segunda-feira, 7 de setembro de 2026

HOMILIA DE SÃO JOÃO DAMASCENO SOBRE A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA

 


Do humilde monge e presbítero João Damasceno, discurso para o nascimento de Nossa Senhora Santíssima, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.

1. Vinde, todas as nações, vinde, homens de todas as raças, línguas e idades, de todas as condições: com alegria celebremos a natividade da alegria do mundo inteiro! Se os gregos destacavam com todo o tipo de honras – com os dons que cada um podia oferecer – o aniversário das divindades, impostos aos espíritos por mitos mentirosos que obscureciam a verdade, e também o dos reis, mesmo se eles fossem o flagelo de toda a existência, que deveríamos nós fazer para honrar o aniversário da Mãe de Deus, por quem toda a raça mortal foi transformada, por quem o castigo de Eva, nossa primeira mãe, foi mudada em alegria? Com efeito, uma ouviu a sentença divina: «Darás à luz no meio de penas»; a outra ouviu, por seu turno: «Alegra-te, oh Cheia de Graça». À primeira disse-se: «Inclinar-te-ás para o teu marido», mas à segunda: «O Senhor está contigo». Que homenagem ofereceremos então nós à Mãe do Verbo, senão outra palavra? Que a criação inteira se alegre e festeje, e cante a natividade de uma santa mulher, porque ela gerou para o mundo um tesouro imperecível de bondade, e porque por ela o Criador mudou toda a natureza num estado melhor, pela mediação da humanidade. Porque se o homem, que ocupa o meio entre o espírito e a matéria, é o laço de toda a criação, visível e invisível, o Verbo criador de Deus, ao se unir à natureza humana, uniu-se através dela a toda a criação. Festejemos assim o desaparecimento da humana esterilidade, pois cessou para nós a enfermidade que nos impedia a posse dos bens.

2. Mas porque nasceu a Virgem Maria de uma mulher estéril? Àquele que é o único verdadeiramente novo debaixo do sol, como coroamento das Suas maravilhas, deviam ser preparados os caminhos por maravilhas, para que lentamente as realidades mais baixas se elevassem de modo a serem as mais altas. E eis uma outra razão, mais alta e mais divina: a natureza cedeu o lugar à graça, pois ao vê-la tremeu, e não quis mais ter o primeiro lugar. Como a Virgem Mãe de Deus devia nascer de Ana, a natureza não ousou prevenir o fruto da graça, mas permaneceu ela própria sem fruto, até que a graça trouxesse o seu. Era necessário que fosse primogênita aquela que deveria gerar «o Primogênito de toda a criação, no Qual tudo subsiste». Oh Joaquim e Ana, casal venturoso! Toda a criação está em dívida para convosco, porque através de vós ela pôde oferecer ao Criador o dom – entre todos o mais excelso – de uma Mãe venerável, a única digna d’Aquele que a criou. Ditosos os rins de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, graças ao qual se desenvolveu lentamente, onde se formou e de onde nasceu uma tão santa criança! Oh entranhas que levastes um céu vivo, mais vasto que a imensidade dos céus! Oh moinho onde foi amassado o Pão vivificante, segundo as próprias palavras de Cristo: «Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só». Oh seio que aleitaste aquela que alimentou o Aquele que alimenta o mundo! Maravilha das maravilhas, paradoxo dos paradoxos! Sim, a inexprimível Encarnação de Deus, cheia de condescendência, devia ser precedida por estas maravilhas. Mas como prosseguirei? O meu espírito está fora de si, dividido que estou entre o temor e o amor; o meu coração bate e a minha língua move-se: não posso suportar a alegria, as maravilhas deitam-me por terra, o ardor apaixonado aprisionou-me num arrebatamento divino. Que o amor vença, que o temor desapareça e que cante a cítara do Espírito: «Alegrem-se os céus, exulte a terra»!

3. Hoje as portas da esterilidade abrem-se, e uma porta virginal e divina avança: a partir dela, por ela, o Deus que está acima de todos os seres deve «vir ao mundo» «corporalmente», segundo a expressão de Paulo, ouvinte dos segredos inefáveis. Hoje, da raiz de Jessé saiu uma vergôntea, de onde surgirá para o mundo uma flor substancialmente unida à divindade.

Hoje, a partir da natureza terrena, um céu foi formado sobre a terra por Aquele que outrora o tornara sólido separando-o das águas, elevando o firmamento nas alturas. É um céu verdadeiramente mais divino e mais elevado que o primeiro, porque Aquele que no primeiro céu criara o sol Se elevou a Si próprio neste novo como um sol de justiça. Sim, há n’Ele duas Naturezas, apesar da loucura dos Acéfalos, e uma só Pessoa, mesmo que os Nestorianos se encolerizem! A Luz eterna, proveniente da Luz eterna antes de todos os séculos, o Ser, imaterial e incorpóreo, tomou um corpo desta mulher, e como um esposo que sai para fora de seu tálamo, assim fez Deus, tornando-se como tal filho da raça terrena. Como um gigante Ele alegra-Se de percorrer os caminhos da nossa natureza, de Se encaminhar, pelos Seus sofrimentos, para a morte, de atar o homem forte e lhe arrancar os seus bens, isto é, a nossa natureza, e de reunir na terra celeste a ovelha errante.

Hoje, o «Filho do Carpinteiro», O Verbo universalmente ativo d’Aquele que tudo construiu por Ele, o Braço Poderoso do Deus Altíssimo, querendo afiar pelo Espírito – que é como o seu dedo – a lâmina embotada da natureza, construiu para Si uma escada viva, cuja base está firmada na terra, com o cimo a tocar os céus: Deus repousa sobre ela. É dela a figura que Jacob contemplou, e por ela Deus desceu da Sua imobilidade, ou melhor, inclinou-Se com condescendência, tornando-Se assim «visível sobre a terra, e conversando com os homens». Estes símbolos representam a Sua vinda ao meio de nós, o seu abaixamento condescendente, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento d’Ele próprio, dado a todos aqueles que estão sobre a terra. A escada espiritual, a Virgem, está fixa na terra, pois na terra ela tem a sua origem, mas a sua cabeça eleva-se até ao céu. A cabeça de toda a mulher é o homem, mas para ela, que não conheceu homem, Deus Pai ocupa o lugar de sua cabeça: pelo Espírito Santo, Ele concluiu uma aliança e, como semente divina e espiritual, enviou o Seu Filho e Verbo, força onipotente. Em virtude do beneplácito do Pai, não é por uma união natural, mas é superando as leis da natureza, pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós. É por aqui que se vê que a união de Deus com os homens se cumpre pelo Espírito Santo.

«Quem puder entender, que entenda»; «Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça». Descartemos as representações corporais: a divindade jamais sofreu mudança, oh homens! Aquele que sem alteração gerou Seu Filho a primeira vez segundo a natureza, sem alteração O gera agora de novo segundo a economia. Disto é testemunha a palavra de David, antepassado de Deus: «O Senhor disse-me: “Tu és Meu Filho, Eu hoje te gerei”». Ora este «hoje» não tem cabimento na geração antes de todos os séculos, pois esta deu-se fora do tempo.

4. Hoje é edificada a Porta do Oriente, que dará a Cristo «entrada e saída», e «essa porta estará fechada». Nela está Cristo, «a Porta das Ovelhas», e «o Seu nome é Oriente»: por Ele obtivemos acesso ao Pai das Luzes. Hoje sopraram as brisas anunciadoras duma alegria universal. Alegre-se o céu nas alturas, que debaixo dele «exulte a terra», que os mares do mundo bramam, porque no mundo acaba de ser concebida uma concha, a qual pelo clarão celeste da divindade conceberá em seu seio, gerando a pérola inestimável, Cristo. Dela sairá o «Rei da Glória», revestido da púrpura de sua carne, para «visitar os cativos», e «proclamar a libertação». Que a natureza transborde de alegria: a cordeirinha vem ao mundo, graças à qual o Pastor revestirá a ovelha, tirando-lhe as túnicas da antiga mortalidade. Que a virgindade forme os seus coros de dança, pois nasceu a Virgem que, segundo Isaías, «conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emmanuel, o que quer dizer “Deus conosco”». Aprendei, oh Nestorianos, e fugi à vossa derrota: «Deus conosco»! Não é nem só um homem, nem um mensageiro, mas o Senhor em Pessoa que virá e nos salvará.

«Bendito o que vem em nome do Senhor», «o Senhor é Deus, e iluminou-nos»; «Celebremos uma festa» para o nascimento da Mãe de Deus. Rejubila, Ana, «estéril que não davas à luz; ri de alegria e de júbilo, tu que não tiveste as dores de parto»! Rejubila, Joaquim: de tua filha «um menino nos nasceu, um filho nos foi dado (…) e ser-lhe-á dado este nome: Anjo do grande Conselho (quer dizer, Salvação do Universo) Deus Forte». Que Nestório fique vermelho e meta a mão sobre a boca.[1] A criança é Deus; portanto, como não seria ela a Mãe de Deus, ela que O colocou no mundo? «Se alguém não reconhece por Mãe de Deus a Santa Virgem, está separado da divindade». A frase não é minha, mas no entanto pertence-me: recebi-a como precioso tesouro e herança teológica do meu pai Gregório, o Teólogo.

5. Oh Joaquim e Ana, casal bem-aventurado e verdadeiramente sem mancha! Pelo fruto do vosso seio fostes reconhecidos, segundo a palavra do Senhor: «Pelos seus frutos os reconhecereis». A vossa conduta foi agradável a Deus e digna daquela que nasceu de vós. Tendo levado uma vida casta e santa, engendrastes a jóia da virgindade, aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo. Convinha, de fato, que a virgindade saída da castidade produzisse a Luz única e monógena, corporalmente, pela benevolência d’Aquele que A gerou sem corpo – o Ser que não gera, mas que é eternamente gerado, para Quem ser gerado é a única qualidade própria da Sua Pessoa. Oh que maravilhas, e que alianças estão neste menino! Oh Filha da esterilidade, virgindade que engravida, nela se unirão divindade e humanidade, sofrimento e impassibilidade, vida e morte, para que em todas as coisas o menos perfeito seja vencido pelo melhor! E tudo isto para minha salvação, oh Mestre! Amas-me tanto que não realizaste esta salvação nem pelos anjos, nem por nenhuma outra criatura, mas tal como já a minha criação, também a minha regeneração foi Tua obra pessoal. Assim, eu exulto, faço despertar a minha alegria e o meu júbilo, volto à fonte das maravilhas, e embriagado de uma torrente de alegria, toco de novo a cítara do espírito e canto o hino divino da natividade.

6. Oh Joaquim e Ana, casal castíssimo, «par de rolas» no sentido místico! Observando a lei da natureza, a castidade, merecestes os dons que ultrapassam a natureza: gerastes no mundo uma Mãe de Deus sem esposo. Depois de uma existência santa e piedosa numa natureza humana, gerastes uma filha superior aos anjos e que agora reina sobre eles. Oh Filha graciosíssima e dulcíssima, oh lírio nascido entre os espinhos, da descendência nobilíssima e real de David! Por ti a realeza encheu-se com o sacerdócio; por ti foi cumprida «a mudança da Lei», e revelado o espírito escondido sob a letra, pois que a dignidade sacerdotal passou da tribo de Levi à de David. Oh Rosa nascida dos espinhos do judaísmo, que enche o universo de um perfume divino! Oh filha de Adão e Mãe de Deus! Ditosos os rins e o seio de onde surgistes! Ditosos os braços que te levaram, os lábios que experimentaram os teus castos beijos, os lábios de teus pais, para que em tudo tu fosses eternamente virgem. Hoje é para o mundo o início da salvação. «Aclamai o Senhor, terra inteira, cantai, exultai, tocai instrumentos». Elevai a vossa voz, «fazei-a escutar sem temor», porque na Santa Probática nos nasceu uma Mãe de Deus, de quem quis nascer o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Tremei de alegria, oh montanhas, naturezas racionais, voltadas para o cume da contemplação espiritual: a montanha do Senhor, refulgente, vem ao mundo, ultrapassando todas as montanhas e todas as colinas, isto é, os anjos e os homens; dela, sem intervenção da mão do homem, Cristo quis desprender-Se, Ele que é a Pedra Angular, Pessoa Una, que aproxima em Si aquilo que está distante: a divindade e a humanidade, os anjos e os homens, os gentios e o Israel carnal num só Israel espiritual. «Montanha de Deus, montanha de abundância, montanha que Deus escolheu para Seu repouso. Os carros de Deus vêm aos milhares, com seres refulgentes» da graça divina, querubins e serafins. Oh cume mais santo que o Sinai, não coberto nem por fumo, nem por trevas, nem por tempestades, nem sequer por fogo perecível, mas pelo esplendor que ilumina do Santíssimo Espírito. No Sinai, o Verbo de Deus tinha gravado a Lei sobre tábuas de pedra, pelo Espírito, dedo divino; aqui, pela ação do Espírito Santo e pelo sangue de Maria, o próprio Verbo encarnou, dando-se á nossa natureza como um remédio de salvação mais eficaz. Antes, era o maná; aqui, está Aquele que deu o maná e a sua doçura.

Que a morada célebre que Moisés construiu no deserto com matérias preciosas de todo o tipo, e ainda antes dela a morada do nosso pai Abraão, se apaguem diante da morada de Deus, viva e espiritual. Ela foi o repouso, não só da energia divina, mas da Pessoa do Filho, que é Deus, presente substancialmente. Que a arca recoberta de ouro reconheça que não tem nada de comparável com Maria, e da mesma forma a urna de ouro com o maná, o candelabro, a mesa e todos os objetos do culto antigo: eles foram honrados porque todos a prefiguravam, como sombras do verdadeiro protótipo.

7. Hoje, o Criador de todas as coisas, Deus Verbo, fez um livro novo, saído do coração do Pai para ser escrito, como se fosse por uma cana, pelo Espírito, que é a língua de Deus. Esse livro foi dado a um homem que conhecia as letras, mas que não o lia. José, com efeito, não conheceu Maria, nem a significação do mistério em si. Oh filha toda santa de Joaquim e de Ana, que escapaste aos olhares dos Principados e das Potestades e aos «assédios inflamados do maligno», e que viveste no tálamo do Espírito, para seres guardada intacta e te tornares esposa de Deus e Mãe de Deus por natureza! Oh filha toda santa, que apareceste nos braços de tua mãe, tu és o terror das potências de rebelião! Oh filha toda santa, alimentada do leite maternal, e rodeada das legiões angélicas! Oh filha amada de Deus, honra de teus pais, gerações de gerações te proclamam bem aventurada, como tu própria o afirmaste com verdade! Oh filha digna de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe! Por teu nascimento, aquela que tombara foi redimida. Oh filha toda santa, esplendor do sexo feminino! Se a primeira Eva, com efeito, foi culpada de transgressão, e se por sua causa «a morte fez a sua entrada no mundo» (porque ela se colocou ao serviço da serpente contra o nosso primeiro pai), Maria, que se fez a serva da vontade divina, enganou a serpente enganadora e introduziu no mundo a imortalidade.

Oh filha sempre Virgem, que pode conceber sem intervenção humana, porque Aquele que concebeste tem um Pai Eterno! Oh filha da raça terrena, que levas em teus braços divinamente maternais o Criador! Os séculos rivalizavam entre si para saber qual deles se honraria de te ver nascer, mas o desígnio fixado antecipadamente de Deus, «que fez os séculos» colocou fim a essa rivalidade, e os últimos tornaram-se os primeiros, eles a quem foi atribuída a felicidade da tua Natividade. Na verdade, tu és mais preciosa que toda a criação, pois só de ti o Criador recebeu em partilha as primícias da nossa matéria humana. A Sua Carne foi feita da tua carne, o Seu Sangue do teu sangue; Deus alimentou-Se do teu leite, e os teus lábios tocaram os lábios de Deus. Oh maravilhas incompreensíveis e inefáveis! Na presciência da tua dignidade, amou-te o Deus do universo; porque te amou, predestinou-te, e nos «últimos tempos», chamou-te à existência, e constituiu-te Mãe para gerar um Deus e alimentar o Seu próprio Filho e Verbo.

8. Diz-se que os contrários servem de remédio contra os contrários, mas os contrários não nascem uns dos outros. Mesmo se cada ser é na sua natureza um tecido de contrários, ele próprio provém da predominância da causa que o fez nascer. De fato, da mesma forma que o pecado, ao operar para mim a morte por meio do bem, mostra em extremo a sua natureza pecaminosa, da mesma forma o Autor dos bens, pelo meio dos contrários desses bens, opera para nós o bem que Lhe é natural, porque «onde abundou o pecado, superabundou a graça». Se tivéssemos conservado a nossa primeira comunidade com Deus, não teríamos merecido a Segunda, maior e mais extraordinária. De fato, pelo pecado, fomos julgados indignos da primeira união, porque não conservamos o dom recebido. Mas pela compaixão de Deus fomos perdoados e tomados sob a Sua guarda, para que a comunhão fosse assegurada, porque nos quer conservar unidos a Ele, sem nenhuma beliscadura, Aquele que nos recebeu sob a Sua proteção.

Sim, toda a terra pejava de fornicações, e o povo do Senhor, possuído «pelo espírito de fornicação», errava longe do Senhor seu Deus, longe d’Aquele que o tinha adquirido «com mão forte e braço poderoso», que com sinais e prodígios o tinha feito sair da «casa da escravidão» do Faraó, o tinha conduzido através do Mar Vermelho e guiado «por uma nuvem de dia, e noite inteira por um luzeiro de fogo». O seu coração voltava-se para o Egito, e o povo do Senhor tornou-se «aquele que não é o povo do Senhor»; aquele que obtinha misericórdia, tornou-se aquele que não a merecia, e aquele que era amado, tornou-se aquele que não era amado.

Eis então a razão pela qual uma Virgem vem agora ao mundo, como adversária da ancestral fornicação; ela foi dada como esposa ao próprio Deus, e gerou a misericórdia de Deus. Assim foi estabelecido como povo de Deus aquele que até aí não era o Seu povo; excluído da Sua misericórdia, obteve misericórdia; não amado, é agora amado. Dela nasce o Filho Bem-Amado de Deus, no Qual Ele colocou as Suas complacências.

9. «Uma vinha de belos sarmentos» foi gerada no seio de Ana, e ela produziu um fruto cheio de doçura, fonte de um néctar abundante de vida eterna para os habitantes da terra. Joaquim e Ana fizeram-se semeadores de justiça, e recolheram um fruto de vida. Eles foram iluminados pela luz do conhecimento, procuraram o Senhor, e daí lhes veio um fruto de justiça. Que a terra tenha confiança! «Filhos de Sião, alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque o deserto ficou verdejante»: aquela que era estéril deu o seu fruto; Joaquim e Ana, como montanhas místicas, fizeram brotar vinho doce. Permanece na alegria, oh Ana venturosa, por teres dado à luz uma mulher, porque essa mulher será a Mãe de Deus, porta da luz, fonte de vida, e reduzirá nada a acusação que pesava sobre a mulher.

Os homens nobres do povo desejarão vê-la, e diante dessa mulher os reis das nações prostrar-se-ão, oferecendo-lhe presentes. Entregá-la-ás a Deus, rei universal, adornada da beleza das suas virtudes como de «brocados de ouro», ornada da graça do Espírito, de cuja glória ela se reveste. A glória da mulher é o homem, e é-lhe dada a partir de fora; mas a glória da Mãe de Deus é interior, e é fruto do seu seio.

Oh mulher amabilíssima, três vezes bem-aventurada! «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre»! Oh mulher, filha do Rei David e Mãe de Deus, Rei do Universo! Oh divina e vivente obra-prima, na qual Deus Criador Se alegrou, de quem o espírito é governado por Deus e atento somente a Ele, e de quem todo o desejo se eleva apenas Àquele que é o único amável e desejável, que não te encolerizas senão contra o pecado e contra aquele que o fez nascer! Terás uma vida superior à natureza, porque não é para ti que a terás, já que também não é para ti que tu nasceste. Terás antes a tua vida para Deus, e é por causa d’Ele que vieste à vida, por causa de Quem servirás à salvação universal, para que o antigo desígnio de Deus, a Encarnação do Verbo e a nossa divinização, se cumpra através de ti. A tua vontade é alimentares-te das palavras divinas e fortificares-te com a sua seiva, como «oliveira fecunda na casa de Deus», como «árvore plantada à beira das águas» do Espírito, como árvore da vida, que deu o seu fruto no tempo que lhe foi destinado: o fruto que é o Deus Encarnado, Vida eterna de todos os seres. Guardas todos os pensamento gostoso e útil para a alma, mas todo aquele que é supérfluo e que seria um perigo para a alma tu o rejeitas ainda antes de o provar. Os teus olhos «estão sempre voltados para o Senhor», olhando a luz eterna e inacessível. Teus ouvidos escutam a palavra de Deus e deleitam-se com a cítara do Espírito; foi por eles que o Verbo entrou para Se fazer Carne. Tuas narinas respiram deliciadas o aroma dos perfumes do Esposo, que é Ele próprio um perfume, espontaneamente derramado para perfumar a Sua humanidade: «O teu nome é um perfume que se espalha», diz a Escritura. Os teus lábios louvam o Senhor, e estão ligados aos Seus lábios. A tua língua e o teu palato discernem as palavras de Deus e saciam-se com a suavidade divina. Oh coração puro e sem mácula, que vê e deseja o Deus imaculado!

É neste seio que o Ser ilimitado veio habitar; do seu leite se alimentou Deus, o Menino Jesus. Oh porta de Deus, sempre virginal! Eis as mãos que suportam Deus, e esses joelhos que são um trono mais elevado que os querubins: por eles «as mãos fracas e os joelhos trêmulos» foram fortalecidos. Os seus pés são guiados pela lei de Deus como por uma lâmpada que brilha, e correm após Ele sem se voltarem, até que tenham feito chegar aquela que ama junto do Bem-Amado. Em todo o seu ser ela é o tálamo do Espírito, a Cidade de Deus Vivo, que «alegra os canais do rio», isto é, as correntes dos carismas do Espírito: «Toda bela, toda próxima de Deus». Dominando os querubins, mais alta que os serafins, próxima de Deus: é a ela que esta palavra se aplica!

10. Oh maravilha que ultrapassa todas as maravilhas: uma mulher é colocada mais alto que os serafins, porque Deus surgiu abaixado «um pouco inferior aos anjos»! Que o sapientíssimo Salomão se cale, e não torne a dizer: «Nada de novo debaixo do sol». Oh Virgem cheia da graça divina, templo santo de Deus, que o Salomão espiritual, o Príncipe da Paz, construiu e habita, o ouro e as pedrarias não te dão mais beleza, mas mais que o ouro, é o Espírito que te dá o teu esplendor. Por pedrarias, tens a pérola preciosíssima, Cristo, a Brasa da divindade. Suplica-Lhe que toque os nossos lábios, para que, purificados, Lhe cantemos, com o Pai e o Espírito, a natureza única da Divindade em três Pessoas: «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos».

Santo é o Pai, que quis que em ti e por ti se cumprisse o mistério que predeterminara antes de todos os séculos. Santo é o Forte, o Filho de Deus, e Deus Monógeno, que hoje te faz nascer, primogênita de uma mãe estéril, para que, sendo Ele próprio Filho Único do Pai e «Primogênito de toda a criatura», possa nascer de ti, como Filho único de uma Virgem-Mãe, «Primogênito de uma multidão de irmãos», semelhante a nós e por ti participante da nossa carne e do nosso sangue. Apesar disso, não te fez nascer de um só pai ou de uma só mãe, para que ao único Monógeno fosse reservado em perfeição o privilégio de Filho Único: Ele é, com efeito, Filho Único, somente Ele de um Pai só, somente Ele de uma Mãe só.

Santo é o Imortal, o Espírito de toda a santidade, que pelo orvalho da Sua Divindade te guardou intocada pelo fogo divino: é isto que significou antecipadamente a sarça ardente.

11. Eu te saúdo, oh Porta das Ovelhas, morada santíssima da Mãe de Deus. Eu te saúdo, oh Porta da Ovelhas, domicílio ancestral da tua rainha, antigamente redil das ovelhas de Joaquim, mas hoje tornada Igreja do rebanho espiritual de Cristo e imitação do céu. Outrora recebias uma vez por ano um anjo de Deus, que agitava as águas e devolvia a saúde a um só homem, livrando-o do mal que o paralisava; agora recebes multidões de potências celestes que celebram conosco a Mãe de Deus, Abismo de Maravilhas, fonte da cura universal. Tu recebeste, não um anjo servidor, mas o «Anjo do Grande Conselho», descido sem ruído algum sobre o velo de lã como uma chuva de bondade, Aquele que renovou toda a natureza, doente e a ponto de se perder, com uma saúde inalterável e uma vida sem velhice: por Ele, o paralítico que em ti jazia saltou como um veado. Eu te saúdo, oh preciosa Porta das Ovelhas, e que se multiplique a tua graça!

Eu te saúdo, Maria, filha dulcíssima de Ana. De novo para ti o amor me impele. Como descrever o teu caminhar cheio de seriedade, os teus vestidos, a graça de teu rosto, a maturidade do discernimento num corpo juvenil? A tua forma de estar foi modesta, distante de todo o luxo e de toda a indolência; o teu caminhar era grave, sem precipitação, sem preguiça; o teu caráter era sério, temperado de júbilo, de uma perfeita reserva a propósito dos homens – disto é testemunho a inquietação que te surgiu quando da proposta inesperada do anjo. A teus pais dócil e obediente, tinhas humildes sentimentos nas mais altas contemplações, palavra amável, provinda de uma alma pacífica. Em resumo: que outra digna morada senão tu para Deus? Com razão todas as gerações te proclamam bem-aventurada, oh glória insigne da humanidade! Tu és a honra do sacerdócio, a esperança dos cristãos, a planta fecunda da virgindade, porque é através de ti que o renome da virgindade se estendeu aos confins do mundo. «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o Fruto do teu ventre». Aqueles que confessam a tua maternidade divina são benditos, e malditos aqueles que a negam.

12. Joaquim e Ana, casal abençoado, recebei de mim estas palavras de aniversário. Oh filha de Joaquim e de Ana, oh Soberana, acolhe a palavra deste teu servo pecador, mas inflamada pelo amor, e para quem tu és a única esperança de alegria, a protetora da vida e, junto de teu Filho, a reconciliadora e firme garantia da salvação. Possa tu aliviar-me do fardo dos meus pecados, dissipar a névoa que obscurece o meu espírito e o peso que me agarra à matéria. Possas tu deter as tentações, governar felizmente a minha vida e conduzir-me pela mão até à felicidade do Alto. Concede ao mundo a paz, e a todos os habitantes ortodoxos desta cidade uma alegria perfeita e a salvação eterna, pelas orações de teus pais e de todo o Corpo da Igreja. Assim seja, assim seja! «Salve, oh cheia de graça, o Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre», Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Ele a Glória, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

(São João Damasceno (c. 675-749), monge, teólogo, Doutor da Igreja Homilia Sobre a Natividade de Maria
Tradução: Seminário de Sintra (Portugal)
Fonte: 
Evangelho Cotidiano 

https://byblos.ecclesia.org.br/homilia-sobre-a-natividade-de-maria-2/

 

Observação: Na Legenda Áurea consta que São João Damasceno interpretara o fato de Nossa Senhora ter nascido de uma mãe estéril como um sinal profético das bênçãos de Deus sobre Ela. Em sua homilia sobre a Natividade de Maria, o santo afirma: “Hoje é o começo da salvação do mundo, porque na Santa Probática foi-nos gerada a Mãe de Deus, através de quem o Cordeiro, que tira o pecado do mundo, nos foi gerado.”

No entanto, após perder a esterilidade não nasceu outro filho de Santa Ana com São Joaquim, pois o mesmo faleceu pouco depois. Santa Ana realizou mais dois casamentos; após ficar viúva do segundo a partir de então teve outras filhas: Maria (a segunda com o mesmo nome), filha de seu casamento com Cleofas, e, falecido este, casou-se novamente e teve outra filha a que deu o mesmo nome. São Tiago Maior e São João Evangelista eram filhos desta terceira filha de Santa Ana.



[1] Nestório foi um monge, oriundo da Anatólia, que se tornou arcebispo de Constantinopla entre 10 de abril de 428 e 22 de junho de 431. Negava que Nossa Senhora fosse chamada de  Teótoco ("Mãe de Deus”) Acusado de heresia, procurou se defender no I Concílio de Éfeso (431), mas só conseguiu ser formalmente condenado como herege e derrubado de sua  sé episcopal. O nestorianismo se tornou então a posição oficial da chamada igreja assíria do oriente, que reconhecia apenas os dois primeiros concílios (Nicéia e Constantinopla) . São João Damasceno, como se viu, combatia o nestorianismo ainda em seu tempo, e de uma forma muito contundente.

 

A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA NA "LEGENDA ÁUREA"

 

1. A gloriosa Virgem Maria nasceu da estirpe régia de Davi na tribo de Judá. Mateus e Lucas não descrevem a genealogia de Maria, e sim de José, que nada teve com a concepção de Cristo, devido ao costume da Escritura de mostrar o encadeamento das gerações não a partir das mulheres, mas dos homens. É verdade, contudo, que a beata Virgem descende de Davi, o que fica patente na Escritura quando atesta muitas vezes que Cristo originou-se da semente de Davi. Logo, como Cristo nasceu apenas da Virgem, é claro que a própria Virgem nasceu de Davi, do ramo de Natã.

Davi teve, entre outros, dois filhos, Natã e Salomão. Como certifica João Damasceno, Levi – do ramo de Natã, filho de Davi – gerou Melque e Pantar. Pantar gerou Barpantar e Barpantar gerou Joaquim e Joaquim a Virgem Maria. Do ramo de Salomão, uma filha foi esposa de Natã com o qual gerou Jacó. Falecido Natã, um membro de sua tribo, Melque, filho de Levi, irmão de Pantar, casou com a viúva de Natã, mãe de Jacó, e dela gerou Eli. Assim, Jacó e Eli são irmãos uterinos, mas Jacó sendo da tribo de Salomão e Eli da de Natã. Falecido Eli, da tribo de Natã, sem filhos e filhas, Jacó seu irmão, que era da tribo de Salomão, tomou sua mulher e ressuscitou a semente de seu irmão, gerando José. Portanto, José é segundo a natureza filho de Jacó, descendente de Salomão, e segundo a lei filho de Eli, descendente de Natã. De fato, o filho nascido dessa forma era daquele que o gerava segundo a natureza e do defunto segundo a lei. Até aqui, falou o Damasceno.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Joaquim tomou uma mulher de nome Ana, que tinha uma irmã chamada Isméria. Esta Isméria gerou Isabel e Eliúde, e Isabel gerou João Batista. De Eliúde nasceu Eminem, de Eminem nasceu São Servácio, cujo corpo está em Maastrich, fortaleza à margem do Mosa, no episcopado de Liège. Conta-se que Ana teve três maridos, a saber: Joaquim, Cleofas e Salomé. Do primeiro destes maridos, quer dizer, Joaquim, teve uma filha, Maria, mãe e progenitora do Senhor, que deu em casamento a José e que gerou e pariu o Senhor Cristo. Falecido Joaquim, Ana aceitou Cleofas, irmão de José, e dele gerou outra filha, chamada pelo mesmo nome de Maria e que uniu em casamento a Alfeu. Esta Maria gerou de seu marido Alfeu quatro filhos, a saber: Tiago, o Menor; José, o Justo, conhecido por Barsabás, Simão e Judas. Falecido seu segundo marido, Ana aceitou um terceiro, Salomé, do qual gerou outra filha, chamada mais uma vez de Maria e deu-a em casamento a Zebedeu. Esta Maria gerou dois filhos de seu marido Zebedeu, a saber: Tiago, o Maior e João Evangelista. Daí os versos a este respeito:

“Tem-se o costume de dizer que Ana concebeu três Marias,

Geradas de seus maridos Joaquim, Cleofas e Salomé

Elas foram entregues a José, Alfeu e Zebedeu, seus maridos

A primeira pariu Cristo, a segunda Tiago, o Menor,

José, o Justo, Simão e Judas.

A terceira, Tiago, o Maior, e o alado João”.

Mas o admirável, como dito acima, é como a Bem-Aventurada Maria pôde ser prima de Isabel. Sabe-se que Isabel foi mulher de Zacarias, da tribo de Levi, pois segundo a lei todos deveriam ter esposa de sua tribo e família, e foi atestado por Lucas que Isabel estava entre as filhas de Aarão. Ana, segundo Jerônimo, era de Belém e da tribo de Judá. Mas sabe-se que Aarão e seu irmão, o sumo sacerdote Joiada, tomaram ambos esposas da tribo de Judá, de forma que a tribo real e a tribo sacerdotal passaram a estar ligadas pelo sangue. Pode ser, como afirma Beda, que este tipo de relação com a troca de mulheres entre as tribos fosse recente. De toda forma, a Beata Maria, descendente da tribo régia, tinha relações consanguíneas com a tribo sacerdotal, e deste modo pertencia a ambas as tribos.

Quis o Senhor que estas tribos privilegiadas se miscigenassem, porque no seu mistério estava para nascer delas aquele que verdadeiramente foi rei e sacerdote, que se sacrificou por nós e que dirige seus fieis  em maio à malícia das lutas desta vida para coroá-los após a vitória. Daí o nome Cristo, isto é, “ungido”, “escolhido”, pois na antiga lei apenas os sacerdotes, reis e profetas eram ungidos, e por isso nós somos chamados “cristãos”, “povo eleito” e “povo do sacerdócio real”. Quando se diz que as mulheres uniam-se com os homens de sua tribo, era para que a distribuição das terras fosse alterada, mas como a tribo dos levitas, ao contrário das outras, não tinha terra, as mulheres desta tribo podiam casar-se com quem quisesse.

No prólogo da História da Natividade da Virgem, o bem-aventurado Jerônimo conta o que ainda adolescente leu em um opúsculo, mas que só muito  tempo depois releu e a pedido transcreveu. Joaquim era da Galileia, da cidade de Nazaré, e tomou como esposa Santa Ana, de Belém. Ambos eram justos e seguiam irrepreensivelmente todos os mandamentos do Senhor, dividindo em três partes todos os seus bens, uma destinada ao Templo e seus servidores, outra aos peregrinos e pobres, a terceira reservada para eles e sua família. Como por vinte anos não tiveram filhos, fizeram uma promessa ao Senhor, que se este lhes concedesse descendência eles a entregariam a Seu serviço. A fim de obterem a graça do Rei, iam todos os anos às três principais festas em Jerusalém.

Na festa da Dedicação, Joaquim foi com outros de sua tribo até Jerusalém  e ao chegar ao altar quis oferecer essa oblação junto com os demais. Vendo isso cheio de indignação, o sacerdote agarrou-o, afastou-o e repreendeu sua presunção de se aproximar do altar, porque não era conveniente, sob pena de maldição da lei, que oferecesse oblações ao Senhor quem não tivesse feito crescer o povo de Deus, quem era infecundo entre os fecundos. Confuso e envergonhado, Joaquim não quis voltar para casa a fim de não ouvir ofensas. Ela afastou-se, foi para junto de seus pastores e ficou com eles por algum tempo, até que um dia, estando sozinho, um anjo apareceu com tão forte luminosidade que deixou sua visão turva.

O anjo avisou para não ter medo, dizendo:

Eu sou o anjo do Senhor enviado para anunciar que suas preces foram ouvidas e que suas esmolas subiram até o Senhor. Vi a sua vergonha e ouvi o opróbrio de esterilidade que foi injustamente imputado a você. Deus vinga o pecado, mas não a natureza, por isso se Ele fecha um útero o faz para abri-lo novamente de maneira maravilhosa, para que se saiba que o nascido não é produto libidinoso, mas presente divino. Não é verdade que Sara, a primeira mãe de seu povo, suportou e injúria da esterilidade até os noventa anos de idade e ainda assim gerou Isaac, ao qual foi prometida a bênção de todas as nações? Não é verdade que Raquel foi estéril por muito tempo, e contudo gerou José, que teve domínio sobre todo o Egito? Há alguém mais forte do que Sansão ou mais santo do que Samuel? Todavia ambos nasceram de mães estéreis. Creia em minhas considerações e exemplos. As concepções adiadas por muito tempo e os partos de quem parecia estéril são os mais admiráveis. Também sua esposa Ana parirá uma filha e você lhe dará o nome de Maria. De  acordo com a promessa que fizeram, ela será consagrada ao Senhor desde a infância. Desde o útero de sua mãe será cheia do Espírito Santo. A fim de que não haja qualquer suspeita que lhe seja desfavorável, não terá contato com o mundo, ficará sempre morando no templo do Senhor. Ela própria, nascida de mãe estéril, gerará maravilhosamente um filho altíssimo, cujo nome será Jesus e por meio do qual todos os povos serão salvos. Dou a você uma prova: quando chegar à porta dourada de Jerusalém, sua esposa Ana virá ao seu encontro, e de inquieta com sua demora ela passará a demonstrar alegria![1]

Dito isso o anjo retirou-se.

Ana chorava amargamente por ignorar aonde seu marido tinha ido, quando o mesmo anjo lhe apareceu e anunciou a mesma coisa, acrescentando como prova que fosse à porta dourada de Jerusalém onde encontraria o marido indo em sua direção. Logo, seguindo o preceito do anjo, um foi ao encontro do outro, felizes com a visão noturna e certos da prole prometida. Voltaram para casa, depois de adorar o Senhor, esperando alegremente a promessa divina.

Então Ana concebeu e deu à luz uma filha, à qual chamou Maria. Completados os três anos de amamentação, levaram a Virgem com oferendas ao templo do Senhor. O templo fora construído em um monte, com o altar do holocausto sendo externo e só podendo ser atingido depois de subir quinze degraus, correspondentes aos quinze salmos graduais. [2] Quando a jovenzinha Virgem foi colocada junto com os outros, subiu sem a ajuda de ninguém, como se já fosse adulta. Concluído o ofertório, Joaquim e Ana voltaram para casa deixando sua filha com outras virgens no templo. A Virgem, por seu lado, progredia cotidianamente em todo tipo de santidade. Cotidianamente era visitada por anjos e desfrutava de visões divinas. Jerônimo diz em uma carta a Cromácio Heliodoro que a beata Virgem  estabelecera para si esta regra: de matinas até a terça oração; da terça até à nona, trabalho manual de tecelã; da nona até aparecer o anjo que lhe dava alimento, novamente orações.

Quando ela fez quatorze anos, o pontífice proclamou publicamente que as virgens que eram instruídas no templo e haviam atingido aquela idade deveriam voltar para suas casas a fim de serem legitimamente casadas. Diante dessa ordem todas partiram, apenas a bem-aventurada Virgem Maria respondeu que não podia fazê-lo, pois seus pais haviam-na entregue ao serviço do Senhor e prometido a Ele a virgindade dela. O pontífice ficou angustiado, porque não queria ir contra a Escritura que diz “Prometa e cumpra o prometido” (Num 30, 2-3), nem ousava introduzir novidade nos costumes do povo. Ao aproximar-se uma festividade dos judeus, convocou todos os anciãos e a sentença unânime foi que em assunto tão duvidoso deveria ser buscado o conselho do Senhor. Eles permaneceram em oração, e quando o pontífice dirigiu-se ao oratório para consultar o Senhor, todos ouviram vindo dali uma voz dizer: “Todos os homens da casa de Davi que não estão convenientemente unidos em casamento devem levar um ramo ao altar, e aquele cujo ramo germinar e em cuja ponta o Espírito Santo pousar em forma de pomba, conforme profetizou Isaías, deve sem qualquer dúvida desposar a Virgem”.

Entre os membros da casa de Davi estava José, ao qual pareceu inconveniente que um homem de idade tão avançada tomasse como esposa uma virgem tão jovem. Assim, enquanto os demais levavam seus ramos, ele escondeu o seu. Como não aconteceu nada de acordo com o que a voz divina anunciara, o pontífice mais uma vez decidiu consultar o Senhor, que respondeu que somente aquele que não levara sua vara deveria desposar a Virgem. Diante disso José levou sua vara, que floresceu em cujo topo pousou uma pomba vinda do Céu. Ficou evidente para todos que ele deveria desposar a Virgem. Combinado portanto o casamento com a Virgem, José voltou para sua casa na cidade de Belém para tomar as providências necessárias para as núpcias. Quanto à Virgem Maria, voltou para a casa de seus pais em Nazaré acompanhada, por determinação do sacerdote, como testemunho do milagre, por sete colegas, virgens da mesma idade que ela. Por aqueles dias o Anjo Gabriel apareceu a ela enquanto orava e anunciou que dela nasceria o Filho de Deus.[3]

Durante muito tempo a data do nascimento da Virgem esteve escondida dos fiéis. JOÃO BELETH conta da seguinte maneira como ela foi descoberta: certo homem santo, constante na contemplação, ouvia todos os anos, no dia 8 de setembro, uma alegríssima celebração por parte da comunidade dos anjos. Com muita devoção ele pedia que lhe fosse revelado por que ouvia aquilo naquele dia do ano e não em outro, e recebeu a resposta divina: aquele era o dia em que a gloriosa Virgem Maria havia nascido no mundo, e ele deveria divulgar o fato aos filhos da Santa Igreja a fim de que se reunissem à corte celeste nesta celebração. Ele comunicou isso ao sumo pontífice e outros prelados, que por meio de orações e jejuns descobriram a verdade nas Escrituras e em antigas tradições, dedicando em todo o mundo este dia para a celebração da natividade da Virgem.

Antigamente, a oitava da natividade da Beata Maria não era celebrada, mas o senhor Inocêncio IV, de origem genovesa, instituiu tal celebração. A causa disto foi que com a morte de Gregório IX (século XIII) todos os cardeais fecharam-se em conclave para rapidamente escolherem um novo chefe da Igreja. Mas como por vários dias não puderam chegar a um acordo e eram muito pressionados pelos romanos, prometeram à Rainha do Céu que se pelos méritos dela eles viessem a concordar e pudessem sair dali livremente, estabeleceriam a celebração da oitava de sua natividade negligenciada por tanto tempo. Eles concordaram em escolher o senhor Celestino e foram libertados. No entanto, Celestino viveu pouco tempo e por isso não pôde cumprir a promessa, o que foi feito por Inocêncio IV. Note-se que a Igreja celebra três natividades: a saber, a de Cristo, a de Santa Maria e a de João Batista, que designam três natividades espirituais: renascemos com João pela água, com Maria pela penitência e com Cristo na glória. Em relação aos adultos, convém que a natividade da contrição preceda a natividade do batismo e da glória. Por isso estas duas festas merecem ter vigílias, mas como a natividade da Virgem é penitência, e portanto toda orientada para a vigília, não precisa ter vigília. Todas têm oitava porque na verdade todas anseiam pela oitava da Ressurreição.[4]


(JACOPO DE VARAZZE – Legenda Áurea – Vidas de Santos – Companhia das Letras – págs. 746/752)



[1] Tais palavras do anjo constam no  Protoevangelho de Tiago, mas não nos textos canônicos da Igreja.

[2] A palavra “gradual” deriva de grado, “degrau”, indicando a subida que os judeus faziam até o templo cantando determinados salmos (os de número 119 a 133, ou 120 a 134). Na liturgia romana, os salmos graduais (que podem ser aqueles ou outros) eram cantados na missa entre a leitura da Epístola do Evangelho, e assim se organizou o Gradual, livro de canto gregoriano utilizado na missa. “Salmos Graduais” é também chamado de “Cânticos de Romagem” ou Cânticos de Peregrinação”.

[3] É de se supor que essa aparição de São Gabriel tenha tido testemunhas, pois era necessário que aquele fato tivesse autoridade de revelação a toda a sociedade. Nossa Senhora deveria ter comunicações com os Anjos de uma forma reservada, não sendo necessário, para Ela, que houvesse uma aparição para lhe ser transmitida tal revelação.

[4] A partir de agora a Legenda Áurea vai narrar vários casos da interferência milagrosa de Nossa Senhora, mas sem indicar fontes seguras, às vezes sem citar outros detalhes como local onde ocorreram os fatos. O objetivo da obra era apenas despertar a piedade popular, narrando apenas fatos que comentava-se entre o povo sem documentação apropriada, daí o nome “legenda”, isto é, fatos quase lendários, mas oriundos da piedade cristã.

sábado, 5 de setembro de 2026

A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA

 


 

É um costume comum festejar-se o aniversário das pessoas. A razão disso está em que o aniversário da pessoa representa o momento em que a pessoa entrou na cena dessa vida, e o momento em que o ambiente em que essa pessoa é destinada a viver se enriquece com mais uma presença.

Em princípio, todo nascimento é um favor, é uma graça de Deus, é um enriquecimento para a sociedade humana, porque todo homem tem um grande valor.

Ainda que ele seja concebido em pecado original, ainda que a natureza humana seja inferior à natureza angélica, ainda que o homem, além do pecado original, traga algum vício moral existente na família, cada homem é uma criatura de grande valor. Cada criatura que aparece na Terra representa um enriquecimento altamente ponderável para essa obra de Deus em seu conjunto, que é a humanidade.

Assim, quando se festeja o aniversário de uma pessoa, festeja-se a entrada de alguém no mundo, se festeja a entrada daquele na cena do mundo com tudo quanto ele trouxe e que lhe é característico de luz primordial, de virtudes que deverá realizar, de riquezas de alma que tem dentro de si. E até mesmo o pecado original, com os defeitos que a pessoa leva dentro de si, como coisa a ser vencida e combatida, como aumento de glória, representa também algo no nascimento da pessoa e no enriquecimento em relação à humanidade.

 

Concebida sem pecado, com todas as riquezas naturais próprias à condição feminina e cheia de Graças: predicados de Nossa Senhora

Nestas condições, a festa da Natividade de Nossa Senhora leva-nos a perguntar qual o enriquecimento que Ela trouxe para a humanidade e a que título especial a humanidade deve festejar seu nascimento. Se nos colocarmos nessa perspectiva quase não se sabe o que dizer. Porque na ordem da natureza, Nossa Senhora foi concebida sem pecado original.

Assim Ela, única no mundo desde o pecado original, isenta de todas as manchas, um lírio incomparável na formosura do gênero humano, algo, portanto, que deveria dar alegria à terra inteira e a todos os coros angélicos. Apareceu nesse exílio, no meio dessa humanidade, uma criatura sem pecado original.

Mas acontece que, além disso, Nossa Senhora trazia consigo todas as riquezas naturais que dentro de uma mulher possam caber. Nosso Senhor deu a Ela, segundo a ordem da natureza, uma personalidade riquíssima, preciosíssima, valiosíssima e, a esse título, a presença d’Ela entre os homens representava outro tesouro verdadeiramente incalculável.

Mas, se a tudo isso juntarmos os tesouros das graças que vinham com Ela, que Ela tinha consigo e que são as maiores graças que Deus Nosso Senhor tenha concedido a alguém, graças verdadeiramente incomensuráveis, compreendemos então o que representa a entrada de Nossa Senhora no mundo.

O nascer do sol é uma realidade pálida em relação à entrada de Nossa Senhora no mundo. Todos os fenômenos mais grandiosos da natureza que representem algo de precioso, algo de inestimável, nada são em comparação disso. A entrada mais solene que se possa imaginar de um rei ou de uma rainha no seu reino, não é nada em comparação disso.

A alegria de todos os Anjos do Céu, a alegria talvez de muitas almas justas que tenham ficado cientes desse fato, talvez sentimentos confusos de alegria espalhados por aqui e por lá nas almas boas, tudo isso deve ter saudado o momento bendito em que Nossa Senhora entrou no mundo.

Há uma frase de Jó, que eu gosto muito de citar e que me parece adequada para isso: “Bendito o dia que me viu nascer, benditas as estrelas que me viram pequenino, bendito o momento em que minha mãe disse: nasceu um varão”.

Também se poderia dizer: “Bendito o dia em que viu Nossa Senhora nascer, benditas as estrelas que brilharam sobre Nossa Senhora quando pequenina, bendito o momento em que os pais de Nossa Senhora verificaram que tinha nascido a criatura virginal que era chamada a ser a Mãe do Salvador”!

 

O nascimento de Nossa Senhora num mundo imerso no paganismo e as irrupções da ação d’Ela na alma dos fiéis nos períodos de provação

A Natividade de Nossa Senhora nos traz outro pensamento. O mundo estava prostrado no paganismo. A situação do mundo naquele tempo era parecida com a do mundo de hoje; todos os vícios imperavam, todas as formas de idolatria tinham dominado a terra, a abominação tinha penetrado na própria religião judaica, que era o prenúncio da religião católica; o mal e o demônio venciam inteiramente.

Mas, no momento decretado por Deus em sua misericórdia, Ele arrebenta a muralha, começa a derrocada da ordem do demônio quando menos se podia imaginar, faz nascer Nossa Senhora e, com o nascimento de Nossa Senhora que era a raiz bendita de onde nasceria Nosso Senhor, começava a obra de derrocamento do demônio.

Quantas vezes não se passa coisa semelhante na vida espiritual do católico! Quantas vezes a alma deste, daquele, daquele outro, está em luta, está com problemas, contorcendo e revolvendo-se em dificuldades! A pobre alma nem se dá ideia de quando virá o dia bendito em que uma grande graça, um grande favor irá acabar com seus tormentos, com suas lutas e, afinal de contas, proporcionar-lhe um grande progresso na vida espiritual.

Há aqui o nascimento, num sentido especial da palavra, das irrupções de Nossa Senhora na alma do fiel. E que na noite das maiores dificuldades, das maiores trevas, de repente Nossa Senhora aparece e começa a quebrar as dificuldades com que ele se defronta.

Ela aparece como uma aurora em sua vida e começa a representar algo de novo em sua vida espiritual, que ele nem conhecia.

Há outra consideração também: Nossa Senhora parece tão ausente!

O mundo de hoje é tão parecido com o mundo daquele tempo que, se levarmos em conta que de um momento para o outro Nossa Senhora pode começar a agir, pode tornar sua atividade mais constante, mais contínua, mais intensa do que tem sido até aqui para a restauração de seu Reino, podem começar a acontecer fatos extraordinários que façam sentir sua presença, aí teremos mais uma irrupção de Nossa Senhora no mundo.

E essa irrupção poderia se fazer através do nosso Movimento com tudo quanto ele tem de humanamente pobre, de humanamente fraco. Mas que, como David, pela fé, pela dedicação e pelo uso das táticas da RCR, poderia derrubar e esmagar o gigante da Revolução. Uma ação assim seria uma irrupção de Nossa Senhora na História do mundo, uma manifestação do desejo de Nossa Senhora de vencer. As muralhas que temos derrubado, as graças de que, embora indignos, temos sido canais, não podem representar senão a manifestação da vontade do Imaculado Coração de Maria de implantar seu Reino.

Então, tudo isso nos deve dar muita alegria e muita esperança, com a certeza de que Nossa Senhora nunca abandona seus filhos, e que mesmo nas ocasiões mais difíceis Ela os visita, sua presença como que irrompe entre eles, resolve seus problemas, cura suas dores, dá-lhes a combatividade e a coragem necessárias para cumprirem seu dever até o fim, por mais árduo que seja.

 

Devemos pedir para haver uma irrupção de Nossa Senhora nos dias de hoje

Um prelado conversava comigo ontem dizendo que sustenta uma tese, para a qual ele até pretende recolher material, que é a seguinte:

Há elementos históricos para dizer que todas as grandes almas que lutaram contra os hereges, os grandes martelos das heresias aparecidos através dos séculos, têm sido escolhidos especialmente por Nossa Senhora, pessoalmente por Nossa Senhora.

A suscitação dessas almas realmente lembra algo de muito bonito existente no brasão dos padres do Imaculado Coração de Maria! Coração de Nossa Senhora e no alto do brasão, São Miguel Arcanjo, e depois essas palavras: “Os filhos d'Ela se levantaram e A proclamaram Bem-aventurada”.

Essa presença de guerreiros espirituais que, como soldados de São Miguel Arcanjo, armados com o gládio da Fé se levantam para combater o adversário, proclamando o Coração de Maria bem-aventurado, isto não seria também uma irrupção de Nossa Senhora na História?

Eu acreditaria que fosse. E devemos pedir que venham esses guerreiros indomáveis, de um ódio implacável ao demônio e aos seus sequazes, à Revolução e às suas obras, desejosos de liquidar - segundo a Lei de Deus e dos homens - a Revolução! Desse ódio à Revolução é que devem estar cheios os corações daqueles que amam realmente Nossa Senhora.

Vamos pedir a Nossa Senhora essa graça especial: que haja uma irrupção d'Ela no mundo de hoje, almas armadas de espírito de luta legal e doutrinária, de espírito implacável de hostilidade à Revolução satânica,  para humilhá-la, para restabelecer definitivamente a glória da Igreja, tão conspurcada pela Revolução neste momento.

De maneira tal que, quando morrerem, se possa colocar na sepultura de cada um d’Eles, esta expressão: Este foi um filho d'Ela, que se levantou e a proclamou Bem-aventurada nessa época de apostasia, de humilhação e desfalecimento da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

 

 Nossa Senhora teve o uso da razão desde o primeiro instante de seu ser e já neste momento começou a influir no destino da humanidade

A festa da Natividade está para Nossa Senhora como o Natal para Nosso Senhor. Assim como a festa do Natal celebra o momento bendito em que Nosso Senhor entrou no mundo e começou a fazer visivelmente parte da sociedade humana, a festa da Natividade celebra o momento em que Nossa Senhora entrou no mundo e começou a fazer parte da sociedade humana.

Os senhores me dirão: ­ “Mas o que representa para a sociedade humana a entrada de um bebê nessa sociedade? Uma criança que não tem o uso da palavra, o uso da razão, uma criança que, afinal de contas, não pesa no convívio dos homens...”

Com Nossa Senhora isto não houve. Como Ela era concebida sem pecado original, teve o uso da razão desde o primeiro instante de seu ser; e já a partir do ventre materno Nossa Senhora pensava, e tinha pensamentos elevadíssimos e sublimíssimos, vivendo no seio de Santa Ana como num verdadeiro tabernáculo.

Temos uma confirmação indireta disso no que conta o Evangelho sobre São João Batista. Quando São João Batista - que não foi isento do pecado original, mas teria sido purificado dele ao ouvir a saudação de Maria a Santa Isabel - estremeceu de alegria no seio de Santa Isabel ao ouvir a voz de Nossa Senhora cantando, saudando Santa Isabel. E Santa Isabel disse isso a Nossa Senhora.[1]

Assim também, Nossa Senhora viveu no seio de Santa Ana e desde ali Ela começou a rezar pela humanidade, começou com a ciência altíssima que tinha recebido pela graça de Deus, começou a pedir a vinda do Messias, começou a pedir pela queda de todo Mal no gênero humano, e desde ali formou-se, com certeza, em seu espírito, aquele intuito elevadíssimo, de vir a ser uma servidora do Salvador, que pudesse servir a Mãe do Salvador e ajudá-la. Na realidade, por essa forma Nossa Senhora já começou a influir nos destinos da humanidade.

Mas acontece também que sua presença na terra já era uma fonte de graças para todos aqueles que se aproximavam d’Ela na sua infância e mesmo antes d'Ela nascer.

Se a Escritura nos diz que da túnica de Nosso Senhor saía uma virtude que curava todos, ou melhor, os que tocavam em seu manto beneficiavam-se de uma virtude curativa, quanto mais a Mãe de Nosso Senhor, Aquela que estava escolhida como vaso de eleição.

A presença de Nossa Senhora nessa terra, já como menina, mesmo como criancinha, era uma fonte enorme de graças.

Por isso se pode dizer que, embora Ela fosse criancinha, já em seu natal graças enormes começaram a raiar para a humanidade; já aí o demônio começou a ser esmagado e a vitória da Contra-Revolução começou a ser afirmada e o demônio começou a perceber que algo de seu cetro estava partido e que nunca mais se consertaria.

Compreende-se então como a vinda de Nossa Senhora à terra foi uma graça para todos os homens e compreende-se a importância da festa que celebramos hoje.

 

Semelhante a “aurora” do luar é o “natal” de Nossa Senhora. Nesta noite devemos pedir a Nossa Senhora uma graça que Ela queira nos conceder

Para resumir, tenham os senhores em mente uma noite de Natal. Há 1963 anos e tanto - simplificando os dados cronológicos - que Nosso Senhor nasceu.

Há 1963 anos que essa festa se repete e em toda noite de Natal tem-se a sensação de que uma bênção enorme desce de Céu sobre a terra e que, de algum modo, as energias espirituais de todos os homens se renovam. Há uma verdadeira aurora.

É por causa disso que a noite de Natal é única no ano. Isso que se dá com a noite de Natal nos dá uma ideia do que foi a primeira noite de Natal, em que Nosso Senhor nasceu.

Ora, como tudo quanto é de Nossa Senhora é muito parecido com o de Nosso Senhor, tudo quanto diz respeito a Ela tem uma íntima conexão com o que diz respeito a Ele, pode-se também imaginar assim na noite de hoje.

Seria bonito que numa noite como a de hoje, tivéssemos uma noção mais viva e mais concreta da Natividade de Nossa Senhora. Que semelhança há entre um e outro? Quando se fala em Natal de Nosso Senhor, lembramo-nos do nascer do sol. Mas se Nosso Senhor é o sol, Nossa Senhora é, muitas vezes, comparada à lua.

E como é bonito vermos a luz que nasce! O nascer da lua não tem a glória do nascer do sol e nem é o nascer do sol; mas quanto tem de parecido, de análogo com o nascer do sol. Como ele é benfazejo, como ele alegra, como ele estimula, como ele consola. Isso nos poderia dar a ideia do que foi esse bendito natal de Nossa Senhora. E como somos - estímulo muito particular - filhos de Nossa Senhora pela consagração a seu Sapiencial e Imaculado Coração conforme o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, não por méritos nossos, mas pela vontade d’Ela, podemos pedir nesta noite de hoje, que Nossa Senhora nos dê alguma graça especial.

Já se disse que nas revelações privadas de muitos santos conta-se que nas festas especiais de Nossa Senhora Ela desce ao Purgatório, concede um grande número de graças e leva um número enorme de almas para o Céu e, por outro lado, melhora as condições de muitas almas que não leva para o Céu.

Isto nos dá um pouco a ideia do que Ela faz na Igreja militante. Sua graça baixa sobre nós e nos obtém uma porção de favores. É o momento de pedirmos a Nossa Senhora que nos conceda um favor.

Qual o favor que devemos pedir? Que cada um se recolha um pouco, se concentre e peça uma graça qualquer.

Mas eu sugiro que esteja presente, de modo especial, essa graça: de Nossa Senhora estabelecer com cada um de nós, como que uma aliança especial. Como que constituir vínculos de uma filiação especial na nossa relação com Ela, de maneira que nos tome debaixo de seu amparo particular e que a esse título, nos cure da chaga da alma que Ela mais entenda que nos deva curar. Às vezes não é bem o que imaginamos, mas outra coisa. Aquilo de que mais necessitar nossa alma, que Ela nos dê nessa sua noite de natal. [2]

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]  Cfr., por ex., D. Duarte Leopoldo e Silva, "Concordância dos Santos Evangelhos", pg. 20, nota (4), Edit. LTR, Sétima Edição, São Paulo, 1988.

 

[2] Conferência Santo do Dia, 8 de setembro de 1963