terça-feira, 2 de junho de 2026

DESNUDANDO O IGUALITARISMO EM CORDÉIS

 




 

                                     Uma vez um cientista pegou
Três gotas para examinar:
Deveria procurar descobrir
O que elas iam representar
 
A primeira a ser analisada
Era branca e luminosa
Tão simples e tão pura
Que brilhava radiosa
 
Passou para a segunda
Onde lhe pareceu brilho igual
Olhou logo a terceira
E nada viu de anormal
 
Pesquisando nas três gotas
Pensou alto, com seus botões:
- Parecem todas iguais
Nelas não há distinções
 
A terceira retrucou:
- "iguais coisa nenhuma
Pois sou uma lágrima
Que supera qualquer uma"
 
A segunda gota, então,
Ao ouvir o que esta dizia
Virou-se para a lágrima
E respondeu com ufania:
 
"Realmente não somos iguais
Pois sou uma gota de suor
E das outras gotas ademais
Sou eu mesma a melhor"
 
A gota de lágrima respondeu:
"Que há de melhor no suor?
Sua única vantagem é
Fácil de sair em seu senhor"
 
Para parar a discussão
Veio à fala o cientista:
"Descubro já se há diferença
Num só golpe de vista":
 
"Vejo nesta gota de suor
Muito sal e coisa orgânica
Que tem também na lágrima
De origem anatômica"
 
É bem verdade - diz a lágrima
Que trazemos do corpo humano
Substâncias que lá encontramos
Mas que somos iguais, é engano!
 
Se o suor vem do esforço
Eu nasci do sofrimento
E assim nossa diferença
Vem desde o nascimento
 
A primeira gota - água pura
Precipitou-se com afobamento:
"Lá vem você com elitismo
Com nobreza de nascimento!"
 
"Nascemos todas iguais
Frutos da mesma formação
O cientista aí bem já viu
Nossa orgânica composição "
 
"Ah, isso não é verdade -
Responde a gota de suor,
Pois você é água pura,
Nem cheira e nem tem cor"
 
 
Volta a falar o cientista
Para acabar a discussão
E explica para as três gotas
O que deduziu com exatidão:
 
"Na realidade eu descobri
Nas três uma só igualdade:
É que todas são de água
E brilham com intensidade
 
Mas logo a desigualdade
Se apresenta num só momento
Tanto no suor do esforço
Quanto na lágrima do sofrimento"
 
A gota d'água responde:
"É, mas as outras são iguais
Pois carregam consigo
Substâncias materiais"
 
- "Mesmo assim tais substâncias
Nada têm de igualdade
Pois a que vem do esforço
É inferior à da dor de verdade
 
A lágrima se torna assim
Superior por nascimento:
Ela vem da angústia, da dor,
É filha do sofrimento"
 
- "O cientista sabe - diz a água,
De que foi criado o mundo
Deus fez de simples gota d'água
Este Universo num segundo
 
Então, se há mérito no nascimento
Tenho mais, pois nasci primeiro
De mim surgiu todo o resto
Que compõe o mundo inteiro"
 
- "Se isto for mérito maior
O nascer primeiro tem mais valia
Então vale mais do que a água
O nada que lhe precedia
 
 
 
Pois, como reza a Tradição
Que no Catecismo é ensinada
Deus fez todo o mundo material
De nenhuma substância, do nada!"
 
O esforço vale pelo que faz
A dor pelo que se sente
Do que vem de dentro da alma
Do que se passa interiormente
 
Quando a dor é profunda
E atinge  o centro do coração
Ela compunge tanto nossa alma
Que produz a lacrimação
 
Por isto na hierarquia das gotas
A lágrima tem destaque especial
Ela é superior a qualquer oceano
E faz-se ser mui desigual
 
Pois ela vem do coração
Até chegar ao saco lacrimal
É filha da nobreza da dor
De importância sem igual
 
No calor da discussão
Chega ali outra pessoa
Gotejando sangue na mão
Dá um grito que reboa:
 
 
"Nenhuma gota é superior
A estas que trago na mão!
Foram elas sublimadas
Pela Cruz na Redenção!"
 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

DIVINO DESPONSÓRIO

 



 

(Revista “Dr. Plínio” n. 63, junho de 2003_

 

 

 

Ao comentar o desponsório da Santíssima Virgem com o Espírito Santo, Dr. Plínio excogita belas hipóteses teológicas acerca dos efeitos da Encarnação operados ao longo da História.

 

Farei algumas hipóteses, que me pareceu muito prováveis e poderão servir de ponto de partida para um estudo mais aprofundado.

 

Nosso Senhor é modelo perfeitíssimo

Os possíveis de Deus, ou seja, as coisas que Ele poderia criar, de algum modo existem em Nosso Senhor, pois Este é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a própria fonte de toda graça.

Na Pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, com duas naturezas, vou considerar sobretudo a humana, pois sua natureza divina já foi bastante estudada.  Na sua natureza humana, pelo fato da união hipostática, por ter sido Jesus gerado por Nossa Senhora pela ação do Espírito Santo, Ele é um compêndio de todas as perfeições as quais Deus desejou que a Humanidade tivesse , e em todos os graus possíveis. De maneira que toda a Humanidade, de algum modo, pelo menos no seu aspecto moral, está contida n’Ele.

 

A riquíssima relação entre a humanidade de Jesus e o gênero humano

Surge, então, uma pergunta linda, luminosa, para cuja resposta, no momento, não me sinto à altura para nem sequer levantar hipótese. A graça, participação de Jesus Cristo nos homens, nós entendemos perfeitamente bem no que diz respeito à natureza divina. Mas restaria saber como se dá quanto à sua natureza humana. Porque é a Pessoa d’Ele que se deixa participar por nós.

Há, portanto, uma relação entre a humanidade d’Ele e o gênero humano, que deve ser uma coisa riquíssima, inexaurível. Seria preciso imaginar uma participação por conaturalidade terrena na graça que Ele obteve, havendo a união hipostática.

Como pode haver uma tal participação entre a natureza humana e o Homem-Deus? E depois, como isso se dá de fato, considerando aquela frase de São Paulo Apóstolo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”?[1]

 

Da relação de Maria com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade decorre a geração da humanidade de Nosso Senhor

Ora, para se compreender bem essa questão, é preciso considerar o papel de Nossa Senhora.

De fato, nossa participação em Jesus Cristo far-se-ia um tanto ex abrupto, a ponto de causar um certo mal-estar, se não fosse por intermédio de sua Mãe, cuja perfeição decorre do desponsório com o Espírito Santo.

Nossa Senhora não teve a união hipostática. Mas o que significa a relação d’Ela, como Esposa, com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, para que dessa relação decorresse a geração da humanidade de Nosso Senhor?

Quer dizer, nesse momento houve uma operação divina, uma interferência evidentemente numa ordem toda sobrenatural, cuja repercussão foi produzir a geração. A carne d’Ela ficou em condições de receber a união hipostática.

Então, na Encarnação, a ação do Espírito Santo parece ter precedido cronologicamente a operação da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Primeiro o Espírito Santo se tornou esposo da Virgem Maria e depois Ela gerou. Houve, portanto, uma forma de união espiritual de todo o ser d’Ela com o Divino Espírito Santo, que preparou a Encarnação.

Porque quem se Encarnou a Si próprio foi o Verbo. Não creio que se possa dizer que o Espírito Santo encarnou o Verbo. Eles são perfeitamente iguais; portanto, não pode um ter Encarnado outro. O Verbo é que se Encarnou.

E, por um princípio ordinário que banha seu manto nas águas tão terrestres da cortesia, chego à conclusão de que, dada a igualdade absoluta entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não se poderia fazer uma operação tão alta estando o Pai alheio inteiramente: Seria “descortesia” da parte das outras duas Pessoas – o “descortês” aqui vai entre aspas.

Portanto, deve ter havido também ação do Pai Eterno.

 

Embora insignificantes se comparadas com a visão beatífica, tais considerações conduzem ao Reino de Maria

Depois de termos feito ideia de como e esse périplo, entenderíamos como Nossa Senhora gera os homens em Jesus Cristo, um gerar todo espiritual, de outra natureza. Mais uma vez é Ela quem gera.

Assim, compreenderíamos o “Segredo de Maria”[2], o segredo do relacionamento d’Ela com os homens, bem como da ordenação perfeita das relações humanas na Igreja e no plano temporal.

Talvez essas considerações sejam insignificantes em comparação com a realidade que teremos diante dos olhos na Eternidade. Mais ou menos como os primeiros mapas da América, os quais hoje nos fazem sorrir, mas que continham, apesar de tudo, uma figura do continente.

Não estamos descobrindo coisas que nunca nenhum teólogo explicou. Mas, do fundo de nossa ignorância de leigos, estamos redescobrindo o que estudar. E dessa redescoberta seríamos os cartógrafos que fazem esse primeiro mapa canhestro de um estudo, o qual conduziria ao Reino de Maria.

 

O processo de santificação de Nossa Senhora adquiriu maior profundidade no convívio com o Espírito Santo

Uma vez que Nossa Senhora se tornou esposa do Divino Espírito Santo, qual é a energia dessa condição de esposa, antes de tudo psicologicamente?

Concebida sem pecado original, julgo que Ela foi confirmada em graça desde o primeiro instante do seu ser. Mas, o processo pelo qual Nossa Senhora iria crescendo em santidade tomou uma energia, uma realidade, uma profundidade, num convívio especial com o Esposo d’Ela, o Espírito Santo.

Havia entre ambos uma constante união, onde o Espírito Santo – que não precisa de complementação para nada, porque é Deus – tinha sua glória, ressoando a santidade d’Ele no espírito e na alma de Nossa Senhora, como uma corda de violão que, colocada naquela caixa, ressoa de modo especial. Há um bem para a corda e para o som, e este se amplia. E todas as coisas que o Espírito Santo quereria falar aos homens ao longo da História até o fim do mundo, eu seria levado a achar que Ele disse a Ela, que foi a caixa de ressonância.

E porque houve no gênero humano quem recebesse isso perfeitamente, com tal plenitude, ficamos muito mais enriquecidos pelo fato de Ela ter sido santa como foi.

 

Qual caixa de ressonância celeste, Maria faz com que as maravilhas operadas em Si repercutam pela História inteira

No processo histórico da Revolução e da Contra-Revolução, compreende-se o progresso incessante da obra e da grandeza de Nossa Senhora, mesmo quando atua nos escombros ocasionados pela Revolução. É o contínuo progresso da união d’Ela com o Divino Espírito Santo, ao longo dos séculos.

A raça da Virgem prossegue por ascensão, até aquele conhecimento perfeito em que o Espírito Santo fale a Nossa Senhora: “Eu disse tudo”, e Ela responda: “Compreendi tudo”. E, por esse aspecto, a História do mundo acaba.

Se não fosse isso, Ela concebeu e depois tudo se acabou, pois não tiveram mais nexo nenhum, os desponsórios se esgotaram numa só produção. É claro que sim, porque Nosso Senhor é Filho unigênito do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora. Mas depois há um outro modo de conceber, e tenho a impressão de que todas essas coisas têm continuidades históricas que se refletem na vida dos homens.

E aqui compreendemos bem o papel d’Ela: é a caixa de ressonância celeste, que dá amplificações, fazendo com que tudo quanto foi realizado n’Ela repercuta pela História inteira.

 

Ao criar a alma de Nosso Senhor no seio de Maria Santíssima, o Pai Eterno elegeu o píncaro de sua ação criadora

Há em Nossa Senhora um papel contínuo com o Verbo, e um outro papel contínuo com o Espírito Santo.

Como será o papel com o Pai Eterno?

As três Pessoas da Santíssima Trindade, uma e trina, desenvolvem ao longo da História, em função de Nossa Senhora, um papel que é distinto e, ao mesmo tempo, único, sendo Ela, a um título especial, a Medianeira.

Sem prejuízo da perfeita igualdade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, eu diria que o Pai Eterno representa mais o rude e o Espírito Santo o requintado. O Divino Espírito Santo é a vida, a marcha de todas as coisas, por onde o ato criador se prolonga.

A alma de Nosso Senhor foi criada pelo Pai Eterno no seio de Maria Santíssima e este foi o píncaro de sua ação criadora.

O Pai Eterno criou o Céu e a Terra e depois as almas[3]. À sensibilidade desequilibrada do homem do século XX, a criação do Céu e da Terra parece ser mais importante, porque mais palpável e mais vasta do que a criação das almas dos homens. Mas isso é falso. Aqueles constituem o lado logístico; quando Ele começou a criar almas, sua ação criadora subiu para um patamar mais alto.

Se, por assim dizer, pudéssemos nos colocar no ângulo da visão do Padre Eterno, veríamos primeiro os anjos e depois as almas humanas numa ordem grandiosa. Não numa progressão retilínea, mas variada, circunstanciada, riquíssima, que nos deixaria extasiados.

E o centro dessa obra-prima é a Alma da natureza humana de Nosso Senhor. E essa Alma humana – que é um principium vitae d’Ele – seria o píncaro de toda a ação criadora de Deus.

Depois das almas humanas viria o plano sobrenatural, a criação da graça às torrentes.

Então, seria a ação criadora que toma dois aspectos: o plano natural e a vida divina, porque a graça é um dom criado, uma espécie de Pentecostes permanente.

Como, nas entranhas da Virgem Maria, se criou a matéria humana para receber a Alma de Nosso Senhor? Por ação do Espírito Santo, a alma de Nossa Senhora deveria estar pronta para que a Alma-píncaro fosse criada dentro d’Ela. Haveria reversibilidades e belos temas para se estudar: por exemplo, a Igreja.

A igreja é a sociedade em que as almas estão postas entre si numa inter-relação, formando uma espécie de  imensa família em que isso tudo circula vindo de Deus. É uma miniatura do Céu.

Tudo isso teve seu píncaro, seu desfecho e sua raiz inicial com a Anunciação na Casa de Nazaré. E para melhor se conhecer a Trindade, seria importante aprofundar o estudo sobre isso.

 

A Eucaristia no Paraíso para sustar a tendência descendente do homem

A Eucaristia é outro ponto que, de algum modo, se poderia estudar em função disso. Em consequência do pecado original, e talvez mesmo que ele não tivesse ocorrido, haveria Eucaristia.

No Paraíso terrestre, o homem, por natureza, era mortal e possuía imortalidade por um dom preternatural. Portanto, independente do pecado, e pelo fato de estarmos vinculados à carne, algo em nós é descendente. Nossa natureza tem, por assim dizer, uma apetência da morte e da inércia.

E para sustar essas coisas descendentes, um modo maravilhoso, excogitado pela sabedoria de Deus – não quero dizer que fosse o modo necessário -, teria sido de Ele vir habitar periodicamente ou sempre, nestas ou naquelas pessoas, e estar realmente presente, sob as espécies eucarísticas, em igrejas, basílicas, catedrais, dentro do Paraíso. De maneira que essa tendência descendente no homem fosse sustada pela Eucaristia, viático no sentido etimológico da palavra, ajudando-o a percorrer a via.

Então, a ação criadora de Deus Pai, a ação da segunda e terceira pessoa Pessoas da Santíssima Trindade, seria continuamente prolongada e reforçada, a seu modo, pela Sagrada Eucaristia. A ação criadora seria prolongada neste sentido: daria ao homem um sustento para evitar as forças da decadência.

A árvore da vida valeria para o corpo. Quem sabe se, instituída a Sagrada Eucaristia, esta seria a árvore da vida para a alma e talvez também para o corpo?

Tudo isso somado, percebo que temos perspectivas de um verum, bonum, pulchrum de uma altura inexcogitável; é um Céu! E ainda que ficássemos reduzidos a não poder fazer nada e estudar só isto, realizaremos uma coisa colossal!

 

O conhecimento do segredo de Maria

O Segredo de Maria, segundo a expressão de São Luís Grignion, não é concebido na pura especulação, mas é algo por onde Nossa Senhora nos salva. É um modo de Ela operar em nossas almas, que pressupõe um conhecimento nosso a respeito de Maria Santíssima, o qual determina em nós uma atitude especial diante d’Ela. Essa atitude é especialmente salvífica. Isso se refere à Fé.

Há depois a esperança, abrindo para nós uma viabilidade da salvação que parece extraordinariamente difícil, comprometida, nesse vale de lágrimas. A salvação se torna mais fácil, desde que tomemos em conta esse segredo, o amemos e procedamos em função dele.

É uma particular excelência do amor de Deus e de Nossa Senhora, à luz das maravilhas que o amor materno consegue especialmente de Deus. Ele quer esse amor materno e nossas almas crescem no amor a Ele, autor dessa Mãe. (Extraído de conferência de 9/8/1984)

 

(Revista “Dr. Plínio”, n. 171, junho de 2012, págs. 20/23)

 

 

 

 

 



[1] Gl 2, 20

[2] Cf. In: Plínio     n, 156, p. 27

[3] No início da criação Deus dizia “faça-se...” as coisas eram criadas; porém, ao criar o homem, disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, quer dizer, falou no plural dando a entender que nesse ato esteve presente toda a Santíssima Trindade.





quarta-feira, 27 de maio de 2026

NOSSA SENHORA DAS TEMPESTADES

 




A invocação de Nossa Senhora das Tempestades: origem e significados
Hoje, 17 de maio, ocorre em Tolentino a festa de Nossa Senhora das Tempestades. O histórico dessa devoção é o seguinte:

"São Leonardo fez colocar na sua Igreja primitiva de Santa Maria, em Tolentino, uma imagem da Virgem que tivera na capela do Seminário. Convidou então os habitantes do local a implorar à Virgem Santíssima a graça de preservar a cidade dos prejuízos do granizo, tão frequente na região. A Virgem ouviu o pedido.

“Pio VII, em seu retorno do cativeiro na França (a 17 de maio de 1814), coroou solenemente a Virgem milagrosa e aprovou o ofício próprio a toda diocese".

Uma vez mais, se trata de um fato que nos faz ver o modo pelo qual as devoções de Nossa Senhora costumam se formar. Em geral, é uma graça concedida por Ela para alguém ou a uma população. E esta mercê, que tem todo o sabor espiritual e imponderável de um sorriso d’Ela, incute estavelmente nas pessoas a esperança de serem atendidas em outras necessidades.

Então, aquela invocação que se liga àquele favor nos dá a ideia da misericórdia de Nossa Senhora e do socorro prestado por Ela em condições espirituais análogas àquelas condições terrenas.

Então, havia uma imagem numa capela do Seminário; essa imagem, com certeza muito expressiva e muito bonita, São Leonardo a destinou depois para ser exposta em uma igreja de sua diocese, na Igreja de Santa Maria, em Tolentino.

Ali o povo a venerava, mas ele recomendou que se pedisse a Nossa Senhora o favor de que as tempestades não se desencadeassem nesse local com a intensidade destrutiva com que ocorriam antigamente. Essa graça, de índole material fez com que as tempestades cessassem e a população se visse livre daquele flagelo. Então a imagem passou a ser invocada sob o nome de Nossa Senhora das Tempestades, ou seja, Nossa Senhora que vence as tempestades, que previne as tempestades. Podia se chamar também Nossa Senhora da Bonança.

O Papa Pio VII, fugindo da “tempestade” (por ele desencadeada na França, devido ao modo como conduziu o caso de Napoleão), passando por Tolentino e dando graças a Deus por se sentir livre das garras de Napoleão, entendeu que daquela tempestade estava salvo por causa de Nossa Senhora. Então coroou a imagem de Nossa Senhora das Tempestades. Mas a palavra “tempestade” significando outra coisa: as tempestades da História, as tempestades da vida, as tempestades da alma...

Então, é Nossa Senhora patrona dos homens postos em tempestades de toda ordem: espirituais, portanto, da luta contra o pecado, da queda no pecado, para prevenir o pecado, tempestades que a alma sente quando vê outros em pecado, tempestade nas grandes aflições espirituais que a vida pode trazer; enfim, as mil tempestades em que uma vida pode estar em jogo.
Então, pedir o socorro a Nossa Senhora no meio das tempestades, sentindo-se fraco, pequeno, incapaz de evitar completamente a tempestade, de vencê-la, recomendar-se a Ela é exatamente a ideia que está posta dentro dessa invocação.

Mas ela abarca também uma ideia de compaixão. Toda mãe, quando sente seu filho na tempestade, tem uma pena enorme e acorre sôfrega, não vem devagar, e vem com toda velocidade que os interesses espirituais daquele filho permitem. Mas aí, nesse sentido, ela vem imediatamente.

Então, a ideia de Nossa Senhora enquanto nosso socorro nas aflições, expressa em tantas outras invocações: Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora do Socorro, Nossa Senhora dos Aflitos. Porém ela tem uma formulação muito bonita no título de Nossa Senhora das Tempestades. A gente compreende, portanto, quão expressiva é essa invocação.

Há duas espécies de tempestades: as torrenciais e uma outra que é uma completa subversão da atmosfera com água, chuviscos, escuridão, incerteza, terra escorregadia... e que analogicamente também se poderia chamar de tempestade. Há situações da vida espiritual que são assim. São todas elas cheias de dramas, de dificuldades, de incertezas, e que constituem formas diversas de tempestades. Nossa Senhora nos ajuda em todas essas tempestades. Aí nós temos, então, Nossa Senhora das Tempestades.
Dois pensamentos aparentemente opostos, de São Boaventura e de Santa Teresinha, mostram a beleza das vias de Deus.

Agora, vem um pensamento de São Boaventura que vem aqui consignado e é muito bonito:

"Eu vos saúdo, Maria que acalmais o mar tempestuoso do mundo. Que Jesus, que dorme em nosso barco, se levante acordado por Vós.”
É uma referência ao fato de que Jesus estava na tempestade, com os Apóstolos num barco, e estes O acordaram. E Ele fez cessar a tempestade. Tantas vezes Jesus “dorme”. Então, Nossa Senhora acorda Jesus para que venha ao socorro e, diz o Evangelho, que se fez então uma grande bonança depois que Jesus acordou.

E vem um comentário que acho magnífico: “ uma completa obediência em relação a Ele”!

Santa Teresinha do Menino Jesus tem um pensamento oposto: quando a pessoa sofre, não deve pedir muitas vezes que o sofrimento passe, para oferecer pela Causa da Santa Igreja. Então, diz ela: "não acorde Jesus que está dormindo em seu barco. Deixe-O dormir, deixe que pelo menos na sua alma Ele descanse. Não O acorde...”

Um santo recomenda: “acorde”, e é esplêndido! Uma santa recomenda: “não acorde”, e é esplêndido também! Tudo depende das vias de Deus. Vejam a beleza desses vários caminhos e o universo de maravilhas morais que existe nisso!...

Novena a Nossa Senhora Auxiliadora e portentos que São João Bosco obtinha por sua intercessão

Amanhã começa a novena de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos. O grande Dom Bosco obteve várias graças nessa novena e a recomendava muito a todos os salesianos. Um padre salesiano recomendou hoje essa novena na igreja, assim: três Padre Nossos e três Salve Rainhas. Os senhores querendo façam assim se quiserem. Eu aprendi de outro modo, acho muito mais razoável e é assim que farei: três Padre Nossos, três Ave Marias, três Glória Patri, depois dos quais se diz: “Louvado e adorado seja o Santíssimo Sacramento” e depois uma Salve Rainha seguida da jaculatória “Auxilium Christianorum, ora pro nobis” (Auxílio dos Cristãos, rogai por nós).

A fórmula não é tão importante; o importante é fazer uma novena. Mas a fórmula tem também seu interesse pois que é uma fórmula que Nossa Senhora premiou com manifestações de agrado especiais. É legítimo que se procure usar essa fórmula, com toda fidelidade, para agradar a Ela.

Recomendo essa novena porque Dom Bosco - já comentei outro dia sobre ele aqui - em nossa época, é o grande arauto de Nossa Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos.

As maravilhas que se passaram na existência dele a respeito de Nossa Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos foram extraordinárias! Ele conseguia coisas assim - e aqui está mais uma vez a diversidade de espíritos entre os católicos fiéis -, por exemplo, mandava construir uma torre de uma igreja. Quando os trabalhos estavam em pleno andamento, acabava o dinheiro. Aí começava aquele berreiro, credores etc., operários, toda a inferneira de uma obra nessa situação... Então, ele dizia: "o que é que eu posso fazer? Eu vou à rua e vou fazer um pequeno passeio para ver se Nossa Senhora me ajuda". Ia diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, rezava essas tais orações e saía. Voltava com o bolso cheio de dinheiro e pagava todos a quem devia. Nessas condições, naturalmente, compreende-se que ele tenha adotado esse sistema...

 

Síntese biográfica de São Felix de Cantalício

Apesar de já ter tomado muito o tempo dos senhores, eu teria escrúpulo em não ler a síntese biográfica de São Félix de Cantalício, porque teria pena de deixar desaproveitado um esforço tão meritório e tão constante como é esse do fornecimento de tais fichas.

A síntese biográfica é tirada do Rohrbacher, "História Universal da Igreja Católica":

“São Félix nasceu em 1513, em Cantalício, nos Estados Pontifícios, de pais pobres, mas muito virtuosos. Desde criança demonstrou tanta piedade e inclinação para a virtude, que já então o chamavam de santo.

“Guardando rebanho ou trabalhando no campo como lavrador, toda sua vida era de oração. Quando lhe perguntavam se sabia ler, respondia: sei somente seis letras, cinco vermelhas e uma branca. As vermelhas são as chagas de Nosso Senhor, a branca é a Santíssima Virgem.

“A uma grande humildade reunia uma alegria constante e infatigável caridade.

“Um dia, tendo saído ileso milagrosamente de um acidente, decidiu ingressar na Ordem de São Francisco, onde pediu admissão como irmão converso. Destacou-se logo de toda a comunidade por sua profunda vida interior, suas mortificações, grande compreensão do espírito franciscano e pureza inabalável.

“Manifestava sempre especial respeito ao nome de Jesus e à palavra "Deo Gratias".

“Tinha-se por esse religioso uma tão grande veneração em Roma que, quando passava na rua, os príncipes descobriam a cabeça para saudá-lo”.

“E os cardeais faziam parar as suas carruagens.

“Dele se conta que um dia São Felipe de Neri atravessava o Quirinal - que era a residência papal - quando São Félix de Cantalício correu a ajoelhar-se a seus pés e pedir-lhe a bênção. Felipe abraçou-o e assim permaneceram longo tempo sem proferirem uma palavra”.

São Félix e São Felipe Neri: um dos encontros pinaculares da História
Que cena, hein?! Em vez de tanta conversinha de sacristia que a gente vê por aí, um santo ajoelhado abraçando outro santo que está de pé. E longamente abraçados, sem dizer uma palavra. Que louvores a graça de Deus fazia da alma de um para o outro e do segundo para o primeiro! Aí se pode dizer que é o Espírito Santo louvando-se a Si mesmo pela boca dos inocentes, quer dizer, pela boca dos santos. É uma verdadeira maravilha! São desses encontros pinaculares da História. Pobres de nós! Tão longe disso... nesse lodo... Se Nossa Senhora das Tempestades não nos ajudar...

“Depois, afastaram-se cheios de alegria, como outrora São Luís de França e o Bem-aventurado Gilles, companheiro de São Francisco e de São Boaventura. Seus corações tinham falado e isso bastava.”

São Luís IX encontrou esse Beato Gilles e os dois sabiam quem eram, ou, por outra, cada um sabia quem era o outro. Então, se abraçaram longamente e depois foram embora.

Estava tudo dito; não tinham mais nada que dizer. Há silêncios que dizem tanto mais do que qualquer palavra...

“Quando São Félix morreu, a 18 de maio de 1587, não pôde ser enterrado por muitos dias por causa da multidão inumerável de povo que, encontrando fechadas as portas do convento, escalavam os muros...”

“Enchiam os pátios, as salas, as ruas, as praças, a Igreja. O santo franciscano foi canonizado em 1712, por Clemente XI.”

Alguns aqui estiveram em Roma.  Lembram-se daquela igreja que tem no Corso Vitorio Veneto? É quando dá aquela dobra, passa pelo Hotel Ambasciatore e desce para a Piazza Barberini. Nessa igreja, a gente entra e, num altar que está perto da porta, há uma figura num esquife e escrito: "aqui estão os restos mortais de São Félix de Cantalício".

Roma está cheia de maravilhas assim! Um santo prodigioso desse... são tantos santos e de toda ordem que, em qualquer canto a gente encontra maravilhas. Esta é a Roma dos Papas!... A Roma post-constantiniana, d’Ela eu não falo. Mas a Roma constantiniana, essa Roma era assim.
Que comentário fazer a respeito de São Félix Cantalício?

Os senhores estão vendo que isso tem uma poesia, é tudo feito de contrastes: o vermelho e o branco são duas cores que estão, entre si, num contraste, de algum modo, tão categórico quanto o branco e o preto. Porque o vermelho é o sumo - eu ia dizer que é o sumo do rubor, porque está dito tudo com isso - e o branco é tão alvo, tão diferente do vermelho, tão pacífico, enquanto o vermelho é vivaz, castanholas na mão...

E temos um outro contraste: é Cristo sofredor, Cristo chagado, Cristo dilacerado. Ao lado disso, Nossa Senhora, virginal, em quem nunca se tocou com a mão para abrir uma chaga ou para fazer uma ferida e que nos aparece tantas e tantas vezes na sua virgindade sob a forma de um sorriso, de uma alegria, de uma carícia. Poder-se-ia dizer que toda a tristeza e toda a alegria do Evangelho e, portanto, toda a tristeza e toda a alegria da vida, e se se pudesse falar em tristeza do Céu, toda a tristeza e toda a alegria do Céu cabem exatamente dentro dessa comparação, dentro dessa justaposição.
Os senhores vejam como isso dá um tema de meditação lindíssimo. Alma puríssima, alma extraordinariamente elevada desde menino... vejam os senhores o mistério de uma vocação: foi preciso, entretanto, que ele sofresse uma doença séria para pensar em ser franciscano. Os senhores vejam bem - eu não quero fazer juízo temerário em relação a um tão grande santo, Deus me livre! - mas fica assim um vislumbre de ser preciso sacudir qualquer coisinha. Não é verdade?

Peçamos então, nessa novena a Nossa Senhora Auxiliadora, que Ela sacuda em nós qualquer coisinha para sermos inteiramente d’Ela.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - Conferência Santo do Dia, 17 de maio de 1966)

 

 


terça-feira, 12 de maio de 2026

NOSSA SENHORA, RAINHA DA HISTÓRIA

 

                                                     (Revista Dr. Plínio n. 305, agosto de 2023)



Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

 

A História tem necessidade de um unum

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morrerem ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu  nem de quem o sucedeu. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado, etc., Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História de se desenvolve, ela não forma um todo.

 

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é a Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de  países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coréia e o Japão, a Coréia e a China, a China e o Japão – relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos – não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”[1] americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros – porque serão amados por Deus -, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

 

Post-scriptum marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima  como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a “post-História”.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar-se – por causa d’Ela e não devido a nós -, a História terá a sua “post-História”. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa “post-História”, que é o fecho de ouro da História do mundo.

 

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais que eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História – e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? -, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de moto tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel – que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu -,os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é a Rainha desse “unum”?

 

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais;  e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos – os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus -, entretanto, temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se  põe no cento de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

 

O homem simboliza melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo – corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas  no equilíbrio do universo -, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lúmen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar de um padrão especial de beleza.

 

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nessa linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza:  nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós.  E apareceria o Homem ultra-arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

 

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável,  a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História...

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela – por quanto tempo não se sabe -, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria  então – eu emprego um termo moderno e desdourado – uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano – podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! – levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre os homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem-Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

 

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub-História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o ultimo justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra-se? Lembra-se?”

 

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram... O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria. Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a atura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento.  E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a “post-História’, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encantos paradisíacos de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é a Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a história noturna, porque longe do Sol de Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará-los para aquela hora de bem-aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da alma do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo  magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é esse: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter-se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

 

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

 

Maria Santíssima dirige a História...

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele fez pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que os homens fazem e, por assim dizer, corrigir – se a palavra “corrigir” não fosse inadequada-, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: ”Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá...”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível – hesito diante do termo – fazer a História tão bela como ela é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também,  para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede”. E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

 

... e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso, a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Nossa Senhora é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

 

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a ume pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

- O que você viu?

- Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido”.

O modo de relacionar esse granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral, O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter-relação do agir da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único do pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra-Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra-Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser rainha dessa rebeldia, a não ser nesse sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre essa reunião, e faça com que produza frutos de  salvação para nós e dê glória a Ela. (Extraído de conferência de 3/4/1982).[2]

 

 



[1] Selva

[2] Revista “Dr. Plínio” 164, novembro de 2011, páginas 6/13