quinta-feira, 5 de março de 2026

NECESSIDADE IMPERIOSA DE REZAR SEMPRE

 

 

 “Carta de um Diretor” é um texto de autoria do Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais especialmente ligados à situação da Igreja. Publicou-a numa obra sob o título de “Luta da alma com Deus”. O Beato compara a situação da Igreja com a passagem do Evangelho em que a tempestade rugia em volta do barco onde estava Jesus com seus Apóstolos, enquanto Jesus Cristo parecia dormir, necessitando que pedissem socorro senão morreriam. Estamos vivendo uma época em que a Igreja está naufragando e precisamos pedir a intervenção divina para que nos socorra. “A Igreja caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode salvá-la”, conclui ele.

Numa série de conferências feitas em 1957 para seus filhos espirituais, comentando o livro “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, de Santo Afonso Maria de Ligório, o Sr. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira define um grave problema que entrava a vida espiritual dos cristãos, que ele chamava de “encalhe espiritual”. Quer dizer, está definindo uma situação em que a pessoa se atola, encalha, fica empacado no mesmo lugar, ou até decaindo, por causa de fatores que o impedem de progredir e de se santificar.  E aponta como única solução a oração, conforme ensina Santo Afonso neste seu livro.

 

Transcrevemos a seguir todo o texto de Dr. Plínio que aborda a questão acima:

 

Importante princípio de Santo Afonso

“Eu gostaria de focalizar mais alguns aspectos da oração, muito bem tratados por Santo Afonso, porque se baseia em ótimas citações, e ele mesmo é uma grande autoridade cujas palavras merecem ser mencionadas.

Trata-se de saber, fundamentalmente, e de forma racional, como a oração pode nos conduzir ao resultado desejado. Com que fundamento? Baseados em que razão nos podemos servir da oração para chegar a obter a graça pedida?

Eu queria desenvolver aqui um princípio dado por Santo Afonso de Ligório. Eu me lembro de já ter aludido a esse princípio, mas acho-o tão importante que é necessário fazer novamente uma insistência a respeito desse assunto.

O princípio é o seguinte: para as dificuldades comuns da vida espiritual, a graça comum, dada a todas as pessoas, é suficiente. Mas para as dificuldades extraordinárias, não basta. São necessárias, também, as graças extraordinárias.

 

Um mito “neo-semipelagiano”

A pessoa, em via de regra, obtém pedindo. É por meio da oração que se conseguem vencer as grandes dificuldades da vida espiritual. Devemos, no entanto, afastar de nosso caminho um mito: a vontade humana é suficientemente forte, só por suas forças, para fazer todo o necessário para se santificar.

Ninguém aqui entenderia esse mito tomado num sentido inteiramente literal, pois acabaria dando, em última análise, no pelagianismo. Isto é, a desnecessidade da graça para a salvação. Mas, há um modo diferente, uma espécie de neo-semipelagianismo – se pudéssemos dize assim – o qual, aliás, não tem nada de comum doutrinariamente com o pelagianismo. Mas acaba numa atitude psicológica ligeiramente parecida com a desse erro. Poderíamos enunciá-la da seguinte maneira:

Deus me dá sempre as graças suficientes para a minha salvação . Se Ele mas dá, ainda que eu não peça, não vejo por que é preciso pedir mais. Se a graça é suficiente, eu topo a parada e correspondo. Quanto ao resto, eu toco o barco e está acabado.

Esse estado de espírito esteve radicado, por ignorância, durante muito tempo em minha cabeça. Para mim, o problema se punha assim: é ou não é  verdade que Deus dá a todos os homens a graça suficiente para se salvarem? É. Se Ele dá as graças suficientes, mesmo não as pedindo, não compreendo por que eu devo pedir. Se eu sou generoso, correspondo, tiro proveito. Ele dá sem eu pedir. Eu não compreendo o papel representado pelo ato de pedir diante disso.

Entretanto, o erro está nesse ponto. As dificuldades maiores da vida espiritual, não as vencerei a não ser pedindo. A graça suficiente, para isso não me basta.

 

Para se obter graças extraordinárias é preciso rezar

A graça comum me serve para as ocasiões comuns da vida, mas para as grandes dificuldades precisa de graças extraordinárias. Isto Santo Afonso tira de São Tomás de Aquino e de outros santos.[1]

Eu fico, então, colocado diante de um panorama novo. Para as dificuldades grandes de minha vida espiritual eu preciso de graças especiais, mas preciso rezar para obter.

 

As grandes dificuldades da vida espiritual

Agora, põe-se o problema: quais são as grandes dificuldades da vida espiritual?

Todo o mundo tem a impressão de serem essas grandes dificuldades as ocasiões de grandes tentações. Por exemplo, uma pessoa tentadíssima está atravessando uma crise e precisa rezar. Depois, quando passam as crises, a pessoa não tem grande dificuldades de vida espiritual, e, portanto, não precisa rezar de um modo especial. Isso é falso.

As grandes dificuldades na vida espiritual consistem em vencer os grandes defeitos. Os assuntos de vida espiritual são personalíssimos, variam de indivíduo para indivíduo. Algo custoso para mim, para outros será uma bagatela, e vice-versa. Todos nós temos algumas imensas dificuldades dentro da vida espiritual para vencer. E isto vai assim até o fim. Vai até o momento da morte!

Primeiro para vencê-las, e depois para sustentar a vitória, o que é quase tão difícil quanto vencer. Às vezes se é mais tentado a perder uma vitória adquirida do que, propriamente, em conseguir alcançá-la.

Por exemplo, há santos que conseguem emendar-se de uma vida má e guardar a castidade durante anos. Mas, depois, são mais tentados em matéria de pureza do que quando eram ruins. Sofrem mais para conservar a castidade recuperada. Nós vamos ter essa luta, em alguns assuntos prodigiosamente difíceis, a vinda inteira. E para isso as graças comuns não bastam, são necessárias graças extraordinárias, que é preciso pedir.

 

O pedido deve ser proporcionado ao perigo   

Pedir! É necessário acentuar este ponto. Pedir com uma insistência proporcionada ao tamanho do perigo corrido. Se eu corro grande risco, se estou sendo muito tentado, se estou num período de muita tentação, não tenho o direito não pedir proporcionadamente ao risco corrido. Se na minha vida espiritual eu encontro no meu caminho não um dragão, mas uma pedra, muitas vezes é mais difícil de tocar do que um dragão.

Uma pedra! Certa pessoa me disse numa ocasião, não conseguir examinar-se inteiramente, nunca! Não sabe o que acontece dentro de si. Isso não é um dragão, mas é uma pedra parada no meio do caminho.

Pois bem, isso é um obstáculo. Se eu não rezo proporcionadamente à gravidade dele, segundo Santo Afonso de Ligório eu cometo um pecado do tamanho representado por aquele obstáculo.

Se eu, por exemplo, sou muito tentado contra a pureza, é uma temeridade não rezar o necessário para me manter. Constitui um pecado proporcionado à gravidade do risco espiritual corrido. Pode até chegar a ser pecado mortal.

 

Os anjos pecaram porque não rezaram

Santo Afonso de Ligório, citando São Tomás de Aquino, faz uma afirmação que me impressionou muito. Os anjos pecaram, não tiveram forças para resistir, porque na hora da tentação não pediram auxílio a Deus.

O mesmo aconteceu a Adão e Eva no Paraíso. Em vez de eles rezarem na hora da tentação, ficaram ali saracoteando com a serpente. Resultado, caíram.

Nunca me passou isso pela cabeça... Na pormenorizada descrição do pecado de Adão dada pela Bíblia, nem ele nem Eva rezaram. Não tiveram sequer um momento de oração. E teria cabimento que eles tivessem rezado.[2]

Se Adão e Eva tivessem rezado, desde aquela ocasião, teriam conseguido vencer essa tentação. Como não rezaram, pecaram.

 

A oração, uma prática facultativa?

O homem não pode, sem pecado de temeridade, deixar de rezar, na proporção necessária, pela liberação de seus problemas.

De acordo com o conceito comum, é pecado não ir à Missa ao domingo, e o resto é facultativo. Também não seria pecado rezar de manhã e à noite. Porém, a oração não se apresenta para nós como algo facultativo.

Isto explica por que razão um certo senso de piedade nos leva a considerar algumas práticas  do Grupo[3] tão obrigatórias como, por exemplo, rezar o rosário todos os dias. Para nós é uma dessas obrigações de virar e romper. Aconteça o que acontecer, dê no que der, diga o que disser, doente, agonizante, seja como for, Rosário diário. Qual a razão disso? Afinal de contas alguém poderia dizer: isso é ridículo! Mas, o Grupo acaba tendo mais severidade para com o Rosário, que não é obrigatório, do que em relação a outros pontos, em última análise, mais importantes. Por exemplo, mais vitórias sobre certas manifestações de egoísmo. O egoísmo, afinal de contas, constitui um mal sobre o qual poderia haver vitórias.

Ceder ao egoísmo pode ser pecado. Mas, podemos procurar todos os teólogos do mundo, e nenhum dirá ser pecado não rezar o Rosário. É evidente! Contudo, tomando-se em consideração determinadas almas, em determinadas circunstâncias de vida espiritual, em determinadas situações, teriam elas o direito de não rezar aquele Rosário?

 

Exemplo de Santo Afonso: “Se eu deixar passar um dia sem rezar o Rosário, comprometo a minha salvação eterna”

É famoso o caso de Santo Afonso de Ligório, ocorrido nos últimos anos de sua existência aqui na Terra. Estava ele muito doente, paralítico e, além disso, ficou com o pescoço torto. Ele, que fora um homem de estilo, sumamente inteligente.

Para se distrair um pouco, era levado por um irmão, num carrinho, através do convento, e juntos iam rezando o Rosário. Às vezes os dois perdiam o pé e não sabiam o se tinham rezado o Rosário ou não. Então, tinham que começar tudo de novo. O irmão, que evidentemente não era Santo Afonso, entrou com o conselho de bom senso. Por que Santo Afonso não deixava de rezar o Rosário naquele dia? Porque afinal já tinham rezado, certamente, os três terços...

Resposta de Santo Afonso:

- Irmão, o que é que o senhor está me aconselhando? O senhor não sabe que se eu deixar passar um dia sem rezar o rosário eu comprometo minha salvação eterna?

Todo mundo pensa que é um dito: “Nosso pai Santo Afonso, não podia deixar...”

Não é isso, não. É completamente diferente. Ele, conhecedor de sua vida espiritual e tendo verdadeira piedade, sentia, sabia perceber, ser o Rosário uma devoção que, de fato, condicionava a salvação e, portanto, era preciso rezar direito.

Esta obrigação de rezar proporcionalmente às nossas tentações, ou às nossas necessidades espirituais, acaba se impondo, sob pena de pecado. Naturalmente, é preciso dar os descontos e não geometrizar. É preciso tomar em consideração as fraquezas e uma série de circunstâncias.

 

O capitão sitiado

A esse respeito, Santo Afonso cita um pensamento de São Boaventura, muito interessante; Imaginem um capitão que está sitiado numa praça forte. Ele tem ao seu alcance a possibilidade de pedir o auxílio ao rei, logo que ele seja cercado. E ele pode estar certo de recebê-lo, porque o rei sempre ouve o chamado e tem meios de fazer chegar as tropas ao ponto atacado. Esse capitão luta para vencer o inimigo, sem pedir o auxílio do rei. Resultado, ele cai, e a posição dele é dominada pelo  inimigo. Poder-se-ia perguntar: o rei não considerará um traidor esse capitão?

Eu acho o argumento muito bom.

Ora, o mesmo se dá conosco, em relação a Nosso Senhor. Se nós podemos pedir auxílio, obtendo certamente tudo quanto quisermos, teremos nós o direito de não pedir esse auxílio, sem traição? E de não pedir com tanta insistência quanto é necessária para sermos socorridos? O argumento é muito concludente, faz-me sentir muito bem o problema ao vivo.

 

Mais vale rezar do que meditar

Ele tira daí uma conclusão curiosa. Mais vale a pena rezar do que meditar. Isso não quer dizer, absolutamente, que se tenha o direito de rezar muito e deixar a meditação. Ela é indispensável na vida espiritual. Mas, quer dizer outra coisa. O desleixo na meditação é menos grave que o desleixo na oração. Eu fiquei um pouco espantado quando encontrei isso, mas é perfeitamente racional.

A meditação nos mostra os defeitos, bem como as virtudes que devemos adquirir, e os meios a conjugar para alcançá-las. Mas, a meditação não nos dá, de “per si”, aquilo que a oração dá, que é a vontade de alcançar essas virtudes. A meditação nos mostra a necessidade da oração. Mas, verdadeiramente, o eixo da vida espiritual, mais ainda que na meditação, está na oração.

E são quatro os textos de Santo Afonso de Ligório neste sentido.

“Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas poucos se ocupam de súplica. Não resta dúvida que a leitura e a meditação das verdades eternas seja coisa de muita utilidade; mas muito mais útil diz Santo Agostinho, é o suplicar, nas leituras e nas meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações, mas na oração obtemos a graça de cumpri-las”.

A formulação está esplêndida!

A seguir o trecho de Santo Agostinho:

“...Melhor é orar do que ler; na leitura conhecemos o que devemos fazer, nas oração recebemos o que pedimos”  (In Ps 75)

Volto agora a Santo Afonso:

“De que serve conhecer a obrigação de fazer e depois não o fazer; de que serve senão para tornar-nos mais culpados perante Deus? (...) O fruto maior da oração mental é de nos fazer pedir a Deus as graças de que precisamos para a perseverança e a salvação eterna”.

A própria oração mental tem como fruto maior a deliberação de rezar. Isto é muito interessante, até para o modo de fazermos os Exercícios Espirituais.

 

Primeira resolução da meditação: pedir

Deflui disto uma conclusão. Nós habitualmente chegamos às tais resoluções decisivas da meditação: “Eu vou fazer tal coisa”. Mas, devemos colocar sempre, em primeiro lugar, a resolução de pedir. Isto é perfeitamente coerente com essa doutrina.

Outro trecho interessante é o seguinte:

“Principalmente por isso, a oração mental é moralmente necessária para a alma conservar-se na graça de Deus, porque, se a pessoa não se recolhe durante a meditação para pedir os auxílios necessários à perseverança, não o fará em outro tempo; pois que sem a meditação não se pensa em pedi-los e nem se pensa na necessidade que há de pedi-los. Ao contrário, quem todos os dias faz a sua meditação, bem conhecerá as necessidades da alma, os perigos em que se acha, a necessidade que tem de pedir e assim pedirá e obterá as graças que então o farão perseverar e alcançar a salvação. Falando de si, dizia o padre Ségneri que, a princípio, na meditação ele mais se ocupava em fazer afetos do que súplicas; mas, conhecendo depois a necessidade e a imensa utilidade das súplicas, daí por diante, nas muitas meditações que fazia, se aplicava a fazer súplicas. (...)”

“Refere o padre Rodrigues que os antigos padres, os nossos primeiros mestres espirituais, consultaram entre si para ver qual o exercício mais útil e necessário para a salvação eterna, e resolveram que era repetir amiúde a breve oração de Davi: “Deus in adjutorium meum intende” – Senhor, vinde em meu socorro”.

Era essa a oração recitada por Luiz XIV quando se viu perdido na hora da morte: “Deus in adjutorium meum intende”. Encontrou ele a oração dos bons autores espirituais.

“Para se chegar à perfeição, dizia São Bernardo, é necessária a meditação e a petição; com a meditação vemos o que nos falta; com a petição recebemos o que nos é necessário: subamos pela meditação e petição; aquela mostra o que falta; esta faz que nada falte”.

A boa harmonia estabelecida entre uma e outra!

 

Necessidade de relembrar estas verdades

Eu gostaria de terminar com o seguinte:

Para se ter uma vida de oração perfeita é preciso preparar-se, e não permitir que essas verdades se embacem no nosso espírito. Eu tenho receio de que tudo quanto foi dito até aqui, termina esta série de exposições, também acabe sendo esquecido.

É preciso ficar algo como elemento adquirido para a compreensão da importância da oração para a vida inteira. Eu tenho a impressão de ser muito oportuno aqui aquele conselho que está alhures no Novo Testamento: antes da oração devemos preparar a alma.

É preciso lembrar e meditar com frequência o que foi dito, ressuscitando isso no espírito, para que os canais da oração fiquem completamente desobstruídos.

Além de pura teologia, adquirimos sobre a oração uma série de pequenas impressões, vindas das relações com Deus. As orações frustradas, as orações onde se tinha a impressão de que devíamos ser atendidos e não fomos, as orações onde tudo foi para trás, a aridez na oração, uma certa sensação de estar Deus distante, tudo isso acaba por entrar na nossa alma, transformando o que foi dito em letra morta.

Em teoria, não se nega ser isso verdade, mas, na ordem prática, não se age em consequência. E o resultado é que, naturalmente, a vida de oração fica muito prejudicada.

Poderíamos fazer o seguinte:

Consagrar uma vez por semana, ou a cada 15 dias, ou uma vez por mês, conforme a vida espiritual de cada um, um tempo necessário para rememorar tudo quanto diz respeito à oração. Vendo quais são os “nós” existentes no momento, e tratando de desencalhá-los. Só quando isso estiver bem regulado a oração produzirá frutos.

 

“Nós” provocados por certas impressões

Quantas vezes há na vida de oração “nós” assim:

Por exemplo, alguém antes de vir para a reunião, passando a pé em frente à Igreja do Coração de Maria, olha para a estrada, acha a igreja convidativa, e não estando ainda na hora da reunião, resolve entrar. Uma vez dentro, ajoelha-se para rezar, e não tem mais impressão nenhuma. Aquilo foi uma frustração, uma espécie de consolação que sentiu do lado de fora, mas dentro da igreja não sente. Zero! Há impressões de piedade como esta que acabam pesando na vida espiritual.

E assim, há uma série de outras impressões do mesmo porte, na vida espiritual.

Outro exemplo. Estamos muito consolados, entramos na igreja para comungar, comungamos... Puft! Acabou tudo. Tudo isso acaba por nos dar a impressão que Deus desmente a teologia e não faz conosco um jogo leal, um jogo teológico. Resultado, ficamos com uma espécie de “sente dó” da teologia, não querendo dar importância a Deus.

 

Desconfiança em relação a Deus

Por mais absurdo que seja, isso acaba pesando na vida espiritual e temos desconfianças. De fato, quando não renovamos constantemente aqueles princípios na vida de piedade, ela acaba não sendo comandada por eles, mas por outras impressões do tipo dos que acima descrevemos.

Então, a pessoa pensa: “Afinal de contas, por culpa minha, as orações que eu faço não merecem ser atendidas, e agora estou no buraco. Por que razão vou continuar a rezar? Porque Ele se zanga se eu não rezar. Mas, assim mesmo, eu não saio de dentro da entalada. Resultado, para mim, a oração é o pagamento daquele imposto. Eu vou lá todo o dia, pepé, pepé, pepé, o meu rosário leva 25 minutos, rezo aquilo, mas as nossas relações estão rompidas.

“Dependia de mim fazer um pacto, que por minha culpa eu não faço. Deus está no nicho d’Ele vendo se eu faço ou não. Ele continua a pingar aquela graça, mas eu não correspondo. Então nós não temos mais o que nos dizer.

“Estamos brigados?! Não!

“Nós estamos como marido e mulher que ainda moram debaixo do mesmo teto, mas perderam o assunto, só conversam coisas formais. Não temos mais o que conversar um com o outro”.

Quantos vivem com Deus assim, reduzidos ao regime das formalidades. Se alguém lhes disser:

- Subscreva a seguinte tese: Deus não ouve a oração do pecador.

Ele diz:

- Não, Ele ouve!

-Então, por que não ouve a sua?

- Ah! Não! A minha é “poca”. Deus não a ouve exatamente porque sou pecador...

 

O ponto onde se é mais tentado

Quer dizer, ele admite funcionar para si um sistema que, ele próprio, acha não vigorar para ninguém no mundo. Ele não tem um pingo de confiança. Uma espécie de areia péssima entrou na engrenagem da sua vida espiritual e fez com que ele, na prática, não tenha uma vida de piedade filial em relação a Nosso Senhor. Eu não conheço ponto onde a pessoa seja mais tentada do que esse, da oração. E sem percebê-lo.

Eu me lembro de inúmeras tentações destas, que em tempos passados entraram na minha cabeça.

 

As comunhões do Sr. Dr. Plínio

Quando comecei a comungar todos os dias, eu me deparei com o seguinte problemática: eu gosto de vir receber a Nosso Senhor. Porém, seria razoável que eu pensasse n’Ele e não em mim. Eu me perguntava a mim mesmo:

- Será que Nosso Senhor gosta de visitar a minha alma? Terá Ele razões para gostar de mim?

E eu ficava, naquele momento, sem saber como obter a resposta, pois Nosso Senhor vinha a mim de qualquer maneira, bastava eu me aproximar e o padre dar a comunhão.

Eu não estou em estado de pecado mortal. Portanto, desgostos que Lhe causem náusea, horror, Ele não tem. Mas, francamente, graça Ele não deve encontrar nenhuma, e deve achar muito sem saboronas essas visitas a uma pessoa “poca” como eu. Ele deve vir mais ou menos como um prelado, que toma uma atitude racional ao receber uma audiência cacete: é cortês, dá a mão a beijar, conversa um pouquinho...

E a minha atitude qual era? Apesar disto, eu comungava pois ainda era melhor, mas, em última análise, o resultado era um gelo de parte a parte.

Esta é uma ideia acretinada, na qual nenhum homem equilibrado pensa conscientemente. Mas, estava no meu subconsciente, e precisei desencavar essa ideia para explicitá-la.

Eu creio não ter sido injusto dizer que há muito subconsciente povoado por essas ideias...

 

Cada um de nós é a ovelha perdida

Diferente seria alguém ir comungar pensando o seguinte: “Eu pequei, não é verdade? Como Nosso Senhor vai me receber?”

Com alegria, porque sou a ovelha perdida, e Ele tem prazer em me receber. Ele dará uma festa e me acolherá mais uma vez com alegria, como acolheu ao filho pródigo. Sou pior do que o filho pródigo, pois abandonei inúmeras vezes a casa paterna. Eu sou um vira-lata, que várias vezes volta para a casa à maneira de cachorro sem dono.

Cada vez que nós comungamos bem, essa alegria se renova em Deus.

Quantas falsas impressões se estabelecem, atrapalhando a nossa vida de piedade?

É preciso desencavá-las de nossa vida de piedade para que esta produza bons frutos.

Parece-me da maior importância esse trabalho mensal de desencoscorar a oração, e manter os canais dela bem desimpedidos.

 

Benefícios que tiramos da demora em sermos atendidos por Deus

Vamos supor que eu peça a Deus o mais alto grau de santificação que, de acordo com o plano d’Ele eu pudesse atingir, mas não o receba imediatamente. O que eu posso receber de melhor com essa demora de Deus? Ele me dá uma possibilidade de praticar certas virtudes, de acordo com a Previdência d’Ele, que normalmente eu não teria.

Eu recebo, além do que pedi, os frutos específicos da demora.

Quando nós pedimos algo que nos é nocivo e esse pedido não é atendido, Deus dá algo melhor do que nós pedimos. Mas uma oração fica sem fruto específico, não fica.

Quando não recebemos o que pedimos é porque não pedimos com uma insistência conveniente, e uma conveniência convincente. Mas se a oração foi feita com a insistência e a conveniência necessárias, e for conforme à Providência d’Ele, será atendida. Há pilhas de citações do Antigo e Novo Testamento que o confirmam.

Há pessoas que pedem e recebem. Naturalmente, essa eficácia sensível supõe certas vias da Providência. Ela também pode manter alguns num regime de eficácia sensível, onde somente ao cabo de toda uma existência, ao longo de muitos anos pedindo, percebe-se ter sido atendido.

 

Por que a oração não pode ter a eficácia clara de um cheque?

Santo Agostinho trata deste assunto de forma impressionante:

Porque nesta vida os bons não são recompensados, e os maus não são castigados?

Se todo homem bom nesta vida fosse recompensado, os ruins por maldade andariam bem.

Tomemos o exemplo de uma mulher que se entrega à vida pecaminosa com o intuito de obter dinheiro. Se ela entregando-se ao pecado fosse pobre, mas praticando a castidade ficasse rica, ela praticaria a castidade.

Uma mulher entrega-se ao pecado porque encontra nisto um certo gozo. Mas, se ela sem esse prazer fosse mais feliz, ela não pecaria. Deste modo não haveria possibilidade, nesta terra, de se praticar desinteressadamente a virtude.

Isto se dá exatamente com a oração. Se por meio da oração eu pudesse obter tudo quanto quisesse, acabaria por dispor de um jogo de circunstâncias em torno de mim, por meio do qual construiria a minha felicidade.

Por isto, Deus para atender os nossos pedidos, põe à prova a nossa Fé e o nosso espírito de sacrifício, atendendo-nos de maneiras diferentes: às vezes dando diretamente, às vezes fazendo-nos passar por longas espera, caso contrário, acabaríamos caindo no puro interesse pessoal.[4]

 

A oração tudo vence

Transcrevo os comentários de Dr. Plínio sobre o papel da oração destacado no livro de um escritor católico francês do século XIX:“Com seu atraente e luminoso estilo, Louis Veuillot (*) escreveu o livro “Parfum de Rome”, onde reúne notas sobre uma de suas viagens à Cidade Eterna, que até 1870 esteve sob o poder temporal do Papado.

Nessa obra lemos o seguinte trecho, muito bonito, por diversas vezes objeto de meus comentários: "Num quarteirão deserto, nos muros de uma igreja, Enrico copiou e traduziu para mim as inscrições seguintes, traçadas a lápis por uma mão firme e exercitada: 'No dia 14 de setembro eu me encontro com má saúde por minha culpa, pela inquietação e pela desobediência. A partir deste momento, onze horas da manhã, decidi, com a ajuda de Deus e de Maria Santíssima, não mais me atormentar e recuperar a verdadeira paz. São José, rogai por nós. Um mês depois: 14 de outubro. Até este momento ainda não consegui, ou melhor, não obtive o que escrevi no dia 14 de setembro, mas agora decidi fazer tudo."

Sabemos que, nos primórdios de nossa vida espiritual, geralmente sucede isto: tomamos uma decisão e nos convertemos. Após um mês, fazemos exame de consciência e verificamos que quase nada progredimos. Então resolvemos cumprir todos os propósitos estabelecidos anteriormente, como manifestou a pessoa à qual o texto se refere.

"Dia 15 de novembro: renovo tudo aquilo que prometi, a fim de chegar a executá-lo. Dia 23 de novembro: falhei, mas prometi a mim mesmo, com toda a alma, de executar. Dia 28 de novembro: decidi ser bom. Dia 31 de dezembro: quero obedecer sempre, para agradar Maria Santíssima até a morte. 28 de janeiro: não há mais inquietação, por amor a Maria Santíssima e renovo hoje aquilo que tinha deliberado no dia 1º de fevereiro. Dia 1º de março: Não. As inquietações cessaram. Dia 29 de março: Não mais me atormentar, não mais pecar.

Nas duas últimas datas, a inscrição está rodeada de um desenho que representa duas palmas formando uma cruz. Devo confessar que estas declarações, feitas ingenuamente por uma alma provada e enfim vitoriosa, não me tocaram menos do que se eu as tivesse lido nas catacumbas, das quais elas parecem ter o perfume..."

 

O mesmo admirável perfume dos primeiros martírios

É deveras bonito o comentário de Veuillot, cujo trecho nos leva a admirar o triunfo da graça. Pois trata-se de uma alma que em diversas oportunidades firmou boas resoluções, sem lograr mantê-las. Em seguida, renovava os bons propósitos e tinha novas quedas. Afinal, à força de rezar – era uma pessoa piedosa, ciente de que sem o auxílio divino, implorado com perseverança, nada alcançaria – obtém o que tanto almejava. Depois de muito tempo e de vários insucessos, conquistou a vitória na sua vida espiritual.

Era uma alma perseguida por inquietações (talvez escrúpulos, ou alguma má inclinação à qual ela dava consentimento) e até revoltada, porque não obedecia a uma certa autoridade cujas determinações deveria acatar. Após as recaídas, e à custa de orações, acabou chegando um determinado momento em que ela pôde dizer-se obediente, pacífica e tranquila. Então, com o senso artístico peculiar ao italiano, adornou com duas palmas as datas que representavam a sua vitória.

Considerando que essas notas traduzem uma situação comum em qualquer trajetória espiritual, somos levados a perguntar porque a pessoa em questão resolveu gravá-las nos muros de uma igreja. Certamente porque foi o lugar onde recebeu uma graça particular, e onde, a horas furtivas, vinha inscrever na pedra do templo a sua confissão a Deus. Essa alma traçou ali seu diário, por desígnios da Providência, a fim de que fosse copiado e analisado por Louis Veuillot. E é este comentário do grande literato que nos interessa.

Diz ele que o fato era digno de estar escrito na parede de uma catacumba romana, pois tem o perfume dela. Ora, isso nos mostra o caráter perene da Igreja; revela-nos como, nas condições da vida hodierna, é possível repetir toda a glória do seu remoto passado. Com efeito, uma alma fiel que luta contra suas próprias misérias e que, apesar das infidelidades, roga constantemente o socorro de Nossa Senhora, para se ver resgatada de suas faltas e livre do império delas – essa alma realiza algo tão belo quanto o cristão que enfrentava no Coliseu, ou em outra arena, os leões e os tormentos do martírio.

Realmente, para quem conhece o valor das coisas espirituais, a seriedade e o desejo de cumprir o dever, o saber se humilhar quando se cai, decidir levantar-se de novo e confiar na misericórdia de Maria, possui um perfume admirável. É o bom odor do sofrimento humano suportado com fé. No episódio descrito por Veuillot se percebe a alma sofredora que se dilacerou para conseguir a fidelidade aos seus propósitos. Ela teve uma fé que move as montanhas, e finalmente alcançou seu objetivo.

Ora, esse torcer e sangrar da alma para cumprir seu dever é uma forma de imolação que tem o aroma de todos os martírios. Quiçá não ateste o heroísmo num grau análogo ao daqueles cristãos sacrificados nos circos romanos. Porém, basta manifestar um certo sentido de heroísmo para exalar algo do perfume das catacumbas, todo feito do espírito de epopeia dos primitivos católicos que as frequentavam.

 

Orar sempre, orar muito, sem desânimo

Cumpre colhermos dessas considerações uma aplicação para a nossa vida espiritual. E será compreendermos que jamais devemos desanimar quando não conseguimos cumprir os bons propósitos que fazemos. Ainda que tenhamos insucessos, é necessário rezar, confiar e orar ainda mais, porque à força de pedir, o Céu se abrirá para nós. Os que imploram com insistência a graça de praticar a virtude, por débeis que sejam, pertencem por excelência à categoria daqueles aos quais Nosso Senhor recomendou: "Batei e abrir-se-vos-á; pedi e dar-se-vos-á". Quer dizer, é uma glorificação da prece como meio eficaz para o homem obter aquilo que, pelo seu próprio recurso, não alcançaria.

Alguém poderá dizer: "As minhas orações valem pouco".

Eu respondo: então reze muito. Pois se possuo apenas algumas moedas para adquirir uma joia bastante valiosa, é-me necessário reunir uma grande quantia para comprá-la. Assim também, se julgo que minhas orações valem pouco, à força de acumulá-las, seu peso há de crescer. Se considero meu rosário insuficiente, recitarei dois. E se não tenho tempo para os dois, direi um rosário e uma Ave-maria. Como quer que seja, rezarei o mais possível, e essa persistência acabará por me alcançar do Céu a graça desejada.

A esse respeito, não posso deixar de mencionar, uma vez mais, a célebre parábola de Nosso Senhor no Evangelho. É noite, e um homem já se encontra deitado com seus filhos, para dormir. Em certo momento, o vizinho lhe bate à porta, rogando-lhe um pedaço de pão.

– Chegaram hóspedes inesperados, e não tenho o que lhes servir – disse-lhe.

E o primeiro respondeu: – Não posso atendê-lo, pois estou deitado com todos os meus filhos. O vizinho continuou a bater e a insistir, até que o dono da casa lhe gritou:

– Não é por amizade, mas para me ver livre da sua amolação é que vou me levantar e lhe dar o pão.

Com essa parábola Nosso Senhor nos oferece o seguinte ensinamento:

"Sede assim em vossas orações". É como se Deus acabasse dizendo a cada um de nós: "Este é muito cacete. Vou atendê-lo". Tenhamos, pois, a excelsa virtude da caceteação. Saibamos ser importunos e pedir, pedir e pedir outra vez. No pedido mil e um obteremos mais do que suplicamos. Ganharemos uma paga imensamente grande. Essa circunstância se dá de um modo ou de outro na vida de todos os homens, mesmo na daqueles que se acham adiantados na prática da virtude. Para galgarem um patamar ainda mais elevado nas vias do bem, é necessário rogar muito. Então peçamos, lembrando-nos desse diário visto por Louis Veuillot em Roma. A oração acaba vencendo tudo.

Uma palavra final. Se alguém estiver desanimado, desacoroçoado, julgando infrutíferas suas preces porque nada conseguem, dou-lhe este conselho: tome o rosário, reze-o e nunca o abandone. Quando não puder recitá-lo, segure-o na mão e este gesto valerá por uma prece. Se possível, tenha em casa uma lamparina acesa constantemente junto a uma imagem de Nossa Senhora, e diga à Santíssima Virgem: "Minha mãe, sou tão dissipado que não consigo rezar. Mas, quando olhardes para esta lamparina, lembrai-Vos de que eu quereria estar rezando. Ao mesmo este desejo subconsciente me acompanha a vida inteira". Portanto, dirijamo-nos a Maria Santíssima em todas as ocasiões. Certo estou de que, se Ela demorar em nos atender, é porque nos reserva um dom imensamente valioso, muito maior do que podemos imaginar”.[5] (*) Louis Veuillot (1813-1883), jornalista católico francês, que defendeu com brilho a infalibilidade do Papa.



[1] É verdade, diz S. Agostinho, que o  homem, em sua fraqueza, não pode observar certos preceitos, com a sua força atual ou com a graça comum  a todos; mas, pode certamente, por meio da oração, obter o auxílio maior do qual necessita para observá-los: “Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda exorta a que façamos o que pudermos e a que peçamos o que não pudermos e nos auxilia para que o possamos”. (De nat et Trento 44, n 50). É célebre esse texto do Santo, o qual depois foi adotado pelo Concílio de Trento (Sess 6, c XVII) e declarado dogma de fé. “A lei foi dada para que se procure a graça; a graça é para que se cumpra a lei”  (In Ps 100. S. Tomás diz contra Jansênio: “Portanto, não devemos dizer ser-nos impossível a castidade ou outro qualquer preceito, porque muito embora não o possamos guardar por nós mesmos, contudo o podemos mediante o auxílio divino: Deve-se dizer que o que podemos fazer com o auxílio divino não nos é absolutamente impossível”  (1-2, q. 19, a.4, ad 2).

[2] Não duvida afirmar o Santo [Agostinho] que Adão caiu por não se haver recomendado a Deus na hora da tentação. “Adão pecou porque não recorreu ao divino auxílio”. O mesmo escreveu  S. Gelásio, falando dos anjos rebeldes: “Receberam a graça de Deus em vão, e porque não oraram não puderam manter-se na justiça/’ (Tr. adv  pelag haer)

[3] No início de seu apostolado o grupo que seguia Dr. Plínio foi chamado “Grupo do Plínio”, “Grupo do Catolicismo”, ou, internamente, simplesmente de “Grupo”.

[4] Extraído do opúsculo “Comentários ao livro “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, de Santo Afonso de Ligório – Compilação de seis  conferências do ano de 1957 – Plínio Corrêa de Oliveira – págs. 57/68

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O ROMANTISMO, PRINCIPAL CAUSA DOS CRIMES ORIUNDOS DO ADULTÉRIO

 


 

O clima do amor livre pode levar ao desespero?

O crime mais comum, hoje em dia, decorre do adultério. Em geral, o homem mata a sua mulher (nem sempre a esposa) para se vingar da traição dela, e depois se suicida. Mas, há variedades trágicas nessa loucura: às vezes é a mulher que mata o homem, e noutros casos matam também os filhos. Há casos dos pais de mulher matar o homem que a maltrata, e também de filhos matar o pai. Enfim, é um verdadeiro torvelinho de maldades, vinganças e ódios, ocasionados todos por causa da traição no relacionamento amoroso ou, simplesmente, o adultério. Assim falou São Nilo sobre o nosso tempo: “A luxúria, o adultério, a homossexualidade, as ações secretas e a morte serão a regra da sociedade. Nesse tempo futuro, devido o poder de tão grandes crimes e de uma tal devassidão, as pessoas serão privadas da graça do Espírito Santo, recebida no seu batismo, e nem sequer sentirão remorsos”.[1]

Eis a explicação resumida do que decorre do que disse São Nilo: a graça do Espírito Santo nos vem como uma bênção divina por causa de nossa fidelidade aos Mandamentos da Lei de Deus; no entanto, por causa dos crimes, dos pecados sociais principalmente, ficamos privados dessas bênçãos e sujeitos às maldições. É o que vem ocorrendo nos dias atuais.

Talvez o pecado social mais terrível seja o do adultério, pois atrai tais maldições que chega a provocar assassinato e suicídio. No Antigo Testamento, desde o tempo de Moisés, é recriminado como um pecado sujeito às maldições divinas e terríveis castigos. A mistura da idolatria com os princípios divinos era chamada pelos Profetas de “adultério”, o que seria o mesmo que sincretismo. O adultério sempre foi tido como a simples traição dos esposos, mas nas Escrituras era usado como metáfora para simbolizar a mistura de crenças ou a traição a Deus, como consta em Esdras (9, 1-2) e em outros lugares comparado com a prostituição, principalmente no livro de Oséias (Os 1, 2): “a terra de Israel não cessa de se prostituir, abandonando o Senhor”.

Tornou-se comum nas Escrituras os profetas referir-se à prevaricação do povo eleito, comparando-a com a prostituição ou o adultério. O Profeta Ezequiel foi um deles: “E aconteceu que depois de tanta malícia tua (ai de ti, diz o Senhor Deus), edificaste para ti um lupanar, e fizeste para ti em todas as praças públicas uma casa de prostituição. Puseste à entrada de todas as ruas o sinal da tua prostituição..”  (Ez 16, 23-25).

O Profeta Jeremias também usa a metáfora: “E embora tivesse visto que eu tinha expulsado a rebelde Israel e lhe tinha dado o libelo de repúdio, não teve temor a prevaricadora Judá, sua irmã, mas foi-se, e também ela se prostituiu, e com a frequência de sua prostituição contaminou toda a terra, e adulterou com a pedra e com o lenho (adorando-os como deuses)”  (Jer 38, 8-9).

Um exemplo que demonstra a comparação da infidelidade do povo a Deus com a de uma mulher adúltera temos também no Profeta Oséias (Os 2, 25), embora este tivesse vivido antes do cativeiro da Babilônia, ao tempo do cisma de Samaria.

No Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo disse o seguinte sobre o adultério: “Sabeis do mandamento dado aos antepassados: Não adulterarás; Mas eu digo-vos: Quem olhar para mulher com mau desejo, já cometeu adultério no seu coração”. Não só isso, disse mais que se um órgão escandaliza é melhor cortá-lo “porque mais vale perder a vista ou a mão do que ir com todos os membros para geena do fogo” (Mt 5, 28-30), isto é, o inferno. Condenou também o divórcio, autorizando a separação dos esposos apenas em caso de infidelidade, mas sem se contrair novas núpcias... São João Batista fez o mesmo ao increpar duramente os adúlteros Herodes e Herodíades que escandalizavam a nação. 

De tal forma o pecado de adultério é visto hoje como coisa normal, sem qualquer rejeição social, que as redes sociais brincam com enredos deste tipo, dando risadas, mostrando casos e mais casos de traições, alguns terminados em tragédias, mas a maioria em paz e harmonia, às vezes até com a permanência da amizade entre aqueles que se viram traídos. Muitos se vangloriam de permanecer amigos do consorte que o largou, manifestando satisfação em dizer que frequenta sua casa e familiares. Assim, se cria um clima social inteiramente conivente e de aceitação pacífica do adultério. É claro que nada justifica os atos tresloucados dos que se vingam com ódio. Um erro não justifica outro. O que não deve ser aceito é esse clima falso e hipócrita de convivência social com quem pratica tais pecados de uma forma acintosa e pública.

O que resulta disso tudo? A prática do amor livre, isto é, aquela situação em que qualquer união matrimonial pode ser justificada, desde que haja “amor” entre os dois. O que seria este amor? Apenas as sensações românticas dos enredos das novelas e nada mais. O gozo dos prazeres é o ponto máximo deste “amor”, daí ninguém aceitando sofrer nada por causa desta convivência amorosa. Sofreu? Vingança imediata conforme o sofrimento.

Os crimes deste tipo, seguidos de suicídios, nada mais são do que desesperos causados pelo romantismo, frutos deste falso amor. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, tópico 2400, “O adultério e o divórcio, a poligamia e a união livre são ofensas graves à dignidade do matrimónio”.

Ao longo dos anos foi sendo alimentado na população um desejo incontido de amor romântico, muitas vezes até platônico, criando a utopia de certa felicidade no gozo dos prazeres, sentido com a convivência entre um casal. Vamos falar dessa convivência.

A convivência social começa no casamento

Uma das coisas primordiais para o aperfeiçoamento humano é o convívio social. E será pelo convívio que as pessoas poderão mais facilmente aprender como ser regidos, co-reger ou mesmo reger a sociedade em que vivem. Conviver é o mesmo que “viver com”, ter uma vida participativa com as pessoas de seu relacionamento mais próximo, e, às vezes, até mais afastado. O homem nasceu para viver em sociedade, mas não somente na sociedade terrena, pois faz parte do nosso convívio também todos aqueles que vivem na eternidade, embora de uma forma diferente.

O primeiro relacionamento social, o princípio básico de se relacionar com outro ser é o que diz respeito ao próprio Deus.  Então, quando estamos próximos de Deus em nossos pensamentos, em nossas orações e nos atos, cumprindo seus mandamentos e O adorando como Ele merece, O amando como Ele é amável, estamos iniciando um convívio que não é meramente terreno, mas celeste. Sempre que meditamos coisas divinas, nosso coração sente o palpitar da centelha divina, que nos alimenta com coisas boas e nos dá segurança nos nossos juízos interiores e em nossas decisões. É Deus agindo em nosso interior, em nosso íntimo, no âmago de nossa alma, relacionando-Se conosco.  É assim que convivemos com Deus em nosso interior. 

Mas, o convívio com Deus pede que seja feito não somente com o Pai, mas também com o Filho e o Espírito Santo, pois são estas três Pessoas Divinas que compõem a divindade. Assim, precisamos nos deixar levar pelas inspirações do Espírito Santo e, ouvindo conselhos sábios de irmãos mais santos, participando de atividades apostólicas benfazejas para o Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, poderemos dessa forma ter uma convivência com o Espírito Santo. Depois disso, obedecendo às mesmas inspirações d’Ele, fazemos nossa confissão a um Sacerdote, uma convivência interior e íntima entre nós e o representante de Deus com poderes de perdoar nossos pecados, e ficaremos prontos para conviver com o Filho, indo à igreja e recebendo-O na Hóstia Consagrada. Até aqui podemos dizer que temos a convivência interior com a Santíssima Trindade. A palavra “convivência” pode não ser adequada para definir essa situação, pois a doutrina católica diz que a graça divina nos traz a nós como que uma participação na vida divina, trata-se de algo mais profundo do que uma simples convivência. Para completar essa abençoada convivência, nada melhor do que a devoção à Nossa Senhora e a São José, que do Céu nos dirigem, nos protegem e até nos ensinam a viver a convivência perfeita com Deus.

De outro lado, a convivência humana não pára aí.  Pois Deus quer que convivamos com todos os seres por Ele criados, os Anjos e os homens. Estes últimos estão facilmente ao nosso alcance, pois alguns ainda vivem ao nosso lado nessa vida terrena. Quanto aos Santos Anjos, a convivência terrena com eles é meramente espiritual, vez por outra alentada por uma ação em nossa vida que nos faz senti-los mais de perto. Rezando a eles pedindo suas proteções, orientações, conselhos, governo, etc., estaremos estabelecendo uma profícua convivência angélica.  Embora seja mais sentida interiormente, ela se refletirá em toda a nossa vida e atuação terrena. Por causa disso os santos dizem que os Santos Anjos formam com os homens uma só sociedade, onde há convivência recíproca entre todos os que dela participam, anjos e homens.

Depois, temos a convivência com os próprios homens, entre nós mesmos, mas não só aqueles com os quais vivemos neste mundo, mas com aqueles que partiram para eternidade. Mais um tipo de convivência, no entanto meramente interior e espiritual. São as almas de nossos entes queridos e todos aqueles já falecidos, pelos quais temos obrigação de rezar ou pedir auxílio em nossas necessidades. Nessa última categoria estão não somente aqueles que sabemos ter morrido em estado de pecado ou em odor de santidade, mas os santos canonizados pela Igreja, que estão no Céu a nos proteger e nos preparar para a glória eterna.

Finalmente, por último, convivemos com as pessoas que ainda vivem. Estão ao nosso lado, pelo menos de uma forma material. Precisamos conviver uns com outros a fim de nos reger e ser regidos, aprender a viver santamente, e nos preparar para a eternidade. Ninguém consegue viver isolado dos demais, Deus nos fez com disposições próprias a viver em sociedade. Por isso ser tão salutar ter bom convívio social, e tão maléfico o convívio meramente mundano. Há pessoas que moram ao lado de outras, mas vivem isoladas, por desejo próprio ou por causa dos demais, trazendo grande mal ao seu desenvolvimento social e humano. A solidão é um grande mal, que a sociedade moderna não consegue vencer porque o homem de hoje não entende essa relação de convívio social numa hierarquia que começa em Deus para terminar naqueles que estão ao seu lado nessa vida. Como é que devemos ter uma boa convivência social? Suportando os defeitos do próximo? Tendo que tolerar até mesmo os importunos ou pessoas ruins que nos atormentam? Tudo isso é possível, dependendo de onde e com quem se convive. Mas, o essencial é que só conseguiremos equilíbrio de ação social nesse convívio se antes dele tivermos uma boa convivência com Deus através da Santíssima Trindade, Nossa Senhora, São José, os Santos Anjos e os Bem-aventurados, as almas do purgatório, etc. Tudo dará certo se obedecermos essa sequência hierárquica. Com as pessoas com as quais vivemos aprendemos a prática das virtudes, mas também seus vícios; através delas recebemos inspirações divinas, mas também diabólicas; é pelo convívio social que a boa e a má regência podem influir em nosso desenvolvimento espiritual. Se tivermos boa convivência espiritual com os seres celestes, teremos luzes para perceber onde está o erro e recusá-lo, e onde está o bem e praticá-lo.

Toda a convivência de um casal começa com a admiração, e só admiramos coisas boas. Nas aproximações iniciais de um para o outro as boas qualidades aparecem e brilham causando admiração: seja a beleza, a simpatia, a boa educação, ou qualquer bom atributo humano. Ao longo dos encontros pessoais essa admiração vai aumentando de acordo com as atrações simultâneas, daí gerando grande simpatia e empatia. Nos momentos iniciais dessa aproximação os defeitos não aparecem, ou são facilmente ocultados. É dessa forma que a admiração produz o afeto, o amor de um para outro.

A convivência, no entanto, vai mostrar outro lado da questão: os defeitos. Não é fácil conviver com os defeitos do próximo, muitas vezes até incômodos e de difícil aceitação. Ao saber conviver com os defeitos do consorte é que se demonstra estar equilibrando seu convívio entre admiração e rejeição. E no momento da prática das virtudes, em geral, o ser humano comete, em lugar delas, muitos erros e termina por obscurecer sua própria admiração pelo outro, oculta pelos defeitos.

O casal perfeito não é aquele que vive em paz porque não há defeitos entre os dois que possam atrapalhar a união, mas, sim, quando ambos sabem superar os defeitos do próximo com caridade e, admirando mais do que rejeitando o consorte, consiga apaziguar a vida em comum. Como é difícil viver anos e mais anos sempre admirando o outro! Como é fácil perder essa admiração perante os defeitos que sempre existem!

O mais difícil de se fazer para uma boa convivência de um casal é superar a força de vontade. Nossa vontade é algo muito forte, geralmente não desistimos dela em hipótese alguma. Assim, fica difícil conciliar duas vontades quando elas não coincidem, ou até se chocam. Aceitar a vontade do outro? Nunca! Em geral queremos impor a nossa. Tem pessoas que julgam estar se humilhando ao aceitar a vontade do outro. Mas, nunca acham que humilham quando querem impor sua vontade.

 Os males do romantismo

Existem duas mentalidades predominantes no mundo moderno: a do liberalismo e a do relativismo. Pelo liberalismo criou-se a ideia de que a liberdade deve ser completa, o homem tem liberdade de fazer o que quiser, inclusive de praticar o mal. Quanto ao relativismo, trata-se da ideia de que tudo é relativo, tanto o bem quanto o mal, permitindo ao homem ser bom ou mal conforme sua livre escolha. Sendo assim, ele é livre para romper com os compromissos de casamento quando quiser, ao mesmo tempo que não fica obrigado a conviver maritalmente somente com uma mulher, pois tudo é relativo. Outros pecados socais se somam a estes dois: o orgulho e a sensualidade. O orgulho o faz ser livre e não seguir as regras sociais, as leis, inclusive divinas; ao passo que a sensualidade o faz acreditar que será feliz quando praticar livremente os atos de libidinagem com qualquer mulher, sem qualquer censura. E o amor romântico o faz pensar que o fará atingir tal objetivo. Ao longo dos anos foi alimentado na mente das populações a ideia de que o romantismo traz felicidade. Foi até criada uma expressão para ressaltar esse romantismo sentimental: “o amor de minha vida” é a pessoa perfeita para formar um casal...

A partir da crise moral que fez decair a Idade Média, especialmente com a Renascença, surgiram vários escritores especializados em criar enredos amorosos, a maioria com tragédias, passando a se chamar tal literatura de romantismo. A partir do teatro, começaram a aparecer enredos trágicos e românticos, surgindo daí o termo “dramaturgo” para os criadores de tais enredos. O conto que simboliza melhor essa corrente foi o de Shakespeare, Romeu e Julieta: uma tragédia amorosa sentimental e sem lógica, criada para alimentar essa mentalidade que já se iniciava em seu tempo (em 1594). Já haviam diversos outros escritores contemporâneos de Shakespeare que o influenciaram muito nesse tipo de literatura.

Ao longo dos anos essa literatura foi inundando a humanidade, criando uma mentalidade totalmente sentimentalista e romântica. O romantismo criava ilusões de vida amorosa doce e paradisíaca, mas também pessimismos, desilusão e tragédias sem conta.  De tal forma que surgiu na mente de alguns a ideia de vingança, até mesmo mortal, contra a traição do consorte. O espírito de vingança é um sentimento pagão, próprio dos que se afastam da verdadeira prática religiosa e domina todos aqueles que se sentem feridos em seu amor próprio ou com a vida deleitosa prejudicada.

O principal fator explorado nesse gênero literário é o do sentimentalismo, chegando também ao cúmulo da sensualidade por causa das narrativas amorosas, onde são explorados todos os baixos instintos sexuais. Essas narrativas deixam as pessoas inteiramente possuídas por um sentimentalismo rude e às vezes até grosseiro, estúpido mesmo. Nos enredos, as mulheres são em geral comparadas com deusas por causa de suas belezas naturais elevadas até ao exagero, o que levaria seus amantes a delírios de comportamentos e entrega total à pessoa. Verdadeiro desequilíbrio moral, de tal forma que muitos crimes cometidos por causa desse romantismo frustrado é seguido do suicídio dos assassinos. Sendo assim, qualquer desilusão ou frustração, provoca uma reação violenta e  até de desespero, o que ocorre até hoje, pois o romantismo continua dominando os corações do mundo atual. Não como simples movimento literário, mas como filosofia de vida. A partir de certa época, já no início do século XX, o romantismo passou a dominar completamente a música,  terminando por tomar conta das novelas de TV,   até hoje a principal motivação destes enredos novelescos. A maioria criados para causar comoção social.

Um exemplo de como essa mentalidade estava imperando no século XIX tivemos com um crime perpetrado na Bahia, a seguir relatado. Esse clima de romantismo sentimental não era vivido somente no Brasil, especialmente na Bahia, mas em todo o mundo, sendo que aqui era fruto da mentalidade geral já dominando na Europa.

 

O crime da “bala de ouro”

Em 1847, ocorreu um crime em Salvador, na Bahia, que tem todas as características ruinosas dos males que o romantismo causa nas populações. Somente isso pode explicar como é que a sociedade baiana, em meados do século XIX, estivesse a tal ponto fanatizada pelo romantismo que tenha alimentado, e até aumentado ao exagero, todo um enredo incrível em torno do assassinato da jovem chamada Júlia Fetal. Filha de comerciante, a moça, jovem ainda e um tanto culta, enamorou-se de seu professor e dele ficou noiva, mas, depois de algum tempo, resolveu romper o noivado. Foi o suficiente para o frustrado e revoltado ex-noivo tramar a morte dela, a tiros de pistola. Logo, logo, surgiu uma lenda, criada ninguém sabe por quem, afirmando que o sujeito tinha derretido as alianças de ouro e delas feito uma bala usada no crime. Daí começaram a chamar o evento de “crime da bala de ouro”, dando ao caso de romantismo violento uma sensação novelesca e impactante. Nessa época a imprensa já usava um recurso chamado “choque de mentalidade” para conseguir vender seus jornais. Algum tempo depois foi comprovado que as balas usadas eram de chumbo, não havia nenhuma de ouro. A bala de ouro foi inventada para dar sensacionalismo ao caso e nada mais.

Não há explicação razoável para que a sociedade baiana tenha se empenhado tanto, e durante tanto tempo, sobre o crime, a não ser pela influência deletéria que o romantismo já exercia então. Tornou-se um costume bastante arraigado a leitura dos romances mais trágicos e impactantes, uma verdadeira “febre” social, como se fosse um fanatismo ideológico.

A respeito do crime de Júlia Fetal, houve muitas pessoas envolvidas na divulgação fantasiosa do caso, como a dos que escreveram poesias, historiadores e escritores se interessando pelo enredo trágico. Até mesmo o imperador Dom Pedro II, quando esteve na Bahia, alguns anos depois, visitou o criminoso na cadeia para inquiri-lo por qual motivo tinha rejeitado de fazer um pedido de indulto da pena, que a justiça oferecia no caso dele. Poderia sair já da cadeia, mas o mesmo não o quis, dizendo que iria cumprir a pena até o fim porque assim o merecia. E a cumpriu realmente.

A elite de Salvador fez de tudo para que o caso ganhasse repercussão na opinião pública, inclusive colocaram os restos mortais da moça assassinada na famosa Igreja da Graça (onde está até hoje) ao lado da sepultura de Catarina Paraguassú, personagem histórica muito importante. Qual a razão de tal destaque? Não se diz que o crime foi motivado por ódio à fé, não havia motivo religioso, mas sua sepultura foi construída dentro da igreja. Realmente, era costume serem enterradas nas igrejas as pessoas da alta sociedade, mas houve algo mais do que isso: ao lado da sepultura foi erigido um memorial com grande destaque literário e cultural, uma obra artística de valor, onde consta uma poesia em sua homenagem. Sim, a família poderia fazer a homenagem merecida à sua filha, mas qual a razão de ser logo naquela igreja histórica e ao lado de uma personagem tão importante? A motivação foi apenas passional e nada mais: era preciso que um crime romântico e trágico fosse bem divulgado para que o romantismo crescesse não somente como literatura mas como uma realidade vivida pela população. Foi apenas uma cena violenta de ciúme, coisa muito comum nas histórias românticas que se espalhavam pelo mundo, nada justificando o destaque dado ao caso.

Quem visitar a Igreja da Graça, em Salvador, vai encontrar, próximo ao altar principal, a sepultura e o memorial de Júlia Fetal, no lado oposto a outro, esse histórico e de valor, de Catarina Paraguassu.

O soneto que foi colocado no memorial retrata bem a que ponto chega a futilidade do romantismo. A primeira menção sobre a vítima é sua beleza: “Estava bela Júlia descansada”. Mas, não uma beleza qualquer, mas “na flor da juventude e formosura”, o que é natural em qualquer jovem aos 20 anos. Em seguida fala das carícias que desfrutava da mãe, também coisa mais natural do mundo; depois, a autora da  poesia fala sobre o fato da vítima ser amada por todos, o  que é um evidente exagero, pois a pessoa, por mais santa que seja, não consegue ser amada por todos. Elogia a “tua alma pura” que não previa o desenlace do fato trágico que lhe ocorreria. O restante do soneto é ressaltando a ferocidade do crime e o fato de vítima ficar “dos olhos” a “luz amortecida” e do rosto apagar-se “a branca, viva cor, com a doce vida”. Doce vida? Sim, o romantismo costuma exaltar como “doce” uma vida inteiramente sem problemas e levada sem cruzes e no gozo dos prazeres terrenos. Mas, será que todo ser humano leva uma doce vida até o dia da morte? É claro que tudo não passa de exagero sentimentalista, pois a vida de todos, por mais bondosa que seja, será sempre um “vale de lágrimas” e não de doçuras.

O tema foi explorado a exaustão por jornalistas, políticos, poetas e escritores, como o famoso  Pedro Calmon, o qual no seu livro “A Bala de Ouro” afirma  que o crime impressionou fundamente a cidade. Falaram dele os jornais, em muitos artigos, os poetas em muitos versos, o povo em infindáveis conjecturas, o presidente da província na sua mensagem oficial. Não houve na terra fato mais discutido, mais estudado, mais pintado de cores sentimentais e lendas românticas. Nada disso teria ocorrido se não houvesse uma elite interessada em explorar o caso por interesses meramente filosóficos, ou sociológicos. Era preciso que o romantismo saísse de meros contos literários e passasse para a vida real, e uma tragédia impactante era o meio eficaz para isso.

O fato da família da vítima ser possuidora de certa riqueza talvez explique o interesse da elite, e talvez até alguns familiares dela estivessem envolvidos nessa promoção. Não sei a origem da família Fetal, havendo informes que vem de longas datas. No entanto, comenta-se que, antigamente, era comum os judeus darem nomes assim depreciativos a filhos ilegítimos. E por causa disso surgiram muitas famílias com nomes estranhos. Pode ser que tenha sido o caso da  família Fetal, trazendo em sua origem uma marca desse judaísmo decadente, mas rico. Maçons e judeus, em suas sociedades secretas, especialmente em meados do século XIX, tinham em mãos poderes suficientes para divulgar tal tipo de promoção social, e assim  o famigerado romantismo cresceu mais ainda, e de uma forma impactante.[2]