domingo, 31 de maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
NOSSA SENHORA DAS TEMPESTADES
A invocação de Nossa Senhora das Tempestades:
origem e significados
Hoje, 17 de maio, ocorre em Tolentino a festa de Nossa Senhora das Tempestades.
O histórico dessa devoção é o seguinte:
"São Leonardo fez colocar na sua Igreja
primitiva de Santa Maria, em Tolentino, uma imagem da Virgem que tivera na
capela do Seminário. Convidou então os habitantes do local a implorar à Virgem
Santíssima a graça de preservar a cidade dos prejuízos do granizo, tão
frequente na região. A Virgem ouviu o pedido.
“Pio VII, em seu retorno do cativeiro na França
(a 17 de maio de 1814), coroou solenemente a Virgem milagrosa e aprovou o
ofício próprio a toda diocese".
Uma vez mais, se trata de um fato que nos faz
ver o modo pelo qual as devoções de Nossa Senhora costumam se formar. Em geral,
é uma graça concedida por Ela para alguém ou a uma população. E esta mercê, que
tem todo o sabor espiritual e imponderável de um sorriso d’Ela, incute
estavelmente nas pessoas a esperança de serem atendidas em outras necessidades.
Então, aquela invocação que se liga àquele
favor nos dá a ideia da misericórdia de Nossa Senhora e do socorro prestado por
Ela em condições espirituais análogas àquelas condições terrenas.
Então, havia uma imagem numa capela do
Seminário; essa imagem, com certeza muito expressiva e muito bonita, São
Leonardo a destinou depois para ser exposta em uma igreja de sua diocese, na
Igreja de Santa Maria, em Tolentino.
Ali o povo a venerava, mas ele recomendou que
se pedisse a Nossa Senhora o favor de que as tempestades não se desencadeassem
nesse local com a intensidade destrutiva com que ocorriam antigamente. Essa
graça, de índole material fez com que as tempestades cessassem e a população se
visse livre daquele flagelo. Então a imagem passou a ser invocada sob o nome de
Nossa Senhora das Tempestades, ou seja, Nossa Senhora que vence as tempestades,
que previne as tempestades. Podia se chamar também Nossa Senhora da Bonança.
O Papa Pio VII, fugindo da “tempestade” (por
ele desencadeada na França, devido ao modo como conduziu o caso de Napoleão),
passando por Tolentino e dando graças a Deus por se sentir livre das garras de
Napoleão, entendeu que daquela tempestade estava salvo por causa de Nossa
Senhora. Então coroou a imagem de Nossa Senhora das Tempestades. Mas a palavra
“tempestade” significando outra coisa: as tempestades da História, as
tempestades da vida, as tempestades da alma...
Então, é Nossa Senhora patrona dos homens
postos em tempestades de toda ordem: espirituais, portanto, da luta contra o
pecado, da queda no pecado, para prevenir o pecado, tempestades que a alma
sente quando vê outros em pecado, tempestade nas grandes aflições espirituais
que a vida pode trazer; enfim, as mil tempestades em que uma vida pode estar em
jogo.
Então, pedir o socorro a Nossa Senhora no meio das tempestades, sentindo-se
fraco, pequeno, incapaz de evitar completamente a tempestade, de vencê-la,
recomendar-se a Ela é exatamente a ideia que está posta dentro dessa invocação.
Mas ela abarca também uma ideia de compaixão.
Toda mãe, quando sente seu filho na tempestade, tem uma pena enorme e acorre
sôfrega, não vem devagar, e vem com toda velocidade que os interesses espirituais
daquele filho permitem. Mas aí, nesse sentido, ela vem imediatamente.
Então, a ideia de Nossa Senhora enquanto nosso
socorro nas aflições, expressa em tantas outras invocações: Nossa Senhora
Auxiliadora, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora do Socorro, Nossa Senhora
dos Aflitos. Porém ela tem uma formulação muito bonita no título de Nossa
Senhora das Tempestades. A gente compreende, portanto, quão expressiva é essa
invocação.
Há duas espécies de tempestades: as torrenciais
e uma outra que é uma completa subversão da atmosfera com água, chuviscos,
escuridão, incerteza, terra escorregadia... e que analogicamente também se
poderia chamar de tempestade. Há situações da vida espiritual que são assim.
São todas elas cheias de dramas, de dificuldades, de incertezas, e que
constituem formas diversas de tempestades. Nossa Senhora nos ajuda em todas
essas tempestades. Aí nós temos, então, Nossa Senhora das Tempestades.
Dois pensamentos aparentemente opostos, de São Boaventura e de Santa Teresinha,
mostram a beleza das vias de Deus.
Agora, vem um pensamento de São Boaventura que
vem aqui consignado e é muito bonito:
"Eu vos saúdo, Maria que acalmais o mar
tempestuoso do mundo. Que Jesus, que dorme em nosso barco, se levante acordado
por Vós.”
É uma referência ao fato de que Jesus estava na tempestade, com os Apóstolos
num barco, e estes O acordaram. E Ele fez cessar a tempestade. Tantas vezes
Jesus “dorme”. Então, Nossa Senhora acorda Jesus para que venha ao socorro e,
diz o Evangelho, que se fez então uma grande bonança depois que Jesus acordou.
E vem um comentário que acho magnífico: “ uma
completa obediência em relação a Ele”!
Santa Teresinha do Menino Jesus tem um
pensamento oposto: quando a pessoa sofre, não deve pedir muitas vezes que o
sofrimento passe, para oferecer pela Causa da Santa Igreja. Então, diz ela:
"não acorde Jesus que está dormindo em seu barco. Deixe-O dormir, deixe
que pelo menos na sua alma Ele descanse. Não O acorde...”
Um santo recomenda: “acorde”, e é esplêndido!
Uma santa recomenda: “não acorde”, e é esplêndido também! Tudo depende das vias
de Deus. Vejam a beleza desses vários caminhos e o universo de maravilhas
morais que existe nisso!...
Novena a Nossa Senhora Auxiliadora e portentos
que São João Bosco obtinha por sua intercessão
Amanhã começa a novena de Nossa Senhora Auxílio
dos Cristãos. O grande Dom Bosco obteve várias graças nessa novena e a
recomendava muito a todos os salesianos. Um padre salesiano recomendou hoje
essa novena na igreja, assim: três Padre Nossos e três Salve Rainhas. Os
senhores querendo façam assim se quiserem. Eu aprendi de outro modo, acho muito
mais razoável e é assim que farei: três Padre Nossos, três Ave Marias, três
Glória Patri, depois dos quais se diz: “Louvado e adorado seja o Santíssimo
Sacramento” e depois uma Salve Rainha seguida da jaculatória “Auxilium
Christianorum, ora pro nobis” (Auxílio dos Cristãos, rogai por nós).
A fórmula não é tão importante; o importante é
fazer uma novena. Mas a fórmula tem também seu interesse pois que é uma fórmula
que Nossa Senhora premiou com manifestações de agrado especiais. É legítimo que
se procure usar essa fórmula, com toda fidelidade, para agradar a Ela.
Recomendo essa novena porque Dom Bosco - já
comentei outro dia sobre ele aqui - em nossa época, é o grande arauto de Nossa
Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos.
As maravilhas que se passaram na existência
dele a respeito de Nossa Senhora enquanto Auxílio dos Cristãos foram
extraordinárias! Ele conseguia coisas assim - e aqui está mais uma vez a
diversidade de espíritos entre os católicos fiéis -, por exemplo, mandava
construir uma torre de uma igreja. Quando os trabalhos estavam em pleno
andamento, acabava o dinheiro. Aí começava aquele berreiro, credores etc.,
operários, toda a inferneira de uma obra nessa situação... Então, ele dizia:
"o que é que eu posso fazer? Eu vou à rua e vou fazer um pequeno passeio
para ver se Nossa Senhora me ajuda". Ia diante da imagem de Nossa Senhora
Auxiliadora, rezava essas tais orações e saía. Voltava com o bolso cheio de
dinheiro e pagava todos a quem devia. Nessas condições, naturalmente,
compreende-se que ele tenha adotado esse sistema...
Síntese biográfica de
São Felix de Cantalício
Apesar de já ter tomado muito o tempo dos
senhores, eu teria escrúpulo em não ler a síntese biográfica de São Félix de
Cantalício, porque teria pena de deixar desaproveitado um esforço tão meritório
e tão constante como é esse do fornecimento de tais fichas.
A síntese biográfica é tirada do Rohrbacher,
"História Universal da Igreja Católica":
“São Félix nasceu em 1513, em Cantalício, nos
Estados Pontifícios, de pais pobres, mas muito virtuosos. Desde criança
demonstrou tanta piedade e inclinação para a virtude, que já então o chamavam
de santo.
“Guardando rebanho ou trabalhando no campo como
lavrador, toda sua vida era de oração. Quando lhe perguntavam se sabia ler,
respondia: sei somente seis letras, cinco vermelhas e uma branca. As vermelhas
são as chagas de Nosso Senhor, a branca é a Santíssima Virgem.
“A uma grande humildade reunia uma alegria constante
e infatigável caridade.
“Um dia, tendo saído ileso milagrosamente de um
acidente, decidiu ingressar na Ordem de São Francisco, onde pediu admissão como
irmão converso. Destacou-se logo de toda a comunidade por sua profunda vida
interior, suas mortificações, grande compreensão do espírito franciscano e
pureza inabalável.
“Manifestava sempre especial respeito ao nome
de Jesus e à palavra "Deo Gratias".
“Tinha-se por esse religioso uma tão grande
veneração em Roma que, quando passava na rua, os príncipes descobriam a cabeça
para saudá-lo”.
“E os cardeais faziam parar as suas carruagens.
“Dele se conta que um dia São Felipe de Neri
atravessava o Quirinal - que era a residência papal - quando São Félix de
Cantalício correu a ajoelhar-se a seus pés e pedir-lhe a bênção. Felipe
abraçou-o e assim permaneceram longo tempo sem proferirem uma palavra”.
São Félix e São Felipe Neri: um dos encontros
pinaculares da História
Que cena, hein?! Em vez de tanta conversinha de sacristia que a gente vê por
aí, um santo ajoelhado abraçando outro santo que está de pé. E longamente
abraçados, sem dizer uma palavra. Que louvores a graça de Deus fazia da alma de
um para o outro e do segundo para o primeiro! Aí se pode dizer que é o Espírito
Santo louvando-se a Si mesmo pela boca dos inocentes, quer dizer, pela boca dos
santos. É uma verdadeira maravilha! São desses encontros pinaculares da
História. Pobres de nós! Tão longe disso... nesse lodo... Se Nossa Senhora das
Tempestades não nos ajudar...
“Depois, afastaram-se cheios de alegria, como
outrora São Luís de França e o Bem-aventurado Gilles, companheiro de São
Francisco e de São Boaventura. Seus corações tinham falado e isso bastava.”
São Luís IX encontrou esse Beato Gilles e os
dois sabiam quem eram, ou, por outra, cada um sabia quem era o outro. Então, se
abraçaram longamente e depois foram embora.
Estava tudo dito; não tinham mais nada que
dizer. Há silêncios que dizem tanto mais do que qualquer palavra...
“Quando São Félix morreu, a 18 de maio de 1587,
não pôde ser enterrado por muitos dias por causa da multidão inumerável de povo
que, encontrando fechadas as portas do convento, escalavam os muros...”
“Enchiam os pátios, as salas, as ruas, as
praças, a Igreja. O santo franciscano foi canonizado em 1712, por Clemente XI.”
Alguns aqui estiveram em Roma. Lembram-se daquela igreja que tem no Corso
Vitorio Veneto? É quando dá aquela dobra, passa pelo Hotel Ambasciatore e desce
para a Piazza Barberini. Nessa igreja, a gente entra e, num altar que está
perto da porta, há uma figura num esquife e escrito: "aqui estão os restos
mortais de São Félix de Cantalício".
Roma está cheia de maravilhas assim! Um santo
prodigioso desse... são tantos santos e de toda ordem que, em qualquer canto a
gente encontra maravilhas. Esta é a Roma dos Papas!... A Roma
post-constantiniana, d’Ela eu não falo. Mas a Roma constantiniana, essa Roma
era assim.
Que comentário fazer a respeito de São Félix Cantalício?
Os senhores estão vendo que isso tem uma
poesia, é tudo feito de contrastes: o vermelho e o branco são duas cores que
estão, entre si, num contraste, de algum modo, tão categórico quanto o branco e
o preto. Porque o vermelho é o sumo - eu ia dizer que é o sumo do rubor, porque
está dito tudo com isso - e o branco é tão alvo, tão diferente do vermelho, tão
pacífico, enquanto o vermelho é vivaz, castanholas na mão...
E temos um outro contraste: é Cristo sofredor,
Cristo chagado, Cristo dilacerado. Ao lado disso, Nossa Senhora, virginal, em
quem nunca se tocou com a mão para abrir uma chaga ou para fazer uma ferida e
que nos aparece tantas e tantas vezes na sua virgindade sob a forma de um
sorriso, de uma alegria, de uma carícia. Poder-se-ia dizer que toda a tristeza
e toda a alegria do Evangelho e, portanto, toda a tristeza e toda a alegria da
vida, e se se pudesse falar em tristeza do Céu, toda a tristeza e toda a
alegria do Céu cabem exatamente dentro dessa comparação, dentro dessa
justaposição.
Os senhores vejam como isso dá um tema de meditação lindíssimo. Alma puríssima,
alma extraordinariamente elevada desde menino... vejam os senhores o mistério
de uma vocação: foi preciso, entretanto, que ele sofresse uma doença séria para
pensar em ser franciscano. Os senhores vejam bem - eu não quero fazer juízo
temerário em relação a um tão grande santo, Deus me livre! - mas fica assim um
vislumbre de ser preciso sacudir qualquer coisinha. Não é verdade?
Peçamos então, nessa novena a Nossa Senhora
Auxiliadora, que Ela sacuda em nós qualquer coisinha para sermos inteiramente d’Ela.
(Plínio
Corrêa de Oliveira - Conferência Santo do Dia, 17 de maio de 1966)
terça-feira, 12 de maio de 2026
NOSSA SENHORA, RAINHA DA HISTÓRIA
(Revista Dr. Plínio n. 305, agosto de 2023)
Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.
A História tem
necessidade de um unum
Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de
um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou
quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma
instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em
que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde
surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos
proprietários morrerem ou o venderam.
O histórico seria, portanto, composto de
histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de
diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem;
são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede
que entra não tem ideia de quem o antecedeu
nem de quem o sucedeu. Isso não forma a História.
Um historiador que trabalhasse essas
informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria
esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria
em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus
pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e,
talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam
falado, etc., Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.
Por quê?
A História, como um “unum”, é diferente das
histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração
que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos
tempos. Essa é a perfeita História.
Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo
agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral,
os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas
internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem
um do outro.
Mas, se não houver uma continuidade de agentes
e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos
quais a História de se desenvolve, ela não forma um todo.
Nossa Senhora é a
Rainha de todos os povos
Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é a
Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste
ou daquele país, nem sequer de um bloco de
países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem
dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é
genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas
entre a Coréia e o Japão, a Coréia e a China, a China e o Japão – relações
triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três
povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos – não tinham a Nossa
Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.
A triste História intertribal da América do
Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras,
colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se
perdiam nas vastidões da “jungle”[1]
americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a
Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da
História inteira.
Digo de propósito “da História inteira”, porque
não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que
o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados
a participar do julgamento dos outros – porque serão amados por Deus -, e os
malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos
haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.
Post-scriptum marial da
História
Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro
em torno do qual se move a História?
Compreendendo o “unum” da História,
entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de
Maria Santíssima como Rainha da História
aparecerá claramente aos nossos olhos.
No Reino de Maria haverá uma esplendorosa
catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral
de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução
para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra.
Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a “post-História”.
Há uma tese, que nos é cara, de que a História
propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do
mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos
acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo,
mas não o fim do mundo.
Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e
para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode
encerrar-se – por causa d’Ela e não devido a nós -, a História terá a sua
“post-História”. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo
do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da
História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo,
toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa
“post-História”, que é o fecho de ouro da História do mundo.
Antes mesmo de nascer,
Nossa Senhora já reinava na História
Vejamos qual será a continuidade dessa
História.
Antes da Torre de Babel, os homens constituíam
um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham
contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela
Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais que
eram o eixo da História.
Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas
já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a
História era tecida.
Deus, ao governar a História – e quem pode
duvidar que Ele seja o Rei da História? -, tinha em vista a Encarnação do Verbo
no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História
caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto,
presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque
tudo era dirigido por Ele de moto tal que desse glória a Ela.
Há alguns reis que o são desde meninos; outros
que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a
realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido
concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde
sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades
de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em
direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!
Depois da dispersão da Torre de Babel – que
estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela
chegaria até o Céu -,os homens foram para as direções mais variadas. A História
nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse
explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas,
a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se
ignoraram uns aos outros do modo mais completo.
Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o
qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e
como Nossa Senhora é a Rainha desse “unum”?
Fivela que prende o
reino angélico ao reino animal
De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos
planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres
puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais.
O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino
animal.
Embora não sejamos, nem de longe, elevados como
os anjos – os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples
mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando
estar diante do próprio Deus -, entretanto, temos este título de glória: somos
o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto,
a harmonia se afirma, triunfa.
Essa é uma explicação pela qual convinha que
nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse
para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a
Criação, quanto se encarnando. Ele se
põe no cento de sua obra; a corola da flor do universo somos nós,
homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele,
com o véu de mãe, está Nossa Senhora.
O homem simboliza
melhor do que o anjo, todo o universo
Na mente de Deus, esta categoria da criação tão
magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar
uma glória especial.
O que vem a ser aqui a glória?
É o deleite que Ele tem com a honra que recebe
pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração.
E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que
a homenagem prestada pelo anjo.
A estrela mais distante e da qual, talvez, não
tenhamos conhecimento até o fim do mundo – corpo material com reluzimento e
propriedades físicas e químicas no
equilíbrio do universo -, entretanto, participa de nós e temos algo com que a
honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as
estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens,
elas começariam a cintilar.
Deus quis que esse gênero humano assim
constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse
senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona
a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lúmen” do intelecto, a força da
vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem
um exemplar de um padrão especial de beleza.
História da Humanidade
se não tivesse havido pecado original
Caso não tivesse havido o pecado original, Deus
intencionava nessa linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de
beleza: nasceria e, depois de passar
algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e
brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.
É claro que, neste plano, toda a História
desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de
Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de
maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza,
exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele
nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o
próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra-arquetípico,
elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode
dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só
Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.
Movimento ascensional
da História rumo a Nossa Senhora
Como se daria isso?
É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se
chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita,
da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável,
a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os
profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que
viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a
d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa
Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da
História...
Não estaríamos no alto do morro do qual se
desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação
do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela – por quanto tempo não
se sabe -, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar
ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso
Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade
e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então – eu emprego um termo moderno e
desdourado – uma pista de voo ainda mais alta.
No alto do morro se construiria uma catedral; e
muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.
Como seria a festa da gloriosa Ascensão do
Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois,
a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano?
Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas
espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero
humano – podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! – levaria Deus
Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre os homens?
Ninguém pode ter ideia, porque viriam
alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre
estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo
quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus
Cristo, o Homem-Deus.
Portanto, por mais que a História glorificasse
Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a
História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a
História rumo a Ela para chegar a Ele.
Com a Virgem Maria a
História se evanesce em santidade, virtude e beleza
Para que isto tivesse tido a sua verdade, não
era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado
original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva
porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não
continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados
originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.
Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do
Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a
sub-História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central
da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.
Em determinado dia a coleção dos homens estaria
completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade:
“Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os
lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso
plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”
Como seriam esses homens perfeitíssimos do
final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os
homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais
maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se
evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da
flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o
perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos
criou”.
A História terminaria quando o ultimo justo
tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó
salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”
Que glória e que hino! Todos os homens deixando
o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas
insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando
desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os
outros: “Lembra-se? Lembra-se?”
Devido ao pecado
original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu
Esse era o plano e essa seria a linha reta da
História. Não se realizaram... O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua
expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História
continuaria. Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a
serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de
beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre
duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre
a serpente, calcando-a aos pés.
Nessa profecia estava contida a promessa do
Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto
aconteceu em virtude disso.
Deus não desistiu de seu plano nem da História
que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em
magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a
História daquela paz.
A nossa grande guerra contra os filhos do
demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.
Considerem a hipotética História do Paraíso:
que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem
homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.
Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto
maior a atura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo,
tanto mais alto é o soerguimento. E a
altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto
que se elevará acima.
Esta é a História com a “post-História’, a
História do Reino de Maria que vem se aproximando.
Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos
planos cheios de bondade, impregnados de encantos paradisíacos de Deus Nosso
Senhor, por essa mesma razão Ela é a Rainha da história dos tormentos, das
aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas,
da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.
Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular
de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a
história noturna, porque longe do Sol de Justiça, que é Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Para ver as coisas simplificadamente, toda essa
História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão,
pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido
um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará-los
para aquela hora de bem-aventurança.
Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam.
Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que
se soerguessem tanto quanto possível de dentro da alma do paganismo, para
poderem estender as mãos ao apóstolo
magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos
missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.
O centro é esse: o momento magnífico da vitória
do Reino de Maria, em que eles deverão converter-se. E Nosso Senhor e Nossa
Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria
Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?
Leme e figura de proa
Rainha em que sentido?
Como nós gostamos muito de lógica, de
definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu
lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da
rainha.
Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie
de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor,
inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma
rainha não é apenas isso.
Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões
dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi
dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda
haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é
grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da
Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela
não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não
governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.
A figura de proa tem seu papel no navio, porque
é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é
preciso ser leme e figura de proa.
Maria Santíssima dirige
a História...
Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o
leme da História?
Ela conhece as intenções de Deus a respeito da
História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos
de virtudes e aos pecados dos homens.
Depois da Redenção infinitamente preciosa de
Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando
com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado
disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual
reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros
aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse
balanço Ele fez pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.
Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade,
quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos
homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria,
verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura
inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre
Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em
condições de retocar, ao menos em parte, o que os homens fazem e, por assim
dizer, corrigir – se a palavra “corrigir” não fosse inadequada-, reformar,
rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria.
De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: ”Meu Pai Eterno, meu Filho
adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai
aqui, fazei mais acolá...”
E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de
ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito
a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual
corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.
Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas
se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível – hesito diante do termo
– fazer a História tão bela como ela é. Nossa Senhora enfeita essa História. E
somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime,
por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não
teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.
De outro lado, Maria Santíssima não se limita a
isso. Ela pede também, para alguns, o
castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio
Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse
momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos
bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos
pede”. E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.
Compreendemos, então, a direção da História,
direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa
Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus,
obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria
Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão
excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a
História.
... e a modela como um
artista faz com a argila
Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral
dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada
nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família
se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe,
unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias
espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação
delas que condiciona a História.
Nossa Senhora intervém na história de cada um
de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um
bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a
Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre
Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem
graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a
pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso, a história, mesmo dos
malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.
Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração
d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus,
modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem.
Portanto, Nossa Senhora é operante na História.
O fator determinante de todo o curso da
História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa
Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a
Deus porque são apresentados por Ela.
É conhecido o princípio de que, se o Céu
inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém.
Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.
Considerando tudo isso, compreendemos bem o que
significa o poder d’Ela como Rainha da História.
Aspecto “catedralício”
da História
Um homem inteligente, que olha para uma
catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída;
sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.
Se a ume pessoa que foi olhar uma catedral
perguntamos:
- O que você viu?
- Um montão de granitos.
Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade
enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido”.
O modo de relacionar esse granitos entre si
forma uma coisa muito superior: a catedral, O granito foi “per accidens”, por
acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.
Assim Nossa Senhora vê a História da
Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do
seu Divino Filho.
Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus
e a inter-relação do agir da Humanidade formando um todo; e dentro da
Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla
todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o
anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e,
em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável
para o gênero humano.
Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos
pecados que conduzem a um grande movimento único do pecado: a Revolução. Mas
Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que
combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os
olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História,
isto é, a Revolução e a Contra-Revolução.
A Virgem Maria é Rainha da Contra-Revolução e,
em certo sentido, Rainha da Revolução.
Como? A Revolução como tal é uma rebeldia
contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser rainha dessa rebeldia, a
não ser nesse sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda
como a rainha sobre o escravo revoltado.
Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como
Rainha da História.
Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse
sobre essa reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela. (Extraído de conferência de 3/4/1982).[2]
domingo, 10 de maio de 2026
DECLARAÇÃO DE DR. PLÍNIO SOBRE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO DE GENAZZANO
(Revista "Madre del Buon Consiglio", editada pelos padres Agostinianos de Genazzano (Itália), julho-agosto de 1985, p. 28)
Há tempos estávamos surpresos e admirados por ver, com freqüência, jovens estrangeiros recolhidos em profunda oração na capela de Nossa Senhora. Um belo dia quisemos conhecê-los, perguntando porque vinham com tanta assiduidade a nosso Santuário. Disseram-nos sentir-se muito atraídos pela belíssima Imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, que se manifestara com especiais favores ao fundador de sua Associação: Plinio Corrêa de Oliveira. Exprimindo-lhes nosso desejo de ter em mãos um atestado do fato, o Senhor Plinio teve a amabilidade de nos enviar, do Brasil, a seguinte «Declaração»:
Declaração
“Em dezembro de 1967, tendo eu 59 anos de idade, fui acometido de violenta crise de diabetes. Daí resultou uma gangrena no meu pé direito, o que levou o cirurgião incumbido de meu caso a fazer a amputação dos quatro artelhos menores.
Tal medida não foi tomada sem hesitação, pois receava ele fundadamente que essa gangrena se propagasse pelo pé, tornando então necessária uma amputação bem mais ampla.
Em tal caso, não seria preferível proceder de vez a essa amputação maior?
Continuei hospitalizado, sob inspeção médica.
Ora, sucedera que, algum tempo antes desses fatos, eu me pusera a ler incidentemente o livro "La Vierge Mère du Bon Conseil", de Mons. Georges F. Dillon (Desclée de Brouwer, Bruges, 1885). E, durante a leitura, experimentava em minha alma uma sensível consolação.
Tendo viajado para a Itália antes que eu adoecesse, meu amigo, Dr. Vicente Ferreira, teve este a gentileza de me trazer de Genazzano uma estampa representando o venerando quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho. Essa estampa me chegava no momento de uma provação espiritual que me fazia sofrer muito mais do que a enfermidade física.
Desde 1960, era eu Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Circunstâncias que não vêm a propósito mencionar, davam-me a certeza de estar nos desígnios da Providência que essa entidade realizasse uma larga ação no Brasil e em toda a América do Sul, e ainda nos demais continentes, em prol da Cristandade.
De outro lado, estava eu certo de que meu falecimento naquela conjuntura acarretaria ruína do esforço que começava a vicejar com vigor. E que eu desejava ardentemente levar a cabo para a maior glória de Nossa Senhora, antes de morrer. Daí um estado de verdadeira ansiedade a propósito das incertezas de minha situação clínica e cirúrgica.
No dia 16 de dezembro, outro amigo, Dr. Martim Afonso Xavier da Silveira Jr., fez-me a entrega da aludida estampa, em nome do Dr. Vicente Ferreira.
Quando a fitei, tive a inesperada impressão de que a figura de Nossa Senhora, sem mudar embora em nada, exprimia para comigo inefável e maternal doçura, que Ela me confortava e me incutia na alma — não sei como — a convicção de que a Santíssima Virgem me prometia que eu não morreria sem ter realizado a obra desejada. O que me invadiu de suavidade a alma.
Hoje em dia conservo intacta essa convicção. E, pelo favor de Nossa Senhora, essa obra tem prosperado admiravelmente, autorizando a esperança de que alcance sua meta.
Quando fui agraciado com o sorriso-promessa de Nossa Senhora de Genazzano, nada disse aos circunstantes. Só muito mais tarde falei disto a amigos. Dois destes, que me faziam companhia no hospital quando recebera a estampa, ao ouvirem minha narração, disseram que haviam notado que a figura da Mãe do Bom Conselho me fitava com muito comprazimento, o que lhes chamara muito a atenção. Eles não haviam notado, porém, o sorriso promessa a que aludi.
Assinam eles comigo a presente declaração.
Graças também à Santíssima Virgem, minha saúde se recompôs então de modo a surpreender o cirurgião. E a segunda operação se tornou desnecessária.
É com o coração transbordante de amor e de gratidão à Mãe do Bom Conselho de Genazzano que escrevo a presente declaração”.
Plínio Corrêa de Oliveira – São Paulo, 10 de maio de 1985
sexta-feira, 8 de maio de 2026
MARIA É A RAINHA DOS CORAÇÕES
Há uma verdade que, a bem dizer, é experimental
dentro da Santa Igreja: quando uma associação religiosa vai mal, ou o andamento
de uma iniciativa de apostolado está difícil, quando qualquer empreendimento
santo não está despertando o interesse desejado
nem criando raízes no povo, o meio que se tem para resolver as dificuldades,
o caminho a seguir para tudo resolver, é colocar essas obras sob a égide de
Nossa Senhora.
O mais insigne desses exemplos é a cruzada
pregada contra os albigenses. Como sabemos, eles vivam na região de Albi, no
sul da França, e eram tão pertinazes, que não havia meio de os dominar. Nossa
Senhora revelou então a São Domingos de Gusmão uma devoção a Ela, mediante a
qual os hereges seriam subjugados. E, de fato, depois de difundida a devoção ao
Santo Rosário, a heresia dos albigenses começou a ser debelada. Há ainda fatos
menores, mas também muito sintomáticos.
Onde se encontra a Santíssima Virgem, tudo
floresce.
As Congregações Marianas tiveram um
florescimento enorme no Brasil, devido precisamente ao culto a Nossa Senhora.
Toda a vida católica no Brasil foi florescentíssima no tempo em que não havia
esse maldito combate à devoção a Nossa Senhora. É só minguar de qualquer forma
a devoção a Ela, que imediatamente todas as coisas começam a decair.
A prova mais insigne do que digo foi o efeito
letal que produziu o jansenismo na França., no século XVIII. Essa heresia, como
sabemos, combate a devoção a Maria Santíssima. Foi suficiente que o jansenismo
começasse a se lançar nesta sanha anti-marial diabólica para que a vida
espiritual deperecesse nas paróquias atingidas pela heresia. As estatísticas
que, já naquele tempo, se faziam com regularidade, mostram o número assombroso
de comunhões que decrescem, de batizados que escasseiam, de casamentos que
decaem, e assim todos os demais índices de vida religiosa passam a exprimir um
deperecimento.
Qual a razão? Nossa Senhora fora eliminada da
vida religiosa!
Esta verdade se põe com a clareza de uma
constatação de laboratório, onde a demonstração da eficácia de um corpo faz-se
colocando-se o corpo em presença de outro; passa-se, então, certo fenômeno; tirando-se
o corpo, o fenômeno deixa de produzir; sendo colocado de novo, volta a se
repetir o fato. Daí se deduz que aquele corpo é causa daquele fenômeno. Assim
também com a devoção a Nossa Senhora: onde há devoção a Maria, tudo floresce;
extinta dessa devoção, tudo mingua; restaurada novamente, tudo volta a
florescer.
A razão disso é profunda e teológica. São Luís
Grignion mostra que, se Nossa Senhora tem uma grande influência na geração dos
membros do Corpo Místico, Ela implicitamente tem um grande poder sobre as
almas, porque Ela não poderia obter a geração do Corpo Místico se não tivesse
esse poder.
A devoção a Maria Santíssima age sobre as
almas, e o faz de forma imensamente poderosa; por isso, as conversões mais
profundas, as mudanças de espírito mais surpreendentes, as graças espirituais
mais assinaladas são produzidas por essa devoção.
Em consequência, Nossa Senhora deve ser chamada
a Rainha dos Corações. É uma das
mais belas invocações a Ela dirigidas.
(Extraído de conferência que Dr.
Plínio fez para seu iniciante grupo de filhos espirituais em 1951,
comentando o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Posteriormente,
em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado internamente em
forma circular.)



