terça-feira, 23 de junho de 2026

SÃO JOÃO BATISTA E OS APÓSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS

 


          (Revista "Dr. Plínio" n. 27, junho de 2000)



Nós temos no dia 24, amanhã, a festa da Natividade de São João Batista. E a respeito dele temos que desenvolver alguns dados biográficos fornecidos por Dom Guéranger:

“São João recebeu a graça de uma felicidade incomparável, provavelmente já no seio de sua mãe, com a visita da Santíssima Virgem a Santa Isabel.

Assim sendo, talvez o primeiro que tenha falado da divina e virginal maternidade, não separando nunca o Filho de sua Mãe, ao mesmo tempo que adorou Jesus, honrou Maria acima de todas as criaturas. “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre”. É a afirmação unânime da eleição que, pronunciando Isabel essas palavras, nada mais fez do que ser porta-voz de seu filho. O início da vocação de João como testemunho da Luz primaria (...) e ela dá a primeira expressão de admiração e louvor que a anima. Anjo ele mesmo, como o chamavam os profetas, retoma (...) à Soberana do céu e da terra.

Assim, já se vê de perto o papel de Maria na santificação dos eleitos. O grito de sua alma eleva-o à santidade ao primeiro som da voz da Virgem. Foi por ele que, com grande pressa, após a Anunciação, Ela atravessou as montanhas. Mas reserva ainda a João outros favores. Até então silenciosa, entoa diante dessa criança seu canto sublime. E dá ao Batista a plena compreensão do mistério inefável. Como santificou o precursor de seu Filho, a Mãe de Deus (...) primeira lição incomparável do filho de Isabel. Mas três meses ainda continua essa educação maravilhosa. E com isso, melhor (..?..) que será essa criança? A Dispensadora das graças guardou para João a primeira efusão dessa torrente de graça da qual Ela se tornara o divino reservatório.

O caudal que escapa dessa cidade santa não será suspenso no correr dos tempos, levando a cada alma os seus eflúvios, mas em toda a sua força inicial ainda não dirigida, encontra João em primeiro lugar. Quem poderia medir essa corrente? Os seus efeitos? A Santa Igreja não o diz. Mas de onde virá a fonte que causa o misterioso crescimento de João sob o olhar atônito dos anjos? Tendo em vista a fraqueza desse corpo de criança, ante a grande maturidade de sua alma e da misteriosa natividade do precursor. É grande o homem que Isabel deu ao mundo”.

Esse comentário de D. Guéranger é cheio de vistas magníficas. Ele se estriba no fato de que São João Batista, ainda no ventre materno, era dotado de toda lucidez. Porque sem ser concebido sem pecado original - ao menos nada indica que tenha sido - foi isento dessa culpa logo depois de concebido, razão pela qual tinha inteligência, tinha compreensão das coisas que se passavam, e estava em oração no ventre de Santa Isabel quando Nossa Senhora chegou.
Então, a primeira coisa que D. Guéranger ressalta bem é que Nossa Senhora não foi a Santa Isabel apenas para ajudá-la, mas que o motivo primeiro da visita era ajudá-la para que gerasse perfeitamente aquele menino que Ela sabia ser o precursor prometido pela Escrituras. O menino passou três meses vendo constantemente Nossa Senhora ajudar Santa Isabel. Ele ouvia a voz de Nossa Senhora; durante esses três meses ele compreendeu Nossa Senhora.

Os senhores podem compreender o que são dois ou três meses em companhia de Nossa Senhora! Ele mostra muito bem que aquele que os profetas chamaram de Anjo era uma criatura de tal maneira excelsa que estava acima de todos os homens. Nosso Senhor dele dizia, mais ou menos, não me lembro bem a frase, que de homem não havia nascido ninguém maior do que João Batista.
Então, essa criatura, logo no despertar de sua vida, foi acordada para o conhecimento do mundo pela voz de Nossa Senhora. Ele ouviu Santa Isabel cantar a grandeza de Nossa Senhora e ouviu Nossa Senhora entoar o Magnificat. Ouviu esse hino, essa canção tão bem estruturada, tão nobre, ao mesmo tempo tão racional, tão bem pensada. Ele ouviu e compreendeu todos os sentidos que o Magnificat tem, depois o canto da voz de Nossa Senhora e tudo o mais, tudo concorreu para elevar a alma dele.

Ou seja, o primeiro ensinamento desse homem privilegiado foi um ensinamento de Nossa Senhora. Quando a corrente de ensinamentos e de graças de Nossa Senhora — diz ele muito bem — estava no seu primeiro eflúvio para cair sobre a humanidade, o lado mais esplêndido caiu sobre São João Batista, sobre sua alma, para que ele fosse um anjo e fosse na frente do Messias, cortando as montanhas e enchendo os vales para preparar os caminhos do Senhor. Cortando as montanhas, quer dizer, combatendo os vícios; preenchendo os vales, quer dizer, acabando com os pantanais e buraqueiras da sensualidade. Em outros termos, fazendo o trabalho da Contra-Revolução para preparar os caminhos do Senhor.

Ele diz algo a respeito da santidade de São João Batista, mas o que diz é pouco porque ele teve de compreender que não há palavras humanas para descrever bem o que essa santidade possa ter sido. Uma santidade de tal maneira — e de tal maneira máxima a do primeiro momento do apostolado de Nossa Senhora — que os homens podem entrever, não podem descrever! Eles podem admirar, mas eles não podem conhecer inteiramente.

Aí está o Batista, o austero, o Batista terrível! O Batista que vai para o deserto e que vela. E depois sai da solidão e começa a pregação. O Batista zeloso que prepara as almas judaicas, das quais haveria de nascer a Igreja Católica. Porque o primeiro reduto de católicos foi [o] dos judeus e [das] pessoas preparadas pelo apostolado de São João Batista - mas o Batista juiz, o Batista fiel, o Batista devotado!

Quando Nosso Senhor apareceu, ele disse: “A Ele compete crescer, a mim compete diminuir; compete-me agora desaparecer: eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo! Minha missão está cumprida. Não há mais nada para eu fazer, porque o Sol da justiça se levantou e eu não era senão uma ave que cantava o Sol que ia nascer. A partir do momento em que o Sol nasceu, eu não tenho outra coisa a fazer senão morrer por Ele”.

E aí nós temos a morte, ao mesmo tempo indignada e enlevada de São João Batista. São João Batista e sua luta contra Herodes, contra Salomé, mártir da castidade! O homem que sabe enfrentar a impureza num trono e que sabe perder sua vida para dizer a verdade como ela é. Ele foi detestado, tirado dessa vida, mas tirado num ato de supremo amor. É evidente que quando ele morreu estava pensando no Cordeiro de Deus que tinha visto e no canto do Magnificat que tinha ouvido. Foi nesse enlevo que sua alma se desprendeu do corpo e que foi esperar Nosso Senhor no Limbo.

Os senhores podem imaginar o que terá sido o encontro de Nosso Senhor e São João Batista no Limbo, quando a alma do mártir, tão pura e ainda lavada pelo sangue derramado há pouco, foi de encontro a Ele. O que terá dito Nosso Senhor a São João Batista que O havia aclamado? E depois, coroando de glória São João Batista no Céu!

Aí compreendemos toda a devoção dos ultramontanos a São João Batista. Compreendemos a raiz que isso tem. Esse profeta virginal passou pela vida dizendo as verdades inteiras, sem ter medo de ninguém, aterrorizando a impiedade e enlevando e preparando para o Messias as almas que nós diríamos ultramontanáveis - para falar a linguagem contemporânea -, essa alma formada diretamente por Nossa Senhora.

E aí então, como através de um espelho, podemos ver algo das virtudes de Nossa Senhora. Porque ele é fruto da alma de Nossa Senhora, da formação de Nossa Senhora. Ele é fruto da formação, e pelo fruto se conhece a árvore. Nossa Senhora, a ter formado um homem que tivesse todo o agrado d’Ela, teria formado a ele.

Então os senhores compreendem o “raprochement” que se pode fazer entre isso e os Apóstolos dos Últimos Tempos. Os Apóstolos dos Últimos Tempos, formados inteiramente pelas exigências de Nossa Senhora, devem ter o perfil moral de São João Batista: austeros, varonis batalhadores, enlevados, intransigentes e prontos a darem sua vida inteira por Nossa Senhora.
Que Nossa Senhora nos faça tais! Que possamos ouvir, também nós, a voz d’Ela dentro de nossas almas. Que nós também tomemos a forma de verdadeiros discípulos d’Ela para, contra os hereges contemporâneos, vivermos aqueles Apóstolos do Últimos Tempos que devemos viver. É o que nós pedimos, de toda alma, a São João Batista e a Nossa Senhora, na festa dele.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira, “Santo do Dia”, 23 de junho de 1967)

 

 


PECADOS MODERNOS QUE CLAMAM AOS CÉUS POR VINGANÇA

 

Deus já emitiu seus juízos sobre nossa época?

É o que veremos ao analisarmos abaixo os pecados cometidos no mundo moderno: A) os que chamam ao Céu por vingança; B) pecados contra o Espírito Santo, e C) a conjuração coletiva contra Deus e sua Obra.

 

A) Pecados que clamam ao Céu

Os chamados pecados que clamam aos céus e pedem a Deus por vingança são aqueles que envolvem uma especial malícia e repugnância abominável contra a ordem social humana criada por Deus.

São estes:

1º. O homicídio voluntário, como o praticado por Caim (Gn 4, 10), de cujo pecado Deus disse: “voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim”. A avalanche de pecados desta natureza ocorre com tanta frequência hoje em dia que dispensa maiores comentários. O único agravante é que sejam praticados pelo Estado em nome da própria sociedade e para a implantação de regimes ditatoriais, materialistas e ateus. Estamos numa época em que o homicídio voluntário é praticado como arma de guerra psicológica, como método de terror, como vingança entre quadrilhas, como meio para se fazer extorsões e se adquirir riquezas e, finalmente, como tortura e perseguição religiosa. As modalidades de homicídios vão se requintando e se tornando coisas tidas como normais, ocorridos também entre familiares, entre irmãos, de pai pra filho e de filho pra pai. Vivemos numa época em que os homicídios são cometidos por atacado, em toda a terra, sob os diversos motivos e às vezes até mesmo sem motivo nenhum...  Não já estão clamando a Deus por vingança?

2º. A sodomia é um pecado abominável condenado no Antigo e no Novo Testamento, como nessa epístola de São Judas: “De modo semelhante, Sodoma e Gomorra e as cidades ao redor se entregaram ao prazer infame, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno (Jd 1, 7).

É comum o entendimento de que o pecado de sodomia só se refira ao relacionamento homossexual.  No entanto, é bom que se frise que a sodomia se refere a todo pecado que é contrário à natureza e à procriação, tendo o homossexualismo como ponto máximo, porém não o único. Pode ser chamado também ato de sodomia qualquer pecado de sexo que seja contrário ao ato natural, hoje praticados pela sociedade moderna de uma forma protuberante, maciça, estonteante mesmo.

Assim, inscrevem-se neste rol de pecados contra natureza aquilo que São Paulo chama de “inversão sexual” ou então o que, não só os homens, mas a próprias mulheres romanas faziam (hoje também um pecado comum) ao “mudarem o uso natural em outro uso, que é contra a natureza”. (Rom 1, 24-32).  Comentando esta epístola de São Paulo São João Crisóstomo diz: “Considerai como o Apóstolo reputa aos pecados de sodomia indignos de perdão, da mesma forma que os dogmas errôneos. E das mulheres diz: “Trocaram o uso natural”. Porque essas não podem alegar que foi por falta de união conforme à natureza que recorreram a essa depravação; e nem que, por não poder satisfazer sua inclinação natural que caíram nesses furiosos desejos alheios a seu próprio sexo, porque a troca é própria de quem já possui algo...”

 O principal pecado de Onan (Gn 38, 8-10) foi o de impedir a procriação e, por isso, tido como um ato abominável por Deus e punido com a morte. Porém a Igreja não circunscreve tal pecado (impedir a procriação) como aqueles que clamam aos céus por vingança e sim o de sodomia.  Deste modo, é provável que Onan tenha praticado num só pecado duas ofensas a Deus: o impedimento da procriação (que interrompia a continuidade hereditária que geraria o Messias, pois tratava-se da tribo de Judá) e o ato contrário à natureza, este sim, a sodomia, que clama a Deus por vingança e sujeito ao castigo de morte.

De que modo Onan impediu sua esposa de conceber?  A Sagrada Escritura não o diz, mas ele deve ter usado um recurso compatível aos atos contrários à natureza, que naqueles tempos remotos eram mais rudes. Alguns moralistas dizem que ele usou um recurso para bloquear o sêmen, algo talvez difícil de se proceder em seu tempo a não ser por métodos grosseiros. Teria ele forçado sua esposa a “mudar o uso natural” como se refere São Paulo e praticado a sodomia? Ou teria usado algum recurso contraceptivo ensinado por feiticeiros?

O pecado de sodomia, e não somente o de homossexualismo, teria motivado os conhecidos castigos de Deus, matando não só uma pessoa como Onan, mas cidades inteiras como Sodoma e Gomorra, ou até mesmo as cidades romanas Herculano e Pompéia, destruídas pelo vulcão Vesúvio pois eram ninhos de abominações de pecados contrários à natureza, como sodomia e homossexualismo. Se a tanto chegou Deus por causa de um ou outro homem, o que não dizer hoje de cidades ou até mesmo povos inteiros que praticam impune e atrevidamente tais pecados?

3º.  A opressão dos pobres, viúvas e órfãos. De tal forma este pecado mancha o nosso tempo que dele assim falou o Papa Pio XII: “Que nenhum de vós pertença ao número daqueles que, na imensa calamidade em que há caído a família humana, não veem senão uma ocasião propícia para enriquecer-se iniquamente, tomando pé da miséria de seus irmãos e aumentando mais e mais os preços para obter um lucro escandaloso. Contemplai suas mãos! Estão manchadas de sangue, do sangue das viúvas e dos órfãos, das crianças e adolescentes, dos impedidos ou atrasados em seu desenvolvimento por falta de nutrição ou pela fome, do sangue de milhares e milhares de infortunados de todas as classes do povo que derramaram seus carniceiros com seu inglório tráfico, Este sangue, como o de Abel, clama ao céu contra os novos Cains”  (AAS 37 (1945) 112).

4º. Defraudação do salário do trabalhador, que clama a Deus por vingança conforme o Apóstolo São Tiago: “Eis que o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama, e o clamor deles subiu até aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tiago 5, 4). A maior defraudação do salário do trabalhador se deu quando o Estado se arrogou no direito de se apropriar dos frutos deste salário, os bens socializados pelos regimes comunistas e socialistas implantados no decorrer do século XX. Embora o regime comunista esteja hoje diluído, a legislação moderna, toda ela socialista até mesmo em países como os Estados Unidos, sofre do bafejo dos ideais marxistas, o qual propugna a tese igualitária da expropriação de todos os bens (que é o fruto do salário do trabalhador) pelo Estado. Não há um país moderno que não tenha sofrido a influência de tal legislação, justificando a afirmação da Santíssima Virgem em Fátima: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. 

Um quinto tipo de pecados que bradam aos céus e clamam a Deus por vingança seria o da idolatria satânica, revestido este com o maior grau de maldade e malícia que se pode imaginar. No entanto, tal pecado se inscreve como aqueles cometidos contra o Espírito Santo e cuja vingança Deus deixa para a outra vida com um castigo ainda pior, a condenação eterna. O satanismo, ou o pecado de Revolução, é um ato que envolve malícia especial e se reveste de repugnância abominável contra a ordem social humana, da qual Deus é expulso e colocado Satanás em seu lugar. É a inversão da Ordem que Deus colocou no Universo.  Deste modo, tratar-se-ia de um pecado que brada aos céus e clama a Deus por vingança, mas vingança exigida pela própria Ordem que Deus estabeleceu no Universo e punível com as penas eternas.

 

B) Os pecados contra o Espírito Santo

São aqueles que se cometem com refinada malícia e desprezo formal dos dons sobrenaturais que nos livrariam diretamente do pecado.  São como blasfêmias contra o Espírito Santo, a Quem compete a nossa santificação.

Constituem-se pecados contra o Espírito Santo:

A desesperação: obstinada persuasão da impossibilidade de conseguir de Deus o perdão dos pecados e a salvação eterna. Este foi o pecado de Judas e é um pecado, hoje, comum aos drogados, roqueiros, ateus, etc. A desesperação é um prato comum nos dias atuais com a pregação de suicídios,  a prática de abortos e da eutanásia, o desengano geral com a desintegração dos Estados e grande frustração por não se encontrar ninguém mais falando em solução para os problemas de nosso tempo. 

A presunção: temerária e excessiva confiança na misericórdia de Deus, esperando a salvação eterna sem arrepender-se dos pecados e mudar de vida. Este é um pecado hoje praticado por protestantes de todas as seitas e membros das chamadas igrejas ortodoxas orientais. 

A heresia: ou “impugnação da Verdade conhecida”.  Desta forma se peca desprezando o dom da Fé, dado pelo Espírito Santo, e contra a mesma luz divina. São tantas as heresias e hereges que existem em nosso tempo que seria difícil enumerar a todos ou ao menos os principais. Trata-se de um pecado coletivo que clama a Deus por reparação.

A inveja da graça fraterna: segundo São Tomás de Aquino é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele “não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, senão da graça de Deus que cresce no mundo”.  Entristecer-se da santificação do próximo é um pecado direto contra o Espírito Santo, que concede benignamente os dons interiores da graça para a remissão dos pecados e santificação das almas. É o pecado cometido por Lúcifer, pecado dos demônios, por isso chamado de satânico. Em escala mundial este tipo de pecado é mais comum entre os muçulmanos e outros pagãos, os quais odeiam visceralmente todo o Ocidente pelo que ainda resta de cristão. 

A obstinação no pecado:  recusa das insinuações interiores da Graça divina e os sãos conselhos das pessoas sensatas e cristãs, não tanto para entregar-se com mais tranquilidade a toda classe de pecados quanto por refinada malícia e rebelião contra Deus. Perante os reiterados avisos, ameaças e até de castigos incontestáveis os homens da atualidade comportam-se com a mais terrível das obstinações em seus pecados.

A impenitência deliberada: determinação de não arrepender-se nunca dos pecados e resistir a qualquer inspiração da graça para o arrependimento.  É o mais horrendo pecado contra o Espírito Santo, já que a pessoa se fecha voluntariamente e para sempre as portas à Graça divina.

Tais pecados são irremissíveis?  O pecado contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste nem no outro mundo, conforme se lê em São Mateus: “Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro (Mt 12, 31 -33). De modo geral não há nenhum pecado que seja tão grave que a misericórdia infinita de Deus não possa perdoar, desde que o pecador dele se arrependa. Porém, como precisamente o pecado contra o Espírito Santo rechaça a graça de Deus e se obstina voluntariamente em sua maldade, é impossível que, enquanto permaneça nessas disposições, se lhe perdoe seu pecado.,

 

C) A conjuração contra Deus

Quando Nossa Senhora previu em Fátima que várias nações seriam aniquiladas Ela deixou implícito que tal se daria com a morte das pessoas que comporiam tais nações. Tal castigo trará então a morte como moeda corrente, o ponto principal das punições divinas.  A morte, então, será vista pelo ímpio como o ápice de seu desespero, enquanto pelo justo será como uma dádiva de Deus e uma porta para o Paraíso. Isto ocorrerá então como último juízo de Deus contra os homens, envolvidos estes numa conjuração universal contra Deus e sua glória aqui na terra.

Antes de tudo, alguns pressupostos. Os pecados coletivos ofendem mais e atraem mais os castigos divinos. Quando uma pessoa peca individualmente afasta Deus de seu coração e nele entroniza Satanás.  Quando esta mesma pessoa procura uma outra e juntas praticam o pecado, aí então a malícia aumenta. Isto porque:

1º. Ocorre entre ambas uma espécie de conjuração contra Deus, contando também com a participação do demônio;

2º. Os males que os demônios antes praticavam em cada pessoa separadamente, agora o fazem em conjunto, portanto com mais força;

3º. Quando grupos de pessoas cometem tais pecados, atingindo então famílias, cidades, sociedades inteiras, tal conjuração atinge a universalidade e clamam a Deus por castigos coletivos.

Se Eva tivesse pecado sozinha  não teria feito tanto mal à humanidade e à glória de Deus, pois Adão teria ficado fora daquela “conjuração” contra Deus. O difícil é para nós imaginar como conviveria futuramente aquele casal, um no Paraíso terrestre e outro fora. Deus certamente estabeleceria outros planos para a Humanidade.

Há uma conjuração contra Deus no mundo moderno?

Quando a prática de todo tipo de pecado sai do âmbito pessoal e passa a ser cometido por casais, por famílias, por sociedades inteiras;

Quando os pecados se transformam em leis, como o divórcio e o aborto, praticados ou aceitos por todos;

Quando se praticam coletivamente pecados contra a natureza, mesmo que se entenda que perderam a noção do mal do que fazem;

Quando enfim todas as nações da terra praticam ou toleram o adultério, a avareza, a inveja, a ganância, o homossexualismo, etc.

Aí então, pode-se dizer que estão todos envolvidos numa enorme conjuração universal contra Deus. Uma conjuração de homens e demônios contra Deus e Sua glória. Não se trata aqui da conjuração das forças secretas para destruir a Igreja e a Cristandade, esta uma empreitada (portanto, uma ação consciente, deliberada e premeditada) dos inimigos de Deus comandados por Satanás a partir de seu “trono”. E quem os enfrenta? Os Apóstolos dos Últimos Tempos (no dizer de São Luís Grignion de Montfort), guiados pelos Santos Anjos sob as ordens de Nossa Senhora.

 

Princípios básicos desta “conjuração”

A “ideia” desta conjuração contra Deus começa no interior de cada alma. O pecado não é um simples ato de deleite, mas um estado de revolta contra Deus.  Até mesmo sem o saber, o pecado conta com um “sócio” em seus atos, que é o demônio.  E a referida “conjuração”  tem início num ato que é fruto de uma “união”, de uma quase combinação de interesses, entre o pecador e o demônio, efetivando-se futuramente com a adesão de uma outra pessoa. Aí teremos um pecado coletivo em sentido “minor”, cometido por apenas duas pessoas. Mas aqueles dois procuram outros e em breve aquele pecado será coletivo em sentido “major”.

Temos alguns exemplos de pecados que envolvem conjuração contra Deus. Coré, Daton e Abiron se uniram contra Moisés numa conjuração tríplice e louca; os velhos que tentaram contra a casta Susana se conjuraram para o pecado, mas encontraram a nobre resistência dela; Judas conjurou explicitamente com os judeus da sinagoga contra Nosso Senhor. Neste ponto Judas consumou num pecado coletivo os diversos pecados individuais de avareza e poder que vinha cometendo; São Pedro não cometeu propriamente pecado de conjuração quando negou Jesus por três vezes perante os criados. Por isso seu pecado foi menos grave e obteve o perdão; toda a perseguição e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo não passou de uma enorme conjuração que envolvia homens ímpios e Satanás. Com relação aos homens que participaram desta conjuração, note-se que estavam eles cheios de pecados de malícia, de avareza, de inveja, enfim, de tudo o que há de mal que eles já praticavam entre si, conjurando-se mutuamente contra Deus.

Depois da terrível conjuração contra o Salvador, os homens fizeram diversas conjurações contra os cristãos e a propagação do Cristianismo. A ponto de se chegar ao ápice da conjuração para a destruição da própria Igreja que tomou corpo após o declínio da Idade Média.

E nós, caro leitor, quando procuramos alguém para cometer com ele um pecado não praticamos também uma conjuração? Será que, ao praticarmos aquele pecado, naquele mesmo instante não estamos sujeitos ao juízo de Deus sobre a conjuração coletiva que se faz contra Ele? Precisamos ver que a natureza do pecado é diferente, a individual e a coletiva. Também é bom imaginar que tanto os vícios coletivos (que mourejam na outra pessoa com quem se peca) quanto os demônios podem passar para nosso interior. Pode ser que, naquele momento, cresça um grau a mais o poder satânico sobre a sociedade inteira, e por nossa culpa!

Veja nossa postagem de 6.9.2016 “AS MALDIÇÕES DITADAS POR MOISÉS AO POVO DE SEU TEMPO PODEM SER REPETIDAS NOS DIAS DE  HOJE?

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/09/as-maldicoes-ditadas-por-moises-ao-povo_6.html

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A GUERRA CONTRA A IMPUREZA

 



 

Ó tu que lutas contra a impureza

E sentes a dureza desta luta

Não te exasperes se és provado,

Se te parece infinita esta disputa

 

Pois quando chegares ao céu dirás:

Consegui na terra uma tal destreza

Que não consenti em nenhum pecado

Morrendo com o cetro da pureza!

 

Que mérito em dizer: nada lutei?

Ou que, pequena foi tua provação?

Outros te dirão: muito trabalhei!

E tua glória, pequena – que decepção!

 

Ouças o que lá te dirá Anchieta:

"Vivi cinquenta anos entre selvagens

Com vistas baixas para não pecar

Nas nuas pagãs daquelas paragens

 

Lutei sem tréguas contra a impureza

Sem haver consentido em nenhum pecado

Imerso num babilônico incêndio

Dele saí sem ser sequer chamuscado".

 

Milhões de virgens castas te dirão

Que os sentidos, escravos fizeram,

Foi de tanto lutar que venceram

Foi este o amor a Deus que ofereceram

 

Luta, pois, meu jovem, não esmoreces

Vês que se vives imerso neste ar

impuro que se respira nesta era

Roga à Virgem para perseverar.

 

Nunca te incomodes se a prova é longa

Pois se é intermitente, tão audaciosa

A tentação que te quer envolver

Terás uma vitória mais gloriosa

 

E assim para manter-se sempre puro

Fuja da impertinente tentação:

Só olhá-la como se fosse escuro

-Tenha nojo dela, cuspa no chão!

 

Mas se teu olhar estiver vagando

E a figura lhe causar aflição

Mesmo estando na rua caminhando

Olha bem para a palma de tua mão

 

Nela verás o “M” de Maria

Feita por Deus, deu nossa salvação

Dos Santos e dos Anjos a alegria

Refúgio certo contra a tentação


Jovem, conserva casto teu olhar

Pra que tua alma seja também pura

Em seu coração Deus venha morar

Por encontrar nele tanta candura


 

Foge já das obscenas e imorais

Figuras que andam mal vestidas

E dos lugares onde vicejam mais

Ares impuros que as fazem perdidas

 

Onde muita gente, muito pecado

Procura, pois, fugir da multidão

Já que teu olho tudo reflete

E nada deixará sem reflexão

 

E se tua natureza não se acalma

Mas queres permanecer fiel a Deus

Lute contra a impureza em tua alma

Combate sem trégua os vícios teus!


(Cordeis de minha autoria)

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A GUERRA DOS "SAPOS"

 


O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, por várias oportunidades, tanto em artigos de jornais quanto no livro sobre as elites publicado nos Estados Unidos, discorreu sobre um tipo de burguês da era moderna que ele cognominou de “sapo”, e de “saparia” ao conjunto deles. Que “tipo” de burguês é esse? Dr. Plinio não foi o primeiro a dar essa denominação a grupos sociais de nossa sociedade, um dos pioneiros foi o poeta Manuel Bandeira que denominou de “sapos” aos adeptos do modernismo, e isso o fez numa famosa poesia com o título de “Os Sapos”.

O que se vê hoje nessa guerra sem fim que foi deflagrada nas elites políticas brasileiras nada mais é do que uma “guerra de sapos”, onde se destaca a corrupção galopante entre eles. Vejam abaixo o que diz dr. Plinio sobre a "saparia"

 A “SAPARIA”

(Texto traduzido do Apêndice à edição norte-americana do livro “Nobreza e Elites Análogas nas Alocuções de Pio XII”, de Plinio Corrêa de Oliveira)

2. ELITES INAUTÊNTICAS

Qualquer estudo sobre as elites, nos Estados Unidos, depara-se com um problema, que é o das elites inautênticas. As elites do país são o resultado de um processo de refinamento na sociedade, e representam, em certo sentido, o que o país tem de melhor e mais elevado. Porém, é inegável que numerosas pessoas de elite têm mentalidade francamente revolucionária, e que certos grupos de elite são os paladinos das transformações de caráter liberal e socialista em vários campos. Também é inegável que tais pessoas e grupos assumem, com freqüência, atitudes de simpatia frente ao comunismo internacional.

Uma elite inautêntica pode possuir o patrimônio relevante ou a notoriedade pública, inerentes às elites autênticas, sem no entanto possuí-los há tempo suficiente para que deles resultem os predicados característicos das elites autênticas. Ou sejam, a largueza de horizontes, a excelência de tipo humano e de trato e a delicadeza de sentimentos que as distinguem.

Pode até acontecer que numa elite inautêntica exista um passado suficientemente longo para lhe proporcionar todos os predicados de uma elite autêntica e tradicional. Mas que esse grupo, movido por preconceitos ideológicos ou outros fatores, tenha preferido manifestar — ao lado de maneiras distintas, educação esmerada, e até hábitos aristocráticos — uma ideologia revolucionária e uma mentalidade democrática liberal, tendente a promover um Estado paternalista, em detrimento dos corpos sociais intermediários.

As elites inautênticas constituem verdadeiros corpos estranhos na tradicional contextura social de um país. E podem até formar, a respeito dos verdadeiros direitos e interesses do mesmo, uma noção tão anti-natural que chegue ao ponto de colaborar largamente com os adversários mais radicais e mais declarados desse país.

Ao fazer uma defesa genérica das elites, portanto, poder-se-ia perguntar se os autores da presente obra não estariam, ainda que implicitamente, favorecendo a ação demolidora destas elites liberais.

a. A "saparia"

- O termo "sapo", com a conceituação que é desenvolvida no presente item, foi lançado em artigo do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no diário "Folha de São Paulo", em 25-6-69.

Antes de tudo, parece necessário deixar bem claro que — ao tratar da questão das elites nos Estados Unidos — os autores as distinguem das elites artificiais ou inautênticas. Estas se apresentam sem ligações naturais com as melhores tradições deste país e os mais profundos anseios do povo norte-americano, chegando mesmo a contrariar essas tradições e esses anseios.

Dado que a distinção entre uma elite tradicional autêntica e tais elites espúrias nem sempre está presente com a devida nitidez no espírito de incontáveis pessoas, parece indispensável incluir o presente item explicativo.

Os estudos sociológicos citados mostram que existem elites tradicionais nos Estados Unidos, constituídas a partir de antecedentes históricos próprios a cada lugar. Essas elites têm ainda hoje uma influência social marcante sobre o conjunto da sociedade norte-americana, especialmente nas suas capilaridades.

Porém, muitas vezes os postos diretivos do Estado, das altas finanças, das grandes empresas, da mídia, das fundações e dos órgãos culturais, são ocupados por pessoas que não pertencem a elites autênticas, mas constituem uma espécie de contra-elite que faz ostentação de princípios, de idéias e de um estilo de vida em dissonância com o modo geral de pensar e de agir da maioria da população.

Estas elites inautênticas, longe de representarem a nação, nela constituem quase um corpo estranho, aparecendo aos olhos do público de modo muito mais visível — e, sob certos aspectos, mais brilhante — que as elites tradicionais. Elas ocupam muito maior espaço nos órgãos de publicidade e ofuscam o realce que as verdadeiras elites deveriam ter.

Assim, formou-se na mente de numerosos norte-americanos a idéia de que elite é só isto, podendo daí advir em muitos uma injustificada antipatia às elites in genere, em vez de uma não raras vezes explicável antipatia dirigida apenas contra as falsas elites.

Para simbolizar o perfil moral e psicológico do tipo humano de tais elites inautênticas — existentes nos Estados Unidos, como em quase todo o Ocidente — tomou curso no linguajar corrente das TFPs a palavra "sapo", e ao conjunto dos sapos a denominação coletiva de "saparia".

Em geral, o "sapo" nasceu da Revolução Industrial. Ou seja, ele é o fruto — artificial, sob certos pontos de vista — de uma economia de base industrial que gerou fortunas excessivamente grandes, sem proporção com a massa geral dos patrimônios individuais do país. Estas fortunas podem ser de natureza industrial, financeira, e mesmo artística ou esportiva, como no caso de certas personalidades do cinema, da televisão e dos esportes.

Há um tal desequilíbrio entre os "sapos" e os outros níveis econômicos da população, que eles parecem viver numa espécie de estratosfera em relação ao restante do corpo social, levando uma vida econômica e socialmente desproporcionada às suas origens e ao seu nível cultural.

Pode haver também um tipo de "sapo", igualmente rico, descendente de famílias tradicionais, de aparência aristocrática, mas que usa de sua posição e de seu prestígio social para favorecer a implantação de reformas de caráter liberal e igualitário.

b. Caráter malfazejo da "saparia"

Nessas condições, o "sapo" — a expressão pode ser forte demais — é quase um câncer no corpo social. Longe de ser o coroamento de uma hierarquia harmônica de elites, a "saparia" dá ensejo ao estabelecimento no país da própria estrutura de poder, de influência e de prestígio dela, sem imbricação com os demais níveis de elites. O peso dessa estrutura anti-natural acaba por prejudicar seriamente aquilo que deveria ser uma sadia e equilibrada vida política, econômica, social e cultural da nação. Mesmo que, individualmente, os membros desta contra-elite possam não ter essa intenção, o próprio dinamismo do sistema por eles dirigido acaba conduzindo a este fim.

Assim como o último degrau da escada deve ter proporção com os degraus anteriores, a elite verdadeira deve ter proporção com os outros elementos do corpo social. Uma escada em que o último degrau fosse exageradamente mais alto que os outros, tornaria a escada inutilizável.

Nas sociedades modernas e industriais, este último degrau exageradamente alto teve sua origem, muitas vezes, em fortunas desmedidas, acompanhadas de um poder, de uma influência e de uma cobertura publicitária igualmente desmedidas. Os possuidores de tais fortunas, sejam eles indivíduos ou empresas, famílias novas ou antigas, têm haveres e interesses em muitas regiões do país e em diversas partes do mundo, escapando assim aos limites naturais e sadios da propriedade privada, e constituindo quase estados dentro do Estado.

Pela amplitude que tomam, estas contra-elites acabam gerando em seus membros uma mentalidade característica, que leva ao ceticismo geral no terreno doutrinário, com desprezo por tudo quanto representa idéias, maneiras e tradições de uma Civilização Cristã. Leva também a uma exclusiva valorização do poder e do status que a super-fortuna confere, como meio para exercer uma ação a seu modo tirânica sobre o país.

Este conjunto de super-fortunas supra-nacionais, sejam elas individuais ou societárias, forma no cume da vida econômica do país uma trans-elite, que mais se assemelha a uma "nomenklatura".

c. Os "sapos" e o comunismo

Ao observar como foi o comportamento desta "saparia" nos países capitalistas ocidentais, em relação ao mundo comunista, constata-se um fato perplexitante: Longe de estar na liderança de uma ampla ação contra o comunismo internacional — como sua condição pareceria exigir — os membros da "saparia" se mostraram concessivos frente a ele, sempre prontos a negociar, a abrir-lhe os cofres do crédito ocidental, a aplainar-lhe o caminho em tudo que fosse possível.

Esta atitude foi uma das características mais chocantes de tal contra-elite. Pois ela freqüentemente se dispôs a salvar de seu fracasso um regime que sempre fez questão de se apresentar como o pior inimigo do capitalismo. Foi o caso, por exemplo, de titulares de grandes patrimônios, que destinaram à Rússia comunista, até mesmo nos períodos de tensão daquele país com nossa pátria, recursos econômicos indispensáveis para a sobrevivência daquele regime.

Embora a explicação mais profunda deste fato seja bastante complexa, e até enigmática, para ser exposta em poucas linhas, é certo que um dos fatores que mais pesou para essa atitude foi a semelhança entre o papel desta "saparia" nos regimes capitalistas ocidentais e a "nomenklatura" nos Estados comunistas. Realmente o super-poder do Estado comunista, dotado de uma capacidade de ingerência em todos os campos da vida humana, tem muito de parecido com o super-poder de que esta contra-elite goza em países do Ocidente. Assim sendo, a nomenklatura é uma imagem da "saparia" dentro do regime comunista.

Não é de surpreender, portanto, que entre duas "elites", tão afins sob certos aspectos, as barreiras ideológicas se transponham com facilidade, e que a "saparia" capitalista ocidental mostre simpatia para com sua congênere — que é ao mesmo tempo sua antítese — do capitalismo de Estado.

-  Domhoff aponta os fatores que levaram a uma weltanschauung comum entre a saparia norte-americana e a nomenklatura soviética: "O internacionalismo, a aceitação do governo centralizador e do Estado previdenciário, são três características do pensamento atual no mundo dos grandes negócios. Isto levou os ultra-conservadores a comparar o país [Estados Unidos] dominado pelas grandes empresas à situação vigente na Rússia soviética. Existe, afinal, uma semelhança apreciável. O grande homem de negócios da atualidade não tem uma concepção religiosa do mundo.... Sua concepção é laica e baseada em sua educação liberal e cientificista". (G.W. Domhoff, The Governing Class in America, The Higher Circles, p. 295)

d. O "jet set"

Também como exemplo expressivo de elite inautêntica, cumpre distinguir o que a linguagem moderna designa com o nome de jet set.

A expressão jet set indica os mais ricos — de todos os tipos — que vivem gastando e se divertindo. O jet set pode incluir uma princesa real, um croupier, um jockey famoso, uma estrela de cinema, etc. As pessoas mais díspares entre si figuram no jet set, desde que tenham dinheiro em quantidade que lhes permita gastá-lo a mancheias.

O que caracteriza o jet set é a posse de dinheiro com a vontade de gastar e de aparecer aos olhos do público. Poder-se-ia quase fazer a tal propósito uma equação matemática: dinheiro + vontade de gastar + vontade de aparecer = jet set.

Neste campo também se manifesta a ação nociva da mídia, ao assestar os holofotes da propaganda quase exclusivamente sobre o jet set, relegando as elites tradicionais ao ostracismo. Para o jet set a mídia é generosa. Assim, se um membro de uma família tradicional pertence ao jet set, quando houver um casamento nessa família a mídia lhe dará toda publicidade, negligenciando outros membros que se mostrem mais tradicionais.

Na realidade o jet set constitui a caricatura de uma elite autêntica.

Este aspecto caricatural nota-se não só nas pessoas, mas também nas decorações e nos ambientes típicos do jet set, profundamente marcados pelo predomínio do desejo de manifestar riqueza, e não pela distinção ou pelo bom gosto. São ambientes que, ao lado de uma nota de opulência e extravagância, apresentam um luxo que nunca é aristocratizante, mas sim vistoso e demagógico.

3. AS DIFERENTES VIAS PARA AS ELITES AUTÊNTICAS E INAUTÊNTICAS

Quando uma pessoa adquire fortuna por mérito próprio ou por herança, ela tem diante de si dois caminhos: refinar-se a ponto de abrir para si — ou, pelo menos, para seus descendentes — as portas da assimilação às elites tradicionais; ou enveredar pelo caminho da "saparia".

a. O caminho da assimilação às elites tradicionais

No primeiro caso estão as pessoas que, tendo adquirido uma certa fortuna, não se preocupam muito em aumentá-la. Julgam elas que, ao assimilar valores da tradição e da cultura européias, isso já lhes basta para ter um prestígio suficiente em seu meio social. A administração equilibrada de seus bens lhes permite desenvolver um estilo de vida refinado, análogo ao da aristocracia, sem maiores preocupações de ordem financeira.

Segundo esta mentalidade, desde que o patrimônio seja suficiente para manter o status já adquirido, e a pessoa tenha valores culturais correspondentes à sua alta posição, ela se julga realizada em suas aspirações. Seu prestígio vem mais do status de elite do que de sua fortuna.

Tais pessoas tornam-se independentes em relação às máximas de uma sociedade revolucionária, às imposições das altas finanças e aos imperativos de certas modas extravagantes e da propaganda. Passam então por um processo de aperfeiçoamento, que as torna assimiláveis às elites tradicionais. Elas adquirem um feitio de espírito aristocrático, um modo de ser que lhes dá uma superioridade intrínseca que não vem do dinheiro, mas de fatores psicológicos e culturais. Podem então formar parte de uma autêntica elite tradicional, seja ela de âmbito regional ou nacional.

b. As vias da "saparia"

Outras pessoas tomam um rumo oposto, enveredando pela via do pragmatismo revolucionário, menosprezando a tradição e visando acima de tudo a aquisição de fortuna e poder econômico cada vez maiores.

Elas têm como idéia fixa que o dinheiro é a única fonte de prestígio, e querem aumentar seu patrimônio a todo custo. Para isso lançam-se no mundo das finanças internacionais e rompem os laços que as prendiam às tradições de seu lugar de origem. Inteiramente tomadas pela preocupação dos negócios, falta-lhes de todo em todo o espírito ponderado próprio à verdadeira aristocracia.

Uma terceira via é representada por aquelas pessoas ricas que não colocam sua maior preocupação em negócios ou na aquisição de novas riquezas. Embora às vezes oriundas das elites tradicionais, e apresentando um estilo de vida marcado por hábitos aristocráticos, professam idéias liberais e igualitárias, favorecendo o avanço da Revolução em nível nacional e internacional. Neste sentido assemelham-se ao "sapo" descrito no parágrafo anterior.

Porém, mesmo os descendentes de um primitivo "sapo" podem se aristocratizar. Se após algumas gerações, passadas predominantemente na conquista de riqueza, esta apetência se atenua para dar lugar maior às coisas do espírito e da cultura, eles podem ser incorporados às elites aristocráticas, desde que tenham a alma aberta para assimilar seus valores e modos de vida.


Fonte: 

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/2003%20-%20LN_Apendice_americano_Cap_II.htm

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Quem gosta de torcer, também gosta de sofrer

 






(meus cordéis sobre o futebol e copa do mundo)

 

“Futebol só dá alegria”

Assim diz um refrão

Mas quanto sofrimento

Pra um só ser campeão!

 

Se um jogador dribla

Sai alegre, satisfeito,

Mas o outro, logrado,

Fica logo contrafeito

 

A alegria de toda torcida

Provoca o ódio da rival

E ambas entram em guerra

Em embates às vezes mortal

 

Se o sofrimento é ruim

E só alegria deve reinar

Por que, então, por gentileza,

Nunca se deixa o outro ganhar?

 

Futebol dá mais tristeza

Do que mesmo alegria

Se um ganha, vários perdem,

E caem em melancolia

 

E pra vencer tudo vale:

Bater, xingar, gritar

Sem respeito ao semelhante

O importante é ganhar

 

É ideia sentimental

Fazer os outros chorar

Após ganhar-lhe o jogo

E o campeonato acabar

 

Chegada a Copa do Mundo

Quantas nações a querem ganhar

Mas uma só é campeã

E as demais a se desclassificar

 

Tantas Copas foram disputadas

Destas, 5 o Brasil ganhou

Se nestas 5, sorriu

Em 14 ele chorou