domingo, 29 de março de 2026

NUM OLHAR DE MARIA, A IMENSIDADE DE SUAS VIRTUDES

 



Comentários de Plínio Corrêa de Oliveira sobre o olhar da Santíssima Virgem Maria:

"Buscando explicitar para mim mesmo o que tanto me atrai em Nossa Senhora, encontrei uma figura tão simples como mais não se pode conceber, e que exprime bem o meu pensamento. Com a ressalva de que o exemplo talvez não se verifique inteiramente exato no que concerne à Geometria (da qual possuo sumários conhecimentos...), imaginemos um poliedro regular. Analisando-se uma de suas faces, é possível intuir como são as outras, com suas características e dimensões.

Assim é Nossa Senhora. Em virtude de sua perfeição super-eminente, possui Ela em grau igualmente incomensurável todas as qualidades de que seja capaz uma criatura humana. E, portanto, ao considerarmos uma delas, podemos perceber o valor e a magnitude das demais. Contemplando, digamos, o teor da virtude da Caridade em Maria, nos será dado discernir a riqueza de sua Fé e de sua Esperança. O mesmo sucede com as suas virtudes cardeais e com todos os excelsos predicados de que A enriqueceu a Santíssima Trindade.

 

Atraído pela inesgotável compaixão de Nossa Senhora

Contudo, o que primeiramente mais me tocou em Nossa Senhora não foi tanto a virginal, régia e insondável santidade d’Ela, mas a compaixão com que essa santidade olhava para quem não é santo, atendendo com pena, com desejo de dar, com uma misericórdia cujo tamanho era o das outras qualidades. Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a ajudar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento.

Sempre disposta, não só a repetir-se a Si própria, mas a superar-se a Si própria. De maneira que, dispensada tal misericórdia, e sendo ela mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo. E quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.

 

Um olhar que comunica calma para a vida inteira

Eu mesmo experimentei essa maternal compaixão quando, na infância, pela primeira vez atinei com a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Naquela hora, não tive nenhuma visão, nenhum êxtase, nenhuma revelação. Mas, pela ação da graça, senti-me tocado como se a imagem me olhasse.

Se fosse possível comparar o miosótis  com o sol, eu diria que esse olhar de Nossa Senhora operou em mim um efeito análogo ao do olhar de Nosso Senhor para São Pedro, durante a Paixão. O Príncipe dos Apóstolos O renegou, o galo cantou, e Jesus olhou para o discípulo infiel. Nesse instante, São Pedro se sentiu tomado por inteiro. E ele, que havia visto tudo quanto os Evangelhos narram — ou como testemunha direta, ou tendo recebido uma repercussão imediata dos acontecimentos — foi objeto de uma graça ímpar, que reavivou em sua alma, de modo intenso e esplendoroso, tudo o que ele conheceu da infinita bondade de Nosso Senhor. E essa lembrança venceu a ingratidão dele. Por isso, diz a Escritura: “Et flevit amare — E chorou amargamente.”

Daí vem a grande contrição de São Pedro, que constitui um dos mais belos fatos da história dos Santos. Também eu, no momento daquela graça diante da imagem de Nossa Senhora, tive conhecimento como que pessoal da indizível misericórdia d’Ela, de sua inexcedível bondade a me envolver todo, de maneira tal que, quisesse eu fugir ou renegar, Ela me pegaria afetuosamente e diria: “Meu filho, volte de novo, aqui estou...”

Como resultado desse celestial favor, tornei-me calmo para o resto de minha vida. Porque, seja o que for e como for, uma vez que nós, homens, estamos envolvidos por essa misericórdia, podemos descansar. No fundo, aquele que não é brutalmente insensível com Nossa Senhora, e para Ela se volta, d’Ela acaba recebendo sempre proteção e socorro em suas dificuldades.

E precisamente uma das coisas que mais me enlevaram, e que, dentro da indefinição de minha mentalidade de menino, entretanto ficou-me bem clara, foi o fato de que aquela solicitude materna não representava um privilégio para mim, mas é a atitude d’Ela para com todos os homens.

Nossa Senhora poderia condescender em tratar alguém como um privilegiado, porém não foi disso que eu tive cognição. Antes, compreendi o contrário: “Veja que você é um Zé da rua, e Ela trata da mesma forma a todos os Zés da rua. Para qualquer um, para todos os homens que existiram, existem e existirão, para todos os pecadores que transitam pelas cidades, que enchem as casas, os ônibus e os automóveis, Ela é exatamente assim.”

Volto a dizer que fiquei calmo para a vida inteira. Causa-me muita pena ver alguém, sobretudo um jovem, nervoso e com problemas. “Por que não lhe ser comunicado um olhar como o que recebi de Nossa Senhora?” — penso eu. “Ele ficaria calmo até o fim dos seus dias.” Medindo a profundidade dessa clemência sem limites, vêm-me ao espírito aquelas palavras que a Santíssima Virgem, no Magnificat, diz do Padre Eterno: “Et misericórdia ejus a progenie in progenies timentibus eum”.

Ou seja, a misericórdia divina se estende de geração em geração a todos os que O temem. A tal propósito, sempre pensei: “É bem verdade, e isto se dá por meio d’Ela. Maria é a misericórdia inesgotável, que não se extingue, que se multiplica solícita, bondosa, que toma nossa dimensão, que se faz até menor do que nós para nos pegar, de pena de nós.”

 

Pureza, fortaleza e sabedoria

Na dimensão dessa misericórdia, e nela contida, vem a ideia da virginalidade. Nossa Senhora é pura, de um grau de pureza do qual não se tem noção. Conhecida a misericórdia, se conhece a pureza. É novamente a figura do poliedro. Todas as purezas que se possam imaginar não chegam nem de longe aos pés da pureza d’Ela, que é feita não só de ausência de qualquer pendor para o mal, mas de um impulso de alma direta e exclusivamente para Deus, sem compromisso com mais nada e ninguém. É um ímpeto inteiro, de uma força, de uma integridade, de um desejo de Absoluto como também não se pode medir. Está na dimensão da misericórdia.

Supérfluo dizer que, nessa concepção de pureza, entra também o sentido de castidade, perto da qual a neve seria um carvão.

Essa pureza, no meu modo de entender, traz consigo a ideia da fortaleza. E fortaleza aqui não significa apenas algo que nada quebra. É diferente. Nada tem comparação possível com essa fortaleza. O que Ela, na sua pureza, decidiu, o resto do mundo se flecte e se liquida, e o universo inteiro é zero, pela força da vontade de Nossa Senhora. Quando Ela decide, é uma resolução que torna impossível a resistência de quem e do que quer que seja. É uma soberania e um domínio de igual dimensão da misericórdia e da virginalidade, uma envergadura para a qual não há palavras humanas. Todas as armas modernas são pobres e inofensivos brinquedos em comparação com um ato de vontade d’Ela.

Por sua vez, essa misericórdia, essa pureza e essa fortaleza trazem uma ideia da sabedoria da Fidelíssima Esposa do Espírito Santo.

Ela conhece tudo, e as inter-relações de todas as coisas, com acuidade tão superior que Ela penetra até as entranhas de todo ser, vê como é cada qual e discerne a ordem de Deus no universo, tão grande, tão inabarcável! Diante de sua sabedoria lúcida, adamantina, na qual não cabe nenhuma dúvida, compreendemos mais uma vez qual é a imensidade da pureza e da fortaleza da Virgem Santíssima.

Essas são as virtudes marianas que mais me chamam a atenção quando me lembro daquele olhar da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

 

“Meu filho, eu te quero” — “Minha Mãe, eu sou vosso”

Alguém poderá me dizer: “Mas, Dr. Plinio, o senhor contemplou esse olhar como um menino de onze ou doze anos. E depois, nunca mais houve algo assim?”

Respondo que, para mim, essa graça foi tão excepcional que permaneceu como um sol a iluminar toda a minha existência. É como se tivesse acontecido ontem. Como se, naquele momento, Ela me houvesse dito: “Meu filho, eu te quero”, e ouvisse de mim: “Minha Mãe, eu sou vosso”.

Poderão, ainda, perguntar-me: “E nesse relacionamento do senhor com Nossa Senhora, onde se encontra Nosso Senhor Jesus Cristo?”

Eu respondo: em tudo!

É a ideia desenvolvida por São Luís Grignion de Montfort no seu célebre “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”. Nossa Senhora é o claustro, o oratório, o tabernáculo sagrado onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e quanto mais estivermos próximos d’Ela, tanto mais estaremos próximos d’Ele.

Minha devoção a Ele passa por Ela, e, por isso, nunca alguém me vê proferir uma palavra de adoração a Nosso Senhor, sem que logo depois eu não fale de sua Mãe Santíssima. É sistemático.

Outros poderão todavia observar: “Muitas vezes o senhor se refere a Ela sem mencioná-Lo.”

É isso mesmo. Porque, sendo Jesus infinitamente maior do que Nossa Senhora, está Ele contido de modo implícito em toda referência que eu faça a Ela. A recíproca, porém, não se verifica. Razão pela qual procedo dessa forma e, se Ela me ajudar — queiram ou não queiram, agrade ou não agrade — assim procederei até morrer".[1]



[1] Revista “Dr. Plínio”, nº 13, abril de 1999

 

 


sexta-feira, 27 de março de 2026

ESCRAVOS DE MARIA, HUMILDES E PUROS, FORTES CONTRA O DEMÔNIO




(Revista Dr. Plínio, n. 126, setembro de 2008)

 

À maneira de uma gota de orvalho que parece conter todo o Sol quando sobre ela incide um raio de sua luz, assim é a alma humilde: eleva-se a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente indizíveis, torna-se pura e combativa, e se faz escrava de Maria Santíssima louvando-A no mistério da Encarnação.

 

Em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort comenta:

{Os escravos de Maria] terão uma especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio dessa devoção, uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo para honrar e imitar a dependência inefável que Deus Filho quis ter de Maria, para a glória de Deus Pai e para nossa salvação. Essa dependência se manifesta particularmente neste mistério em que Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria, onde depende d’Ela para todas as coisas.[1]

 

Durante sua gestação, o Divino Menino dependia em tudo de sua Santa Mãe

Nosso Senhor Jesus Cristo quis ser Escravo de Nossa Senhora porque, a partir do momento em que Ela aceitou a proposta do Anjo de dar à luz o Messias, o Espírito Santo atuou em seu interior e o Homem-Deus foi concebido. De maneira que, imediatamente depois do convite, Ela tornou-Se a Mãe de Deus.

Nosso Senhor Jesus Cristo passou no claustro santíssimo e puríssimo da Virgem Maria todas as fases da gestação. E continuamente o organismo d’Ela ia fornecendo o necessário para o desenvolvimento da criança mil vezes abençoada, do Menino Divino que estava ali Se formando para a salvação dos homens.

De maneira que se tem dito muito bem: Caro Christi, caro Mariae.[2] Porque, no matrimônio comum, os filhos são produtos do pai e da mãe, mas no casamento virginal de Maria, Nosso Senhor não era filho natural de São José, que possuía um direito paterno ao fruto das entranhas de sua Esposa, mas não era o pai consanguíneo do Menino Jesus. Ela, entretanto, era a Mãe carnal d’Ele.

 

Excelsa santidade a que foi elevada a Esposa do Espírito Santo

Mas não podemos deixar de considerar que, sendo Nossa Senhora verdadeira Mãe de Deus, a partir do momento em que o Espírito Santo tornou-Se Esposo d’Ela, Ele teve também sobre a alma d’Ela direitos que sobrepunham aos de São José; e São José, por sua vez, devoto ardentíssimo do Divino Espírito Santo e cheio do Espírito Santo, ajudava-A, por sua vez, a conhecer o que o Espírito Santo queria para a plena execução da vontade d’Ele.

Assim, Nossa Senhora Se tornou Sua Esposa e começou a receber d’Ele orientações, diretrizes, atos de amor, consolações, “flashes” – se podemos empregar a  palavra – de uma sublimidade insondável, referentes ao relacionamento de Nosso Senhor com Ela, formando com o Padre Eterno um convívio altíssimo, no qual Nossa Senhora era, a um título muito especial, Filha do Padre Eterno; a um título único, Mãe do Verbo Encarnado; e Esposa do Divino Espírito Santo. Tudo isso veio para Ela em virtude da Encanação.

No momento em que a Santíssimo Virgem concebeu o Verbo Encarnado, houve, por assim dizer, uma promoção assombrosa, na qual Ela inteira foi elevada a uma condição superior à de todos os Anjos e Santos. E de tal maneira superior que, se a santidade pudesse ser objeto de uma operação matemática – ela é algo puramente espiritual -, mas se somássemos a santidade havida em todos os Santos desde o início da Criação até o fim do mundo e comparássemos com Nossa Senhora, Ela seria incomparavelmente mais santa do que toda essa montanha altíssima dos Santos de todos os tempos que o Espírito Santo foi suscitando na História.

Nós não temos ideia de qual foi e qual é a santidade de Maria. Moisés, quando pediu para ver a Deus, ouviu esta resposta: “Não podereis ver minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver” (Ex 33, 20). Eu me pergunto, às vezes: se nos fosse dado ver nesta vida terrena Nossa Senhora face a face, com todo o esplendor d’Ela, será que não morreríamos também?

 

Convívio com Nossa Senhora, convite à perfeita obediência

É verdade que a Virgem Maria tem aparecido a vários Santos. No entanto, Ela provavelmente encobre algo de sua santidade para esses não morrerem, ou confere graças muito especiais para aquele instante, a fim de eles puderem aguentar vê-La.[3]

Santa Catarina Labouré, religiosa francesa do século passado que divulgou a Medalha Milagrosa, conta as aparições da Mãe de Deus assim: ela estava dormindo e, quando acordou, apareceu-lhe um menino que ela percebeu ser o Menino Divino, que disse para ela ir com Ele até a capela, porque sua Mãe a esperava lá. Ela mais do que depressa se alinhou e foi para a capela.

Havia muitas dependências entre a capela e a cela onde ela dormia e, ao longo de todo o caminho, todas as luzes estavam acesas como se tratasse de uma grande festa.

E mais: quando ela chegou à capela, encontrou Nossa Senhora no presbitério, sentada numa cadeira de madeira que até hoje se oscula, se pode venerar. A Santa acercou-se d’Ela e, segundo consta, conversou com Ela tendo os cotovelos apoiados nos joelhos de Nossa Senhora.

O que deve ter restado em sua alma a vida inteira por aquilo que viu! A conclusão que tiro daí é que Nossa Senhora, falando com Santa Catarina Labouré, comunicou-lhe uma grandeza de alma e também uma obediência pelas quais, cada vez que a Santa era engrandecida nas sucessivas visões, ficava mais obediente.

Por que razão? Porque ela ia compreendendo cada vez mais a santidade inefável de Nossa Senhora e, portanto, cada vez admirando mais. E lhe ficava mais claro o absurdo que haveria em desobedecer à Mãe de Deus e àquele universo de santidade existente em seu Imaculado Coração.

 

A essência do espírito contrarrevolucionário

E, por causa disso, o crescimento na santidade, que deveria na aparência gerar uma espécie de sensação quase de igualdade, suscitava pelo contrário uma situação de inferioridade deliciosamente experimentada, vivida na exclamação: “Que paraíso é obedecer!”

A essência do espírito contrarrevolucionário é isto: admirar tanto o poder no qual existe a autoridade para mandar em nome de Deus; em venerar e adorar tanto a Deus que manda por meio daquele poder, que quanto mais obedecemos, mais nossa alma se enche de graças. E, pelo crescimento na obediência, ela se eleva a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente indizíveis.

Se alguém quer ser grande, procure ser pequeno. E peça a Nossa Senhora a graça de conhecer, intuir e avaliar a santidade d’Ela tanto quanto seja possível à fraqueza humana. Os que avaliarem crescerão enormemente em santidade e assim crescerão em humildade, porque não há santidade sem humildade. E se crescerem em humildade, quanto mais tiverem que obedecer, mais encantados ficarão.

Desse modo, para a alma humilde que gosta de obedecer, de admirar e de fazer-se pequena, o ideal nesta Terra é fazer-se escrava de Nossa Senhora. Mas no sentido de considerar-se, aos pés d’Ela, literalmente, como um “vermezinho e miserável pecador”, como diz São Luís Grignion. Porque pecados o homem os comete, embora insignificantes e minúsculos, ainda quanto se trata de um grande Santo; e, portanto, qualquer ser humano é um miserável pecador, um vermezinho da terra... Deus o esmaga quando quiser, tira-lhe a vida quando entende, dá-lhe a saúde ou a doença conforme Lhe apraz. Nós estamos na completa dependência de Deus para tudo quanto Ele queira.

Mas que felicidade para nós pensar: é verdade, somos tão pequenos perto d’Ele que quanto mais reconhecemos nossa pequenez, mais nos unimos a Ele e mais Ele nos coloca em seu Sagrado Coração.

 

União com a Santa Igreja, militância no Céu

É amando cada vez mais a Nosso Senhor Jesus Cristo em Nossa Senhora, amando a ambos na Santa Igreja que nossas almas vão progredindo e tomando uma dimensão de compreensão cada vez mais profunda de como é a Igreja.

De maneira a termos, em certos momentos, a impressão de que nos fizemos um só com a Santa Igreja e que, surgindo um problema, antes mesmo de saber como ela o resolveria, nós mesmos adivinhamos, pela estreita união com ela, cujo espírito possuímos inteiramente.

Compreende-se por esta forma que a união inteira com a Igreja deve ser o nosso último e supremo ideal. E o que eu quero ter em vista antes de tudo é que, quando eu morrer, subirei para ser um membro da Igreja gloriosa, mas gloriosa militantemente. E que, no Céu, uma das minhas alegrias será a de lutar como lutei na Terra.

Nós sabemos pela Teologia, Cornélio a Lápide diz isso, que os demônios têm certo conhecimento do que se passa no Céu, mas um conhecimento cheio de ódio, no qual não entra um pingo de admiração, apenas inveja ou revolta; e eles têm ódios especiais a certas coisas. Por exemplo, eles veem na vida celeste as almas que eles quiseram perder e levar para o inferno e, vendo-as naquela felicidade altíssima junto ao trono de Deus, eles blasfemam, injuriam. E muitas vezes os Bem-aventurados os contestam e com isso ferem o seu orgulho.

E assim há uma espécie de continuação da militância no Céu. Imaginem quando nós estivermos cantando as glórias de Deus, de seus Anjos e Santos por toda a eternidade e, de vez em quando, nomeio de nosso cântico, pudermos entrar em contenda contra o demônio, ação com a qual se rejubilam todos os Anjos que lançaram no Inferno aquela canalha. De maneira que há uma associação maravilhosa de relações.

 

Pequenos e puros, como gotas de orvalho

Enfim, neste dia da Anunciação, pensemos nas glórias da Santíssima Virgem Maria. Filha do Padre Eterno Ela foi sempre; Mãe do Verbo e Esposa do Espírito Santo tornou-Se com a Encarnação.

Maria subiu com isso a alturas inexcogitáveis, desde as quais olha e acompanha a vida de cada um de nós. E queira Deus que Ela perdoe as imperfeições que há no interior de todos nós; que não olhe para elas, mas apenas para sua misericórdia e que sorria ao Divino Espírito Santo, sorria a Jesus Cristo Nosso Senhor e ao Padre Eterno, e diga à Santíssima Trindade: “Vede, tende pena e compaixão deles, ajudai-os a serem inteiramente aquilo para o qual foram criados, e neste ponto sejam fiéis como verdadeiros escravos, fazendo inteiramente a minha vontade que é vossa, Trindade Santíssima! E fazei com que esses escravos fidelíssimos sujeitem ao meu império o demônio rebelde”.

Eis as graças que neste 25 de março compete, a meu ver, suplicar: rezar a Nossa Senhora para pedir uma tal união com a Santa Igreja Católica, que sejamos como Ela; não tanto quanto Ela, mas à maneira d’Ela, como uma gota de orvalho na qual bate um raio de sol é como o Sol.

A gota de orvalho é linda, é pura, ela encanta; um raio de sol que incide sobre ela fá-la brilhar inteira. Mas o que é a gora de orvalho em relação ao Sol? A desproporção entre Nossa Senhora e cada um de nós é muito maior do que a que há entre a gota de orvalho e o Sol.

Peçamos que, à maneira da gota de orvalho, sejamos humildes e pequenos, mas puros, fortes, e que do entusiasmo de nossa pureza e de nossa força parta um constante ataque contra os inimigos eternos de Deus. (Extraído de conferência de 25/3/1995).

 (Plínio Corrêa de Oliveira - extraído da revista “Dr. Plínio”, edição n.324, março de 2025, págs. 9/13)

 

 

 

 

 



[1] Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n. 243, In: Oeuvres Compètes, Paris; Du Seuil, 1966 – p. 650

[2] A carne de Cristo é a carne de Maria.

[3] Narra-se na vida de São Dionísio, o Areopagita, que o mesmo teria dito que ao ver Nossa Senhora tal era sua beleza que a teria adorado como uma deusa se não tivesse recebido uma graça especial.


segunda-feira, 23 de março de 2026

A AURORA DA CONFIANÇA EM NOSSA SENHORA

 

                                               (Revista Dr. Plínio, 67, outubro de 2003)


 Extratos de conferências dos anos 1984, 1987 e 1989, publicadas na “Dr. Plínio”, n. 2, maio de 1998, seção “Gesta marial de um varão católico”, pp. 4-7.[1]

Um achado providencial

 

Dr. Plínio relata como se tornou escravo de Maria

No meu tempo de menino, por vezes eu pensava no Céu. Tais cogitações estavam intimamente relacionadas com aquela graça a mim concedida por Nossa Senhora Auxiliadora, num difícil período de minha infância (cf. artigo “Salvai-me Rainha”, no 1º número desta revista). De fato, essa especial manifestação da misericórdia de Maria para comigo, me fez compreender o papel da bondade d’Ela na existência humana. Daí nasceu em minha alma o intenso desejo de me unir a Ela, espiritualmente, até o fim de minha vida.

 

Como será o Céu?

Então, imaginava eu o seguinte: “No Céu, Nossa Senhora é Rainha Mãe. Ora, os reis e as rainhas da Terra têm cada um sua corte. Portanto, no Céu há de existir também, numa situação cercada de honra, de respeito, embora um pouco colateral, a corte da Rainha Mãe. Esta corte deve ser um tanto secundária, pois não é a que adora diretamente a Deus, senão por meio de Nossa Senhora. Além disso, ela deve ser constituída de almas menos importantes, assim como a corte de uma rainha mãe é compota de cortesãos, digamos, de segundo nível. Seja como for, eu, indo para o Céu, quero fazer parte da corte da Rainha Mãe. De momento não sei dizer por que, mas tenho certeza de que passarei minha eternidade entre os cortesãos da Virgem Santíssima. Quem sabe quando eu ficar mais velho encontre explicação para isso...”

Entretanto, a ideia da Rainha Mãe, de tal maneira se desenvolveu que, sem eu me dar conta, a metáfora ficou ultrapassada. Compreendi que Nossa Senhora era muito mais do que uma rainha mãe. A comparação se verificara primitiva, contendo apenas uma semelhança com a realidade, e não uma efetiva analogia.

Essa constatação tornou-se mais viva no meu espírito quando, já então homem de 22 anos, li o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís Grignion de Montfort. À medida que eu percorria aquelas páginas, com transportes de entusiasmo fui tomando conhecimento da admirável doutrina nelas exposta. Fazia-o na concordância eufórica de minha alma, de modo que cada linha era uma nova razão de arroubamento, mas, ao mesmo tempo, era como se eu já tivesse pensado tudo aquilo.

Intercessão de S. Teresinha

Uma circunstância banal esteve na origem da leitura que fiz desse livro. Era eu muito devoto, e ainda sou, de S. Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, li a Histoire d’une âme (Hoistória de uma alma) – autobiografia de da sua vida espiritual – e fiquei profundamente impressionado. Compreendi que eu devia fazer algum progresso na minha própria vida espiritual, sem entretanto saber bem qual era. Encontrava-se numa fase em que já tinha realizado alguns avanços, e não podia ficar estagnado. Ir para a frente era-me imperioso, pois constituía para mim uma necessidade de alma.

Sabendo eu que, pela intercessão de S. Teresinha, obtinha-se grande número de graças no mundo inteiro, resolvi pedir-lhe duas de que eu mais carecia.

A primeira, que me fizesse encontrar um bom livro, desses cuja leitura enriquece o espírito e marca uma vida.

Em segundo lugar, pedi a S. Teresinha algo muito diferente: ganhar na loteria... O bilhete que eu comprara oferecia um prêmio máximo de 400 contos. Para época, esse montante correspondia a um excelente patrimônio, com o qual eu poderia leva uma vida tranquila dentro dos meus padrões.

Qual a razão de pedir esse dinheiro? É que eu não queria ter preocupações profissionais, a fim de dedicar todo o meu tempo ao apostolado católico em que estava empenhado.

Bem, quanto aos 400 contos, ainda os estou esperando... Não chegaram. O livro, porém, pouco depois o encontrei.

Na Rua Martim Francisco, em São Paulo, erguem-se alguns edifícios dependentes da Igreja do Coração de Maria. Num desses prédios abre-se uma porta pela qual, outrora, se tinha acesso ao interior do convento dos padres claretianos, bem como para a livraria que eles ali possuíam.

Quantas e quantas vezes, passando diante daquela porta, tenho agradecido a Nossa Senhora! Olho aquela entrada com amor, porque tem relação próxima com um grande acontecimento de minha vida, ao qual estimo como algo presente no centro do meu coração. Mais do que isso, eu só quero o meu Batismo e a minha Primeira Comunhão.

 

O encontro com o Tratado

De faro, foi visitando essa livraria que encontrei um pequeno livro, escrito em francês, impresso de modo muito agradável, em caracteres pretos e vermelhos. Seu autor me era desconhecido: Bienhereux Louis Marie Grignion de Montfort. Um Bem-Aventurado...

“Mas, o que me dirá esse livro? ‘Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge’ – Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Quem sabe não é o livro suscitado por S. Teresinha?”

Coloquei-o de lado e passei a examinar outros, para ver se mais algum me interessava. Encontrei um do qual também não tinha ouvido falar, e fiquei na dúvida se levava este ou aquele. Na incerteza da escolha, folheei novamente o Tratado, achando-o muito bem impresso, atraente e agradável de ler. O outro, um calhamaço feio e indigesto. Enfim, por esta simples razão – pensava eu, sem perceber que S. Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Mandei embrulhar e fui embora.

Ao chegar a casa, desembrulhei o pacote, sentei-me e comecei a ler. Logo percebi que tinha encontrado o livro de minha vida! Até então, não fazia ideia de que um livro pudesse exercer sobre mim o efeito que esse exerceu.

Segundo um antigo hábito, não iniciei a leitura a partir da primeira página, mas abri o Tratado em qualquer lugar, do meio para o fim. Achava que um livro tornava-se bem mais interessante quando havia alguma coisa nele para se adivinhar. Então, lendo-o do meio para o fim adivinha-se como é o começo. Depois o leitor confere se, de fato, o início corresponde ao que dele se imaginou. Sempre me agradou agir dessa maneira em relação aos livros que eu lia.

Com o Tratado, porém, foi diferente. Ao folhear duas ou três páginas, pensei: “Este livro é diferente de qualquer outro, não se pode ler assim. Tem que ser desde o começo, porque é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!”

Foi uma leitura demorada, porque feita muito devagar. O Tratado devia ser estudado ponto por ponto, como se faz com um difícil livro de faculdade. E assim procedi: relacionei pontos, tomei notas, e cheguei até a compor uma ladainha de invocações a Nossa Senhora, sugeridas pelo texto de S. Luís Grignion.

É um portento de livro, baseado que há de melhor em matéria de Teologia, aprofundando largamente, e com elevadas vistas, a doutrina sobre Nossa Senhora. De maneira que o leitor adquire uma boa noção a respeito das excelências de Maria Santíssima, do que Deus teve em vista criando-A, do papel da santidade d’Ela e de sua perfeição de alma na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como no plano da Redenção, no Colégio Apostólico e na Santa Igreja, por todos os séculos.

Assim, cada vez mais encantado, fui percorrendo e estudando ponto por ponto o Tratado da Verdadeira Devoção.

 

O Reino de Maria

Em certo momento, percebi que o livro cintilava labaredas a propósito de um assunto que nunca visto ninguém tratar, e que me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria.  Logo compreendi que esse Reino era a meta para onde minha alma e todo o meu ser voavam!

Entusiasmou-me sobremaneira a descrição que faz S. Luís da perfeição e do auge de santidade que as almas atingirão nessa era marial. Mais do que tudo, arrebatou-me a ideia da necessidade da Sagrada Escravidão de amor a Nossa Senhora, para agradá-La e entregar a Ela tudo quanto alguém Lhe possa dar.

 

Escravidão?

Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela!

Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!”

Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano.

Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.

Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”.

No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez.

 

Um propósito para toda a vida

Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e  por d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort.

Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer  por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.

São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.[2]




[1] O texto publicado nessa edição da revista “Dr. Plínio”  foi estampado na obra "Opera Omnia" à página 337, sob o título de AURORA DA CONFIANÇA.

[2] Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404

domingo, 22 de março de 2026

QUEM SERÃO OS APÓSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS?

 



No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez algumas conferências sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, posteriormente  publicadas em forma de apostila sob a revisão do mesmo. Desse texto extraímos os comentários a seguir:

 

Nosso sinal: o “thau”, ou o calcanhar?

 

“Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos, como o calcanhar, calcados e perseguidos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo” (tóp. 54).

 

Fato terrível: a vocação do apóstolo de Nossa Senhora é ser como que o calcanhar do gênero humano, que o pisa e anda calcando-o. A vocação daqueles que são apóstolos de Maria Santíssima consiste em servir de calcanhar. De calcanhar ativo, que retribui os golpes, mas, enfim, de calcanhar.

Quando consideramos a nossa situação de apóstolos da Contra-Revolução, devemos reconhecer que ela tem muito de “calcanharesco”. Realmente, somos uma categoria de pessoas da qual todos se julgam no direito – sem recriminação da parte de ninguém – de falar mal e de pensar mal, e que ninguém receia sabotar, pois – afirmam – “o que atacamos nada tem de mal”; mas ai de nós se fizermos qualquer coisa: “é perigoso, é nocivo; é preciso reprimir!”

Quando consideramos, por outro lado, a situação de exílio permanente a que as condições de vida da sociedade contemporânea nos reduzem; quando consideramos o fato de que, aos poucos, ficamos marcados, diferentes de todos, pela fidelidade a nossos ideais, havemos de reconhecer bem que a nossa situação tem muito de “calcanharesco”. Se não tivéssemos escolhido por nosso sinal o “thau”, escolheríamos o calcanhar!

O calcanhar tem uma sublime missão. Se é bem verdade que ele é calcado, é dele a glória de calcar. E há uma cabeça que foi feita para ser por ele pisada: a de Lúcifer. Devemos estar a procura dessa cabeça para pisá-la. Com a graça de Nossa Senhora, no rabo, várias vezes já o temos feito.

 

Serão santos superiores a toda criatura

 

“Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo...” (tóp. 54).

 

São Luís Grignion faz-nos um outro prenúncio: os apóstolos dos últimos tempos serão santos excepcionais, como não há em nossa época e não houve nas passadas. Dizendo “superiores a toda criatura” envolve, pois, as do passado. Serão Santos maiores do que todos os dos séculos passados. Deverão florescer no futuro, mas de sua santidade e de sua vocação participam desde já todos aqueles que batalham nesta mesma luta contra o poder das trevas.

 

“... e tão fortemente amparados pelo poder divino que, com a humildade de seu calcanhar, e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo”. (idem).

 

É o final da profecia: haverá um período de justiça alcançado por estes apóstolos. Eles esmagarão a cabeça do demônio.

Vemos, portanto, as características fundamentais desses apóstolos postas por São Luís Grignion:

a) É uma raça de homens, raça espiritual, oposta e irredutivelmente adversa à Lúcifer e à raça dele;

b) São homens que viverão num estado de perseguição constante;

c) Serão chamados por Maria Santíssima, de um modo especial, a uma grande dedicação à causa da Igreja;

d) Acabarão por vencer, porque esmagarão a cabeça do demônio.

São os traços distintivos dos Santos dos Últimos Tempos. Mas, como estes tempos já começaram[1], os santos de nossa época estão já numa espécie de relação com os dos últimos dias da Igreja. O santo de nossa época é, pois, o tipo do santo dos últimos tempos, descrito por São Luís Grignion, que ele apresenta como um fruto característico da devoção a Maria Santíssima.

Há, portanto, uma conexão muito grande entre os últimos tempos e a nossa época, entre os Santos dos últimos Tempos e os batalhadores da causa da Igreja em nossos dias.

Os Apóstolos dos Últimos Tempos.  São Luís Grignion nos fala agora especificamente dos Apóstolos dos Últimos Tempos.

 

“Deus quer, finalmente, que Sua Mãe Santíssima seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi...” (tóp. 55).

 

Dizíamos acima que, nos últimos tempos, Nossa Senhora seria mais conhecida e mais amada.  Neste tópico São Luís Grignion nos afirma que é agora, isto é, no tempo dele. Portanto, sua época já participa dos últimos tempos.

 

“E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes indico a seguir.” (tóp. 55).

 

Eis o papel histórico da devoção que prega. É o meio pelo qual os predestinados da graça podem adquirir este espírito e colocar-se de acordo com a sua vocação. É a devoção que até aí conduz.

 

“E, se observarem com fidelidade, verão então claramente, quando[2] lho permite a Fé, esta bela Estrela do Mar, e chegarão a bom porto, tendo vencido as tempestades e os piratas. Conhecerão as grandezas desta Soberana, e se consagrarão inteiramente a seu serviço como súditos e escravos de amor” (jdem).

 

Será que antes de São Luís Grignion – poder-se-ia perguntar – ninguém conheceu Nossa Senhora? Maria Santíssima não levou antes dele ninguém a bom porto? Será que Ela não fez manifestar na Igreja, antes ou fora dele, as suas grandezas? Seria absurdo admiti-lo. Por que, então, ele apresenta estas coisas como típicas do seu espírito? É porque elas serão mais reais nas almas formadas em sua escola de espiritualidade do que em qualquer outra. O que já é verdade de todos os santos, de todos os que seguem a doutrina da Igreja, será muito mais ainda dos que seguirem a espiritualidade de São Luís Grignion.

Ele aqui apenas insinua o que irá dizer mais tarde: a devoção que ensina e os princípios mariais que inculca, não são acessíveis ao conhecimento de qualquer homem. Conhecer bem Nossa Senhora, praticar esta devoção, é uma predestinação, é uma graça especial, não comum. Esta não é uma devoção para qualquer pessoa, mas apenas para alguns predestinados. É uma graça especialíssima que Deus reserva para os últimos tempos. Por isso, mais tarde ele dirá que, para compreender esta devoção e praticá-la verdadeiramente, é preciso ter recebido um chamado muito especial.[3]

 

Serão setas para perfurar

 

“Mas, quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria?” (tóp. 56).

 

Aqui segue a descrição dos Apóstolos dos Últimos Tempos:

 

“Serão ministros do Senhor, ardendo em chamas abrasadoras, que lançarão por toda parte o fogo do divino amor.

Serão sicut sagittae in manus potentis (Sl 126, 4) – flechas agudas nas mãos de Maria todo-poderosa, pronta a transpassar seus inimigos” (idem).

 

Como isto corresponde ao gênero de devoção que devemos ter a Nossa Senhora!

A devoção a Maria Santíssima, segundo São Luís Grignion, está aliada à combatividade.  Não se trata apenas de fazer cordeirinhos de Cristo Rei! Trata-se de transformar cada um de nós numa seta posta nas mãos de Maria. Evidentemente não para, como bálsamo, aliviar e curar, porque isso não é próprio da seta, mas para perfurar os seus adversários. Para isso é que estão destinados os Apóstolos do Últimos Tempos.

Para transpassar é preciso não estar pregando bondades untuosas, vagas, sem consistência. A seta é arma de guerra, é feita para o combate, e o seu principal objetivo é derrubar o inimigo e matá-lo. Para isso, e não para outra coisa, elas existem. São Luís Grignion é explícito: “sicut sagitti”. É mesmo seta, e seta para perfurar os inimigos. É preciso não ter ilusões, o fruto característico da devoção que ele prega é o de tornar o apóstolo uma seta nas mãos de Nossa Senhora.

 

Serão ascetas, colados, sem interstício algum, a Deus e à Sua Igreja

 

“Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações, e bem colados a Deus...(idem).

 

É importante observar o grau de união a Deus que está prometido. E só há um meio de estar colado a Deus: é estar colado à Igreja de Deus. Estar colado significa estar unido sem qualquer interstício, sem vácuo algum; é estar preso por todas as aderências possíveis à Igreja de Deus. Este é o sentido que ele nos quer dar, inculcando o espírito de devoção à Igreja Católica.

 

“...que levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração no espírito, e a mirra da mortificação no corpo”. (idem).

 

É a ideia da ascese, da austeridade, da virtude dura, mortificada.

 

Serão odor de morte

 

“...e que serão em toda parte, para os pobres e pequenos, o bom odor de Jesus Cristo; e, para os grandes, os ricos e os orgulhosos do mundo, um odor   repugnante de morte.” (idem).

 

O que são, na língua da Escritura, os pobres e os pequenos? Não são os sequazes dos demagogos modernos. Ser pobre e pequeno é ser pobre de espírito, é ser desapegado. Para esses é que é bom odor a presença dos servidores de Maria. Pelo contrário, para os que não são seus servidores, para os que são ricos, que têm espírito apegado (neste sentido um maltrapilho pode ser rico), para os que são orgulhosos e mundanos, a ação de presença desses apóstolos é um odor de morte.

Nesse sentido, podemos dizer que, quem tem verdadeiramente o senso católico, simpatiza conosco. Não encontramos, ao longo do nosso apostolado, pessoa alguma que, tendo senso católico, fosse hostil a nós. Nem alguém que, por causa das próprias virtudes, nos tivesse antipatia.

Pelo contrário, é para os apegados, os igualitários e os orgulhosos que a nossa presença dissemina, de fato, um odor de morte. E as reações são vigorosas, porque o odor de morte não é bem recebido em parte alguma!

 

Serão o terror do demônio

 

“Serão nuvens trovejantes...“ (tóp. 57).

 

Não são zéfiros[4] nem brisas amenas, que trazem o bom odor das sensações emocionantes e românticas para as almazinhas adocicadas. São nuvens tonitroantes que voam pelos ares.

A imagem é majestosa, grandiosa, reflete, em contraposição à suavidade de certo tipo de religiosidade sentimental, a grandeza, o poder e a cólera de Deus. A nuvem trovejante é a nuvem carregada, na qual o raio se forma, e da qual é lançado.

 

“...esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo...” (idem).

 

Uma atmosfera cheia de nuvens trovejantes, a esvoaçar do oriente ao ocidente, não reflete absolutamente o clima carregado de otimismo que em certos ambientes se encontra...

 

“.. que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o pecado...” (idem).

 

Não se trata, portanto, de pregar a bondade contra o pecado.

 

“...e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida e para a morte, transpassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (Ef. 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo”  (idem).

 

São batalhadores eficacíssimos, que têm a espada de dois gumes quando forem enviados a alguém da parte de Deus, perfurá-los-ão dos dois lados.

Podemos aí distinguir um feitio de espiritualidade e de apostolado que convém a nós. Os apóstolos que São Luís Grignion assim descreve, são homens cheios de um santo ódio, de um poder verdadeiramente terrível, que causam ao demônio um medo capaz de desfazer as suas tramas. Argutos, perspicazes e vigorosos, esses apóstolos são os protótipo do verdadeiro católico.



[1] Segundo a linguagem de São Luís Grignion, a sua época estava já dentro da perspectiva dos últimos tempos.

[2] Na tradução espanhola (da BAC) está consignado “Enquanto o permite a fé...” e não “quando”.

[3] O restante do tópico contém uma série de promessas sobre as quais não há comentários especiais a fazer.

[4] Zéfiro é um vento brando e agradável.