terça-feira, 10 de março de 2026

SÓ UM EXORCISMO UNIVERSAL PODE DESTRUIR A REVOLUÇÃO

 





 

No livro de Plínio Corrêa de Oliveira, “Revolução e Contra-Revolução” está contido todo o desenvolvimento da luta dos filhos das trevas contra a Igreja e a Civilização Cristã nos últimos 5 séculos. Um dos santos que mais entendeu esta temática foi o Beato Palau, descrevendo, denunciando e combatendo a Revolução em toda a sua essência, inclusive manifestando que um dos principais fatores de propulsão da Revolução são o orgulho e a sensualidade.

Segundo o Beato Francisco Palau Y Quer, essa Revolução é a que realiza os anúncios das Sagradas Escrituras relativos à apostasia dos últimos tempos. A análise racional, tranquila e vigorosa dos acontecimentos sociopolíticos contemporâneos o confirmava nesta sua convicção. A Revolução leva a uma catástrofe que o Beato Palau queria evitar. No século XIX a humanidade imergia de modo displicente e veloz na anarquia, impelida pelas tendências desordenadas que alimentam a Revolução, especialmente o orgulho e a sensualidade. Por isso, o Beato Palau concluiu que a dinâmica revolucionária impulsiona o mundo de modo implacável ao caos e ao desaparecimento da ordem social.

 

O que falta para uma intervenção divina

 “Carta de um Diretor” é um texto de autoria do Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais especialmente ligados à situação da Igreja.

A Certa altura ele faz a seguinte indagação:

“...-aquele Pastor tão bom que somente para salvar uma alma desceria, se fosse necessário, segunda vez  do céu e padeceria morte tão cruel como a primeira para tirá-la das unhas do lobo infernal – e sendo o povo espanhol[1] sua grei escolhida, olha sem embargo sem abrir a boca e com indiferença, segundo parece, como uma horda de lobos furiosos se tem lançado sobre ela, a despedaçam a seu prazer e lhe chupam seu sangue? Por que nada faz em defesa de suas ovelhas? Por que mais bem parece que há protegido os projetos dos ímpios?”[2]

Lamenta o beato que os inimigos da Igreja lhe tiram até os últimos recursos, obstruindo todos os meios de salvação, cercando-a com pedras lavradas (Lm 3, 9), havendo necessidade de uma intervenção divina a fim de se eliminar a ação deles. O mistério que se apresenta é exatamente isso: por que não há uma intervenção divina? O que espera a Divina Providência para agir? São Luís Grignion de Montfort já exprimia essa angústia – ó Deus, por que pareceis dormir? Dessa forma o Beato Palau tenta explicar o mistério:

“Como, pois, pode se conceber que assim o permita, que assim o sofra, que não saia em sua defesa? Oh segredo impenetrável! Oh profundo mistério! A fé nos ensina que não falta a Jesus Cristo nem o poder nem o querer. As chagas de seu corpo, especialmente a do costado, pelas quais derramou pela Igreja todo seu sangue, são outras tantas línguas que publicam em altas vozes o imenso amor em que está abrasado seu coração; e tantos passos como deu para a salvação dos homens nos asseguram que da veemência do desejo que lhe anima pela saúde de suas ovelhas.  E, sem embargo da eficácia de seu poder e querer nos salvar, como é que permite que sejamos vítimas do monstro da impiedade? Como nos entrega ao capricho das seitas ímpias? Como não acalma a tempestade, quando só lhe custa ordená-lo? (Mc 4, 39) Por que permite que triunfe a besta feroz da impiedade e abandona à sua voracidade umas almas que tanto ama?”

Após falar de que se trata de um mistério que ele tenta entender, acrescenta:

“Jesus pode salvar a nossa pátria[3] do monstro da impiedade que pretende arrebatar-lhe o tesouro inestimável da Fé. O quer e não o faz, porque não há quem o peça devidamente, isto é, com as condições que exige a verdadeira oração. Não se alarme você, nem precipite seu juízo antes de ouvir as razões em que fundo minha resposta. Você se lembrará que, navegando uma vez Jesus Cristo com seus discípulos pelo lago de Genezaré e dormindo o Senhor sobre a popa do barco, levantou-se espantosa tormenta, na qual a pouca fé dos Apóstolos acreditou que iram naufragar. Durou a tempestade e o perigo enquanto não acudiram a Jesus.  Porém logo que, cheios de confiança, lhe disseram: “Domina, salva nos, perimus. Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25), levantou-se o Senhor, ordenou aos ventos e ao mar, e nesse mesmo momento reinou a mais completa calma e tranquilidade”.

“Assim, na Espanha se encontra a navezinha de Pedro tão agitada pela fúria dos ventos de falsas doutrinas, e pelas ondas de todas as paixões humanas, que as águas vão já entrando nela e põem todos os fieis em iminente perigo de fundir-se no cisma. Jesus está como então dormindo ou se porta ao menos com sua Igreja como se efetivamente dormisse. Pode ordenar aos furacões do erro e às ondas das paixões que se acalmem. Quer fazê-lo... O que está, pois, esperando? Aguarda, por acaso, que choque contra algum obstáculo, que exploda e se desmanche? Por que, pois, não o faz? Que falta? O que falta é que os discípulos vão Lhe despertar, e que lhe digam: “Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4, 38)”

A imagem nos leva a outra consideração. Jesus Cristo é a Cabeça do Corpo Místico de Cristo, mas, em certas ocasiões, necessita que alerte sobre este Corpo (composto pelos demais homens que Lhe seguem), a fim de que tome certas iniciativas, inclusive esta de pedir à Cabeça que “acorde” e aja defendendo todo o restante de seu próprio Corpo místico, já que nela está todo o poder de alimentá-lo. Quem está dormindo, então: a divina providência ou a parte humana de seu Corpo Místico?

Segue o Padre Palau:

“Espera a que os sacerdotes, animados da fé dos discípulos, subam as grades do santuário, e sem parar até que tenham logrado Lhe despertar, deem gritos aos seus ouvidos, dizendo-lhe como o Profeta Joel: “Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo”. E como os Apóstolos: “Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25). Espera que a Igreja lhe dê gritos, dizendo: “Levantai, por que dormis, Senhor? Livra-nos pela glória do vosso nome”. Espera que lhe peçamos esta graça devidamente.  Quem me desse o poder escrever esta grande verdade com caracteres tão avultados que os pudessem ler e entender tantas almas como em Espanha acreditam possuir o espírito de oração: a Igreja na Espanha caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode salvá-la. Sim, só a oração pode salvar do naufrágio a igreja espanhola”.[4]

 

O poder da oração

“Deus em sua providência tem disposto não remediar nossos males nem nos conceder suas graças senão mediante a oração, e que pela oração de uns  sejam salvos outros.”

Após explicar que foram as orações que fizeram vir o Redentor, acresce que as orações deste mesmo Redentor quis depender das dos seus seguidores, membros de seu Corpo Místico, mesmo após sua morte redentora:

“Porém também o é, e o supõem com bastante claridade os livros santos, que para que a oração de Jesus Cristo e os frutos de sua redenção se apliquem a alguma nação ou povo, para que haja quem o ilumine com a pregação do Evangelho e lhe administre os Sacramentos, é indispensável haver alguns ou muitos que com gemidos e súplicas, com orações e sacrifícios tenham conquistado antes aquele povo e  o tenham reconciliado com Deus”.

Ele diz: para que “os frutos sua redenção se apliquem a alguma nação ou povo”, quer dizer, não se trata de aplicar tais frutos aos indivíduos, mas às nações. É preciso que os pecados sociais, praticados coletivamente nas nações, sejam denunciados e reparados. E para que isso ocorra é necessário que os membros do Corpo Místico de Cristo, alma de tais povos, rezem e se ofereçam como vítimas expiatórias de tais pecados. Somente assim, unidas às de Jesus Cristo, tais expiações obterão êxito.

 

Importância do Santíssimo Sacramento nas orações

Agora vem o reverso da medalha. É primordial que nossas orações sejam feitas em torno do Santíssimo Sacramento, a fim de que as mesmas obtenham êxito: “A hóstia santa que neles [nos altares] apresentamos todos os dias ao Pai, acompanhada de nossas súplicas, não é só para renovar a memória da vida, paixão e morte de Jesus Cristo, senão também para obrigar com ela ao Deus das bondades a que se digne aplicar a redenção de seu Filho à nação, província, cidade, aldeia ou àquela ou aquelas pessoas por quem se celebra ou se ouve a Santa Missa. Nela é propriamente onde se negocia com o Pai a Redenção, ou seja, conversão das nações[5]. Antes que a redenção se aplicasse ao mundo ou, o que é o mesmo, antes que o estandarte da cruz fosse criado nas nações, dispôs o Pai que seu Unigênito, feito carne, negociasse isto com Ele com “súplicas contínuas, com fortes clamores e com lágrimas”  (Hb 5, 7), com angústias de morte e com o derramamento de todo seu sangue, especialmente no altar e na cruz, que levantou por cima do Calvário.”

Em seguida o Beato Palau chama a atenção deste detalhe: antes de plantar a árvore da Religião em algum povo é necessário que seus sacerdotes e governantes, além de todos os fiéis, negociem isso com o Pai, com súplicas, com clamores, com lágrimas e verdadeiro espírito de oração. “Assim como, pois, para plantar de novo a árvore da cruz em algum reino se requer espírito de verdadeira oração nos sacrifícios, assim para que se conserve em toda sua frescura e vigor – mediante as águas salutares dos sacramentos e da  pregação do Evangelho – é também necessário o mesmo espírito nos sacrifícios, segundo o tem disposto a divina Providência”.

 

As orações individuais e as coletivas

Nesse aspecto, precisamos distinguir as orações individuais e as coletivas. As individuais nós a fazemos para suprir nossos problemas pessoais, como é óbvio. É assim que rezamos, por exemplo, o “lembrai-vos” de São Bernardo. Há outras orações, porém, que foram feitas  para se rezar não individualmente, mas em nome de toda a Cristandade, do Corpo Místico de Cristo. É o caso, por exemplo, do nosso Rosário: a Ave-Maria, o Pai Nosso e Salve Rainha são rezadas no plural, em nome da coletividade. O Pai Nosso, inclusive, fala especialmente da vinda do Reino de Deus, que é algo coletivo e não individual. Apenas o Credo se inicia no singular, “creio em Deus Pai”, por querer marcar a Fé em cada indivíduo ser mais importante do que a coletiva.

No caso em que estamos analisando, as orações coletivas têm caráter mais profundo, pois resgatam perante Deus toda a humanidade decaída e não apenas o que reza. O Padre Palau tinha uma noção muito correta a respeito da Revolução universal, e dos males que a mesma causava na Igreja: percebia ele que esse movimento de revolta era proveniente do corpo místico do demônio contra o Corpo Místico de Cristo e que, no seu tempo, já havia conseguido obter sucessos impressionantes, mas que o Beato o via de imediato na Espanha. Posteriormente, tentou ele criar uma Ordem que se dedicasse especialmente ao exorcismo universal dos demônios da Revolução: o Exorcistado. Não se tratava de exorcizar os demônios que costumeiramente possuem corpos humanos, mas daqueles que assumiam corpos, lugares e postos importantes no mundo capazes de fazer a Revolução funcionar. Esteve presente no Concílio Vaticano I, e lá tentou junto aos bispos reunidos criar tal Ordem. No entanto, tal concílio não chegou a ser concluído, pois as tropas de Garibaldi haviam invadido Roma e o Papa, junto com os bispos e cardeais, tiveram que fugir para não morrer.

Talvez se a Ordem do Exorcistado tivesse sido criada não tivesse barrado completamente a Revolução, mas teria lhe causado um grande retrocesso, pois teriam sido exorcizados todos os demônios que no século XIX animavam o espírito revolucionário, ainda hoje imperante no mundo. Seria mais uma forma de oração que cumpriria o que pedia a Divina Providência para se fazer efetiva a destruição da obra iníqua do maligno. No entanto, para que ela tivesse pleno efeito era preciso que fosse posta em prática em toda a Igreja.

 

 

 

 

 



[1] O texto fala do “povo espanhol” mas visa, sobretudo, todo o povo católico em geral.

[2] Extraído de MAESTROS ESPIRITUALES CRISTIANOS - FRANCISCO PALAU ESCRITOS EDICION PREPARADA POR EULOGIO PACHO EDITORIAL MONTE CARMELO B U R G O S - – págs; 31/35

[3] Novamente ele usa termo comparando a Igreja com seu povo na expressão “nossa pátria”.

[4] Mais uma vez o Beato define a situação da Espanha para simbolizar a de toda a Igreja universal.

[5] Mais uma vez ele lembra a redenção coletiva, social, e não apenas individual.


quinta-feira, 5 de março de 2026

NECESSIDADE IMPERIOSA DE REZAR SEMPRE

 

 

 “Carta de um Diretor” é um texto de autoria do Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais especialmente ligados à situação da Igreja. Publicou-a numa obra sob o título de “Luta da alma com Deus”. O Beato compara a situação da Igreja com a passagem do Evangelho em que a tempestade rugia em volta do barco onde estava Jesus com seus Apóstolos, enquanto Jesus Cristo parecia dormir, necessitando que pedissem socorro senão morreriam. Estamos vivendo uma época em que a Igreja está naufragando e precisamos pedir a intervenção divina para que nos socorra. “A Igreja caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode salvá-la”, conclui ele.

Numa série de conferências feitas em 1957 para seus filhos espirituais, comentando o livro “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, de Santo Afonso Maria de Ligório, o Sr. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira define um grave problema que entrava a vida espiritual dos cristãos, que ele chamava de “encalhe espiritual”. Quer dizer, está definindo uma situação em que a pessoa se atola, encalha, fica empacado no mesmo lugar, ou até decaindo, por causa de fatores que o impedem de progredir e de se santificar.  E aponta como única solução a oração, conforme ensina Santo Afonso neste seu livro.

 

Transcrevemos a seguir todo o texto de Dr. Plínio que aborda a questão acima:

 

Importante princípio de Santo Afonso

“Eu gostaria de focalizar mais alguns aspectos da oração, muito bem tratados por Santo Afonso, porque se baseia em ótimas citações, e ele mesmo é uma grande autoridade cujas palavras merecem ser mencionadas.

Trata-se de saber, fundamentalmente, e de forma racional, como a oração pode nos conduzir ao resultado desejado. Com que fundamento? Baseados em que razão nos podemos servir da oração para chegar a obter a graça pedida?

Eu queria desenvolver aqui um princípio dado por Santo Afonso de Ligório. Eu me lembro de já ter aludido a esse princípio, mas acho-o tão importante que é necessário fazer novamente uma insistência a respeito desse assunto.

O princípio é o seguinte: para as dificuldades comuns da vida espiritual, a graça comum, dada a todas as pessoas, é suficiente. Mas para as dificuldades extraordinárias, não basta. São necessárias, também, as graças extraordinárias.

 

Um mito “neo-semipelagiano”

A pessoa, em via de regra, obtém pedindo. É por meio da oração que se conseguem vencer as grandes dificuldades da vida espiritual. Devemos, no entanto, afastar de nosso caminho um mito: a vontade humana é suficientemente forte, só por suas forças, para fazer todo o necessário para se santificar.

Ninguém aqui entenderia esse mito tomado num sentido inteiramente literal, pois acabaria dando, em última análise, no pelagianismo. Isto é, a desnecessidade da graça para a salvação. Mas, há um modo diferente, uma espécie de neo-semipelagianismo – se pudéssemos dize assim – o qual, aliás, não tem nada de comum doutrinariamente com o pelagianismo. Mas acaba numa atitude psicológica ligeiramente parecida com a desse erro. Poderíamos enunciá-la da seguinte maneira:

Deus me dá sempre as graças suficientes para a minha salvação . Se Ele mas dá, ainda que eu não peça, não vejo por que é preciso pedir mais. Se a graça é suficiente, eu topo a parada e correspondo. Quanto ao resto, eu toco o barco e está acabado.

Esse estado de espírito esteve radicado, por ignorância, durante muito tempo em minha cabeça. Para mim, o problema se punha assim: é ou não é  verdade que Deus dá a todos os homens a graça suficiente para se salvarem? É. Se Ele dá as graças suficientes, mesmo não as pedindo, não compreendo por que eu devo pedir. Se eu sou generoso, correspondo, tiro proveito. Ele dá sem eu pedir. Eu não compreendo o papel representado pelo ato de pedir diante disso.

Entretanto, o erro está nesse ponto. As dificuldades maiores da vida espiritual, não as vencerei a não ser pedindo. A graça suficiente, para isso não me basta.

 

Para se obter graças extraordinárias é preciso rezar

A graça comum me serve para as ocasiões comuns da vida, mas para as grandes dificuldades precisa de graças extraordinárias. Isto Santo Afonso tira de São Tomás de Aquino e de outros santos.[1]

Eu fico, então, colocado diante de um panorama novo. Para as dificuldades grandes de minha vida espiritual eu preciso de graças especiais, mas preciso rezar para obter.

 

As grandes dificuldades da vida espiritual

Agora, põe-se o problema: quais são as grandes dificuldades da vida espiritual?

Todo o mundo tem a impressão de serem essas grandes dificuldades as ocasiões de grandes tentações. Por exemplo, uma pessoa tentadíssima está atravessando uma crise e precisa rezar. Depois, quando passam as crises, a pessoa não tem grande dificuldades de vida espiritual, e, portanto, não precisa rezar de um modo especial. Isso é falso.

As grandes dificuldades na vida espiritual consistem em vencer os grandes defeitos. Os assuntos de vida espiritual são personalíssimos, variam de indivíduo para indivíduo. Algo custoso para mim, para outros será uma bagatela, e vice-versa. Todos nós temos algumas imensas dificuldades dentro da vida espiritual para vencer. E isto vai assim até o fim. Vai até o momento da morte!

Primeiro para vencê-las, e depois para sustentar a vitória, o que é quase tão difícil quanto vencer. Às vezes se é mais tentado a perder uma vitória adquirida do que, propriamente, em conseguir alcançá-la.

Por exemplo, há santos que conseguem emendar-se de uma vida má e guardar a castidade durante anos. Mas, depois, são mais tentados em matéria de pureza do que quando eram ruins. Sofrem mais para conservar a castidade recuperada. Nós vamos ter essa luta, em alguns assuntos prodigiosamente difíceis, a vinda inteira. E para isso as graças comuns não bastam, são necessárias graças extraordinárias, que é preciso pedir.

 

O pedido deve ser proporcionado ao perigo   

Pedir! É necessário acentuar este ponto. Pedir com uma insistência proporcionada ao tamanho do perigo corrido. Se eu corro grande risco, se estou sendo muito tentado, se estou num período de muita tentação, não tenho o direito não pedir proporcionadamente ao risco corrido. Se na minha vida espiritual eu encontro no meu caminho não um dragão, mas uma pedra, muitas vezes é mais difícil de tocar do que um dragão.

Uma pedra! Certa pessoa me disse numa ocasião, não conseguir examinar-se inteiramente, nunca! Não sabe o que acontece dentro de si. Isso não é um dragão, mas é uma pedra parada no meio do caminho.

Pois bem, isso é um obstáculo. Se eu não rezo proporcionadamente à gravidade dele, segundo Santo Afonso de Ligório eu cometo um pecado do tamanho representado por aquele obstáculo.

Se eu, por exemplo, sou muito tentado contra a pureza, é uma temeridade não rezar o necessário para me manter. Constitui um pecado proporcionado à gravidade do risco espiritual corrido. Pode até chegar a ser pecado mortal.

 

Os anjos pecaram porque não rezaram

Santo Afonso de Ligório, citando São Tomás de Aquino, faz uma afirmação que me impressionou muito. Os anjos pecaram, não tiveram forças para resistir, porque na hora da tentação não pediram auxílio a Deus.

O mesmo aconteceu a Adão e Eva no Paraíso. Em vez de eles rezarem na hora da tentação, ficaram ali saracoteando com a serpente. Resultado, caíram.

Nunca me passou isso pela cabeça... Na pormenorizada descrição do pecado de Adão dada pela Bíblia, nem ele nem Eva rezaram. Não tiveram sequer um momento de oração. E teria cabimento que eles tivessem rezado.[2]

Se Adão e Eva tivessem rezado, desde aquela ocasião, teriam conseguido vencer essa tentação. Como não rezaram, pecaram.

 

A oração, uma prática facultativa?

O homem não pode, sem pecado de temeridade, deixar de rezar, na proporção necessária, pela liberação de seus problemas.

De acordo com o conceito comum, é pecado não ir à Missa ao domingo, e o resto é facultativo. Também não seria pecado rezar de manhã e à noite. Porém, a oração não se apresenta para nós como algo facultativo.

Isto explica por que razão um certo senso de piedade nos leva a considerar algumas práticas  do Grupo[3] tão obrigatórias como, por exemplo, rezar o rosário todos os dias. Para nós é uma dessas obrigações de virar e romper. Aconteça o que acontecer, dê no que der, diga o que disser, doente, agonizante, seja como for, Rosário diário. Qual a razão disso? Afinal de contas alguém poderia dizer: isso é ridículo! Mas, o Grupo acaba tendo mais severidade para com o Rosário, que não é obrigatório, do que em relação a outros pontos, em última análise, mais importantes. Por exemplo, mais vitórias sobre certas manifestações de egoísmo. O egoísmo, afinal de contas, constitui um mal sobre o qual poderia haver vitórias.

Ceder ao egoísmo pode ser pecado. Mas, podemos procurar todos os teólogos do mundo, e nenhum dirá ser pecado não rezar o Rosário. É evidente! Contudo, tomando-se em consideração determinadas almas, em determinadas circunstâncias de vida espiritual, em determinadas situações, teriam elas o direito de não rezar aquele Rosário?

 

Exemplo de Santo Afonso: “Se eu deixar passar um dia sem rezar o Rosário, comprometo a minha salvação eterna”

É famoso o caso de Santo Afonso de Ligório, ocorrido nos últimos anos de sua existência aqui na Terra. Estava ele muito doente, paralítico e, além disso, ficou com o pescoço torto. Ele, que fora um homem de estilo, sumamente inteligente.

Para se distrair um pouco, era levado por um irmão, num carrinho, através do convento, e juntos iam rezando o Rosário. Às vezes os dois perdiam o pé e não sabiam o se tinham rezado o Rosário ou não. Então, tinham que começar tudo de novo. O irmão, que evidentemente não era Santo Afonso, entrou com o conselho de bom senso. Por que Santo Afonso não deixava de rezar o Rosário naquele dia? Porque afinal já tinham rezado, certamente, os três terços...

Resposta de Santo Afonso:

- Irmão, o que é que o senhor está me aconselhando? O senhor não sabe que se eu deixar passar um dia sem rezar o rosário eu comprometo minha salvação eterna?

Todo mundo pensa que é um dito: “Nosso pai Santo Afonso, não podia deixar...”

Não é isso, não. É completamente diferente. Ele, conhecedor de sua vida espiritual e tendo verdadeira piedade, sentia, sabia perceber, ser o Rosário uma devoção que, de fato, condicionava a salvação e, portanto, era preciso rezar direito.

Esta obrigação de rezar proporcionalmente às nossas tentações, ou às nossas necessidades espirituais, acaba se impondo, sob pena de pecado. Naturalmente, é preciso dar os descontos e não geometrizar. É preciso tomar em consideração as fraquezas e uma série de circunstâncias.

 

O capitão sitiado

A esse respeito, Santo Afonso cita um pensamento de São Boaventura, muito interessante; Imaginem um capitão que está sitiado numa praça forte. Ele tem ao seu alcance a possibilidade de pedir o auxílio ao rei, logo que ele seja cercado. E ele pode estar certo de recebê-lo, porque o rei sempre ouve o chamado e tem meios de fazer chegar as tropas ao ponto atacado. Esse capitão luta para vencer o inimigo, sem pedir o auxílio do rei. Resultado, ele cai, e a posição dele é dominada pelo  inimigo. Poder-se-ia perguntar: o rei não considerará um traidor esse capitão?

Eu acho o argumento muito bom.

Ora, o mesmo se dá conosco, em relação a Nosso Senhor. Se nós podemos pedir auxílio, obtendo certamente tudo quanto quisermos, teremos nós o direito de não pedir esse auxílio, sem traição? E de não pedir com tanta insistência quanto é necessária para sermos socorridos? O argumento é muito concludente, faz-me sentir muito bem o problema ao vivo.

 

Mais vale rezar do que meditar

Ele tira daí uma conclusão curiosa. Mais vale a pena rezar do que meditar. Isso não quer dizer, absolutamente, que se tenha o direito de rezar muito e deixar a meditação. Ela é indispensável na vida espiritual. Mas, quer dizer outra coisa. O desleixo na meditação é menos grave que o desleixo na oração. Eu fiquei um pouco espantado quando encontrei isso, mas é perfeitamente racional.

A meditação nos mostra os defeitos, bem como as virtudes que devemos adquirir, e os meios a conjugar para alcançá-las. Mas, a meditação não nos dá, de “per si”, aquilo que a oração dá, que é a vontade de alcançar essas virtudes. A meditação nos mostra a necessidade da oração. Mas, verdadeiramente, o eixo da vida espiritual, mais ainda que na meditação, está na oração.

E são quatro os textos de Santo Afonso de Ligório neste sentido.

“Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas poucos se ocupam de súplica. Não resta dúvida que a leitura e a meditação das verdades eternas seja coisa de muita utilidade; mas muito mais útil diz Santo Agostinho, é o suplicar, nas leituras e nas meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações, mas na oração obtemos a graça de cumpri-las”.

A formulação está esplêndida!

A seguir o trecho de Santo Agostinho:

“...Melhor é orar do que ler; na leitura conhecemos o que devemos fazer, nas oração recebemos o que pedimos”  (In Ps 75)

Volto agora a Santo Afonso:

“De que serve conhecer a obrigação de fazer e depois não o fazer; de que serve senão para tornar-nos mais culpados perante Deus? (...) O fruto maior da oração mental é de nos fazer pedir a Deus as graças de que precisamos para a perseverança e a salvação eterna”.

A própria oração mental tem como fruto maior a deliberação de rezar. Isto é muito interessante, até para o modo de fazermos os Exercícios Espirituais.

 

Primeira resolução da meditação: pedir

Deflui disto uma conclusão. Nós habitualmente chegamos às tais resoluções decisivas da meditação: “Eu vou fazer tal coisa”. Mas, devemos colocar sempre, em primeiro lugar, a resolução de pedir. Isto é perfeitamente coerente com essa doutrina.

Outro trecho interessante é o seguinte:

“Principalmente por isso, a oração mental é moralmente necessária para a alma conservar-se na graça de Deus, porque, se a pessoa não se recolhe durante a meditação para pedir os auxílios necessários à perseverança, não o fará em outro tempo; pois que sem a meditação não se pensa em pedi-los e nem se pensa na necessidade que há de pedi-los. Ao contrário, quem todos os dias faz a sua meditação, bem conhecerá as necessidades da alma, os perigos em que se acha, a necessidade que tem de pedir e assim pedirá e obterá as graças que então o farão perseverar e alcançar a salvação. Falando de si, dizia o padre Ségneri que, a princípio, na meditação ele mais se ocupava em fazer afetos do que súplicas; mas, conhecendo depois a necessidade e a imensa utilidade das súplicas, daí por diante, nas muitas meditações que fazia, se aplicava a fazer súplicas. (...)”

“Refere o padre Rodrigues que os antigos padres, os nossos primeiros mestres espirituais, consultaram entre si para ver qual o exercício mais útil e necessário para a salvação eterna, e resolveram que era repetir amiúde a breve oração de Davi: “Deus in adjutorium meum intende” – Senhor, vinde em meu socorro”.

Era essa a oração recitada por Luiz XIV quando se viu perdido na hora da morte: “Deus in adjutorium meum intende”. Encontrou ele a oração dos bons autores espirituais.

“Para se chegar à perfeição, dizia São Bernardo, é necessária a meditação e a petição; com a meditação vemos o que nos falta; com a petição recebemos o que nos é necessário: subamos pela meditação e petição; aquela mostra o que falta; esta faz que nada falte”.

A boa harmonia estabelecida entre uma e outra!

 

Necessidade de relembrar estas verdades

Eu gostaria de terminar com o seguinte:

Para se ter uma vida de oração perfeita é preciso preparar-se, e não permitir que essas verdades se embacem no nosso espírito. Eu tenho receio de que tudo quanto foi dito até aqui, termina esta série de exposições, também acabe sendo esquecido.

É preciso ficar algo como elemento adquirido para a compreensão da importância da oração para a vida inteira. Eu tenho a impressão de ser muito oportuno aqui aquele conselho que está alhures no Novo Testamento: antes da oração devemos preparar a alma.

É preciso lembrar e meditar com frequência o que foi dito, ressuscitando isso no espírito, para que os canais da oração fiquem completamente desobstruídos.

Além de pura teologia, adquirimos sobre a oração uma série de pequenas impressões, vindas das relações com Deus. As orações frustradas, as orações onde se tinha a impressão de que devíamos ser atendidos e não fomos, as orações onde tudo foi para trás, a aridez na oração, uma certa sensação de estar Deus distante, tudo isso acaba por entrar na nossa alma, transformando o que foi dito em letra morta.

Em teoria, não se nega ser isso verdade, mas, na ordem prática, não se age em consequência. E o resultado é que, naturalmente, a vida de oração fica muito prejudicada.

Poderíamos fazer o seguinte:

Consagrar uma vez por semana, ou a cada 15 dias, ou uma vez por mês, conforme a vida espiritual de cada um, um tempo necessário para rememorar tudo quanto diz respeito à oração. Vendo quais são os “nós” existentes no momento, e tratando de desencalhá-los. Só quando isso estiver bem regulado a oração produzirá frutos.

 

“Nós” provocados por certas impressões

Quantas vezes há na vida de oração “nós” assim:

Por exemplo, alguém antes de vir para a reunião, passando a pé em frente à Igreja do Coração de Maria, olha para a estrada, acha a igreja convidativa, e não estando ainda na hora da reunião, resolve entrar. Uma vez dentro, ajoelha-se para rezar, e não tem mais impressão nenhuma. Aquilo foi uma frustração, uma espécie de consolação que sentiu do lado de fora, mas dentro da igreja não sente. Zero! Há impressões de piedade como esta que acabam pesando na vida espiritual.

E assim, há uma série de outras impressões do mesmo porte, na vida espiritual.

Outro exemplo. Estamos muito consolados, entramos na igreja para comungar, comungamos... Puft! Acabou tudo. Tudo isso acaba por nos dar a impressão que Deus desmente a teologia e não faz conosco um jogo leal, um jogo teológico. Resultado, ficamos com uma espécie de “sente dó” da teologia, não querendo dar importância a Deus.

 

Desconfiança em relação a Deus

Por mais absurdo que seja, isso acaba pesando na vida espiritual e temos desconfianças. De fato, quando não renovamos constantemente aqueles princípios na vida de piedade, ela acaba não sendo comandada por eles, mas por outras impressões do tipo dos que acima descrevemos.

Então, a pessoa pensa: “Afinal de contas, por culpa minha, as orações que eu faço não merecem ser atendidas, e agora estou no buraco. Por que razão vou continuar a rezar? Porque Ele se zanga se eu não rezar. Mas, assim mesmo, eu não saio de dentro da entalada. Resultado, para mim, a oração é o pagamento daquele imposto. Eu vou lá todo o dia, pepé, pepé, pepé, o meu rosário leva 25 minutos, rezo aquilo, mas as nossas relações estão rompidas.

“Dependia de mim fazer um pacto, que por minha culpa eu não faço. Deus está no nicho d’Ele vendo se eu faço ou não. Ele continua a pingar aquela graça, mas eu não correspondo. Então nós não temos mais o que nos dizer.

“Estamos brigados?! Não!

“Nós estamos como marido e mulher que ainda moram debaixo do mesmo teto, mas perderam o assunto, só conversam coisas formais. Não temos mais o que conversar um com o outro”.

Quantos vivem com Deus assim, reduzidos ao regime das formalidades. Se alguém lhes disser:

- Subscreva a seguinte tese: Deus não ouve a oração do pecador.

Ele diz:

- Não, Ele ouve!

-Então, por que não ouve a sua?

- Ah! Não! A minha é “poca”. Deus não a ouve exatamente porque sou pecador...

 

O ponto onde se é mais tentado

Quer dizer, ele admite funcionar para si um sistema que, ele próprio, acha não vigorar para ninguém no mundo. Ele não tem um pingo de confiança. Uma espécie de areia péssima entrou na engrenagem da sua vida espiritual e fez com que ele, na prática, não tenha uma vida de piedade filial em relação a Nosso Senhor. Eu não conheço ponto onde a pessoa seja mais tentada do que esse, da oração. E sem percebê-lo.

Eu me lembro de inúmeras tentações destas, que em tempos passados entraram na minha cabeça.

 

As comunhões do Sr. Dr. Plínio

Quando comecei a comungar todos os dias, eu me deparei com o seguinte problemática: eu gosto de vir receber a Nosso Senhor. Porém, seria razoável que eu pensasse n’Ele e não em mim. Eu me perguntava a mim mesmo:

- Será que Nosso Senhor gosta de visitar a minha alma? Terá Ele razões para gostar de mim?

E eu ficava, naquele momento, sem saber como obter a resposta, pois Nosso Senhor vinha a mim de qualquer maneira, bastava eu me aproximar e o padre dar a comunhão.

Eu não estou em estado de pecado mortal. Portanto, desgostos que Lhe causem náusea, horror, Ele não tem. Mas, francamente, graça Ele não deve encontrar nenhuma, e deve achar muito sem saboronas essas visitas a uma pessoa “poca” como eu. Ele deve vir mais ou menos como um prelado, que toma uma atitude racional ao receber uma audiência cacete: é cortês, dá a mão a beijar, conversa um pouquinho...

E a minha atitude qual era? Apesar disto, eu comungava pois ainda era melhor, mas, em última análise, o resultado era um gelo de parte a parte.

Esta é uma ideia acretinada, na qual nenhum homem equilibrado pensa conscientemente. Mas, estava no meu subconsciente, e precisei desencavar essa ideia para explicitá-la.

Eu creio não ter sido injusto dizer que há muito subconsciente povoado por essas ideias...

 

Cada um de nós é a ovelha perdida

Diferente seria alguém ir comungar pensando o seguinte: “Eu pequei, não é verdade? Como Nosso Senhor vai me receber?”

Com alegria, porque sou a ovelha perdida, e Ele tem prazer em me receber. Ele dará uma festa e me acolherá mais uma vez com alegria, como acolheu ao filho pródigo. Sou pior do que o filho pródigo, pois abandonei inúmeras vezes a casa paterna. Eu sou um vira-lata, que várias vezes volta para a casa à maneira de cachorro sem dono.

Cada vez que nós comungamos bem, essa alegria se renova em Deus.

Quantas falsas impressões se estabelecem, atrapalhando a nossa vida de piedade?

É preciso desencavá-las de nossa vida de piedade para que esta produza bons frutos.

Parece-me da maior importância esse trabalho mensal de desencoscorar a oração, e manter os canais dela bem desimpedidos.

 

Benefícios que tiramos da demora em sermos atendidos por Deus

Vamos supor que eu peça a Deus o mais alto grau de santificação que, de acordo com o plano d’Ele eu pudesse atingir, mas não o receba imediatamente. O que eu posso receber de melhor com essa demora de Deus? Ele me dá uma possibilidade de praticar certas virtudes, de acordo com a Previdência d’Ele, que normalmente eu não teria.

Eu recebo, além do que pedi, os frutos específicos da demora.

Quando nós pedimos algo que nos é nocivo e esse pedido não é atendido, Deus dá algo melhor do que nós pedimos. Mas uma oração fica sem fruto específico, não fica.

Quando não recebemos o que pedimos é porque não pedimos com uma insistência conveniente, e uma conveniência convincente. Mas se a oração foi feita com a insistência e a conveniência necessárias, e for conforme à Providência d’Ele, será atendida. Há pilhas de citações do Antigo e Novo Testamento que o confirmam.

Há pessoas que pedem e recebem. Naturalmente, essa eficácia sensível supõe certas vias da Providência. Ela também pode manter alguns num regime de eficácia sensível, onde somente ao cabo de toda uma existência, ao longo de muitos anos pedindo, percebe-se ter sido atendido.

 

Por que a oração não pode ter a eficácia clara de um cheque?

Santo Agostinho trata deste assunto de forma impressionante:

Porque nesta vida os bons não são recompensados, e os maus não são castigados?

Se todo homem bom nesta vida fosse recompensado, os ruins por maldade andariam bem.

Tomemos o exemplo de uma mulher que se entrega à vida pecaminosa com o intuito de obter dinheiro. Se ela entregando-se ao pecado fosse pobre, mas praticando a castidade ficasse rica, ela praticaria a castidade.

Uma mulher entrega-se ao pecado porque encontra nisto um certo gozo. Mas, se ela sem esse prazer fosse mais feliz, ela não pecaria. Deste modo não haveria possibilidade, nesta terra, de se praticar desinteressadamente a virtude.

Isto se dá exatamente com a oração. Se por meio da oração eu pudesse obter tudo quanto quisesse, acabaria por dispor de um jogo de circunstâncias em torno de mim, por meio do qual construiria a minha felicidade.

Por isto, Deus para atender os nossos pedidos, põe à prova a nossa Fé e o nosso espírito de sacrifício, atendendo-nos de maneiras diferentes: às vezes dando diretamente, às vezes fazendo-nos passar por longas espera, caso contrário, acabaríamos caindo no puro interesse pessoal.[4]

 

A oração tudo vence

Transcrevo os comentários de Dr. Plínio sobre o papel da oração destacado no livro de um escritor católico francês do século XIX:“Com seu atraente e luminoso estilo, Louis Veuillot (*) escreveu o livro “Parfum de Rome”, onde reúne notas sobre uma de suas viagens à Cidade Eterna, que até 1870 esteve sob o poder temporal do Papado.

Nessa obra lemos o seguinte trecho, muito bonito, por diversas vezes objeto de meus comentários: "Num quarteirão deserto, nos muros de uma igreja, Enrico copiou e traduziu para mim as inscrições seguintes, traçadas a lápis por uma mão firme e exercitada: 'No dia 14 de setembro eu me encontro com má saúde por minha culpa, pela inquietação e pela desobediência. A partir deste momento, onze horas da manhã, decidi, com a ajuda de Deus e de Maria Santíssima, não mais me atormentar e recuperar a verdadeira paz. São José, rogai por nós. Um mês depois: 14 de outubro. Até este momento ainda não consegui, ou melhor, não obtive o que escrevi no dia 14 de setembro, mas agora decidi fazer tudo."

Sabemos que, nos primórdios de nossa vida espiritual, geralmente sucede isto: tomamos uma decisão e nos convertemos. Após um mês, fazemos exame de consciência e verificamos que quase nada progredimos. Então resolvemos cumprir todos os propósitos estabelecidos anteriormente, como manifestou a pessoa à qual o texto se refere.

"Dia 15 de novembro: renovo tudo aquilo que prometi, a fim de chegar a executá-lo. Dia 23 de novembro: falhei, mas prometi a mim mesmo, com toda a alma, de executar. Dia 28 de novembro: decidi ser bom. Dia 31 de dezembro: quero obedecer sempre, para agradar Maria Santíssima até a morte. 28 de janeiro: não há mais inquietação, por amor a Maria Santíssima e renovo hoje aquilo que tinha deliberado no dia 1º de fevereiro. Dia 1º de março: Não. As inquietações cessaram. Dia 29 de março: Não mais me atormentar, não mais pecar.

Nas duas últimas datas, a inscrição está rodeada de um desenho que representa duas palmas formando uma cruz. Devo confessar que estas declarações, feitas ingenuamente por uma alma provada e enfim vitoriosa, não me tocaram menos do que se eu as tivesse lido nas catacumbas, das quais elas parecem ter o perfume..."

 

O mesmo admirável perfume dos primeiros martírios

É deveras bonito o comentário de Veuillot, cujo trecho nos leva a admirar o triunfo da graça. Pois trata-se de uma alma que em diversas oportunidades firmou boas resoluções, sem lograr mantê-las. Em seguida, renovava os bons propósitos e tinha novas quedas. Afinal, à força de rezar – era uma pessoa piedosa, ciente de que sem o auxílio divino, implorado com perseverança, nada alcançaria – obtém o que tanto almejava. Depois de muito tempo e de vários insucessos, conquistou a vitória na sua vida espiritual.

Era uma alma perseguida por inquietações (talvez escrúpulos, ou alguma má inclinação à qual ela dava consentimento) e até revoltada, porque não obedecia a uma certa autoridade cujas determinações deveria acatar. Após as recaídas, e à custa de orações, acabou chegando um determinado momento em que ela pôde dizer-se obediente, pacífica e tranquila. Então, com o senso artístico peculiar ao italiano, adornou com duas palmas as datas que representavam a sua vitória.

Considerando que essas notas traduzem uma situação comum em qualquer trajetória espiritual, somos levados a perguntar porque a pessoa em questão resolveu gravá-las nos muros de uma igreja. Certamente porque foi o lugar onde recebeu uma graça particular, e onde, a horas furtivas, vinha inscrever na pedra do templo a sua confissão a Deus. Essa alma traçou ali seu diário, por desígnios da Providência, a fim de que fosse copiado e analisado por Louis Veuillot. E é este comentário do grande literato que nos interessa.

Diz ele que o fato era digno de estar escrito na parede de uma catacumba romana, pois tem o perfume dela. Ora, isso nos mostra o caráter perene da Igreja; revela-nos como, nas condições da vida hodierna, é possível repetir toda a glória do seu remoto passado. Com efeito, uma alma fiel que luta contra suas próprias misérias e que, apesar das infidelidades, roga constantemente o socorro de Nossa Senhora, para se ver resgatada de suas faltas e livre do império delas – essa alma realiza algo tão belo quanto o cristão que enfrentava no Coliseu, ou em outra arena, os leões e os tormentos do martírio.

Realmente, para quem conhece o valor das coisas espirituais, a seriedade e o desejo de cumprir o dever, o saber se humilhar quando se cai, decidir levantar-se de novo e confiar na misericórdia de Maria, possui um perfume admirável. É o bom odor do sofrimento humano suportado com fé. No episódio descrito por Veuillot se percebe a alma sofredora que se dilacerou para conseguir a fidelidade aos seus propósitos. Ela teve uma fé que move as montanhas, e finalmente alcançou seu objetivo.

Ora, esse torcer e sangrar da alma para cumprir seu dever é uma forma de imolação que tem o aroma de todos os martírios. Quiçá não ateste o heroísmo num grau análogo ao daqueles cristãos sacrificados nos circos romanos. Porém, basta manifestar um certo sentido de heroísmo para exalar algo do perfume das catacumbas, todo feito do espírito de epopeia dos primitivos católicos que as frequentavam.

 

Orar sempre, orar muito, sem desânimo

Cumpre colhermos dessas considerações uma aplicação para a nossa vida espiritual. E será compreendermos que jamais devemos desanimar quando não conseguimos cumprir os bons propósitos que fazemos. Ainda que tenhamos insucessos, é necessário rezar, confiar e orar ainda mais, porque à força de pedir, o Céu se abrirá para nós. Os que imploram com insistência a graça de praticar a virtude, por débeis que sejam, pertencem por excelência à categoria daqueles aos quais Nosso Senhor recomendou: "Batei e abrir-se-vos-á; pedi e dar-se-vos-á". Quer dizer, é uma glorificação da prece como meio eficaz para o homem obter aquilo que, pelo seu próprio recurso, não alcançaria.

Alguém poderá dizer: "As minhas orações valem pouco".

Eu respondo: então reze muito. Pois se possuo apenas algumas moedas para adquirir uma joia bastante valiosa, é-me necessário reunir uma grande quantia para comprá-la. Assim também, se julgo que minhas orações valem pouco, à força de acumulá-las, seu peso há de crescer. Se considero meu rosário insuficiente, recitarei dois. E se não tenho tempo para os dois, direi um rosário e uma Ave-maria. Como quer que seja, rezarei o mais possível, e essa persistência acabará por me alcançar do Céu a graça desejada.

A esse respeito, não posso deixar de mencionar, uma vez mais, a célebre parábola de Nosso Senhor no Evangelho. É noite, e um homem já se encontra deitado com seus filhos, para dormir. Em certo momento, o vizinho lhe bate à porta, rogando-lhe um pedaço de pão.

– Chegaram hóspedes inesperados, e não tenho o que lhes servir – disse-lhe.

E o primeiro respondeu: – Não posso atendê-lo, pois estou deitado com todos os meus filhos. O vizinho continuou a bater e a insistir, até que o dono da casa lhe gritou:

– Não é por amizade, mas para me ver livre da sua amolação é que vou me levantar e lhe dar o pão.

Com essa parábola Nosso Senhor nos oferece o seguinte ensinamento:

"Sede assim em vossas orações". É como se Deus acabasse dizendo a cada um de nós: "Este é muito cacete. Vou atendê-lo". Tenhamos, pois, a excelsa virtude da caceteação. Saibamos ser importunos e pedir, pedir e pedir outra vez. No pedido mil e um obteremos mais do que suplicamos. Ganharemos uma paga imensamente grande. Essa circunstância se dá de um modo ou de outro na vida de todos os homens, mesmo na daqueles que se acham adiantados na prática da virtude. Para galgarem um patamar ainda mais elevado nas vias do bem, é necessário rogar muito. Então peçamos, lembrando-nos desse diário visto por Louis Veuillot em Roma. A oração acaba vencendo tudo.

Uma palavra final. Se alguém estiver desanimado, desacoroçoado, julgando infrutíferas suas preces porque nada conseguem, dou-lhe este conselho: tome o rosário, reze-o e nunca o abandone. Quando não puder recitá-lo, segure-o na mão e este gesto valerá por uma prece. Se possível, tenha em casa uma lamparina acesa constantemente junto a uma imagem de Nossa Senhora, e diga à Santíssima Virgem: "Minha mãe, sou tão dissipado que não consigo rezar. Mas, quando olhardes para esta lamparina, lembrai-Vos de que eu quereria estar rezando. Ao mesmo este desejo subconsciente me acompanha a vida inteira". Portanto, dirijamo-nos a Maria Santíssima em todas as ocasiões. Certo estou de que, se Ela demorar em nos atender, é porque nos reserva um dom imensamente valioso, muito maior do que podemos imaginar”.[5] (*) Louis Veuillot (1813-1883), jornalista católico francês, que defendeu com brilho a infalibilidade do Papa.



[1] É verdade, diz S. Agostinho, que o  homem, em sua fraqueza, não pode observar certos preceitos, com a sua força atual ou com a graça comum  a todos; mas, pode certamente, por meio da oração, obter o auxílio maior do qual necessita para observá-los: “Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda exorta a que façamos o que pudermos e a que peçamos o que não pudermos e nos auxilia para que o possamos”. (De nat et Trento 44, n 50). É célebre esse texto do Santo, o qual depois foi adotado pelo Concílio de Trento (Sess 6, c XVII) e declarado dogma de fé. “A lei foi dada para que se procure a graça; a graça é para que se cumpra a lei”  (In Ps 100. S. Tomás diz contra Jansênio: “Portanto, não devemos dizer ser-nos impossível a castidade ou outro qualquer preceito, porque muito embora não o possamos guardar por nós mesmos, contudo o podemos mediante o auxílio divino: Deve-se dizer que o que podemos fazer com o auxílio divino não nos é absolutamente impossível”  (1-2, q. 19, a.4, ad 2).

[2] Não duvida afirmar o Santo [Agostinho] que Adão caiu por não se haver recomendado a Deus na hora da tentação. “Adão pecou porque não recorreu ao divino auxílio”. O mesmo escreveu  S. Gelásio, falando dos anjos rebeldes: “Receberam a graça de Deus em vão, e porque não oraram não puderam manter-se na justiça/’ (Tr. adv  pelag haer)

[3] No início de seu apostolado o grupo que seguia Dr. Plínio foi chamado “Grupo do Plínio”, “Grupo do Catolicismo”, ou, internamente, simplesmente de “Grupo”.

[4] Extraído do opúsculo “Comentários ao livro “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, de Santo Afonso de Ligório – Compilação de seis  conferências do ano de 1957 – Plínio Corrêa de Oliveira – págs. 57/68