segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - I

 



“A respeito da segunda vinda, a do Juízo, devemos considerar separadamente alguns fatos que se produzirão antes do que ocorra, e outros que a acompanharão.

Três tipos de coisas acontecerão no Juízo: sinais terroríficos, imposturas do Anticristo e incêndios espantosos.

Cinco serão os sinais terroríficos que precederão à vinda do Juiz. São Lucas os menciona no capítulo 21 de seu Evangelho:

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, as gentes se consternarão com o rugido do mar e o bramido das ondas.

 

1.  Os cinco primeiros sinais que precederão o Juízo Final

 

Os três primeiros sinais estão descritos no Apocalipse. No capítulo 6 lemos:

O sol se tornará negro como o surrão de pelo de cabra; a lua parecerá feita de sangue e as estrelas se despencarão sobre a terra.

Se disse que o sol se obscurecerá, porque desaparecerá sua luminosidade, como se quisesse chorar a morte do pai de família, o homem, ou bem porque sua  luz ficará anulada pelo resplendor de outra superior: a que irradiará de Jesus Cristo. Disse Santo Agostinho que também poderia tratar-se de metáfora com que se pretendesse significar que a vingança divina se mostrará tão rigorosa que o mesmo sol, assustado, se esconderá;  ou de uma expressão literária de caráter místico, para dar-nos a entender que Cristo, Sol de justiça, se ocultará, no sentido de que ninguém se atreverá a confiar nEle, e para o caso é como se desaparecesse.

O céu que aqui se fala é o dos ares. Por estrelas devem entender-se os astros, esses corpos celestes que têm forma estelar. Quando se disse que despencarão se trata de expressar a idéia de que cairão, tal como a gente correntemente entende o de cair: descendo, como descem das alturas os corpos pesados. A Escritura, geralmente, se atém a nossas próprias expressões e usa as que nós usamos.

A impressão que tudo produzirá será enorme, devido, principalmente, a que a natureza destas estrelas é constituída por fogo. Se o Senhor determinou  que as coisas ocorram assim é porque pretende despertar nos pecadores sensações de terror.

 O da queda das estrelas poderia significar também algumas destas três coisas:  ou que ao saracotear-se deixarão atrás de si longas caudas, como as dos cometas; ou que muitos dos que na Igreja pareciam brilhar cairão dos pedestais de sua fama; ou que a reputação de que gozavam ficará reduzida a nada.

Sobre o quarto sinal, que consistirá na consternação das gentes, diz a Escritura: “Haverá uma tribulação como nunca houve desde o começo do mundo,”  etc (Mateus, 24).

A respeito do quinto sinal, o do rugido do mar e bramido das ondas, opinam alguns que desaparecerão os oceanos em meio de um grande estrépito, baseando-se nesta afirmação do capítulo 21 do Apocalipse: “Já não existirá o mar”.  Outros supõem que se tratará de um feroz rugido produzido pelas águas ao elevar-se quarenta codos sobre a crista das montanhas para descer seguidamente e precipitar-se no abismo. São Gregório, baseando-se neste texto, “então ocorreu uma perpetuação nova e inaudita do mar e das ondas”, entende que este quinto sinal deve interpretar-se literalmente.   

 

2. Quinze sinais que precederão o Juízo, conforme os hebreus

 

São Jerônimo achou nos “Anais dos Hebreus” uma relação de até quinze sinais que precederão ao Juízo, embora não nos diga se esses quinze sinais haverão de aparecer imediatamente um após o outro, ou separados entre si por intervalos de tempo.

Eis aqui a relação dos quinze sinais:

No primeiro dia o mar se levantará quarenta codos por cima das montanhas e formará como um muro ao redor delas.

No segundo dia descerá até fazer-se invisível.

No terceiro dia, a superfície da água aparecerá coberta de bestas marinhas bramindo tão estrepitosamente que o fragor de seus rugidos chegará até o céu; porém só Deus entenderá o sentido de seu imponente alvoroço.

No quarto, as águas do oceano entrarão em ebulição.

No quinto, toda a vegetação da terra, todas as árvores e todas as ervas se cobrirão de orvalho sanguinolento e, segundo alguns, todas as aves do céu se congregarão e formarão manadas ingentes, reuindo-se em cada uma delas as da mesma espécie e se negarão a comer e beber e permanecerão aterradas, esperando a chegada do Juíz.

No sexto dia, todos os edifícios se desmoronarão, enquanto uma sarabanda de chispas e raios percorrerá o espaço do poente ao nascente sulcando o alto do firmamento.

No sétimo, umas pedras se chocarão com outras; cada uma delas se partirá em quatro pedaços; os fragmentos entrarão em colisão e ao chocar-se entre si produzirão espantosos trovões cujo significado, oculto ao homem, só Deus será capaz de interpretar.

No oitavo dia, haverá um terremoto geral, tão espantoso que pessoas e animais perderão o equilíbrio e rolarão por terra.

No nono, montanhas e colinas se reduzirão a pó e a terra ficará nivelada.

No décimo dia, os homens sairão das cavernas em que se haviam refugiado e vagarão como loucos, sem falar-se entre si, mudos de estupor.

No décimo primeiro, à saída do sol, se abrirão todos os sepulcros para que os mortos possam sair deles; sairão as ossadas e permanecerão imóveis à beira de suas respectivas covas até a chegada da noite.

No décimo segundo dia se despencarão as estrelas: todos os astros, tanto os fixos quanto os errantes, deixarão atrás de si longas caudas de fogo, e do interior de sua substância brotarão outros corpos siderais. Se diz também que neste dia todos os animais se congregarão no campo, rugindo e bramindo, sem comer nem beber.

No décimo terceiro, os seres humanos que estiverem todavia vivos morrerão, para ressuscitar depois com os demais mortos.

No dia décimo quarto arderão a terra e o céu.

No décimo quinto dia surgirão uma terra e um céu novos e tornarãoà vida todos os defuntos.

 

3. Quatro maneiras como o Anticristo tentará enganar

 

O segundo fato que precederá ao Juízo será o domínio das falácias do Anticristo, que se esforçará para enganar a todos, de quatro maneiras.

Primeira. Tratando habilmente de propagar uma falsa interpretação das Escrituras; desse modo persuadirá ao povo de que ele é o messias prometido, logrará a destruição da Lei de Cristo e implementará a sua. A Glosa comentando estas palavras do salmista: “institui, Senhor, um legislador sobre eles”., diz que esse legislador é o Anticristo, e explica estas outras do capítulo 11 de Daniel, “introduzirão no templo a abominação e desolação”, da seguinte maneira:  o Anticristo se apossará do templo como se fosse uma dinvidade e abolirá a Lei do verdadeiro Deus.

Segunda. Conseguindo enganar a muitos com suas obras malignas. Com efeito, na Segunda carta aos Tessalonicenses, capítulo segundo, versículo 9, lemos: “Se apresentará assistido pelo poder de Satanás e falará palavras mentirosas e fará sinais e prodígios enganosos”.  No Apocalipse (13,13), se diz: “Fará sinais tais como fazer descer do céu fogo sobre a terra”.   A Glosa comenta esta passagem desta maneira:  “Do mesmo modo que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em forma de fogo, assim os sequazes do Anticristo infundirão o espírito do mal em forma de fogo sobre as gentes.

Terceira. Semeando a confusão, valendo-se da abundância de seus dons, como adverte a Escritura: “Lhes concederá poder sobre muitos elementos, e dividirá a terra gratuitamente” (Daniel 11, 39), texto que a Glosa assim comenta: “O Anticristo distribuirá vultosos dons entre seus enganados prosélitos e dividirá a terra entre as hostes que lhe sigam”;  e, com efeito, isto fará: explorará a avareza e subjugará por esse procedimento aos que não possa submeter pelas vias do temor.

Quarta. Procurando-se sequazes na base do terror. Daniel afirma que produzirá uma incrível devastação. São Gregório, falando do Anticristo, escreve: “Dotado de força corporal para vencer aos que nunca haviam sido vencidos, poderá inclusive causar a morte aos mais robustos”.

 

4. O fogo que descerá do céu e sua finalidade

 

O  terceiro sinal precursor do Juízo consistirá na veemência do fogo, que aparecerá antes do aparecimento do Juiz.  Este fogo será enviado por Deus com estas quatro finalidades:

Primeira. Para renovar o mundo. Por este procedimento purificará e renovará todos os elementos. Se elevarão suas chamas quinze codos por cima das mais altas montanhas, como ocorreu com as águas do dilúvio. A “História Eclesiástica” assegura que jamais edifício humano alcançará a altura que terão as chamas desse fogo.

Segunda. Para purificar os homens; porque servirá de purgatório aos que então estiverem vivos.

Terceira. Para aumentar o tormento dos condenados.

Quarta. Para iluminar mais intensamente aos santos. Segundo São Basílio, enquanto o mundo seja purificado Deus separará a luz do calor, e enviará a totalidade do fogo à região dos condenados para incrementar seu tormento, e a totalidade da luz à região dos bem-aventurados para aumentar sua glória.

 

5. Circunstâncias especiais que acompanharão o Juízo

 

Eis aqui algumas das várias circunstâncias que rodearão ao Juízo:

Primeira. A vista da causa. O Juiz se apresentará no Vale de Josafá e julgará tanto aos bons quanto aos maus. Os bons colocá-los-á à sua direita e os maus à sua esquerda. Provavelmente Ele se situará num lugar alto para que possa ser visto por todos. Não é necessário crer que toda a humanidade vá caber na pequena área do referido vale. São Jerônimo adverte que essa crença seria pueril. Na superfície desse vale estarão os que caibam; o resto se situará em lugares adjacentes. Advertimos, sem embargo, que numa zona determinada de terreno cabem muitos milhões de pessoas, sobretudo se estão apinhadas. Ademais, se fosse necessário, os bem-aventurados, devido à agilidade de que já gozarão seus corpos, poderão ficar suspensos, como flutuando no ar. Inclusive os condenados poderiam, por concessão de Deus, suspender-se, sem gravidade, a certa altura no espaço. O Juiz começará o seu ofício julgando os maus, recriminando-lhes por não haver cumprido as obras de misericórdia. Eles prorromperão em prantos. São Crisóstomo comentando a correspondente passagem de S. Mateus, escreve:

“Chorarão sobre si os judeus, ao ver vivo e vivificador a quem creram homem definitivamente morto; ante o testemunho de seu corpo com as credenciais de suas chagas, não poderão negar o crime que cometeram.

Também chorarão sobre si os gentios, que enganados por falsas filosofias estimaram irracional e ingênuo dar culto a um Deus crucificado.

Chorarão sobre si os cristãos pecadores por haver amado ao mundo mais que a Cristo.

Chorarão sobre si os hereges ao dar-se conta de que esse Juiz que os está julgando é aquele a quem os judeus tanto fizeram sofrer, e lamentarão não haver visto eles nEle mais que a um mero homem crucificado.

Chorarão sobre si mesmas todas as tribos da terra ao advertir que já não têm forças para seguir opondo-se a Ele, nem possibilidade de fugir de seu olhar, nem oportunidade de fazer penitência, nem tempo para emendar seus passados erros.

Tudo será angústia na zona dos maus; para eles não haverá mais do que já eterno conflito”.

Segunda.  As diferenças quanto ao modo de ser uns e outros julgados.  Sobre isto escreve São Gregório:

“Quatro procedimentos diferentes se seguirão neste Juízo: dois para os réprobos e  dois para os eleitos. Quanto aos primeiros, alguns deles serão recriminados na consabida e dita maneira: ‘Tive fome e não me destes de comer’;  em troca, outros não serão expressamente interpelados, mas sim condenados.  “Todo o que crê”, diz a Escritura, “já está julgado”.  Isto significa que aqueles que não quiseram receber a Fé, nem escutar uma só palavra da doutrina de Jesus Cristo tampouco ouvirão nesta ocasião a interpelação do Juiz.

Pelo que toca aos eleitos, os mais perfeitos sim serão julgados, reinarão, e inclusive julgarão aos demais, não pronunciando sentenças, que isto compete exclusivamente ao Juiz, senão assistindo-lhe no ato judicial. Serão distinguidos com esta honra por várias razões: Em primeiro lugar, para sua própria honra: grande distinção supõe para os santos sentar-se no Tribunal com o Juiz, conforme a promessa de Cristo: “Os sentarei no trono para julgar, etc.”   (Mateus 5, 9).

Em segundo lugar para que colaborem na confirmação da verdade: porque eles referendarão a sentença do Juiz de modo semelhante aos que acompanham aos juízes da terra nos tribunais de justiça referendando e corroborando com sua assinatura a sentenças que estes emitam. Daí as palavras do salmista: “Assinarão com eles a ata do Juízo” (Salmo 149). Em terceiro lugar para que intervenham na condenação dos malvados, mostrando o testemunho de sua própria vida frente à conduta depravada dos réprobos”.

Terceira. A ostentação das insígnias da Paixão: a Cruz, os cravos e as chagas do corpo de Cristo. Com a apresentação destes sinais se pretende:

a) Dar testemunho da soberana vitória do Redentor, fazendo que todos vejam estas insígnias envoltas em gloriosos esplendores. “A Cruz e as chagas do Salvador brilharão mais que os raios do sol”, diz São Crisóstomo, comentando São Mateus. Se se tem em conta que então o sol estará obscurecido e a luz apagada, se compreenderá como a Cruz sobrepujará em claridade à lua e em resplendores ao sol.

b) Manifestar a divina misericórdia e deixar claro que por ela, benignamente, os justos obtiveram sua salvação.

c) Deixar constância da justiça de Deus e certificar quão justissimamente os réprobos incorreram em condenação por haver menosprezado o valor do sangue de Cristo. São Crisóstomo, comentando S. Mateus, põe na boca do Juiz estas censuras dirigidas aos malvados:

“Por vós me fiz homem e fui manietado, escarnecido, torturado e crucificado. Qual tem sido o fruto de injustiças que contra mim se perpetraram e das injúrias de que fui objeto? Eis aqui o preço do sangue que derramei para redimi-lo. Que me haveis dado vós em troca deste sangue de valor infinito? Os preferi à minha glória, posto que sendo Deus me fiz homem, e como homem vivi a vosso lado; vós não obstante me concedestes menos importância que a mais trivial coisa e prestastes mais atenção a qualquer das bagatelas da terra que a minha doutrina e a minha lei”.   Até aqui São Crisóstomo.

Quarta. A quarta circunstância que rodeará à celebração do Juízo é a severidade do Juiz, que é, diz São Crisóstomo, “Todo-Poderoso e invencível e impermeável a qualquer temor; não há força que possa resistir ante Ele; ninguém poderá escapar, etc;  é riquíssimo e insubornável”.  São Bernardo escreve:

“Virá o dia em que os corações puros valerão mais que as mais arranjadas desculpas, e as boas consciências sobrepujarão em valor as bolsas repletas de dinheiro. Este Juiz não se deixará abrandar nem pelas palavras nem pelas dádivas”.

“Chegará o esperado Juízo, lemos em Santo Agostinho, e comparecerá o justíssimo Juiz que não faz acepção de pessoas, por importantes que sejam, e mantém o palácio de sua justiça totalmente fechado e não o abrirá por muito que tratem de suborná-lo com dádivas de ouro ou prata bispos, abades ou condes”.  Nem atuará influenciado pelo ódio, porque é a suma bondade e na suma bondade o ódio não tem cabimento.

“Não tens aborrecido jamais nada de quanto fizeste”, se diz no capítulo 11 do Livro da Sabedoria. Nem se deixará se enternecer pelo amor, porque é justíssimo e não fará exceções nem sequer com os falsos cristãos que algum tempo foram seus irmãos. Já o diz o salmista: “O irmão não redimirá...etc”.  Nem cometerá erros, porque é sapientíssimo.

“Seu olhar”, escreve o Papa São Leão, é impressionante.  Ante ele, o compacto se torna transparente; o oculto, manifesto; o luminoso obscuro e os mudos se tornam loquazes; em sua presença até o silêncio fala e a mente, sem necessidade de vocábulos, declara seus pensamentos. Sendo, pois, tal sua sabedoria e tanta, de nada valerão frente a ela nem os discursos dos advogados nem os sofismas dos filósofos nem a brilhante eloqüência dos oradores nem a habilidade dos mais astutos e sagazes”.

Em relação com isto, diz São Jerônimo:

“Quantos mudos, em semelhante ocasião, se sentirão mais ditosos que muitos que foram expeditos conversadores! Quantos pastores mais felizes que os filósofos! Quantos rústicos mais alegres que os oradores e quantos ignorantes se mostrarão mais alegres que se houvessem tido a eloqüência de Cícero!”

Quinta circunstância.  É horrenda. Constituem-na os acusadores do pecador, que serão três: o diabo, a própria consciência e o mundo inteiro.  Primeiramente atuará o diabo, que segundo Santo Agostinho “com suma dilig6encia nos recordará as palavras de nossa profissão e frente a elas fará desfilar tudo o que temos obrado, o lugar e a hora em que pecamos e o que deveríamos ter feito em vez do que realmente fizemos. Nosso inimigo dirá:  Justíssimo Juíz, reconhecei que este homem me pertence posto que é culpável. Era teu por natureza, e teu deveria haver sido pela graça, mas é meu por sua desagradável conduta; verdade que o ganhaste por tua Paixão, porém eu te arrebatei com minhas persuações;  a Ti te desobedeceu por obedecer-me a mim; de Ti recebeu uma estola de imortalidade, porém a tirou para colocar esta túnica andrajosa que leva; despojou-se da vestidura que Tu lhe regalaste e cobriu-se com a que eu lhe entreguei; com ela vem para mim. Justíssimo Juiz, reconhece que deve ser condenado e ir-se comigo para o inferno.

Poderá abrir a boca para defender-se quem entenda que toda justiça merece ser companheiro do diabo?”   Até aqui Santo Agostinho.

Como segundo acusador atuará a própria consciência através das vozes dos correspondentes pecados. O afirma o Livro da Sabedoria no capítulo 4:

“Tremerão ao recordar suas culpas; suas iniqüidades se voltarão contra eles, acusando-os”.

“Todas suas obras”, comenta São Bernardo, “falarão ao mesmo tempo e dirão ao pecador: Tu nos tens feito; coisa tua somos; não te abandonaremos; permaneceremos sempre junto a ti; contigo estaremos quando fores julgado”.   Essas obras acusarão ao pecador de muitos e de diversas más ações.

O terceiro acusador será o mundo inteiro. “Se perguntas”, escreve São Gregório, “quem te acusará, responder-te-ei; todo o mundo;  porque quem ofende ao Criador, ao mundo em sua totalidade ofende”.  Em seu comentário sobre São Mateus, diz São Crisóstomo:

“Nada teremos que responder naquele dia, quando o céu, a água, o sol, a lua, os dias, as noite e todo o universo levante sua vós contra nós denunciando ante Deus nossos delitos; porém mesmo que todas as coisas calassem, não calarão ante o Senhor contra nós e darão testemunho de nossos pecados”.

Sexta circunstância.  As testemunhas que deporão contra o pecador. Serão três: Um que está por cima dele, que é Deus, que ainda que atue como Juiz atuará também como testemunha. “Eu Sou Juiz e testemunha”,  disse o Senhor (Jeremias 29). Outro que está dentro do próprio pecador e é sua consciência. Se temes ao Juiz que há de te julgar, conforma desde agora mesmo devidamente tua consciência, porque quando se julgue tua causa será chamada a declarar. O outro está situado ao lado do pecador e é seu Anjo da Guarda, conhecedor de quanto seu pupilo tem feito. Também ele aduzirá um testemunho desfavorável. Assim o assegura Jó no capítulo 20 de seu Livro: “Os céus, quer dizer, os anjos, descerrarão o véu e deixarão à vista as iniqüidades que fiz”.

Sétima circunstância. A acusação propriamente tal contra o pecador. Vejamos este texto de São Gregório:

“Oh, em que difícil transe acha-se então o pecador! Sobre ele, um Juiz irado; debaixo, um caos horroroso; à sua direita, acusando-lhe, seus pecados; à sua esquerda, uma plêiade de demônios preparando-se para levar-lhe aos suplício; dentro de si, sua consciência queimando-lhe as entranhas, e fora, o mundo inteiro excitado contra ele.

Oh, pecador miserável, colhido por todos os lados! Por onde poderás escapar? Conseguirás ocultar-te? Não; isso é impossível; visível permanecerás ainda que isso te resulte intolerável”.

Oitava Circunstância.  A irrevogabilidade da sentença, que não poderá nem ser modificada nem discutida nem apelada. Por três motivos uma sentença das emitidas pelos tribunais de justiça pode resultar inapelável: Primeiro: Quando for ditada por um juiz supremo. Por isso são inapeláveis os veredictos emitidos por um rei quando atua como juiz soberano em seu reino, porque em todo o território submetido à sua jurisdição não há ninguém superior a ele. Pela mesma razão são também inapeláveis as sentenças pronunciadas pelos imperadores e pelos papas. Segundo: Quando o delito que se julga foi suficientemente provado. Contra um crime notório não cabe recurso algum.  Terceiro: Quando a demora da aplicação da sentença acarretaria graves prejuízos. No caso do juízo do pecador a apelação é impossível, não já meramente por algum destes motivos, senão por todos eles. O juiz que emite o veredicto é absolutamente soberano e eterno em dignidade e poder; ninguém há sobre Ele nem o haverá nunca; os imperadores e papas estão debaixo dEle. Da sentença de um imperador ou de um Papa cabe apelar ante o tribunal de Deus. Da sentença dada por Deus não se pode apelar ante o tribunal de ninguém, porque ninguém há nem haverá superior a Ele.  Todos os delitos e iniqüidades dos réprobos ficarão postos de manifesto no juízo de que falamos, como disse Jeremias:

“Chegará o dia em que nossas obras ficarão tão patentes como se as houvéssemos pintado num quadro”.

O veredicto, finalmente, se executará sem demora, naquele mesmo instante, com a rapidez de um abrir e fechar de olhos”.[1]



[1]              Legenda Dourada”, versão espanhola, Editora Alianza Forma, páginas 25/29, volume 2


segunda-feira, 20 de julho de 2026

DESCRIÇÃO DE ELIAS FEITA PELA BEATA ANA CATARINA DE EMMERICH

 




LXVII DESCRIÇÃO DE ELIAS

Nesta ocasião, vi muitas coisas a respeito de Elias. Ele era um homem alto e magro, com bochechas avermelhadas e um tanto caídas, um olhar penetrante e vivo, uma barba longa e rala, e a cabeça calva, restando apenas uma faixa de cabelo na parte de trás, como uma coroa. No topo da cabeça, havia três nós grossos em forma de cebola: um no centro e os outros dois mais à frente, em direção à testa. Ele vestia uma túnica feita de duas peles unidas nos ombros; era aberta nas laterais e amarrada na cintura com uma corda. Tufos de pelo das peles de sua vestimenta pendiam de seus ombros e joelhos. Ele segurava um cajado na mão, e suas canelas tinham uma tonalidade mais escura que a de seu rosto. Elias passou nove meses neste lugar e dois anos e três meses em Sarepta, na casa da viúva. Ele vivia aqui em uma caverna no lado leste do vale, não muito longe do rio. Vi como a ave lhe trazia alimento. A princípio, surgia uma pequena figura escura — como uma sombra saída da terra — carregando um pão achatado e fino nas mãos; não era homem nem animal, mas o inimigo (o diabo) que vinha tentá-lo. Elias não aceitava esse pão; pelo contrário, rejeitava-o. Depois, eu via uma ave aproximar-se de sua caverna com pão e alimento, que ela escondia entre a folhagem. Parecia que ela estava escondendo a comida para si mesma; devia ser uma ave aquática, pois tinha pés palmípedes. Sua cabeça era um tanto larga, com dobras semelhantes a bolsas pendendo ao lado do bico e um saco semelhante a um papo na parte inferior; ela batia o bico de forma muito semelhante a uma cegonha. Vi que essa ave havia se tornado muito familiarizada com Elias, a ponto de ele fazer gestos para a direita ou para a esquerda, como se a orientasse a ir a um lugar específico ou a retornar dele.

 

Vi frequentemente esse mesmo tipo de ave acompanhando eremitas — por exemplo, Zósimo e Maria do Egito. Quando Elias se hospedou na casa da viúva de Sarepta, não apenas a farinha e o azeite se multiplicaram, como também um corvo lhe trazia alimento. Jesus foi com os levitas até essa gruta de Elias, situada na encosta oriental da montanha. Sob uma laje de pedra saliente, havia um pequeno assento de pedra onde Elias, protegido pela rocha, descansava à noite. O local estava coberto de musgo. Quando começou o sábado do quarto dia de Tishri e o jejum terminou, serviu-se uma refeição na área do parque e das termas, e os pobres foram novamente amparados. Na manhã seguinte, depois de Jesus ter ensinado na sinagoga e curado os enfermos, Ele caminhou com os discípulos, os levitas, os recabitas e algumas pessoas da cidade em direção à encosta ocidental da montanha; o trajeto durava uma hora e passava por vinhedos. Por essas montanhas, estendendo-se até Gadara, havia montes de pedras — alguns naturais, outros colocados deliberadamente — contra os quais as videiras eram apoiadas. Essas videiras eram grossas — com a espessura do braço de um homem — e muito espaçadas entre si, com ramos que se espalhavam por uma vasta área. Os cachos de uvas eram densos e do comprimento de um braço, e as uvas individuais eram do tamanho de ameixas. As folhas eram maiores do que aquelas a que estamos acostumados, porém menores do que os cachos de uvas. Os levitas faziam perguntas sobre vários pontos dos Salmos que se referiam ao Messias.

 

Disseram-Lhe: "Tu és Aquele que está mais próximo do Messias; podes dizer-nos". Entre outras passagens, foi citado o versículo “Dixit Dominus Domino meo”, bem como os versículos de Isaías que falam do lagar e das vestes manchadas de sangue (Isaías 63:3). Jesus explicou-lhes todos esses pontos, relacionando-os à Sua própria Pessoa. Naquele momento, estavam sentados numa pequena colina, no meio daqueles vinhedos, comendo uvas. Os recabitas não haviam querido comer as uvas com eles, pois o vinho lhes era proibido. Jesus disse-lhes que comessem — na verdade, ordenou-lhes que o fizessem —, acrescentando que, se pecassem ao fazê-lo, Ele assumiria o pecado sobre Si. Ao voltar-se a conversa para essa proibição, falaram de como Jeremias certa vez lhes ordenara, por ordem de Deus, que assim procedessem, mas eles haviam se recusado a obedecer. Agora, porém, porque Jesus o ordenava, eles o fizeram. Ao anoitecer, retornaram; serviu-se uma refeição e os pobres foram amparados. Depois, Jesus ensinou na sinagoga e passou a noite na casa dos levitas, no terraço, sob uma tenda.

(A VIDA DE JESUS ​​CRISTO E DE SUA SANTÍSSIMA MÃE (Do fim da primeira Páscoa até a prisão de São João Batista) Segundo as visões da Beata Ana Catarina Emmerich – Editado pela Revista Cristiandad.org e pela Editorial Surgite! – pp. 180/181)

 


domingo, 19 de julho de 2026

RISCO DE IDOLATRIA NOS TEMPOS ANTIGOS

 



Quando a idolatria penetrou em Israel no tempo do Rei Acab, principalmente através da terrível Jezabel, eram dois os tipos de cultos idolátricos. Um deles era os adoradores das árvores (I Reis 16, 33) e o outro era o culto a Baal.  Este tipo de idolatria foi importado da Babilônia, era o mesmo praticado no tempo da torre de Babel.  Pesquisas recentes o comprovam.  Quando os sumérios e acádios ainda viviam em matas e aldeias, a gnose e a idolatria se faziam presente nas grutas, rochedos e troncos de árvores. Depois, eles construíram cidades e passaram a criar seus ídolos, inicialmente nascidos da vida passada de personagens importantes, como patriarcas ou reis antigos, mas depois apenas como entidades imaginadas para representar aspectos da natureza ou da criação de modo geral.  Com o passar do tempo, estes ídolos eram representados por imagens de barros, de bronze ou até mesmo de algum outro metal então existente.

Oliver Aurenche, professor de Pré-história da Universidade Lumière-Lyon, em artigo para a revista “História Viva”, (transcrita da “Historia” francesa) assevera que houve uma transição entre o estilo de vida tribal e o urbano, numas espécies de aldeias. Em meio das rústicas casas de tais aldeias foram encontrados nichos para serem abrigados aqueles deuses, os quais, futuramente, passaram a morar nas cidades quando houve a urbanização. Depois, era só entronizar na mais alta torre o deus principal a fim de ser adorado por todos.

 

A primeira civilização, o império da gnose

Era difícil para Satanás criar a idolatria sem que antes construísse uma “civilização”. Era o primeiro passo para pedir que lhe adorassem. Era muito recente na mente dos homens as notícias sobre Deus e a Criação do mundo: como, pois, falar da existência de “deuses”, já que Adão e Eva não se transformaram em deuses após comer os frutos proibidos? Até o tempo dos Faraós no Egito (que herdaram a idolatria dos sumérios e acádios) os “deuses” eram apenas os reis que a si mesmo assim se intitulavam. A exemplo do deus mais antigo entre eles, chamado Ra, que era um Faraó. Muitos desses deuses, cujas lendas foram aos poucos sendo divulgadas para alimentar o culto, poderiam também ter sido alguns patriarcas antigos ou mesmo bruxos da gnose que se destacaram com grande poder diabólico.

Não só sobre Deus, mas era recente também as notícias sobre o Paraíso terrestre, e mais fácil despertar nos homens os desejos de uma felicidade e de um gozo terreno. Surgem as cidades e com elas as construções que enaltecem o orgulho humano.  Ainda hoje se fala em construções que a Antiguidade cognominou das “sete maravilhas do mundo”.

A aliança que Deus fizera com Noé foi rompida por nova decadência e depravação. O pecado da torre de Babel era o pecado do orgulho e do conhecimento da “felicidade” terrena. O homem começa a construir uma civilização inteiramente dedicada a si mesmo, esquecendo-se de Deus tão próximo. Era a pretensão descabida de “redimir” a humanidade com o “progresso” – a torre que vai até o céu, onde deveria estar a felicidade. 

Ainda restava nos homens muitos dos conhecimentos da ciência infusa herdados de Adão. Satanás aproveitou-se disso e lhes incutiu o desejo de se engrandecer com tais conhecimentos aplicando-os nas construções, de tal forma que colocasse no alto delas, na mais alta de todas, o ídolo maior.  Como castigo veio a ignorância e a dispersão pelo mundo. E para tal efeito, Deus apenas confundiu a língua antes falada, que se dividiu em várias outras. Certamente haviam escrito muitos símbolos pictóricos naqueles monumentos, cujos significados foram prejudicados pela confusão das línguas.[1]

As informações dos arqueólogos revelam construções fantásticas dos tempos idolátricos. A cidade de Babilônia, por exemplo, tinha oito portas e em cada uma delas havia um deus. A própria torre de Babel era o pináculo de um grande templo, dedicado a um deus, hoje conhecida pelo nome de “Templo fundação do Céu”. O historiador Heródoto, em sua obra “Inquéritos”, descreveu a torre de Babel da seguinte forma: “No meio [da cidade de Babilônia] ergue-se uma torre maciça, longa com a largura de um estádio encimada por outra torre, que suporta uma terceira, e assim por diante até oito torres. Uma rampa exterior sobe em espiral até a última torre. A meia altura, aproximadamente, há um patamar e assentos para que se possa sentar e repousar durante a subida. A última torre contém uma grande capela, e nesta vê-se um leito ricamente preparado e, perto dele, uma mesa de ouro”.

O templo dedicado ao deus Marduk, por exemplo, estendia-se por 7.600 metros quadrados, tinha o nome de “Templo da Cabeça Elevada” e era conhecido como “Palácio do Céu e da Terra”.  Uma deusa chamada “Ishtar” parece ter sido a ancestral de Starote, citada na Bíblia, por representar a licenciosidade e luxúria. E esta deusa tinha estátuas espalhadas por todas as cidades, caminhos, casas de moradas, etc.

Em escavações arqueológicas recentes foram encontrados dados que comprovam um tipo de cerimonial idolátrico primitivo: os sacerdotes arrecadavam alimentos entre a população e o ofereciam aos deuses, como se os mesmos fossem vivos e de fato comessem. Este tipo de oferenda é relatado no livro de Daniel (14, 1-21), exatamente na Babilônia, na época do rei Ciro. A crença comum era de que os deuses tinham as mesmas necessidades que nós, a mesma maneira de viver e reações naturais. Embora estivessem sempre colocados no topo da pirâmide social como seres superiores e regentes dos destinos dos homens.

 

Gilgamesh, um rei ou um demônio que sobreviveu ao dilúvio?

Estudos modernos decifraram alguns daqueles documentos pictóricos primitivos e neles encontraram relatos místicos, fantásticos e diabólicos. Um exemplo é o relato sobre um rei ou semideus chamado Gilgamesh.

Os arqueólogos dizem que Gilgamesh foi um rei semilendário, da cidade Uruk, que teria vivido na metade do III milênio antes de Cristo. A descrição do personagem é monstruosa: um búfalo com terríveis chifres, reinando com abominável tirania entre os homens. Para rivalizar com ele a história conta que foi criado um outro monstro, nascido e vivido no deserto entre os animais ferozes.  Alertado sobre a existência deste outro demônio, Gilgamesh enviou-lhe uma de suas cortesãs, especialista no amor livre. E assim, através de uma criatura bestial, o outro monstro foi atraído para a cidade e aceitou a vida urbana.

Enkidu, o antigo monstro rival, tornou-se amigo de Gilgamesh e, pela descrição, talvez até seu amante. Como necessitavam de madeira para fazer as construções na cidade, e esta encontrava-se na floresta, tiveram que enfrentar um demônio terrível que havia nas matas, chamado Humbaba. Venceram o rival e trouxeram a madeira. Assim, começaram a fazer a civilização humana e construir torres enormes.

Quando Gilgamesh viu o amigo, Enkidu, condenado à morte se desesperou e saiu errante pelo mundo. E andou procurando a imortalidade. E quem a tinha era um demônio que sobreviveu ao dilúvio, chamado “Utnapishtim”. Disse este a Gilgamesh que não poderia lhe dar o dom da imortalidade, mas que procurasse em tal lugar que encontraria o remédio para se manter sempre jovem. Gilgamesh aceita o conselho, volta para a cidade, encontra o elixir da juventude, mas é arrebatado de suas mãos por uma enorme cobra.

Conclui o relato que Gilgamesh deixou cair no inferno as insígnias de seu poder. Quer dizer, ele seria um demônio que manteria uma situação passageira de domínio sobre os homens na terra e teria que voltar ao inferno. Neste relato, tais monstros são tidos como reis, personagens pacatos e até mesmo aquele chamado “Utnapishtim” é descrito pelos arqueólogos como se fosse o Patriarca Noé, pelo simples fato de se dizer na lenda que ele “sobreviveu ao dilúvio”.  É provável que o personagem Gilgamesh tenha sido um ser humano, mas inteiramente possuído por um demônio que pretendia manter seu domínio despótico sobre os homens. Assim como um Santo tem um Anjo protetor que aparentemente se identifica com ele, assim também os malditos filhos das trevas têm demônios que se confundem com os mesmos.

 

Divinização de pessoas

Como se viu acima, aos poucos foram também divinizando as pessoas, em geral patriarcas ou feiticeiros famosos que deixaram vestígios de poder e importância. O Patriarca José, depois de falecido, foi objeto de idolatria pelos egípcios, conforme narra a vidente Beata Ana Catarina Emmerich. Tanto ele como a esposa Asenet eram tidos como deuses a ponto de terem criado duas divindades baseadas na fama deles, que foram Isis e Osiris: “Tenho visto, por exemplo, que os deuses Isis e Osiris não eram outra coisa que José (vice-rei do Egito) e Asenet (sua esposa), que os astrólogos do Egito haviam predito a raiz de visões diabólicas, e que eles haviam colocado entre seus deuses.  Quando chegaram, foram venerados como deuses. Tenho visto que Asenet se lamentava e chorava por isso, e até escreveu contra o culto que se lhe tributava[2]

Em outro trecho acrescenta a vidente: “Tenho visto que (Asenet, esposa de José) foi venerada como deusa com o nome de Isis, pela torcida interpretação de seus escritos e rolos. José foi logo venerado sob o nome de Osiris”[3] Quando Moisés libertou o povo hebreu do cativeiro do Egito, segundo Catarina Emmerich, teve que levar às escondidas os restos mortais de José, que estava numa tumba escondida, a fim de evitar que os hebreus o descobrissem e o adorassem como deus.[4] Segundo a mesma vidente, o touro Ápis foi uma divindade que surgiu também no tempo de José, oriundo de uma crença surgida do sonho em que o faraó viu as sete vacas magras e as sete vacas gordas (Gên 41, 1-4).[5] É possível que essa idolatria já existisse desde o tempo em que o povo hebreu, em seu êxodo pelo deserto, mandou construir o bezerro de ouro com o fim de adorá-lo (Gên 32).

Uma demonstração do motivo religioso da sepultura incógnita dos grandes patriarcas (para se evitar a idolatria) é o caso do túmulo de Moisés. Há, até, um verdadeiro mistério que envolve o seu sepultamento: “Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab, segundo a ordem do Senhor; e o sepultou no vale da terra de Moab, defronte de Fegor; nenhum homem soube até hoje o lugar do seu sepulcro...” (Deut 34, 5-6).  Não se sabe o lugar de seu sepulcro, seja uma caverna ou qualquer lugar o mais recôndito possível, pois se viessem a saber poderiam levar seu culto à idolatria. Como diz as Escrituras houve muito pranto com a morte de Moisés, talvez muitas orações, muitos rituais de homenagens a ele, mas o fato de não se vislumbrar sua sepultura talvez tenha evitado que o povo hebreu passasse da simples veneração para a adoração, como era comum ocorrer no Egito de onde vinham. A altercação que o demônio teve com São Miguel sobre o corpo de Moisés, de que fala São Judas em sua Epístola, deve ter sido exatamente com a intenção de lhe dar um sepulto grandioso e com isso despertar a idolatria entre os hebreus.

Em sua Epístola, São Judas alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava torná-lo conhecido, com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por influência que já sofriam dos povos pagãos que os rodeavam. “Quando o Arcanjo Miguel, disputando com o demônio, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a proferir contra ele a sentença de maldição, mas disse somente: “Reprima-te o Senhor”. (Judas 1, 9).  

Os corpos de outros patriarcas antigos tiveram destinos diferentes. Josué teve seus ossos trazidos e sepultados em lugar apropriado – quer dizer, em jazigo da família (Josué 24, 32), sepultado nos “confins da sua possessão, em Tamnatzaré, sobre o monte Efraim, ao norte do monte Gaas” (Jz 2, 9). Sansão também foi enterrado em sepultura comum dos familiares (Juízes16, 31), assim como o último dos Juízes, Samuel (I Sam 25, 1). O grande rei Davi, porém, recebeu as homenagens e reverências merecidas, tendo sido enterrado em sua cidade (Belém), quer dizer, entre seus familiares (I Reis 2, 10-11), assim como seu filho Salomão (II Crônicas 9, 31).  Mas não há notícias sobre qualquer suntuosidade de seus túmulos. A essa altura, o povo hebreu já havia se desenvolvido mais, saído da situação pastoril e rural para a de uma civilização real, especialmente após a aprovação da primeira monarquia.

A partir daí a Sagrada Escritura sempre se refere aos sepultamentos dos reis de Israel como se tivessem ocorrido “na cidade de Davi”, isto é, Belém. O rei Asa foi enterrado lá (II Crôn 16, 14), em sepulcro que o mesmo mandara fazer para si. O rei Ezequias foi enterrado na mesma localidade, referindo a Bíblia que “todo povo de Judá e todos os moradores de Jerusalém celebraram os seus funerais...” (II Crôn 32, 33). Um de seus sucessores, o rei Josias, já é enterrado num mausoléu (II Crôn 35, 24-25), demonstrando um progresso do povo hebreu no combate à idolatria e a construção de monumentos funerários para seus reis sem perigo para sua fé.

No entanto, havia outro lado da questão: faltar com a reverência aos mortos em seu sepultamento era mal sinal, significava que não tiveram boa fama. Tal era a importância dada ao sepultamento de seus mortos que a Sagrada Escritura o menciona como principal virtude de Tobias (Tob 1,20). No cativeiro da Babilônia, onde vivia com os de sua tribo (Neftali, do reino de Samaria) os corpos dos hebreus mortos eram jogados fora das muralhas da cidade a fim de serem devorados pelas aves de rapina: o perverso rei proibia que se enterrassem os corpos dos israelitas, e quem o fizesse era severamente punido. Certo dia, Tobias estava sentado à mesa para o jantar quando veio seu filho e lhe disse que haviam deixado na praça o corpo de um israelita morto: sem titubear o velho Tobias levantou-se imediatamente da mesa, foi buscar o cadáver e o ocultou até à noite, quando o enterrou dignamente (Tob. 2, 37).

Porém, com relação àqueles que tiveram grande e boa fama, ou apenas certa fama de poder e grandeza, havia a tentação da idolatria. Era preciso prevenir o povo eleito de tal tentação, de modo particular no tempo de Moisés quando a idolatria era imperante e disseminada pelo mundo, especialmente entre os egípcios daquele tempo.

Moisés foi de tal grandeza que é elogiado até mesmo pela Sagrada Escritura, quer dizer, pelo Espírito Santo. No Eclesiásticos há um grande elogio à sua pessoa: “Moisés foi amado por Deus e pelos homens; a sua memória é abençoada. O Senhor fê-lo semelhante em glória aos santos, engrandeceu-o e tornou-o terrível aos seus inimigos. Pela sua fé e mansidão o santificou, e o escolheu dentre todos os homens” (Eclesiásticos 45, 1-4). É considerado pelos Santos e Doutores da Igreja como homem extraordinário, grande santo, sumo profeta, o legislador insigne e mais sábio que já houve, taumaturgo prodigioso, o mais antigo dos historiadores, o mais sublime dos filósofos. E no entanto, morreu sem nenhuma recompensa terrena, não se sabendo o que ocorreu com sua descendência. Foi um homem nascido para o bem da humanidade.

São Paulo tece grandes elogios a Moisés, especialmente por causa de sua fé: “Pela fé, Moisés, depois de nascido, foi escondido por seus pais durante três meses, porque viram que era um menino formoso e não temeram o edito do rei. Pela fé, Moisés depois de grande, negou ser filho da filha do Faraó, escolhendo antes ser afligido com o povo de Deus, que gozar a delícia transitória do pecado, considerando maior riqueza o opróbrio de Cristo que os tesouros dos egípcios, porque olhava para a recompensa. Pela fé, deixou o Egito, não temendo a cólera do rei: permaneceu firme, como se visse aquele que é invisível.  Pela fé celebrou a Páscoa e fez a aspersão do sangue, a fim de que o exterminador dos primogênitos não tocasse os israelitas. Pela fé passaram o Mar Vermelho, como por terra firme, enquanto que os egípcios, tentando a mesma passagem, foram submersos” (Heb 11, 23-29).

Até Nossa Senhora correu o risco de ser idolatrada

Não há relatos sobre a perfil físico ou da fisionomia de Nossa Senhora. Tudo ficou oculto d’Ela, inclusive sua própria presença no Paixão de Cristo é pouco relatada, ou, pelo menos, sem descrever algo sobre sua personalidade ou beleza física.

A provável idolatria que poderiam ter em torno d’Ela é por outros meios, servindo-se de materiais referentes a Ela mas não de sua figura, a não ser por meras pinturas. Não se sabe a origem, mas houve caso de idolatria a Ela, como os citados a seguir: “Segundo o testemunho de Santo Epifânio, os coliridianos, na Arábia, veneravam a Virgem como deusa e ofereciam, com ritos idolátricos, pequenos pães ou tortas em sua honra. Esta seita era composta quase exclusivamente por mulheres, e a elas estavam reservados os ofícios sacerdotais. Entre os montanistas orientais, os chamados marianistas e filomarianistas adoravam Maria como deusa” [6]

Por causa disso, e também por sua grande humildade, segundo São Luís Grignion de Montfort, Deus A preservou oculta aos olhos dos homens. Logo no início do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, escreveu ele: “Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe escondida e secreta. Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus”

São Luís Grignion de Montfort afirma no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem: “os encantos admiráveis com que o próprio Deus havia ornado a aparência exterior [de Nossa Senhora]. São Dionísio, o Areopagita, (…) diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário”.[7]

Quem é São Dionísio Areopagita que teve a ventura de conhecer pessoalmente Nossa Senhora? São Lucas nos Atos do Apóstolos refere-se a Dionísio (At 17, 34) na narrativa do apostolado de São Paulo no Areópago de Atenas. A graça, servindo-se da eloquência de São Paulo, tocou a fundo o coração de Dionísio, convertendo-o das trevas do paganismo para a luz da verdadeira fé. Dionísio após a conversão conheceu pessoalmente São Pedro, São Tiago e o Evangelista São Lucas, este em Éfeso, onde vivia Nossa Senhora. Foi aí que Dionísio A conheceu e foi objeto do zelo apostólico da Mãe do Salvador. Seu primeiro encontro com Maria Santíssima proporcionou o comentário a que se refere São Luís Grignion.

 



[1] Talvez castigo semelhante ao homem moderno seria a confusão da “língua” mais comum hoje, a internet: caso a mesma entre em black out ocasionaria uma grande confusão entre os homens, haja vista ser a “linguagem” quase exclusiva de todos.

[2] “Ana Catalina Emmerich”, tomo I, “El Antiguo Testamento”, Editorial Surgite, pág. 63;

[3] “Ana Catalina Emmerich”, tomo I, “El Antiguo Testamento”, Editorial Surgite, pág. 94.

[4] Op. cit. págs. 101/103

[5] Segundo a lenda, esse touro negro (originado na cidade de Mênfis) deveria ter certos sinais ou manchas: na fronte, uma mancha branca quadrada; no dorso, a figura dum abutre ou duma águia; sob a língua, um nó em forma de escaravelho; os pêlos da cauda numa mescla de branco e preto e, enfim, um crescente branco sobre o lado direito do corpo. Encontrado um bezerro com tais características (ou, pelo menos, parecido com isso) pelos sacerdotes pagãos especiais chamados os Bastões de Ápis, o animal era conduzido a Mênfis em uma barca dourada e em grande pompa, depois de ter sido nutrido unicamente por mulheres durante 40 dias. Uma vez entronizado cerimoniosamente, vivia no seu santuário, ao lado do deus Ptah, a mais importante divindade menfita, da qual era tido como o arauto, a imagem viva. Sua mãe, um animal também reverenciado, era como que sua esposa legítima, mas tinha também outras vacas cuidadosamente escolhidas para ele. Dizia-se que o próximo touro Ápis era a ressurreição do anterior.

[6] ALASTRUEY, Gregório, Tratado de La Virgen Santísima, 4 ed. Madrid, BAC, 1956, P. 841)” - Apud : SÃO JOSÉ: QUEM O CONHECE?... – De Mons, João Scognamiglio Clá Dias – pág. 44, nota n. 20

[7] São Luís Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Ed. Vozes, Petrópolis, 46ª edição, nº 49, p. 52-53.

 


sábado, 18 de julho de 2026

Mensagem à Soror Consolata

 



“Sim. Salvarei o mundo com o Amor misericordioso; escreve isto....
... Olha: estes rapazes (os soldados), a maior parte, nas suas casas apodreciam em meio dos vícios. Ao passo que na guerra, longe das ocasiões, com a assistência do Capelão, morrerão e serão salvos eternamente...
“A própria miséria atual que reina no mundo não é obra de minha justiça, mas da minha misericórdia.
“Quantas culpas a menos, por falta de dinheiro! Quantas orações a mais não sobem ao céu nos apertos financeiros!
“Oh! Ninguém creia que as dores da terra Me não comovem; mas Eu amo as almas, quero salvá-las, e, para atingir o meu fim, sou constrangido a usar de rigor. Mas, acredite, é para fazer misericórdia.
“Na abundância, as almas esquecem-Me e perdem-se; na miséria, voltam a Mim e salvam-se. É assim, sabes!”
E então, durante e tremenda conflagração mundial, e precisamente a 8 de setembro de 1940, entre Jesus e Soror Consolata, que chorava e suplicava pela paz, desenrolava-se o seguinte diálogo:
"-Olha, Consolata, se Eu concedo hoje a paz, o mundo volta à lama... a prova não seria suficiente.
"- Mas, ó Jesus, nem todos são maus!
"- Pois bem, os bons aumentarão os seus méritos. Não, não deites a culpa aos Chefes das nações, eles são simples instrumentos nas minhas mãos. Para poder salvar o mundo, hoje é preciso assim. Oh! Que multidão de jovens não agradecerão na eternidade a Deus por terem morrido nesta guerra, que os salvou eternamente! Entendeste?
"Eu salvo os soldados na guerra e o mundo com a miséria e com a fome. Mas tantos corações desesperam... Reza tu, agora, não só pelos corações que sofrem no mundo, mas também pelos que desesperam, para que Eu seja para eles conforto e esperança.
"Eu quero salvar a pobre humanidade que corre para a lama, como o sedento para a água fresca; e para salvá-la não há outro caminho senão a miséria e a fome. Mas ela desespera..."
(Extraído de "O Coração de Jesus ao Mundo", Pe. Lourenço Sales, Ed. Loyola, 1983, pp. 29/31)