quarta-feira, 18 de março de 2026

DENÚNCIAS FALSAS CONTRA OS ARAUTOS DO EVANGELHO CAEM NO VAZIO

 

 


 Estampamos a seguir artigo do Instituto de estudos sociais e religiosos católico, denominado Instituto EN Regina Militesedição de março de 2026

 "HBO usa denúncia falsa para atacar Arautos do Evangelho em série anticatólica

Ataque aos Arautos desenterra fake news para atacar ortodoxia da instituição

Especializados em séries sensacionalistas que misturam horror e suspense, os produtores envolvidos no documentário da HBO “Escravos da fé: os Arautos do Evangelho”, resolveram dar voz a denúncias falsas, retratadas pelos próprios denunciantes ou rejeitadas pelo Vaticano e pela Justiça brasileira. A verossimilhança dos ataques se vale da cultura anticatólica presente nos principais meios de comunicação acostumados a insinuações maliciosas envolvendo o Vaticano.

Seguindo a linha de panfletos anticatólicos como o “Código Da Vinci”, a produção deu espaço a caluniadores que integram uma verdadeira seita anticatólica que há quase 10 anos vem perseguindo a instituição Arautos do Evangelho. Entre eles, ex-membros que foram afastados por problemas morais ou psicológicos, reunidos sob a tutela de antigos desafetos que remontam à época da TFP.

Em geral, as críticas aos Arautos giram em torno de um suposto “excesso” de ortodoxia e disciplina, vistos como exagerados “em pleno século XXI”. Munidos de certos preconceitos nutridos contra a tradição bimilenar da Igreja, eles resgataram histórias que na época já haviam sido desconsideradas.

Há pelo menos três denúncias de cunho moral feitas contra os Arautos, todas elas rejeitadas. A primeira, em 2017, resumia-se a uma carta anônima que foi imediatamente ignorada por razões óbvias. Na segunda, a denúncia tinha sinais de falsificação grosseira, sendo também rejeitada pela Congregação para a Doutrina da Fé e pela Nunciatura. A última delas foi de uma ex-membro da instituição que dava detalhes de um abuso do qual ela mesma havia apenas “ouvido dizer”. Todos eles possuíam uma coisa em comum: miravam o fundador da obra, Monsenhor João Clá Dias, discípulo de Plinio Corrêa de Oliveira.

O termo usado no título “escravos da fé” remete à espiritualidade católica vivida na instituição, inspirada pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem, de São Luis Maria Grignion de Montfort. A escravidão a Jesus Cristo pelas mãos de Maria Santíssima existe há pelo menos 300 anos na Igreja e tem como praticantes papas e santos como São João Paulo II e outros. No entanto, a palavra tem um sabor pérfido na opinião pública leiga, sugerindo maliciosamente supostos abusos ou submissão etc, insinuando proximidade com seitas e cultos alheios á doutrina católica. Com essa maliciosa jogada semiótica, os produtores seguiram o imaginário impuro dos próprios denunciantes que, como um dos perseguidores dos Arautos confessou, “eu não suporto a pureza deles”.

O grande trunfo na mão dos adversários da instituição, assim como da HBO, é o desconhecimento do grande público sobre elementos básicos da doutrina católica, como obediência, disciplina, castidade, valores que o mundo moderno rejeita e a Igreja sempre conservou.

Um exemplo claro foi a exploração de cenas típicas de qualquer paróquia usadas para ilustrar insinuações de supostos abusos. Cenas de ordenações, nas quais tradicionalmente os candidatos deitam-se no chão de bruços, o tapa do Crisma, gesto leve feito no rosto do crismando para confirmá-lo, tudo isso para ilustrar suposto constrangimento e humilhação. Em situações normais, isso dispensaria explicações.

No entanto, acusações ganham aparência de verdade quando ditas em linguagem investigativa, fotografia sombria e sussurros produzidos em estúdios. Até mesmo fatos investigados e rejeitados pela Justiça podem parecer esconder uma verdade secreta.

 

O nível das denúncias

Consta no livro O Comissariado dos Arautos do Evangelho. Sancionado sem provas, sem defesa, sem diálogo. Crônica dos acontecimentos 2017–2025, dossiê documentado sobre a perseguição orquestrada contra a instituição, houve quem procurasse desencorajar que se acusasse os arautos de desvios morais. Desafetos que têm suas diferenças doutrinais com os Arautos, aconselharam a “não ir por este caminho” pois segundo eles não daria certo. Eles conheciam o zelo dos Arautos em relação a questões morais. Mas ao que parece aquele conselho não foi ouvido.

Em um comentário trocado por Prelados do Vaticano sobre a primeira das denúncias, um deles comentava ao delegado da Congregação para a Doutrina da Fé:

— “A denúncia não está assinada, é carta anônima. No meu tempo, carta anônima denunciando alguém era igual a lixo”.

O investigador respondeu:

— “Para mim também, mas eu tenho que obedecer ao que me foi pedido pela Nunciatura”.

Assim, depois de tudo devidamente apurado, a denúncia fora arquivada.

Alguns anos depois, veio a segunda tentativa, já logo após a Visita Apostólica, Com uma falsificação incrivelmente grosseira que foi logo descoberta pela Nunciatura, essa nova investida havia sido mais planejada. Reunidos no Chile com desafetos antigos que maquinavam a anos uma forma de atingir a obra de Monsenhor João, o grupo procurou a nunciatura do Chile para levar a denúncia diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, já que no Brasil a visita havia também não encontrado nada que desabonasse a instituição.

Então veio outra denúncia semelhante feita por uma denunciante que sequer estava presente. Ou seja, ela “ouviu dizer”. Depois disso, houve mais uma tentativa derradeira de macular a imagem do fundador dos Arautos. Tratou-se de um homem, ex-membro e afastado por problemas morais, que depois de muitos anos de bons relacionamentos com os Arautos foi contatado por antigos membros da extinta TFP para alegar suposta “violação de sigilo de confissão”, um crime grave para um padre.

No entanto, a denúncia foi desmentida antes mesmo de se iniciar a investigação. O cardeal Dom Jaime Spengler, que não é nada simpático aos Arautos e até tinha proximidade suspeita com o grupo de caluniadores, foi quem considerou a denúncia totalmente descabida.

No documentário, há a menção do caso da Irmã Lívia, falecida em um acidente numa das casas do ramo feminino dos Arautos, no qual ela caiu de uma janela durante o dia de limpeza em 2016. O caso foi investigado pelo Ministério Público e o parecer concluía tratar-se realmente de um acidente. No entanto, passados dois anos do acidente, surgem versões que insinuavam um suicídio ou homicídio. Sem qualquer base para essa alegação, a versão começou a circular até chegar à conhecida reportagem do Fantástico. No canal dos Arautos do Youtube, há um vídeo feito por eles durante as gravações da reportagem, no qual se vê claramente o pai da irmã Lívia tentando falar com o repórter, que negava-se a entrevistá-lo. Ou seja, a versão que a Globo pretendia dar já estava definida de antemão.

 

Produção cinematográfica de “provas”

No Brasil, quem tem nas mãos a máquina do sensacionalismo não precisa de sistema judiciário nem de provas para condenar no tribunal paralelo da mídia. Foi o que aconteceu no caso conhecido da “Escola Base”, ocorrido nos anos 90, no qual famílias foram destruídas por acusações falsas conduzidas por reportagens jornalísticas. O caso até hoje é objeto de estudo nas faculdades de jornalismo como uma grande catástrofe causada pelos jornais. Será uma repetição? Quem não conhece essa história, basta ler o artigo do advogado Marco Antonio Machado, publicado recentemente no Correio Brasiliense, em que conta a história apontando as preocupantes semelhanças com a perseguição atual sofrida pelos Arautos do Evangelho.

De fato, a série “Escravos da Fé” já está sendo criticada até mesmo por pessoas que nem conhecem a instituição católica, dada a má fé estampada em suas propagandas e no sensacionalismo da produção.

Apostando na impunidade de um Judiciário que enfrenta com desdém escandaloso, a HBO entrou de cabeça nas histórias “vendidas” pela seita de desafetos do grupo, resultando em uma ficção cuja verossimilhança é garantida pela histórica má fé da imprensa com o catolicismo. Com isso, a produtora pode estar entrando em um terreno perigoso ao disseminar fake news contra instituições católicas. O resultado disso será, certamente, o aumento do ódio aos cristãos, tendência que vem crescendo em todo o mundo devido em grande parte à campanhas midiáticas anticatólicas.

 

O ódio à Igreja Católica

O ataque da HBO não é apenas aos Arautos do Evangelho, mas ao centro da tradição católica conservada pela instituição que foi inspirada na obra de Plinio Corrêa de Oliveira, chamado de “Cruzado do século XX” por historiadores, elogiado e condecorado pelo Papa São Paulo VI. Monsenhor João Clá, por sua vez, ao transformar a obra de doutor Plinio em uma verdadeira ordem de cavalaria moderna, inseriu a tradição católica no século XXI.

Aprovados por São João Paulo II e Bento XVI, os Arautos constituem uma associação católica de sólida formação. O Papa Bento XVI, em entrevista publicada com o título Luz do Mundo, de Peter Seewald, disse que os Arautos do Evangelho eram um sinal de vitalidade na Igreja da América Latina, “jovens cheios de entusiasmo por terem reconhecido em Cristo o Filho de Deus, e desejosos de anunciá-Lo ao mundo”.

Em 2009, Monsenhor João recebeu uma homenagem do mesmo Papa na Basílica dos Arautos, pelas mãos do Cardeal Franc Rodé, que declarou dirigindo-se ao fundador dos Arautos:

“Neste empreendimento, nascido em vosso nobre coração, não podemos deixar de ver uma graça particular dada à Igreja, um ato da Divina Providência em vista das necessidades do mundo de hoje”.

Começa-se a compreender a afirmação de um dos perseguidores dos Arautos quando diz, no documentário, a frase: “eu não sei como que isso pode existir no século XX”.

 

Extraído de:

https://estudosnacionais.substack.com/p/hbo-usa-denuncia-falsa-para-atacar?utm_source=direct&utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web&fbclid=IwY2xjawQn-0VleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEe3_Ib3eQ9uTEooVFQ7uVkkvcNObOit4JOhqKONX81BcgAhoUqm1rIWeeleb8_aem_cSCFWrbkzAcpPGiKHYVSPA&triedRedirect=true

 

 

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

REGÊNCIA DO UNIVERSO - VOCÊ SE INTERESSA POR ESSE TEMA?

 



 

Regência do Universo. Quando se aborda sobre o assunto a primeira ideia é que o homem nada tem a ver com a matéria: reger o Universo é obra única e exclusivamente de Deus.

Mas, não é bem assim. Os homens, juntamente com os anjos, participam de algum modo da regência do Universo, pois Deus usa de intercessores em tudo o que faz.

A abordagem do tema nos leva a outras conclusões. Assim, como Maria foi intercessora primordial para a vinda do Messias, Ela também o será para que impere na terra o Reino de Cristo; e isto se dará com o Reino de Maria; e este reino terá se cumprindo integralmente com a prática universal da sagrada escravidão pregada por São Luís Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Segue o índice de um estudo que aborda o tema.

Se tiver interesse peça o PDF do mesmo usando o Whats-Ap 71-99275-2239 ou pelos e-mails abaixo:

JURACI JOSINO CAVALCANTE –

juracuca@gmail.com e juracuca@hotmail.com

 

 

 

A REGÊNCIA DO UNIVIERSO

 

Índice

Capítulo – Título -                                                                                              pág.

I – A REGÊNCIA DO UNIVERSO E A AUTO-REGÊNCIA DO HOMEM 

- A) Princípios de regências- algumas definições...............................................               3

- B) O que reger ................................................................................................                      6

- C) Fim último da regência ...............................................................................                     7

- D) Métodos de regências entre os homens......................................................                8

- E) A legitimidade do poder de regência política..............................................                18

- F) O sentido de “Reino de Deus” nas Sagradas Escrituras..............................              29

- G) As Bem-aventuranças e a auto-regência.......................................................              45

- H) A regência do universo, dada ao homem, desde o início da Criação............            53

- I) O ápice do poder de regência, Nosso Senhor, Rei do Universo..................               59

- J) Como a regência do universo é operada na Santíssima Trindade................             64

 

II – ALÉM DE DAR GRAÇAS A DEUS, O HOMEM FOI CRIADO

       PARA DOMINAR AS FORÇAS DA NATUREZA E REGER O UNIVERSO -      85

A)    O homem também está destinado a reger e Universo...............................                                          85

B)    Deus deu o poder de regência aos anjos e aos homens...........................                                            92

 

III – REGÊNCIA E JUÍZO                                                                                        103

- A) O que é julgar.....................................................................................................          103

- B) É lícito julgar o próximo? ...................................................................................       105          

- C) Meios com que se pode exercer o juízo..............................................................      110

- D) Passos ou fases do ato de julgar entre os homens..............................................   115         

- E) Implacabilidade, um tipo de mau juízo................................................................       118

- F) Afetividade e bondade..........................................................................................        119

- G) Discernimento dos espíritos, dom de um juízo interior....................................         121            

- H) Exame de consciência; auto-análise auto-julgamento? O juízo de si mesmo           132

- I) O problema da certeza perante o juízo humano...............................................              141

- J) O juízo e o castigo vêm, antes de tudo, a quem Deus ama...............................           189

- K) Os juízos de Deus sobre cada homem.............................................................              190

- L)  O juízo de Deus sobre as nações......................................................................             195

- M) Filho do Homem, título de Juiz dos povos......................................................              199

- N) A matéria do julgamento ..................................................................................               202

- O) Porque os Anjos não têm a missão de julgar os homens.................................            215

 

IV – A REGÊNCIA DIVINA NO DECORRER DA HISTÓRIA                                    217

- A) A regência divina nos primórdios da humanidade .........................................             217

- B) O Patriarcado, princípio de regência divina na sociedade humana.................          244

- C) O papel da rainha-mãe no exercício da regência..............................................           254

- D) A reverência aos mortos como forma de propagar o poder patriarcal ..........         259

- E) Período regencial dos juízes ..............................................................................          263

- F) O poder de regência dado aos homens através do regime monárquico...........        268

- G) A regência nos impérios Greco-romanos..........................................................          277

- H) A Civilização Cristã – a regência divina através da Igreja.................................         282

 

            V -  A OPINIÃO PÚBLICA NA REGÊNCIA HUMANA                                            324

-A) Opinião, o que é....................................................................................................        325

-B) Opinião pessoal .....................................................................................................       325

-C) Opinião pública ......................................................................................................      325

-D) Opinião sobre uma entidade.................................................................................       326

-E) Como se comportar perante a opinião pública...................................................        327

-F) A credibilidade popular – mola-mestra para um bem sucedido trabalho de

      Opinião pública......................................................................................................       327

-G) Entrechoque de opiniões e de modos de ser..................................................           328

-H) Como proceder para mudar a opinião pública................................................           332

-I) O fascínio – meio eficaz de mudança de opinião pública...............................            333

J) A opinião pública no modo de Deus atuar sobre a humanidade...................          339

 

VI – NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, EM SUA VIDA PÚBLICA PREGOU

        SEU REINO E O COMEÇO DE SUA REGÊNCIA ENTRE OS HOMENS       

A)         Situação dos hebreus no tempo de Jesus Cristo...........................................   437

B)         Perante a situação encontrada como Jesus pregou seu Reino ....................  479

 

VII – OS ANJOS REGEM OS HOMENS EM CO-REGência COM OS MESMOS   

- A) A ação angélica na determinação dos atos humanos........................................       521

- B) Pode haver ação angélica nos “reflexos condicionados”?                                      537

- C) Ação deletéria dos “arrimadiços”                                                                            543

- D) A ação angélica na imagem da Igreja perante a opinião pública                             557

- E) O poder dos demônios “mentenedores”                                                                  561

- F) O Reino de Deus e a regência angélica entre os homens                                        575

 

VIII – A SAGRADA ESCRAVIDÃO PODE SER ÚTIL OU PREJUDICIAL Á AUTO-REGÊNCIA?

- 1. A escravidão entre os povos pagãos ..................................................................          587

- 2. Como era vista a escravidão no Antigo Testamento .........................................          594

- 3. A escravidão no Novo Testamento ...................................................................             612

- 4. A regência mais perfeita através da escravidão ..................................................         614

-5. A sagrada escravidão preconizada por S. Luis Grignion de Montfort................        624

 

IX – O REINO DE MARIA ........................................................,,........................         643

1.         Profecias sobre a crise dos últimos tempos e o Reino de Maria -                        646

2.         Profetismo de uma nova era, o Reino de Maria .......................... -                         650

3.         Haveria ressurreições antes do Juízo Final? ...........................   -                          660

4.         Que meios Deus utilizará para a Restauração da Igreja?

O “Grand Return”?  .....................................................................  -                          664

5.         Profecias do Beato Francisco Palau sobre o

Restaurador da Igreja   ...............................................................  -                          673

6.         Bem-Aventurado Bartolomeu Holzhauser e o Reino de Maria-                            680

7.         O Reino de Maria virá como consequência da aplicação dos princípios pregados por São Luís Grignion de Montfort no “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”  .................... ..................................................................................                       689

 

DOUTOR PLÍNIO E O REINO DE MARIA.............................................. -                692

 

APÊNDICES  .......................................................................................... -                747

I – CRISTO,  REI DO UNIVERSO                                                                         755

II – ENCICLICA DO PAPA PIO XII “Ad Caeli Reginam”                                      765

III – RADIOMENSAGEM DE PIO XII SOBRE COROAÇÃO DE FÁTIMA                765

IV – SOBRE CRISTO REI                                                                                   769

V – A ORDEM DO UNIVERSO E OS ANJOS                                                      783

VI – CRISTANDADE, SACRALIDADE NA ORDEM TEMPORAL                          788

VII – O ESTADO, SENHOR SOBERANO DE TODAS AS COISAS                      803

VIII – O SÉCULO DA GUERRA, DA MORE E DO PECADO                                811

IX – O DIREITO MODERNO E A REALEZA DE N. S. JESUS CRISTO                 817

X – UMA ESCRAVIDÃO QUE LIBERTA                                                            821

XI – UM ENFOQUE TOMISTA SOBRE A PSICOLOGIA DA O. PÚBLICA           829

XII – PORQUE A VERDADE DESPERTA O ÓDIO?                                           837

XIII – ORAÇÃO A MARIA RAINHA                                                                    839

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA                                                                         841

 

 

 

 


domingo, 15 de março de 2026

COMO ERA VISTA A ESCRAVIDÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

 



 

A primeira referência à escravidão a encontramos no episódio do dilúvio universal. Após o mesmo, Noé fez o cultivo da uva e dela tirou vinho, que, ao bebê-lo pela primeira vez, embriagou-se e tirou a roupa perante os filhos. Como Cam, ao contrário dos outros, riu de sua nudez, Noé amaldiçoou sua descendência (Gn 9, 25-27). A escravidão é imposta como uma maldição, trata-se portanto de um castigo por causa do ato indigno que o filho praticara, porém não recai sobre ele, Cam, mas sobre a sua descendência, representada por seu filho Canaã. Tornou-se este, pois, escravo de seus tios. Seria uma espécie de maldição ou condição imposta ao filho para reparar o erro praticado pelo pai?

Talvez não tenha sido um ato simplesmente punitivo, mas corretivo, pois a escravidão possibilitaria aos descendentes de Cam aprender mais eficazmente a virtude da obediência, e como seriam escravos de seus tios tratar-se-ia de uma forma de servidão amorosa e familiar.

A escravidão volta a ser naturalmente comentada pelo que se deduz do texto do Gênesis 12, 5: "Levou consigo Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, e todos os bens que possuíam, e as pessoas que tinham adquirido  em Haran". Que pessoas eram estas que tinham sido adquiridas? Deveriam ser os escravos, pois o texto já fala anteriormente na parentela. Poderiam ser também os empregados, os servos como se dizia antigamente, mas estes não teriam obrigação de acompanhar seus senhores se fossem livres.

Quando Abraão esteve no Egito pela primeira vez (Gn 12, 10), recebeu do Faraó vários presentes, entre os quais “servos e servas”, isto querendo dizer que naquele país se praticava a escravidão, como é fato histórico incontestável. Pode ser também que Abraão os tenha recebido, não como escravos, mas como servos comuns: quando teve que fazer guerra contra os reis inimigos já contava com 318 servos (Gn 14, 14). No entanto, houve entre eles alguns que se tornaram escravos, como é citado em Gênesis 15-3, Eliezer de Damasco, e depois a escrava  Agar (Gn 15,2-4).

Talvez tenha sido no Egito que Agar tenha sido dada a Sara (que então se chamava Sarai, indicando esta mudança de nome, talvez a exemplo do patriarcalismo espiritual que faz os Patriarcas mudar de nome, um certo matriarcado também espiritual) como escrava (Gn 16, 1). Como Abraão era um Patriarca de Deus e respeitava o livre arbítrio humano, é provável que tenha aceito que Sara ficasse com Agar como um mal menor, talvez a livrando de uma outra escravidão pior que devesse estar submetida no Egito. De outro lado, se ela fosse camita talvez tivesse nascido já escrava de um semita, (Gn 9, 25), mas não há referência sobre isso. Os costumes escravocratas eram de tal forma, naquela era remota,  que a senhora oferece sua escrava ao seu marido para ter um filho (Gn 16, 3). Quer dizer, um escravo era parte integrante da família. Gerado um filho deste (ou desta) com o chefe da casa (ou com a esposa deste), se tornaria ele um herdeiro do Patriarca. Era um costume do patriarcalismo, que obrigava-os a ter um herdeiro para dar continuidade à descendência pelo ramo masculino. Agar era uma escrava que se encontrava sob o total domínio de Sara (Gn 16, 6).

A forma como Sara passou a tratar sua escrava era muito ruim, dando-lhe maus-tratos. Por isso Agar foge para o deserto. Mas um anjo ordena-lhe que volte para sua senhora (Gn 16, 9), indicando com isso que Sara praticava um domínio legítimo sobre sua escrava. Agar não só deveria voltar, mas humilhar-se perante sua senhora.  Alguns anos depois, quando Isaac nasceu, Sara pede a Abraão que ordene a expulsão de Agar e Ismael (Gn 21, 8-13). Vê-se no episódio que Deus respeita os direitos de Sara sobre Agar mandando cumprir o que ela determinara, mas quem deveria decidir tudo ao final era o Patriarca Abraão.

 

Adonai, Senhor de escravos?

Adonai, nome hebraico de Deus, Significa “Meu Senhor”. Sempre que nas Sagradas Escrituras aparece o nome de Javé, vem em seguida “Adonai” (Judite 16,16). A Moisés o termo Adonai foi declarado desta forma: “Eu sou o Senhor que apareci a Abraão, Isaac e Jacó, como o Deus todo poderoso: mas eu não lhes dei a conhecer o meu nome Adonai” (Ex 6, 3). O termo “Javé” Significava Deus como ser absoluto, todo poderoso, e Adonai o designava como Senhor, como possuidor do homem. No tempo de Moisés o Senhor era aquele que possuía poder e tinha escravos sob seu domínio, a própria posse dos escravos era sinal de poder e influência. Daí o fato de Deus haver pedido que O chamassem de Senhor, ou Adonai. A escravidão foi utilizada por Deus como instrumento de aperfeiçoamento social de um povo, como ocorreu com o Povo Eleito ao torná-lo escravo dos egípcios durante 400 anos! E, embora naqueles tempos a escravidão fosse algo horrível e ultrajante, Deus o permitiu durante muitos séculos a fim de ensinar aos povos um princípio básico da auto-regência, que é a obediência aos superiores. Não se tratava de algo feito por amor, e sim por subserviência ou servilidade, mas, mesmo assim, útil para educar um povo hostil e propenso à revolta e ao orgulho.

E quando foi necessário que essa servilidade do homem fosse feita entre ele e seus familiares, de homem pra homem, surgiu o Patriarcado e o poder de um homem sobre outro já começava dentro da família. E a extensão dos laços familiares à toda a sociedade ocorria naturalmente. Nos primórdios da humanidade, porém, o homem criou seus deuses e fugia da adoração ao Deus verdadeiro, adorando seus senhores de natureza meramente humana ou até animais. Chegado o tempo de Abraão, Deus promete, como castigo, a escravidão a seus descendentes (Gn 15, 9-13), e num longo período de 4 séculos. Vê-se aí, claramente, que foi criada uma situação de dependência a fim de que o seu povo aprendesse a auto-reger-se pela obediência e pelo serviço. E, no entanto, todas as tribos da região estariam debaixo de seu poder (Gen 15, 18). Essa dependência naqueles tempos era de natureza puramente familiar, portanto, patriarcal. Então, Deus como “o meu Senhor” (ou Adonai) era não somente possuidor dos homens como patrão, mas também como pai e patriarca (embora, na natureza divina esse tipo de posse seja mais espiritual).

 

Deus faz seu povo eleito escravo de um outro

A descendência de Abraão é prometida profeticamente como numerosa, mas que “será reduzida à escravidão” (Gn 15, 13) por mais de 400 anos. Então, Deus desejava que houvesse uma escravidão que fosse exercida sobre todo um povo, e o seu Povo Eleito, como meio de fazê-lo perfeito. Aqui não se trata propriamente de uma maldição, mas algo parecido, pois Deus assim condena a descendência de Abraão, depois que "um horror grande e tenebroso o acometeu"(Gn 15, 13-14).

Quando Deus dava a Abraão instruções sobre a circuncisão, uma aliança que fazia com seu Patriarca e seu Povo, falou dos escravos como coisa natural e sem censura:(Gn 17, 12). Então, haviam dois tipos de escravos que moravam com Abraão: os nascidos em casa e alguns que ele havia comprado, ou que alguém os comprara, sem que isso fosse motivo de censura e recriminação por parte de Deus. Os “nascidos em casa” deveriam ser os parentes oriundos dos camitas, declarados escravos dos semitas como vimos antes.

 

Entre os hebreus

A escravidão proporcionava um espírito, o de servir. Desta forma, todos os bons procuravam imitar aqueles escravos mais fiéis que lhe serviam de forma voluntária e simples. E assim, também os senhores tinham vontade de ser escravos, mas de alguém superior ou do próprio Deus. Havia não só o desejo de servir, como falamos acima, mas também o de participar da mesma família, pois os servos e escravos eram considerados como membros da família. Quando os três anjos apareceram a Abraão, este os chama de senhor, prostrado em terra: (Gn 18, 3). Neste momento, Abraão presta um preito de vassalagem, chama o anjo de Senhor (ele o vê em figura humana) e se proclama seu servo, ou seu escravo, oferecendo-lhe em seguida comida e hospedagem.

Um dos escravos mais fiéis a Abraão foi sem dúvida Eliezer, portador de uma mensagem aos seus parentes a fim de conseguir uma esposa para o filho Isaac (Gn 24, 34-36).  Eliezer intercede aqui como se fosse um parente da família, tal era o papel que os escravos desempenhavam nas famílias de então. Seria ele também um remanescente dos escravos dos primitivos camitas? Após descrever tudo, Eliezer pede finalmente aos parentes de Abraão uma esposa para Isaac. Quando ouviu a resposta prostrou-se por terra, adorou o Senhor, e voltou com Rabeca para seu país.

O costume de manter escravos era mais usado por pessoas de grandes posses, como era o caso de Abraão. Apesar de habitualmente presenteado com riquezas, Abraão dava o melhor de si a Deus, inclusive quis imolar o próprio filho (Gn 22), a Quem considerava seu Senhor e de Quem se considerava um servo, um escravo.

Esta disposição de servir, este desejo de se tornar até mesmo escravo de alguém que considere seu superior, de tal forma estava enraizado na família de Abraão, que inspirou os belos episódios futuros em seus descendentes, como foi o caso do Patriarca Jacó.

 

Nova escravidão como castigo

Quando os hebreus se estabeleceram na Palestina e já progrediam materialmente com sua cultura, tinham um Templo muito rico e uma elite cultural respeitada e em ascensão, Deus os fez tornar-se escravos novamente. Desta vez o castigo foi mais doloroso do que ao tempo de Abraão, pois Nabucodonosor levou não só a elite judaica como sua escrava, mas carregou consigo todas as riquezas do templo sagrado. 

Qual a razão disso? É que eles, como a elite dirigente, não vinham cumprindo os princípios da regência divina, querendo reger-se sem a participação de Deus, ou até mesmo com a influência do demônio através dos ídolos. Tornando-se escravo de um outro povo, seria mais inclinado à prática de humildade e aceitar a vontade de Deus.

A primeira deportação em grande escala de hebreus para o cativeiro da Babilônia deu-se no reinado de Oséias (732-724 a.  C.), por causa da grande decadência que havia no reino da Samaria: o povo eleito já estava dividido em dois reinos, o da Samaria e o de Judá. 

No entanto, a pior escravidão é a que foi imposta ao reino de Judá, deportado para a Assíria (Babilônia) no reinado de Manassés (693-639 a. C.)  e durou setenta anos. A respeito dessa escravidão, assim falou Neemias:  “Eis que nós mesmos hoje somos escravos, como também o é a terra que deste a nossos pais, para lhe comerem o pão e os frutos que ela produzisse, nós mesmos também somos escravos nela. Os seus frutos multiplicam para os reis que tu puseste sobre nós, por causa dos nossos pecados, e eles dominam sobre nossos corpos e sobre nossos animais, como bem lhes apraz, e nós estamos numa grande tribulação”.  (Neemias 9, 36-37).

 

Rabeca e Jacó, prefiguras bíblicas da Sagrada Escravidão

A melhor descrição sobre prefiguras bíblicas da Sagrada Escravidão, encontramos nas vidas de Rebeca e Jacó descritas por São Luís Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem: “De todas verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca.

 

Havia uma dependência de vassalagem entre Esaú e Jacó

São Luís Grignion não esmiúça o caso de Esaú e Jacó inteiramente, detendo-se apenas no essencial e fazendo a comparação naquilo que os dois prefiguram: os predestinados e os réprobos. No entanto, a Sagrada Escritura nos fornece mais detalhes a respeito do espírito de escravidão que vigorava então.

Quando Isaac deu a segunda bênção (meramente terrena) a Esaú, atendendo seu insistente pedido, afirmou que constituiu Jacó  como Senhor de Esaú: “Eu o constituí teu senhor, e sujeitei à sua servidão todos os seus irmãos; estabeleci-o na posse do trigo e do vinho; depois disto, meu filho, que te posso eu fazer?” (Gn 27, 37). Em seguida Isaac o abençoa “na abundância da terra , e no orvalho do alto do céu” e que, doravante, Esaú viveria da espada e “servirá a teu irmão”.  Havia, portanto, duas bênçãos: uma provinda do poder divino (regência divina) e outra e outra meramente terrena. Quer dizer, ao mesmo tempo que Esaú era servo  de seu irmão deveria também servi-lo com sua espada, com seu poder, com sua força, com suas riquezas, etc.  Veremos de que forma Esaú cumpriu ou não esta bênção.

Já Jacó entendeu a coisa de forma diferente. Como a bênção foi dada por engano, Isaac pensando que era Esaú que estava ali presente, para todos os efeitos era como se tivesse sido dado a Esaú o senhorio sobre o irmão e não a Jacó sobre Esaú. Talvez seja por haver entendido a coisa assim, e também por ser mais servil do que o irmão, que Jacó mais adiante considere Esaú como seu senhor, como veremos mais abaixo.

De imediato o que tomou conta do coração de Esaú foi uma grande inveja e um profundo ódio contra seu irmão. E tal foi o ódio que planejava matá-lo. Veja-se nesse ódio invejoso o mesmo que Caim teve contra Abel. A história estava se repetindo: o ódio de um irmão contra outro. A única diferença é que Jacó se livrou de haver sido morto pelo irmão por causa da intervenção materna. Virtude que certamente faltou à Eva para salvar Abel das mãos de Caim. Rebeca, sabendo de tudo, chama Jacó e o avisa dos propósitos de Esaú e aconselha-o a fugir (Gn 27, 41-45). Completando a sua preocupação bondosa para com o filho, promete depois mandar buscá-lo, pois julgava que não teria condições de vir sozinho. Talvez pensasse ela que Jacó, deserdado dos bens terrenos, pois tinha recebido apenas a bênção celeste, viveria lá em situação de penúria e não teria condições de retornar por si mesmo à sua casa.  Realmente, era esta a situação de Jacó, pois ainda a caminho, depois da visão celeste que teve, dizia:  “Se Deus for comigo, e me proteger na viagem que empreendi, e me der pão para comer e vestido para me cobrir, e eu voltar felizmente à casa de meu pai, o Senhor será meu Deus”  (Gn 28, 20-21).

Notem bem a expressão final: “o Senhor será meu Deus” – isto quer dizer que ele desejava prestar vassalagem e tornar-se escravo de Deus, pois, em geral, a expressão “Senhor” naqueles tempos era dada ao possuidor de escravos..

Jacó fugiu então para a casa de seus tios. Sua mãe, preocupada havia pedido a Isaac que mandasse o filho lá para conseguir uma noiva e se casar. E foi com este propósito que Isaac autorizou a viagem do filho. Enquanto Jacó foge para não ser morto e conseguir uma esposa proba e honesta para se casar, Esaú faz o contrário causando grande desgosto a seus pais ao realizar um mau casamento.

Quanto a Jacó, teve em país estranho uma vida muito abençoada.  Por causa de sua obediência, recebeu copiosas graças de Deus. Ainda a caminho da casa dos tios, teve a famosa visão da Igreja, representada por uma grande escada que ia da terra até tocar no céu, e os anjos descendo e subindo por ela. E Deus, no alto da escada, dava-lhe uma bênção (Gn 28, 13-16).

Depois que consagrou aquele lugar, chamando-o de Betel, Jacó continua sua viagem até chegar a Haran. Envolvido por artifícios criados pelo seu tio e suas mulheres, Jacó termina se casando com as duas filhas de Labão, Lia e Raquel, e ainda tendo filhos de suas escravas, chamadas Bala e Zelfa.  Os primeiros filhos, Rubem, Simeão, Levi e Judá, nasceram de Lia; o quinto e sexto filhos, Dan e Neftali, nasceram da escrava Bala; o sétimo e oitavo filhos, Gad e Aser, nasceram de Zelfa; o nono e décimo filhos, Issacar e Zabulão, vieram novamente de Lia, e ainda uma filha chamada Dina; finalmente, Raquel consegue ter dois filhos, José e Benjamin, completando os doze varões que formaram as tribos judaicas.

De tal forma Deus cumulou Jacó de bênçãos que ao retornar para a casa de seus pais, possuía além de numerosa prole grande fortuna. Da mesma forma, foi beneficiado por visões angélicas, num lugar chamado  Maanaim ou “acampamento de Deus” (Gn 32, 2), tal era a quantidade de anjos que foram ao seu encontro.

 

Espírito de escravidão e vassalagem entre irmãos

Veremos como Jacó se comporta com relação a seu irmão. Partindo do pressuposto de que a bênção de Isaac tinha constituído Esaú como seu senhor (assim ele o entendeu), passa a considerá-lo como tal. Quando se dirigia à casa de seus pais, para onde retornava com suas esposas e filhos, Jacó manda avisar a seu irmão Esaú, dizendo aos mensageiros: “Falai assim a Esaú, meu senhor..”  Primeiramente, Jacó dá a entender a Esaú que reconhece-lhe a servidão e o chama de senhor, pois parece-lhe que foi este o desejo de Isaac na hora de sua bênção. Em seguida, manda o mensageiro dizer a Esaú que ele estava retornando muito rico, cheio de gado e de posses: ”Tenho bois, jumentos, ovelhas, servos e servas, e mando agora um embaixador ao meu senhor, para achar graça diante dele”. 

Dizer que tinha muitos animais não era suficiente para comprovar sua riqueza, era necessário que tivesse também “servos e servas”, quer dizer, escravos, a seu serviço, e ainda por cima um embaixador para levar sua mensagem. Em seguida, o chama novamente de “senhor”  e lhe pede graças, pede o seu beneplácito, como que autorização para entrar em seus domínios.

Trata-se evidentemente de um preito de vassalagem. Ao receber a mensagem, Esaú saiu a toda pressa para encontrar-se com o irmão acompanhado de quatrocentos homens. Jacó temia que ele viesse com más intenções e por isso usou de um estratagema.  Dividiu o povo que estava com ele, assim como seu rebanho, em duas partes, dizendo: “Se vier Esaú a uma partida, e a desbaratar, a outra partida, que resta, se salvará”. Em seguida separou os presentes que iria dar a seu irmão. Certamente havia escolhido os melhores animais de seu rebanho. Finalmente, ordenou que seus servos conduzissem os rebanhos separadamente, com intervalos entre um rebanho e outro, com a seguinte estratégia: “Se te encontrares com meu irmão Esaú, e ele te perguntar: De quem és? ou, para onde vais? ou, de quem são estes animais que conduzes? Responderás: são de teu servo Jacó, ele os mandou de presente a meu senhor Esaú; ele mesmo vem atrás de nós”.   As mesmas ordens foram dadas a todos os que conduziam os rebanhos, sempre insistindo que chamassem Jacó de servo e Esaú de senhor.

A estratégia deu certo. Com isso, Jacó conseguiu aplacar o ódio de Esaú, que via agora em seu irmão um homem poderoso a seu serviço. Dir-se-ia que haveria luta, mas Deus abençoou tudo de tal forma que Esaú recebeu bem a seu irmão. Fê-lo talvez por temer seu poder, mas daí resulta que a humildade de Jacó produziu bons frutos até mesmo no coração de um homem mau.

Mesmo no momento de encontrar-se, Jacó não confiou inteiramente em Esaú.  Colocou na frente as escravas Bala e Zelfa com seus filhos, e logo atrás as esposas Lia e Raquel com os delas também. O momento do encontro foi muito cerimonioso e respeitoso da parte de Jacó:  E ele, adiantando-se, prostrou-se sete vezes por terra, até seu irmão se aproximar” . Da mesma forma inclinaram-se profundamente as esposas, filhos e escravas.  Isto não pareceu a Esaú um sinal de fraqueza ou de humilhação, a tal ponto que o mesmo correu imediatamente ao encontro do irmão e o abraçou e beijou chorando. Após perguntar quem eram as mulheres e os filhos de Jacó, Esaú perguntou sobre os rebanhos, tendo Jacó respondido: enviei-os para achar graça perante meu senhor. Jacó sempre repetindo o título de vassalagem, o poder que lhe parecia que Isaac tinha dado de seu irmão sobre ele, de ser seu senhor.

Esaú recusa as ofertas, alegando que possuía muitos bens. Jacó então responde humildemente: “sê-me propício, aceita a bênção que te trouxe e que Deus me deu, o qual dá todas as coisas”.  Quer dizer, aquilo que ele possuía não era fruto da esperteza, da força, somente do trabalho, mas sim de Deus “que dá todas as coisas”.  E Jacó pede, inclusive, que o irmão aceite a mesma bênção que Deus lhe havia dado, não a terrena, mas a celeste. Esaú convida para juntos caminharem, mas sempre desconfiando Jacó responde: “Tu vês, meu senhor, que tenho comigo meninos tenros, ovelhas e vacas prenhes; e, se eu as cansar fazendo-as andar mais, morrerão num dia todos os rebanhos. Vá o meu senhor adiante do seu servo;  eu seguirei pouco a pouco os seus passos...”.  Diante de tudo o que aconteceu, Jacó dá agora um testemunho de lealdade completa, de vassalagem inteira, pois diz até que irá seguindo "os seus passos", querendo indiciar que o seu irmão é quem o guiará no caminho. Esaú pede que pelo menos o siga os acompanhantes de Jacó, mas isto também é-lhe negado: voltou pois Esaú para Seir pelo caminho por onde tinha vindo.

Da mesma forma, Jacó se recusou a residir na mesma cidade de Esaú, indo estabelecer-se em Socot. Tudo indica que esta localidade é a mesma para onde Moisés se dirigiu ao começar a caminhada com o povo hebreu saindo do Egito (Ex 12, 37).

Vê-se no episódio acima que o espírito de escravidão, de servidão espontânea e legítima, nunca tira do homem a capacidade de auto-regência, mas, pelo contrário, a aprimora, pois não houve aí a imposição da vontade de um sobre outro, nem qualquer imposição física ou moral, mas a aceitação pura e simples de poder servir ao irmão como se escravo fosse.

 

O espírito de escravidão entre o povo eleito quando fugia do Egito

           Ao nascer Moisés, os filhos de Israel já eram mais de dois milhões, segregados dos egípcios, praticando rituais diferentes (como a circuncisão e a imolação de animais), crendo no Deus verdadeiro, não se miscigenando nem se acostumando completamente aos costumes pagãos.  E assim progrediram formando um povo, embora vivendo numa espécie de gueto e debaixo do poder de um outro. É curioso que Deus tenha formado o seu povo sob o  jugo de outro: por que não deixou que Jacó permanecesse com seus filhos em Canaã, lá formando o povo eleito, em vez de formá-lo no Egito e depois fazê-lo voltar à Terra Prometida? Uma das razões talvez fosse de que a escravidão alimentava neles a expectativa de um Libertador, de um Messias; daí o termo “expectação das nações” usada por Jacó. De outro lado, Deus sabia o quanto este povo seria de cerviz dura, e assim quis que ele se formasse humilhado por um outro. Tornaram-no escravo, mas mesmo assim Deus o abençoava e o fazia crescer. Esta era a forma como Deus regia seu povo.

          Moisés e Arão foram à presença do Faraó para pedir que libertasse o povo hebreu e obtiveram como resposta que o povo precisava trabalhar mais e foi dado ordens aos chefes das obras: “Não mais dareis palhas, como antes, ao povo, a fim de fazer tijolos, mas eles mesmos juntarão a palha. E os obrigareis à mesma quantidade de tijolos que antes, sem lhes diminuir nada; porque estão ociosos, etc” E depois mandava açoitar o povo para que produzisse sempre a mesma quantidade de tijolos. Eram mais de dois milhões de pessoas, grande parte condenada aos trabalhos forçados!

          Não havia leis sobre a forma de tratar os escravos entre os povos pagãos antigos, especialmente entre os egípcios. Sentindo isso, Moisés foi inspirado por Deus a legislar sobre o assunto. Quando conduzia o povo pelos desertos criou leis específicas a respeito da escravidão (Ex 21, 1-11). No entanto, era preciso evitar que se fizessem escravos entre os hebreus, preferindo-se os estrangeiros (Levítico, 25, 35-46).

          Quer dizer, Moisés legisla sobre a escravidão como a coisa mais normal do mundo, dando a entender que era costume se manter escravos entre eles. A escravidão, em si, não é condenada, mas tão somente se escravizar a um irmão, a um filho de Israel. No Livro Deuteronômio (15, 12-18), Moisés volta a repetir a mesma lei que havia consignado no  Êxodo 21, 1-11 acima descrita.

          E desta forma o espírito de escravidão foi aos poucos se tornando uma coisa comum e até procurada pelos bons hebreus, uma forma como a Divina Providência alimentava neles o Ideal do ponto mais alto da Bondade e da auto-regência,  que é ser manso e servir.

 

O Jubileu bíblico

E foi com intenção de libertar muitos dos cativos de seu próprio povo que foi introduzido tal preceito nas festas do Jubileu, onde, a cada 50 anos se comemorava a libertação do povo dos egípcios. Quer dizer, não havia ocasião mais propícia para libertar seus próprios escravos do que a festa em que se comemorava a libertação de todo o povo. A cada cinquenta anos os hebreus libertavam todos aqueles patrícios que mantinham como escravos dentro de casa, uma enorme alforria que os fazia lembrar a proximidade de um Libertador que também os livrasse do poder de regência do pecado.

 

Outro exemplo de espírito de escravidão

Primeiras referências bíblicas ao Monte Carmelo, onde Davi se encontra com a que seria uma de suas esposas, Abigail, exemplo de prefigura da servidão voluntária. Este espírito de servidão ou escravidão voluntária, comum entre bons israelitas, ocasionou episódios muito admiráveis, como por exemplo o de Abigail, citado em Samuel I 25, 23-35. Davi mandara pedir ajuda a Nabal, riquíssimo fazendeiro que tosquiava ovelhas ao pé do Monte Carmelo. Em resposta o avarento judeu diz: “Quem é Davi? E quem é o filho de Isaí?  Hoje são numerosos os servos que fogem aos seus senhores. Pegarei eu portanto no meu pão, na minha água e na carne dos animais que matei para os que tosquiam minhas ovelhas, e dá-lo-ei a homens que não sei donde são?”  Esta resposta era um insulto a Davi, pois o mesmo protegera aquele homem na guerra, Nabal devia portanto a Davi pelo menos reconhecimento pelo bem que lhe fizera. Irado, Davi se aprestava para ir com seus homens matar Nabal com todos os viventes que com ele estavam, quando se encontra com Abigail, mulher de Nabal: “Mas Abigail, tendo visto Davi, apressou-se, desceu do jumento, prostrou-se diante de Davi, sobre o seu rosto, fez-lhe uma profunda reverência, lançou-se a seus pés e disse: Sobre mim caia, meu senhor, esta iniquidade; peço-te que permitas à tua escrava falar aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva.” Davi havia sido ungido por Samuel, mas ainda não reinava, pois Saul ainda era vivo. Abigail, que morava no Monte Carmelo, sabia no entanto que Davi havia sido ungido. Continuando:  “Não faças caso, meu senhor e meu rei, da injustiça de Nabal, porque, como o denota o seu próprio nome, é um insensato, e a loucura está com ele; mas eu, tua escrava, não vi os criados que tu, meu senhor, enviaste”.

Continuando seu discurso, Abigal chama Davi de “meu senhor” e se declara sua escrava várias vezes, oferecendo-lhe dádivas para seus homens que trazia em seus jumentos.  Logo depois, acrescenta ela profeticamente: “Perdoa à tua escrava a iniquidade, porque certissimamente o Senhor estabelecerá em ti, meu senhor, uma casa estável, porque tu, meu senhor, combates pelo Senhor; não se encontre, pois, culpa em ti durante todos os dias da tua vida”.

E mais adiante: “Quando, pois, o Senhor te tiver feito, meu senhor, todos os bens que ele predisse de ti, e te tiver constituído general sobre Israel, não terás no coração este pesar, nem este remorso, meu senhor, de ter derramado sangue inocente, ou de te teres vingado por ti mesmo”:.

Profetizando que se tornaria, após a viuvez, esposa de Davi, declara: “e, quando o Senhor tiver feito bem ao meu senhor, lembrar-te-ás da tua escrava”.

Em resposta, Davi diz a Abigail: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que te enviou hoje ao meu encontro, bendita a tua palavra, e bendita és tu, que me impediste hoje de derramar sangue, e vingar-me pela minha mão. Doutro modo juro pelo Senhor, Deus de Israel, que me impediu que te não fizesse mal: Se tu não viesses logo ao meu encontro, não teria ficado nada com vida desde hoje até amanhã em casa de Nabal, nem mesmo um dos que urinam à parede. Davi, pois, aceitou da sua mão tudo o que lhe tinha trazido e disse-lhe: Vai em paz para tua casa; eis que ouvi a tua voz e honrei a tua presença”.