domingo, 19 de julho de 2026

RISCO DE IDOLATRIA NOS TEMPOS ANTIGOS

 



Quando a idolatria penetrou em Israel no tempo do Rei Acab, principalmente através da terrível Jezabel, eram dois os tipos de cultos idolátricos. Um deles era os adoradores das árvores (I Reis 16, 33) e o outro era o culto a Baal.  Este tipo de idolatria foi importado da Babilônia, era o mesmo praticado no tempo da torre de Babel.  Pesquisas recentes o comprovam.  Quando os sumérios e acádios ainda viviam em matas e aldeias, a gnose e a idolatria se faziam presente nas grutas, rochedos e troncos de árvores. Depois, eles construíram cidades e passaram a criar seus ídolos, inicialmente nascidos da vida passada de personagens importantes, como patriarcas ou reis antigos, mas depois apenas como entidades imaginadas para representar aspectos da natureza ou da criação de modo geral.  Com o passar do tempo, estes ídolos eram representados por imagens de barros, de bronze ou até mesmo de algum outro metal então existente.

Oliver Aurenche, professor de Pré-história da Universidade Lumière-Lyon, em artigo para a revista “História Viva”, (transcrita da “Historia” francesa) assevera que houve uma transição entre o estilo de vida tribal e o urbano, numas espécies de aldeias. Em meio das rústicas casas de tais aldeias foram encontrados nichos para serem abrigados aqueles deuses, os quais, futuramente, passaram a morar nas cidades quando houve a urbanização. Depois, era só entronizar na mais alta torre o deus principal a fim de ser adorado por todos.

 

A primeira civilização, o império da gnose

Era difícil para Satanás criar a idolatria sem que antes construísse uma “civilização”. Era o primeiro passo para pedir que lhe adorassem. Era muito recente na mente dos homens as notícias sobre Deus e a Criação do mundo: como, pois, falar da existência de “deuses”, já que Adão e Eva não se transformaram em deuses após comer os frutos proibidos? Até o tempo dos Faraós no Egito (que herdaram a idolatria dos sumérios e acádios) os “deuses” eram apenas os reis que a si mesmo assim se intitulavam. A exemplo do deus mais antigo entre eles, chamado Ra, que era um Faraó. Muitos desses deuses, cujas lendas foram aos poucos sendo divulgadas para alimentar o culto, poderiam também ter sido alguns patriarcas antigos ou mesmo bruxos da gnose que se destacaram com grande poder diabólico.

Não só sobre Deus, mas era recente também as notícias sobre o Paraíso terrestre, e mais fácil despertar nos homens os desejos de uma felicidade e de um gozo terreno. Surgem as cidades e com elas as construções que enaltecem o orgulho humano.  Ainda hoje se fala em construções que a Antiguidade cognominou das “sete maravilhas do mundo”.

A aliança que Deus fizera com Noé foi rompida por nova decadência e depravação. O pecado da torre de Babel era o pecado do orgulho e do conhecimento da “felicidade” terrena. O homem começa a construir uma civilização inteiramente dedicada a si mesmo, esquecendo-se de Deus tão próximo. Era a pretensão descabida de “redimir” a humanidade com o “progresso” – a torre que vai até o céu, onde deveria estar a felicidade. 

Ainda restava nos homens muitos dos conhecimentos da ciência infusa herdados de Adão. Satanás aproveitou-se disso e lhes incutiu o desejo de se engrandecer com tais conhecimentos aplicando-os nas construções, de tal forma que colocasse no alto delas, na mais alta de todas, o ídolo maior.  Como castigo veio a ignorância e a dispersão pelo mundo. E para tal efeito, Deus apenas confundiu a língua antes falada, que se dividiu em várias outras. Certamente haviam escrito muitos símbolos pictóricos naqueles monumentos, cujos significados foram prejudicados pela confusão das línguas.[1]

As informações dos arqueólogos revelam construções fantásticas dos tempos idolátricos. A cidade de Babilônia, por exemplo, tinha oito portas e em cada uma delas havia um deus. A própria torre de Babel era o pináculo de um grande templo, dedicado a um deus, hoje conhecida pelo nome de “Templo fundação do Céu”. O historiador Heródoto, em sua obra “Inquéritos”, descreveu a torre de Babel da seguinte forma: “No meio [da cidade de Babilônia] ergue-se uma torre maciça, longa com a largura de um estádio encimada por outra torre, que suporta uma terceira, e assim por diante até oito torres. Uma rampa exterior sobe em espiral até a última torre. A meia altura, aproximadamente, há um patamar e assentos para que se possa sentar e repousar durante a subida. A última torre contém uma grande capela, e nesta vê-se um leito ricamente preparado e, perto dele, uma mesa de ouro”.

O templo dedicado ao deus Marduk, por exemplo, estendia-se por 7.600 metros quadrados, tinha o nome de “Templo da Cabeça Elevada” e era conhecido como “Palácio do Céu e da Terra”.  Uma deusa chamada “Ishtar” parece ter sido a ancestral de Starote, citada na Bíblia, por representar a licenciosidade e luxúria. E esta deusa tinha estátuas espalhadas por todas as cidades, caminhos, casas de moradas, etc.

Em escavações arqueológicas recentes foram encontrados dados que comprovam um tipo de cerimonial idolátrico primitivo: os sacerdotes arrecadavam alimentos entre a população e o ofereciam aos deuses, como se os mesmos fossem vivos e de fato comessem. Este tipo de oferenda é relatado no livro de Daniel (14, 1-21), exatamente na Babilônia, na época do rei Ciro. A crença comum era de que os deuses tinham as mesmas necessidades que nós, a mesma maneira de viver e reações naturais. Embora estivessem sempre colocados no topo da pirâmide social como seres superiores e regentes dos destinos dos homens.

 

Gilgamesh, um rei ou um demônio que sobreviveu ao dilúvio?

Estudos modernos decifraram alguns daqueles documentos pictóricos primitivos e neles encontraram relatos místicos, fantásticos e diabólicos. Um exemplo é o relato sobre um rei ou semideus chamado Gilgamesh.

Os arqueólogos dizem que Gilgamesh foi um rei semilendário, da cidade Uruk, que teria vivido na metade do III milênio antes de Cristo. A descrição do personagem é monstruosa: um búfalo com terríveis chifres, reinando com abominável tirania entre os homens. Para rivalizar com ele a história conta que foi criado um outro monstro, nascido e vivido no deserto entre os animais ferozes.  Alertado sobre a existência deste outro demônio, Gilgamesh enviou-lhe uma de suas cortesãs, especialista no amor livre. E assim, através de uma criatura bestial, o outro monstro foi atraído para a cidade e aceitou a vida urbana.

Enkidu, o antigo monstro rival, tornou-se amigo de Gilgamesh e, pela descrição, talvez até seu amante. Como necessitavam de madeira para fazer as construções na cidade, e esta encontrava-se na floresta, tiveram que enfrentar um demônio terrível que havia nas matas, chamado Humbaba. Venceram o rival e trouxeram a madeira. Assim, começaram a fazer a civilização humana e construir torres enormes.

Quando Gilgamesh viu o amigo, Enkidu, condenado à morte se desesperou e saiu errante pelo mundo. E andou procurando a imortalidade. E quem a tinha era um demônio que sobreviveu ao dilúvio, chamado “Utnapishtim”. Disse este a Gilgamesh que não poderia lhe dar o dom da imortalidade, mas que procurasse em tal lugar que encontraria o remédio para se manter sempre jovem. Gilgamesh aceita o conselho, volta para a cidade, encontra o elixir da juventude, mas é arrebatado de suas mãos por uma enorme cobra.

Conclui o relato que Gilgamesh deixou cair no inferno as insígnias de seu poder. Quer dizer, ele seria um demônio que manteria uma situação passageira de domínio sobre os homens na terra e teria que voltar ao inferno. Neste relato, tais monstros são tidos como reis, personagens pacatos e até mesmo aquele chamado “Utnapishtim” é descrito pelos arqueólogos como se fosse o Patriarca Noé, pelo simples fato de se dizer na lenda que ele “sobreviveu ao dilúvio”.  É provável que o personagem Gilgamesh tenha sido um ser humano, mas inteiramente possuído por um demônio que pretendia manter seu domínio despótico sobre os homens. Assim como um Santo tem um Anjo protetor que aparentemente se identifica com ele, assim também os malditos filhos das trevas têm demônios que se confundem com os mesmos.

 

Divinização de pessoas

Como se viu acima, aos poucos foram também divinizando as pessoas, em geral patriarcas ou feiticeiros famosos que deixaram vestígios de poder e importância. O Patriarca José, depois de falecido, foi objeto de idolatria pelos egípcios, conforme narra a vidente Beata Ana Catarina Emmerich. Tanto ele como a esposa Asenet eram tidos como deuses a ponto de terem criado duas divindades baseadas na fama deles, que foram Isis e Osiris: “Tenho visto, por exemplo, que os deuses Isis e Osiris não eram outra coisa que José (vice-rei do Egito) e Asenet (sua esposa), que os astrólogos do Egito haviam predito a raiz de visões diabólicas, e que eles haviam colocado entre seus deuses.  Quando chegaram, foram venerados como deuses. Tenho visto que Asenet se lamentava e chorava por isso, e até escreveu contra o culto que se lhe tributava[2]

Em outro trecho acrescenta a vidente: “Tenho visto que (Asenet, esposa de José) foi venerada como deusa com o nome de Isis, pela torcida interpretação de seus escritos e rolos. José foi logo venerado sob o nome de Osiris”[3] Quando Moisés libertou o povo hebreu do cativeiro do Egito, segundo Catarina Emmerich, teve que levar às escondidas os restos mortais de José, que estava numa tumba escondida, a fim de evitar que os hebreus o descobrissem e o adorassem como deus.[4] Segundo a mesma vidente, o touro Ápis foi uma divindade que surgiu também no tempo de José, oriundo de uma crença surgida do sonho em que o faraó viu as sete vacas magras e as sete vacas gordas (Gên 41, 1-4).[5] É possível que essa idolatria já existisse desde o tempo em que o povo hebreu, em seu êxodo pelo deserto, mandou construir o bezerro de ouro com o fim de adorá-lo (Gên 32).

Uma demonstração do motivo religioso da sepultura incógnita dos grandes patriarcas (para se evitar a idolatria) é o caso do túmulo de Moisés. Há, até, um verdadeiro mistério que envolve o seu sepultamento: “Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab, segundo a ordem do Senhor; e o sepultou no vale da terra de Moab, defronte de Fegor; nenhum homem soube até hoje o lugar do seu sepulcro...” (Deut 34, 5-6).  Não se sabe o lugar de seu sepulcro, seja uma caverna ou qualquer lugar o mais recôndito possível, pois se viessem a saber poderiam levar seu culto à idolatria. Como diz as Escrituras houve muito pranto com a morte de Moisés, talvez muitas orações, muitos rituais de homenagens a ele, mas o fato de não se vislumbrar sua sepultura talvez tenha evitado que o povo hebreu passasse da simples veneração para a adoração, como era comum ocorrer no Egito de onde vinham. A altercação que o demônio teve com São Miguel sobre o corpo de Moisés, de que fala São Judas em sua Epístola, deve ter sido exatamente com a intenção de lhe dar um sepulto grandioso e com isso despertar a idolatria entre os hebreus.

Em sua Epístola, São Judas alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava torná-lo conhecido, com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por influência que já sofriam dos povos pagãos que os rodeavam. “Quando o Arcanjo Miguel, disputando com o demônio, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a proferir contra ele a sentença de maldição, mas disse somente: “Reprima-te o Senhor”. (Judas 1, 9).  

Os corpos de outros patriarcas antigos tiveram destinos diferentes. Josué teve seus ossos trazidos e sepultados em lugar apropriado – quer dizer, em jazigo da família (Josué 24, 32), sepultado nos “confins da sua possessão, em Tamnatzaré, sobre o monte Efraim, ao norte do monte Gaas” (Jz 2, 9). Sansão também foi enterrado em sepultura comum dos familiares (Juízes16, 31), assim como o último dos Juízes, Samuel (I Sam 25, 1). O grande rei Davi, porém, recebeu as homenagens e reverências merecidas, tendo sido enterrado em sua cidade (Belém), quer dizer, entre seus familiares (I Reis 2, 10-11), assim como seu filho Salomão (II Crônicas 9, 31).  Mas não há notícias sobre qualquer suntuosidade de seus túmulos. A essa altura, o povo hebreu já havia se desenvolvido mais, saído da situação pastoril e rural para a de uma civilização real, especialmente após a aprovação da primeira monarquia.

A partir daí a Sagrada Escritura sempre se refere aos sepultamentos dos reis de Israel como se tivessem ocorrido “na cidade de Davi”, isto é, Belém. O rei Asa foi enterrado lá (II Crôn 16, 14), em sepulcro que o mesmo mandara fazer para si. O rei Ezequias foi enterrado na mesma localidade, referindo a Bíblia que “todo povo de Judá e todos os moradores de Jerusalém celebraram os seus funerais...” (II Crôn 32, 33). Um de seus sucessores, o rei Josias, já é enterrado num mausoléu (II Crôn 35, 24-25), demonstrando um progresso do povo hebreu no combate à idolatria e a construção de monumentos funerários para seus reis sem perigo para sua fé.

No entanto, havia outro lado da questão: faltar com a reverência aos mortos em seu sepultamento era mal sinal, significava que não tiveram boa fama. Tal era a importância dada ao sepultamento de seus mortos que a Sagrada Escritura o menciona como principal virtude de Tobias (Tob 1,20). No cativeiro da Babilônia, onde vivia com os de sua tribo (Neftali, do reino de Samaria) os corpos dos hebreus mortos eram jogados fora das muralhas da cidade a fim de serem devorados pelas aves de rapina: o perverso rei proibia que se enterrassem os corpos dos israelitas, e quem o fizesse era severamente punido. Certo dia, Tobias estava sentado à mesa para o jantar quando veio seu filho e lhe disse que haviam deixado na praça o corpo de um israelita morto: sem titubear o velho Tobias levantou-se imediatamente da mesa, foi buscar o cadáver e o ocultou até à noite, quando o enterrou dignamente (Tob. 2, 37).

Porém, com relação àqueles que tiveram grande e boa fama, ou apenas certa fama de poder e grandeza, havia a tentação da idolatria. Era preciso prevenir o povo eleito de tal tentação, de modo particular no tempo de Moisés quando a idolatria era imperante e disseminada pelo mundo, especialmente entre os egípcios daquele tempo.

Moisés foi de tal grandeza que é elogiado até mesmo pela Sagrada Escritura, quer dizer, pelo Espírito Santo. No Eclesiásticos há um grande elogio à sua pessoa: “Moisés foi amado por Deus e pelos homens; a sua memória é abençoada. O Senhor fê-lo semelhante em glória aos santos, engrandeceu-o e tornou-o terrível aos seus inimigos. Pela sua fé e mansidão o santificou, e o escolheu dentre todos os homens” (Eclesiásticos 45, 1-4). É considerado pelos Santos e Doutores da Igreja como homem extraordinário, grande santo, sumo profeta, o legislador insigne e mais sábio que já houve, taumaturgo prodigioso, o mais antigo dos historiadores, o mais sublime dos filósofos. E no entanto, morreu sem nenhuma recompensa terrena, não se sabendo o que ocorreu com sua descendência. Foi um homem nascido para o bem da humanidade.

São Paulo tece grandes elogios a Moisés, especialmente por causa de sua fé: “Pela fé, Moisés, depois de nascido, foi escondido por seus pais durante três meses, porque viram que era um menino formoso e não temeram o edito do rei. Pela fé, Moisés depois de grande, negou ser filho da filha do Faraó, escolhendo antes ser afligido com o povo de Deus, que gozar a delícia transitória do pecado, considerando maior riqueza o opróbrio de Cristo que os tesouros dos egípcios, porque olhava para a recompensa. Pela fé, deixou o Egito, não temendo a cólera do rei: permaneceu firme, como se visse aquele que é invisível.  Pela fé celebrou a Páscoa e fez a aspersão do sangue, a fim de que o exterminador dos primogênitos não tocasse os israelitas. Pela fé passaram o Mar Vermelho, como por terra firme, enquanto que os egípcios, tentando a mesma passagem, foram submersos” (Heb 11, 23-29).

Até Nossa Senhora correu o risco de ser idolatrada

Não há relatos sobre a perfil físico ou da fisionomia de Nossa Senhora. Tudo ficou oculto d’Ela, inclusive sua própria presença no Paixão de Cristo é pouco relatada, ou, pelo menos, sem descrever algo sobre sua personalidade ou beleza física.

A provável idolatria que poderiam ter em torno d’Ela é por outros meios, servindo-se de materiais referentes a Ela mas não de sua figura, a não ser por meras pinturas. Não se sabe a origem, mas houve caso de idolatria a Ela, como os citados a seguir: “Segundo o testemunho de Santo Epifânio, os coliridianos, na Arábia, veneravam a Virgem como deusa e ofereciam, com ritos idolátricos, pequenos pães ou tortas em sua honra. Esta seita era composta quase exclusivamente por mulheres, e a elas estavam reservados os ofícios sacerdotais. Entre os montanistas orientais, os chamados marianistas e filomarianistas adoravam Maria como deusa” [6]

Por causa disso, e também por sua grande humildade, segundo São Luís Grignion de Montfort, Deus A preservou oculta aos olhos dos homens. Logo no início do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, escreveu ele: “Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe escondida e secreta. Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus”

São Luís Grignion de Montfort afirma no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem: “os encantos admiráveis com que o próprio Deus havia ornado a aparência exterior [de Nossa Senhora]. São Dionísio, o Areopagita, (…) diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário”.[7]

Quem é São Dionísio Areopagita que teve a ventura de conhecer pessoalmente Nossa Senhora? São Lucas nos Atos do Apóstolos refere-se a Dionísio (At 17, 34) na narrativa do apostolado de São Paulo no Areópago de Atenas. A graça, servindo-se da eloquência de São Paulo, tocou a fundo o coração de Dionísio, convertendo-o das trevas do paganismo para a luz da verdadeira fé. Dionísio após a conversão conheceu pessoalmente São Pedro, São Tiago e o Evangelista São Lucas, este em Éfeso, onde vivia Nossa Senhora. Foi aí que Dionísio A conheceu e foi objeto do zelo apostólico da Mãe do Salvador. Seu primeiro encontro com Maria Santíssima proporcionou o comentário a que se refere São Luís Grignion.

 



[1] Talvez castigo semelhante ao homem moderno seria a confusão da “língua” mais comum hoje, a internet: caso a mesma entre em black out ocasionaria uma grande confusão entre os homens, haja vista ser a “linguagem” quase exclusiva de todos.

[2] “Ana Catalina Emmerich”, tomo I, “El Antiguo Testamento”, Editorial Surgite, pág. 63;

[3] “Ana Catalina Emmerich”, tomo I, “El Antiguo Testamento”, Editorial Surgite, pág. 94.

[4] Op. cit. págs. 101/103

[5] Segundo a lenda, esse touro negro (originado na cidade de Mênfis) deveria ter certos sinais ou manchas: na fronte, uma mancha branca quadrada; no dorso, a figura dum abutre ou duma águia; sob a língua, um nó em forma de escaravelho; os pêlos da cauda numa mescla de branco e preto e, enfim, um crescente branco sobre o lado direito do corpo. Encontrado um bezerro com tais características (ou, pelo menos, parecido com isso) pelos sacerdotes pagãos especiais chamados os Bastões de Ápis, o animal era conduzido a Mênfis em uma barca dourada e em grande pompa, depois de ter sido nutrido unicamente por mulheres durante 40 dias. Uma vez entronizado cerimoniosamente, vivia no seu santuário, ao lado do deus Ptah, a mais importante divindade menfita, da qual era tido como o arauto, a imagem viva. Sua mãe, um animal também reverenciado, era como que sua esposa legítima, mas tinha também outras vacas cuidadosamente escolhidas para ele. Dizia-se que o próximo touro Ápis era a ressurreição do anterior.

[6] ALASTRUEY, Gregório, Tratado de La Virgen Santísima, 4 ed. Madrid, BAC, 1956, P. 841)” - Apud : SÃO JOSÉ: QUEM O CONHECE?... – De Mons, João Scognamiglio Clá Dias – pág. 44, nota n. 20

[7] São Luís Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Ed. Vozes, Petrópolis, 46ª edição, nº 49, p. 52-53.

 


sábado, 18 de julho de 2026

Mensagem à Soror Consolata

 



“Sim. Salvarei o mundo com o Amor misericordioso; escreve isto....
... Olha: estes rapazes (os soldados), a maior parte, nas suas casas apodreciam em meio dos vícios. Ao passo que na guerra, longe das ocasiões, com a assistência do Capelão, morrerão e serão salvos eternamente...
“A própria miséria atual que reina no mundo não é obra de minha justiça, mas da minha misericórdia.
“Quantas culpas a menos, por falta de dinheiro! Quantas orações a mais não sobem ao céu nos apertos financeiros!
“Oh! Ninguém creia que as dores da terra Me não comovem; mas Eu amo as almas, quero salvá-las, e, para atingir o meu fim, sou constrangido a usar de rigor. Mas, acredite, é para fazer misericórdia.
“Na abundância, as almas esquecem-Me e perdem-se; na miséria, voltam a Mim e salvam-se. É assim, sabes!”
E então, durante e tremenda conflagração mundial, e precisamente a 8 de setembro de 1940, entre Jesus e Soror Consolata, que chorava e suplicava pela paz, desenrolava-se o seguinte diálogo:
"-Olha, Consolata, se Eu concedo hoje a paz, o mundo volta à lama... a prova não seria suficiente.
"- Mas, ó Jesus, nem todos são maus!
"- Pois bem, os bons aumentarão os seus méritos. Não, não deites a culpa aos Chefes das nações, eles são simples instrumentos nas minhas mãos. Para poder salvar o mundo, hoje é preciso assim. Oh! Que multidão de jovens não agradecerão na eternidade a Deus por terem morrido nesta guerra, que os salvou eternamente! Entendeste?
"Eu salvo os soldados na guerra e o mundo com a miséria e com a fome. Mas tantos corações desesperam... Reza tu, agora, não só pelos corações que sofrem no mundo, mas também pelos que desesperam, para que Eu seja para eles conforto e esperança.
"Eu quero salvar a pobre humanidade que corre para a lama, como o sedento para a água fresca; e para salvá-la não há outro caminho senão a miséria e a fome. Mas ela desespera..."
(Extraído de "O Coração de Jesus ao Mundo", Pe. Lourenço Sales, Ed. Loyola, 1983, pp. 29/31)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O QUE DISSERAM ALGUNS PAPAS SOBRE NOSSA SENHORA MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS

 



Bento XIV, Bula Gloriosæ Dominæ:

"Nossa Senhora é o rio que traz aos miseráveis mortais todas as graças e presentes de Deus".

Pio VII, Bula Ampliatio privilegiorum ecclesiae Beatæ Mariæ Virginis ab angelo salutatae in cenobio Fratrum Ordinis Servorum Beatæ Mariæ Virginis:

"Nossa Senhora é, pois, a dispensadora de todas as graças de Deus aos homens" (gratiarum omnium dispensatricem).

Pio IX, Bula Ineffabilis Deus (dogma da Imaculada Conceição):

"E depois reafirmamos a Nossa mais confiante esperança na beatíssima Virgem, que, toda bela e imaculada, esmagou a cabeça venenosa da crudelíssima serpente, e trouxe a salvação ao mundo; naquela que é glória dos Profetas e dos Apóstolos, honra dos Mártires, alegria e coroa de todos os Santos; seguríssimo refúgio e fidelíssimo auxilio de todos os que estão em perigo; poderosíssima mediadora e reconciliadora de todo o mundo junto a seu Filho Unigênito; fulgidíssima beleza e ornamento da Igreja, e sua solidíssima defesa."

Papa Leão XIII, Iucunda Semper Expectatione:

8. Para este mesmo fim, em perfeita harmonia com os mistérios, tende a oração vocal. Procede, como é justo, a oração dominical dirigida ao Pai celeste. Em seguida, após haver invocado o mesmo Pai com a mais Pobre das orações, do trono da sua majestade a nossa suplicante volve-se para Maria, em obséquio à lembrada lei da sua, mediação e da sua intercessão, expressa por S. Bernardino de Sena com as seguintes palavras: "Toda graça que é comunicada a esta terra passa por três ordens sucessivas. De Deus é comunicada a Cristo, de Cristo à Virgem, e da Virgem a nós" (S. Bernardino de Sena, Sermo VI in Festis B. M. V., De Annunciatione, a. 1, c. 2).


Leão XIII, Iucunda Semper Expectatione:

"20. E Deus, ó Veneráveis Irmãos, que "na sua misericordiosa bondade nos deu uma Mediadora tão poderosa" (S. Bernardo, De C II Praerogativis B. M. V., n. 2), "e quis que tudo nos viesse pelas mãos de Maria" (S. Bernardo, Sermo in Nativitatem B. M. V., n. 7), pela intercessão e pelo favor dela acolha propício os votos e satisfaça as esperanças de todos. Como auspício, pois, destes bens, juntamos de todo coração para vós, para o vosso clero e para o vosso povo a Bênção Apostólica."

Leão XIII, Adjutricem Populi:

4. Impossível seria, pois, dizer que amplitude e que eficácia hajam adquirido os seus socorros, quando ela foi levada para junto de seu divino Filho, àquele fastígio de glória que convinha à sua dignidade e ao esplendor dos méritos. Com efeito, de lá do alto, consoante os desígnios de Deus, ela começou a velar sobre a Igreja, a assistir-nos e a proteger-nos como uma mãe; de modo que, depois de ter sido a cooperadora da redenção humana, tornou-se também, pelo poder quase ilimitado que lhe foi conferido, a dispensadora da graça que em todos os tempos jorra dessa redenção.

Por isto, com bem razão as almas cristãs, obedecendo como que a um instinto natural, sentem-se arrastadas para Maria, para lhe comunicarem com toda confiança os seus projetos e as suas obras, as suas angústias e as suas alegrias; para recomendarem com filial abandono suas pessoas e suas coisas à bondade e solicitude d'Ela. Por este justíssimo motivo, todos os povos e todos os ritos têm-lhe tributado louvores, que têm vindo sempre crescendo com o sufrágio dos séculos. Donde os títulos a ela dados de "Mãe nossa, nossa Mediadora" (S. Bernardo, Sermo II in Advento Domini, n. 5), "Reparadora do mundo inteiro" (S. Tharasius, Oratio in Praesentatione Deiparae), "Dispensadora dos dons celestes" (In Off. Graec., 8 dec., post oden 9).

Leão XIII, Octobri Mense:

"... assim, tal como não se pode ir ao Pai Supremo senão pelo Filho, não se pode chegar a Cristo senão por Sua Mãe".

Leão XIII, Fidentem Piumque Animum

7. E quem quererá considerar excessiva e censurar a grande confiança depositada no auxilio e na proteção da Virgem? Todos estão de acordo em admitir que o nome e a função de perfeito Mediador não convém senão a Cristo: porque só Ele, conjuntamente, Deus e Homem, reconciliou o gênero humano com seu sumo Pai: "Um mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus Homem, aquele que a si mesmo se deu como preço de resgate por todos" (1 Tim. 2, 5-6). Mas se, como ensina o Angélico, "nada proíbe que algum outro se chame, sob certos aspectos, mediador entre Deus e os homens, quando dispositiva e ministerialmente coopera para a união do homem com Deus" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 26 a. 1), como é o caso dos Anjos, dos Santos, dos profetas e dos sacerdotes do velho e do novo Testamento, sem dúvida alguma tal título de glória convém, em medida ainda maior, à Virgem excelsa.

Com efeito, é impossível imaginar outra criatura que tenha realizado ou esteja para realizar uma obra semelhante à dela, na reconciliação dos homens com Deus. Foi ela que, para os homens fadados à eterna ruína, gerou o Salvador; quando, ao anúncio do mistério de paz trazido à terra pelo Anjo, ela deu o seu admirável assentimento, "em nome de todo o gênero humano" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 30 a. 1). Ela é aquela "da qual nasceu Jesus", sua verdadeira Mãe, e por isto digna e agradabilíssima "Mediadora junto ao Mediador”.


8. Como estes mistérios são sucessivamente propostos, no Rosário, à meditação dos fiéis, segue-se que esta oração põe em evidencia os méritos de Maria na obra da nossa reconciliação e da nossa salvação. Ninguém - assim pensamos pode subtrair-se a uma suave emoção ao contemplar a Virgem, ou quando visita a casa de Isabel para lhe dispensar os divinos carismas, ou quando apresenta seu filho pequenino aos pastores, aos reis, a Simeão. E que não sentirá a alma fiel quando refletir que o Sangue de Cristo, derramado por nós, e os membros nos quais ele mostra ao Pai as feridas recebidas "como penhor da nossa liberdade", não são outra coisa senão carne e sangue da Virgem? E, na realidade: "A carne de Jesus é carne de Maria; e, embora sublimada pela glória de ressurreição, todavia a natureza dessa carne permaneceu e permanece a mesma que foi tomada de Maria" (De Assumptione B. M. V., c. V, inter operas S. Augustini, PL, XL, Incerti Auctoris ac Pii, col. 1141-1145).

S. Pio X, Ad Diem Illum (50 anos do Dogma da Imaculada Conceição)

8. Mas não foi apenas para seu próprio louvor que a Virgem ministrou a matéria de sua carne ao Filho unigênito de Deus, que haveria de nascer com membros humanos (S. Beda Ven. lib. IV in Luc. XI), e que ela preparou, desta forma, uma vítima para a salvação dos homens; sua missão foi também velar por esta vítima, nutri-la e apresenta-la ao altar, no tempo estabelecido. Por isto, entre Maria e Jesus reinou perpétua sociedade de vida e sofrimentos, que nos permite aplicar a ambos estas palavras do Profeta: A minha vida vai se consumindo com a dor e os meus anos com os gemidos (Sl 30, 11). E quando chegou a hora derradeira de Jesus, vemos a Virgem "aos pés da cruz", horrorizada certamente ante a visão do espetáculo, "mas feliz porque seu Filho se oferecia como vítima pela salvação dos homens e, ademais, de tal modo partícipe de suas dores que teria preferido padecer os tormentos que cruciavam o seu Filho, tal lhe fosse dado fazer" (S. Bonav., 1 Sent., d. 48, ad Litt., dub. 4). — Em conseqüência dessa comunhão de sentimentos e de dores entre Maria e Jesus, a Virgem fez jus ao mérito de se tornar legitimamente a reparadora da humanidade decaída (Eadmeri Mon., De Excellentia Virginis Mariæ,c. IX) e, portanto, dispensadora de todos os tesouros que Jesus nos adquiriu por sua morte e por seu sangue.

9. Não se pode dizer, sem dúvida, que a dispensação destes tesouros não seja de alçada própria e particular de Jesus Cristo, porque fruto exclusivo de sua morte e por Ele mesmo, em virtude de sua natureza, o mediador entre Deus e os homens. Contudo, em vista dessa comunhão de dores e de angústia, já mencionada, entre a Mãe e o Filho, foi concedido à Virgem o ser, junto do Filho unigênito, a medianeira poderosíssima e advogada de todo o mundo (Pio IX, Bula Ineffabilis). O manancial, pois, é Jesus Cristo: E todos nós recebemos de sua plenitude (Jo 1, 16), do qual todo o corpo coligado e unido por todas as juntas que mutuamente se auxiliam, segundo a operação da medida de cada membro efetua o aumento do corpo de si mesmo em caridade (Ef. 4, 16). Como nota com acerto S. Bernardo, Maria é, na verdade, o aqueduto (Serm. De Temp., in Nativ. B. V., De Aquæductu, n. 4); ou então, essa parte média que tem por missão unir o corpo à cabeça e transmitir àquele os influxos e eficácias desta, o que vale dizer: o pescoço. Sim, diz S. Bernadino de Sena, ela é o pescoço de nossa Cabeça, pelo qual comunica todos os dons espirituais a seu corpo místico (S. Bern. Sen., Quadrag. de Evangelio æterno serm. X, a. III, c. 3). Torna-se, por conseguinte, evidente que não atribuímos à Mãe de Deus uma virtude geradora da graça, virtude esta que é só de Deus. Contudo, porque Maria excede a todos em santidade e em união com Cristo, e por ter sido associada por Ele à obra redentora, ela nos merece de congruo, segundo a expressão dos teólogos, o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno, sendo ela ministra suprema da dispensação das graças . Ele (Jesus) está sentado à direita da Majestade nas alturas (Heb 1, 3). Ela, Maria, está à direita de seu Filho: O refúgio mais seguro, o mais valioso amparo de quantos se acham em perigo; nada, pois, temos a temer sob sua conduta, seus auspícios, seu patrocínio, sua égide (Pio IX, Bula Ineffabilis).

Bento XV, Inter Sodalicia:

"Com efeito ela sofreu e quase morreu com seu Filho sofredor e moribundo, abdicou dos seus direitos maternos para salvação dos homens, e tanto quanto lhe pertencia, imolou seu Filho para apaziguar a justiça de Deus, de modo que se pode justamente dizer que ela resgatou, com Cristo, o genero humano. Conseqüentemente, todas as graças que recebemos do tesouro são distribuidas pelas mãos da dolorosa virgem."

"Assim, toda graça e bênção vem a nós por meio de Nossa Santa Senhora. Portanto, além da intercessão dos santos, deve ser incluida a influencia dela, a quem os Santos Padres, saudaram com o título Mediatrix omnium gratiam "

Pio XII, Ad Cæli Reginam:

37. E certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus Cristo, Deus e homem, é rei; mas também Maria - de maneira limitada e analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino Redentor, à sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino; finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia da sua intercessão junto do Filho e do Pai.

38. Portanto, não há dúvida alguma que Maria santíssima se avantaja em dignidade a todas as coisas criadas e tem sobre todas o primado, a seguir ao seu Filho. "Tu finalmente, canta S. Sofrônio, superaste em muito todas as criaturas... Que poderá existir mais sublime que tal alegria, ó Virgem Mãe? Que pode existir mais elevado que tal graça, a qual por divina vontade só tu tiveste em sorte?" "A esses louvores acrescenta S. Germano: "A tua honra e dignidade colocam-te acima de toda a criação: a tua sublimidade faz-te superior aos anjos". João Damasceno chega a escrever o seguinte: "É infinita a diferença entre os servos de Deus e a sua Mãe".

9. Para melhor compreendermos a sublime dignidade, que a Mãe de Deus atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a santíssima Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de tal abundância de graças, que supera a graça de todos os santos. Por isso, como escreveu na carta apostólica Ineffabilis Deus o nosso predecessor, de feliz memória, Pio IX, Deus "fez a maravilha de a enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância de todas as graças celestiais hauridas dos tesouros da divindade, que ela - imune de toda a mancha do pecado, e toda bela apresenta tal plenitude de inocência e santidade, que não se pode conceber maior abaixo de Deus, nem ninguém a pode compreender plenamente senão Deus".

40. Nem a bem-aventurada virgem Maria teve apenas, ao seguir a Cristo, o supremo grau de excelência e perfeição, mas também participou ainda daquela eficácia pela qual justamente se afirma que o seu divino Filho e nosso Redentor reina na mente e na vontade dos homens. Se, de fato, o Verbo de Deus opera milagres e infunde a graça por meio da humanidade que assumiu - e se utiliza dos sacramentos e dos seus santos, como instrumentos, para salvar as almas; por que não há de servir-se do múnus e ação de sua Mãe santíssima para nos distribuir os frutos da redenção? "Com ânimo verdadeiramente materno para conosco - como diz o mesmo predecessor nosso, de feliz memória, Pio IX - e ocupando-se da nossa salvação, ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra, toma cuidado de todo o gênero humano, e - tendo sido exaltada sobre todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor - com as suas súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode deixar de ser ouvida". A esse propósito, outro nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, declarou que foi concedido à bem-aventurada virgem Maria um poder "quase ilimitado" na distribuição das graças; S. Pio X acrescenta que Maria desempenha esta missão "como por direito materno".


Paulo VI, Signum Magnum:

2. Mas de que modo coopera Maria no crescimento dos membros do Corpo Místico na vida da graça? Em primeiro lugar mediante a sua incessante súplica, inspirada por uma ardente caridade. A Virgem Santa, embora feliz pela visão da augusta Trindade, não esquece os seus filhos que caminham como Ela outrora na «peregrinação da fé» (L.G. 58). Contemplando-os em Deus e vendo bem as suas necessidades, em comunhão com Jesus Cristo que está «sempre vivo a interceder por eles» (Heb 7,25), deles se constitui Advogada, Auxiliadora, Amparo e Medianeira (cfr. L.G. 62). Desta sua ininterrupta intercessão junto do Filho pelo Povo de Deus, tem estado a Igreja desde os primeiros séculos persuadida, como testemunha esta antiquíssima antífona que, com algumas ligeiras diferenças, faz parte da oração litúrgica tanto no Oriente como no Ocidente: «à tua protecção nos acolhemos ó Mãe de Deus; não desprezes as nossas súplicas nas necessidades, mas salva-nos de todos os perigos ó (tu) que só (és) a bendita». Nem se pense que a intervenção maternal de Maria traga prejuízo à eficácia predominante e insubstituível de Cristo, nosso Salvador; pelo contrário, ela tira a sua força da mediação de Cristo e é dela uma prova luminosa (cfr. L.G. 62).

12. O que deve ainda estimular mais os fiéis a imitar os exemplos da Virgem Santíssima, é o facto de o próprio Jesus, tendo-lha dado por Mãe, implicitamente a ter apontado como modelo a imitar. De facto, é natural que os filhos tenham os mesmos sentimentos que as mães e reproduzam os seus méritos e virtudes. Portanto, assim como cada um de nós pode repetir com S. Paulo: «O Filho de Deus amou-me e entregou-se a Si mesmo por mim» (Ga 2,20; cfr. Ef 5,2), do mesmo modo com igual confiança pode acreditar que o Salvador Divino lhe deixou, também a ele, em herança espiritual a Sua própria Mãe, com todos os tesouros de graça e de virtude de que a tinha cumulado, a fim de que os derramasse sobre nós, como efeito da Sua poderosa intercessão e da nossa corajosa imitação. É por isso que com razão S. Bernardo afirma: «Vindo a Ela o Espírito Santo, encheu-a de graça para Ela mesma; inundando-A novamente o mesmo Espírito, Ela tornou-se superabundante e transbordante de graça também para nós».

"Deus Filho comunicou a Sua Mãe tudo o que adquiriu pela Sua vida e pela Sua morte, os Seus méritos infinitos e as Suas virtudes admiráveis, e fê-la tesoureira de tudo o que o Pai lhe deu em herança; é por ela que Ele aplica os Seus méritos aos Seus membros, que comunica as Suas virtudes e distribui as Suas graças; é o Seu misterioso canal, o Seu aqueduto, por onde faz passar docemente e abundantemente as Suas misericórdias.

 


sábado, 4 de julho de 2026

SANTA ISABEL, RAINHA DE PORTUGAL

 

Santa Isabel era filha do rei Pedro III de Aragão. A sua santidade já era grande e ela ainda menina, já era estimada pelas suas virtudes. Todo o tempo que a sua vida de princesa deixava livre, era empregado em atos de caridade para com os pobres, e de piedade. A igreja era o lugar onde gostosamente passava, quando podia, horas inteiras rezando. Com 8 anos tomou a resolução de rezar diariamente o Ofício Divino, perseverando nela por toda a sua vida. Desde menina fazia ela jejum todos os sábados, e nas vésperas das festas de Maria.

Todo o seu exterior denotava o seu grande amor à virtude da pureza. Apesar de inteligentíssima, a sua atitude sempre modesta, atraía a simpatia e admiração de todos.

Na idade de 12 anos, foi dada como esposa ao rei de Portugal.

Não tendo liberdade de escolher a sua vocação, sujeitou-se serenamente às obrigações impostas às pessoas de sua qualidade, e dispôs-se a continuar no trabalho de sua santificação.

Três vezes por ano, jejuava ela por 40 dias, só se alimentando de pão e água. A sua vida era extremamente metódica, sendo dividida entre as suas obrigações de estado, oração e algum trabalho útil. Nunca alguém a encontrou ociosa. Era muito assídua na recepção dos Sacramentos, e muito cuidadosa na sua recepção.

Quanto mais santa é a pessoa, maior número de amigos que se julgam bons insistem em afastá-la de seus deveres. A esses sempre respondia ela: “Poderá haver maior utilidade e necessidade de oração que na idade em que os perigos e as paixões se apresentam mais fortes?”

Costumava sempre dizer: “Outro motivo Deus não teve em me fazer rainha, se não de proporcionar-me os meios de socorrer os necessitados”. E todos os dias ia a Santa Rainha à procura de um doente ou de um pobre, em que pudesse exercer a sua caridade.

Deus a recompensou com o dom do milagre. Uma pobre mulher, coberta de úlceras, recuperou a saúde com um abraço da rainha. Tinha ela o hábito de lavar em todas as sextas-feiras os pés a 13 mulheres, em memória do que havia sido feito com os Apóstolos. Numa das vezes, uma mulher apresentou-se com um pé roído por um câncer horrendo, para que a rainha o lavasse. Ela não só o lavou com todo o carinho, mas ainda debruçou-se, beijou-o, como costumava fazer. Deus logo a recompensou, e para não lhe permitir que beijasse a chaga nojenta, curou-a imediatamente. Entre outros muitos doentes curados pela Santa Rainha, conta-se uma cega de nascença.

O rei seu esposo não podia exatamente ser chamado virtuoso. Isabel muito se entristecia com os seus desregramentos, mas nunca proferiu um queixume. As suas orações foram atendidas e ela teve a alegria de observar a lenta conversão de seu marido.

Além disso, porém, o rei recebeu a denúncia caluniosa de que a rainha tinha no seu escudeiro não um simples auxiliar na distribuição de suas esmolas. Como para ele, os atos pouco honestos não eram coisas fora de toda a cogitação, acreditou na calúnia e deu ordem ao caieiro da corte que lançasse ao forno, onde se cosia a cal, o escudeiro que lhe viesse perguntar de sua parte se o serviço já estava feito. Chamou então o escudeiro da rainha, e como que se lembrando, na hora, de uma providência que havia esquecido, manda-o que procure o caieiro, e pergunte se o serviço já estava feito.

Dispôs-se o pajem a cumprir a vontade de el rei, mas como, ao passar pela capela, ouvisse o sinal da entrada de uma Missa, achou que bem podia a ordem de el rei esperar um pouco.

Estando el rei e o escudeiro que denunciara o outro muito curiosos por saber o resultado da operação, pediu o moço licença para ir perguntar ao caieiro como se tinha passado a cena. Como, porém, vinha da parte de el rei, disse a senha sem o saber. Foi assim agarrado, e lançado ao forno, apesar de seus protestos. Logo depois veio o pajem da rainha, e ouvido do caieiro que realmente o serviço já estava feito. Como ele de nada soubesse, foi-se tranquilamente ao rei e lhe disse que o caieiro lhe respondeu que sim. Dom Dinis, muito admirado por ver em sua presença quem devia estar morto, indagou cuidadosamente do que acontecera, e reconheceu o braço da Providência protegendo a inocência.

Muito se arrependeu Dom Dinis da leviandade com que deu crédito à calúnia e com que praticou aquele assassinato, e foi o remorso desses dois pecados o primeiro passo para a sua conversão.

Entretanto, esse remorso não impediu que ele desse novamente crédito aos ditos de que a rainha apoiava o seu filho Afonso, que se rebelara. Sem examinar a questão, o rei proibiu à rainha a entrada do palácio, dando-lhe como morada uma simples casa de campo. Deus, entretanto, provou-lhe claramente a inocência de sua esposa, passando então Dom Dinis a trata-la com toda a consideração.

Logo depois, caiu gravemente enfermo, sendo tratado pela própria rainha que já tratara a tantos enfermos muito menos ilustres. Arrependido de seus pecados, morreu bem o mau marido dessa Rainha Santa, deixando-lhe ao menos a consolação de ter morrido no Senhor.

Isabel imediatamente se retirou para o convento das Clarissas em Coimbra, convento que ela mesma havia edificado. Mas a superiora não a quis receber mostrando-lhe ser o seu lugar no mundo.

Duas peregrinações fez à Compostela. A segunda fez ela a pé, na companhia de duas criadas, vivendo as três unicamente de esmolas.

O seu último trabalho foi evitar uma guerra entre o rei seu filho, e um soberano vizinho. Pouco tempo depois, adoecia e morria depois de ter recebido de joelhos os últimos Sacramentos.

Trezentos anos depois de sua morte, o seu corpo foi encontrado em perfeito estado. Desde então, Deus digna-se fazer grandes milagres no túmulo de sua serva.

 

(Legionário, 4 de junho de 1939)


terça-feira, 23 de junho de 2026

SÃO JOÃO BATISTA E OS APÓSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS

 


          (Revista "Dr. Plínio" n. 27, junho de 2000)



Nós temos no dia 24, amanhã, a festa da Natividade de São João Batista. E a respeito dele temos que desenvolver alguns dados biográficos fornecidos por Dom Guéranger:

“São João recebeu a graça de uma felicidade incomparável, provavelmente já no seio de sua mãe, com a visita da Santíssima Virgem a Santa Isabel.

Assim sendo, talvez o primeiro que tenha falado da divina e virginal maternidade, não separando nunca o Filho de sua Mãe, ao mesmo tempo que adorou Jesus, honrou Maria acima de todas as criaturas. “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre”. É a afirmação unânime da eleição que, pronunciando Isabel essas palavras, nada mais fez do que ser porta-voz de seu filho. O início da vocação de João como testemunho da Luz primaria (...) e ela dá a primeira expressão de admiração e louvor que a anima. Anjo ele mesmo, como o chamavam os profetas, retoma (...) à Soberana do céu e da terra.

Assim, já se vê de perto o papel de Maria na santificação dos eleitos. O grito de sua alma eleva-o à santidade ao primeiro som da voz da Virgem. Foi por ele que, com grande pressa, após a Anunciação, Ela atravessou as montanhas. Mas reserva ainda a João outros favores. Até então silenciosa, entoa diante dessa criança seu canto sublime. E dá ao Batista a plena compreensão do mistério inefável. Como santificou o precursor de seu Filho, a Mãe de Deus (...) primeira lição incomparável do filho de Isabel. Mas três meses ainda continua essa educação maravilhosa. E com isso, melhor (..?..) que será essa criança? A Dispensadora das graças guardou para João a primeira efusão dessa torrente de graça da qual Ela se tornara o divino reservatório.

O caudal que escapa dessa cidade santa não será suspenso no correr dos tempos, levando a cada alma os seus eflúvios, mas em toda a sua força inicial ainda não dirigida, encontra João em primeiro lugar. Quem poderia medir essa corrente? Os seus efeitos? A Santa Igreja não o diz. Mas de onde virá a fonte que causa o misterioso crescimento de João sob o olhar atônito dos anjos? Tendo em vista a fraqueza desse corpo de criança, ante a grande maturidade de sua alma e da misteriosa natividade do precursor. É grande o homem que Isabel deu ao mundo”.

Esse comentário de D. Guéranger é cheio de vistas magníficas. Ele se estriba no fato de que São João Batista, ainda no ventre materno, era dotado de toda lucidez. Porque sem ser concebido sem pecado original - ao menos nada indica que tenha sido - foi isento dessa culpa logo depois de concebido, razão pela qual tinha inteligência, tinha compreensão das coisas que se passavam, e estava em oração no ventre de Santa Isabel quando Nossa Senhora chegou.
Então, a primeira coisa que D. Guéranger ressalta bem é que Nossa Senhora não foi a Santa Isabel apenas para ajudá-la, mas que o motivo primeiro da visita era ajudá-la para que gerasse perfeitamente aquele menino que Ela sabia ser o precursor prometido pela Escrituras. O menino passou três meses vendo constantemente Nossa Senhora ajudar Santa Isabel. Ele ouvia a voz de Nossa Senhora; durante esses três meses ele compreendeu Nossa Senhora.

Os senhores podem compreender o que são dois ou três meses em companhia de Nossa Senhora! Ele mostra muito bem que aquele que os profetas chamaram de Anjo era uma criatura de tal maneira excelsa que estava acima de todos os homens. Nosso Senhor dele dizia, mais ou menos, não me lembro bem a frase, que de homem não havia nascido ninguém maior do que João Batista.
Então, essa criatura, logo no despertar de sua vida, foi acordada para o conhecimento do mundo pela voz de Nossa Senhora. Ele ouviu Santa Isabel cantar a grandeza de Nossa Senhora e ouviu Nossa Senhora entoar o Magnificat. Ouviu esse hino, essa canção tão bem estruturada, tão nobre, ao mesmo tempo tão racional, tão bem pensada. Ele ouviu e compreendeu todos os sentidos que o Magnificat tem, depois o canto da voz de Nossa Senhora e tudo o mais, tudo concorreu para elevar a alma dele.

Ou seja, o primeiro ensinamento desse homem privilegiado foi um ensinamento de Nossa Senhora. Quando a corrente de ensinamentos e de graças de Nossa Senhora — diz ele muito bem — estava no seu primeiro eflúvio para cair sobre a humanidade, o lado mais esplêndido caiu sobre São João Batista, sobre sua alma, para que ele fosse um anjo e fosse na frente do Messias, cortando as montanhas e enchendo os vales para preparar os caminhos do Senhor. Cortando as montanhas, quer dizer, combatendo os vícios; preenchendo os vales, quer dizer, acabando com os pantanais e buraqueiras da sensualidade. Em outros termos, fazendo o trabalho da Contra-Revolução para preparar os caminhos do Senhor.

Ele diz algo a respeito da santidade de São João Batista, mas o que diz é pouco porque ele teve de compreender que não há palavras humanas para descrever bem o que essa santidade possa ter sido. Uma santidade de tal maneira — e de tal maneira máxima a do primeiro momento do apostolado de Nossa Senhora — que os homens podem entrever, não podem descrever! Eles podem admirar, mas eles não podem conhecer inteiramente.

Aí está o Batista, o austero, o Batista terrível! O Batista que vai para o deserto e que vela. E depois sai da solidão e começa a pregação. O Batista zeloso que prepara as almas judaicas, das quais haveria de nascer a Igreja Católica. Porque o primeiro reduto de católicos foi [o] dos judeus e [das] pessoas preparadas pelo apostolado de São João Batista - mas o Batista juiz, o Batista fiel, o Batista devotado!

Quando Nosso Senhor apareceu, ele disse: “A Ele compete crescer, a mim compete diminuir; compete-me agora desaparecer: eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo! Minha missão está cumprida. Não há mais nada para eu fazer, porque o Sol da justiça se levantou e eu não era senão uma ave que cantava o Sol que ia nascer. A partir do momento em que o Sol nasceu, eu não tenho outra coisa a fazer senão morrer por Ele”.

E aí nós temos a morte, ao mesmo tempo indignada e enlevada de São João Batista. São João Batista e sua luta contra Herodes, contra Salomé, mártir da castidade! O homem que sabe enfrentar a impureza num trono e que sabe perder sua vida para dizer a verdade como ela é. Ele foi detestado, tirado dessa vida, mas tirado num ato de supremo amor. É evidente que quando ele morreu estava pensando no Cordeiro de Deus que tinha visto e no canto do Magnificat que tinha ouvido. Foi nesse enlevo que sua alma se desprendeu do corpo e que foi esperar Nosso Senhor no Limbo.

Os senhores podem imaginar o que terá sido o encontro de Nosso Senhor e São João Batista no Limbo, quando a alma do mártir, tão pura e ainda lavada pelo sangue derramado há pouco, foi de encontro a Ele. O que terá dito Nosso Senhor a São João Batista que O havia aclamado? E depois, coroando de glória São João Batista no Céu!

Aí compreendemos toda a devoção dos ultramontanos a São João Batista. Compreendemos a raiz que isso tem. Esse profeta virginal passou pela vida dizendo as verdades inteiras, sem ter medo de ninguém, aterrorizando a impiedade e enlevando e preparando para o Messias as almas que nós diríamos ultramontanáveis - para falar a linguagem contemporânea -, essa alma formada diretamente por Nossa Senhora.

E aí então, como através de um espelho, podemos ver algo das virtudes de Nossa Senhora. Porque ele é fruto da alma de Nossa Senhora, da formação de Nossa Senhora. Ele é fruto da formação, e pelo fruto se conhece a árvore. Nossa Senhora, a ter formado um homem que tivesse todo o agrado d’Ela, teria formado a ele.

Então os senhores compreendem o “raprochement” que se pode fazer entre isso e os Apóstolos dos Últimos Tempos. Os Apóstolos dos Últimos Tempos, formados inteiramente pelas exigências de Nossa Senhora, devem ter o perfil moral de São João Batista: austeros, varonis batalhadores, enlevados, intransigentes e prontos a darem sua vida inteira por Nossa Senhora.
Que Nossa Senhora nos faça tais! Que possamos ouvir, também nós, a voz d’Ela dentro de nossas almas. Que nós também tomemos a forma de verdadeiros discípulos d’Ela para, contra os hereges contemporâneos, vivermos aqueles Apóstolos do Últimos Tempos que devemos viver. É o que nós pedimos, de toda alma, a São João Batista e a Nossa Senhora, na festa dele.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira, “Santo do Dia”, 23 de junho de 1967)