sábado, 5 de setembro de 2026

A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA

 


 

É um costume comum festejar-se o aniversário das pessoas. A razão disso está em que o aniversário da pessoa representa o momento em que a pessoa entrou na cena dessa vida, e o momento em que o ambiente em que essa pessoa é destinada a viver se enriquece com mais uma presença.

Em princípio, todo nascimento é um favor, é uma graça de Deus, é um enriquecimento para a sociedade humana, porque todo homem tem um grande valor.

Ainda que ele seja concebido em pecado original, ainda que a natureza humana seja inferior à natureza angélica, ainda que o homem, além do pecado original, traga algum vício moral existente na família, cada homem é uma criatura de grande valor. Cada criatura que aparece na Terra representa um enriquecimento altamente ponderável para essa obra de Deus em seu conjunto, que é a humanidade.

Assim, quando se festeja o aniversário de uma pessoa, festeja-se a entrada de alguém no mundo, se festeja a entrada daquele na cena do mundo com tudo quanto ele trouxe e que lhe é característico de luz primordial, de virtudes que deverá realizar, de riquezas de alma que tem dentro de si. E até mesmo o pecado original, com os defeitos que a pessoa leva dentro de si, como coisa a ser vencida e combatida, como aumento de glória, representa também algo no nascimento da pessoa e no enriquecimento em relação à humanidade.

 

Concebida sem pecado, com todas as riquezas naturais próprias à condição feminina e cheia de Graças: predicados de Nossa Senhora

Nestas condições, a festa da Natividade de Nossa Senhora leva-nos a perguntar qual o enriquecimento que Ela trouxe para a humanidade e a que título especial a humanidade deve festejar seu nascimento. Se nos colocarmos nessa perspectiva quase não se sabe o que dizer. Porque na ordem da natureza, Nossa Senhora foi concebida sem pecado original.

Assim Ela, única no mundo desde o pecado original, isenta de todas as manchas, um lírio incomparável na formosura do gênero humano, algo, portanto, que deveria dar alegria à terra inteira e a todos os coros angélicos. Apareceu nesse exílio, no meio dessa humanidade, uma criatura sem pecado original.

Mas acontece que, além disso, Nossa Senhora trazia consigo todas as riquezas naturais que dentro de uma mulher possam caber. Nosso Senhor deu a Ela, segundo a ordem da natureza, uma personalidade riquíssima, preciosíssima, valiosíssima e, a esse título, a presença d’Ela entre os homens representava outro tesouro verdadeiramente incalculável.

Mas, se a tudo isso juntarmos os tesouros das graças que vinham com Ela, que Ela tinha consigo e que são as maiores graças que Deus Nosso Senhor tenha concedido a alguém, graças verdadeiramente incomensuráveis, compreendemos então o que representa a entrada de Nossa Senhora no mundo.

O nascer do sol é uma realidade pálida em relação à entrada de Nossa Senhora no mundo. Todos os fenômenos mais grandiosos da natureza que representem algo de precioso, algo de inestimável, nada são em comparação disso. A entrada mais solene que se possa imaginar de um rei ou de uma rainha no seu reino, não é nada em comparação disso.

A alegria de todos os Anjos do Céu, a alegria talvez de muitas almas justas que tenham ficado cientes desse fato, talvez sentimentos confusos de alegria espalhados por aqui e por lá nas almas boas, tudo isso deve ter saudado o momento bendito em que Nossa Senhora entrou no mundo.

Há uma frase de Jó, que eu gosto muito de citar e que me parece adequada para isso: “Bendito o dia que me viu nascer, benditas as estrelas que me viram pequenino, bendito o momento em que minha mãe disse: nasceu um varão”.

Também se poderia dizer: “Bendito o dia em que viu Nossa Senhora nascer, benditas as estrelas que brilharam sobre Nossa Senhora quando pequenina, bendito o momento em que os pais de Nossa Senhora verificaram que tinha nascido a criatura virginal que era chamada a ser a Mãe do Salvador”!

 

O nascimento de Nossa Senhora num mundo imerso no paganismo e as irrupções da ação d’Ela na alma dos fiéis nos períodos de provação

A Natividade de Nossa Senhora nos traz outro pensamento. O mundo estava prostrado no paganismo. A situação do mundo naquele tempo era parecida com a do mundo de hoje; todos os vícios imperavam, todas as formas de idolatria tinham dominado a terra, a abominação tinha penetrado na própria religião judaica, que era o prenúncio da religião católica; o mal e o demônio venciam inteiramente.

Mas, no momento decretado por Deus em sua misericórdia, Ele arrebenta a muralha, começa a derrocada da ordem do demônio quando menos se podia imaginar, faz nascer Nossa Senhora e, com o nascimento de Nossa Senhora que era a raiz bendita de onde nasceria Nosso Senhor, começava a obra de derrocamento do demônio.

Quantas vezes não se passa coisa semelhante na vida espiritual do católico! Quantas vezes a alma deste, daquele, daquele outro, está em luta, está com problemas, contorcendo e revolvendo-se em dificuldades! A pobre alma nem se dá ideia de quando virá o dia bendito em que uma grande graça, um grande favor irá acabar com seus tormentos, com suas lutas e, afinal de contas, proporcionar-lhe um grande progresso na vida espiritual.

Há aqui o nascimento, num sentido especial da palavra, das irrupções de Nossa Senhora na alma do fiel. E que na noite das maiores dificuldades, das maiores trevas, de repente Nossa Senhora aparece e começa a quebrar as dificuldades com que ele se defronta.

Ela aparece como uma aurora em sua vida e começa a representar algo de novo em sua vida espiritual, que ele nem conhecia.

Há outra consideração também: Nossa Senhora parece tão ausente!

O mundo de hoje é tão parecido com o mundo daquele tempo que, se levarmos em conta que de um momento para o outro Nossa Senhora pode começar a agir, pode tornar sua atividade mais constante, mais contínua, mais intensa do que tem sido até aqui para a restauração de seu Reino, podem começar a acontecer fatos extraordinários que façam sentir sua presença, aí teremos mais uma irrupção de Nossa Senhora no mundo.

E essa irrupção poderia se fazer através do nosso Movimento com tudo quanto ele tem de humanamente pobre, de humanamente fraco. Mas que, como David, pela fé, pela dedicação e pelo uso das táticas da RCR, poderia derrubar e esmagar o gigante da Revolução. Uma ação assim seria uma irrupção de Nossa Senhora na História do mundo, uma manifestação do desejo de Nossa Senhora de vencer. As muralhas que temos derrubado, as graças de que, embora indignos, temos sido canais, não podem representar senão a manifestação da vontade do Imaculado Coração de Maria de implantar seu Reino.

Então, tudo isso nos deve dar muita alegria e muita esperança, com a certeza de que Nossa Senhora nunca abandona seus filhos, e que mesmo nas ocasiões mais difíceis Ela os visita, sua presença como que irrompe entre eles, resolve seus problemas, cura suas dores, dá-lhes a combatividade e a coragem necessárias para cumprirem seu dever até o fim, por mais árduo que seja.

 

Devemos pedir para haver uma irrupção de Nossa Senhora nos dias de hoje

Um prelado conversava comigo ontem dizendo que sustenta uma tese, para a qual ele até pretende recolher material, que é a seguinte:

Há elementos históricos para dizer que todas as grandes almas que lutaram contra os hereges, os grandes martelos das heresias aparecidos através dos séculos, têm sido escolhidos especialmente por Nossa Senhora, pessoalmente por Nossa Senhora.

A suscitação dessas almas realmente lembra algo de muito bonito existente no brasão dos padres do Imaculado Coração de Maria! Coração de Nossa Senhora e no alto do brasão, São Miguel Arcanjo, e depois essas palavras: “Os filhos d'Ela se levantaram e A proclamaram Bem-aventurada”.

Essa presença de guerreiros espirituais que, como soldados de São Miguel Arcanjo, armados com o gládio da Fé se levantam para combater o adversário, proclamando o Coração de Maria bem-aventurado, isto não seria também uma irrupção de Nossa Senhora na História?

Eu acreditaria que fosse. E devemos pedir que venham esses guerreiros indomáveis, de um ódio implacável ao demônio e aos seus sequazes, à Revolução e às suas obras, desejosos de liquidar - segundo a Lei de Deus e dos homens - a Revolução! Desse ódio à Revolução é que devem estar cheios os corações daqueles que amam realmente Nossa Senhora.

Vamos pedir a Nossa Senhora essa graça especial: que haja uma irrupção d'Ela no mundo de hoje, almas armadas de espírito de luta legal e doutrinária, de espírito implacável de hostilidade à Revolução satânica,  para humilhá-la, para restabelecer definitivamente a glória da Igreja, tão conspurcada pela Revolução neste momento.

De maneira tal que, quando morrerem, se possa colocar na sepultura de cada um d’Eles, esta expressão: Este foi um filho d'Ela, que se levantou e a proclamou Bem-aventurada nessa época de apostasia, de humilhação e desfalecimento da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

 

 Nossa Senhora teve o uso da razão desde o primeiro instante de seu ser e já neste momento começou a influir no destino da humanidade

A festa da Natividade está para Nossa Senhora como o Natal para Nosso Senhor. Assim como a festa do Natal celebra o momento bendito em que Nosso Senhor entrou no mundo e começou a fazer visivelmente parte da sociedade humana, a festa da Natividade celebra o momento em que Nossa Senhora entrou no mundo e começou a fazer parte da sociedade humana.

Os senhores me dirão: ­ “Mas o que representa para a sociedade humana a entrada de um bebê nessa sociedade? Uma criança que não tem o uso da palavra, o uso da razão, uma criança que, afinal de contas, não pesa no convívio dos homens...”

Com Nossa Senhora isto não houve. Como Ela era concebida sem pecado original, teve o uso da razão desde o primeiro instante de seu ser; e já a partir do ventre materno Nossa Senhora pensava, e tinha pensamentos elevadíssimos e sublimíssimos, vivendo no seio de Santa Ana como num verdadeiro tabernáculo.

Temos uma confirmação indireta disso no que conta o Evangelho sobre São João Batista. Quando São João Batista - que não foi isento do pecado original, mas teria sido purificado dele ao ouvir a saudação de Maria a Santa Isabel - estremeceu de alegria no seio de Santa Isabel ao ouvir a voz de Nossa Senhora cantando, saudando Santa Isabel. E Santa Isabel disse isso a Nossa Senhora.[1]

Assim também, Nossa Senhora viveu no seio de Santa Ana e desde ali Ela começou a rezar pela humanidade, começou com a ciência altíssima que tinha recebido pela graça de Deus, começou a pedir a vinda do Messias, começou a pedir pela queda de todo Mal no gênero humano, e desde ali formou-se, com certeza, em seu espírito, aquele intuito elevadíssimo, de vir a ser uma servidora do Salvador, que pudesse servir a Mãe do Salvador e ajudá-la. Na realidade, por essa forma Nossa Senhora já começou a influir nos destinos da humanidade.

Mas acontece também que sua presença na terra já era uma fonte de graças para todos aqueles que se aproximavam d’Ela na sua infância e mesmo antes d'Ela nascer.

Se a Escritura nos diz que da túnica de Nosso Senhor saía uma virtude que curava todos, ou melhor, os que tocavam em seu manto beneficiavam-se de uma virtude curativa, quanto mais a Mãe de Nosso Senhor, Aquela que estava escolhida como vaso de eleição.

A presença de Nossa Senhora nessa terra, já como menina, mesmo como criancinha, era uma fonte enorme de graças.

Por isso se pode dizer que, embora Ela fosse criancinha, já em seu natal graças enormes começaram a raiar para a humanidade; já aí o demônio começou a ser esmagado e a vitória da Contra-Revolução começou a ser afirmada e o demônio começou a perceber que algo de seu cetro estava partido e que nunca mais se consertaria.

Compreende-se então como a vinda de Nossa Senhora à terra foi uma graça para todos os homens e compreende-se a importância da festa que celebramos hoje.

 

Semelhante a “aurora” do luar é o “natal” de Nossa Senhora. Nesta noite devemos pedir a Nossa Senhora uma graça que Ela queira nos conceder

Para resumir, tenham os senhores em mente uma noite de Natal. Há 1963 anos e tanto - simplificando os dados cronológicos - que Nosso Senhor nasceu.

Há 1963 anos que essa festa se repete e em toda noite de Natal tem-se a sensação de que uma bênção enorme desce de Céu sobre a terra e que, de algum modo, as energias espirituais de todos os homens se renovam. Há uma verdadeira aurora.

É por causa disso que a noite de Natal é única no ano. Isso que se dá com a noite de Natal nos dá uma ideia do que foi a primeira noite de Natal, em que Nosso Senhor nasceu.

Ora, como tudo quanto é de Nossa Senhora é muito parecido com o de Nosso Senhor, tudo quanto diz respeito a Ela tem uma íntima conexão com o que diz respeito a Ele, pode-se também imaginar assim na noite de hoje.

Seria bonito que numa noite como a de hoje, tivéssemos uma noção mais viva e mais concreta da Natividade de Nossa Senhora. Que semelhança há entre um e outro? Quando se fala em Natal de Nosso Senhor, lembramo-nos do nascer do sol. Mas se Nosso Senhor é o sol, Nossa Senhora é, muitas vezes, comparada à lua.

E como é bonito vermos a luz que nasce! O nascer da lua não tem a glória do nascer do sol e nem é o nascer do sol; mas quanto tem de parecido, de análogo com o nascer do sol. Como ele é benfazejo, como ele alegra, como ele estimula, como ele consola. Isso nos poderia dar a ideia do que foi esse bendito natal de Nossa Senhora. E como somos - estímulo muito particular - filhos de Nossa Senhora pela consagração a seu Sapiencial e Imaculado Coração conforme o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, não por méritos nossos, mas pela vontade d’Ela, podemos pedir nesta noite de hoje, que Nossa Senhora nos dê alguma graça especial.

Já se disse que nas revelações privadas de muitos santos conta-se que nas festas especiais de Nossa Senhora Ela desce ao Purgatório, concede um grande número de graças e leva um número enorme de almas para o Céu e, por outro lado, melhora as condições de muitas almas que não leva para o Céu.

Isto nos dá um pouco a ideia do que Ela faz na Igreja militante. Sua graça baixa sobre nós e nos obtém uma porção de favores. É o momento de pedirmos a Nossa Senhora que nos conceda um favor.

Qual o favor que devemos pedir? Que cada um se recolha um pouco, se concentre e peça uma graça qualquer.

Mas eu sugiro que esteja presente, de modo especial, essa graça: de Nossa Senhora estabelecer com cada um de nós, como que uma aliança especial. Como que constituir vínculos de uma filiação especial na nossa relação com Ela, de maneira que nos tome debaixo de seu amparo particular e que a esse título, nos cure da chaga da alma que Ela mais entenda que nos deva curar. Às vezes não é bem o que imaginamos, mas outra coisa. Aquilo de que mais necessitar nossa alma, que Ela nos dê nessa sua noite de natal. [2]

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]  Cfr., por ex., D. Duarte Leopoldo e Silva, "Concordância dos Santos Evangelhos", pg. 20, nota (4), Edit. LTR, Sétima Edição, São Paulo, 1988.

 

[2] Conferência Santo do Dia, 8 de setembro de 1963

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O EXORCISTADO PODERIA TER DESTRUÍDO A REVOLUÇÃO?

 




O “Exorcistado” defendido pelo Beato Palau seria a instituição oficial na Igreja de um tipo de exorcismo diferente, não quanto à forma de rezá-lo, mas quanto à maneira prática de executá-lo. O plano era que os exorcismos fossem feitos em locais apropriados, numa casa preparada para isso, como se fosse um  hospital, com sacerdotes devidamente preparados e autorizados pela autoridade eclesiástica ao exercício da função. Funcionaria como se fosse uma ordem religiosa criada só para tal fim.

Foi com este propósito que o Beato Palau dirigiu uma correspondência aos padres conciliares reunidos no Concílio Vaticano I, pelos idos de 1870, sob a seguinte denominação: “Observações dirigidas ao Padres do Concílio Romano pela redação do El Exorcistado”.

No final de seu texto, assim concluiu ele:

“PRISÃO DO DEMÔNIO, INFLUÊNCIA DO EXORCISTADO SOBRE O BEM OU O MAL SOCIAL

29. Como é possível que a cura de um ou de mil possessos influa tão diretamente na ruína da impiedade e no bem ou no mal social? Ainda quando sejam expulsos mil ou um milhão de demônios dos corpos humanos, como é possível que fiquem presos e acorrentados os demais que não estão nos corpos? Como é possível que do uso ou desuso do Exorcistado dependa a ruína ou a salvação da sociedade humana?

Solução. É, logo, pode ser. Assim como os franceses formam uma potência independente, que pode ser destruída por outra potência superior, e, para vencê-la, basta que o seja a força que se apresente em batalha, assim é e assim ocorre aqui no mundo da inteligências. Os demônios são anjos revolucionários, e formam no mundo intelectual uma potência ou reino independente e distinto do dos anjos bons e do dos homens. Se está ligado e associado com o homem mau para destruir no homem e através do homem a Cristo e sua Igreja[1], e aqui temos o malefício; e Deus se uniu com o homem para destruir pelo homem a obra do demônio, e eis aqui o Exorcistado.

30. Os demônios constituem juntos uma potência, uma nação, um exército, um só corpo, ao qual a Escritura Sagrada dá o nome de dragão, qui est diabolus et Satanas serpens antiquus (Ap 12, 9). Assim como para prender um boi não é necessário amarrar todo o corpo, senão que basta os chifres ou uma só perna; assim é no intelectual e espiritual. Para prender o demônio basta prender com força o que se nos apresenta visível: não pode render-se esta sem que caia todas as demais, mais ou menos em ruína; porque lidando a cabeça obra ali todo o corpo, e vencida a força que se apresenta em batalha as demais ficam destruídas.

31. A Igreja tem potencial para prender essa potência espiritual invisível que se intitula o demônio: Ecce ego dedi vobis potesta – tem, et aprehendit draconem qui est Satanas et diabolus. Pode ligar-te e arrojar-te ao abismo: tu es Petrus... quodcumque ligaveris... et ligavit, eum y missit in abyssum. Pode encerrar-lhe ali: et bibi diabo claves regni celorum... et clausit et signavit super ilum ne seducant amplus gentes. Tem esta missão, e está comprometida a cumpri-la: Daemones ejicite.

Há algum terreno onde a Igreja pode encontrar o diabo para o prender?

Sim; e esse campo é todo aquele onde se estende o malefício e o Exorcistado. Aqui esta potência espiritual maligna se faz visível daquele modo que é possível para sua condição. Nos corpos possuídos se nos apresenta visível por uma espécie de encarnação: substitui o demônio a alma racional em todas ou parte de suas funções orgânicas, ficando ela entorpecida; e assim realmente é o diabo mulher ou o diabo homem quem opera no possesso; ele é quem fala, é quem luta e é quem vence ou fica vencido.

32. Qual parte dessa potência opera no possesso? A cabeça, porque é ela a que ali se faz visível em representação de todo o corpo; e se ela fica esmagada, o é todo o corpo. Os corpos possessos são aquele átrio anterior onde o forte armado se apresenta ao homem Deus, ou a Deus no homem para batalhar no homem; vencido aqui si fortior eo superveniens vicerit eum, universa arma ejus auferet in quibus confidebat, et spolia ejus distribuet[2] (Lc 11, 21).

Vencida esta força espiritual maligna no campo, onde se no apresenta visível; atada e jogada no abismo; o reino de Satanás fica destruído em todas suas partes e sobre suas ruínas restabelecido o reino de Deus: si in digito Dei ejcio daemonia, profecto per venit in vos regnum Dei.[3]

33. Se o demônio é a cabeça da Revolução, esmagada esta o corpo vira cadáver.

Assim entendemos nós a influência do Exorcistado sobre a ruína ou salvação da sociedade atual toda inteira com todas suas partes.

Apelamos ao tempo e às obras. A que não cai a Revolução sem que antes seja esmagada sua cabeça que é o demônio? Quem a esmagará? Aquela de quem está escrito: Uma mulher te esmagará a cabeça (Gn 3, 15). Quem é esta mulher? A Igreja[4]. Quem é a Igreja? Quanto ao cumprimento desta sublime missão ela é o Papa e os bispos. Sustentamos o Exorcistado porque cremos envolve entre sombras e profundos mistérios aquele ato terrível pelo qual a invicta Judite corta a cabeça do colosso Holofernes, Jael encrava na terra a Sísara (Jz 4, 1-3 e 5,21) e Ester obtém que Aman seja enforcado com o cabresto preparado para Mardoqueu, ficando de um só golpe salvo o povo, o verdadeiro povo, esse povo que estendido nesta data sobre a face da terra, geme sob a mais horrenda escravidão.

34. A Igreja tem seus ministérios ordenados de tal modo ao bem individual que todos se refundem no último objeto ao bem comum geral da sociedade humana.

Pelo que Carlos VII[5] não cinge a coroa do rei de Espanha sem que antes os demônios sejam arrojados ao abismo por um poder espiritual? O tempo o confirmará: é questão de fatos, apelamos ao tempo: nem Carlos VII ocupará em Espanha o trono de São Fernando, nem os reis e príncipes católicos destronados empunharão seus cetros até que a Igreja esmague a cabeça da Revolução: o demônio.

Francisco Palau, presbítero.

 

(FRANCISCO PALAU – ESCRITOS - EDICION PREPARADA POR EULOGIO PACHO EDITORIAL MONTE CARMELO B U R G O S – EL EXORCISTADO – páginas 1392/1394)



[1] Assim o demônio forma também o seu corpo místico, composto de anjos maus e homens.

[2] Se um homem mais forte o atacar e o vencer, tirará toda a armadura em que ele confiava e distribuirá os despojos.

[3] Se eu expulso demônios pelo dedo de Deus, então certamente o Reino de Deus chegou até vós. (Lc 11, 20)

[4] Evidente que a Mulher citada na Sagrada Escritura se refere a Nossa Senhora. No entanto, nada impede que a Igreja possa ser interpretada como executora dessa missão, por ser ela a continuidade do próprio Cristo, o seu Corpo Místico aqui na Terra. Nossa Senhora reina na Igreja para que ela possa esmagar a cabeça da serpente.

[5] Pretendente ao trono espanhol, liderou vários movimentos, inclusive armados, para assumir a coroa, mas nunca conseguiu atingir seus objetivos.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

IGREJA DO PILAR E DE SANTA LUZIA, EM SALVADOR (BA)

 


A devoção a Nossa Senhora do Pilar é muito divulgada na Espanha. No período de 1580 a 1640 o Brasil ficou sob domínio espanhol, havendo muita influência de espanhóis em aspectos culturais e religiosos na Bahia daquele tempo, já que era a capital da Colônia. Exemplos: devoções a Nossa Senhora do Pilar e de Monteserrat.

A Irmandade do Pilar foi fundada em 1718 em Salvador. A construção de sua igreja, porém, se deu em 1756.. O cemitério foi concluído em 1799 em um nível mais alto do que o edifício da igreja, no estilo neoclássico. A igreja, seu pátio interno com uma fonte e o cemitério em um nível superior formam um complexo arquitetônico exclusivo da cidade de Salvador.

Salvador foi geograficamente dividida em dez paróquias, ou freguesias, no século XIX. A igreja tornou-se o ponto focal da freguesia de Santíssimo Sacramento do Pilar; os moradores eram batizados, casados, eleitos pelas autoridades locais e eram enterrados naquela igreja, como nas demais existentes na cidade. A igreja do Pilar, situada numa das áreas comerciais da cidade baixa, abrigava em seu cemitério comerciantes portugueses ricos e escravos e libertos afro-brasileiros.

Inicialmente, a capela dedicada a Santa Luzia havia se instalado no ano de 1718 num pequeno convento carmelita que existiu onde fica o Trapiche Barnabé, na avenida Jequitaia, e a edificação da atual igreja foi iniciada em 1739, sendo concluída em 1756 por imigrantes espanhóis, apresentando elementos dos estilos barroco, rococó e neoclássico. O frontispício foi executado entre 1770 e 1780, com representação da padroeira em mármore, segurando uma custódia, na base de uma grande encosta abaixo do Carmo. Á direita do templo, está o cemitério da Irmandade, edificado em 1799. Toda a cantaria dos arremates veio de Portugal.

Vale lembrar que a Irmandade do Santíssimo Sacramento foi responsável pela construção de várias igrejas do Brasil com a dedicação à Nossa Senhora do Pilar. Foi aquela Irmandade que também edificou belíssimas igrejas em Minas Gerais, como em São João del Rei e Ouro Preto.

Respeitando costume religioso da época, o rei de Portugal contribuiu financeiramente para as obras da capela.  No ano de 1756, os irmãos da confraria obtiveram autorização para aplainar uma parte do morro em frente à igreja, para que pudesse ser feito um adro.

O frontispício da igreja, até a base do frontão, possui ornamentação em pedras de lioz, que foram importadas de Lisboa.

 

FESTA DE SANTA LUZIA

 

Havia uma capela dedicada a Santa Luzia na região próxima ao porto de Salvador, tendo sido destruída por um incêndio em meados do século XIX. A imagem de Santa Luzia escapou ilesa do incêndio, sendo levada pelos devotos para um altar da Igreja do Pilar. Um fato ocorrido no início do século XX teria dado início às romarias na Igreja do Pilar em louvor à Santa Luzia. Conta-se que um cego que sentia muito calor resolveu lavar o rosto com a água da fonte que jorra na região do comércio. Ao levantar o rosto lavado pela água, o homem teria enxergado o azul do céu e, devido à forte emoção, teria morrido uma semana depois. A partir  daí, e até hoje, centenas de fiéis formam fila para armazenar a água da Fonte de Santa Luzia, localizada numa gruta ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. A Festa dedicada à Santa se inicia às 5:30 da manhã do dia 13 de dezembro com uma alvorada de fogos. Várias missas se seguem durante a manhã e à tarde. Após a missa das 16:30 horas, uma procissão percorre as ruas do Comércio em direção à Basílica da Conceição da Praia.

 


IGREJA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E NOSSA SENHORA DO PILAR

 

Situa-se a igreja na parte baixa da cidade, próxima ao porto, no sopé da montanha que divide a cidade em dois níveis. Está situada no final da Rua do Pilar, por detrás de onde era antigamente a Receita Federal e o antigo “Mercado do Ouro”.  Na vizinhança da igreja estão situados grandes armazéns e sobrados convertidos em pardieiros, muitos deles próximos à Praça Marechal Deodoro

Durante 17 anos ela permaneceu fechada, em reforma, tendo sido reaberta em abril de 2012, mostrando grande riqueza cultural em suas paredes.

A igreja é precedida de um amplo adro, à direita do qual se encontra, em cota mais elevada, o cemitério da Irmandade de feição neo-clássica. Portal e cercaduras de janelas da igreja são de lioz talhados em Lisboa. Os artistas que trabalharam nela são hoje pouco lembrados. O teto da nave foi pintado por José Teófilo de Jesus. Existem azulejos do período 1750/60 de diferentes oficinas portuguesas. Os painéis de azulejos da nave são atribuídos à oficina do Juncal; os da capela-mor possuem cercadura rococó e fundo marmoreado azul. Existem ainda azulejos nos corredores laterais à capela-mor e na sacristia também de gosto rococó. Dentre a imaginária, destaca-se a imagem de Santa Luzia, do século XVIII. A igreja é rica em alfaias, possuindo coroa com 140 brilhantes, diadema de ouro proveniente do Porto, além de custódias e cálices.

Esta é uma das raras igrejas baianas a apresentar um alongamento da planta, que foi a preocupação dos arquitetos mineiros, possivelmente inspirados na igreja de S. Paulo de Braga (Portugal) do final do séc. XVII. Os corredores laterais foram suprimidos ao longo da nave e reduzidos a estreitas ligações ao longo da capela-mor que conduzem à sacristia transversal. Esta disposição é adotada também nas igrejas dos conventos franciscanos do Nordeste. Sua fachada apresenta portas e janelas coroadas por frontões retilíneos e curvilíneos sem entablamento, executados em lioz de Lisboa, onde começava a florescer o espírito arquitetural que conduziria ao neo-clássico. Esta tendência, também notada em outras igrejas do mesmo período, como Conceição e Santana, não vingaria na Bahia, a não ser no século seguinte, na decoração interior. O frontão do corpo principal apresenta um tratamento rococó dos mais requintados e comprova a não aceitação na Bahia dos modelos que empolgavam Lisboa na época. A terminação da torre se assemelha às coberturas à Mansard, também notadas nas igrejas do convento do Carmo e Santana. O cemitério sob a influência do neo-clássico tomou a forma de um monumental pórtico eneástilo.[1]

Histórico arquitetônico: Frei Agostinho de Santa Maria informa que os fundadores da igreja foram Pe. Pascoal Duram de Carvalho, João Heitor e Manoel Gomes; 1718 - A Irmandade foi instituída e teve aprovação do seu compromisso em 1719; 1739 - Contribuição real para a edificação da capela-mor. Bazin acredita que a igreja tivesse sido iniciada nesse ano; 1756 - Decisão municipal autoriza desmontar encosta para construção do adro da igreja; 1770 - Execução do frontispício, segundo documento da Santa Casa de Misericórdia, citado por Bazin; 1796 - José Joaquim da Rocha faz o douramento e pintura da sacristia e seis painéis; 1798 - Fatura da cornija; 1799 - Encomenda a Felipe Ribeiro Filgueiras pedra do Reino para lajear a igreja e soleira das portas. Edificação do cemitério; 1834 - executados 8 painéis e douramento da talha por José Téofilo de Jesus; 1837 - Pintura do forro por José Téofilo de Jesus; 1838/39 - Encomendados a Joaquim Francisco de Mattos 4 altares da nave, 6 tribunas, 2 púlpitos, talha do coro, portas, molduras para painéis e obras do batistério; 1843 - Desabamento de terra arruína o consistório e retarda douramento da talha; 1848 - Douramento das novas talhas por Manoel Joaquim Lino; 1902 - Construção de dois novos altares laterais em gesso; 1903 - Substituição das grades de madeira do batistério por ferro.

(Fonte: Cd-room IPAC-BA: Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia, Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo.)

 

 

 



[1] Termo grego oriundo da arquitetura clássica que define um edifício com nove colunas em sua fachada principal.  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O JUIZO FINAL - V

 


O QUADRO DE SÃO METÓDIO E O JUÍZO UNIVERSAL

 

                                                 (Juízo particular e final)

“Um peregrino e o dia do Juízo universal.  – Um devoto peregrino atravessava um dia o Vale de Josafá na Palestina, e caminhando  recitava orações. Ao dizer o Credo, parou às palavras: Inde venturus est judicare vivos et mortuos, e começou a pensar: “Eis aqui o lugar onde Jesus virá do Céu para julgar os vivos e os mortos. Virá no dia da ira, das tribulações e da angústia, dia de calamidade e de miséria: Dies irae, dies tribulacionis et angustiae, dies calamitatis et miseriae (Sof 1, 15); dia que não teve e nem nunca terá igual no terror: Similis ei non fuit... et post eum non erit (Joel 2, 22).  Isso é também verdade de fé!”  - Parecia a esse peregrino ver no ar o divino Juiz em toda a sua majestade, no ato de julgar os pecadores; e diz a história que ele ficou tão apavorado, que ninguém mais o viu rir, e bastava lembrar-lhe o Juízo para o fazer tremer e chorar.

Quantos, no entanto, também entre os jovens, jamais pensam nessa verdade! Se pensassem nisso, sim, poriam o cérebro em condições, e viveriam como bons cristãos! – Consideremos agora o Juízo final; e quando ouvirdes a história de um quadro, ide em pensamento ao Vale do Josafá: 1) para ver o aparecimento do Filho de Deus; 2) para assistir ao grande exame de consciência; 3) para ouvir a sentença do divino Juiz.

 

I – 0 comparecimento do Filho de Deus

1. A TERRÍVEL CENA. – Um quadro do Juízo universal. – O monge S. Metódio († 861), que converteu à fé cristã a Bulgária e outras nações bárbaras, era também um bom pintor. Um dia ele foi chamado pelo rei dos búlgaros, de nome Bógoris, o qual lhe disse:  “Deveis fazer-me um belo quadro para eu pôr em meu palácio, e quero que esse quadro represente coisas que metam medo a todos os que o olharem”.  – É mister saber que esse rei era pagão e meio selvagem, e só se deleitava com caçadas de animais ferozes e cenas terríveis. O santo, então, recomendando-se a Deus, pintou o Juízo universal.

No meio do quadro via-se Jesus Cristo em sua tremenda majestade entre as nuvens e num trono de glória, rodeado pelos anjos; à direita uma fila de pessoas com os rostos esplendorosos de luz (os justos); à esquerda uma multidão de pessoas monstruosas com caras horríveis, cheias de pavor e de desesperada angústia (os pecadores). Em baixo afinal se via um abismo cheio de figuras horrendas de demônios, e desse abismo saíam chamas ameaçadoras e foscas. – Quando o rei viu esse quadro, ficou impressionado e perguntou: “Que espetáculo é esse tão magnífico e pavoroso?”  Aí Metódio lhe deu a seguinte explicação.

2. OS DOIS JUÍZOS. – S. Metódio e a explicação do quadro. – “Majestade (iniciou S. Metódio), esse quadro representa o Juízo Universal. Ficai sabendo que logo após a morte haverá, para todos, o Juízo Particular; isto é, deveremos todos comparecer perante Deus para dar contas do bem e do mal que tivermos feito em vida. Mas além do Juízo Particular, haverá outro Juízo, que se diz Universal, e este será feito por Jesus Cristo no fim do mundo no Vale de Josafá. Ao Juízo Universal deverão apresentar-se todos homens do mundo, que existiram, que existem e que existirem; grandes, pequenos, soberanos e súditos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, bons e maus”-   Ao ouvir isso, o rei já começava a empalidecer e indagou:

3. “QUANDO E COMO SERÁ O JUÍZO UNIVERSAL?’ – Responde Metódio: “Esse dia ninguém o sabe, nem os Anjos do Céu, exceto apenas o Pai (Deus):  De die autem illa et hora nemo scit, neque Angeli coelorum, nisi solus Pater” (Mt 24, 36). – Como depois se dará o Juízo, di-lo a Sagrada Escritura. Primeiro haverá sinais: guerras espantosas dos povos e dos reinos, que se lançarão uns contra os outros:  Consurget enim gens in gentem, et regnum in regnum (Mt 24, 7); pestes, carestias, terremotos; et erunt pestilentiae, et fames, et terraemotus (ibid.).  Depois o sol escurecerá, e a luz não dará mais a sua luz, e cairão do céu as estrelas, e haverá a destruição do Universo:  Sol obscurabitur, et luna non dabit lumen suum, et stellae cadent de coelo, et virtutes coelorum commovebuntur  (Mt 24, 29); depois vira do céu um dilúvio de fogo que destruirá tudo: terra autem, et quae in ipsa sunt opera, exurentur (2 Pedr 3, 10). E então será grande a tribulação, como não houve desde o início do mundo: Erit tunc tribulatio magna, qualis non fuit ab initio mundi (Mt ibid. 21). E tudo isso é verdade de Evangelho.

4. A RESSURREIÇÃO DIFERENTE – Quando estiver tudo destruído pelo fogo, os Anjos soarão uma trombeta que se fará ouvir nos quatro ventos: e os mortos ressuscitarão: Canet enim tuba, et mortui resurgent (1 Cor 15, 52). E aí se dará um grande espetáculo. Todos os mortos, saídos de seus túmulos, da terra, do mar, dos abismos, deverão estar vivos – Mas com que diferença! As almas dos bons, vindas do Céu, retomarão o seu corpo belo, resplendente, impassível: Tunc justi fulgebunt sicut sol  (Mt 13, 43).  As almas dos réprobos, surgidas do inferno, unir-se-ão a seus corpos que no entanto serão disformes, horríveis, esquálidos, fedorentos.

5. A SEPARAÇÃO. Depois virão os Anjos, e separarão os malvados dos justos: Exibunt Angeli, et separabunt malos et medio justorum (Mt 13, 49). E os justos ficarão à direita, e os pecadores à esquerda. Não vos parece vê-los?...  Todos os blasfemadores, caluniadores, desonestos, soberbos, ladrões, avarentos, escandalosos, sacrílegos, serão separados dos bons; e, vendo-os, dirão com raiva: Eis aqueles de quem zombamos em vida:  Hi sunt quos habuimus in derisum (Sab 5, 3). Estultos que fomos! Julgávamos uma insensatez a sua vida: eis no entanto como se incluíram entre os filhos de Deus: Nos insensati! vitam illorum aestimabamus insaniam...;  ecce quomodo computati sunt inter filios Dei (Sab 5, 4-5).

6. A CRUZ – Feita a separação, abrir-se-ão os Céus, e entre fileiras de Anjos aparecerá o sinal do Filho do Homem: a Santa Cruz:  Tunc parebit signum Filii hominis (Mt 24, 30).  E aí bater-se-ão no peito todas as tribos da terra: Et tunc plangent omnes tribus terrae  (ibid.).   E eis a descer nas nuvens Jesus Cristo com grande potestade e majestade: Et videbunt filium hominis venientem in nubibus coeli cum virtute multa et majestate  (ibid.). Aí os réprobos cairão como fulminados. E que berros de choro! Que pavor! Que desespero! Ao passo que os justos rejubilar-se-ão!

Depois o divino Juiz fará um exame público: manifestará as consciências todas, revelando as culpas, diante de todo mundo. Depois pronunciará a sentença de bênção sobre os bons e a de maldição sobre os maus; e estes irão para o eterno suplício com os demônios: os justos ao contrário para a vida eterna: Et ibuns hi in supplicium aeternum: justi autem in vitam aeternam (Mt 24, 46). Eis o que ouvistes no quadro pintado: a tremenda verdade do Juízo, que é verdade de Evangelho”.

Assim concluiu o monge S. Metódio. – Ao ouvir isso, o rei Bógoris ficou aterrorizado: fez-se logo instruir na religião, e, iluminado pela graça de Deus, converteu-se ao Cristianismo, e com ele se converteram também os seus súditos.

 

II – O exame de consciência

1. A VISTA DO JUIZ – Queridas crianças, ouvistes num só exemplo como se dará o comparecimento do Juiz divino. Agora assistis ao exame das consciências.

Um olhar investigador. – O rei Frederico II da Prússia (1756), durante a guerra dos 7 anos, após uma batalha vitoriosa, invernava na Saxônia. Ali um copeiro de nome Glasau deliberou matá-lo, e lhe apresentou num copo uma bebida envenenada. O rei, que havia notado qualquer coisa estranha na atitude de seu servo, fixou-o profundamente no rosto. Ante este olhar o servo começou a tremer tão forte, que lhe cai da mão o copo. Aí confessou ao rei o assassínio que havia meditado. – Eis como só o olhar penetrante de um rei bastou para fazer tremer e aniquilar um malvado.

Ora, como deverão tremer os pecadores  quando os fulminar o olhar de Deus que tudo conhece e que de tudo pedirá pormenorizadíssimas contas. Quantos tremor est futuros, Quando Judex est venturus, Cuncta stricte discussurus!

2. O LIVRO ABERTO. Será aberto então o grande livro onde tudo está anotado., o bem e o mal de cada qual:  Liber scriptus proferetur, In quo totum continetur.  E tudo será revelado diante dos Anjos e dos homens; tudo: não só as obras, mas também os segredos do coração; pois todas as coisas são nuas e reveladas aos olhos de Deus:  Omnia nuda et aberta sunt oculis eius  (Hebr 4, 13). Aí ele aclarará os esconderijos das trevas, e manifestará os conselhos dos corações: Illuminabit abscondita tenebrarum, et manifestabit consilia cordium (1 Cor 4, 5).  E tudo o que está oculto surgirá, e ninguém ficará impune: Quidquid latet apparebit: nil inultum remanebit.

Para os justos: Oh! Que consolo e glória, ao ouvir manifestar todas as suas boas obras, os esforços para vencer as tentações, as orações, as mortificações.

Para os maus: Que confusão e opróbrio, ao ouvir revelados todos os seus feios pecados, as imposturas, as mentiras, os furtos, as desobediências, os escândalos dados, as vinganças..., os sacrilégios cometidos desde o uso habitual da razão. Eram crianças de poucos anos, e já velhos na malícia!

3. AS DESCULPAS? – Que desculpas então, ante as censuras de Jesus Cristo Juiz que porá diante dos pecadores todo o mal que hajam cometido?

Nabucodonosor e o rebelde Sedecias. – Lê-se na História Sagrada que Nabucodonosor fez um terrível juízo de Sedecias que se rebelara contra ele. Primeiro lhe mostrou os benefícios que lhe fizera, depois lhe disse:  “Eu podia mandar cortar-te a cabeça; e no entanto te dei a coroa de rei. Eu podia enterrar-te numa cova, e no entanto te pus no trono. E tu?...  Ingrato! Viraste contra mim todas as tuas forças para trair-me!  Pois bem, fica sabendo que és indigno de ainda ver o meu rosto”.  E imediatamente mandou arrancar-lhe os olhos, e o fez meter numa prisão, todo acorrentado  (4 Rs 24-25). – Que desculpas podia dar Sedecias?

Também não poderão desculpar-se os pecadores no Juízo de Deus que, na presença do Universo, porá ante eles todos os seus benefícios, as suas graças, o seu sangue derramado, e todas as infidelidades e ingratidões deles. E então que desespero para os pecadores desgraçados que se encontrarem à esquerda! Trêmulos e berrando quererão esconder-se; mas onde?...  Gritarão às montanhas: “Cai sobre nós!”, e às colinas: “Sepultai-nos!”:   Tunc incipient dicere montibus: cadite super nos; et collibus: operite nos!   (Lc 23, 30) – Oh! Que dia haverá mais pavoroso do que esse!  Quantos pecadores converter-se-ão e tornar-se-ão santos ao pensar em se ver envergonhados no terrível exame que se fará nesse dia!

 

III – A sentença

1. AO JUSTOS. Feito o exame das consciências e revelados os pecados e as boas obras de todos, Jesus Cristo Juiz pronunciará a grande sentença que ficará para sempre. Qual será?  Ei-la.  Aos justos que estão à direita ele voltar-se-á com o olhar doce e benigno, e dirá: “Eis chegado o momento em que enxugarei vossas lágrimas, recompensarei vossas fadigas, premiarei vossas virtudes. Porque me servistes fielmente, vinde, ó abençoados de meu Pai;  tomai posse do Reino preparado para vós desde a fundação do mundo:  Tunc dicet his qui a dextris eius erunt: Venite benedicti Patris mei, possidete paratum vobis regnum a constitutione mundi  (Mt 25, 34). Oh! Que alegria para os jovens que no Juízo tiverem a sorte de ouvir dirigidas a eles tais palavras! Abençoados de Deus!... Ter dele a glória imortal! Eris corona gloriae in manu Domini (Is 62, 30). Que felicidade!

2. AOS RÉPROBOS. – Voltado em seguida para os réprobos com olhar fulmíneo dir-lhes-á:  “A vós que em vida não me quisestes conhecer nem servir, que me maltratastes com as iniqüidades, que desprezastes o meu sangue... a vós a minha maldição:  Fora daqui, malditos, para o fogo eterno!  Tunc dicet et his quia a sinistris erunt: Discedite a me maledicti in ignum aeternum!    (Mt 25, 41).

E aí eles aos montes, berrando, desesperadamente e blasfemando, cairão na voragem do inferno, e ouvirão fechar atrás de si a tremenda porta de fogo com eterno segredo. E Deus jogará as chaves da hórrida prisão no mar da eternidade. – O justos, ao contrário, voarão alegres e bendizendo a Deus, para a eterna felicidade do Céu. – Assim terá fim o dia do Juízo Universal, que a Igreja com razão chama “dia bem grande e amargo”:  Dies magna et amaris valde. E aí quem está salvo, está salvo, e quem está condenado, está condenado.

Conclusão:

Dizei agora, ó queridos filhos, em que Juízo nos devemos encontrar? E que sentença será a minha? Qual a vossa? Estaremos à direita com os eleitos, ou à esquerda com os condenados? Depende de nós.

São Jerônimo e a trombeta do Juízo. – S. Jerônimo († 420), grande doutor da Igreja e dos maiores penitentes, deixou todas as belezas e magnificências de Roma, para ir ocultar-se num deserto da Palestina. Ali não fazia mais do que pregar, estudar e mortificar-se com aspérrimas penitências. Amiúde tomava de uma pedra e com ela batia no peito já chagado e sangrento, pedindo a Deus piedade. Por que isto? Ele pensava sempre no Juízo Universal; e por isso aterrorizado exclamava:  “ Ai de mim! A todo momento me parece ter nos ouvidos o som da trombeta que se fará ouvir no Vale de Josafá com esta fala: Surgi, ó mortos, vinde ao Juízo! Semper videtur illa tuba insonare in auribus meis: Surgite mortui, venite ad judicium!  E nesse Vale qual será a minha sorte? Estarei com os eleitos ou com os réprobos? Terei a sentença da bênção ou da maldição?”. – Também S. Alberto Magno exclamava: “Toda vez que penso no dia do Juízo, tremo todo: Quoties diem Judicii cogito, toto corpore contremisco”.

Pensemos nele também nós. E se nesse grande dia vos quiserdes achar à direita entre os eleitos, ponde logo mãos à obra, remediando o passado e iniciando uma vida santa. -  Ó bom Jesus, Deus de misericórdia, recordai que pela nossa salvação sofrestes tantos padecimentos e derramastes o vosso sangue: a vós rogamos ter piedade de nós. Oh! Salvai-nos no dia do Juízo:  Recordare, Jesu pie, Quod sum causa tuae viae, Ne me perdas illa die! [1]

 

 



[1]              Cf. “A Palavra de Deus em Exemplos” – G. Morotarino J. C. – Ed.Paulinas, 1961 – págs. 68/75.