte de Jacó: “E ele,
adiantando-se, prostrou-se sete vezes por terra, até seu irmão se aproximar”
. Da mesma forma inclinaram-se profundamente as esposas, filhos e
escravas. Isto não pareceu a Esaú um
sinal de fraqueza ou de humilhação, a tal ponto que o mesmo correu
imediatamente ao encontro do irmão e o abraçou e beijou chorando. Após
perguntar quem eram as mulheres e os filhos de Jacó, Esaú perguntou sobre os
rebanhos, tendo Jacó respondido: enviei-os para achar graça perante meu
senhor. Jacó sempre repetindo o título de vassalagem, o poder que lhe
parecia que Isaac tinha dado de seu irmão sobre ele, de ser seu senhor.
Esaú recusa as ofertas, alegando que
possuía muitos bens. Jacó então responde humildemente: “sê-me propício, aceita
a bênção que te trouxe e que Deus me deu, o qual dá todas as coisas”. Quer dizer, aquilo que ele possuía não era
fruto da esperteza, da força, somente do trabalho, mas sim de Deus “que dá
todas as coisas”. E Jacó pede,
inclusive, que o irmão aceite a mesma bênção que Deus lhe havia dado, não a
terrena, mas a celeste. Esaú convida para juntos caminharem, mas sempre
desconfiando Jacó responde: “Tu vês, meu senhor, que tenho comigo
meninos tenros, ovelhas e vacas prenhes; e, se eu as cansar fazendo-as andar
mais, morrerão num dia todos os rebanhos. Vá o meu senhor adiante do seu
servo; eu seguirei pouco a pouco os
seus passos...”. Diante de tudo o que
aconteceu, Jacó dá agora um testemunho de lealdade completa, de vassalagem
inteira, pois diz até que irá seguindo "os seus passos", querendo
indiciar que o seu irmão é quem o guiará no caminho. Esaú pede que pelo menos o
siga os acompanhantes de Jacó, mas isto também é-lhe negado: voltou pois Esaú
para Seir pelo caminho por onde tinha vindo.
Da mesma forma, Jacó se recusou a residir
na mesma cidade de Esaú, indo estabelecer-se em Socot. Tudo indica que esta
localidade é a mesma para onde Moisés se dirigiu ao começar a caminhada com o
povo hebreu saindo do Egito (Ex 12, 37).
Vê-se no episódio acima que o espírito de
escravidão, de servidão espontânea e legítima, nunca tira do homem a capacidade
de auto-regência, mas, pelo contrário, a aprimora, pois não houve aí a
imposição da vontade de um sobre outro, nem qualquer imposição física ou moral,
mas a aceitação pura e simples de poder servir ao irmão como se escravo fosse.
O
espírito de escravidão entre o povo eleito quando fugia do Egito
Ao nascer Moisés, os
filhos de Israel já eram mais de dois milhões, segregados dos egípcios,
praticando rituais diferentes (como a circuncisão e a imolação de animais),
crendo no Deus verdadeiro, não se miscigenando nem se acostumando completamente
aos costumes pagãos. E assim progrediram
formando um povo, embora vivendo numa espécie de gueto e debaixo do poder de um
outro. É curioso que Deus tenha formado o seu povo sob o jugo de outro: por que não deixou que Jacó
permanecesse com seus filhos em Canaã, lá formando o povo eleito, em vez de
formá-lo no Egito e depois fazê-lo voltar à Terra Prometida? Uma das razões talvez
fosse de que a escravidão alimentava neles a expectativa de um Libertador, de
um Messias; daí o termo “expectação das nações” usada por Jacó. De outro lado,
Deus sabia o quanto este povo seria de cerviz dura, e assim quis que ele se
formasse humilhado por um outro. Tornaram-no escravo, mas mesmo assim Deus o
abençoava e o fazia crescer. Esta era a forma como Deus regia seu povo.
Moisés e Arão foram à
presença do Faraó para pedir que libertasse o povo hebreu e obtiveram como
resposta que o povo precisava trabalhar mais e foi dado ordens aos chefes das
obras: “Não mais dareis palhas, como antes, ao povo, a fim de fazer tijolos,
mas eles mesmos juntarão a palha. E os obrigareis à mesma quantidade de tijolos
que antes, sem lhes diminuir nada; porque estão ociosos, etc” E depois
mandava açoitar o povo para que produzisse sempre a mesma quantidade de
tijolos. Eram mais de dois milhões de pessoas, grande parte condenada aos
trabalhos forçados!
Não havia leis sobre
a forma de tratar os escravos entre os povos pagãos antigos, especialmente
entre os egípcios. Sentindo isso, Moisés foi inspirado por Deus a legislar sobre
o assunto. Quando conduzia o povo pelos desertos criou leis específicas a
respeito da escravidão (Ex 21, 1-11). No entanto, era preciso evitar que
se fizessem escravos entre os hebreus, preferindo-se os estrangeiros (Levítico,
25, 35-46).
Quer dizer, Moisés
legisla sobre a escravidão como a coisa mais normal do mundo, dando a
entender que era costume se manter escravos entre eles. A escravidão, em si,
não é condenada, mas tão somente se escravizar a um irmão, a um filho de
Israel. No Livro Deuteronômio (15, 12-18), Moisés volta a repetir a mesma lei que
havia consignado no Êxodo 21, 1-11 acima
descrita.
E desta forma o
espírito de escravidão foi aos poucos se tornando uma coisa comum e até
procurada pelos bons hebreus, uma forma como a Divina Providência alimentava
neles o Ideal do ponto mais alto da Bondade e da auto-regência, que é ser manso e servir.
O Jubileu bíblico
E foi com intenção de libertar muitos dos
cativos de seu próprio povo que foi introduzido tal preceito nas festas do
Jubileu, onde, a cada 50 anos se comemorava a libertação do povo dos egípcios.
Quer dizer, não havia ocasião mais propícia para libertar seus próprios
escravos do que a festa em que se comemorava a libertação de todo o povo. A cada
cinquenta anos os hebreus libertavam todos aqueles patrícios que mantinham como
escravos dentro de casa, uma enorme alforria que os fazia lembrar a proximidade
de um Libertador que também os livrasse do poder de regência do pecado.
Outro
exemplo de espírito de escravidão
Primeiras referências bíblicas ao Monte
Carmelo, onde Davi se encontra com a que seria uma de suas esposas, Abigail,
exemplo de prefigura da servidão voluntária. Este espírito de servidão ou
escravidão voluntária, comum entre bons israelitas, ocasionou episódios muito
admiráveis, como por exemplo o de Abigail, citado em Samuel I 25, 23-35. Davi
mandara pedir ajuda a Nabal, riquíssimo fazendeiro que tosquiava ovelhas ao pé
do Monte Carmelo. Em resposta o avarento judeu diz: “Quem é Davi? E quem é o
filho de Isaí? Hoje são numerosos os
servos que fogem aos seus senhores. Pegarei eu portanto no meu pão, na minha
água e na carne dos animais que matei para os que tosquiam minhas ovelhas, e
dá-lo-ei a homens que não sei donde são?”
Esta resposta era um insulto a Davi, pois o mesmo protegera aquele homem
na guerra, Nabal devia portanto a Davi pelo menos reconhecimento pelo bem que
lhe fizera. Irado, Davi se aprestava para ir com seus homens matar Nabal com
todos os viventes que com ele estavam, quando se encontra com Abigail, mulher
de Nabal: “Mas Abigail, tendo visto Davi,
apressou-se, desceu do jumento, prostrou-se diante de Davi, sobre o seu rosto,
fez-lhe uma profunda reverência, lançou-se a seus pés e disse: Sobre mim caia,
meu senhor, esta iniquidade; peço-te que permitas à tua escrava falar
aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva.” Davi havia sido ungido por
Samuel, mas ainda não reinava, pois Saul ainda era vivo. Abigail, que morava no
Monte Carmelo, sabia no entanto que Davi havia sido ungido. Continuando: “Não faças caso, meu senhor e meu rei,
da injustiça de Nabal, porque, como o denota o seu próprio nome, é um
insensato, e a loucura está com ele; mas eu, tua escrava, não vi os
criados que tu, meu senhor, enviaste”.
Continuando seu discurso, Abigal chama
Davi de “meu senhor” e se declara sua escrava várias vezes, oferecendo-lhe
dádivas para seus homens que trazia em seus jumentos. Logo depois, acrescenta ela profeticamente: “Perdoa à tua escrava a iniquidade, porque
certissimamente o Senhor estabelecerá em ti, meu senhor, uma casa estável,
porque tu, meu senhor, combates pelo Senhor; não se encontre, pois, culpa em ti
durante todos os dias da tua vida”.
E mais adiante: “Quando, pois, o Senhor te tiver feito, meu senhor, todos os
bens que ele predisse de ti, e te tiver constituído general sobre Israel, não
terás no coração este pesar, nem este remorso, meu senhor, de ter
derramado sangue inocente, ou de te teres vingado por ti mesmo”:.
Profetizando que se tornaria, após a
viuvez, esposa de Davi, declara: “e, quando o Senhor tiver feito bem ao meu
senhor, lembrar-te-ás da tua escrava”.
Em resposta, Davi diz a Abigail: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que
te enviou hoje ao meu encontro, bendita a tua palavra, e bendita és tu, que me
impediste hoje de derramar sangue, e vingar-me pela minha mão. Doutro modo juro
pelo Senhor, Deus de Israel, que me impediu que te não fizesse mal: Se tu não
viesses logo ao meu encontro, não teria ficado nada com vida desde hoje até
amanhã em casa de Nabal, nem mesmo um dos que urinam à parede. Davi, pois,
aceitou da sua mão tudo o que lhe tinha trazido e disse-lhe: Vai em paz para
tua casa; eis que ouvi a tua voz e honrei a tua presença”.