quinta-feira, 16 de julho de 2026

O QUE DISSERAM ALGUNS PAPAS SOBRE NOSSA SENHORA MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS

 



Bento XIV, Bula Gloriosæ Dominæ:

"Nossa Senhora é o rio que traz aos miseráveis mortais todas as graças e presentes de Deus".

Pio VII, Bula Ampliatio privilegiorum ecclesiae Beatæ Mariæ Virginis ab angelo salutatae in cenobio Fratrum Ordinis Servorum Beatæ Mariæ Virginis:

"Nossa Senhora é, pois, a dispensadora de todas as graças de Deus aos homens" (gratiarum omnium dispensatricem).

Pio IX, Bula Ineffabilis Deus (dogma da Imaculada Conceição):

"E depois reafirmamos a Nossa mais confiante esperança na beatíssima Virgem, que, toda bela e imaculada, esmagou a cabeça venenosa da crudelíssima serpente, e trouxe a salvação ao mundo; naquela que é glória dos Profetas e dos Apóstolos, honra dos Mártires, alegria e coroa de todos os Santos; seguríssimo refúgio e fidelíssimo auxilio de todos os que estão em perigo; poderosíssima mediadora e reconciliadora de todo o mundo junto a seu Filho Unigênito; fulgidíssima beleza e ornamento da Igreja, e sua solidíssima defesa."

Papa Leão XIII, Iucunda Semper Expectatione:

8. Para este mesmo fim, em perfeita harmonia com os mistérios, tende a oração vocal. Procede, como é justo, a oração dominical dirigida ao Pai celeste. Em seguida, após haver invocado o mesmo Pai com a mais Pobre das orações, do trono da sua majestade a nossa suplicante volve-se para Maria, em obséquio à lembrada lei da sua, mediação e da sua intercessão, expressa por S. Bernardino de Sena com as seguintes palavras: "Toda graça que é comunicada a esta terra passa por três ordens sucessivas. De Deus é comunicada a Cristo, de Cristo à Virgem, e da Virgem a nós" (S. Bernardino de Sena, Sermo VI in Festis B. M. V., De Annunciatione, a. 1, c. 2).


Leão XIII, Iucunda Semper Expectatione:

"20. E Deus, ó Veneráveis Irmãos, que "na sua misericordiosa bondade nos deu uma Mediadora tão poderosa" (S. Bernardo, De C II Praerogativis B. M. V., n. 2), "e quis que tudo nos viesse pelas mãos de Maria" (S. Bernardo, Sermo in Nativitatem B. M. V., n. 7), pela intercessão e pelo favor dela acolha propício os votos e satisfaça as esperanças de todos. Como auspício, pois, destes bens, juntamos de todo coração para vós, para o vosso clero e para o vosso povo a Bênção Apostólica."

Leão XIII, Adjutricem Populi:

4. Impossível seria, pois, dizer que amplitude e que eficácia hajam adquirido os seus socorros, quando ela foi levada para junto de seu divino Filho, àquele fastígio de glória que convinha à sua dignidade e ao esplendor dos méritos. Com efeito, de lá do alto, consoante os desígnios de Deus, ela começou a velar sobre a Igreja, a assistir-nos e a proteger-nos como uma mãe; de modo que, depois de ter sido a cooperadora da redenção humana, tornou-se também, pelo poder quase ilimitado que lhe foi conferido, a dispensadora da graça que em todos os tempos jorra dessa redenção.

Por isto, com bem razão as almas cristãs, obedecendo como que a um instinto natural, sentem-se arrastadas para Maria, para lhe comunicarem com toda confiança os seus projetos e as suas obras, as suas angústias e as suas alegrias; para recomendarem com filial abandono suas pessoas e suas coisas à bondade e solicitude d'Ela. Por este justíssimo motivo, todos os povos e todos os ritos têm-lhe tributado louvores, que têm vindo sempre crescendo com o sufrágio dos séculos. Donde os títulos a ela dados de "Mãe nossa, nossa Mediadora" (S. Bernardo, Sermo II in Advento Domini, n. 5), "Reparadora do mundo inteiro" (S. Tharasius, Oratio in Praesentatione Deiparae), "Dispensadora dos dons celestes" (In Off. Graec., 8 dec., post oden 9).

Leão XIII, Octobri Mense:

"... assim, tal como não se pode ir ao Pai Supremo senão pelo Filho, não se pode chegar a Cristo senão por Sua Mãe".

Leão XIII, Fidentem Piumque Animum

7. E quem quererá considerar excessiva e censurar a grande confiança depositada no auxilio e na proteção da Virgem? Todos estão de acordo em admitir que o nome e a função de perfeito Mediador não convém senão a Cristo: porque só Ele, conjuntamente, Deus e Homem, reconciliou o gênero humano com seu sumo Pai: "Um mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus Homem, aquele que a si mesmo se deu como preço de resgate por todos" (1 Tim. 2, 5-6). Mas se, como ensina o Angélico, "nada proíbe que algum outro se chame, sob certos aspectos, mediador entre Deus e os homens, quando dispositiva e ministerialmente coopera para a união do homem com Deus" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 26 a. 1), como é o caso dos Anjos, dos Santos, dos profetas e dos sacerdotes do velho e do novo Testamento, sem dúvida alguma tal título de glória convém, em medida ainda maior, à Virgem excelsa.

Com efeito, é impossível imaginar outra criatura que tenha realizado ou esteja para realizar uma obra semelhante à dela, na reconciliação dos homens com Deus. Foi ela que, para os homens fadados à eterna ruína, gerou o Salvador; quando, ao anúncio do mistério de paz trazido à terra pelo Anjo, ela deu o seu admirável assentimento, "em nome de todo o gênero humano" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 30 a. 1). Ela é aquela "da qual nasceu Jesus", sua verdadeira Mãe, e por isto digna e agradabilíssima "Mediadora junto ao Mediador”.


8. Como estes mistérios são sucessivamente propostos, no Rosário, à meditação dos fiéis, segue-se que esta oração põe em evidencia os méritos de Maria na obra da nossa reconciliação e da nossa salvação. Ninguém - assim pensamos pode subtrair-se a uma suave emoção ao contemplar a Virgem, ou quando visita a casa de Isabel para lhe dispensar os divinos carismas, ou quando apresenta seu filho pequenino aos pastores, aos reis, a Simeão. E que não sentirá a alma fiel quando refletir que o Sangue de Cristo, derramado por nós, e os membros nos quais ele mostra ao Pai as feridas recebidas "como penhor da nossa liberdade", não são outra coisa senão carne e sangue da Virgem? E, na realidade: "A carne de Jesus é carne de Maria; e, embora sublimada pela glória de ressurreição, todavia a natureza dessa carne permaneceu e permanece a mesma que foi tomada de Maria" (De Assumptione B. M. V., c. V, inter operas S. Augustini, PL, XL, Incerti Auctoris ac Pii, col. 1141-1145).

S. Pio X, Ad Diem Illum (50 anos do Dogma da Imaculada Conceição)

8. Mas não foi apenas para seu próprio louvor que a Virgem ministrou a matéria de sua carne ao Filho unigênito de Deus, que haveria de nascer com membros humanos (S. Beda Ven. lib. IV in Luc. XI), e que ela preparou, desta forma, uma vítima para a salvação dos homens; sua missão foi também velar por esta vítima, nutri-la e apresenta-la ao altar, no tempo estabelecido. Por isto, entre Maria e Jesus reinou perpétua sociedade de vida e sofrimentos, que nos permite aplicar a ambos estas palavras do Profeta: A minha vida vai se consumindo com a dor e os meus anos com os gemidos (Sl 30, 11). E quando chegou a hora derradeira de Jesus, vemos a Virgem "aos pés da cruz", horrorizada certamente ante a visão do espetáculo, "mas feliz porque seu Filho se oferecia como vítima pela salvação dos homens e, ademais, de tal modo partícipe de suas dores que teria preferido padecer os tormentos que cruciavam o seu Filho, tal lhe fosse dado fazer" (S. Bonav., 1 Sent., d. 48, ad Litt., dub. 4). — Em conseqüência dessa comunhão de sentimentos e de dores entre Maria e Jesus, a Virgem fez jus ao mérito de se tornar legitimamente a reparadora da humanidade decaída (Eadmeri Mon., De Excellentia Virginis Mariæ,c. IX) e, portanto, dispensadora de todos os tesouros que Jesus nos adquiriu por sua morte e por seu sangue.

9. Não se pode dizer, sem dúvida, que a dispensação destes tesouros não seja de alçada própria e particular de Jesus Cristo, porque fruto exclusivo de sua morte e por Ele mesmo, em virtude de sua natureza, o mediador entre Deus e os homens. Contudo, em vista dessa comunhão de dores e de angústia, já mencionada, entre a Mãe e o Filho, foi concedido à Virgem o ser, junto do Filho unigênito, a medianeira poderosíssima e advogada de todo o mundo (Pio IX, Bula Ineffabilis). O manancial, pois, é Jesus Cristo: E todos nós recebemos de sua plenitude (Jo 1, 16), do qual todo o corpo coligado e unido por todas as juntas que mutuamente se auxiliam, segundo a operação da medida de cada membro efetua o aumento do corpo de si mesmo em caridade (Ef. 4, 16). Como nota com acerto S. Bernardo, Maria é, na verdade, o aqueduto (Serm. De Temp., in Nativ. B. V., De Aquæductu, n. 4); ou então, essa parte média que tem por missão unir o corpo à cabeça e transmitir àquele os influxos e eficácias desta, o que vale dizer: o pescoço. Sim, diz S. Bernadino de Sena, ela é o pescoço de nossa Cabeça, pelo qual comunica todos os dons espirituais a seu corpo místico (S. Bern. Sen., Quadrag. de Evangelio æterno serm. X, a. III, c. 3). Torna-se, por conseguinte, evidente que não atribuímos à Mãe de Deus uma virtude geradora da graça, virtude esta que é só de Deus. Contudo, porque Maria excede a todos em santidade e em união com Cristo, e por ter sido associada por Ele à obra redentora, ela nos merece de congruo, segundo a expressão dos teólogos, o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno, sendo ela ministra suprema da dispensação das graças . Ele (Jesus) está sentado à direita da Majestade nas alturas (Heb 1, 3). Ela, Maria, está à direita de seu Filho: O refúgio mais seguro, o mais valioso amparo de quantos se acham em perigo; nada, pois, temos a temer sob sua conduta, seus auspícios, seu patrocínio, sua égide (Pio IX, Bula Ineffabilis).

Bento XV, Inter Sodalicia:

"Com efeito ela sofreu e quase morreu com seu Filho sofredor e moribundo, abdicou dos seus direitos maternos para salvação dos homens, e tanto quanto lhe pertencia, imolou seu Filho para apaziguar a justiça de Deus, de modo que se pode justamente dizer que ela resgatou, com Cristo, o genero humano. Conseqüentemente, todas as graças que recebemos do tesouro são distribuidas pelas mãos da dolorosa virgem."

"Assim, toda graça e bênção vem a nós por meio de Nossa Santa Senhora. Portanto, além da intercessão dos santos, deve ser incluida a influencia dela, a quem os Santos Padres, saudaram com o título Mediatrix omnium gratiam "

Pio XII, Ad Cæli Reginam:

37. E certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus Cristo, Deus e homem, é rei; mas também Maria - de maneira limitada e analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino Redentor, à sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino; finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia da sua intercessão junto do Filho e do Pai.

38. Portanto, não há dúvida alguma que Maria santíssima se avantaja em dignidade a todas as coisas criadas e tem sobre todas o primado, a seguir ao seu Filho. "Tu finalmente, canta S. Sofrônio, superaste em muito todas as criaturas... Que poderá existir mais sublime que tal alegria, ó Virgem Mãe? Que pode existir mais elevado que tal graça, a qual por divina vontade só tu tiveste em sorte?" "A esses louvores acrescenta S. Germano: "A tua honra e dignidade colocam-te acima de toda a criação: a tua sublimidade faz-te superior aos anjos". João Damasceno chega a escrever o seguinte: "É infinita a diferença entre os servos de Deus e a sua Mãe".

9. Para melhor compreendermos a sublime dignidade, que a Mãe de Deus atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a santíssima Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de tal abundância de graças, que supera a graça de todos os santos. Por isso, como escreveu na carta apostólica Ineffabilis Deus o nosso predecessor, de feliz memória, Pio IX, Deus "fez a maravilha de a enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância de todas as graças celestiais hauridas dos tesouros da divindade, que ela - imune de toda a mancha do pecado, e toda bela apresenta tal plenitude de inocência e santidade, que não se pode conceber maior abaixo de Deus, nem ninguém a pode compreender plenamente senão Deus".

40. Nem a bem-aventurada virgem Maria teve apenas, ao seguir a Cristo, o supremo grau de excelência e perfeição, mas também participou ainda daquela eficácia pela qual justamente se afirma que o seu divino Filho e nosso Redentor reina na mente e na vontade dos homens. Se, de fato, o Verbo de Deus opera milagres e infunde a graça por meio da humanidade que assumiu - e se utiliza dos sacramentos e dos seus santos, como instrumentos, para salvar as almas; por que não há de servir-se do múnus e ação de sua Mãe santíssima para nos distribuir os frutos da redenção? "Com ânimo verdadeiramente materno para conosco - como diz o mesmo predecessor nosso, de feliz memória, Pio IX - e ocupando-se da nossa salvação, ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra, toma cuidado de todo o gênero humano, e - tendo sido exaltada sobre todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor - com as suas súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode deixar de ser ouvida". A esse propósito, outro nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, declarou que foi concedido à bem-aventurada virgem Maria um poder "quase ilimitado" na distribuição das graças; S. Pio X acrescenta que Maria desempenha esta missão "como por direito materno".


Paulo VI, Signum Magnum:

2. Mas de que modo coopera Maria no crescimento dos membros do Corpo Místico na vida da graça? Em primeiro lugar mediante a sua incessante súplica, inspirada por uma ardente caridade. A Virgem Santa, embora feliz pela visão da augusta Trindade, não esquece os seus filhos que caminham como Ela outrora na «peregrinação da fé» (L.G. 58). Contemplando-os em Deus e vendo bem as suas necessidades, em comunhão com Jesus Cristo que está «sempre vivo a interceder por eles» (Heb 7,25), deles se constitui Advogada, Auxiliadora, Amparo e Medianeira (cfr. L.G. 62). Desta sua ininterrupta intercessão junto do Filho pelo Povo de Deus, tem estado a Igreja desde os primeiros séculos persuadida, como testemunha esta antiquíssima antífona que, com algumas ligeiras diferenças, faz parte da oração litúrgica tanto no Oriente como no Ocidente: «à tua protecção nos acolhemos ó Mãe de Deus; não desprezes as nossas súplicas nas necessidades, mas salva-nos de todos os perigos ó (tu) que só (és) a bendita». Nem se pense que a intervenção maternal de Maria traga prejuízo à eficácia predominante e insubstituível de Cristo, nosso Salvador; pelo contrário, ela tira a sua força da mediação de Cristo e é dela uma prova luminosa (cfr. L.G. 62).

12. O que deve ainda estimular mais os fiéis a imitar os exemplos da Virgem Santíssima, é o facto de o próprio Jesus, tendo-lha dado por Mãe, implicitamente a ter apontado como modelo a imitar. De facto, é natural que os filhos tenham os mesmos sentimentos que as mães e reproduzam os seus méritos e virtudes. Portanto, assim como cada um de nós pode repetir com S. Paulo: «O Filho de Deus amou-me e entregou-se a Si mesmo por mim» (Ga 2,20; cfr. Ef 5,2), do mesmo modo com igual confiança pode acreditar que o Salvador Divino lhe deixou, também a ele, em herança espiritual a Sua própria Mãe, com todos os tesouros de graça e de virtude de que a tinha cumulado, a fim de que os derramasse sobre nós, como efeito da Sua poderosa intercessão e da nossa corajosa imitação. É por isso que com razão S. Bernardo afirma: «Vindo a Ela o Espírito Santo, encheu-a de graça para Ela mesma; inundando-A novamente o mesmo Espírito, Ela tornou-se superabundante e transbordante de graça também para nós».

"Deus Filho comunicou a Sua Mãe tudo o que adquiriu pela Sua vida e pela Sua morte, os Seus méritos infinitos e as Suas virtudes admiráveis, e fê-la tesoureira de tudo o que o Pai lhe deu em herança; é por ela que Ele aplica os Seus méritos aos Seus membros, que comunica as Suas virtudes e distribui as Suas graças; é o Seu misterioso canal, o Seu aqueduto, por onde faz passar docemente e abundantemente as Suas misericórdias.

 


sábado, 4 de julho de 2026

SANTA ISABEL, RAINHA DE PORTUGAL

 

Santa Isabel era filha do rei Pedro III de Aragão. A sua santidade já era grande e ela ainda menina, já era estimada pelas suas virtudes. Todo o tempo que a sua vida de princesa deixava livre, era empregado em atos de caridade para com os pobres, e de piedade. A igreja era o lugar onde gostosamente passava, quando podia, horas inteiras rezando. Com 8 anos tomou a resolução de rezar diariamente o Ofício Divino, perseverando nela por toda a sua vida. Desde menina fazia ela jejum todos os sábados, e nas vésperas das festas de Maria.

Todo o seu exterior denotava o seu grande amor à virtude da pureza. Apesar de inteligentíssima, a sua atitude sempre modesta, atraía a simpatia e admiração de todos.

Na idade de 12 anos, foi dada como esposa ao rei de Portugal.

Não tendo liberdade de escolher a sua vocação, sujeitou-se serenamente às obrigações impostas às pessoas de sua qualidade, e dispôs-se a continuar no trabalho de sua santificação.

Três vezes por ano, jejuava ela por 40 dias, só se alimentando de pão e água. A sua vida era extremamente metódica, sendo dividida entre as suas obrigações de estado, oração e algum trabalho útil. Nunca alguém a encontrou ociosa. Era muito assídua na recepção dos Sacramentos, e muito cuidadosa na sua recepção.

Quanto mais santa é a pessoa, maior número de amigos que se julgam bons insistem em afastá-la de seus deveres. A esses sempre respondia ela: “Poderá haver maior utilidade e necessidade de oração que na idade em que os perigos e as paixões se apresentam mais fortes?”

Costumava sempre dizer: “Outro motivo Deus não teve em me fazer rainha, se não de proporcionar-me os meios de socorrer os necessitados”. E todos os dias ia a Santa Rainha à procura de um doente ou de um pobre, em que pudesse exercer a sua caridade.

Deus a recompensou com o dom do milagre. Uma pobre mulher, coberta de úlceras, recuperou a saúde com um abraço da rainha. Tinha ela o hábito de lavar em todas as sextas-feiras os pés a 13 mulheres, em memória do que havia sido feito com os Apóstolos. Numa das vezes, uma mulher apresentou-se com um pé roído por um câncer horrendo, para que a rainha o lavasse. Ela não só o lavou com todo o carinho, mas ainda debruçou-se, beijou-o, como costumava fazer. Deus logo a recompensou, e para não lhe permitir que beijasse a chaga nojenta, curou-a imediatamente. Entre outros muitos doentes curados pela Santa Rainha, conta-se uma cega de nascença.

O rei seu esposo não podia exatamente ser chamado virtuoso. Isabel muito se entristecia com os seus desregramentos, mas nunca proferiu um queixume. As suas orações foram atendidas e ela teve a alegria de observar a lenta conversão de seu marido.

Além disso, porém, o rei recebeu a denúncia caluniosa de que a rainha tinha no seu escudeiro não um simples auxiliar na distribuição de suas esmolas. Como para ele, os atos pouco honestos não eram coisas fora de toda a cogitação, acreditou na calúnia e deu ordem ao caieiro da corte que lançasse ao forno, onde se cosia a cal, o escudeiro que lhe viesse perguntar de sua parte se o serviço já estava feito. Chamou então o escudeiro da rainha, e como que se lembrando, na hora, de uma providência que havia esquecido, manda-o que procure o caieiro, e pergunte se o serviço já estava feito.

Dispôs-se o pajem a cumprir a vontade de el rei, mas como, ao passar pela capela, ouvisse o sinal da entrada de uma Missa, achou que bem podia a ordem de el rei esperar um pouco.

Estando el rei e o escudeiro que denunciara o outro muito curiosos por saber o resultado da operação, pediu o moço licença para ir perguntar ao caieiro como se tinha passado a cena. Como, porém, vinha da parte de el rei, disse a senha sem o saber. Foi assim agarrado, e lançado ao forno, apesar de seus protestos. Logo depois veio o pajem da rainha, e ouvido do caieiro que realmente o serviço já estava feito. Como ele de nada soubesse, foi-se tranquilamente ao rei e lhe disse que o caieiro lhe respondeu que sim. Dom Dinis, muito admirado por ver em sua presença quem devia estar morto, indagou cuidadosamente do que acontecera, e reconheceu o braço da Providência protegendo a inocência.

Muito se arrependeu Dom Dinis da leviandade com que deu crédito à calúnia e com que praticou aquele assassinato, e foi o remorso desses dois pecados o primeiro passo para a sua conversão.

Entretanto, esse remorso não impediu que ele desse novamente crédito aos ditos de que a rainha apoiava o seu filho Afonso, que se rebelara. Sem examinar a questão, o rei proibiu à rainha a entrada do palácio, dando-lhe como morada uma simples casa de campo. Deus, entretanto, provou-lhe claramente a inocência de sua esposa, passando então Dom Dinis a trata-la com toda a consideração.

Logo depois, caiu gravemente enfermo, sendo tratado pela própria rainha que já tratara a tantos enfermos muito menos ilustres. Arrependido de seus pecados, morreu bem o mau marido dessa Rainha Santa, deixando-lhe ao menos a consolação de ter morrido no Senhor.

Isabel imediatamente se retirou para o convento das Clarissas em Coimbra, convento que ela mesma havia edificado. Mas a superiora não a quis receber mostrando-lhe ser o seu lugar no mundo.

Duas peregrinações fez à Compostela. A segunda fez ela a pé, na companhia de duas criadas, vivendo as três unicamente de esmolas.

O seu último trabalho foi evitar uma guerra entre o rei seu filho, e um soberano vizinho. Pouco tempo depois, adoecia e morria depois de ter recebido de joelhos os últimos Sacramentos.

Trezentos anos depois de sua morte, o seu corpo foi encontrado em perfeito estado. Desde então, Deus digna-se fazer grandes milagres no túmulo de sua serva.

 

(Legionário, 4 de junho de 1939)


terça-feira, 23 de junho de 2026

SÃO JOÃO BATISTA E OS APÓSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS

 


          (Revista "Dr. Plínio" n. 27, junho de 2000)



Nós temos no dia 24, amanhã, a festa da Natividade de São João Batista. E a respeito dele temos que desenvolver alguns dados biográficos fornecidos por Dom Guéranger:

“São João recebeu a graça de uma felicidade incomparável, provavelmente já no seio de sua mãe, com a visita da Santíssima Virgem a Santa Isabel.

Assim sendo, talvez o primeiro que tenha falado da divina e virginal maternidade, não separando nunca o Filho de sua Mãe, ao mesmo tempo que adorou Jesus, honrou Maria acima de todas as criaturas. “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre”. É a afirmação unânime da eleição que, pronunciando Isabel essas palavras, nada mais fez do que ser porta-voz de seu filho. O início da vocação de João como testemunho da Luz primaria (...) e ela dá a primeira expressão de admiração e louvor que a anima. Anjo ele mesmo, como o chamavam os profetas, retoma (...) à Soberana do céu e da terra.

Assim, já se vê de perto o papel de Maria na santificação dos eleitos. O grito de sua alma eleva-o à santidade ao primeiro som da voz da Virgem. Foi por ele que, com grande pressa, após a Anunciação, Ela atravessou as montanhas. Mas reserva ainda a João outros favores. Até então silenciosa, entoa diante dessa criança seu canto sublime. E dá ao Batista a plena compreensão do mistério inefável. Como santificou o precursor de seu Filho, a Mãe de Deus (...) primeira lição incomparável do filho de Isabel. Mas três meses ainda continua essa educação maravilhosa. E com isso, melhor (..?..) que será essa criança? A Dispensadora das graças guardou para João a primeira efusão dessa torrente de graça da qual Ela se tornara o divino reservatório.

O caudal que escapa dessa cidade santa não será suspenso no correr dos tempos, levando a cada alma os seus eflúvios, mas em toda a sua força inicial ainda não dirigida, encontra João em primeiro lugar. Quem poderia medir essa corrente? Os seus efeitos? A Santa Igreja não o diz. Mas de onde virá a fonte que causa o misterioso crescimento de João sob o olhar atônito dos anjos? Tendo em vista a fraqueza desse corpo de criança, ante a grande maturidade de sua alma e da misteriosa natividade do precursor. É grande o homem que Isabel deu ao mundo”.

Esse comentário de D. Guéranger é cheio de vistas magníficas. Ele se estriba no fato de que São João Batista, ainda no ventre materno, era dotado de toda lucidez. Porque sem ser concebido sem pecado original - ao menos nada indica que tenha sido - foi isento dessa culpa logo depois de concebido, razão pela qual tinha inteligência, tinha compreensão das coisas que se passavam, e estava em oração no ventre de Santa Isabel quando Nossa Senhora chegou.
Então, a primeira coisa que D. Guéranger ressalta bem é que Nossa Senhora não foi a Santa Isabel apenas para ajudá-la, mas que o motivo primeiro da visita era ajudá-la para que gerasse perfeitamente aquele menino que Ela sabia ser o precursor prometido pela Escrituras. O menino passou três meses vendo constantemente Nossa Senhora ajudar Santa Isabel. Ele ouvia a voz de Nossa Senhora; durante esses três meses ele compreendeu Nossa Senhora.

Os senhores podem compreender o que são dois ou três meses em companhia de Nossa Senhora! Ele mostra muito bem que aquele que os profetas chamaram de Anjo era uma criatura de tal maneira excelsa que estava acima de todos os homens. Nosso Senhor dele dizia, mais ou menos, não me lembro bem a frase, que de homem não havia nascido ninguém maior do que João Batista.
Então, essa criatura, logo no despertar de sua vida, foi acordada para o conhecimento do mundo pela voz de Nossa Senhora. Ele ouviu Santa Isabel cantar a grandeza de Nossa Senhora e ouviu Nossa Senhora entoar o Magnificat. Ouviu esse hino, essa canção tão bem estruturada, tão nobre, ao mesmo tempo tão racional, tão bem pensada. Ele ouviu e compreendeu todos os sentidos que o Magnificat tem, depois o canto da voz de Nossa Senhora e tudo o mais, tudo concorreu para elevar a alma dele.

Ou seja, o primeiro ensinamento desse homem privilegiado foi um ensinamento de Nossa Senhora. Quando a corrente de ensinamentos e de graças de Nossa Senhora — diz ele muito bem — estava no seu primeiro eflúvio para cair sobre a humanidade, o lado mais esplêndido caiu sobre São João Batista, sobre sua alma, para que ele fosse um anjo e fosse na frente do Messias, cortando as montanhas e enchendo os vales para preparar os caminhos do Senhor. Cortando as montanhas, quer dizer, combatendo os vícios; preenchendo os vales, quer dizer, acabando com os pantanais e buraqueiras da sensualidade. Em outros termos, fazendo o trabalho da Contra-Revolução para preparar os caminhos do Senhor.

Ele diz algo a respeito da santidade de São João Batista, mas o que diz é pouco porque ele teve de compreender que não há palavras humanas para descrever bem o que essa santidade possa ter sido. Uma santidade de tal maneira — e de tal maneira máxima a do primeiro momento do apostolado de Nossa Senhora — que os homens podem entrever, não podem descrever! Eles podem admirar, mas eles não podem conhecer inteiramente.

Aí está o Batista, o austero, o Batista terrível! O Batista que vai para o deserto e que vela. E depois sai da solidão e começa a pregação. O Batista zeloso que prepara as almas judaicas, das quais haveria de nascer a Igreja Católica. Porque o primeiro reduto de católicos foi [o] dos judeus e [das] pessoas preparadas pelo apostolado de São João Batista - mas o Batista juiz, o Batista fiel, o Batista devotado!

Quando Nosso Senhor apareceu, ele disse: “A Ele compete crescer, a mim compete diminuir; compete-me agora desaparecer: eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo! Minha missão está cumprida. Não há mais nada para eu fazer, porque o Sol da justiça se levantou e eu não era senão uma ave que cantava o Sol que ia nascer. A partir do momento em que o Sol nasceu, eu não tenho outra coisa a fazer senão morrer por Ele”.

E aí nós temos a morte, ao mesmo tempo indignada e enlevada de São João Batista. São João Batista e sua luta contra Herodes, contra Salomé, mártir da castidade! O homem que sabe enfrentar a impureza num trono e que sabe perder sua vida para dizer a verdade como ela é. Ele foi detestado, tirado dessa vida, mas tirado num ato de supremo amor. É evidente que quando ele morreu estava pensando no Cordeiro de Deus que tinha visto e no canto do Magnificat que tinha ouvido. Foi nesse enlevo que sua alma se desprendeu do corpo e que foi esperar Nosso Senhor no Limbo.

Os senhores podem imaginar o que terá sido o encontro de Nosso Senhor e São João Batista no Limbo, quando a alma do mártir, tão pura e ainda lavada pelo sangue derramado há pouco, foi de encontro a Ele. O que terá dito Nosso Senhor a São João Batista que O havia aclamado? E depois, coroando de glória São João Batista no Céu!

Aí compreendemos toda a devoção dos ultramontanos a São João Batista. Compreendemos a raiz que isso tem. Esse profeta virginal passou pela vida dizendo as verdades inteiras, sem ter medo de ninguém, aterrorizando a impiedade e enlevando e preparando para o Messias as almas que nós diríamos ultramontanáveis - para falar a linguagem contemporânea -, essa alma formada diretamente por Nossa Senhora.

E aí então, como através de um espelho, podemos ver algo das virtudes de Nossa Senhora. Porque ele é fruto da alma de Nossa Senhora, da formação de Nossa Senhora. Ele é fruto da formação, e pelo fruto se conhece a árvore. Nossa Senhora, a ter formado um homem que tivesse todo o agrado d’Ela, teria formado a ele.

Então os senhores compreendem o “raprochement” que se pode fazer entre isso e os Apóstolos dos Últimos Tempos. Os Apóstolos dos Últimos Tempos, formados inteiramente pelas exigências de Nossa Senhora, devem ter o perfil moral de São João Batista: austeros, varonis batalhadores, enlevados, intransigentes e prontos a darem sua vida inteira por Nossa Senhora.
Que Nossa Senhora nos faça tais! Que possamos ouvir, também nós, a voz d’Ela dentro de nossas almas. Que nós também tomemos a forma de verdadeiros discípulos d’Ela para, contra os hereges contemporâneos, vivermos aqueles Apóstolos do Últimos Tempos que devemos viver. É o que nós pedimos, de toda alma, a São João Batista e a Nossa Senhora, na festa dele.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira, “Santo do Dia”, 23 de junho de 1967)

 

 


PECADOS MODERNOS QUE CLAMAM AOS CÉUS POR VINGANÇA

 

Deus já emitiu seus juízos sobre nossa época?

É o que veremos ao analisarmos abaixo os pecados cometidos no mundo moderno: A) os que chamam ao Céu por vingança; B) pecados contra o Espírito Santo, e C) a conjuração coletiva contra Deus e sua Obra.

 

A) Pecados que clamam ao Céu

Os chamados pecados que clamam aos céus e pedem a Deus por vingança são aqueles que envolvem uma especial malícia e repugnância abominável contra a ordem social humana criada por Deus.

São estes:

1º. O homicídio voluntário, como o praticado por Caim (Gn 4, 10), de cujo pecado Deus disse: “voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim”. A avalanche de pecados desta natureza ocorre com tanta frequência hoje em dia que dispensa maiores comentários. O único agravante é que sejam praticados pelo Estado em nome da própria sociedade e para a implantação de regimes ditatoriais, materialistas e ateus. Estamos numa época em que o homicídio voluntário é praticado como arma de guerra psicológica, como método de terror, como vingança entre quadrilhas, como meio para se fazer extorsões e se adquirir riquezas e, finalmente, como tortura e perseguição religiosa. As modalidades de homicídios vão se requintando e se tornando coisas tidas como normais, ocorridos também entre familiares, entre irmãos, de pai pra filho e de filho pra pai. Vivemos numa época em que os homicídios são cometidos por atacado, em toda a terra, sob os diversos motivos e às vezes até mesmo sem motivo nenhum...  Não já estão clamando a Deus por vingança?

2º. A sodomia é um pecado abominável condenado no Antigo e no Novo Testamento, como nessa epístola de São Judas: “De modo semelhante, Sodoma e Gomorra e as cidades ao redor se entregaram ao prazer infame, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno (Jd 1, 7).

É comum o entendimento de que o pecado de sodomia só se refira ao relacionamento homossexual.  No entanto, é bom que se frise que a sodomia se refere a todo pecado que é contrário à natureza e à procriação, tendo o homossexualismo como ponto máximo, porém não o único. Pode ser chamado também ato de sodomia qualquer pecado de sexo que seja contrário ao ato natural, hoje praticados pela sociedade moderna de uma forma protuberante, maciça, estonteante mesmo.

Assim, inscrevem-se neste rol de pecados contra natureza aquilo que São Paulo chama de “inversão sexual” ou então o que, não só os homens, mas a próprias mulheres romanas faziam (hoje também um pecado comum) ao “mudarem o uso natural em outro uso, que é contra a natureza”. (Rom 1, 24-32).  Comentando esta epístola de São Paulo São João Crisóstomo diz: “Considerai como o Apóstolo reputa aos pecados de sodomia indignos de perdão, da mesma forma que os dogmas errôneos. E das mulheres diz: “Trocaram o uso natural”. Porque essas não podem alegar que foi por falta de união conforme à natureza que recorreram a essa depravação; e nem que, por não poder satisfazer sua inclinação natural que caíram nesses furiosos desejos alheios a seu próprio sexo, porque a troca é própria de quem já possui algo...”

 O principal pecado de Onan (Gn 38, 8-10) foi o de impedir a procriação e, por isso, tido como um ato abominável por Deus e punido com a morte. Porém a Igreja não circunscreve tal pecado (impedir a procriação) como aqueles que clamam aos céus por vingança e sim o de sodomia.  Deste modo, é provável que Onan tenha praticado num só pecado duas ofensas a Deus: o impedimento da procriação (que interrompia a continuidade hereditária que geraria o Messias, pois tratava-se da tribo de Judá) e o ato contrário à natureza, este sim, a sodomia, que clama a Deus por vingança e sujeito ao castigo de morte.

De que modo Onan impediu sua esposa de conceber?  A Sagrada Escritura não o diz, mas ele deve ter usado um recurso compatível aos atos contrários à natureza, que naqueles tempos remotos eram mais rudes. Alguns moralistas dizem que ele usou um recurso para bloquear o sêmen, algo talvez difícil de se proceder em seu tempo a não ser por métodos grosseiros. Teria ele forçado sua esposa a “mudar o uso natural” como se refere São Paulo e praticado a sodomia? Ou teria usado algum recurso contraceptivo ensinado por feiticeiros?

O pecado de sodomia, e não somente o de homossexualismo, teria motivado os conhecidos castigos de Deus, matando não só uma pessoa como Onan, mas cidades inteiras como Sodoma e Gomorra, ou até mesmo as cidades romanas Herculano e Pompéia, destruídas pelo vulcão Vesúvio pois eram ninhos de abominações de pecados contrários à natureza, como sodomia e homossexualismo. Se a tanto chegou Deus por causa de um ou outro homem, o que não dizer hoje de cidades ou até mesmo povos inteiros que praticam impune e atrevidamente tais pecados?

3º.  A opressão dos pobres, viúvas e órfãos. De tal forma este pecado mancha o nosso tempo que dele assim falou o Papa Pio XII: “Que nenhum de vós pertença ao número daqueles que, na imensa calamidade em que há caído a família humana, não veem senão uma ocasião propícia para enriquecer-se iniquamente, tomando pé da miséria de seus irmãos e aumentando mais e mais os preços para obter um lucro escandaloso. Contemplai suas mãos! Estão manchadas de sangue, do sangue das viúvas e dos órfãos, das crianças e adolescentes, dos impedidos ou atrasados em seu desenvolvimento por falta de nutrição ou pela fome, do sangue de milhares e milhares de infortunados de todas as classes do povo que derramaram seus carniceiros com seu inglório tráfico, Este sangue, como o de Abel, clama ao céu contra os novos Cains”  (AAS 37 (1945) 112).

4º. Defraudação do salário do trabalhador, que clama a Deus por vingança conforme o Apóstolo São Tiago: “Eis que o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama, e o clamor deles subiu até aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tiago 5, 4). A maior defraudação do salário do trabalhador se deu quando o Estado se arrogou no direito de se apropriar dos frutos deste salário, os bens socializados pelos regimes comunistas e socialistas implantados no decorrer do século XX. Embora o regime comunista esteja hoje diluído, a legislação moderna, toda ela socialista até mesmo em países como os Estados Unidos, sofre do bafejo dos ideais marxistas, o qual propugna a tese igualitária da expropriação de todos os bens (que é o fruto do salário do trabalhador) pelo Estado. Não há um país moderno que não tenha sofrido a influência de tal legislação, justificando a afirmação da Santíssima Virgem em Fátima: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. 

Um quinto tipo de pecados que bradam aos céus e clamam a Deus por vingança seria o da idolatria satânica, revestido este com o maior grau de maldade e malícia que se pode imaginar. No entanto, tal pecado se inscreve como aqueles cometidos contra o Espírito Santo e cuja vingança Deus deixa para a outra vida com um castigo ainda pior, a condenação eterna. O satanismo, ou o pecado de Revolução, é um ato que envolve malícia especial e se reveste de repugnância abominável contra a ordem social humana, da qual Deus é expulso e colocado Satanás em seu lugar. É a inversão da Ordem que Deus colocou no Universo.  Deste modo, tratar-se-ia de um pecado que brada aos céus e clama a Deus por vingança, mas vingança exigida pela própria Ordem que Deus estabeleceu no Universo e punível com as penas eternas.

 

B) Os pecados contra o Espírito Santo

São aqueles que se cometem com refinada malícia e desprezo formal dos dons sobrenaturais que nos livrariam diretamente do pecado.  São como blasfêmias contra o Espírito Santo, a Quem compete a nossa santificação.

Constituem-se pecados contra o Espírito Santo:

A desesperação: obstinada persuasão da impossibilidade de conseguir de Deus o perdão dos pecados e a salvação eterna. Este foi o pecado de Judas e é um pecado, hoje, comum aos drogados, roqueiros, ateus, etc. A desesperação é um prato comum nos dias atuais com a pregação de suicídios,  a prática de abortos e da eutanásia, o desengano geral com a desintegração dos Estados e grande frustração por não se encontrar ninguém mais falando em solução para os problemas de nosso tempo. 

A presunção: temerária e excessiva confiança na misericórdia de Deus, esperando a salvação eterna sem arrepender-se dos pecados e mudar de vida. Este é um pecado hoje praticado por protestantes de todas as seitas e membros das chamadas igrejas ortodoxas orientais. 

A heresia: ou “impugnação da Verdade conhecida”.  Desta forma se peca desprezando o dom da Fé, dado pelo Espírito Santo, e contra a mesma luz divina. São tantas as heresias e hereges que existem em nosso tempo que seria difícil enumerar a todos ou ao menos os principais. Trata-se de um pecado coletivo que clama a Deus por reparação.

A inveja da graça fraterna: segundo São Tomás de Aquino é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele “não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, senão da graça de Deus que cresce no mundo”.  Entristecer-se da santificação do próximo é um pecado direto contra o Espírito Santo, que concede benignamente os dons interiores da graça para a remissão dos pecados e santificação das almas. É o pecado cometido por Lúcifer, pecado dos demônios, por isso chamado de satânico. Em escala mundial este tipo de pecado é mais comum entre os muçulmanos e outros pagãos, os quais odeiam visceralmente todo o Ocidente pelo que ainda resta de cristão. 

A obstinação no pecado:  recusa das insinuações interiores da Graça divina e os sãos conselhos das pessoas sensatas e cristãs, não tanto para entregar-se com mais tranquilidade a toda classe de pecados quanto por refinada malícia e rebelião contra Deus. Perante os reiterados avisos, ameaças e até de castigos incontestáveis os homens da atualidade comportam-se com a mais terrível das obstinações em seus pecados.

A impenitência deliberada: determinação de não arrepender-se nunca dos pecados e resistir a qualquer inspiração da graça para o arrependimento.  É o mais horrendo pecado contra o Espírito Santo, já que a pessoa se fecha voluntariamente e para sempre as portas à Graça divina.

Tais pecados são irremissíveis?  O pecado contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste nem no outro mundo, conforme se lê em São Mateus: “Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro (Mt 12, 31 -33). De modo geral não há nenhum pecado que seja tão grave que a misericórdia infinita de Deus não possa perdoar, desde que o pecador dele se arrependa. Porém, como precisamente o pecado contra o Espírito Santo rechaça a graça de Deus e se obstina voluntariamente em sua maldade, é impossível que, enquanto permaneça nessas disposições, se lhe perdoe seu pecado.,

 

C) A conjuração contra Deus

Quando Nossa Senhora previu em Fátima que várias nações seriam aniquiladas Ela deixou implícito que tal se daria com a morte das pessoas que comporiam tais nações. Tal castigo trará então a morte como moeda corrente, o ponto principal das punições divinas.  A morte, então, será vista pelo ímpio como o ápice de seu desespero, enquanto pelo justo será como uma dádiva de Deus e uma porta para o Paraíso. Isto ocorrerá então como último juízo de Deus contra os homens, envolvidos estes numa conjuração universal contra Deus e sua glória aqui na terra.

Antes de tudo, alguns pressupostos. Os pecados coletivos ofendem mais e atraem mais os castigos divinos. Quando uma pessoa peca individualmente afasta Deus de seu coração e nele entroniza Satanás.  Quando esta mesma pessoa procura uma outra e juntas praticam o pecado, aí então a malícia aumenta. Isto porque:

1º. Ocorre entre ambas uma espécie de conjuração contra Deus, contando também com a participação do demônio;

2º. Os males que os demônios antes praticavam em cada pessoa separadamente, agora o fazem em conjunto, portanto com mais força;

3º. Quando grupos de pessoas cometem tais pecados, atingindo então famílias, cidades, sociedades inteiras, tal conjuração atinge a universalidade e clamam a Deus por castigos coletivos.

Se Eva tivesse pecado sozinha  não teria feito tanto mal à humanidade e à glória de Deus, pois Adão teria ficado fora daquela “conjuração” contra Deus. O difícil é para nós imaginar como conviveria futuramente aquele casal, um no Paraíso terrestre e outro fora. Deus certamente estabeleceria outros planos para a Humanidade.

Há uma conjuração contra Deus no mundo moderno?

Quando a prática de todo tipo de pecado sai do âmbito pessoal e passa a ser cometido por casais, por famílias, por sociedades inteiras;

Quando os pecados se transformam em leis, como o divórcio e o aborto, praticados ou aceitos por todos;

Quando se praticam coletivamente pecados contra a natureza, mesmo que se entenda que perderam a noção do mal do que fazem;

Quando enfim todas as nações da terra praticam ou toleram o adultério, a avareza, a inveja, a ganância, o homossexualismo, etc.

Aí então, pode-se dizer que estão todos envolvidos numa enorme conjuração universal contra Deus. Uma conjuração de homens e demônios contra Deus e Sua glória. Não se trata aqui da conjuração das forças secretas para destruir a Igreja e a Cristandade, esta uma empreitada (portanto, uma ação consciente, deliberada e premeditada) dos inimigos de Deus comandados por Satanás a partir de seu “trono”. E quem os enfrenta? Os Apóstolos dos Últimos Tempos (no dizer de São Luís Grignion de Montfort), guiados pelos Santos Anjos sob as ordens de Nossa Senhora.

 

Princípios básicos desta “conjuração”

A “ideia” desta conjuração contra Deus começa no interior de cada alma. O pecado não é um simples ato de deleite, mas um estado de revolta contra Deus.  Até mesmo sem o saber, o pecado conta com um “sócio” em seus atos, que é o demônio.  E a referida “conjuração”  tem início num ato que é fruto de uma “união”, de uma quase combinação de interesses, entre o pecador e o demônio, efetivando-se futuramente com a adesão de uma outra pessoa. Aí teremos um pecado coletivo em sentido “minor”, cometido por apenas duas pessoas. Mas aqueles dois procuram outros e em breve aquele pecado será coletivo em sentido “major”.

Temos alguns exemplos de pecados que envolvem conjuração contra Deus. Coré, Daton e Abiron se uniram contra Moisés numa conjuração tríplice e louca; os velhos que tentaram contra a casta Susana se conjuraram para o pecado, mas encontraram a nobre resistência dela; Judas conjurou explicitamente com os judeus da sinagoga contra Nosso Senhor. Neste ponto Judas consumou num pecado coletivo os diversos pecados individuais de avareza e poder que vinha cometendo; São Pedro não cometeu propriamente pecado de conjuração quando negou Jesus por três vezes perante os criados. Por isso seu pecado foi menos grave e obteve o perdão; toda a perseguição e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo não passou de uma enorme conjuração que envolvia homens ímpios e Satanás. Com relação aos homens que participaram desta conjuração, note-se que estavam eles cheios de pecados de malícia, de avareza, de inveja, enfim, de tudo o que há de mal que eles já praticavam entre si, conjurando-se mutuamente contra Deus.

Depois da terrível conjuração contra o Salvador, os homens fizeram diversas conjurações contra os cristãos e a propagação do Cristianismo. A ponto de se chegar ao ápice da conjuração para a destruição da própria Igreja que tomou corpo após o declínio da Idade Média.

E nós, caro leitor, quando procuramos alguém para cometer com ele um pecado não praticamos também uma conjuração? Será que, ao praticarmos aquele pecado, naquele mesmo instante não estamos sujeitos ao juízo de Deus sobre a conjuração coletiva que se faz contra Ele? Precisamos ver que a natureza do pecado é diferente, a individual e a coletiva. Também é bom imaginar que tanto os vícios coletivos (que mourejam na outra pessoa com quem se peca) quanto os demônios podem passar para nosso interior. Pode ser que, naquele momento, cresça um grau a mais o poder satânico sobre a sociedade inteira, e por nossa culpa!

Veja nossa postagem de 6.9.2016 “AS MALDIÇÕES DITADAS POR MOISÉS AO POVO DE SEU TEMPO PODEM SER REPETIDAS NOS DIAS DE  HOJE?

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/09/as-maldicoes-ditadas-por-moises-ao-povo_6.html

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A GUERRA CONTRA A IMPUREZA

 



 

Ó tu que lutas contra a impureza

E sentes a dureza desta luta

Não te exasperes se és provado,

Se te parece infinita esta disputa

 

Pois quando chegares ao céu dirás:

Consegui na terra uma tal destreza

Que não consenti em nenhum pecado

Morrendo com o cetro da pureza!

 

Que mérito em dizer: nada lutei?

Ou que, pequena foi tua provação?

Outros te dirão: muito trabalhei!

E tua glória, pequena – que decepção!

 

Ouças o que lá te dirá Anchieta:

"Vivi cinquenta anos entre selvagens

Com vistas baixas para não pecar

Nas nuas pagãs daquelas paragens

 

Lutei sem tréguas contra a impureza

Sem haver consentido em nenhum pecado

Imerso num babilônico incêndio

Dele saí sem ser sequer chamuscado".

 

Milhões de virgens castas te dirão

Que os sentidos, escravos fizeram,

Foi de tanto lutar que venceram

Foi este o amor a Deus que ofereceram

 

Luta, pois, meu jovem, não esmoreces

Vês que se vives imerso neste ar

impuro que se respira nesta era

Roga à Virgem para perseverar.

 

Nunca te incomodes se a prova é longa

Pois se é intermitente, tão audaciosa

A tentação que te quer envolver

Terás uma vitória mais gloriosa

 

E assim para manter-se sempre puro

Fuja da impertinente tentação:

Só olhá-la como se fosse escuro

-Tenha nojo dela, cuspa no chão!

 

Mas se teu olhar estiver vagando

E a figura lhe causar aflição

Mesmo estando na rua caminhando

Olha bem para a palma de tua mão

 

Nela verás o “M” de Maria

Feita por Deus, deu nossa salvação

Dos Santos e dos Anjos a alegria

Refúgio certo contra a tentação


Jovem, conserva casto teu olhar

Pra que tua alma seja também pura

Em seu coração Deus venha morar

Por encontrar nele tanta candura


 

Foge já das obscenas e imorais

Figuras que andam mal vestidas

E dos lugares onde vicejam mais

Ares impuros que as fazem perdidas

 

Onde muita gente, muito pecado

Procura, pois, fugir da multidão

Já que teu olho tudo reflete

E nada deixará sem reflexão

 

E se tua natureza não se acalma

Mas queres permanecer fiel a Deus

Lute contra a impureza em tua alma

Combate sem trégua os vícios teus!


(Cordeis de minha autoria)