(Revista Dr. Plínio, 67, outubro de 2003)
Um achado providencial
Dr. Plínio relata como se
tornou escravo de Maria
No meu tempo de menino, por vezes eu pensava no
Céu. Tais cogitações estavam intimamente relacionadas com aquela graça a mim
concedida por Nossa Senhora Auxiliadora, num difícil período de minha infância
(cf. artigo “Salvai-me Rainha”, no 1º
número desta revista). De fato, essa especial manifestação da misericórdia de
Maria para comigo, me fez compreender o papel da bondade d’Ela na existência
humana. Daí nasceu em minha alma o intenso desejo de me unir a Ela,
espiritualmente, até o fim de minha vida.
Como será o Céu?
Então, imaginava eu o seguinte: “No Céu, Nossa Senhora é Rainha Mãe. Ora, os
reis e as rainhas da Terra têm cada um sua corte. Portanto, no Céu há de
existir também, numa situação cercada de honra, de respeito, embora um pouco
colateral, a corte da Rainha Mãe. Esta corte deve ser um tanto secundária, pois
não é a que adora diretamente a Deus, senão por meio de Nossa Senhora. Além
disso, ela deve ser constituída de almas menos importantes, assim como a corte
de uma rainha mãe é compota de cortesãos, digamos, de segundo nível. Seja como
for, eu, indo para o Céu, quero fazer parte da corte da Rainha Mãe. De momento
não sei dizer por que, mas tenho certeza de que passarei minha eternidade entre
os cortesãos da Virgem Santíssima. Quem sabe quando eu ficar mais velho
encontre explicação para isso...”
Entretanto, a ideia da Rainha Mãe, de tal
maneira se desenvolveu que, sem eu me dar conta, a metáfora ficou ultrapassada.
Compreendi que Nossa Senhora era muito mais do que uma rainha mãe. A comparação
se verificara primitiva, contendo apenas uma semelhança com a realidade, e não
uma efetiva analogia.
Essa constatação tornou-se mais viva no meu espírito quando, já então homem de 22 anos, li o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís Grignion de Montfort. À medida que eu percorria aquelas páginas, com transportes de entusiasmo fui tomando conhecimento da admirável doutrina nelas exposta. Fazia-o na concordância eufórica de minha alma, de modo que cada linha era uma nova razão de arroubamento, mas, ao mesmo tempo, era como se eu já tivesse pensado tudo aquilo.
Intercessão de S.
Teresinha
Uma circunstância banal esteve na origem da
leitura que fiz desse livro. Era eu muito devoto, e ainda sou, de S. Teresinha
do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, li a Histoire d’une âme (Hoistória de uma
alma) – autobiografia de da sua vida espiritual – e fiquei profundamente
impressionado. Compreendi que eu devia fazer algum progresso na minha própria
vida espiritual, sem entretanto saber bem qual era. Encontrava-se numa fase em
que já tinha realizado alguns avanços, e não podia ficar estagnado. Ir para a
frente era-me imperioso, pois constituía para mim uma necessidade de alma.
Sabendo eu que, pela intercessão de S.
Teresinha, obtinha-se grande número de graças no mundo inteiro, resolvi
pedir-lhe duas de que eu mais carecia.
A primeira, que me fizesse encontrar um bom
livro, desses cuja leitura enriquece o espírito e marca uma vida.
Em segundo lugar, pedi a S. Teresinha algo
muito diferente: ganhar na loteria... O bilhete que eu comprara oferecia um
prêmio máximo de 400 contos. Para época, esse montante correspondia a um excelente
patrimônio, com o qual eu poderia leva uma vida tranquila dentro dos meus
padrões.
Qual a razão de pedir esse dinheiro? É que eu
não queria ter preocupações profissionais, a fim de dedicar todo o meu tempo ao
apostolado católico em que estava empenhado.
Bem, quanto aos 400 contos, ainda os estou
esperando... Não chegaram. O livro, porém, pouco depois o encontrei.
Na Rua Martim Francisco, em São Paulo,
erguem-se alguns edifícios dependentes da Igreja do Coração de Maria. Num
desses prédios abre-se uma porta pela qual, outrora, se tinha acesso ao
interior do convento dos padres claretianos, bem como para a livraria que eles
ali possuíam.
Quantas e quantas vezes, passando diante
daquela porta, tenho agradecido a Nossa Senhora! Olho aquela entrada com amor,
porque tem relação próxima com um grande acontecimento de minha vida, ao qual
estimo como algo presente no centro do meu coração. Mais do que isso, eu só
quero o meu Batismo e a minha Primeira Comunhão.
O encontro com o
Tratado
De faro, foi visitando essa livraria que
encontrei um pequeno livro, escrito em francês, impresso de modo muito
agradável, em caracteres pretos e vermelhos. Seu autor me era desconhecido: Bienhereux Louis Marie Grignion de
Montfort. Um Bem-Aventurado...
“Mas, o
que me dirá esse livro? ‘Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge’ –
Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Quem sabe não é o livro
suscitado por S. Teresinha?”
Coloquei-o de lado e passei a examinar outros,
para ver se mais algum me interessava. Encontrei um do qual também não tinha
ouvido falar, e fiquei na dúvida se levava este ou aquele. Na incerteza da
escolha, folheei novamente o Tratado, achando-o
muito bem impresso, atraente e agradável de ler. O outro, um calhamaço feio e
indigesto. Enfim, por esta simples razão – pensava eu, sem perceber que S.
Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Mandei embrulhar
e fui embora.
Ao chegar a casa, desembrulhei o pacote,
sentei-me e comecei a ler. Logo percebi que tinha encontrado o livro de minha
vida! Até então, não fazia ideia de que um livro pudesse exercer sobre mim o
efeito que esse exerceu.
Segundo um antigo hábito, não iniciei a leitura
a partir da primeira página, mas abri o Tratado
em qualquer lugar, do meio para o fim. Achava que um livro tornava-se bem
mais interessante quando havia alguma coisa nele para se adivinhar. Então,
lendo-o do meio para o fim adivinha-se como é o começo. Depois o leitor confere
se, de fato, o início corresponde ao que dele se imaginou. Sempre me agradou
agir dessa maneira em relação aos livros que eu lia.
Com o Tratado,
porém, foi diferente. Ao folhear duas ou três páginas, pensei: “Este livro é diferente de qualquer outro,
não se pode ler assim. Tem que ser desde o começo, porque é de alto quilate! É
absolutamente o que eu queria!”
Foi uma leitura demorada, porque feita muito
devagar. O Tratado devia ser estudado
ponto por ponto, como se faz com um difícil livro de faculdade. E assim
procedi: relacionei pontos, tomei notas, e cheguei até a compor uma ladainha de
invocações a Nossa Senhora, sugeridas pelo texto de S. Luís Grignion.
É um portento de livro, baseado que há de
melhor em matéria de Teologia, aprofundando largamente, e com elevadas vistas,
a doutrina sobre Nossa Senhora. De maneira que o leitor adquire uma boa noção a
respeito das excelências de Maria Santíssima, do que Deus teve em vista
criando-A, do papel da santidade d’Ela e de sua perfeição de alma na vida de
Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como no plano da Redenção, no Colégio Apostólico
e na Santa Igreja, por todos os séculos.
Assim, cada vez mais encantado, fui percorrendo
e estudando ponto por ponto o Tratado da
Verdadeira Devoção.
O Reino de Maria
Em certo momento, percebi que o livro cintilava
labaredas a propósito de um assunto que nunca visto ninguém tratar, e que me
interessava no mais alto grau: o Reino de Maria. Logo compreendi que esse Reino era a meta
para onde minha alma e todo o meu ser voavam!
Entusiasmou-me sobremaneira a descrição que faz
S. Luís da perfeição e do auge de santidade que as almas atingirão nessa era
marial. Mais do que tudo, arrebatou-me a ideia da necessidade da Sagrada
Escravidão de amor a Nossa Senhora, para agradá-La e entregar a Ela tudo quanto
alguém Lhe possa dar.
Escravidão?
Lembro-me de que, numa primeira vista, a
palavra escravidão chocou-me um
pouco. Como assim, escravidão? Que
explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra
para mim servi-La, ser escravo d’Ela!
Ademais, essa devoção era ensinada por um
grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e
com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então
pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas
também com S. Luís, até onde eles forem!”
Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida
por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia
insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se
deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também
para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a
qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo,
amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do
gênero humano.
Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria
esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para
implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo:
último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.
Terminado o livro, não tive um minuto de
vacilação: “Eu vou me consagrar como
escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que
eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada
passo, eu dizia um entusiasmado “sim”.
No fim do Tratado
se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São
trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos
primeiros doze dias deve-se rezar o Veni
Creator Spiritus e o Ave Maris
Stella. No final das três semanas, o Ato
de Consagração.
Sempre fui adepto de um princípio que meu pai
costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido
mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem
de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal
ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação,
ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem
da Virgem Santíssima, rezei o Veni
Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi
repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo,
nenhuma vez.
Um propósito para toda
a vida
Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a
Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa
Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada
Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e por d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus –
pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na
devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort.
Outro costume que passei a adotar, depois de
leitura do Tratado, foi o de rezar a
Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine
peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos,
de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a
Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber
que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos
implícita, de a fazer por meio d’Ela. Se
assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho
diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.
São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.[2]



