sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MARIA ANTONIETA, VITIMA DA REVOLUÇÃO

 



Os reis não são julgados, neste mundo, nem pelos seus súditos, nem pelos seus tribunais, nem tampouco pelos historiadores, mas pela História. Por tudo o que fazem ou são, os reis têm seu lugar no julgamento da História e nunca ficam sem uma sentença correta oriunda da própria ordem dos fatos de suas vidas. As palavras ditas a respeito de Maria Antonieta por um grande pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira podem ser aplicadas muito bem a respeito de outra rainha, Maria Stuart:

"Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína" 

Quando enfrentou o calvário do fim de sua vida, Maria Antonieta demonstrou coerência com sua alta nobreza e dignidade, já antevisto a partir de 20 de julho de 1792. Naquele dia houve o famoso assalto às Tulherias, onde o rei, a rainha e o delfim, ameaçados, insultados, seus aposentos revolvidos, saqueados, sofreram terrível drama, quando às vezes uma faca ou um pique ameaçou o peito da rainha ou mesmo um feroz punho fechado prestes a esbofeteá-la. Enquanto assassinos rondam o palácio, a resistência cifra-se a poucos amigos dispostos a fazerem de seus corpos uma muralha para proteger a família real. Não houve medo, covardia, nem tampouco sinais de fraqueza e desespero. 

Após cenas tão dramáticas seguiram-se, dias depois, a derrubada do trono, a chacina da guarda suíça que lhes dava proteção, tempestuosas reuniões na Assembléia Legislativa para decidir seus destinos e finalmente o encarceramento no Templo. A 20 de janeiro de 1793, a rainha perde o seu rei e esposo; a 3 de julho do mesmo ano arrancam-lhe o filho de seus braços para entregá-lo ao sapateiro remendão Simon. Aos poucos os familiares que com ela dividiam a prisão foram sendo executados. 

A todo este martírio, Maria Antonieta sofria porém com resignação, grandeza de alma e elevação de espírito, que foram demonstrados em todos os lances que se seguiram até sua morte. No simulacro de julgamento a que foi submetida demonstrou tal equilíbrio emocional e intrepidez que motivou a suspensão abrupta do júri faccioso, pois arrancava aplausos da platéia, e que platéia! Finalmente, ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. 

Preparou-se convenientemente para o sacrifício. Recusou um padre "convencional", como eram chamados os clérigos que haviam jurado a república e abjurado da Fé católica, pois fora assistida anteriormente por um sacerdote fiel. Foi a execução mais esperada em Paris. 

Abaixo, os principais relatos sobre o martírio de Maria Antonieta: 

Primeira prisão - em seu próprio palácio 

A 20 de junho de 1792, começou o assalto contra as Tulherias. É conhecida esta cena, reprodução agravada das jornadas de outubro do ano anterior. O rei, a rainha, o delfim, com o barrete vermelho que lhes haviam posto à força, ameaçados, insultados, escarnecidos durante um dia inteiro por uma plebe assanhada, ébria de fúria, seus aposentos revolvidos, saqueados, a corja humana só se retirando depois da intervenção de Pètion, o prefeito da Comuna. 

Dez vezes, cem vezes, no decurso dessas horas trágicas, uma faca ou um pique ameaçara o peito da rainha impassível, cercada de seus filhos. Um punho chegara a adiantar-se raivosamente em sua direção no gesto de bater, mas o seu admirável sangue-frio impusera àquela súcia imunda o respeito pelo menos à sua vida, e mesmo quando ela dissera com indizível melancolia: "Que vos fiz eu? Eu era feliz quando me queríeis bem...", uma comoção, como se fora de piedade, perpassara por aqueles corações, abalando-os durante um instante no seu ódio selvagem. 

Em agosto do mesmo ano escreveu ela a Ferson: "Os assassinos rondam continuamente o palácio. A resistência que se pode opor cifra-se em algumas pessoas resolvidas a fazerem de seus corpos uma muralha para a família real e no regimento de guardas suíços. Há muito tempo que os facciosos já não se dão ao trabalho de ocultar o plano de aniquilar a família real. Se não vier auxílio, só a Providência poderá salvar o rei e sua família"; 

Queda do trono - prisão no Templo 

De 9 para 10 de agosto, nas Tulherias, a família real passou a noite em claro, na expectativa do que estava para acontecer. Cada um, em torno do rei, munira-se de uma arma para se defender: faca, espada, garrucha... 

Por volta das três horas da madrugada, tocou o rebate. Os defensores do rei tinham tomado todas as disposições para resistir à investida pelo maior tempo possível, vendendo caro a vida. Maria Antonieta falava a uns e a outros, a todos fortalecendo com a sua indômita energia. 

Ao aproximar-se a manhã, o procurador geral, síndico Roederer, veio aconselhar a família real a colocar-se debaixo da proteção da Assembléia Legislativa. 

É - disse ele - a única coisa que o povo respeita neste momento. A rainha, a princípio, recusou indignada. 

- Então o senhor sugere que procuremos refúgio entre os nossos mais cruéis perseguidores! Nunca! Nunca! Prefiro que me preguem nestas paredes a consentir em deixá-las! 

- Senhora - insistiu Roederer - devo repetir, a resistência é impossível. Quer que o rei e seus filhos sejam trucidados? Mais um minuto, mais um segundo talvez, e já não responderei pelos dias do rei, de Vossa Majestade e de seus filhos! 

- De meus filhos! - murmurou a rainha abalada - Não! Eu não os entregarei à lâmina dos assassinos! 

E resolveu seguir Roederer. 

O rei caminhava na frente, ereto e com atitude decidida. A rainha, em pranto, vinha em seguida, apoiada no braço do Conde de La Rochefoucauld. O delfim era levado no ombro de um granadeiro. Madame Lamballe e Madame Elisabeth seguiam-nos. 

O aparecimento da família real foi na Assembléia acolhido com uma saraivada de insultos, de ameaças e de vociferações. Talvez os mais furiosos trucidassem o rei como já tinham trucidado, nessa mesma manhã, o jornalista Suleau et Vigier. 

Roederer, porém, parlamentou e acabou obtendo que os deixassem passar. O rei, como indiferente ao perigo, e com uma impassibilidade admirável ou desconcertante, dizia, contemplando pensativo os castanheiros das Tulherias, já amarelados e murchos: 

- Que cedo as folhas estão caindo este ano! 

A Assembléia Legislativa colocou a família real "sob a proteção da lei", e localizou-a na tribuna do logógrafo (chamava-se assim, nessa época, o estenógrafo). Era um compartimento muito exíguo. No seu interior era impossível ficar de pé e o calor sufocava. Foi aí que, durante dezessete horas, os soberanos decaídos tiveram de ficar. 

Entretanto, a Assembléia Legislativa continuava reunida no meio de uma desordem e de uma anarquia inenarráveis, cortadas por trágicos incidentes. 

Foi assim que, cerca das dez horas, um considerável bando de facínoras em mangas de camisa, cobertos de suor e de sangue, irrompem na sala. Vinha trazer à Assembléia a "oferenda de sua pilhagem". 

Perto das sete horas da noite na tribuna onde estava o rei, guardavam-na apenas alguns miseráveis, que estavam bêbados. Perto do rei estava a rainha, cujas lágrimas e cuja transpiração lhe tinham molhado inteiramente o fichu e o lenço. Tinha no regaço o delfim, que dormia, e repousava a cabeça nos joelhos de Mme. De Tourzel. Mme. Elisabeth, a princesa de Lamballe e Madame Royale, filha do rei, estavam no fundo da tribuna. 

Que quadro! 

Fora, as ruas estavam inteiramente iluminadas, cheias de mortos, de agonizantes e de ébrios dormindo na vizinhança daqueles. No pátio da residência real, uma enorme fogueira consumia os móveis do palácio e os cadáveres. Alguns amantes de sangue humano corriam ainda por baixo das grandes árvores das Tulherias, armados de espingardas, em busca de suíços ou de aristocratas. 

As Tulherias era uma prisão demasiado suntuosa, que Luís XVI não devia tornar a ver. Foi para o Convento dos Cistercienses que Suas Majestades foram passar a noite do dia 10 para 11 de agosto, enquanto esperavam que se decidisse a sua sorte. Medonha noite em que, por várias vezes, a grade esteve a ponto de ser arrombada por sediciosos ávidos de carnificina e de sangue, os quais preten-diam acrescentar as cabeças do rei e da rainha às que levavam na ponta dos piques. 

Exceto o delfim, ninguém pôde dormir. Ouviu-se distintamente até as três horas da madrugada o rumor da Assembléia sempre em sessão, os gritos, os aplausos, o alarido das galerias. 

A detenção provisória no Convento durou quatro dias, de 10 a 13 de agosto. A Assembléia hesitava quanto ao lugar onde transferir o rei. Falou-se sucessivamente no Luxemburgo, no arcebispado, ou no palácio do ministério da justiça, à praça Vendôme. A Comuna, porém, interveio, opondo-se. Não se tratava de procurar um palácio para o rei, mas uma prisão. Escolheram o Templo. 

O Templo 

O lugar chamado Templo, para onde Capeto e sua família foram levados e encerrados a 16 de agosto de 1792, é um edifício sem vista, situado em Paris, na rua e perto do boulevard do mesmo nome. No meio de um jardim, eleva-se uma torre muito alta, muito sólida e flanqueada por quatro torreões. As muralhas da torre grande têm sete pés de espessura, o que dá aos vãos das janelas o aspecto de pequenos compartimentos. 

Só se recebia luz de cima, e não era possível ver nada a não ser o que se chama céu. As portas de carvalho maciço, munidas de sólidas fechaduras, de enormes ferrolhos, contribuíam ainda mais para a impressão de cárcere dada pela torre. 

Essa fortaleza de aspecto severo e áspero que Maria Antonieta sempre encarara com horror, numa espécie de pressentimento, interessando-se que a mandassem arrasar, era antiqüíssima e fora edificada por ordem dos Templários. Foi na larga torre central que os prisioneiros foram encerrados, sob a guarda permanente de comissários da Comuna e de soldados da guarda municipal. 

A 3 de setembro, a quadrilha de chacinadores veio para debaixo das janelas da torre reclamar em altos brados Maria Antonieta. Eram os ferozes degoladores que, nesse dia, visitando as prisões, assassinaram tantas mulheres, padres e nobres. 

Acabavam de matar, com selvageria inaudita,a desventurada Princesa de Lamballe. Tinham-lhe literalmente desmembrado e estripado. Levavam na ponta dos piques a sua cabeça e o seu coração, e arrastavam-lhe o cadáver mutilado. 

Tinham o diabólico propósito de obrigar a rainha a aparecer e beijar a cabeça ensangüentada de sua desgraçada amiga, que lhe apresentavam na ponta de um pique. Com grande custo, Danjon, que estava de guarda, conseguiu contê-los parcialmente. A rainha, porém, aproximou-se da janela e, por uma dolorosa intuição, compreendeu. 

Entreviu, adivinhou sua infeliz amiga na cabeça mutilada que balançava diante da janela na ponta de um pique. Não diz uma palavra, não lança um grito, mas, ferida em cheio no coração, fica de pé, muda de horror, os olhos fixos arregalados de espanto e dor. 

Morte de Luís XVI 

A 20 de janeiro (de 1793), Garet, ministro da Justiça, veio notificar Luís XVI de sua condenação à morte. O rei teve permissão de tornar a ver pela última vez a mulher e os filhos. Essa entrevista suprema foi particularmente comovente e deixou nos que a presenciaram uma lembrança indelével. Quando foram levados à presença do rei, a rainha e os filhos se lançaram aos seus pés, sem dizer uma palavra, e não se percebeu a princípio senão os longos soluços de toda a família estreitamente abraçada. 

A noite dessa véspera de cadafalso, a rainha passou na cama toda vestida, tremendo de dor e de frio. Não tornou a ver o marido no dia seguinte, como esperava. Aguardava-o ainda quando compreendeu, pelo clamor da multidão e pelo burburinho da rua chegando até ela, que o "filho de São Luís subira ao céu". 

Pediu em seguida vestidos pretos, que lhe foram concedidos, e ficou muito tempo abismada na sua dor". Conta-se que teria dito, após ouvir o clamor denunciando o guilhotinamento do rei: "Viva o rei!" e abraçou o delfim. 

Separação do delfim 

A 3 de julho de 1793, guardas municipais apresentaram-se para notificar a Maria Antonieta o decreto que acabava de ser assinado pela Junta de Salvação Pública: 

- A Junta resolve que o filho de Capeto será separado de sua mãe! 

- Matem-me antes! - exclamou ela, num arranco de todo o seu ser em revolta. 

E durante mais de uma hora, fazendo de seu corpo muralha, diante da cama em que dormia o delfim, lutou como uma leoa que defende as crias, com a energia do desespero. Mas, por fim, teve de ceder á força, e o pequeno delfim foi arrebatado á sua ternura para ser confiado à custódia aviltante do sapateiro remendão Simon. 

Ela conhecera o calvário de rainha, o calvário da amiga, o calvário da esposa, ela tudo suportara! Mas foi o calvário de mãe, o mais atroz, o mais desumano de todos, o que acabou de a aniquilar.  

Sabemos como o desgraçado delfim, trabalhado pelo infame Hébert, martirizado, embrutecido pelo álcool e pelo vício, ameaçado com a guilhotina se não obedecesse, aterrorizado a tal ponto que algumas vezes o viram desmaiar de medo, sofrendo com as conversas ignóbeis dos carcereiros a pior corrupção moral, acabou renegando os seus e repetindo docilmente diante dos carrascos, transformados em juízes de sua mãe, as revoltantes acusações que tinham cometido a ignomínia de lhe inculcar. 

Esta atrocidade, cuja infâmia se nos afigura inacreditável se os documentos mais fidedignos não a atestassem, dá a medida dos meios empregados pelos revolucionários para abater Maria Antonieta. 

Finalmente, o delfim foi assassinado a 8 de junho de 1794. 

Enquanto definha na prisão, enxurrada de calúnias O jornal do covarde Hébert, o ignóbil "Le Père Duchesne",é que se assinalava entre todos pelo seu encarniçamento e pelas suas célebres "grandes cóleras". Em todos os seus números, invectivava "Madame Veto". Cobria-a de epítetos os mais variados. Era a "loba austríaca", a "onça sedenta de sangue", a "megera sanguinária", a "ninhada de mochos do Templo", a "besta fera", a "viúva Capeto", a "patifa". 

Atribuiu-lhe, no decurso de diálogos imaginários que teria sustentado com ela, as palavras mais insolentes com relação ao povo, as intenções mais criminosas contra a França, os mais revoltantes projetos de chacina contra os patriotas. 

Enquanto isso, Maria Antonieta definhava no Templo... Não é mais que a sombra de si própria. Durante horas inteiras, fica à espreita a fim de entrever o delfim, de longe, por alguns breves segundos, quando sobe para o seu compartimento, escoltada pelo seu carcereiro. Acompanha com angústia e dor, na fisionomia do filho querido, o progresso dos estigmas do vício com que o corrompem. 

E, na rua, os panfletos, as canções, as gravuras, os jornais, os discursos, continuam a atiçar contra ela a opinião desvairada. É a "pantera austríaca" apon-tada á execração da nação até sua mais remota posteridade. É o seu retrato, emoldurado por um lampião, com esta legenda gratuita: "A Médicis do século XVIII, a hedionda Messalina cuja boca fedorenta e infecta esconde uma língua cruel, que se confessa eternamente sedenta de sangue francês". 

A caminho da morte 

A 1 de agosto, Maria Antonieta foi transferida do Templo para a Conciergerie. Era a última escala para o cadafalso. A maior parte dos que lá estavam devam deixar qualquer esperança. Mas isso pouco importava àquele coração crucificado em todas as suas afeições mais caras, e para a qual a esperança não estava mais neste mundo! 

Uma expressão de Maria Antonieta revela com perfeição o seu estado de alma nesse momento. Foi à uma hora da manhã que a vieram despertar para levá-la para a Conciergerie. Docilmente vestira-se e seguia o guarda. Mas, ao sair do Templo, deu uma violenta cabeçada na porta demasiado baixa. Como cambaleava sob a rudeza da pancada, perguntaram-lhe: "Machucou-se?". 

 - Não - respondeu ela com infinita lassidão - Agora nada mais pode machucar-me! 

Na Conciergerie, viu-se na miséria absoluta. No Templo, tinham-lhe recusado um cobertor e um lençol que ela pedia. Aqui não teve nem mesmo roupa interior para mudar. Restavam-lhe ao todo, dois vestidos: um branco e um preto, ambos mofados pela umidade, caindo aos pedaços. Aqui também, no cubículo sombrio e exíguo, conservam-se dois guardas que fumam cachimbo, jogam cartas e têm conversas próprias do corpo da guarda. 

Ela está irreconhecível; os cabelos brancos, descarnada, macilenta, é apenas a sombra de si mesma. A sua magreza causa lástima a todos os que se aproximam dela. A sua desventura inspira ainda dedicação às vezes anônimas, que são, por isso mesmo, mais comoventes. Negociantes do mercado trazem ao porteiro da prisão "pêssegos e um melão para a sua boa rainha". Assim, o povo, de alma inconsciente e móvel, sem dúvida lamenta na desgraça do momento aquela a quem maldizia no tempo de sua felicidade. 

O “julgamento” 

O julgamento de Maria Antonieta já havia sido decidido muito tempo antes: durante o desfile comemorativo da abertura dos Estados Gerais, em 5 de maio de 1789, ao ver a rainha passar garbosamente, vociferou Mirabeau: “Voilà la victime!” (eis a vítima!). Chegada a hora de seu “julgamento” no tribunal revolucionário, ao saber da pretensão desses singulares magistrados de a julgarem, exclamara num belo impulso de desdém e desprezo: 

- Eles podem ser meus carrascos, mas nunca serão meus juízes. 

É preciso ter estado presente - diz Chaveau-Lagarde, seu advogado - para se ter uma idéia justa do belo caráter que a rainha demonstrou possuir. 

Deixara sem resposta, na primeira investida, a pergunta relativa à posição diante do filho. Haviam lhe feito uma cínica pergunta sobre sua suposta participação na corrupção moral do filho. Um jurado, seguramente inspirado por Hébert que estava presente, insistiu e perguntou por que a rainha não respondera. Então, soberba de indignação, ela teve um grito de revolta que fez toda a sala vibrar. 

"Se não respondi - exclamou - é que a natureza se recusa a responder semelhante inculpação feita a uma mãe: apelo para todas as que porventura se encontram aqui!" 

Esta apóstrofe direta, lançada com vibrante voz de emoção, que fustigou em pleno rosto o bando ignóbil de covardes acusadores, causou tal impressão no público (e, todavia, que público eram os freqüentadores das audiências do Tribunal Revolucionário!) que foi preciso suspender por um instante a sessão. Algumas mulheres desmaiaram e foram retiradas; ouviam-se gritos e aplausos; o presidente ameaçou evacuar a sala. 

Entretanto, tendo recobrado o sangue-frio, a rainha inclinava-se para Chaveau-Lagarde e lhe perguntava: 

- Acha que respondi com demasiada altivez? 

E como o advogado, surpreso, lhe assegurasse o contrário, admirando-se de semelhante pensamento: 

 - É que - explicou ela - ouvi uma mulher do povo dizer á vizinha "Repara como é arrogante!"  (7)

Essa observação da rainha - acrescenta Chaveau-Lagarde - prova que ela ainda "esperava" e mostra também a que ponto estava alerta e atenta aos menores incidentes. 

A sentença 

Os jurados tinham se retirado para deliberar. Logo depois voltaram à sala e deram a conhecer a sua resposta. Por unanimidade, a rainha era declarada culpada e condenada á morte. Ela ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. Desceu sozinha os degraus, atravessou a sala e voltou para a Conciergerie. Eram quatro horas e meia da madrugada. A audiência começara na véspera, às oito horas da manhã. 

Só restavam a Maria Antonieta algumas horas de vida. Ela começou elevando a alma ao céu e implorando a misericórdia divina. No seu livrinho de orações (que se encontra na biblioteca de Châlons-sur-Marne), escreveu estas simples linhas: 

“Aos 18 de outubro 

Meu Deus! Tende compaixão de mim! 

Os meus olhos não têm lágrimas para chorar por vós, meus pobres filhos!” 

A morte de Maria Antonieta 

Oito horas. Há que preparar-se para o sacrifício. Vestir a roupa com que vai morrer. O guarda decide assistir aos mais íntimos dos preparativos. Instala-se no próprio leito da rainha, quando ela troca sua camisola. "Em nome da honra, senhor, permiti que troque a roupa de baixo sem testemunha", protesta. O outro retruca cinicamente: "Eu não poderia consentir nisso; minhas ordens dizem que devo manter o olho sobre todos os vossos movimentos". 

Pela manhã bem cedo encontrara tempo para escrever estas palavras para sua cunhada, Madame Elisabeth: 

“Estou calma como se é quando a consciência nada acusa... Morro na religião católica, apostólica e romana, na de meus pais, na qual fui criada e a qual sempre professei... Peço sinceramente perdão a Deus de todas as faltas que posso ter cometido desde que existo. Espero que em sua bondade Ele quererá receber meus últimos desejos, assim como os que faço há muito tempo para que queira receber minha alma em sua misericórdia e sua bondade. Perdôo a todos meus inimigos o mal que me fizeram”. 

Para ir ao cadafalso, a rainha troca seu vestido de viúva por um vestido branco. Depois envolve-se em seu xale de musselina. Retira da touca de cambraia as fitas pretas, a fim de evitar insultos do populacho. Única marca negra: uma tira de pano no pulso. Vestida, pronta então para tudo, espera agora que venham buscá-la. Primeiro, apresenta-se a ela um padre constitucional, cujo ofício recusa. 

"Mas, senhora, replica o abade, que dirão quando souberem que recusaste o socorro da religião?" "Direis às pessoas que vos perguntarem que a Misericórdia de Deus já se encarregou disso". O indigno sacerdote ainda insiste que ela precisa se armar de coragem, confessando-se com ele. Ao que ela responde: “Coragem, ah! Senhor, há diversos anos dedico-me à aprendizagem dela, não será no momento em que meus males vão terminar que me verão sentir falta da mesma”. A misteriosa réplica explica-se pelo fato de, alguns dias antes, um padre não juramentado ter chegado a cruzar as portas da prisão para levar-lhe a Eucaristia. 

Dez horas. O porta-chaves Larivière vem retirar as vasilhas que se encontram sobre a mesa. Encontra a rainha ajoelhada, rezando. Faltavam 15 dias para que completasse 38 anos e já envelhecera bastante. Seguem-no o escrivão Fabricius e três juízes. Novamente lêem a sentença à condenada; é então que entra o carrasco Sanson. "Como vindes cedo, senhor! exclama. Não poderíeis atrasar?" 

"Não, senhora, tenho ordens de vir", e pede-lhe que estenda as mãos. Como protestasse, pois não amarraram as do marido, o executor agarra brutalmente seus punhos e os amarra às costas. Logo em seguida tira-lhe a touca e lhe corta os cabelos, que mete no bolso. Feita a "toalete", abre-se a porta da cela sobre duas alas de guardas. 

A carreta de Sanson está estacionada a alguns passos do portão da Conciergerie, ladeada por um destacamento armado. Nada de carruagem para a rainha. 

É o carretão comum da guilhotina que a conduzirá a seu suplício. São onze horas quando ela aparece, seguida de Sanson, que segura a corda que lhe liga as mãos. Ela não pode deixar de estremecer á visão do horrível veículo onde é convidada a instalar-se, no seu único banco. 

Começa a caminhada rumo ao suplício. Ao sair da Conciergerie, multidão compacta mas silenciosa segue com os olhos a condenada. A grande escadaria do Parlamento, as balaustradas, as janelas, os telhados, foi tudo invadido. Paris inteira levantou-se para assistir ao calvário, á execução. O poder mobilizou suas forças, disposto a fazer frente a qualquer eventualidade. Trinta mil homens armados em alerta. Canhões engatilhados nos cruzamentos, nas praças, nas cabeceiras das pontes. 

O cavalo branco avança passo a passo, abre com dificuldade seu caminho entre a multidão. Maria Antonieta, com quem se jurou "fazer beber longamente a morte", guarda uma postura majestosa, por mais decrépita que esteja em conseqüência das provações sofridas. 

À dignidade da condenada, responde a da multidão, que não manifesta, até a rua Saint-Honoré, nenhuma hostilidade para com ela. Mas, nos degraus da igreja Saint-Roch, a Comuna reunira um batalhão de lambedeiras de guilhotina decididas a romper o silêncio e a enlamear a condenada com os insultos mais grosseiros. Nada conseguiram a não ser fazer pequeno barulho... 

A rainha conserva sempre seu sangue-frio, o cortejo desemboca na praça da Revolução. De um lado, o castelo das Tulherias, símbolo de seu poder desmoronado, do outro a guilhotina, símbolo do poder revolucionário. 

Chegando ao destino, se bem que sofresse muito com os ferimentos causados nos pulsos pelas cordas, desce da carreta sem ajuda. Não abandona a nobre postura, o que lança os jornalistas presentes no mais negro furor. Morrerá da mesma maneira, sem gritos nem protestos. Esta atitude digna, própria de uma autêntica rainha, não poderia deixar de causar furor entre os revolucionários, que desejavam vê-la gritar pedir clemência, chorar, espernear, protestar ou até mesmo blasfemar, como eles mesmos o faziam ao sofrerem semelhante suplício. O historiador francês Jean Chalon comenta: “Sua impostação de cabeça, a majestade de seu porte, a elegância e a graça de sua pessoa, tudo nela respirava a grandeza de sua raça, a doçura e a nobreza de sua alma; ela atraía todos os corações”. 

Assim conclui outro escritor francês, Henri Robert: "Sozinha contra todos, inocente pelo seu sexo, sagrada pelo seu título de mãe, uma mulher, já então inofensiva, é imolada numa terra estrangeira por um povo que nada sabe perdoar à juventude, à beleza, à vertigem da adoração. Chamada por esse povo para ocupar um trono, esse povo não lhe dá sequer um túmulo. 

"E, efetivamente, no cemitério de Madeleine, para o qual foi transportado de mistura com outros cadáveres, o corpo decapitado de Maria Antonieta ficou de 16 de outubro até os primeiros dias de novembro esquecido sobre a relva" 

Mais uma vez vejamos o que diz o grande pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira, citado no início: 

"Terminou esta história? Se há uma história que não terminou foi esta. Porque a memória de Luís XVI, como a de Maria Antonieta, continuam vivas. São símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos... Quer por serem amados como merecem, quer por serem odiados como não merecem. Mas, de algum modo, simbolizam a luta entre o Bem e o Mal, a Revolução e a Contra-Revolução. Eles serão sempre lembrados, com profundo respeito e profunda dor, por todos aqueles que têm uma fagulha de Contra-Revolução na alma. E serão vistos com extremo ódio por todos aqueles que, portadores do espírito de Sata-nás, e odiando todas as desigualdades, odeiam a esse rei (e a essa rainha), cujo grande defeito, entretanto, foi o excesso de mansidão (isto se pode dizer também de Maria Antonieta)".


 (Obras consultadss:

 - Plínio Corrêa de Oliveira - in "Catolicismo", julho de 1989)

- Os Grandes Processos da História - de Henri Robert )

Fichu - termo francês, era um lenço triangular que cobria a cabeça e parte dos ombros das mulheres. 156


terça-feira, 13 de outubro de 2026

O QUE SERÁ DO BRASIL NO FUTURO?



De repente, a situação política no Brasil atingiu uma grande radicalidade ideológica. Nunca, em época de eleição, houve um tal confronto entre direita e esquerda. Isso porque, a mídia antes dava o tom político enaltecendo esquerda e centro. Era antipático ser de direita. Com o predomínio das redes sociais houve grande incremento da direita em todo o mundo e o centro perdeu sua importância.

O QUE DESEJA A PROVIDÊNCIA DIVINA COM O BRASIL?

O povo brasileiro torce em política como no futebol. Por sermos uma das nações mais reflexivas e dedutivas do mundo, o pensamento nosso é muito intuitivo e rápido. Todo mundo quer opinar sobre o assunto.

Vejamos o que a Divina Providência pode estar preparando para nosso próximo futuro. 

O que virá para nós nestes próximos anos? Imaginemos...

1. Por ser uma nação predestinada, onde provavelmente deve se iniciar o Reino de Maria (ou já se iniciou), deve ser também a mais provada;

2. Durante a bagarre (os castigos universais previstos em Fátima) o Brasil deve sofrer castigos que possam servir de exemplo para o mundo, isto é, fazendo surgir ou crescer aqui uma forte têmpera de um povo preparado para grandes lances históricos;

3. Assim, a temática esquerda-direita não tem tanta importância, a não ser momentaneamente, devendo permanecer na opinião pública uma pujante opinião católica capaz de influenciar o mundo;

4. Deste modo, espera-se que a aparente vitória da esquerda, continuando a assumir o poder no país, possa servir para provar o povo, que pode ficar decepcionado com seus líderes, mas se ficar fiel as suas tradições cristãs superará todo impasse;

5. O que pode ocorrer no momento: uma grande frustração e indignação da população a fará lutar contra as atuais situações de uma forma diferente, enfrentando problemas com garra e combatividade; essa provação será enviada pela Providência divina pelos seguintes motivos:

a) O povo vem cometendo grandes pecados coletivos, como o da sensualidade e do liberalismo, ou mesmo do relativismo, sendo merecedor de tais castigos para que possa  reparar tais pecados;

b) Na contingência de ser tolhida sua liberdade deverá purgar o pecado do liberalismo, e o sofrimento o fará engrandecer mais a alma;  de outro lado, as privações econômicas o fará pecar menos sensualmente, isto é, a miséria como castigo pode levar um povo a reparar pecados de sensualidade;

c) Mas, sendo provado e reparando seus pecados, deverá surgir uma plêiade de católicos que possa levar a população a construir uma nova sociedade, nascida sob os escombros da velha então falida e arruinada. 

d) Num outro panorama em que haja grande progresso social e econômico o povo afundaria mais ainda nos pecados; por isso, a Providência permitiu a vitória da esquerda que vai promover grande decadência econômica e sofrimentos sem conta. Isso pode durar pouco tempo, mas com intensidade suficiente para produzir os efeitos que a divina Providência deseja para nosso povo. De outro lado, outros castigos, como pragas e desastres naturais poderão produzir muitas mortes e despertar nas populações o temor de Deus, aproximando mais ainda as pessoas da Religião e de suas obrigações e necessidades espirituais. 

e) Por fim, o Reino de Maria virá após muita catequese, muito ensino dado às populações sobre a natureza de tais eventos e a necessidade de se arrepender de seus pecados, tanto individuais quanto sociais ou coletivos, reparando-os e mudando de vida. Os bons serão martirizados, como disse Nossa Senhora em Fátima, mas deixarão o legado de uma nova sociedade que servirá de modelo para o mundo. Como se viu, é a conjugação de vários fatores que poderá fazer este povo reconhecer seus pecados, pedir perdão e mudar de vida, e dentre estes fatores o domínio ignominioso da esquerda poderá produzir os frutos desejados pela Providência divina para educar as populações, assim como o povo hebreu viveu 4 séculos como escravos dos egípcios a fim de vencer seu orgulho e se privar de tantos pecados que cometiam, principalmente o da idolatria.

f) Há ainda uma questão: como a Providência pode permitir que membros do corpo místico do demônio obtenham o poder de governar um povo católico? Sim, pode permitir para a própria ruína deste corpo maldito, pois o Corpo Místico de Cristo continuará vivo e alimentado pelo poder e das graças divinas vencerá de qualquer  forma o corpo místico do demônio. Talvez isso até sirva para fazer crescer mais ainda o Corpo Místico de Cristo, pois o confronto atrairá muitas graças de Nossa Senhora para este povo. 

A QUESTÃO DIREITA-ESQUERDA PERANTE A VISÃO RCR

O Senhor Doutor Plínio Corrêa de Oliveira nos ensinou a ver o papel preponderante da Revolução universal nos últimos acontecimentos. Disse ele certa vez que a Revolução estava “morta”. Isso queria dizer que ela estava como uma cobra mortalmente ferida pela cabeça, embora ainda rastejando. E este rastejo pode ser visto nos seus últimos lances. Desesperada porque nunca conseguiu apoio popular às suas idéias, tramaram nova forma de ação. Essa nova modalidade dela pode ser sintetizada num livro escrito pelo americano Gene Sharp sob o título de “como fazer uma revolução pacífica”. Trata-se de um manual orientando como fazer a Revolução sem violência. Se alguém tiver o trabalho de confrontar o que diz aquele manual e como agem os “direitistas” de  hoje vai ver que há inteira consonância entre eles. Quer dizer: a Revolução resolveu queimar as etapas de avanço para tentar aplicar um retrocesso. Eles querem transparecer a idéia de que a Revolução seja “espontânea”, partida de grupos naturais sem qualquer influência de organizações políticas ou sociais. Primeiramente, este método é aplicado contra regimes políticos de esquerda, antipáticos à população e fácil de angariar opositores. Nota-se uma aparente teatralização destes governos de esquerda na América Latina, parecendo que agem de propósito com o fim de incrementar as ações “pacíficas” da direita. Muitos estranham suas atitudes pois só fazem lhes dar mais impopularidade e crescimento da indignação popular. O trabalho do STF no Brasil visa então estimular o crescimento popular da direita, despertando enorme reação popular contra o golpe que deram.  E no final, o que viria se a direita vencesse? Dizem que uma era de prosperidade. Mas, não é bem assim. Nos países onde venceu essa “revolução pacífica”, o que houve depois da queda do governo de esquerda foi o caos. O  caso característico foi a Colômbia (antes do atual governo) teve um governo muito “direitista” que deu anistia às FARCs e contribuiu para eles tomarem o poder. Hoje, a direita voltou ao poder por lá. Essa nova direita só leva em conta velhos chavões revolucionários “como o poder emana do povo” e ‘liberdade de expressão”. No Egito também usaram essa tática de “revolução pacífica”, derrubaram o governo, mas nada de bom surgiu depois, só o caos político e social. Observem que os elementos que falam na internet usam muitos palavrões e dão sinais de serem realmente filhos das trevas. A própria maçonaria já andou tomando ares de direitista e se pronunciando contra a esquerda. Não pode ser boa coisa.  Por causa disso, entende-se a razão de tanto Monsenhor João Clá quanto seus sacerdotes nada falarem sobre o assunto. A missão dos Arautos do Evangelho é evangelizar e nisso vão preparando as populações para construir uma nova civilização. Os acontecimentos políticos passam, mas as instituições e as construções nascidas como fruto destas evangelizações vão ficar para sempre, além da boa formação moral e religiosa do povo.

Os principais líderes políticos da direita são protestantes, inclusive um membro do STF. No entanto, o maior líder direitista que se diz católico (Bolsonaro) foi afastado da política e está inelegível. Parece haver uma trama pra enaltecer essa gente, na falta de um movimento político católico de direita: "católico" mesmo só o pessoal da TL, mas, mesmo assim, ainda sem agremiação ou partido que se diga católico. Talvez obtenham maior crescimento das seitas protestantes, minando mais ainda a já decrescente influência do Catolicismo no país.

No momento, observa-se um impasse criado para a esquerda, pois, qualquer que seja o resultado ela sairá derrotada. Vencendo não terá como aplicar seus programas, haja vista que a maioria no Parlamento é de direita. E nem se fala no assunto caso seja derrotada, com desastrosas consequências para seus líderes e seus programas sociais, todos antipáticos para a população.

Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, nossa Rainha e Padroeira, que guie os passos de nosso povo para  construir um venturoso porvir fazendo surgir aqui os alicerces do Reino de Maria e propagá-lo a todos os povos da terra.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

HOMILIA DE SÃO JOÃO DAMASCENO SOBRE A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA

 


Do humilde monge e presbítero João Damasceno, discurso para o nascimento de Nossa Senhora Santíssima, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.

1. Vinde, todas as nações, vinde, homens de todas as raças, línguas e idades, de todas as condições: com alegria celebremos a natividade da alegria do mundo inteiro! Se os gregos destacavam com todo o tipo de honras – com os dons que cada um podia oferecer – o aniversário das divindades, impostos aos espíritos por mitos mentirosos que obscureciam a verdade, e também o dos reis, mesmo se eles fossem o flagelo de toda a existência, que deveríamos nós fazer para honrar o aniversário da Mãe de Deus, por quem toda a raça mortal foi transformada, por quem o castigo de Eva, nossa primeira mãe, foi mudada em alegria? Com efeito, uma ouviu a sentença divina: «Darás à luz no meio de penas»; a outra ouviu, por seu turno: «Alegra-te, oh Cheia de Graça». À primeira disse-se: «Inclinar-te-ás para o teu marido», mas à segunda: «O Senhor está contigo». Que homenagem ofereceremos então nós à Mãe do Verbo, senão outra palavra? Que a criação inteira se alegre e festeje, e cante a natividade de uma santa mulher, porque ela gerou para o mundo um tesouro imperecível de bondade, e porque por ela o Criador mudou toda a natureza num estado melhor, pela mediação da humanidade. Porque se o homem, que ocupa o meio entre o espírito e a matéria, é o laço de toda a criação, visível e invisível, o Verbo criador de Deus, ao se unir à natureza humana, uniu-se através dela a toda a criação. Festejemos assim o desaparecimento da humana esterilidade, pois cessou para nós a enfermidade que nos impedia a posse dos bens.

2. Mas porque nasceu a Virgem Maria de uma mulher estéril? Àquele que é o único verdadeiramente novo debaixo do sol, como coroamento das Suas maravilhas, deviam ser preparados os caminhos por maravilhas, para que lentamente as realidades mais baixas se elevassem de modo a serem as mais altas. E eis uma outra razão, mais alta e mais divina: a natureza cedeu o lugar à graça, pois ao vê-la tremeu, e não quis mais ter o primeiro lugar. Como a Virgem Mãe de Deus devia nascer de Ana, a natureza não ousou prevenir o fruto da graça, mas permaneceu ela própria sem fruto, até que a graça trouxesse o seu. Era necessário que fosse primogênita aquela que deveria gerar «o Primogênito de toda a criação, no Qual tudo subsiste». Oh Joaquim e Ana, casal venturoso! Toda a criação está em dívida para convosco, porque através de vós ela pôde oferecer ao Criador o dom – entre todos o mais excelso – de uma Mãe venerável, a única digna d’Aquele que a criou. Ditosos os rins de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, graças ao qual se desenvolveu lentamente, onde se formou e de onde nasceu uma tão santa criança! Oh entranhas que levastes um céu vivo, mais vasto que a imensidade dos céus! Oh moinho onde foi amassado o Pão vivificante, segundo as próprias palavras de Cristo: «Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só». Oh seio que aleitaste aquela que alimentou o Aquele que alimenta o mundo! Maravilha das maravilhas, paradoxo dos paradoxos! Sim, a inexprimível Encarnação de Deus, cheia de condescendência, devia ser precedida por estas maravilhas. Mas como prosseguirei? O meu espírito está fora de si, dividido que estou entre o temor e o amor; o meu coração bate e a minha língua move-se: não posso suportar a alegria, as maravilhas deitam-me por terra, o ardor apaixonado aprisionou-me num arrebatamento divino. Que o amor vença, que o temor desapareça e que cante a cítara do Espírito: «Alegrem-se os céus, exulte a terra»!

3. Hoje as portas da esterilidade abrem-se, e uma porta virginal e divina avança: a partir dela, por ela, o Deus que está acima de todos os seres deve «vir ao mundo» «corporalmente», segundo a expressão de Paulo, ouvinte dos segredos inefáveis. Hoje, da raiz de Jessé saiu uma vergôntea, de onde surgirá para o mundo uma flor substancialmente unida à divindade.

Hoje, a partir da natureza terrena, um céu foi formado sobre a terra por Aquele que outrora o tornara sólido separando-o das águas, elevando o firmamento nas alturas. É um céu verdadeiramente mais divino e mais elevado que o primeiro, porque Aquele que no primeiro céu criara o sol Se elevou a Si próprio neste novo como um sol de justiça. Sim, há n’Ele duas Naturezas, apesar da loucura dos Acéfalos, e uma só Pessoa, mesmo que os Nestorianos se encolerizem! A Luz eterna, proveniente da Luz eterna antes de todos os séculos, o Ser, imaterial e incorpóreo, tomou um corpo desta mulher, e como um esposo que sai para fora de seu tálamo, assim fez Deus, tornando-se como tal filho da raça terrena. Como um gigante Ele alegra-Se de percorrer os caminhos da nossa natureza, de Se encaminhar, pelos Seus sofrimentos, para a morte, de atar o homem forte e lhe arrancar os seus bens, isto é, a nossa natureza, e de reunir na terra celeste a ovelha errante.

Hoje, o «Filho do Carpinteiro», O Verbo universalmente ativo d’Aquele que tudo construiu por Ele, o Braço Poderoso do Deus Altíssimo, querendo afiar pelo Espírito – que é como o seu dedo – a lâmina embotada da natureza, construiu para Si uma escada viva, cuja base está firmada na terra, com o cimo a tocar os céus: Deus repousa sobre ela. É dela a figura que Jacob contemplou, e por ela Deus desceu da Sua imobilidade, ou melhor, inclinou-Se com condescendência, tornando-Se assim «visível sobre a terra, e conversando com os homens». Estes símbolos representam a Sua vinda ao meio de nós, o seu abaixamento condescendente, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento d’Ele próprio, dado a todos aqueles que estão sobre a terra. A escada espiritual, a Virgem, está fixa na terra, pois na terra ela tem a sua origem, mas a sua cabeça eleva-se até ao céu. A cabeça de toda a mulher é o homem, mas para ela, que não conheceu homem, Deus Pai ocupa o lugar de sua cabeça: pelo Espírito Santo, Ele concluiu uma aliança e, como semente divina e espiritual, enviou o Seu Filho e Verbo, força onipotente. Em virtude do beneplácito do Pai, não é por uma união natural, mas é superando as leis da natureza, pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós. É por aqui que se vê que a união de Deus com os homens se cumpre pelo Espírito Santo.

«Quem puder entender, que entenda»; «Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça». Descartemos as representações corporais: a divindade jamais sofreu mudança, oh homens! Aquele que sem alteração gerou Seu Filho a primeira vez segundo a natureza, sem alteração O gera agora de novo segundo a economia. Disto é testemunha a palavra de David, antepassado de Deus: «O Senhor disse-me: “Tu és Meu Filho, Eu hoje te gerei”». Ora este «hoje» não tem cabimento na geração antes de todos os séculos, pois esta deu-se fora do tempo.

4. Hoje é edificada a Porta do Oriente, que dará a Cristo «entrada e saída», e «essa porta estará fechada». Nela está Cristo, «a Porta das Ovelhas», e «o Seu nome é Oriente»: por Ele obtivemos acesso ao Pai das Luzes. Hoje sopraram as brisas anunciadoras duma alegria universal. Alegre-se o céu nas alturas, que debaixo dele «exulte a terra», que os mares do mundo bramam, porque no mundo acaba de ser concebida uma concha, a qual pelo clarão celeste da divindade conceberá em seu seio, gerando a pérola inestimável, Cristo. Dela sairá o «Rei da Glória», revestido da púrpura de sua carne, para «visitar os cativos», e «proclamar a libertação». Que a natureza transborde de alegria: a cordeirinha vem ao mundo, graças à qual o Pastor revestirá a ovelha, tirando-lhe as túnicas da antiga mortalidade. Que a virgindade forme os seus coros de dança, pois nasceu a Virgem que, segundo Isaías, «conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emmanuel, o que quer dizer “Deus conosco”». Aprendei, oh Nestorianos, e fugi à vossa derrota: «Deus conosco»! Não é nem só um homem, nem um mensageiro, mas o Senhor em Pessoa que virá e nos salvará.

«Bendito o que vem em nome do Senhor», «o Senhor é Deus, e iluminou-nos»; «Celebremos uma festa» para o nascimento da Mãe de Deus. Rejubila, Ana, «estéril que não davas à luz; ri de alegria e de júbilo, tu que não tiveste as dores de parto»! Rejubila, Joaquim: de tua filha «um menino nos nasceu, um filho nos foi dado (…) e ser-lhe-á dado este nome: Anjo do grande Conselho (quer dizer, Salvação do Universo) Deus Forte». Que Nestório fique vermelho e meta a mão sobre a boca.[1] A criança é Deus; portanto, como não seria ela a Mãe de Deus, ela que O colocou no mundo? «Se alguém não reconhece por Mãe de Deus a Santa Virgem, está separado da divindade». A frase não é minha, mas no entanto pertence-me: recebi-a como precioso tesouro e herança teológica do meu pai Gregório, o Teólogo.

5. Oh Joaquim e Ana, casal bem-aventurado e verdadeiramente sem mancha! Pelo fruto do vosso seio fostes reconhecidos, segundo a palavra do Senhor: «Pelos seus frutos os reconhecereis». A vossa conduta foi agradável a Deus e digna daquela que nasceu de vós. Tendo levado uma vida casta e santa, engendrastes a jóia da virgindade, aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo. Convinha, de fato, que a virgindade saída da castidade produzisse a Luz única e monógena, corporalmente, pela benevolência d’Aquele que A gerou sem corpo – o Ser que não gera, mas que é eternamente gerado, para Quem ser gerado é a única qualidade própria da Sua Pessoa. Oh que maravilhas, e que alianças estão neste menino! Oh Filha da esterilidade, virgindade que engravida, nela se unirão divindade e humanidade, sofrimento e impassibilidade, vida e morte, para que em todas as coisas o menos perfeito seja vencido pelo melhor! E tudo isto para minha salvação, oh Mestre! Amas-me tanto que não realizaste esta salvação nem pelos anjos, nem por nenhuma outra criatura, mas tal como já a minha criação, também a minha regeneração foi Tua obra pessoal. Assim, eu exulto, faço despertar a minha alegria e o meu júbilo, volto à fonte das maravilhas, e embriagado de uma torrente de alegria, toco de novo a cítara do espírito e canto o hino divino da natividade.

6. Oh Joaquim e Ana, casal castíssimo, «par de rolas» no sentido místico! Observando a lei da natureza, a castidade, merecestes os dons que ultrapassam a natureza: gerastes no mundo uma Mãe de Deus sem esposo. Depois de uma existência santa e piedosa numa natureza humana, gerastes uma filha superior aos anjos e que agora reina sobre eles. Oh Filha graciosíssima e dulcíssima, oh lírio nascido entre os espinhos, da descendência nobilíssima e real de David! Por ti a realeza encheu-se com o sacerdócio; por ti foi cumprida «a mudança da Lei», e revelado o espírito escondido sob a letra, pois que a dignidade sacerdotal passou da tribo de Levi à de David. Oh Rosa nascida dos espinhos do judaísmo, que enche o universo de um perfume divino! Oh filha de Adão e Mãe de Deus! Ditosos os rins e o seio de onde surgistes! Ditosos os braços que te levaram, os lábios que experimentaram os teus castos beijos, os lábios de teus pais, para que em tudo tu fosses eternamente virgem. Hoje é para o mundo o início da salvação. «Aclamai o Senhor, terra inteira, cantai, exultai, tocai instrumentos». Elevai a vossa voz, «fazei-a escutar sem temor», porque na Santa Probática nos nasceu uma Mãe de Deus, de quem quis nascer o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Tremei de alegria, oh montanhas, naturezas racionais, voltadas para o cume da contemplação espiritual: a montanha do Senhor, refulgente, vem ao mundo, ultrapassando todas as montanhas e todas as colinas, isto é, os anjos e os homens; dela, sem intervenção da mão do homem, Cristo quis desprender-Se, Ele que é a Pedra Angular, Pessoa Una, que aproxima em Si aquilo que está distante: a divindade e a humanidade, os anjos e os homens, os gentios e o Israel carnal num só Israel espiritual. «Montanha de Deus, montanha de abundância, montanha que Deus escolheu para Seu repouso. Os carros de Deus vêm aos milhares, com seres refulgentes» da graça divina, querubins e serafins. Oh cume mais santo que o Sinai, não coberto nem por fumo, nem por trevas, nem por tempestades, nem sequer por fogo perecível, mas pelo esplendor que ilumina do Santíssimo Espírito. No Sinai, o Verbo de Deus tinha gravado a Lei sobre tábuas de pedra, pelo Espírito, dedo divino; aqui, pela ação do Espírito Santo e pelo sangue de Maria, o próprio Verbo encarnou, dando-se á nossa natureza como um remédio de salvação mais eficaz. Antes, era o maná; aqui, está Aquele que deu o maná e a sua doçura.

Que a morada célebre que Moisés construiu no deserto com matérias preciosas de todo o tipo, e ainda antes dela a morada do nosso pai Abraão, se apaguem diante da morada de Deus, viva e espiritual. Ela foi o repouso, não só da energia divina, mas da Pessoa do Filho, que é Deus, presente substancialmente. Que a arca recoberta de ouro reconheça que não tem nada de comparável com Maria, e da mesma forma a urna de ouro com o maná, o candelabro, a mesa e todos os objetos do culto antigo: eles foram honrados porque todos a prefiguravam, como sombras do verdadeiro protótipo.

7. Hoje, o Criador de todas as coisas, Deus Verbo, fez um livro novo, saído do coração do Pai para ser escrito, como se fosse por uma cana, pelo Espírito, que é a língua de Deus. Esse livro foi dado a um homem que conhecia as letras, mas que não o lia. José, com efeito, não conheceu Maria, nem a significação do mistério em si. Oh filha toda santa de Joaquim e de Ana, que escapaste aos olhares dos Principados e das Potestades e aos «assédios inflamados do maligno», e que viveste no tálamo do Espírito, para seres guardada intacta e te tornares esposa de Deus e Mãe de Deus por natureza! Oh filha toda santa, que apareceste nos braços de tua mãe, tu és o terror das potências de rebelião! Oh filha toda santa, alimentada do leite maternal, e rodeada das legiões angélicas! Oh filha amada de Deus, honra de teus pais, gerações de gerações te proclamam bem aventurada, como tu própria o afirmaste com verdade! Oh filha digna de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe! Por teu nascimento, aquela que tombara foi redimida. Oh filha toda santa, esplendor do sexo feminino! Se a primeira Eva, com efeito, foi culpada de transgressão, e se por sua causa «a morte fez a sua entrada no mundo» (porque ela se colocou ao serviço da serpente contra o nosso primeiro pai), Maria, que se fez a serva da vontade divina, enganou a serpente enganadora e introduziu no mundo a imortalidade.

Oh filha sempre Virgem, que pode conceber sem intervenção humana, porque Aquele que concebeste tem um Pai Eterno! Oh filha da raça terrena, que levas em teus braços divinamente maternais o Criador! Os séculos rivalizavam entre si para saber qual deles se honraria de te ver nascer, mas o desígnio fixado antecipadamente de Deus, «que fez os séculos» colocou fim a essa rivalidade, e os últimos tornaram-se os primeiros, eles a quem foi atribuída a felicidade da tua Natividade. Na verdade, tu és mais preciosa que toda a criação, pois só de ti o Criador recebeu em partilha as primícias da nossa matéria humana. A Sua Carne foi feita da tua carne, o Seu Sangue do teu sangue; Deus alimentou-Se do teu leite, e os teus lábios tocaram os lábios de Deus. Oh maravilhas incompreensíveis e inefáveis! Na presciência da tua dignidade, amou-te o Deus do universo; porque te amou, predestinou-te, e nos «últimos tempos», chamou-te à existência, e constituiu-te Mãe para gerar um Deus e alimentar o Seu próprio Filho e Verbo.

8. Diz-se que os contrários servem de remédio contra os contrários, mas os contrários não nascem uns dos outros. Mesmo se cada ser é na sua natureza um tecido de contrários, ele próprio provém da predominância da causa que o fez nascer. De fato, da mesma forma que o pecado, ao operar para mim a morte por meio do bem, mostra em extremo a sua natureza pecaminosa, da mesma forma o Autor dos bens, pelo meio dos contrários desses bens, opera para nós o bem que Lhe é natural, porque «onde abundou o pecado, superabundou a graça». Se tivéssemos conservado a nossa primeira comunidade com Deus, não teríamos merecido a Segunda, maior e mais extraordinária. De fato, pelo pecado, fomos julgados indignos da primeira união, porque não conservamos o dom recebido. Mas pela compaixão de Deus fomos perdoados e tomados sob a Sua guarda, para que a comunhão fosse assegurada, porque nos quer conservar unidos a Ele, sem nenhuma beliscadura, Aquele que nos recebeu sob a Sua proteção.

Sim, toda a terra pejava de fornicações, e o povo do Senhor, possuído «pelo espírito de fornicação», errava longe do Senhor seu Deus, longe d’Aquele que o tinha adquirido «com mão forte e braço poderoso», que com sinais e prodígios o tinha feito sair da «casa da escravidão» do Faraó, o tinha conduzido através do Mar Vermelho e guiado «por uma nuvem de dia, e noite inteira por um luzeiro de fogo». O seu coração voltava-se para o Egito, e o povo do Senhor tornou-se «aquele que não é o povo do Senhor»; aquele que obtinha misericórdia, tornou-se aquele que não a merecia, e aquele que era amado, tornou-se aquele que não era amado.

Eis então a razão pela qual uma Virgem vem agora ao mundo, como adversária da ancestral fornicação; ela foi dada como esposa ao próprio Deus, e gerou a misericórdia de Deus. Assim foi estabelecido como povo de Deus aquele que até aí não era o Seu povo; excluído da Sua misericórdia, obteve misericórdia; não amado, é agora amado. Dela nasce o Filho Bem-Amado de Deus, no Qual Ele colocou as Suas complacências.

9. «Uma vinha de belos sarmentos» foi gerada no seio de Ana, e ela produziu um fruto cheio de doçura, fonte de um néctar abundante de vida eterna para os habitantes da terra. Joaquim e Ana fizeram-se semeadores de justiça, e recolheram um fruto de vida. Eles foram iluminados pela luz do conhecimento, procuraram o Senhor, e daí lhes veio um fruto de justiça. Que a terra tenha confiança! «Filhos de Sião, alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque o deserto ficou verdejante»: aquela que era estéril deu o seu fruto; Joaquim e Ana, como montanhas místicas, fizeram brotar vinho doce. Permanece na alegria, oh Ana venturosa, por teres dado à luz uma mulher, porque essa mulher será a Mãe de Deus, porta da luz, fonte de vida, e reduzirá nada a acusação que pesava sobre a mulher.

Os homens nobres do povo desejarão vê-la, e diante dessa mulher os reis das nações prostrar-se-ão, oferecendo-lhe presentes. Entregá-la-ás a Deus, rei universal, adornada da beleza das suas virtudes como de «brocados de ouro», ornada da graça do Espírito, de cuja glória ela se reveste. A glória da mulher é o homem, e é-lhe dada a partir de fora; mas a glória da Mãe de Deus é interior, e é fruto do seu seio.

Oh mulher amabilíssima, três vezes bem-aventurada! «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre»! Oh mulher, filha do Rei David e Mãe de Deus, Rei do Universo! Oh divina e vivente obra-prima, na qual Deus Criador Se alegrou, de quem o espírito é governado por Deus e atento somente a Ele, e de quem todo o desejo se eleva apenas Àquele que é o único amável e desejável, que não te encolerizas senão contra o pecado e contra aquele que o fez nascer! Terás uma vida superior à natureza, porque não é para ti que a terás, já que também não é para ti que tu nasceste. Terás antes a tua vida para Deus, e é por causa d’Ele que vieste à vida, por causa de Quem servirás à salvação universal, para que o antigo desígnio de Deus, a Encarnação do Verbo e a nossa divinização, se cumpra através de ti. A tua vontade é alimentares-te das palavras divinas e fortificares-te com a sua seiva, como «oliveira fecunda na casa de Deus», como «árvore plantada à beira das águas» do Espírito, como árvore da vida, que deu o seu fruto no tempo que lhe foi destinado: o fruto que é o Deus Encarnado, Vida eterna de todos os seres. Guardas todos os pensamento gostoso e útil para a alma, mas todo aquele que é supérfluo e que seria um perigo para a alma tu o rejeitas ainda antes de o provar. Os teus olhos «estão sempre voltados para o Senhor», olhando a luz eterna e inacessível. Teus ouvidos escutam a palavra de Deus e deleitam-se com a cítara do Espírito; foi por eles que o Verbo entrou para Se fazer Carne. Tuas narinas respiram deliciadas o aroma dos perfumes do Esposo, que é Ele próprio um perfume, espontaneamente derramado para perfumar a Sua humanidade: «O teu nome é um perfume que se espalha», diz a Escritura. Os teus lábios louvam o Senhor, e estão ligados aos Seus lábios. A tua língua e o teu palato discernem as palavras de Deus e saciam-se com a suavidade divina. Oh coração puro e sem mácula, que vê e deseja o Deus imaculado!

É neste seio que o Ser ilimitado veio habitar; do seu leite se alimentou Deus, o Menino Jesus. Oh porta de Deus, sempre virginal! Eis as mãos que suportam Deus, e esses joelhos que são um trono mais elevado que os querubins: por eles «as mãos fracas e os joelhos trêmulos» foram fortalecidos. Os seus pés são guiados pela lei de Deus como por uma lâmpada que brilha, e correm após Ele sem se voltarem, até que tenham feito chegar aquela que ama junto do Bem-Amado. Em todo o seu ser ela é o tálamo do Espírito, a Cidade de Deus Vivo, que «alegra os canais do rio», isto é, as correntes dos carismas do Espírito: «Toda bela, toda próxima de Deus». Dominando os querubins, mais alta que os serafins, próxima de Deus: é a ela que esta palavra se aplica!

10. Oh maravilha que ultrapassa todas as maravilhas: uma mulher é colocada mais alto que os serafins, porque Deus surgiu abaixado «um pouco inferior aos anjos»! Que o sapientíssimo Salomão se cale, e não torne a dizer: «Nada de novo debaixo do sol». Oh Virgem cheia da graça divina, templo santo de Deus, que o Salomão espiritual, o Príncipe da Paz, construiu e habita, o ouro e as pedrarias não te dão mais beleza, mas mais que o ouro, é o Espírito que te dá o teu esplendor. Por pedrarias, tens a pérola preciosíssima, Cristo, a Brasa da divindade. Suplica-Lhe que toque os nossos lábios, para que, purificados, Lhe cantemos, com o Pai e o Espírito, a natureza única da Divindade em três Pessoas: «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos».

Santo é o Pai, que quis que em ti e por ti se cumprisse o mistério que predeterminara antes de todos os séculos. Santo é o Forte, o Filho de Deus, e Deus Monógeno, que hoje te faz nascer, primogênita de uma mãe estéril, para que, sendo Ele próprio Filho Único do Pai e «Primogênito de toda a criatura», possa nascer de ti, como Filho único de uma Virgem-Mãe, «Primogênito de uma multidão de irmãos», semelhante a nós e por ti participante da nossa carne e do nosso sangue. Apesar disso, não te fez nascer de um só pai ou de uma só mãe, para que ao único Monógeno fosse reservado em perfeição o privilégio de Filho Único: Ele é, com efeito, Filho Único, somente Ele de um Pai só, somente Ele de uma Mãe só.

Santo é o Imortal, o Espírito de toda a santidade, que pelo orvalho da Sua Divindade te guardou intocada pelo fogo divino: é isto que significou antecipadamente a sarça ardente.

11. Eu te saúdo, oh Porta das Ovelhas, morada santíssima da Mãe de Deus. Eu te saúdo, oh Porta da Ovelhas, domicílio ancestral da tua rainha, antigamente redil das ovelhas de Joaquim, mas hoje tornada Igreja do rebanho espiritual de Cristo e imitação do céu. Outrora recebias uma vez por ano um anjo de Deus, que agitava as águas e devolvia a saúde a um só homem, livrando-o do mal que o paralisava; agora recebes multidões de potências celestes que celebram conosco a Mãe de Deus, Abismo de Maravilhas, fonte da cura universal. Tu recebeste, não um anjo servidor, mas o «Anjo do Grande Conselho», descido sem ruído algum sobre o velo de lã como uma chuva de bondade, Aquele que renovou toda a natureza, doente e a ponto de se perder, com uma saúde inalterável e uma vida sem velhice: por Ele, o paralítico que em ti jazia saltou como um veado. Eu te saúdo, oh preciosa Porta das Ovelhas, e que se multiplique a tua graça!

Eu te saúdo, Maria, filha dulcíssima de Ana. De novo para ti o amor me impele. Como descrever o teu caminhar cheio de seriedade, os teus vestidos, a graça de teu rosto, a maturidade do discernimento num corpo juvenil? A tua forma de estar foi modesta, distante de todo o luxo e de toda a indolência; o teu caminhar era grave, sem precipitação, sem preguiça; o teu caráter era sério, temperado de júbilo, de uma perfeita reserva a propósito dos homens – disto é testemunho a inquietação que te surgiu quando da proposta inesperada do anjo. A teus pais dócil e obediente, tinhas humildes sentimentos nas mais altas contemplações, palavra amável, provinda de uma alma pacífica. Em resumo: que outra digna morada senão tu para Deus? Com razão todas as gerações te proclamam bem-aventurada, oh glória insigne da humanidade! Tu és a honra do sacerdócio, a esperança dos cristãos, a planta fecunda da virgindade, porque é através de ti que o renome da virgindade se estendeu aos confins do mundo. «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o Fruto do teu ventre». Aqueles que confessam a tua maternidade divina são benditos, e malditos aqueles que a negam.

12. Joaquim e Ana, casal abençoado, recebei de mim estas palavras de aniversário. Oh filha de Joaquim e de Ana, oh Soberana, acolhe a palavra deste teu servo pecador, mas inflamada pelo amor, e para quem tu és a única esperança de alegria, a protetora da vida e, junto de teu Filho, a reconciliadora e firme garantia da salvação. Possa tu aliviar-me do fardo dos meus pecados, dissipar a névoa que obscurece o meu espírito e o peso que me agarra à matéria. Possas tu deter as tentações, governar felizmente a minha vida e conduzir-me pela mão até à felicidade do Alto. Concede ao mundo a paz, e a todos os habitantes ortodoxos desta cidade uma alegria perfeita e a salvação eterna, pelas orações de teus pais e de todo o Corpo da Igreja. Assim seja, assim seja! «Salve, oh cheia de graça, o Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre», Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Ele a Glória, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

(São João Damasceno (c. 675-749), monge, teólogo, Doutor da Igreja Homilia Sobre a Natividade de Maria
Tradução: Seminário de Sintra (Portugal)
Fonte: 
Evangelho Cotidiano 

https://byblos.ecclesia.org.br/homilia-sobre-a-natividade-de-maria-2/

 

Observação: Na Legenda Áurea consta que São João Damasceno interpretara o fato de Nossa Senhora ter nascido de uma mãe estéril como um sinal profético das bênçãos de Deus sobre Ela. Em sua homilia sobre a Natividade de Maria, o santo afirma: “Hoje é o começo da salvação do mundo, porque na Santa Probática foi-nos gerada a Mãe de Deus, através de quem o Cordeiro, que tira o pecado do mundo, nos foi gerado.”

No entanto, após perder a esterilidade não nasceu outro filho de Santa Ana com São Joaquim, pois o mesmo faleceu pouco depois. Santa Ana realizou mais dois casamentos; após ficar viúva do segundo a partir de então teve outras filhas: Maria (a segunda com o mesmo nome), filha de seu casamento com Cleofas, e, falecido este, casou-se novamente e teve outra filha a que deu o mesmo nome. São Tiago Maior e São João Evangelista eram filhos desta terceira filha de Santa Ana.



[1] Nestório foi um monge, oriundo da Anatólia, que se tornou arcebispo de Constantinopla entre 10 de abril de 428 e 22 de junho de 431. Negava que Nossa Senhora fosse chamada de  Teótoco ("Mãe de Deus”) Acusado de heresia, procurou se defender no I Concílio de Éfeso (431), mas só conseguiu ser formalmente condenado como herege e derrubado de sua  sé episcopal. O nestorianismo se tornou então a posição oficial da chamada igreja assíria do oriente, que reconhecia apenas os dois primeiros concílios (Nicéia e Constantinopla) . São João Damasceno, como se viu, combatia o nestorianismo ainda em seu tempo, e de uma forma muito contundente.

 

A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA NA "LEGENDA ÁUREA"

 

1. A gloriosa Virgem Maria nasceu da estirpe régia de Davi na tribo de Judá. Mateus e Lucas não descrevem a genealogia de Maria, e sim de José, que nada teve com a concepção de Cristo, devido ao costume da Escritura de mostrar o encadeamento das gerações não a partir das mulheres, mas dos homens. É verdade, contudo, que a beata Virgem descende de Davi, o que fica patente na Escritura quando atesta muitas vezes que Cristo originou-se da semente de Davi. Logo, como Cristo nasceu apenas da Virgem, é claro que a própria Virgem nasceu de Davi, do ramo de Natã.

Davi teve, entre outros, dois filhos, Natã e Salomão. Como certifica João Damasceno, Levi – do ramo de Natã, filho de Davi – gerou Melque e Pantar. Pantar gerou Barpantar e Barpantar gerou Joaquim e Joaquim a Virgem Maria. Do ramo de Salomão, uma filha foi esposa de Natã com o qual gerou Jacó. Falecido Natã, um membro de sua tribo, Melque, filho de Levi, irmão de Pantar, casou com a viúva de Natã, mãe de Jacó, e dela gerou Eli. Assim, Jacó e Eli são irmãos uterinos, mas Jacó sendo da tribo de Salomão e Eli da de Natã. Falecido Eli, da tribo de Natã, sem filhos e filhas, Jacó seu irmão, que era da tribo de Salomão, tomou sua mulher e ressuscitou a semente de seu irmão, gerando José. Portanto, José é segundo a natureza filho de Jacó, descendente de Salomão, e segundo a lei filho de Eli, descendente de Natã. De fato, o filho nascido dessa forma era daquele que o gerava segundo a natureza e do defunto segundo a lei. Até aqui, falou o Damasceno.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Joaquim tomou uma mulher de nome Ana, que tinha uma irmã chamada Isméria. Esta Isméria gerou Isabel e Eliúde, e Isabel gerou João Batista. De Eliúde nasceu Eminem, de Eminem nasceu São Servácio, cujo corpo está em Maastrich, fortaleza à margem do Mosa, no episcopado de Liège. Conta-se que Ana teve três maridos, a saber: Joaquim, Cleofas e Salomé. Do primeiro destes maridos, quer dizer, Joaquim, teve uma filha, Maria, mãe e progenitora do Senhor, que deu em casamento a José e que gerou e pariu o Senhor Cristo. Falecido Joaquim, Ana aceitou Cleofas, irmão de José, e dele gerou outra filha, chamada pelo mesmo nome de Maria e que uniu em casamento a Alfeu. Esta Maria gerou de seu marido Alfeu quatro filhos, a saber: Tiago, o Menor; José, o Justo, conhecido por Barsabás, Simão e Judas. Falecido seu segundo marido, Ana aceitou um terceiro, Salomé, do qual gerou outra filha, chamada mais uma vez de Maria e deu-a em casamento a Zebedeu. Esta Maria gerou dois filhos de seu marido Zebedeu, a saber: Tiago, o Maior e João Evangelista. Daí os versos a este respeito:

“Tem-se o costume de dizer que Ana concebeu três Marias,

Geradas de seus maridos Joaquim, Cleofas e Salomé

Elas foram entregues a José, Alfeu e Zebedeu, seus maridos

A primeira pariu Cristo, a segunda Tiago, o Menor,

José, o Justo, Simão e Judas.

A terceira, Tiago, o Maior, e o alado João”.

Mas o admirável, como dito acima, é como a Bem-Aventurada Maria pôde ser prima de Isabel. Sabe-se que Isabel foi mulher de Zacarias, da tribo de Levi, pois segundo a lei todos deveriam ter esposa de sua tribo e família, e foi atestado por Lucas que Isabel estava entre as filhas de Aarão. Ana, segundo Jerônimo, era de Belém e da tribo de Judá. Mas sabe-se que Aarão e seu irmão, o sumo sacerdote Joiada, tomaram ambos esposas da tribo de Judá, de forma que a tribo real e a tribo sacerdotal passaram a estar ligadas pelo sangue. Pode ser, como afirma Beda, que este tipo de relação com a troca de mulheres entre as tribos fosse recente. De toda forma, a Beata Maria, descendente da tribo régia, tinha relações consanguíneas com a tribo sacerdotal, e deste modo pertencia a ambas as tribos.

Quis o Senhor que estas tribos privilegiadas se miscigenassem, porque no seu mistério estava para nascer delas aquele que verdadeiramente foi rei e sacerdote, que se sacrificou por nós e que dirige seus fieis  em maio à malícia das lutas desta vida para coroá-los após a vitória. Daí o nome Cristo, isto é, “ungido”, “escolhido”, pois na antiga lei apenas os sacerdotes, reis e profetas eram ungidos, e por isso nós somos chamados “cristãos”, “povo eleito” e “povo do sacerdócio real”. Quando se diz que as mulheres uniam-se com os homens de sua tribo, era para que a distribuição das terras fosse alterada, mas como a tribo dos levitas, ao contrário das outras, não tinha terra, as mulheres desta tribo podiam casar-se com quem quisesse.

No prólogo da História da Natividade da Virgem, o bem-aventurado Jerônimo conta o que ainda adolescente leu em um opúsculo, mas que só muito  tempo depois releu e a pedido transcreveu. Joaquim era da Galileia, da cidade de Nazaré, e tomou como esposa Santa Ana, de Belém. Ambos eram justos e seguiam irrepreensivelmente todos os mandamentos do Senhor, dividindo em três partes todos os seus bens, uma destinada ao Templo e seus servidores, outra aos peregrinos e pobres, a terceira reservada para eles e sua família. Como por vinte anos não tiveram filhos, fizeram uma promessa ao Senhor, que se este lhes concedesse descendência eles a entregariam a Seu serviço. A fim de obterem a graça do Rei, iam todos os anos às três principais festas em Jerusalém.

Na festa da Dedicação, Joaquim foi com outros de sua tribo até Jerusalém  e ao chegar ao altar quis oferecer essa oblação junto com os demais. Vendo isso cheio de indignação, o sacerdote agarrou-o, afastou-o e repreendeu sua presunção de se aproximar do altar, porque não era conveniente, sob pena de maldição da lei, que oferecesse oblações ao Senhor quem não tivesse feito crescer o povo de Deus, quem era infecundo entre os fecundos. Confuso e envergonhado, Joaquim não quis voltar para casa a fim de não ouvir ofensas. Ela afastou-se, foi para junto de seus pastores e ficou com eles por algum tempo, até que um dia, estando sozinho, um anjo apareceu com tão forte luminosidade que deixou sua visão turva.

O anjo avisou para não ter medo, dizendo:

Eu sou o anjo do Senhor enviado para anunciar que suas preces foram ouvidas e que suas esmolas subiram até o Senhor. Vi a sua vergonha e ouvi o opróbrio de esterilidade que foi injustamente imputado a você. Deus vinga o pecado, mas não a natureza, por isso se Ele fecha um útero o faz para abri-lo novamente de maneira maravilhosa, para que se saiba que o nascido não é produto libidinoso, mas presente divino. Não é verdade que Sara, a primeira mãe de seu povo, suportou e injúria da esterilidade até os noventa anos de idade e ainda assim gerou Isaac, ao qual foi prometida a bênção de todas as nações? Não é verdade que Raquel foi estéril por muito tempo, e contudo gerou José, que teve domínio sobre todo o Egito? Há alguém mais forte do que Sansão ou mais santo do que Samuel? Todavia ambos nasceram de mães estéreis. Creia em minhas considerações e exemplos. As concepções adiadas por muito tempo e os partos de quem parecia estéril são os mais admiráveis. Também sua esposa Ana parirá uma filha e você lhe dará o nome de Maria. De  acordo com a promessa que fizeram, ela será consagrada ao Senhor desde a infância. Desde o útero de sua mãe será cheia do Espírito Santo. A fim de que não haja qualquer suspeita que lhe seja desfavorável, não terá contato com o mundo, ficará sempre morando no templo do Senhor. Ela própria, nascida de mãe estéril, gerará maravilhosamente um filho altíssimo, cujo nome será Jesus e por meio do qual todos os povos serão salvos. Dou a você uma prova: quando chegar à porta dourada de Jerusalém, sua esposa Ana virá ao seu encontro, e de inquieta com sua demora ela passará a demonstrar alegria![1]

Dito isso o anjo retirou-se.

Ana chorava amargamente por ignorar aonde seu marido tinha ido, quando o mesmo anjo lhe apareceu e anunciou a mesma coisa, acrescentando como prova que fosse à porta dourada de Jerusalém onde encontraria o marido indo em sua direção. Logo, seguindo o preceito do anjo, um foi ao encontro do outro, felizes com a visão noturna e certos da prole prometida. Voltaram para casa, depois de adorar o Senhor, esperando alegremente a promessa divina.

Então Ana concebeu e deu à luz uma filha, à qual chamou Maria. Completados os três anos de amamentação, levaram a Virgem com oferendas ao templo do Senhor. O templo fora construído em um monte, com o altar do holocausto sendo externo e só podendo ser atingido depois de subir quinze degraus, correspondentes aos quinze salmos graduais. [2] Quando a jovenzinha Virgem foi colocada junto com os outros, subiu sem a ajuda de ninguém, como se já fosse adulta. Concluído o ofertório, Joaquim e Ana voltaram para casa deixando sua filha com outras virgens no templo. A Virgem, por seu lado, progredia cotidianamente em todo tipo de santidade. Cotidianamente era visitada por anjos e desfrutava de visões divinas. Jerônimo diz em uma carta a Cromácio Heliodoro que a beata Virgem  estabelecera para si esta regra: de matinas até a terça oração; da terça até à nona, trabalho manual de tecelã; da nona até aparecer o anjo que lhe dava alimento, novamente orações.

Quando ela fez quatorze anos, o pontífice proclamou publicamente que as virgens que eram instruídas no templo e haviam atingido aquela idade deveriam voltar para suas casas a fim de serem legitimamente casadas. Diante dessa ordem todas partiram, apenas a bem-aventurada Virgem Maria respondeu que não podia fazê-lo, pois seus pais haviam-na entregue ao serviço do Senhor e prometido a Ele a virgindade dela. O pontífice ficou angustiado, porque não queria ir contra a Escritura que diz “Prometa e cumpra o prometido” (Num 30, 2-3), nem ousava introduzir novidade nos costumes do povo. Ao aproximar-se uma festividade dos judeus, convocou todos os anciãos e a sentença unânime foi que em assunto tão duvidoso deveria ser buscado o conselho do Senhor. Eles permaneceram em oração, e quando o pontífice dirigiu-se ao oratório para consultar o Senhor, todos ouviram vindo dali uma voz dizer: “Todos os homens da casa de Davi que não estão convenientemente unidos em casamento devem levar um ramo ao altar, e aquele cujo ramo germinar e em cuja ponta o Espírito Santo pousar em forma de pomba, conforme profetizou Isaías, deve sem qualquer dúvida desposar a Virgem”.

Entre os membros da casa de Davi estava José, ao qual pareceu inconveniente que um homem de idade tão avançada tomasse como esposa uma virgem tão jovem. Assim, enquanto os demais levavam seus ramos, ele escondeu o seu. Como não aconteceu nada de acordo com o que a voz divina anunciara, o pontífice mais uma vez decidiu consultar o Senhor, que respondeu que somente aquele que não levara sua vara deveria desposar a Virgem. Diante disso José levou sua vara, que floresceu em cujo topo pousou uma pomba vinda do Céu. Ficou evidente para todos que ele deveria desposar a Virgem. Combinado portanto o casamento com a Virgem, José voltou para sua casa na cidade de Belém para tomar as providências necessárias para as núpcias. Quanto à Virgem Maria, voltou para a casa de seus pais em Nazaré acompanhada, por determinação do sacerdote, como testemunho do milagre, por sete colegas, virgens da mesma idade que ela. Por aqueles dias o Anjo Gabriel apareceu a ela enquanto orava e anunciou que dela nasceria o Filho de Deus.[3]

Durante muito tempo a data do nascimento da Virgem esteve escondida dos fiéis. JOÃO BELETH conta da seguinte maneira como ela foi descoberta: certo homem santo, constante na contemplação, ouvia todos os anos, no dia 8 de setembro, uma alegríssima celebração por parte da comunidade dos anjos. Com muita devoção ele pedia que lhe fosse revelado por que ouvia aquilo naquele dia do ano e não em outro, e recebeu a resposta divina: aquele era o dia em que a gloriosa Virgem Maria havia nascido no mundo, e ele deveria divulgar o fato aos filhos da Santa Igreja a fim de que se reunissem à corte celeste nesta celebração. Ele comunicou isso ao sumo pontífice e outros prelados, que por meio de orações e jejuns descobriram a verdade nas Escrituras e em antigas tradições, dedicando em todo o mundo este dia para a celebração da natividade da Virgem.

Antigamente, a oitava da natividade da Beata Maria não era celebrada, mas o senhor Inocêncio IV, de origem genovesa, instituiu tal celebração. A causa disto foi que com a morte de Gregório IX (século XIII) todos os cardeais fecharam-se em conclave para rapidamente escolherem um novo chefe da Igreja. Mas como por vários dias não puderam chegar a um acordo e eram muito pressionados pelos romanos, prometeram à Rainha do Céu que se pelos méritos dela eles viessem a concordar e pudessem sair dali livremente, estabeleceriam a celebração da oitava de sua natividade negligenciada por tanto tempo. Eles concordaram em escolher o senhor Celestino e foram libertados. No entanto, Celestino viveu pouco tempo e por isso não pôde cumprir a promessa, o que foi feito por Inocêncio IV. Note-se que a Igreja celebra três natividades: a saber, a de Cristo, a de Santa Maria e a de João Batista, que designam três natividades espirituais: renascemos com João pela água, com Maria pela penitência e com Cristo na glória. Em relação aos adultos, convém que a natividade da contrição preceda a natividade do batismo e da glória. Por isso estas duas festas merecem ter vigílias, mas como a natividade da Virgem é penitência, e portanto toda orientada para a vigília, não precisa ter vigília. Todas têm oitava porque na verdade todas anseiam pela oitava da Ressurreição.[4]


(JACOPO DE VARAZZE – Legenda Áurea – Vidas de Santos – Companhia das Letras – págs. 746/752)



[1] Tais palavras do anjo constam no  Protoevangelho de Tiago, mas não nos textos canônicos da Igreja.

[2] A palavra “gradual” deriva de grado, “degrau”, indicando a subida que os judeus faziam até o templo cantando determinados salmos (os de número 119 a 133, ou 120 a 134). Na liturgia romana, os salmos graduais (que podem ser aqueles ou outros) eram cantados na missa entre a leitura da Epístola do Evangelho, e assim se organizou o Gradual, livro de canto gregoriano utilizado na missa. “Salmos Graduais” é também chamado de “Cânticos de Romagem” ou Cânticos de Peregrinação”.

[3] É de se supor que essa aparição de São Gabriel tenha tido testemunhas, pois era necessário que aquele fato tivesse autoridade de revelação a toda a sociedade. Nossa Senhora deveria ter comunicações com os Anjos de uma forma reservada, não sendo necessário, para Ela, que houvesse uma aparição para lhe ser transmitida tal revelação.

[4] A partir de agora a Legenda Áurea vai narrar vários casos da interferência milagrosa de Nossa Senhora, mas sem indicar fontes seguras, às vezes sem citar outros detalhes como local onde ocorreram os fatos. O objetivo da obra era apenas despertar a piedade popular, narrando apenas fatos que comentava-se entre o povo sem documentação apropriada, daí o nome “legenda”, isto é, fatos quase lendários, mas oriundos da piedade cristã.