segunda-feira, 4 de maio de 2026

A MÃE E SENHORA, ESPLENDOR DO CARMELO, E SUA AÇÃO SOBRE A HUMANIDADE PECADORA

 


 

A lacrimação de Nossa Senhora em Nova Orleans é o eco dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. O que espera o mundo de hoje, que não se emenda de seus pecados?

 

Há um pequeno fato da vida corrente, muitas vezes notado e que parece sem maior significação: conversa-se com uma pessoa e, de repente, falta a ela o termo adequado para exprimir seu pensamento. Ela tartamudeia, hesita e alguém que está ao lado lhe propõe a palavra. A pessoa tem um alívio, toma a palavra com certa ênfase, veemência e continua.

Para ela o pensamento estava encalhado na mente, não se definia, não se exprimia enquanto aquele vocábulo não aparecia, e a ejeção brilhante do pensamento que encontra a expressão adequada é como que uma respiração para a alma que estava em suspenso em todo o seu funcionamento.

 

As saudades que gemem na alma dos contrarrevolucionários

Ora, para o homem de hoje em dia acontece isso. Há em sua alma um contrarrevolucionário que dorme – às vezes de um sono profundo, terrível, mas real -, que teria vontade de objetar algo à Revolução que fala, que estadeia em suas pompas, se afirma, proclama; contudo, diante dela ele não sabe o que dizer... Faltam-lhe não só as palavras que proclamem a verdade, mas os símbolos, as cerimônias, os ritos que a representam.

Não só isso – oh, quanta dor! – faltam, no seu integral esplendor, na sua incondicional ortodoxia, os ritos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Essa é a falta suprema, irremediável enquanto eles não forem restaurados!

Mas também à vida civil, reduzida a uma tediosa banalidade e a uma trivial vulgaridade, faltam-lhe as cerimônias, os estilos, aqueles reluzimentos das pompas de outrora, nas quais os grandes encontravam a expressão de sua grandeza e os pequenos a grandeza da nação. Isso tudo desapareceu quase completamente.

Há, pois, na alma do homem contemporâneo algo que geme à procura de expressão. É o contrarrevolucionário que gostaria de se manifestar. Prova disso – e quão eloquente – tivemos com o casamento do Príncipe Charles.[1] Calcularam-se em dezenas de milhões de pessoas do mundo inteiro que acordaram ou se mantiveram despertas em horas incômodas, para assistir à cerimônia do início ao fim.

Por que um cerimonial na longínqua Inglaterra – respeitável enquanto escrínio de tradições – atraiu os olhos do mundo inteiro? É única e exclusivamente porque o mundo tinha saudades deles.

Tinham saudades os homens de idade madura que ouviram falar delas como algo que ainda palpitava nas recordações de há pouco, mas que não chegaram a vê-las; tinham saudades os jovens, para os quais elas faziam parte de uma mitologia. Todos queriam contemplar alguém que andasse numa carruagem dourada, com pajens, com lacaios; desejavam ver corcéis magníficos que cavalgam, queriam os desdobramentos de pompas de outrora porque algo lhes dizia: "Temos saudades do cerimonial!”

Quanto é verdade que essas saudades são mais intensas, não na alma do homem comum que anda pela rua, no qual dorme um contrarrevolucionário, mas na alma do contrarrevolucionário que tem saudades das pompas nas quais ele se exprimia inteiramente. Saudades de um passado que lhe falava de sobrenatural, de fé, de grandeza, de combatividade, de harmonia, de arte, de bom gosto, de desfiles que davam a impressão de fabulosos exércitos que andavam nas nuvens. Disso tem saudades, no fundo de sua alma, o contrarrevolucionário, porque tem vontade de exprimir aquilo que deseja, mas que não encontra as formas externas que deem respiração e expressão ao que está em seu interior.

 

Nossa Senhora, a profética beleza do gênero humano

Essa foi a alegria que experimentamos nesta cerimônia[2] em que festejamos Nossa Senhora do Carmo, a título especial Rainha dos Profetas, Mãe e esplendor do Carmelo – Mater et decor Carmeli.

Do alto do Monte Carmelo, a montanha profética por excelência, Nossa Senhora reina e sorri para o universo, governa a História e infunde terror aos demônios.

Ela é a Mãe, porque protege todos aqueles que lutam sob seu estandarte. E o melhor da proteção é acalentar a alma deles com a esperança da vitória.

O que significa decor? No português corrente diz-se de algo que mantém ou ressalta, viola, transgride ou comprime e decoro. O que é o decoro? É propriamente a beleza da dignidade. É o pulcro majestoso, distinto e diferenciador da grandeza, que na medida em que se ergue e se manifesta superior, rejeita a banalidade e atrai a si as almas verdadeiramente capazes de compreendê-lo. Essa é a velha acepção do vocábulo.

Do cimo do Carmelo Nossa Senhora reina maternal, mas decorosamente. Ela é a profética beleza do gênero humano.

Embora voltar-se para o passado seja uma das atitudes nobres da alma humana – feita de riquezas que não se esgotam nessa atitude -, ela pede algo a mais, pois tem vontade de produzir o futuro. O bem-estar da alma existe quando o homem nota uma continuidade entre o passado e o futuro. O sentido do presente é de ser um hífen e não uma gora sem nexo atirada à margem do tempo.

Nesta cerimônia não houve apenas a rememoração saudosa do passado, mas uma afirmação de que esse passado, no que ele tem de perene, quer e vai renascer. Muito mais que um pressentimento, ela foi a prelibação do Reino de Maria que nasce, porque, neste presente de ruína e de miséria, o que há de mais verdadeiro é que Maria vencerá! Eis a promessa de vitória e de êxito que paira sobre o pantanal do mundo moderno.

 

As lágrimas de Nossa Senhora em Granada

Neste ano, a festa de Nossa Senhora do Carmo coincide com o décimo aniversário da lacrimação da Sagrada Imagem em Nova Orleans[3]. E ao cabo desses dez anos, Nossa Senhora chorou sangue, em Granada.[4]

Qual é a relação entre um pranto de lágrimas e um pranto de sangue? Os símbolos falam por si. Lágrimas, chora a mãe quando chega ao extremo de sua dor. Durante vinte séculos a Igreja venerou Nossa Senhora lacrimosa aos pés da Cruz, donde esta frase de um belíssimo cântico: “Stabat Mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa” – junto à Cruz, cheia de dor, estava a Mãe lacrimejando”. A piedade comum imaginou Nossa Senhora no auge da dor, vertendo lágrimas indizivelmente preciosas que lhe ensopam a túnica e o manto sagrado... Também escorre o Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, misturando-se, quiçá, com essas lágrimas, como a primeira água a misturar-se com o vinho para a primeira Missa.

O amor materno é tão nobre, venerável e sensível, que facilmente atinge o extremo da dor, pelo sofrimento causado pelo mau filho. Entretanto, não se ousa afirmar que uma mãe chegou a chorar sangue.

Consideremos uma mãe muito infeliz que diz: “Passei a noite chorando”, dir-se-á: “Coitada!”, olha-se para ela com compaixão. Mas se ela disser: “Eu chorei sangue”, pensa-se: “Que importa!”, porque mesmo as maiores aflições do amor materno não levam correntemente a chorar sangue.

Isso é tão comum na História, que o homem tem arrepio quando imagina que um sofrimento moral levou alguém a esse extremo.

Nossa Senhora, em Granada, chorou sangue para dizer que a dor que durante tantos anos A entristeceu – dez anos -, foi aumentando; o castigo que Ela receia para os homens foi aumentando também, e não há palavras que exprimam a punição que se aproxima...

 

O mundo contemporâneo impenitente provoca a ira de Deus

Nós vivemos no século do dinheiro, portanto, na era dos juros. Não nos damos conta de que nos “bancos” de Deus o castigo dá juros tremendos. E quando um homem que tem espírito de fé vê impune o pecado, o que ele deve pensar é: “Pobre miserável.. que juros tremendos estão se acumulando sobre ele!”

Quando ouvimos falar de uma cidade qualquer sobre a qual em certo momento tenha baixado a punição de Deus, se nos dissessem que um ano antes do castigo seus habitantes tinham sido avisados por sinais, nós diríamos: “Que terrível! Quanto mais antiga a ameaça, mais dá mostras de quão irado está Aquele que vai castigar!”

Como será um castigo que fez Nossa Senhora chorar há dez anos? Que terror, que portento, que tormentos! Mas se fossem apenas dez anos! A lacrimação de Nova Orleans é o eco dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. Mais ainda: o aviso feito por Nossa Senhora de Fátima é, ele mesmo, eco daqueles dados por Ela no século anterior, em La Salette, ou quando apareceu a Santa Catarina Labouré. Na Rue du Bac Ela previu as devastações da Comuna em Paris. Ela alertou em 1830, e em 1870 caiu o terrível castigo, como quem diz: “Eu aviso uma vez e logo se cumpre o que eu disse”.

E, apesar do afeto e da veneração que tenho pela França, é preciso dizer: depois que ela foi invadida pelos prussianos[5], ela nunca mais foi a mesma. Ela se recompõe em parte, mas nela algo ficou como uma vergastada na face. Nem sequer os louros da guerra que ela ganhou com o apoio de quase todas as nações da Terra recompuseram as tristezas desse gilvaz[6] que no rosto lhe ficou marcado.

Se por pecados tão menores o terrível precônio[7] se cumpriu, o que espera o mundo de hoje que não se emenda de pecados universais imensamente mais graves, repetidos em condições históricas mais impressionantes? Oh, que castigo!

Nós, e sobretudo aqueles que estão sob a ameaça do castigo deveriam chorar sangue para se penitenciar, porque quando se provocam lágrimas de sangue à própria Mãe, o único modo proporcionado de pedir perdão é chorar lágrimas semelhantes às d’Ela. Sangue com sangue se paga. E como está longe disso o mundo contemporâneo!

 

Cantaremos eternamente as misericórdias de Nossa Senhora

Mas, vede como é Nossa Senhora: Misercordia Domini in aeternum cantabo[8]- do mesmo modo nós cantaremos eternamente as misericórdias d’Ela, porque irada assim e manifestando aos homens essas ameaças, Ela quer dar graças especialíssimas a alguns, atraí-los de modo particular e dizer-lhes:

“Vós, filhos do meu amor materno, do vínculo com o gênero humano que não se rompeu inteiramente; vós sois aqueles sobre os quais a misericórdia incidirá antes mesmo dos terríveis castigos da justiça. Eu vos escolhi do meio de tantas nações, de diversas partes do corpo social, de diferentes idades e de tantas condições, Eu vos escolhi e vos reuni para serdes o ponto luminoso que deve brilhar nas trevas deste mundo, para glorificar o passado que, se morre, deve morrer com honra e prenunciar um futuro que, se nasce, deve nascer pequeno e desprezado para depois prostrar por terra os grandes homens que disseram a esse pugilo: “Tu não gerarás o futuro!”

Na sua misericórdia imensa, no seu poder ilimitado, Nossa Senhora dispõe as coisas de maneira a ter em vários lugares quem A ame na fidelidade ao passado e na esperança do futuro. Esses são a continuidade histórica disposta por Ela. Entre esses, estamos nós e, por isso, podemos dizer:

“Ó Mãe e Senhora, esplendor do Carmelo, na vossa sabedoria profética Vós previstes o futuro da Igreja, que resultaria de vossas preces unidas ao sacrifício infinitamente precioso de vosso Filho. Em determinado momento de vossa previsão, foi-Vos revelado que nós existiríamos. E Vós, para quem o futuro não tinha véus, pois sois a Rainha dos Profetas, Mãe do único Profeta por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pensastes nesta cerimônia realizada em vossa honra, Vós sorristes e dissestes: “Eis meu desígnio que continua”.

Permiti que a seriedade me sugira uma reflexão: será só o sorriso de Nossa Senhora que encontraríamos se Ela olhasse para nós?

 

Necessidade de um Confiteor

Adentremos no interior de nossas almas e analisemos até que ponto estamos contentes conosco, até que ponto damos a Nossa Senhora toda glória correspondente ao convite incomparável que recebemos. Se formos sinceros, devemos nos lembrar daquelas palavras do Salmo: “Si iniquitates observaveris, Domine, Domine quis sustinebit? – Se observardes as iniquidades, Senhor, Senhor, quem se sustentará em vossa presença? (Sl 129, 3).

Há apenas uma voz que pode responder afirmativamente a essa pergunta. Essa voz enche a História: a da Virgem Mãe. Ela não teve uma falta sequer, nunca deixou de corresponder perfeitissimamente às graças mais superlativas e sofreu dores como não estamos em condições de imaginar. Nós pensamos que, imaginando-A chorando sangue, concebemos tudo; mas não compreendemos o que é a alma d’Aquela que é Filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo e que vê morrer o seu próprio Filho que é Deus.

Se a natureza toda entrou em convulsões com a morte do Homem-Deus, muito mais sensível que as montanhas que estremecem e do que o céu que se toldou era o Coração transpassado d’Aquela que conhecia tudo, media tudo e amava a Deus como Ele merece ser amado.

Então, para nós é necessário também um Confiteor. Não creio que haja festa, comemoração ou alegria católica que, na seriedade da alma, possa ser desacompanhada de um Confiteor, porque o homem deve estar sempre à procura de uma oblação mais completa, de uma pureza maior, mais íntegra e mais intransigente. Assim deve ser a alma verdadeiramente católica.

Tenhamos isto em vista: quando Nossa Senhora chora sangue por filhos que lhe foram indiferentes, que A ultrajaram e perseguiram, filhos que A esbofetearam com as mãos na quais reluz a unção sagrada, para consolá-La é imprescindível chorarmos as nossas próprias faltas!

 

“Sede amigos da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade”

Nessa festa de Maria, Mater et decor Carmeli, foram oferecidas a Ela o ouro, simbolizado pelo esplendor desta cerimônia; o incenso, das preces e louvores que subiam dos corações; e eu venho com o terceiro presente: a mirra amarga, mas preciosa, da seriedade e da severidade. Nisso o meu coração fala por inteiro.

Com as lágrimas de sangue vertidas em Granada, Nossa Senhora parece querer nos dizer: “Sede amigos da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade, da minha severidade”.

Essas são lagrimas de severidade, da Mãe que quer converter os filhos, mas é solidária com o castigo que vem. Ela quer que a punição se afaste, desde que os homens se convertam. Nossa Senhora não pede: “Senhor, afastai o castigo”; Ela diz: “Senhor, dai-me meios de fazer com que eles fujam do castigo, fugindo da culpa. Se eles ficarem abraçados à culpa eu choro sangue, mas não tenho o que fazer”. Deus põe uma condição: caso se arrependam, o castigo será afastado; do contrário ele virá.

Nesta quadra da História em que estamos, onde vivemos uma espécie de segunda Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que está sendo crucificado no seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, amemos, portanto a seriedade, amemos a severidade, amemos a contrição, amemos a dor. (Conferência Santo do Dia, de 16/7/1982[9]

 


[1] Celebrado em 29/7/1981.

[2] Cerimônia em louvor a Nossa Senhora do Carmo, após a qual Dr. Plínio pronunciou as palavras aqui transcritas.

[3] Em julho de 1972, na cidade de Nova Orleans, EUA, uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima verteu lágrimas humanas por 14 vezes.

[4] Em 1982, na Basílica San Juan de Dios, em Granada (Espanha).

[5] Guerra Franco-Prussiana (1870-1871(.

[6] Ferimento, cicatriz na face.

[7] Anúncio, proclamação, termo usado na Páscoa.

[8] Do latim: Cantarei eternamente a misericórdia do Senhor.

[9] Revista “Dr, Plinio”, edição n. 328, de julho de 2025, págs. 8/13


quinta-feira, 30 de abril de 2026

SÃO PIO V, O HERÓI DA BATALHA DE LEPANTO

 



Vamos dizer então uma palavra a respeito da Batalha de Lepanto e de Nossa Senhora do Rosário. Tantos foram os comentários que eu fiz a respeito da batalha de Lepanto, em vários anos sucessivos, que quase não sei o que comentar a respeito disso. Mas eu vou destacar aqui um herói da batalha de Lepanto a respeito do qual pouco se fala. E esse herói foi o Papa São Pio V.

 

Sem uma pressão heroica de São Pio V não haveria se dado a batalha de Lepanto

Em que sentido São Pio V foi herói, e em que sentido importa reconhecermos o heroísmo dele?

São Pio V via bem o poder otomano crescer cada vez mais, e o perigo que havia de os otomanos se jogarem sobre a Itália, por exemplo, ou sobre qualquer outra parte da Europa, e operarem uma invasão que poderia ter efeitos tão ou talvez mais ruinosos do que teve a invasão árabe na Espanha, no começo da Idade Média.

E por que razão isto? É que no tempo de São Pio V, século XVI, já a Europa estava dividida, os cristãos da Europa estavam divididos entre católicos e protestantes. E já a partir do século XIII tinha havido uma primeira divisão dos católicos da Europa entre cismáticos e católicos.

Havia portanto já instalada entre os cristãos essa lamentável divisão que nós desejamos remediar pela conversão de todos — e que o ecumenismo quer remediar pelo interconfessionalismo —, essa lamentável divisão que enfraquece tanto as forças católicas.

No século XVI, de São Pio V, da batalha de Lepanto, havia outra coisa. É que o protestantismo tinha naquele tempo um vigor incomparavelmente maior do que hoje, estava ainda na sua fase de expansão, na sua fase de luta. E era muito de se temer que os protestantes aproveitassem a agressão feita pelos maometanos a um país católico, para invadirem, eles os protestantes, outros países católicos. Tanto mais que já havia disso uma experiência.

A casa D’Áustria que, como os senhores sabem, governava a Áustria, Hungria, e à qual tocava já habitualmente o título, e por eleição, de imperador do Sacro Império Romano Alemão, a casa D’Áustria várias vezes se viu em dificuldades seriíssimas por causa de combinações —ou ao menos de convergência, esforços —, claras, entre protestantes dentro do Sacro Império e otomano de fora do Sacro Império, para forçarem a capitulação da Casa D’Áustria, e liquidarem o catolicismo, de imediato pelo menos nos povos de língua alemã.

De maneira que para a Santa Sé a ameaça otomana era uma ameaça muito mais forte do que foi a ameaça árabe, tão terrível, entretanto. Porque ao menos os católicos do tempo dos árabes, formavam um bloco, enquanto dos católicos do tempo de São Pio V estavam divididos. Alguns já não eram mais católicos, havia os protestantes alemães. É verdade que no tempo da invasão árabe havia os arianos, mas os que resistiram não eram arianos, esses eram católicos de fato e lutaram.

Nessa situação São Pio V tinha que apelar naturalmente para o varão que era o apoio temporal da Igreja naquele tempo, e que era Felipe II, rei da Espanha. Precisamente porque o imperador do Sacro Império não tinha condições, por causa da divisão religiosa no império, de lutar eficazmente contra os mouros, os turcos. Precisamente porque a França estava corroída por uma crise religiosa muito grande, guerra de religião, etc., e os católicos mal davam conta para vencer os protestantes; porque a França já não tinha o fervor religioso que a Espanha ainda conservava.

Por todas essas razões o Papa não podia contar também com a França. Ele só podia contar, portanto, dentre as grandes potências católicas, com Felipe II de um lado, e depois com Veneza, que era uma grande cidade marítima, uma república aristocrática, com largo desenvolvimento em todo Mediterrâneo, e com muitos bons navegadores, boas frotas, etc.

Mas, se bem que o poderio de Veneza fosse ponderável o grande poder decisivo era o de Felipe II.

Agora, acontece que, os historiadores reconhecem — mesmo os historiadores que admiram Felipe II, e tem muitas razões para admirá-lo, eu sou um admirador dele — os historiadores entretanto reconhecem que Felipe II era um homem de uma indecisão do outro mundo. Quando tinha que resolver qualquer coisa, tinha vais-e-vens, concordava, depois discordava; e era preciso mandar embaixadores, e era preciso falar, e ele pedia prazo, deixava passar o prazo… Era uma coisa tremenda vencer a indecisão de Felipe II.

E São Pio V estava vendo o perigo crescer e todo o assunto ser resolvido numa sala do palácio real de Madrid ou do Escorial, por Felipe II com seus auxiliares ou sozinho, e no momento em que, em última análise, Felipe II se retraísse de repente, a horda maometana se desatava sobre a Itália, e depois atingia toda a cristandade. Era o fim da Civilização Cristã no Ocidente. E não seria o fim da Igreja porque a Igreja é imortal, mas a que a Igreja poderia ficar reduzida, ninguém sabe.

Pastor[1], que historia esses fatos, conta as tratativas de São Pio V com Felipe II, e ele mesmo diz que constituíram um verdadeiro martírio, [pelo] tanto [que] São Pio V teve que pedir. Felipe II fazia exigências, ele não podia atender. Pedia apoio para uns e para outros, para depois poder atender às exigências financeiras e outras de Felipe II. Afinal conseguia. Felipe II queria mais. Depois Felipe II queria que o Papa mandasse navios e o Papa não tinha os navios. O Papa acabava arranjando os navios. Mandava falar, Felipe II já não queria mandar a esquadra dele. Só os navios da Santa Sé não adiantavam…

Tanto foi a coisa que é certo que se não fosse a pressão de São Pio V, não se teria realizado a batalha de Lepanto, porque a Espanha não teria mandado a esquadra que era o grande contingente decisivo dentro das esquadras aliadas que lutaram e venceram em Lepanto. De tal maneira que os historiadores de São Pio V reconhecem que para ele foi mesmo, ao pé da letra, naquele momento de aflição, um martírio ele lutar naquelas condições, e que ele foi um verdadeiro herói em aguentar a angústia que a situação lhe trazia, e ao mesmo tempo lutar, lutar, lutar até o último momento, para conseguir afinal de contas que a batalha se desse, que as tropas saíssem.

 

No momento decisivo da batalha, Nossa Senhora aparece a São Pio V e lhe comunica a vitória

Aí os senhores compreendem melhor porque razão é que houve a famosa aparição a São Pio V.

Todos os senhores conhecem o caso: São Pio V estava numa reunião de cardeais, em Roma, tratando de qualquer assunto. E em certo momento, enquanto a reunião se desenvolvia, ele se levantou e rezou um terço, e rezou pela vitória dos católicos sobre os maometanos, porque ele tinha a noção de que mais cedo mais tarde deveria realizar-se uma grande batalha, e que seria decisiva para a Cristandade.

Enquanto ele rezava o terço, ou terminado o terço, apareceu-lhe Nossa Senhora Auxiliadora e comunicou a ele que a batalha de Lepanto tinha sido ganha. Ele então foi para o ponto da sala onde estavam reunidos os cardeais e comunicou isso: “Nós podemos nos tranquilizar. A batalha foi ganha. Há uma vitória. Eu tive uma revelação neste sentido, etc.”

Naquele tempo não se podia discutir que isso era milagre, porque não havia rádio, telégrafo, televisão, não havia nada, e uma notícia dessas levaria um tempo enorme para chegar de Lepanto até Roma. E ele teve no próprio dia, — eu tenho quase certeza disso, —a revelação da batalha. O que quer dizer que foi uma revelação sobrenatural, feita por Nossa Senhora a ele.

Agora, por que a ele? A ele porque ele era o chefe da Cristandade, não tem dúvida. A ele também porque ele tinha sido um verdadeiro herói, e tinha lutado a propósito dessa guerra, e tinha desenvolvido um esforço igual ou maior que o dos batalhadores de LepantoEle tinha sido um herói, verdadeiro herói, como foi Dom João D’Áustria e como foram os outros grandes guerreiros que venceram em Lepanto.

 

A verdadeira noção de heroísmo – Os dois maiores exemplos da História, Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora

Agora, alguém me dirá: “Isso, Dr. Plinio, eu não compreendo, porque ele não arriscou a vida, ele ficou comodamente em Roma à espera de que viesse uma notícia. Se ele não arriscou a vida e não combateu não pode ser herói”.

Este é o ponto, o prisma falso que nós devemos tirar de nossa cabeça. Por certo quem luta com as armas na mão é um herói. Mas a doutrina católica jamais admitiu a tese de que esta é a única forma de heroísmo.

O que é o heroísmo? O heroísmo não é apenas o ato pelo qual o homem enfrenta o risco da perda da vida, ou o risco da perda da integridade física. O heroísmo é o ato pelo qual o homem enfrenta qualquer grande dor, ou qualquer grande infortúnio. Isso caracteriza o herói. E há dores morais, como há dores físicas. E às vezes as dores morais atormentam incomparavelmente mais do que as dores físicas. E enfrentar uma dor moral é, muitas vezes, incomparavelmente mais do que enfrentar a dor física.

Nós temos um exemplo da heroicidade que há em enfrentar dores morais na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo divide-se claramente em duas partes. Uma é a Agonia e outra é de fato a Paixão, em que Ele é preso, torturado, e depois crucificado.

Nessa primeira parte Ele desenvolveu, na Agonia, um verdadeiro e perfeito heroísmo, no mais alto sentido da palavra. Porque todo o sofrimento moral ocasionado pelos pecados da humanidade, pela ingratidão da humanidade, pela maldade de que Ele ia ser vítima, etc., todo esse sofrimento moral Ele teve, a tal ponto que pediu a Deus que se possível fosse afastado o cálice. Quer dizer, Ele chegou a suar sangue diante da perspectiva do que ia acontecer.

É ou não é um verdadeiro heroísmo Nosso Senhor levar a aceitação antecipada da dor e do sofrimento, esta dor moral que Ele teve no Horto das Oliveiras, levar ao ponto que levou? É um verdadeiro e autentico heroísmo, embora ali não tenha combatido fisicamente com ninguém. Mas Ele deliberou aceitar a certeza do tormento e da morte. Mais do que tudo, — foi o que mais O fez sofrer —, Ele deliberou fazer isto apesar da inutilidade por causa daqueles que não corresponderiam à graça e que acabariam se perdendo.

Esta deliberação que Ele tomou de morrer, apesar disso, é uma deliberação heróica. Essa dor de alma que isso lhe causou é uma dor autêntica, embora Ele fisicamente não estivesse combatendo.

Mas ainda, os senhores dirão: “Mas Ele ofereceu o risco da vida dEle, e o risco da vida d’Ele é um elemento integrante do heroísmo.

Eu digo, é, mas Nossa Senhora não ofereceu. Em Nossa Senhora ninguém tocou. O sofrimento d’Ela foi todo, de ponta a ponta, um sofrimento moral, sem nenhum sofrimento físico. Ora, Ela é chamada, é invocada, aclamada pela Igreja como Regina Martirum. Quer dizer, Ela é a Rainha de todos os mártires. Porque apesar de Ela não ter sofrido fisicamente, ninguém depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, em toda história do mundo sofreu o que Nossa Senhora sofreu, pela Paixão e Morte do Filho d’Ela.

Quer dizer, nós devemos ver por aí que ter a força de alma para aguentar as coisas terríveis, para aguentar as decepções, para aguentar as calúnias, para aguentar as frustrações, para aguentar, enfim, tudo aquilo que o homem pode aguentar na vida, ter essa força de alma é um verdadeiro heroísmo; e que é uma tolice uma pessoa imaginar que é apenas herói aquele que combate de armas na mão.

 

Dois extremos: a maneira de lutar de um varão verdadeiramente católico e um "heresia branca"  diante da luta

Alguém me dirá: “Mas Doutor Plinio, vamos e venhamos, na comodidade da sala do Palácio Pontifício qual era o heroísmo? Heroísmo da alma. Era enfrentar esse sofrimento, esse era o heroísmo. É ter lutado com Felipe II em condições tão difíceis, em vez de ter entregue os pontos e procurado não ver o perigo que vinha. Como isso seria normal, como isso seria fácil. Não foi o que ele fez.

A vida dele não corria perigo, porque ele sempre teria onde se refugiar. Ele já estava velho, ele morreria antes de ser pego pelos adversários. Se ele fosse um “nhonhô” era o que ele pensaria. Mas exatamente porque ele era um santo ele teve o heroísmo de se sujeitar a todas essas coisas.

Os senhores estão compreendem o seguinte: que é “heresia branca” imaginar que toda a luta moral, não é lutaA luta moral do “heresia branca” não é luta. Isso é fato. Mas a luta moral do varão verdadeiramente católico, isso é luta.

Como é que luta um “heresia branca”? “Ahh!, estou eu aqui, Papa já velhinho. Que pena! Ninguém tem pena de mim. Fulano, me traga um chocolate para tomar. Estou tão triste… Me traga também umas pantufas de um veludo bem macio para eu colocar os meus pés já trôpegos sobre essa almofada; eu estou tão velho. Tenham pena de mim. Abram essa janela. Deixe eu olhar aquela pomba que está lá fora. Eu preciso me consolar”. Isso é “heresia branca” evidentemente.

“Mandem-me vir uma rosa. Oh! rosa, tu ao menos me dizes algo que me dá alegria, Pobre de mim…”

É claro, isso não é herói. É um molenga. Esse também não vai enfrentar Felipe II. Pega a carta de Felipe II e diz para o secretário: “Monsenhor, leia e me diga depois o que é, quando eu estiver um pouco mais animado. Agora, me dê um perfume”.

Isso não é um herói. É um palhaço. Um caricato.

Mas fazer como São Pio V fez, não. Isso é verdadeiro herói.

 

O aguentar o “rio chinês”, num ziguezague contínuo, exige um ato heróico: “A promessa que Nossa Senhora me fez não falhará”

 O quê devemos entender? Que na nossa vida de todos os dias, que não é uma vida cruenta, em que não estamos diretamente arriscando a nossa vida, nessa existência de todos os dias nós temos ocasiões de praticar verdadeiramente o heroísmo. Inclusive aguentando esse rio chinês que faz com que estejamos ziguezagueando continuamente em torno de algo que nunca chega. Isso é heroísmo.

Como foi heróico o profeta Simeão esperando até a velhice, para afinal ver o Salvador que lhe tinha sido prometido. Como foi Abraão com Isaac. Isso foi heroísmo: esperar até a velhice. Afinal nasce o filho da promessa, etc. Os senhores conhecem o resto da história.

Há uma confiança heróica pela qual a gente não desiste de esperar, apesar de tudo. Essa confiança dói. E a alma às vezes fica num estado que fica em sangue. Está bem, mas ela continua a confiar. E ela diz: “A promessa interior, inefável, que Nossa Senhora me fez na alma, essa promessa não falhará, eu confiarei e eu cumprirei a minha missão. Vamos para frente. Nossa Senhora me ajude. Eu confio na palavra d’Ela”.

Qual é a palavra d’Ela? É uma voz da graça, é uma apetência que nós sentimos que nos leva a todas as virtudes, que nos leva ao amor de Deus. E que como tal nós vemos que tem origem em Deus, e que equivale portanto a uma promessa. É a isso que nós devemos nos dar, é com base nisso que nós devemos estruturar a nossa confiança. E a alma assim pode ter uma confiança heróica, ela vence a batalha.

É por isso que a oração dessa alma é uma oração que move as montanhas.

 

“A oração é vitoriosa quando inspirada pela Fé que move as montanhas”

E é por isso também que os senhores veem que Nossa Senhora só revelou a São Pio V o que tinha acontecido depois dele ter rezado um terço. Quer dizer, Ela quis mostrar que Lhe era tão agradável que ele rezasse um terço, que a oração do terço é uma devoção tão grata a Ela, que é tão grato a Ela que se reze pedindo-lhe aquilo que a gente precisa, e que se reze por meio do rosário, que Nossa Senhora resolveu esperar esta ocasião para dar a esse servo dEla esse enorme galardão.

Nós aí devemos compreender o que é a Fé que move as montanhas. Essa Fé heróica que crê apesar de todas as aparências em sentido contrário. Não desanima, não volta atrás. Continua a lutar ainda que esteja reduzido a um palito, porque sabe que tem mais do que tudo: para lutar tem um terço na mão.

Como essa frase soa “heresia branca” hein!: “Eu tenho como arma o terço”. Entretanto a frase não é “heresia branca”. A nossa principal arma é a oração. E a oração é vitoriosa quando é inspirada pela Fé que move as montanhas. É a expressão de Nosso Senhor no Evangelho: “A Fé que move as montanhas”. Aí os senhores têm bem a imagem do que é o herói.

Os senhores imaginem um santo. Passagem bloqueada para um exército católico. Um santo vai ao pé de uma montanha e começa a cavocar a montanha. Faz um túnel, e milagrosamente levanta a montanha com os dois braços. O exército passa, ele deixa baixar a montanha, abre o túnel e sai do outro lado. Esse santo nós consideraríamos um colosso. Um homem que carregou com as duas mãos uma montanha. Oh! Fantástico!

Seria admirável. Mas mais bonito é carregar uma montanha com a oração, muito mais bonito do que carregá-la com as duas mãos. Isso fez São Pio V por meio de oração. Os senhores aí percebem como é o verdadeiro heroísmo.

 

O heroísmo é a aceitação enérgica, com espírito de fé, de qualquer sofrimento, físico ou moral, que põe em risco a nossa vida ou outros bens

Nós devemos ter apetência de derramar o nosso sangue pela Igreja? Pode ser que a graça nos dê essa apetência. Será uma coisa esplêndida. O desejo de derramar o sangue pela Igreja é um desejo de doação total. É magnífico. Eu não tenho palavras suficientes para encorajá-los. Os mártires tinham esse desejo, e muitos morreram na alegria do sacrifício que eles faziam.

Porém o que eu não posso aceitar é que se entenda que essa é a única forma de heroísmo, que outras formas de lutar pela Igreja não são verdadeiro e autêntico heroísmo. Esse aspecto nós temos que tirar de nosso espírito.

Então o que é o heroísmo? É a aceitação enérgica, firme, com espírito de fé, de qualquer sofrimento extraordinário, seja esse sofrimento qual for, físico ou moral, que põe em risco a nossa vida, a nossa integridade física, ou põe em risco outros bens. Isso é heroísmo.

Os senhores todos ouviram dizer de um caso que se contava aqui no Brasil antigo. Eu creio que chegou aos ouvidos dos senhores. De um padre a quem um assassino contou que tinha morto ou acabava de matar — contou em confissão — alguém na Igreja. E pediu absolvição. Ao padre pareceu que ele estava contrito e deu absolvição a ele, mas levantou-se logo depois para ir ver na Igreja — cidadezinha do interior, muito de manhã cedinho, a Igreja ainda vazia — quem estava morto. Estava ali um homem com um punhal.

O padre começou a tirar o punhal. Entram pessoas, começam a gritar… o padre tinha morto esse homem. O padre foi processado, condenado, foi preso, e passou muitos anos na prisão, tido como um sacrílego, um padre assassino, degradado, infame. Ele sabia que era inocente. Mas como o assassino tinha fugido ele não podia acusar o assassino, ele aceitou toda essa pavorosa humilhação. Mas ele não contou quem era.

“X” anos depois disso, digamos dez anos depois disso, em certo momento ele vê chegar à cadeia onde ele cumpria a pena, música, manifestações, brados de viva ao nome dele etc.

O que era? Era o assassino que antes de morrer tinha contado que ele era o assassino e que o padre era inocente. Então o padre foi absolvido e foi reintegrado no exercício do ministério sacerdotal. Mas dez anos, ou vinte anos de uma situação moral horrorosa.

Esse padre arriscou a vida? Não. Ele sofreu pancadas? Não. Mas ele sofreu muito pior do que isso. Eu acho que vários dentre os senhores preferiam morrer a passar por isso. Ele foi ou não foi herói? Um autêntico herói. Quer dizer, heroísmo é a disposição de aguentar qualquer sofrimento enorme, por amor a Nossa Senhora. Isso foi o que São Pio V aguentou. Ele foi herói.

Então compreendamos o valor do heroísmo ainda que incruento. E admirando enormemente aqueles a quem Deus pede que deem o seu sangue na luta pela Igreja, compreendamos que Deus a muitos pede o sangue da alma, e que a esses Ele pede tudo, como pede aos que dão sangue pela Igreja, pela Civilização Cristã.

E assim, tenhamos ânimo em conduzir o sofrimento de nossa vida, desde que não seja conduzido a la nhônhô, porque então deixa de ser sofrimento.

É assim: “Eu estou sofrendo, quero sofrer isto porque não há outro meio para chegar à finalidade que eu tenho em vista a não ser sofrer isto, mas eu olho de frente tudo que estou sofrendo e meço grão por grão, milímetro por milímetro, todo o sofrimento que eu tenho que aceitar. Está bem, aceito. Nossa Senhora me ajude e me dê forças. Isto eu quero, porque o resultado vale mais do que o que eu sou”.

Isso é, quando se trata de um grande sofrimento, o sofrimento heróico.

Assim, fica essa consideração sobre o heroísmo e com ela nós podemos encerrar essa parte da reunião.

 (Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 7 outubro de 1975)

 Carta de São Pio V (30/4) ao rei Felipe II da Espanha em defesa de Malta, ameaçada pelos muçulmanos

 Aqui há o trecho de uma carta de São Pio V aos reis cristãos pedindo auxílio na defesa da ilha de Malta. Essa ilha era ocupada pelos Cavaleiros da Ordem de Malta, que era uma Ordem de cavalaria religiosa e militar que datava da Idade Média, o posto avançado da defesa de todo o Mediterrâneo, em relação aos navios maometanos que tinham base na Turquia e em toda a África do Norte ocupada por nações muçulmanas.

Então, o papa se dirige a todos os reis da Europa cristã, pedindo apoio para a Ilha de Malta que estava sendo objeto de ataques:

“Ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe II, Rei Católico da Espanha:

“Eis que está certo e estabelecido: nosso poderosíssimo inimigo, o sultão dos turcos, prepara uma frota considerável, uma armada importantíssima como ainda não houve. Ele completa todos os preparativos que se impõem a fim de se precipitar logo contra Malta, para abater a Ordem Militar de São João, a qual ideia particularmente é submeter esta ilha que deseja muito dela se apoderar, tanto por causa das grandes vantagens que ela oferece sob o ponto de vista estratégico, como por causa da vergonha sofrida no sítio precedente.

“Como a tais forças a Ordem não pode resistir de nenhuma maneira, nosso caríssimo filho Jean de La Valette, seu Grão Mestre, é obrigado a implorar o socorro dos príncipes cristãos contra o inimigo comum, o inimigo de Cristianismo.

“Nós não duvidamos que Vossa Majestade e vosso povo venham em nosso socorro espontaneamente, ainda mais considerando que é de vosso interesse que uma ilha assim próxima da Sicília e da Itália não caia em mãos inimigas”.

Esta carta tem aspectos bonitos.  O primeiro deles é o modo pelo qual o Papa trata o rei Filipe II. Ele se dirige assim: “Ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe II, Rei Católico”.

É uma beleza a gente ver como os papas daquele tempo podiam se dirigir como de pai para filho, no protocolo oficial, para todos os grandes da terra: “nosso caríssimo filho”… e é um dos maiores potentados da terra, “em cujos domínios o sol jamais se punha”, o rei Felipe II. Bonito o título, também, de “Rei Católico”.

A Santa Sé foi dando aos vários reis, ao longo dos séculos, títulos que lembravam serviços prestados à Igreja. Então, o rei da França se chamava “Rei Cristianíssimo”; o rei da Hungria era “Majestade Apostólica”; o imperador do Sacro Império Alemão era “Sua Sacra Majestade Cesárea”, porque o imperador se reputava sucessor de Carlos Magno, o césar do Ocidente; o rei de Portugal era “Sua Majestade Fidelíssima”, por causa da grande fidelidade à Sé Apostólica; os reis da Espanha eram “Majestades Católicas”, porque a Espanha era a nação fiel por excelência, a nação católica por excelência. E, assim, o “Rex Catholicus” era o rei da Espanha.

Nesta época, havia um rei que tinha um título também, mas que já não merecia: era o rei da Inglaterra, “Defensor Fidei”; tinha sido nomeado “Defensor da fé”. E assim, cada rei tinha, como adorno mais belo, algum título que celebrasse sua união com a Igreja Católica.

Isto nos traz um contraste frisante em relação aos Estados modernos. Não pensem os srs. que essas fórmulas de tratamento ficam numa ordem puramente protocolar; mas elas baixam daí para a realidade das coisas.

Aqui os srs. têm um Papa que se dirige a Filipe II como a um filho e expõe a situação: os Cavaleiros da Ordem de Malta, que me são tão diletos, que são o amparo da Cristandade, estão necessitando de apoio: apoie.

É uma atitude muito natural pois se a Igreja está precisando, ele é um rei católico, que apoie! E apoiou e ajudou a salvar os Cavaleiros da Ordem de Malta. Hoje em dia, até um Estado se mover para ajudar a Igreja Católica, que dificuldade!

É verdade que o Papa põe aqui também um argumento de ordem temporal: ele mostra que as possessões do Rei da Espanha na Itália, especialmente a ilha da Sicília, ficariam ameaçadas com a queda da Ordem de Malta. Mas isso é argumento secundário; o argumento fundamental que ele dá é a Fé ameaçada.

Os srs. veem que felizes tempos: grandes perspectivas! grande fé a iluminar a vida política daquela época! grande nostalgia de nossa parte!... Não há nostalgia mais dolorida do que a nostalgia daquilo que a gente nem sequer chegou a conhecermas os élans de nossa alma católica pedem por ver e pegar.

Mas há uma grande alegria: essa nostalgia é ao mesmo tempo uma grande esperança! Esta é a grande alegria com que terminamos este “Santo do Dia”.

Eu estava falando, hoje à tarde, a respeito de um assunto que se relaciona ligeiramente com esse e no qual menciono muito de passagem. Na “Reunião de Recortes” eu estava dizendo que – se não me trai a memória – deve fazer agora dez anos que foi publicada a R-CR.

A R-CR é exatamente o livro onde se condensam, se esquematizam estas noções, onde ao mesmo tempo se dá um quadro do que é ou deveria ser a Cristandade, se mostra o panorama horroroso da chaga da Revolução que nela se instaurou.

Convém, sobretudo aos mais novos, que há dez anos não estavam na TFP, que procurem ler e estudar esse nosso livro básico, onde se encontram estas ideias, nostalgias e esperanças.

E assim – baseado ou estimulado pelo perfume desses áureos tempos – fica aqui um apelo aos senhores para uma leitura e estudo da R-CR neste próximo ano que será o décimo de sua publicação.

Com isto, resta-me encorajá-los ardentemente a que vão lutar, amanhã, pela causa de Nossa Senhora expressa na Tradição, na Família e na Propriedade, nas ruas e vias de São Paulo. E que Nossa Senhora os abençoe e os ajude.

(Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 30 de novembro de 1968)

 

 



[1] Ludwig Pastor, posteriormente Ludwig von Pastor, Freiherr von Campersfelden (31 de janeiro de 1854 – 30 de setembro de 1928), historiador alemão e um diplomata para a Áustria. Sua obra mais famosa foi “History of the Popes”, Hstória dos Papas.