Vamos dizer então uma palavra a respeito da Batalha de Lepanto e de Nossa Senhora do Rosário. Tantos foram os comentários que eu fiz a respeito da batalha de Lepanto, em vários anos sucessivos, que quase não sei o que comentar a respeito disso. Mas eu vou destacar aqui um herói da batalha de Lepanto a respeito do qual pouco se fala. E esse herói foi o Papa São Pio V.
Sem uma pressão heroica de São Pio V
não haveria se dado a batalha de Lepanto
Em que sentido São
Pio V foi herói, e em que sentido importa reconhecermos o heroísmo dele?
São Pio V via bem o
poder otomano crescer cada vez mais, e o perigo que havia de os otomanos se
jogarem sobre a Itália, por exemplo, ou sobre qualquer outra parte da Europa, e
operarem uma invasão que poderia ter efeitos tão ou talvez mais ruinosos do que
teve a invasão árabe na Espanha, no começo da Idade Média.
E por que razão
isto? É que no tempo de São Pio V, século XVI, já a Europa estava dividida, os
cristãos da Europa estavam divididos entre católicos e protestantes. E já a
partir do século XIII tinha havido uma primeira divisão dos católicos da Europa
entre cismáticos e católicos.
Havia portanto já
instalada entre os cristãos essa lamentável divisão que nós desejamos remediar
pela conversão de todos — e que o ecumenismo quer remediar pelo interconfessionalismo
—, essa lamentável divisão que enfraquece tanto as forças católicas.
No século XVI, de
São Pio V, da batalha de Lepanto, havia outra coisa. É que o protestantismo
tinha naquele tempo um vigor incomparavelmente maior do que hoje, estava ainda
na sua fase de expansão, na sua fase de luta. E era muito de se temer que os
protestantes aproveitassem a agressão feita pelos maometanos a um país
católico, para invadirem, eles os protestantes, outros países católicos. Tanto
mais que já havia disso uma experiência.
A casa D’Áustria
que, como os senhores sabem, governava a Áustria, Hungria, e à qual tocava já
habitualmente o título, e por eleição, de imperador do Sacro Império Romano
Alemão, a casa D’Áustria várias vezes se viu em dificuldades seriíssimas por
causa de combinações —ou ao menos de convergência, esforços —, claras, entre
protestantes dentro do Sacro Império e otomano de fora do Sacro Império, para
forçarem a capitulação da Casa D’Áustria, e liquidarem o catolicismo, de
imediato pelo menos nos povos de língua alemã.
De maneira que para
a Santa Sé a ameaça otomana era uma ameaça muito mais forte do que foi a ameaça
árabe, tão terrível, entretanto. Porque ao menos os católicos do tempo dos
árabes, formavam um bloco, enquanto dos católicos do tempo de São Pio V estavam
divididos. Alguns já não eram mais católicos, havia os protestantes alemães. É
verdade que no tempo da invasão árabe havia os arianos, mas os que resistiram
não eram arianos, esses eram católicos de fato e lutaram.
Nessa situação São
Pio V tinha que apelar naturalmente para o varão que era o apoio temporal da
Igreja naquele tempo, e que era Felipe II, rei da Espanha. Precisamente
porque o imperador do Sacro Império não tinha condições, por causa da divisão
religiosa no império, de lutar eficazmente contra os mouros, os turcos.
Precisamente porque a França estava corroída por uma crise religiosa muito
grande, guerra de religião, etc., e os católicos mal davam conta para vencer os
protestantes; porque a França já não tinha o fervor religioso que a Espanha
ainda conservava.
Por todas essas
razões o Papa não podia contar também com a França. Ele só podia contar,
portanto, dentre as grandes potências católicas, com Felipe II de um lado, e
depois com Veneza, que era uma grande cidade marítima, uma república
aristocrática, com largo desenvolvimento em todo Mediterrâneo, e com muitos
bons navegadores, boas frotas, etc.
Mas, se bem que o
poderio de Veneza fosse ponderável o grande poder decisivo era o de Felipe II.
Agora, acontece
que, os historiadores reconhecem — mesmo os historiadores que admiram Felipe
II, e tem muitas razões para admirá-lo, eu sou um admirador dele — os
historiadores entretanto reconhecem que Felipe II era um homem de uma indecisão
do outro mundo. Quando tinha que resolver qualquer coisa, tinha vais-e-vens,
concordava, depois discordava; e era preciso mandar embaixadores, e era preciso
falar, e ele pedia prazo, deixava passar o prazo… Era uma coisa tremenda vencer
a indecisão de Felipe II.
E São Pio V estava
vendo o perigo crescer e todo o assunto ser resolvido numa sala do palácio real
de Madrid ou do Escorial, por Felipe II com seus auxiliares ou sozinho, e no
momento em que, em última análise, Felipe II se retraísse de repente, a horda
maometana se desatava sobre a Itália, e depois atingia toda a cristandade. Era
o fim da Civilização Cristã no Ocidente. E não seria o fim da Igreja porque a
Igreja é imortal, mas a que a Igreja poderia ficar reduzida, ninguém sabe.
Pastor[1], que historia esses fatos,
conta as tratativas de São Pio V com Felipe II, e ele mesmo diz que
constituíram um verdadeiro martírio, [pelo] tanto [que] São Pio V teve que
pedir. Felipe II fazia exigências, ele não podia atender. Pedia apoio para uns
e para outros, para depois poder atender às exigências financeiras e outras de
Felipe II. Afinal conseguia. Felipe II queria mais. Depois Felipe II queria que
o Papa mandasse navios e o Papa não tinha os navios. O Papa acabava arranjando
os navios. Mandava falar, Felipe II já não queria mandar a esquadra dele. Só os
navios da Santa Sé não adiantavam…
Tanto foi a coisa
que é certo que se não fosse a
pressão de São Pio V, não se teria realizado a batalha de Lepanto,
porque a Espanha não teria mandado a esquadra que era o grande contingente
decisivo dentro das esquadras aliadas que lutaram e venceram em Lepanto. De tal
maneira que os historiadores de São Pio V reconhecem que para ele foi mesmo, ao pé da letra, naquele
momento de aflição, um martírio ele lutar naquelas condições, e que ele foi um
verdadeiro herói em aguentar a angústia que a situação lhe trazia, e ao mesmo
tempo lutar, lutar, lutar até o último momento, para conseguir
afinal de contas que a batalha se desse, que as tropas saíssem.
No momento
decisivo da batalha, Nossa Senhora aparece a São Pio V e lhe comunica a vitória
Aí os senhores
compreendem melhor porque razão é que houve a famosa aparição a São Pio V.
Todos os senhores
conhecem o caso: São Pio V estava numa reunião de cardeais, em Roma, tratando
de qualquer assunto. E em certo momento, enquanto a reunião se desenvolvia, ele
se levantou e rezou um terço, e rezou pela vitória dos católicos sobre os
maometanos, porque ele tinha a noção de que mais cedo mais tarde deveria
realizar-se uma grande batalha, e que seria decisiva para a Cristandade.
Enquanto ele rezava
o terço, ou terminado o terço, apareceu-lhe
Nossa Senhora Auxiliadora e comunicou a ele que a batalha de
Lepanto tinha sido ganha. Ele então foi para o ponto da sala onde estavam
reunidos os cardeais e comunicou isso: “Nós podemos nos tranquilizar. A batalha
foi ganha. Há uma vitória. Eu tive uma revelação neste sentido, etc.”
Naquele tempo não
se podia discutir que isso era milagre, porque não havia rádio, telégrafo,
televisão, não havia nada, e uma notícia dessas levaria um tempo enorme para
chegar de Lepanto até Roma. E ele teve no próprio dia, — eu tenho quase certeza
disso, —a revelação da batalha. O que quer dizer que foi uma revelação
sobrenatural, feita por Nossa Senhora a ele.
Agora, por que a
ele? A ele porque ele era o chefe da Cristandade, não tem dúvida. A ele também
porque ele tinha sido um verdadeiro herói, e tinha lutado a propósito dessa guerra, e tinha desenvolvido um esforço
igual ou maior que o dos batalhadores de Lepanto. Ele tinha sido um herói, verdadeiro herói,
como foi Dom João D’Áustria e como foram os outros grandes guerreiros que
venceram em Lepanto.
A verdadeira noção de heroísmo – Os dois maiores exemplos da História,
Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora
Agora, alguém me
dirá: “Isso, Dr. Plinio, eu não compreendo, porque ele não arriscou a vida, ele
ficou comodamente em Roma à espera de que viesse uma notícia. Se ele não
arriscou a vida e não combateu não pode ser herói”.
Este é o ponto, o
prisma falso que nós devemos tirar de nossa cabeça. Por certo quem luta com as
armas na mão é um herói. Mas a
doutrina católica jamais admitiu a tese de que esta é a única forma de heroísmo.
O que é o heroísmo?
O heroísmo não é apenas o ato pelo qual o homem enfrenta o risco da perda da
vida, ou o risco da perda da integridade física. O heroísmo é o ato pelo qual o homem enfrenta qualquer grande dor, ou qualquer
grande infortúnio. Isso caracteriza o herói. E há dores morais, como há
dores físicas. E às vezes as dores morais atormentam incomparavelmente mais do
que as dores físicas. E enfrentar uma dor moral é, muitas vezes,
incomparavelmente mais do que enfrentar a dor física.
Nós temos um
exemplo da heroicidade que há em enfrentar dores morais na Paixão de Nosso
Senhor Jesus Cristo. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo divide-se claramente
em duas partes. Uma é a Agonia e outra é de fato a Paixão, em que Ele é preso,
torturado, e depois crucificado.
Nessa primeira
parte Ele desenvolveu, na Agonia, um verdadeiro e perfeito heroísmo, no mais
alto sentido da palavra. Porque todo o sofrimento moral ocasionado pelos
pecados da humanidade, pela ingratidão da humanidade, pela maldade de que Ele
ia ser vítima, etc., todo esse sofrimento moral Ele teve, a tal ponto que pediu
a Deus que se possível fosse afastado o cálice. Quer dizer, Ele chegou a suar
sangue diante da perspectiva do que ia acontecer.
É ou não é um
verdadeiro heroísmo Nosso Senhor levar a aceitação antecipada da dor e do
sofrimento, esta dor moral que Ele teve no Horto das Oliveiras, levar ao ponto
que levou? É um verdadeiro e autentico heroísmo, embora ali não tenha combatido
fisicamente com ninguém. Mas Ele deliberou aceitar a certeza do tormento e da
morte. Mais do que tudo, — foi o que mais O fez sofrer —, Ele deliberou fazer
isto apesar da inutilidade por causa daqueles que não corresponderiam à graça e
que acabariam se perdendo.
Esta deliberação
que Ele tomou de morrer, apesar disso, é uma deliberação heróica. Essa dor de
alma que isso lhe causou é uma dor autêntica, embora Ele fisicamente não
estivesse combatendo.
Mas ainda, os
senhores dirão: “Mas Ele ofereceu o risco da vida dEle, e o risco da vida d’Ele
é um elemento integrante do heroísmo.
Eu digo, é, mas
Nossa Senhora não ofereceu. Em Nossa Senhora ninguém tocou. O sofrimento d’Ela
foi todo, de ponta a ponta, um sofrimento moral, sem nenhum sofrimento físico.
Ora, Ela é chamada, é invocada, aclamada pela Igreja como Regina
Martirum. Quer dizer, Ela é a Rainha de todos os mártires. Porque apesar de
Ela não ter sofrido fisicamente, ninguém depois de Nosso Senhor Jesus Cristo,
em toda história do mundo sofreu o que Nossa Senhora sofreu, pela Paixão e
Morte do Filho d’Ela.
Quer dizer, nós
devemos ver por aí que ter a força de alma para aguentar as coisas terríveis,
para aguentar as decepções, para aguentar as calúnias, para aguentar as
frustrações, para aguentar, enfim, tudo aquilo que o homem pode aguentar na
vida, ter essa força de alma é um verdadeiro heroísmo; e que é uma tolice uma
pessoa imaginar que é apenas herói aquele que combate de armas na mão.
Dois extremos: a maneira de lutar de
um varão verdadeiramente católico e um "heresia branca" diante da luta
Alguém me dirá:
“Mas Doutor Plinio, vamos e venhamos, na comodidade da sala do Palácio
Pontifício qual era o heroísmo? Heroísmo
da alma. Era enfrentar esse sofrimento, esse era o heroísmo. É
ter lutado com Felipe II em condições tão difíceis, em vez de ter entregue os
pontos e procurado não ver o perigo que vinha. Como isso seria normal, como
isso seria fácil. Não foi o que ele fez.
A vida dele não
corria perigo, porque ele sempre teria onde se refugiar. Ele já estava velho,
ele morreria antes de ser pego pelos adversários. Se ele fosse um “nhonhô” era
o que ele pensaria. Mas exatamente porque ele era um santo ele teve o heroísmo
de se sujeitar a todas essas coisas.
Os senhores estão
compreendem o seguinte: que é
“heresia branca” imaginar que toda a luta moral, não é luta. A luta moral do “heresia branca” não é luta.
Isso é fato. Mas a luta moral do varão verdadeiramente católico, isso é luta.
Como é que luta um
“heresia branca”? “Ahh!, estou eu aqui, Papa já velhinho. Que pena! Ninguém tem
pena de mim. Fulano, me traga um chocolate para tomar. Estou tão triste… Me
traga também umas pantufas de um veludo bem macio para eu colocar os meus pés
já trôpegos sobre essa almofada; eu estou tão velho. Tenham pena de mim. Abram
essa janela. Deixe eu olhar aquela pomba que está lá fora. Eu preciso me
consolar”. Isso é “heresia branca” evidentemente.
“Mandem-me vir uma
rosa. Oh! rosa, tu ao menos me dizes algo que me dá alegria, Pobre de mim…”
É claro, isso não é
herói. É um molenga. Esse também não vai enfrentar Felipe II. Pega a carta de
Felipe II e diz para o secretário: “Monsenhor, leia e me diga depois o que é,
quando eu estiver um pouco mais animado. Agora, me dê um perfume”.
Isso não é um
herói. É um palhaço. Um caricato.
Mas fazer como São
Pio V fez, não. Isso é verdadeiro herói.
O aguentar o “rio chinês”, num
ziguezague contínuo, exige um ato heróico: “A promessa que Nossa Senhora me fez
não falhará”
O quê devemos
entender? Que na nossa vida de
todos os dias, que não é uma vida cruenta, em que não estamos diretamente
arriscando a nossa vida, nessa
existência de todos os dias nós temos ocasiões de praticar verdadeiramente o
heroísmo. Inclusive aguentando esse rio chinês que faz com que estejamos
ziguezagueando continuamente em torno de algo que nunca chega. Isso é heroísmo.
Como foi heróico o profeta Simeão esperando até a
velhice, para afinal ver o Salvador que lhe tinha sido prometido. Como
foi Abraão com Isaac. Isso foi heroísmo: esperar até a velhice. Afinal nasce o
filho da promessa, etc. Os senhores conhecem o resto da história.
Há uma confiança
heróica pela qual a gente não desiste de esperar, apesar de tudo. Essa
confiança dói. E a alma às vezes fica num estado que fica em sangue. Está bem,
mas ela continua a confiar. E ela diz: “A promessa interior, inefável, que
Nossa Senhora me fez na alma, essa promessa não falhará, eu confiarei e eu
cumprirei a minha missão. Vamos para frente. Nossa Senhora me ajude. Eu confio
na palavra d’Ela”.
Qual é a palavra d’Ela? É uma voz da graça, é uma apetência que
nós sentimos que nos leva a todas as virtudes, que nos leva ao amor de Deus. E
que como tal nós vemos que tem origem em Deus, e que equivale portanto a uma
promessa. É a isso que nós devemos nos dar, é com base nisso que nós devemos
estruturar a nossa confiança. E a alma assim pode ter uma confiança heróica,
ela vence a batalha.
É por isso que a
oração dessa alma é uma oração que move as montanhas.
“A oração é vitoriosa quando
inspirada pela Fé que move as montanhas”
E é por isso também
que os senhores veem que Nossa Senhora só revelou a São Pio V o que tinha
acontecido depois dele ter rezado um terço. Quer dizer, Ela quis mostrar que
Lhe era tão agradável que ele rezasse um terço, que a oração do terço é uma
devoção tão grata a Ela, que é tão grato a Ela que se reze pedindo-lhe aquilo
que a gente precisa, e que se reze por meio do rosário, que Nossa Senhora
resolveu esperar esta ocasião para dar a esse servo dEla esse enorme galardão.
Nós aí devemos
compreender o que é a Fé que move as montanhas. Essa Fé heróica que crê apesar de todas as aparências em sentido
contrário. Não desanima, não volta atrás. Continua a lutar ainda
que esteja reduzido a um palito, porque
sabe que tem mais do que tudo: para lutar tem um terço na mão.
Como essa frase soa
“heresia branca” hein!: “Eu tenho como arma o terço”. Entretanto a frase não é “heresia branca”. A
nossa principal arma é a oração. E a oração é vitoriosa quando é inspirada pela
Fé que move as montanhas. É a expressão de Nosso Senhor no
Evangelho: “A Fé que move as montanhas”. Aí os senhores têm bem a imagem do que
é o herói.
Os senhores
imaginem um santo. Passagem bloqueada para um exército católico. Um santo vai
ao pé de uma montanha e começa a cavocar a montanha. Faz um túnel, e
milagrosamente levanta a montanha com os dois braços. O exército passa, ele
deixa baixar a montanha, abre o túnel e sai do outro lado. Esse santo nós
consideraríamos um colosso. Um homem que carregou com as duas mãos uma
montanha. Oh! Fantástico!
Seria admirável.
Mas mais bonito é carregar uma montanha com a oração, muito mais bonito do que
carregá-la com as duas mãos. Isso fez São Pio V por meio de oração. Os senhores
aí percebem como é o verdadeiro heroísmo.
O heroísmo é a aceitação enérgica,
com espírito de fé, de qualquer sofrimento, físico ou moral, que põe em risco a
nossa vida ou outros bens
Nós devemos ter
apetência de derramar o nosso sangue pela Igreja? Pode ser que a graça nos dê
essa apetência. Será uma coisa esplêndida. O desejo de derramar o sangue pela
Igreja é um desejo de doação total. É magnífico. Eu não tenho palavras
suficientes para encorajá-los. Os mártires tinham esse desejo, e muitos
morreram na alegria do sacrifício que eles faziam.
Porém o que
eu não posso aceitar é que se
entenda que essa é a única forma de heroísmo, que outras formas de
lutar pela Igreja não são verdadeiro e autêntico heroísmo. Esse aspecto nós
temos que tirar de nosso espírito.
Então o que é o
heroísmo? É a aceitação enérgica,
firme, com espírito de fé, de qualquer sofrimento extraordinário, seja esse
sofrimento qual for, físico ou moral, que põe em risco a nossa vida, a nossa
integridade física, ou põe em risco outros bens. Isso é heroísmo.
Os senhores todos
ouviram dizer de um caso que se contava aqui no Brasil antigo. Eu creio que
chegou aos ouvidos dos senhores. De um padre a quem um assassino contou que
tinha morto ou acabava de matar — contou em confissão — alguém na Igreja. E
pediu absolvição. Ao padre pareceu que ele estava contrito e deu absolvição a
ele, mas levantou-se logo depois para ir ver na Igreja — cidadezinha do
interior, muito de manhã cedinho, a Igreja ainda vazia — quem estava morto.
Estava ali um homem com um punhal.
O padre começou a tirar
o punhal. Entram pessoas, começam a gritar… o padre tinha morto esse homem. O
padre foi processado, condenado, foi preso, e passou muitos anos na prisão,
tido como um sacrílego, um padre assassino, degradado, infame. Ele sabia que
era inocente. Mas como o assassino tinha fugido ele não podia acusar o
assassino, ele aceitou toda essa pavorosa humilhação. Mas ele não contou quem
era.
“X” anos depois
disso, digamos dez anos depois disso, em certo momento ele vê chegar à cadeia
onde ele cumpria a pena, música, manifestações, brados de viva ao nome dele
etc.
O que era? Era o
assassino que antes de morrer tinha contado que ele era o assassino e que o
padre era inocente. Então o padre foi absolvido e foi reintegrado no exercício
do ministério sacerdotal. Mas dez anos, ou vinte anos de uma situação moral
horrorosa.
Esse padre arriscou
a vida? Não. Ele sofreu pancadas? Não. Mas ele sofreu muito pior do que isso.
Eu acho que vários dentre os senhores preferiam morrer a passar por isso. Ele
foi ou não foi herói? Um autêntico herói. Quer dizer, heroísmo é a disposição
de aguentar qualquer sofrimento enorme, por amor a Nossa Senhora. Isso foi o
que São Pio V aguentou. Ele foi herói.
Então compreendamos
o valor do heroísmo ainda que incruento. E admirando enormemente aqueles a quem
Deus pede que deem o seu sangue na luta pela Igreja, compreendamos que Deus a muitos pede o sangue da alma, e
que a esses Ele pede tudo, como pede aos que dão sangue pela Igreja, pela
Civilização Cristã.
E assim, tenhamos
ânimo em conduzir o sofrimento de nossa vida, desde que não seja conduzido a la
nhônhô, porque então deixa de ser sofrimento.
É assim: “Eu estou
sofrendo, quero sofrer isto porque não há outro meio para chegar à finalidade
que eu tenho em vista a não ser sofrer isto, mas eu olho de frente tudo que
estou sofrendo e meço grão por grão, milímetro por milímetro, todo o sofrimento
que eu tenho que aceitar. Está bem, aceito. Nossa Senhora me ajude e me dê
forças. Isto eu quero, porque o resultado vale mais do que o que eu sou”.
Isso é, quando se
trata de um grande sofrimento, o sofrimento heróico.
Assim, fica essa
consideração sobre o heroísmo e com ela nós podemos encerrar essa parte da
reunião.
(Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 7 outubro
de 1975)
Então, o papa se dirige a todos os reis da Europa
cristã, pedindo apoio para a Ilha de Malta que estava sendo objeto de ataques:
“Ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe II, Rei
Católico da Espanha:
“Eis que está certo e estabelecido: nosso
poderosíssimo inimigo, o sultão dos turcos, prepara uma frota considerável, uma
armada importantíssima como ainda não houve. Ele completa todos os preparativos
que se impõem a fim de se precipitar logo contra Malta, para abater a Ordem
Militar de São João, a qual ideia particularmente é submeter esta ilha que
deseja muito dela se apoderar, tanto por causa das grandes vantagens que ela
oferece sob o ponto de vista estratégico, como por causa da vergonha sofrida no
sítio precedente.
“Como a tais forças a Ordem não pode resistir de
nenhuma maneira, nosso caríssimo filho Jean de La Valette, seu Grão Mestre, é obrigado a implorar o
socorro dos príncipes cristãos contra o inimigo comum, o inimigo de
Cristianismo.
“Nós não duvidamos que Vossa Majestade e vosso povo
venham em nosso socorro espontaneamente, ainda mais considerando que é de vosso
interesse que uma ilha assim próxima da Sicília e da Itália não caia em mãos
inimigas”.
Esta carta tem aspectos bonitos. O primeiro
deles é o modo pelo qual o Papa
trata o rei Filipe II. Ele se dirige assim: “Ao nosso caríssimo filho em
Cristo, Filipe II, Rei Católico”.
É uma beleza a gente ver como os papas daquele
tempo podiam se dirigir como de
pai para filho, no protocolo oficial, para todos os grandes da terra: “nosso
caríssimo filho”… e é um dos maiores potentados da terra, “em cujos domínios o
sol jamais se punha”, o rei Felipe II. Bonito o título, também, de “Rei Católico”.
A Santa Sé foi dando aos vários reis, ao longo dos
séculos, títulos que lembravam serviços prestados à Igreja. Então, o rei da
França se chamava “Rei Cristianíssimo”; o rei da Hungria era “Majestade
Apostólica”; o imperador do Sacro Império Alemão era “Sua Sacra Majestade
Cesárea”, porque o imperador se reputava sucessor de Carlos Magno, o césar do
Ocidente; o rei de Portugal era “Sua Majestade Fidelíssima”, por causa da
grande fidelidade à Sé Apostólica; os reis da Espanha eram “Majestades
Católicas”, porque a Espanha era a nação fiel por excelência, a nação católica
por excelência. E, assim, o “Rex Catholicus” era o rei da Espanha.
Nesta época, havia um rei que tinha um título
também, mas que já não merecia: era o rei da Inglaterra, “Defensor Fidei”;
tinha sido nomeado “Defensor da fé”. E assim, cada rei tinha, como adorno mais
belo, algum título que celebrasse sua união com a Igreja Católica.
Isto nos traz um contraste frisante em relação aos Estados modernos. Não pensem os
srs. que essas fórmulas de tratamento ficam numa ordem puramente protocolar;
mas elas baixam daí para a realidade das coisas.
Aqui os srs. têm um Papa que se dirige a Filipe II
como a um filho e expõe a situação: os Cavaleiros da Ordem de Malta, que me são
tão diletos, que são o amparo da Cristandade, estão necessitando de apoio:
apoie.
É uma atitude muito natural pois se a Igreja está
precisando, ele é um rei católico, que apoie! E apoiou e ajudou a salvar os
Cavaleiros da Ordem de Malta. Hoje em dia, até um Estado se mover para ajudar a
Igreja Católica, que dificuldade!
É verdade que o Papa põe aqui também um argumento
de ordem temporal: ele mostra que as possessões do Rei da Espanha na Itália,
especialmente a ilha da Sicília, ficariam ameaçadas com a queda da Ordem de
Malta. Mas isso é argumento secundário; o argumento fundamental que ele dá é a Fé ameaçada.
Os srs. veem que felizes tempos: grandes perspectivas! grande fé a iluminar a vida
política daquela época! grande nostalgia de nossa parte!... Não há nostalgia mais dolorida do que a
nostalgia daquilo que a gente nem
sequer chegou a conhecer, mas
os élans de nossa alma católica pedem por ver e pegar.
Mas há uma grande alegria: essa
nostalgia é ao mesmo tempo uma grande esperança! Esta é a grande
alegria com que terminamos este “Santo do Dia”.
Eu estava falando, hoje à tarde, a respeito de um
assunto que se relaciona ligeiramente com esse e no qual menciono muito de
passagem. Na “Reunião de Recortes” eu estava dizendo que – se não me trai a
memória – deve fazer agora dez anos que foi publicada a R-CR.
A R-CR é exatamente o livro onde se condensam, se esquematizam estas noções, onde ao mesmo tempo se dá um quadro do que é ou deveria ser a Cristandade,
se mostra o panorama horroroso da
chaga da Revolução que nela se instaurou.
Convém, sobretudo aos mais novos, que há dez anos
não estavam na TFP, que procurem ler e estudar esse nosso livro básico, onde se
encontram estas ideias, nostalgias e esperanças.
E assim – baseado ou estimulado pelo perfume desses
áureos tempos – fica aqui um apelo aos senhores para uma leitura e estudo da
R-CR neste próximo ano que será o décimo de sua publicação.
Com isto, resta-me encorajá-los ardentemente a que
vão lutar, amanhã, pela causa de Nossa Senhora expressa na Tradição, na Família
e na Propriedade, nas ruas e vias de São Paulo. E que Nossa Senhora os abençoe
e os ajude.
(Plínio
Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 30 de novembro de 1968)
[1]
Ludwig Pastor,
posteriormente Ludwig von Pastor, Freiherr von Campersfelden (31 de janeiro de
1854 – 30 de setembro de 1928), historiador alemão e um diplomata para a
Áustria. Sua obra mais famosa foi “History of the Popes”, Hstória dos Papas.


