terça-feira, 2 de junho de 2026

O "SEGREDO" DE MARIA

 

                                           (Revista "Dr. Plínio" n, 234, setembro de 2017)


 

Analisando tudo quanto São Luís Grignion de Montfort diz sobre Nossa Senhora, o que mais me agrada é a doutrina sobre o “Segredo de Maria”, a qual foi matéria de um de seus livros.

Embora ele não tenha encontrado uma explicação completa para tal “Segredo” – caso isso se desse não lhe caberia mais o título de segredo! -, pelo que neste livro está dito, ele parece consistir numa forma misteriosa de união com Nossa Senhora, a qual faz com que a alma progrida rapidamente.

Tal fenômeno constitui a mais alta e sublime escala sobrenatural na vida do católico, assim como da ação de Nossa Senhora sobre as almas. Por este “Segredo” chega-se a um excelso grau de conhecimento acerca de Nossa Senhora. Trata-se, portanto, de uma forma de aliança de Nossa Senhora com as almas, pela qual Ela atua de modo especialíssimo, tornando mais fácil e frutuosa a vida espiritual e a obtenção de seus fins.

Para dar um exemplo do que pode ser isso, consideremos o seguinte:

Dom Chautard conta o famoso episódio ocorrido com certo advogado que foi a Ars a fim de conhecer São João Maria Batista Vianney. Ao retornar, perguntaram-lhe o que havia visto. Ao que ele respondeu: “Eu vi Deus num homem”.

Ou seja, à vista de São João Maria Vianney, transbordante de graça e virtude, aquele homem, arrebatado, compreendeu tratar-se de uma ação de Deus. Nas extraordinárias qualidades de São João Maria Vianney filtrava a ação da graça, pela qual se podia chegar ao conhecimento de Deus.

Nota-se nesse fato uma ação especial de São João Maria Vianney sobre aquele homem. Trata-se da graça de Deus atuando em São João Maria Vianney, que de algum modo se transmitiu à pessoa que o viu. Misteriosamente, a pessoa recebe uma participação da graça que há no outro.

Creio que com o “Segredo de Maria” dá-se algo semelhante. Pela vontade de Maria, em certo momento o espírito d’Ela passa a habitar uma pessoa, e a graça que há n’Ela toca-lhe a alma, dando-lhe um prolongamento de suas virtudes.

Ora, pelo próprio livro de São Luís Grignion tem-se a impressão de que, por uma ação misteriosa de Nossa Senhora, ao lê-lo adquire-se uma especial comunicação das virtudes da Santíssima Virgem.

Parece-me também que o “Segredo de Maria” pode atuar estável e fixamente numa alma, de tal modo que ela passa a participar habitualmente da vida sobrenatural de Nossa Senhora. Assim talvez de modo ainda mais radical do que o próprio São Paulo disse a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, a alma que vive nesta união pode afirmar: “Já não sou eu que vivo, mas é Maria quem vive em mim”.

Isto é, evidentemente, a mais alta forma de união que se pode ter com Deus. Pois, quanto mais se está unido a Nossa Senhora, mais se está unido a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, é muito oportuno pedirmos a Ela que nos conceda seu espírito, bem como a comunicação de suas graças de modo estável, de modo a sermos verdadeiros prolongamentos d’Ela. (Conferência de 2/5/1993).


(Extraído da revista "Dr, Plínioo", março de 2011, pág. 27)


DESNUDANDO O IGUALITARISMO EM CORDÉIS

 




 

                                     Uma vez um cientista pegou
Três gotas para examinar:
Deveria procurar descobrir
O que elas iam representar
 
A primeira a ser analisada
Era branca e luminosa
Tão simples e tão pura
Que brilhava radiosa
 
Passou para a segunda
Onde lhe pareceu brilho igual
Olhou logo a terceira
E nada viu de anormal
 
Pesquisando nas três gotas
Pensou alto, com seus botões:
- Parecem todas iguais
Nelas não há distinções
 
A terceira retrucou:
- "iguais coisa nenhuma
Pois sou uma lágrima
Que supera qualquer uma"
 
A segunda gota, então,
Ao ouvir o que esta dizia
Virou-se para a lágrima
E respondeu com ufania:
 
"Realmente não somos iguais
Pois sou uma gota de suor
E das outras gotas ademais
Sou eu mesma a melhor"
 
A gota de lágrima respondeu:
"Que há de melhor no suor?
Sua única vantagem é
Fácil de sair em seu senhor"
 
Para parar a discussão
Veio à fala o cientista:
"Descubro já se há diferença
Num só golpe de vista":
 
"Vejo nesta gota de suor
Muito sal e coisa orgânica
Que tem também na lágrima
De origem anatômica"
 
É bem verdade - diz a lágrima
Que trazemos do corpo humano
Substâncias que lá encontramos
Mas que somos iguais, é engano!
 
Se o suor vem do esforço
Eu nasci do sofrimento
E assim nossa diferença
Vem desde o nascimento
 
A primeira gota - água pura
Precipitou-se com afobamento:
"Lá vem você com elitismo
Com nobreza de nascimento!"
 
"Nascemos todas iguais
Frutos da mesma formação
O cientista aí bem já viu
Nossa orgânica composição "
 
"Ah, isso não é verdade -
Responde a gota de suor,
Pois você é água pura,
Nem cheira e nem tem cor"
 
 
Volta a falar o cientista
Para acabar a discussão
E explica para as três gotas
O que deduziu com exatidão:
 
"Na realidade eu descobri
Nas três uma só igualdade:
É que todas são de água
E brilham com intensidade
 
Mas logo a desigualdade
Se apresenta num só momento
Tanto no suor do esforço
Quanto na lágrima do sofrimento"
 
A gota d'água responde:
"É, mas as outras são iguais
Pois carregam consigo
Substâncias materiais"
 
- "Mesmo assim tais substâncias
Nada têm de igualdade
Pois a que vem do esforço
É inferior à da dor de verdade
 
A lágrima se torna assim
Superior por nascimento:
Ela vem da angústia, da dor,
É filha do sofrimento"
 
- "O cientista sabe - diz a água,
De que foi criado o mundo
Deus fez de simples gota d'água
Este Universo num segundo
 
Então, se há mérito no nascimento
Tenho mais, pois nasci primeiro
De mim surgiu todo o resto
Que compõe o mundo inteiro"
 
- "Se isto for mérito maior
O nascer primeiro tem mais valia
Então vale mais do que a água
O nada que lhe precedia
 
 
 
Pois, como reza a Tradição
Que no Catecismo é ensinada
Deus fez todo o mundo material
De nenhuma substância, do nada!"
 
O esforço vale pelo que faz
A dor pelo que se sente
Do que vem de dentro da alma
Do que se passa interiormente
 
Quando a dor é profunda
E atinge  o centro do coração
Ela compunge tanto nossa alma
Que produz a lacrimação
 
Por isto na hierarquia das gotas
A lágrima tem destaque especial
Ela é superior a qualquer oceano
E faz-se ser mui desigual
 
Pois ela vem do coração
Até chegar ao saco lacrimal
É filha da nobreza da dor
De importância sem igual
 
No calor da discussão
Chega ali outra pessoa
Gotejando sangue na mão
Dá um grito que reboa:
 
 
"Nenhuma gota é superior
A estas que trago na mão!
Foram elas sublimadas
Pela Cruz na Redenção!"
 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

DIVINO DESPONSÓRIO

 



 

(Revista “Dr. Plínio” n. 63, junho de 2003_

 

 

 

Ao comentar o desponsório da Santíssima Virgem com o Espírito Santo, Dr. Plínio excogita belas hipóteses teológicas acerca dos efeitos da Encarnação operados ao longo da História.

 

Farei algumas hipóteses, que me pareceu muito prováveis e poderão servir de ponto de partida para um estudo mais aprofundado.

 

Nosso Senhor é modelo perfeitíssimo

Os possíveis de Deus, ou seja, as coisas que Ele poderia criar, de algum modo existem em Nosso Senhor, pois Este é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a própria fonte de toda graça.

Na Pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, com duas naturezas, vou considerar sobretudo a humana, pois sua natureza divina já foi bastante estudada.  Na sua natureza humana, pelo fato da união hipostática, por ter sido Jesus gerado por Nossa Senhora pela ação do Espírito Santo, Ele é um compêndio de todas as perfeições as quais Deus desejou que a Humanidade tivesse , e em todos os graus possíveis. De maneira que toda a Humanidade, de algum modo, pelo menos no seu aspecto moral, está contida n’Ele.

 

A riquíssima relação entre a humanidade de Jesus e o gênero humano

Surge, então, uma pergunta linda, luminosa, para cuja resposta, no momento, não me sinto à altura para nem sequer levantar hipótese. A graça, participação de Jesus Cristo nos homens, nós entendemos perfeitamente bem no que diz respeito à natureza divina. Mas restaria saber como se dá quanto à sua natureza humana. Porque é a Pessoa d’Ele que se deixa participar por nós.

Há, portanto, uma relação entre a humanidade d’Ele e o gênero humano, que deve ser uma coisa riquíssima, inexaurível. Seria preciso imaginar uma participação por conaturalidade terrena na graça que Ele obteve, havendo a união hipostática.

Como pode haver uma tal participação entre a natureza humana e o Homem-Deus? E depois, como isso se dá de fato, considerando aquela frase de São Paulo Apóstolo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”?[1]

 

Da relação de Maria com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade decorre a geração da humanidade de Nosso Senhor

Ora, para se compreender bem essa questão, é preciso considerar o papel de Nossa Senhora.

De fato, nossa participação em Jesus Cristo far-se-ia um tanto ex abrupto, a ponto de causar um certo mal-estar, se não fosse por intermédio de sua Mãe, cuja perfeição decorre do desponsório com o Espírito Santo.

Nossa Senhora não teve a união hipostática. Mas o que significa a relação d’Ela, como Esposa, com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, para que dessa relação decorresse a geração da humanidade de Nosso Senhor?

Quer dizer, nesse momento houve uma operação divina, uma interferência evidentemente numa ordem toda sobrenatural, cuja repercussão foi produzir a geração. A carne d’Ela ficou em condições de receber a união hipostática.

Então, na Encarnação, a ação do Espírito Santo parece ter precedido cronologicamente a operação da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Primeiro o Espírito Santo se tornou esposo da Virgem Maria e depois Ela gerou. Houve, portanto, uma forma de união espiritual de todo o ser d’Ela com o Divino Espírito Santo, que preparou a Encarnação.

Porque quem se Encarnou a Si próprio foi o Verbo. Não creio que se possa dizer que o Espírito Santo encarnou o Verbo. Eles são perfeitamente iguais; portanto, não pode um ter Encarnado outro. O Verbo é que se Encarnou.

E, por um princípio ordinário que banha seu manto nas águas tão terrestres da cortesia, chego à conclusão de que, dada a igualdade absoluta entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não se poderia fazer uma operação tão alta estando o Pai alheio inteiramente: Seria “descortesia” da parte das outras duas Pessoas – o “descortês” aqui vai entre aspas.

Portanto, deve ter havido também ação do Pai Eterno.

 

Embora insignificantes se comparadas com a visão beatífica, tais considerações conduzem ao Reino de Maria

Depois de termos feito ideia de como e esse périplo, entenderíamos como Nossa Senhora gera os homens em Jesus Cristo, um gerar todo espiritual, de outra natureza. Mais uma vez é Ela quem gera.

Assim, compreenderíamos o “Segredo de Maria”[2], o segredo do relacionamento d’Ela com os homens, bem como da ordenação perfeita das relações humanas na Igreja e no plano temporal.

Talvez essas considerações sejam insignificantes em comparação com a realidade que teremos diante dos olhos na Eternidade. Mais ou menos como os primeiros mapas da América, os quais hoje nos fazem sorrir, mas que continham, apesar de tudo, uma figura do continente.

Não estamos descobrindo coisas que nunca nenhum teólogo explicou. Mas, do fundo de nossa ignorância de leigos, estamos redescobrindo o que estudar. E dessa redescoberta seríamos os cartógrafos que fazem esse primeiro mapa canhestro de um estudo, o qual conduziria ao Reino de Maria.

 

O processo de santificação de Nossa Senhora adquiriu maior profundidade no convívio com o Espírito Santo

Uma vez que Nossa Senhora se tornou esposa do Divino Espírito Santo, qual é a energia dessa condição de esposa, antes de tudo psicologicamente?

Concebida sem pecado original, julgo que Ela foi confirmada em graça desde o primeiro instante do seu ser. Mas, o processo pelo qual Nossa Senhora iria crescendo em santidade tomou uma energia, uma realidade, uma profundidade, num convívio especial com o Esposo d’Ela, o Espírito Santo.

Havia entre ambos uma constante união, onde o Espírito Santo – que não precisa de complementação para nada, porque é Deus – tinha sua glória, ressoando a santidade d’Ele no espírito e na alma de Nossa Senhora, como uma corda de violão que, colocada naquela caixa, ressoa de modo especial. Há um bem para a corda e para o som, e este se amplia. E todas as coisas que o Espírito Santo quereria falar aos homens ao longo da História até o fim do mundo, eu seria levado a achar que Ele disse a Ela, que foi a caixa de ressonância.

E porque houve no gênero humano quem recebesse isso perfeitamente, com tal plenitude, ficamos muito mais enriquecidos pelo fato de Ela ter sido santa como foi.

 

Qual caixa de ressonância celeste, Maria faz com que as maravilhas operadas em Si repercutam pela História inteira

No processo histórico da Revolução e da Contra-Revolução, compreende-se o progresso incessante da obra e da grandeza de Nossa Senhora, mesmo quando atua nos escombros ocasionados pela Revolução. É o contínuo progresso da união d’Ela com o Divino Espírito Santo, ao longo dos séculos.

A raça da Virgem prossegue por ascensão, até aquele conhecimento perfeito em que o Espírito Santo fale a Nossa Senhora: “Eu disse tudo”, e Ela responda: “Compreendi tudo”. E, por esse aspecto, a História do mundo acaba.

Se não fosse isso, Ela concebeu e depois tudo se acabou, pois não tiveram mais nexo nenhum, os desponsórios se esgotaram numa só produção. É claro que sim, porque Nosso Senhor é Filho unigênito do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora. Mas depois há um outro modo de conceber, e tenho a impressão de que todas essas coisas têm continuidades históricas que se refletem na vida dos homens.

E aqui compreendemos bem o papel d’Ela: é a caixa de ressonância celeste, que dá amplificações, fazendo com que tudo quanto foi realizado n’Ela repercuta pela História inteira.

 

Ao criar a alma de Nosso Senhor no seio de Maria Santíssima, o Pai Eterno elegeu o píncaro de sua ação criadora

Há em Nossa Senhora um papel contínuo com o Verbo, e um outro papel contínuo com o Espírito Santo.

Como será o papel com o Pai Eterno?

As três Pessoas da Santíssima Trindade, uma e trina, desenvolvem ao longo da História, em função de Nossa Senhora, um papel que é distinto e, ao mesmo tempo, único, sendo Ela, a um título especial, a Medianeira.

Sem prejuízo da perfeita igualdade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, eu diria que o Pai Eterno representa mais o rude e o Espírito Santo o requintado. O Divino Espírito Santo é a vida, a marcha de todas as coisas, por onde o ato criador se prolonga.

A alma de Nosso Senhor foi criada pelo Pai Eterno no seio de Maria Santíssima e este foi o píncaro de sua ação criadora.

O Pai Eterno criou o Céu e a Terra e depois as almas[3]. À sensibilidade desequilibrada do homem do século XX, a criação do Céu e da Terra parece ser mais importante, porque mais palpável e mais vasta do que a criação das almas dos homens. Mas isso é falso. Aqueles constituem o lado logístico; quando Ele começou a criar almas, sua ação criadora subiu para um patamar mais alto.

Se, por assim dizer, pudéssemos nos colocar no ângulo da visão do Padre Eterno, veríamos primeiro os anjos e depois as almas humanas numa ordem grandiosa. Não numa progressão retilínea, mas variada, circunstanciada, riquíssima, que nos deixaria extasiados.

E o centro dessa obra-prima é a Alma da natureza humana de Nosso Senhor. E essa Alma humana – que é um principium vitae d’Ele – seria o píncaro de toda a ação criadora de Deus.

Depois das almas humanas viria o plano sobrenatural, a criação da graça às torrentes.

Então, seria a ação criadora que toma dois aspectos: o plano natural e a vida divina, porque a graça é um dom criado, uma espécie de Pentecostes permanente.

Como, nas entranhas da Virgem Maria, se criou a matéria humana para receber a Alma de Nosso Senhor? Por ação do Espírito Santo, a alma de Nossa Senhora deveria estar pronta para que a Alma-píncaro fosse criada dentro d’Ela. Haveria reversibilidades e belos temas para se estudar: por exemplo, a Igreja.

A igreja é a sociedade em que as almas estão postas entre si numa inter-relação, formando uma espécie de  imensa família em que isso tudo circula vindo de Deus. É uma miniatura do Céu.

Tudo isso teve seu píncaro, seu desfecho e sua raiz inicial com a Anunciação na Casa de Nazaré. E para melhor se conhecer a Trindade, seria importante aprofundar o estudo sobre isso.

 

A Eucaristia no Paraíso para sustar a tendência descendente do homem

A Eucaristia é outro ponto que, de algum modo, se poderia estudar em função disso. Em consequência do pecado original, e talvez mesmo que ele não tivesse ocorrido, haveria Eucaristia.

No Paraíso terrestre, o homem, por natureza, era mortal e possuía imortalidade por um dom preternatural. Portanto, independente do pecado, e pelo fato de estarmos vinculados à carne, algo em nós é descendente. Nossa natureza tem, por assim dizer, uma apetência da morte e da inércia.

E para sustar essas coisas descendentes, um modo maravilhoso, excogitado pela sabedoria de Deus – não quero dizer que fosse o modo necessário -, teria sido de Ele vir habitar periodicamente ou sempre, nestas ou naquelas pessoas, e estar realmente presente, sob as espécies eucarísticas, em igrejas, basílicas, catedrais, dentro do Paraíso. De maneira que essa tendência descendente no homem fosse sustada pela Eucaristia, viático no sentido etimológico da palavra, ajudando-o a percorrer a via.

Então, a ação criadora de Deus Pai, a ação da segunda e terceira pessoa Pessoas da Santíssima Trindade, seria continuamente prolongada e reforçada, a seu modo, pela Sagrada Eucaristia. A ação criadora seria prolongada neste sentido: daria ao homem um sustento para evitar as forças da decadência.

A árvore da vida valeria para o corpo. Quem sabe se, instituída a Sagrada Eucaristia, esta seria a árvore da vida para a alma e talvez também para o corpo?

Tudo isso somado, percebo que temos perspectivas de um verum, bonum, pulchrum de uma altura inexcogitável; é um Céu! E ainda que ficássemos reduzidos a não poder fazer nada e estudar só isto, realizaremos uma coisa colossal!

 

O conhecimento do segredo de Maria

O Segredo de Maria, segundo a expressão de São Luís Grignion, não é concebido na pura especulação, mas é algo por onde Nossa Senhora nos salva. É um modo de Ela operar em nossas almas, que pressupõe um conhecimento nosso a respeito de Maria Santíssima, o qual determina em nós uma atitude especial diante d’Ela. Essa atitude é especialmente salvífica. Isso se refere à Fé.

Há depois a esperança, abrindo para nós uma viabilidade da salvação que parece extraordinariamente difícil, comprometida, nesse vale de lágrimas. A salvação se torna mais fácil, desde que tomemos em conta esse segredo, o amemos e procedamos em função dele.

É uma particular excelência do amor de Deus e de Nossa Senhora, à luz das maravilhas que o amor materno consegue especialmente de Deus. Ele quer esse amor materno e nossas almas crescem no amor a Ele, autor dessa Mãe. (Extraído de conferência de 9/8/1984)

 

(Revista “Dr. Plínio”, n. 171, junho de 2012, págs. 20/23)

 

 

 

 

 



[1] Gl 2, 20

[2] Cf. In: Plínio     n, 156, p. 27

[3] No início da criação Deus dizia “faça-se...” as coisas eram criadas; porém, ao criar o homem, disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, quer dizer, falou no plural dando a entender que nesse ato esteve presente toda a Santíssima Trindade.





quarta-feira, 27 de maio de 2026

NOSSA SENHORA DAS TEMPESTADES

 




A invocação de Nossa Senhora das Tempestades: origem e significados
Hoje, 17 de maio, ocorre em Tolentino a festa de Nossa Senhora das Tempestades. O histórico dessa devoção é o seguinte:

"São Leonardo fez colocar na sua Igreja primitiva de Santa Maria, em Tolentino, uma imagem da Virgem que tivera na capela do Seminário. Convidou então os habitantes do local a implorar à Virgem Santíssima a graça de preservar a cidade dos prejuízos do granizo, tão frequente na região. A Virgem ouviu o pedido.

“Pio VII, em seu retorno do cativeiro na França (a 17 de maio de 1814), coroou solenemente a Virgem milagrosa e aprovou o ofício próprio a toda diocese".

Uma vez mais, se trata de um fato que nos faz ver o modo pelo qual as devoções de Nossa Senhora costumam se formar. Em geral, é uma graça concedida por Ela para alguém ou a uma população. E esta mercê, que tem todo o sabor espiritual e imponderável de um sorriso d’Ela, incute estavelmente nas pessoas a esperança de serem atendidas em outras necessidades.

Então, aquela invocação que se liga àquele favor nos dá a ideia da misericórdia de Nossa Senhora e do socorro prestado por Ela em condições espirituais análogas àquelas condições terrenas.

Então, havia uma imagem numa capela do Seminário; essa imagem, com certeza muito expressiva e muito bonita, São Leonardo a destinou depois para ser exposta em uma igreja de sua diocese, na Igreja de Santa Maria, em Tolentino.

Ali o povo a venerava, mas ele recomendou que se pedisse a Nossa Senhora o favor de que as tempestades não se desencadeassem nesse local com a intensidade destrutiva com que ocorriam antigamente. Essa graça, de índole material fez com que as tempestades cessassem e a população se visse livre daquele flagelo. Então a imagem passou a ser invocada sob o nome de Nossa Senhora das Tempestades, ou seja, Nossa Senhora que vence as tempestades, que previne as tempestades. Podia se chamar também Nossa Senhora da Bonança.

O Papa Pio VII, fugindo da “tempestade” (por ele desencadeada na França, devido ao modo como conduziu o caso de Napoleão), passando por Tolentino e dando graças a Deus por se sentir livre das garras de Napoleão, entendeu que daquela tempestade estava salvo por causa de Nossa Senhora. Então coroou a imagem de Nossa Senhora das Tempestades. Mas a palavra “tempestade” significando outra coisa: as tempestades da História, as tempestades da vida, as tempestades da alma...

Então, é Nossa Senhora patrona dos homens postos em tempestades de toda ordem: espirituais, portanto, da luta contra o pecado, da queda no pecado, para prevenir o pecado, tempestades que a alma sente quando vê outros em pecado, tempestade nas grandes aflições espirituais que a vida pode trazer; enfim, as mil tempestades em que uma vida pode estar em jogo.
Então, pedir o socorro a Nossa Senhora no meio das tempestades, sentindo-se fraco, pequeno, incapaz de evitar completamente a tempestade, de vencê-la, recomendar-se a Ela é exatamente a ideia que está posta dentro dessa invocação.

Mas ela abarca também uma ideia de compaixão. Toda mãe, quando sente seu filho na tempestade, tem uma pena enorme e acorre sôfrega, não vem devagar, e vem com toda velocidade que os interesses espirituais daquele filho permitem. Mas aí, nesse sentido, ela vem imediatamente.

Então, a ideia de Nossa Senhora enquanto nosso socorro nas aflições, expressa em tantas outras invocações: Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora do Socorro, Nossa Senhora dos Aflitos. Porém ela tem uma formulação muito bonita no título de Nossa Senhora das Tempestades. A gente compreende, portanto, quão expressiva é essa invocação.

Há duas espécies de tempestades: as torrenciais e uma outra que é uma completa subversão da atmosfera com água, chuviscos, escuridão, incerteza, terra escorregadia... e que analogicamente também se poderia chamar de tempestade. Há situações da vida espiritual que são assim. São todas elas cheias de dramas, de dificuldades, de incertezas, e que constituem formas diversas de tempestades. Nossa Senhora nos ajuda em todas essas tempestades. Aí nós temos, então, Nossa Senhora das Tempestades.
Dois pensamentos aparentemente opostos, de São Boaventura e de Santa Teresinha, mostram a beleza das vias de Deus.

Agora, vem um pensamento de São Boaventura que vem aqui consignado e é muito bonito:

"Eu vos saúdo, Maria que acalmais o mar tempestuoso do mundo. Que Jesus, que dorme em nosso barco, se levante acordado por Vós.”
É uma referência ao fato de que Jesus estava na tempestade, com os Apóstolos num barco, e estes O acordaram. E Ele fez cessar a tempestade. Tantas vezes Jesus “dorme”. Então, Nossa Senhora acorda Jesus para que venha ao socorro e, diz o Evangelho, que se fez então uma grande bonança depois que Jesus acordou.

E vem um comentário que acho magnífico: “ uma completa obediência em relação a Ele”!

Santa Teresinha do Menino Jesus tem um pensamento oposto: quando a pessoa sofre, não deve pedir muitas vezes que o sofrimento passe, para oferecer pela Causa da Santa Igreja. Então, diz ela: "não acorde Jesus que está dormindo em seu barco. Deixe-O dormir, deixe que pelo menos na sua alma Ele descanse. Não O acorde...”

Um santo recomenda: “acorde”, e é esplêndido! Uma santa recomenda: “não acorde”, e é esplêndido também! Tudo depende das vias de Deus. Vejam a beleza desses vários caminhos e o universo de maravilhas morais que existe nisso!...

Novena a Nossa Senhora Auxiliadora e portentos que São João Bosco obtinha por sua intercessão

Amanhã começa a novena de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos. O grande Dom Bosco obteve várias graças nessa novena e a recomendava muito a todos os salesianos. Um padre salesiano recomendou hoje essa novena na igreja, assim: três Padre Nossos e três Salve Rainhas. Os senhores querendo façam assim se quiserem. Eu aprendi de outro modo, acho muito mais razoável e é assim que farei: três Padre Nossos, três Ave Marias, três Glória Patri, depois dos quais se diz: “Louvado e adorado seja o Santíssimo Sacramento” e depois uma Salve Rainha seguida da jaculatória “Auxilium Christianorum, ora pro nobis” (Auxílio dos Cristãos, rogai por nós).

A fórmula não é tão importante; o importante é fazer uma novena. Mas a fórmula tem também seu interesse pois que é uma fórmula que Nossa Senhora premiou com manifestações de agrado especiais. É legítimo que se procure usar essa fórmula, com toda fidelidade, para agradar a Ela.

Recomendo essa novena porque Dom Bosco - já comentei outro dia sobre ele aqui - em nossa época, é o grande arauto de Nossa Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos.

As maravilhas que se passaram na existência dele a respeito de Nossa Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos foram extraordinárias! Ele conseguia coisas assim - e aqui está mais uma vez a diversidade de espíritos entre os católicos fiéis -, por exemplo, mandava construir uma torre de uma igreja. Quando os trabalhos estavam em pleno andamento, acabava o dinheiro. Aí começava aquele berreiro, credores etc., operários, toda a inferneira de uma obra nessa situação... Então, ele dizia: "o que é que eu posso fazer? Eu vou à rua e vou fazer um pequeno passeio para ver se Nossa Senhora me ajuda". Ia diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, rezava essas tais orações e saía. Voltava com o bolso cheio de dinheiro e pagava todos a quem devia. Nessas condições, naturalmente, compreende-se que ele tenha adotado esse sistema...

 

Síntese biográfica de São Felix de Cantalício

Apesar de já ter tomado muito o tempo dos senhores, eu teria escrúpulo em não ler a síntese biográfica de São Félix de Cantalício, porque teria pena de deixar desaproveitado um esforço tão meritório e tão constante como é esse do fornecimento de tais fichas.

A síntese biográfica é tirada do Rohrbacher, "História Universal da Igreja Católica":

“São Félix nasceu em 1513, em Cantalício, nos Estados Pontifícios, de pais pobres, mas muito virtuosos. Desde criança demonstrou tanta piedade e inclinação para a virtude, que já então o chamavam de santo.

“Guardando rebanho ou trabalhando no campo como lavrador, toda sua vida era de oração. Quando lhe perguntavam se sabia ler, respondia: sei somente seis letras, cinco vermelhas e uma branca. As vermelhas são as chagas de Nosso Senhor, a branca é a Santíssima Virgem.

“A uma grande humildade reunia uma alegria constante e infatigável caridade.

“Um dia, tendo saído ileso milagrosamente de um acidente, decidiu ingressar na Ordem de São Francisco, onde pediu admissão como irmão converso. Destacou-se logo de toda a comunidade por sua profunda vida interior, suas mortificações, grande compreensão do espírito franciscano e pureza inabalável.

“Manifestava sempre especial respeito ao nome de Jesus e à palavra "Deo Gratias".

“Tinha-se por esse religioso uma tão grande veneração em Roma que, quando passava na rua, os príncipes descobriam a cabeça para saudá-lo”.

“E os cardeais faziam parar as suas carruagens.

“Dele se conta que um dia São Felipe de Neri atravessava o Quirinal - que era a residência papal - quando São Félix de Cantalício correu a ajoelhar-se a seus pés e pedir-lhe a bênção. Felipe abraçou-o e assim permaneceram longo tempo sem proferirem uma palavra”.

São Félix e São Felipe Neri: um dos encontros pinaculares da História
Que cena, hein?! Em vez de tanta conversinha de sacristia que a gente vê por aí, um santo ajoelhado abraçando outro santo que está de pé. E longamente abraçados, sem dizer uma palavra. Que louvores a graça de Deus fazia da alma de um para o outro e do segundo para o primeiro! Aí se pode dizer que é o Espírito Santo louvando-se a Si mesmo pela boca dos inocentes, quer dizer, pela boca dos santos. É uma verdadeira maravilha! São desses encontros pinaculares da História. Pobres de nós! Tão longe disso... nesse lodo... Se Nossa Senhora das Tempestades não nos ajudar...

“Depois, afastaram-se cheios de alegria, como outrora São Luís de França e o Bem-aventurado Gilles, companheiro de São Francisco e de São Boaventura. Seus corações tinham falado e isso bastava.”

São Luís IX encontrou esse Beato Gilles e os dois sabiam quem eram, ou, por outra, cada um sabia quem era o outro. Então, se abraçaram longamente e depois foram embora.

Estava tudo dito; não tinham mais nada que dizer. Há silêncios que dizem tanto mais do que qualquer palavra...

“Quando São Félix morreu, a 18 de maio de 1587, não pôde ser enterrado por muitos dias por causa da multidão inumerável de povo que, encontrando fechadas as portas do convento, escalavam os muros...”

“Enchiam os pátios, as salas, as ruas, as praças, a Igreja. O santo franciscano foi canonizado em 1712, por Clemente XI.”

Alguns aqui estiveram em Roma.  Lembram-se daquela igreja que tem no Corso Vitorio Veneto? É quando dá aquela dobra, passa pelo Hotel Ambasciatore e desce para a Piazza Barberini. Nessa igreja, a gente entra e, num altar que está perto da porta, há uma figura num esquife e escrito: "aqui estão os restos mortais de São Félix de Cantalício".

Roma está cheia de maravilhas assim! Um santo prodigioso desse... são tantos santos e de toda ordem que, em qualquer canto a gente encontra maravilhas. Esta é a Roma dos Papas!... A Roma post-constantiniana, d’Ela eu não falo. Mas a Roma constantiniana, essa Roma era assim.
Que comentário fazer a respeito de São Félix Cantalício?

Os senhores estão vendo que isso tem uma poesia, é tudo feito de contrastes: o vermelho e o branco são duas cores que estão, entre si, num contraste, de algum modo, tão categórico quanto o branco e o preto. Porque o vermelho é o sumo - eu ia dizer que é o sumo do rubor, porque está dito tudo com isso - e o branco é tão alvo, tão diferente do vermelho, tão pacífico, enquanto o vermelho é vivaz, castanholas na mão...

E temos um outro contraste: é Cristo sofredor, Cristo chagado, Cristo dilacerado. Ao lado disso, Nossa Senhora, virginal, em quem nunca se tocou com a mão para abrir uma chaga ou para fazer uma ferida e que nos aparece tantas e tantas vezes na sua virgindade sob a forma de um sorriso, de uma alegria, de uma carícia. Poder-se-ia dizer que toda a tristeza e toda a alegria do Evangelho e, portanto, toda a tristeza e toda a alegria da vida, e se se pudesse falar em tristeza do Céu, toda a tristeza e toda a alegria do Céu cabem exatamente dentro dessa comparação, dentro dessa justaposição.
Os senhores vejam como isso dá um tema de meditação lindíssimo. Alma puríssima, alma extraordinariamente elevada desde menino... vejam os senhores o mistério de uma vocação: foi preciso, entretanto, que ele sofresse uma doença séria para pensar em ser franciscano. Os senhores vejam bem - eu não quero fazer juízo temerário em relação a um tão grande santo, Deus me livre! - mas fica assim um vislumbre de ser preciso sacudir qualquer coisinha. Não é verdade?

Peçamos então, nessa novena a Nossa Senhora Auxiliadora, que Ela sacuda em nós qualquer coisinha para sermos inteiramente d’Ela.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - Conferência Santo do Dia, 17 de maio de 1966)