terça-feira, 3 de novembro de 2026

COMO UM SANTO GUERREIRO VENCE UMA BATALHA

 



Referimo-nos ao grande herói português, o famoso Condestável Nuno Álvares Pereira, ou, São  Nuno de Santa Maria. Seus biógrafos narram assim como ocorreu uma das vitórias milagrosas que ele obteve:

O homem da guerra era também o homem místico, pois rezava constantemente quando estava em combate. Era comum ouvir as vozes angélicas que o orientavam nos combates, mudando constantemente de tática, fazendo-o ir vencendo aos poucos, cada centímetro, cada metro do terreno, em busca de um objetivo final. E isto só era obtido porque tudo para São Nuno tinha caráter religioso, tudo dependia da Providência divina, nada acontecia ao acaso, sem que os Anjos não tivessem alguma participação, principalmente naqueles momentos de batalha. Em pleno combate, sua face se iluminava com uma auréola de satisfação, respirava em todos os seus poros heroísmo e santidade. Era como se fosse o próprio Deus dos exércitos a se refletir numa pessoa humana.

Em dado momento, uma seta veio cravar-se em seu pé. Mesmo assim ferido, continuou animando e lutando, ora na retaguarda, ora na vanguarda.  Numa destas intervenções, gritaram da retaguarda que o inimigo estava ganhando aquele setor. Foi para lá o grande herói, postou-se na frente de seus homens, mesmo com o pé ferido, e após breve combate conseguiu repelir a investida inimiga e arrumar a defensiva novamente.  Da mesma forma que veio auxiliar os seus naqueles momentos, assim também partiu talvez para a vanguarda não se sabe.

O certo é que, de repente, o Condestável desapareceu da vista de seus homens. A hoste portuguesa não conseguia mais avançar, ficara ali estática, porque faltava quem os comandasse. Seu comandante simplesmente sumira, não o encontravam em lugar nenhum. Chamavam por Nun'Álvares para um lado e para o outro, mas ele não ouvia lhe chamar, não aparecia nos combates. Para onde fora? Teria morrido ou fugido? Estas cogitações eram impensáveis em seus homens, principalmente o da fuga.  Procuravam-no por toda a parte, aflitos, como quem busca o próprio pai na hora do desespero, em busca de auxílio..

De súbito, Rui Gonçalves depara-se com o Condestável. De joelhos, entre dois rochedos, estava em êxtase, com as mãos postas e os olhos voltados para o céu. Ao seu lado, sua montaria e o pajem segurando a lança e o braçal de seu senhor. Naquela angústia em que se encontrava, foi rezar a Deus quando um Anjo lhe aparece e o deixa fora de si na contemplação das maravilhas divinas.  Rui Gonçalves declarou posteriormente que o viu com a alma transportada para o céu falando com Deus. Ficou ali parado a contemplá-lo, temendo tirá-lo daquele embevecido êxtase. Aquela cena, onde o escudeiro e o amigo Rui ficavam pasmados em silêncio a contemplá-lo, contrastava completamente com o fragor da terrível batalha que se desenrolava nas proximidades.

Passado o primeiro espanto, Rui Gonçalves resolve agir e grita:

- Estamos perdidos!

São Nun'Álvares, meio saindo de seu êxtase, volta-se e diz:

- Rui Gonçalves, caro amigo, ainda não é tempo. Aguardai um pouco e acabarei de rezar.

Neste ínterim, outros companheiros também já o tinham encontrado e começaram a vituperar o Condestável. Um deles foi enfático:

- Nada de rezas, assim morreremos todos!

Quando seus homens começaram a chegar angustiados, São Nuno sai de seu êxtase. Ergue-se, firma-se nos pés, apura o ouvido e as vistas. Põe a mão sobre o ombro de seu alferes, Diogo Gil, aponta para o lado e diz:

- Vês as bandeiras que estão no cume daquele monte? A mais alta deve ser a do Mestre de Santiago.

- Vejo, meu senhor!

- Pois vamos lá com nossas espadas até junto dela! Amigos, avante! Que cada um de nós seja para quatro deles!

Aquelas bandeiras significavam que ali estavam os principais comandantes das tropas castelhanas. Provavelmente reuniam-se em conselho sobre os destinos da batalha. Num arroubo, os portugueses partiram para lá, guiados por São Nuno e sua espada sagrada, e num instante subjugaram todos eles. Vencidos os chefes, o resto foi facilmente entregue às mãos portuguesas.  Num só lance, todo o comando inimigo caíra em mãos do Condestável. Quando souberam do ocorrido, os castelhanos começaram a fugir, pois todas as tropas estavam agora sem comando.

O milagre aconteceu: os portugueses, em número inferior, dentro do território inimigo, venceram o poderoso exército castelhano. Tudo graças ao denodo, à coragem, ao idealismo de um Cavaleiro cristão, que dedicou toda sua vida à fé católica, e por isso foi avisado por um Anjo, em seu êxtase, de que deveria seguir aquele caminho que daria exatamente dentro do comando inimigo.

São Nun'Álvares foi com os seus dormir calmamente em Valverde, e  no dia seguinte seguiu viagem de retorno às suas terras. Após dezoito dias de campanha, havia conquistado muitas riquezas de seus inimigos. Muito maior, porém, foi a lição que dera aos castelhanos, com o intuito de inspirar-lhes medo e respeito. Quando chegou em Elvas, São Nuno reúne seus homens e distribui com eles todo o abundante saque que trouxera.

(Fonte: "A Vida de Nun'Álvares", de Oliveira Martins, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1983).

sábado, 31 de outubro de 2026

TRÊS HORAS NO PURGATÓRIO



As almas que estão no Purgatório sempre desejam ir logo para Deus, sentem-se amadas por nosso Deus Pai, desejam a presença de Jesus Cristo, algo que as faria esquecer os sofrimentos que padecem. Mas têm de esperar todo o tempo que Deus tenha determinado até ficar totalmente purificadas toda aquelas que estão no Purgatório.

Há pessoas que dizem que passarão pelo Purgatório antes de ir ao céu. Pois nada manchado pode entrar no Reino de Deus. Poderia se lhes perguntar: queres passar daqui para o Purgatório quando não podes suportar os sofrimentos que Deus te permite ter com as enfermidades, adversidades agora que padeces? E te queixas muito? Já desejaram as almas do purgatório sofrer tuas enfermidades, o levariam muito melhor, pois existe uma grande diferença.

Mas seria melhor que o Purgatório o devemos passar na terra. Frei Daniele também pensava que depois de morrer passaria um tempo no Purgatório, mas o Senhor o levou ali em vida para fazer-lhe refletir.

Uma coisa é pensar, mas outra é vivê-la, sentir em seu próprio ser os padecimentos, as penas do Purgatório. Depois de que sentiu em seu corpo o grande rigor das penas do Purgatório, e quando voltou a si, determinou servir de um modo mais perfeito a Deus e passar seu purgatório em vida. E isto é o que devemos nós todos. Porque a experiência de Frei Daniele nos faz saber que um momento no Purgatório é muito tempo, uma hora no Purgatório parece uma eternidade.

Vivamos na graça de Deus, peçamos a Deus agora que possamos nos fortalecer para não sucumbir em nossas dores. Por muito terrível que nos pareça todo tipo de dores, de perseguições, de adversidades, de incompreensões, tudo isso é nada ante a eternidade feliz que Deus tem preparado para seus fiéis, para seus filhos. Suportemo-lo tudo como o fez com infinita perfeição nosso Santíssimo Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Virgem Maria.

―"Sol de Fátima" publica o testemunho de Frei Daniele, companheiro inseparável do Padre Pio. Este interessante relato sobre a experiência de Frei Daniele e o purgatório, e posterior ressurreição, foi transformado em livro pelo Padre Remigio Fiore, cujo título é, em italiano, ―Omagio a Fray Daniele.

Com a aprovação eclesiástica de Monsenhor Serafino Spreafico, bispo capuchinho, em 29.7.1998, Convento de Santa Maria de las Gracias, San Giovanni Rotondo Foggia.

Eis a tradução do relato de Frei Daniele, extraído do italiano.

―Tenho levado minha vida fazendo o trabalho que me correspondia: de porteiro, sacristão, pedir esmolas e cozinheiro. Com freqüência saía com a mochila às costas para pedir esmolas de porta em porta. Fazia compras todos os dias para o convento. Todos me conheciam e me queriam bem. Sempre que comprava alguma coisa me faziam descontos, e aquelas poucas liras que recolhia, em vez de entregá-las ao superior as conservava para a correspondência, minhas pequenas necessidades e também para ajudar os militares que batiam à porta do convento.

Logo depois da guerra, encontrava-me em San Giovanni Rotondo, minha terra natal, no mesmo convento do Padre Pio. Pouco tempo depois comecei a sofrer algumas dores no aparelho digestivo e fui a uma consulta médica, e o médico me diagnosticou um mal incurável, um tumor.

Pensava já na morte e fui contar tudo ao Padre Pio, o qual – depois de me haver escutado – bruscamente me disse; ―Opera-te! Fiquei confuso a reagindo lhe disse: ―Padre, não me vale a pena. O medico não me deu nenhuma esperança. Agora sei que devo morrer. ―Não importa o que te disse o médico: opera-te, porém em Roma em tal clínica e com tal professor.

O Padre me disse isto com tal força e com tanta segurança que lhe contestei: ―Sim, Padre, o farei. Então ele me olhou com doçura e, comovido, acrescentou: ―Não temas, estarei sempre contigo.

Na manhã seguinte saí de viagem para Roma, e estando sentado no trem percebi ao meu lado uma presença misteriosa: era o Padre Pio que mantinha a promessa de estar comigo.

Quando cheguei a Roma soube que a clínica era ―Regina Elena e que o professor chamava-se Ricardo Moretti. Pelo entardecer ingressei na clínica. 

Parecia que todos me esperavam, como se alguém houvesse anunciado minha chegada e me acolheram imediatamente. 

Às 7 da manhã estava já na sala de operações. Prepararam-me a intervenção. Apesar da anestesia, permaneci desperto e me encomendei ao Senhor com as mesmas palavras que Ele dirigia ao Pai antes de morrer: ―Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito.

Começaram os médicos a intervenção e eu ouvia tudo o que diziam. Sofria dores atrozes, mas não me lamentava, pelo contrário, estava contente de suportar tanta dor que oferecia a Jesus, já que aqueles sofrimentos purificavam minha alma de meus pecados. Instantes depois adormeci.

Quando recobrei a consciência disseram-me que havia estado três dias em coma antes de morrer. Apresentei-me perante o Trono de Deus. Via a Deus, mas não como juiz severo, senão como Pai afetuoso e cheio de amor. 

Então compreendi que o Senhor havia feito tudo por amor, e fazia-o por mim desde o primeiro ao último instante de minha vida, amando-me como se fosse a única criatura existente sobre a terra.

Não obstante, dei-me conta também de que não somente não havia me mudado este imenso amor divino, senão que o havia descuidado totalmente. 

Fui condenado a passar duas ou três horas no Purgatório.Mas, como? – perguntei-me – somente duas ou três horas? E depois poderei permanecer para sempre próximo a Deus, eterno amor? Dei um pulo de alegria e me senti como filho predileto. A visão desapareceu e encontrei-me já no Purgatório.

As duas ou três de Purgatório foram dadas sobretudo por havia faltado ao voto de pobreza, quer dizer, por haver conservado para mim umas poucas liras,como disse antes.

Eram umas dores terríveis que não sabia de onde vinha, mas as sentia intensamente. Os sentidos com os quais havia ofendido mais a Deus neste mundo, os olhos, a língua... experimentava muita dor e era uma coisa incrível porque ali embaixo, no Purgatório, a gente se ssente como se tivesse corpo e conhece ou reconhece aos demais como acontece no mundo.

Entretanto, embora não houvesse passado mais que alguns instantes com aquelas penas, parecia-me já que fosse uma eternidade. O que mais faz sofrer no Purgatório não é tanto o fogo – também muito intenso – mas aquele sentir-se afastado de Deus – e o que mais aflige é haver tido todos os meios a disposição para a salvação e não haver sabido aproveitar-se deles.

Foi então quando pensei ir a um irmão de meu convento para lhe pedir que rezasse por mim que estava no Purgatório. Aquele irmão ficou maravilhado porque sentia minha voz mas não me via, e me perguntou: ―Onde estás, porque não te vejo?

Insisti, e vendo que não tinha outro meio para chegar até ele, mas meus braços se cruzavam mas não chegava. Somente então dei-me conta de que estava sem corpo. Contentei-me com insistir para que rezasse muito por mim para que saísse do Purgatório. 

Mas como? – dizia para mim mesmo – não deveria permanecer somente duas ou três no Purgatório? E já transcorreram trezentos anos? Pelo menos assim me parecia. De repente se me apareceu a Bem-aventurada Virgem Maria e lhe pedi insistentemente, lhe supliquei, dizendo-Lhe:

―Oh Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, consegue-me do Senhor a graça de voltar à terra para viver e trabalhar somente por amor de Deus!

Acudi também ao Padre Pio e igualmente supliquei-lhe: ―Por tuas atrozes dores, por tuas benditas chagas, padre Pio, roga por mim a Deus para que me liberte destas chamas e me conceda continuar o Purgatório na terra.

Depois não vi nada mais ,mas me dei conta de que o Padre falava à Virgem. Alguns instantes depois se me apareceu novamente a Bem-aventurada Virgem Maria; era Santa Maria das Graças, mas estava sem o Menino Jesus, inclinou a cabeça e me sorriu. Naquele mesmo momento voltei a tomar posse de meu corpo, abri os olhos e estendi os braços. Depois, com um movimento brusco, libertei-me do lençol que me cobria. Estava contente, havia recebido a graça. A Santíssima Virgem havia me escutado.

Imediatamente depois, os que velavam e rezavam, assustadíssimos, se precipitaram para fora da sala a buscar enfermeiros e doutores. Em poucos minutos a clínica estava abarrotada de gente. Todos acreditavam que eu era um fantasma e decidiram fechar bem as portas e desaparecer, por certo temor aos espíritos.

Pela manhã seguinte levante-me e sentei-me numa cadeira. Apesar de que a porta estivesse cuidadosamente vigiada, alguns lograram entrar e me pediram que lhes explicasse o que me havia sucedido. Para lhes tranqüilizar, disse-lhes que estava chegando o médico de plantão, ao qual tinha que dizer o que me havia passado. Correntemente, os médicos não chegavam antes das dez, mas naquela manhã não eram nem sete, e disse aos presentes:

―Olhai que o médico está chegando; agora está abastecendo o carro em tal posto. Mas ninguém me acreditava. E eu continuava dizendo-lhes:

―Agora está atravessando a avenida, leva a jaqueta sobre o braço e passa a mão pela cabeça como se estivesse preocupado, não sei o que tem.

Mas ninguém dava crédito a minhas palavras. Então disse: 

―Para que me acrediteis, que não minto, os confirmo que agora o médico está subindo no elevador e está para chamar à porta.7 Apenas havia terminado de falar, abre-se a porta e entra o médico ficando todos os presentes maravilhados. Com lágrimas nos olhos o doutor disse:

―Sim, agora creio em Deus, creio na Igreja e creio no Padre Pio.

Aquele médico que antes não acreditava e cuja fé era como água de rosas, confessou que àquela noite não havia conseguido fechar os olhos pensando na minha morte, que ele havia comprovado, sem dar mais explicações. Disse que apesar do atestado de óbito que havia feito, voltava para certificar-se do fato, pois lhe sucedera naquela noite muitos pesadelos, porque aquele morto (que era eu) não era um morto como os demais e que efetivamente não havia se enganado..

Conclusão. Depois desta experiência, Frei Daniele viveu verdadeiramente o Purgatório nesta terra, purificando-se através de enfermidades, sofrimentos e dores, conformando-se sempre e em tudo com a vontade de Deus. Somente recordo algumas intervenções que sofreu: de próstata, de coliscite, aneurisma da veia abdominal com relativa prótese; uma intervenção após um acidente de rua perto de Bolonha, padecendo outras dores não somente físicas mas também morais.

À irmã Felicetta, que lhe perguntou como se sentia de saúde, Frei Daniele, confidenciou: ―Minha irmã, faz mais de 40 anos que não me lembro o que significa estar bem.

Para terminar poderia dizer que este relato de Frei Daniele é um episódio a mais que prova o amor de Frei Daniele pela Virgem. Frei Daniele faleceu a 6 de julho de 1994. Enquanto colocavam convenientemente seus restos mortais na capela da enfermaria do convento dos irmãos capuchinhos em San Giovanni Rotondo, e se recitava o Rosário em sufrágio de sua alma, a alguns dos presentes lhes parecia que Frei Daniele movia os lábios como para contestar a Ave Maria do Rosário. A voz se difundiu tão rapidamente que o superior, Padre Livio de Matteo, para ficar tranqüilo, procurou certificar-se de que não se tratava de uma morte aparente. Por este motivo fez vir da Casa Alívio do Sofrimento, próxima, o doutor Nicolás Silvestri, ajudante de medicina legal, e o doutor José Pasanella, assistente também de medicina legal, os quais fizeram um eletrocardiograma em Frei Daniele e lhe tomaram a temperatura, pelo qual confirmaram definitivamente sua morte. 

Agora que Frei Daniele goza certamente da visão beatífica de Deus , lá do céu, sorrir, bendiz e protege. (1)

A alguns dos presentes lhes parecia que Frei Daniel movia os lábios, como para contestar a Ave Maria do Rosário. Depois de que a alma já não estava no corpo de Frei Daniele, ainda assim, para alguns dos presentes, viam como seguia orando ao Senhor. 

―E o viram mais de um

O corpo acostumando a tanta oração, todavia, permanecia como seestivesse bem vivo, mesmo que nesse momento sua alma já gozasse da presença de Deus. Havia se convertido em instrumento de oração, ainda que sua alma estivesse livre do corpo abençoado por Deus. Conta-se também na história que tem havido pessoas que pouco antes de morrer tiveram desejos de pecar, e acabaram em ruína perpétua. Uns corpos se convertem em benção e outros em maldição. (2)


(1) SOL DE FATIMA, número 188, pagina 26-27. noviembre-diciembre, 1999

(2) Fonte: Jesus te Busca http://www.jesustebusca.com.ar/view/es/tres-horas-purgatorio.aspx

sábado, 24 de outubro de 2026

SANTO ANTONIO MARIA CLARET SEGUNDO PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA

 


 

Aconselho a todos que aqui se encontram que procurem ver na biblioteca a biografia de Santo Antônio Maria Claret, em espanhol, editada pelos padres claretianos. Ela é de certo tamanho, não é dessas pequenininhas. Eu a li quando tive que fazer uma conferência a seu respeito em Rio Claro (Estado de São Paulo), há muitos anos. Fui lendo durante a viagem para lá e me maravilhei simplesmente com sua vida!

São tantas coisas extraordinárias que se poderiam narrar de Santo Antônio Claret – como, aliás de todo o Santo cuja biografia é bem feita... e que se leia – que isto convidaria muito mais a uma conferência do que propriamente a dar umas notas resumidas.

A Santa Igreja desaconselha que se faça comparações entre santo e santo. Eu não vou dizer, portanto, que Santo Antônio Claret foi o maior santo de sua época. Mas  diria que, se é verdade que em cada período histórico existem alguns grandes santos que transcendem a todos os outros em importância segundo os planos da Providência, um desses foi certamente Santo Antônio Claret.

Foi muito mais do que fundador de uma congregação religiosa, mas um desses personagens que, ainda que não tenham tido uma ação muito profunda sobre sua época, pelo simples fato de existir, a domina completamente.

Os senhores considerem o seguinte: um homem de baixa estatura, espanholzinho, vivo, catalão apimentado, que faz, sucessivamente, as coisas seguintes: vai estudar em Barcelona, mete-se com questões de tecelagem. Por causa de seu temperamento extremamente vivo e embombante, deixa o interesse por sua vocação sacerdotal e passa um certo período envolto em questões de máquinas, teares e coisas destas, completamente absorto nisso. Praticava ainda a religião mas, verdadeiramente, estava “sabugo”. E o exemplo do “sabugo” é Santo Antônio Maria Claret nesse período de sua vida, conforme ele mesmo narra em sua autobiografia. Ele conta que ia à Missa, comungava, mas que exceto o cumprimento estrito dessas obrigações, tinha mais máquinas na “cabeça do que santos no altar”, e não pensava em mais nada. Isto é um “sabugo” e “sabugo” sinarquisado, “sabugo” com veneno.

Até que um certo dia, recebe uma graça especial e tem uma espécie de conversão que nele se opera. Neste sentido, é o padroeiro dos “sabugos”. Ele se converteu porque tinha uma grande devoção a Nossa Senhora, que o chamava para coisas muito grandes, que fez com que se reerguesse, se reafervorasse.  A partir daí, enceta a marcha ininterrupta rumo aos píncaros da santidade, que veremos mais adiante alcançar.

É ordenado sacerdote e se torna missionário. E se revela o tipo do missionário popular, com algumas características verdadeiramente eminentes. Era uma pessoa de voz possante. Se estivesse nas igrejas de hoje, não precisaria de auto-falante para se fazer ouvir. E não só pregava dentro das igrejas, que eram pequenas para acolher as multidões populares que atraía – e quero acentuar a palavra “populares” –, sendo preciso reuni-las em praça pública, onde sua voz portava longe. E eram tantas as multidões que o ouviam que, às vezes, as praças públicas não eram suficientes.

Quando se deslocava de uma cidade para outra, sua fama de orador sacro era tal que grande parte da população da cidade onde estivera o acompanhava até meio caminho. Aí então vinha processionalmente para recebê-lo a população da cidade onde ia pregar. No encontro, sermão de despedida para uns, sermão de saudação aos outros, grandes prantos, porque ele sabia despertar o dom das lágrimas em alto grau nos seus ouvintes.

Depois ia falar como orador popular muito vivo, muito interessante, muito ardente, muito profundo, muito sólido, muito substancioso, mas tomado por carismas extraordinários, e que davam origem a fatos durante as suas pregações espetaculares.

Por exemplo, ele passava e dizia: “A senhora - e apontava para uma mulher que estava em meio ao público -, a senhora pensa que não vai morrer, que vai viver não sei quantos anos, mas sua morte não vai passar de... – suspense – seis meses!” Desmaio da grande interessada, naturalmente, pranto. E, muitas vezes, se cumpria.

Em outras ocasiões dizia: “Eu vou expulsar o demônio que está pairando sobre este auditório”. Pronunciava a fórmula do exorcismo e se ouvia um estrépito: raio em céu sereno, caem os sinos do campanário! E a população fica toda assim... Naturalmente, conversões em massa. Porque podemos bem imaginar o efeito de pregações dessa natureza...

Suas grandes qualidades de orador sacro, de missionário, se completavam com uma coisa curiosa: ele sabia bem que sua missão consistia em ser missionário; nunca quis se dar a teólogo profundo, ser orador de alto vôo, ser algum padre Antônio Viera, algum Bossuet, Bourdaloue... Mas compreendeu que era nascido para falar para o povo, e assim fazia. Dava um exemplo edificante em relação, por exemplo, a certas ordens religiosas que são feitas para converter e formar gente do povo através de uma oratória popular esplêndida, e está acabado.

Muito interessante, por outro lado, é o seguinte: os “democratas cristãos” daqueles tempos diziam que era impossível conduzir o povo para posições contra-revolucionárias, e que era preciso inventar métodos de apostolado completamente novos porque os antigos não davam resultado. Sem embargo, ele alcançou um resultado fabuloso manejando destramente o método antigo.

Assim, ele dava a resposta a essa gente: “Vocês não têm resultado nos métodos de apostolado antigo que pregam. Yo lo creo! Com os novos também não terão, mas é porque vocês não prestam”... É, mais ou menos, como alguém que está cantando no rádio e que diz: “Eu não canto bem por causa do alto-falante”... Não é! Você é desafinado. Pondo o alto-falante, de qualquer jeito sai uma bobagem.

Santo Antônio Claret compreendeu muito bem uma outra coisa: que ele era  homem feito para suscitar zelo, mais do que para coordenar o zelo que tinha suscitado. E, por isso, passava pelas províncias despertando, por toda parte, o amor de Deus, deixando que outros pegassem aquela semente, pegassem aquele fogo e o aproveitassem para outra finalidade. Quer dizer, modelo de desprendimento, sem  preocupação de colher para si, mas plantando para que outros colhessem.

Ao mesmo tempo que continuava a desempenhar uma missão muito grande como missionário em toda a Espanha, foi durante esse período que teria fundado a Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria. A designação da congregação está toda relacionada com a devoção ao Imaculado Coração de Maria, da qual tenho tratado aqui em outras oportunidades e que não preciso me estender a respeito desta matéria. 

              É nomeado Arcebispo de Cuba, onde começa uma verdadeira conversão da ilha que era nascente. Os inimigos da Igreja Católica começaram a lhe desencadear uma intensa ação contrária, pois provocava a emenda dos costumes e conversões. Sofre uma série de atentados e oposições tão fortes que a rainha da Espanha teve que afastá-lo da ilha por causa exatamente disso.

Estando ainda em Cuba, profetizou o terremoto e a peste que lá aconteceriam, como de fato sucedeu.

Foi transferido, pelo Papa, de Arcebispo de Santiago de Cuba, para Patriarca da Índia e Capelão da Corte Real de Madri, mas cujo título não tinha qualquer relação com as Índias, tratando-se de algo meramente convencional.

            Acaba sendo o confessor da rainha Isabel II, que pertencia ao ramo liberal da casa real espanhola, estando em luta contra os carlistas (fiéis ao pretendente ao trono Carlos María Isidro de Borbón "en nombre de Cristo Rey").

Como sempre acontece com esses ramos liberais, a razão de ser deles é de fazer o jogo da Revolução. E quando não o realizam, a Revolução os joga logo por terra. E a rainha se prestava ao jogo da Revolução. Mas em contato com Santo Antônio Claret, ela foi aos poucos se modificando, tornando-se antiliberal. De tal maneira seguiu uma política contrária aos intuitos da Revolução que acabou sendo exilada para a França, bem como seu santo confessor. Foi Santo Antônio Claret que provocou, pelo seu zelo, esse “terremoto” na Espanha.

Foi uma grande vitória para a boa causa que Isabel II fosse, por essa forma, deposta. Porque a Revolução não queria fazer sua república na Espanha naquela conjuntura, porque ainda era cedo. A Revolução queria por uma monarquia constitucional, mas foi obrigada a antecipar sua república. E isto lhe acarretou muitas cristalizações na opinião pública. E, pouco tempo depois, a monarquia teve que ser restaurada. Essa república revolucionária teria triunfado na Espanha de modo definitivo se não fosse a atuação de Santo Antônio Claret.

            E se dá o Concílio Vaticano I. Ele estava com a saúde alquebrada, doente, aureolado pelas mais altas graças que uma pessoa possa ter. Por exemplo, a partir de 1861, o Santíssimo Sacramento não Se deteriorava dentro dele de uma comunhão a outra, sendo um sacrário vivo, como Nossa Senhora teve Jesus vivendo n’Ela durante o período da encarnação e da gestação.

Assiste indignado, no Concílio Vaticano, algumas tiradas de alguns bispos contra a infalibilidade papal. E ele, que não era teólogo, levanta-se e faz um famoso discurso defendendo a infalibilidade.

Dois anos mais tarde (em 1870), faleceu no exílio, no mosteiro cisterciense de  Fontfroide, na França, pois tivera de fugir de seus perseguidores que queriam prendê-lo e levá-lo à Espanha para julgá-lo e condená-lo.

Ele é nosso patrono, enquanto patrono dos “sabugos”. É nosso patrono, enquanto patrono dos que são fiéis e que correspondem à graça. É nosso patrono, enquanto promovendo a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a Nossa Senhora intensamente durante toda a sua vida. É um modelo e patrono, enquanto lutador contra Revolução na Espanha. É um modelo e patrono para nós, enquanto exemplo de que, nas camadas populares – ao contrário do que pretende a Revolução – uma pregação verdadeira, boa, ultramontana, cabe perfeitamente. E ele é nosso patrono, enquanto devoto da Santa Sé Apostólica.

Todas estas razões nos levam, amanhã, a confiar, de um modo particular no patrocínio dele e lhe pedir graças muito especiais.

(Conferência "Santo do Dia", 23 de outubro de 1964)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

UMA VÍTIMA EXPIATÓRIA EXORCÍSTICA ESPECIAL


SERVA DE DEUS MARIA DE LOS DOLORES Y PATROCÍNIO E A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO TRIUNFO


Quando analisamos a vida da Beata Ana Catarina de Emmerich, notamos que foi uma vítima expiatória que exorcizou as forças secretas e maçônicas de seu tempo, até mesmo descobrindo e revelando suas tramas diabólicas. 

Vivemos no século XIX uma época em que o corpo místico do demônio possuía enorme poder e desferia golpes incríveis contra a Igreja. Por causa disso, Deus suscitou algumas almas com vocações especiais de se tornarem vítimas expiatórias cujo resultado final era frustrar os planos do demônio. Uma delas foi o Papa Pio IX, eleito como uma esperança de maçons e socialistas, mas cujo pontificado foi o oposto, sendo vítima de perseguições cruéis das forças secretas, mas deferindo rudes golpes contra o corpo místico do demônio. 

Destaca-se dentre tais vocações, semelhante a de Catarina de Emmerich (1774-1824), a de Soror Maria de los Dolores y Patrocínio, a qual viveu na mesma época (1811-1891), um pouco depois, enfrentando por mais tempo os problemas da Igreja de que falamos. Do mesmo modo que Catarina de Emmerich, Maria de los Dolores recebeu os estigmas das chagas da Paixão de Cristo e sofreu durante toda a sua vida terrível perseguição, além do próprio demônio, também de seu corpo místico representado pelas seitas secretas maçônicas daquele tempo. 

Trata-se de uma alma privilegiada, e scolhida por Deus para ser vítima expiatória numa época de grandes crises morais e de fé. O principal motivo de sua vocação, o que mais ela sofreu, foi uma intensa e contínua perseguição pessoal do próprio demônio. 

Isso já se nota desde o seu nascimento. Seus pais fugiam da guerra (em 1811) na ocasião em que sua mãe estava grávida prestes a nascer a criança. Na aflição da fuga, a mulher terminou entrando num lugar ermo, onde nasceu a criança, estando a mãe sozinha sem ninguém que a socorresse. Após o parto, porém, a mãe deixa a recém-nascida abandonada naquele ermo e continua sua fuga. A Providência, porém, já protegia aquela criança de uma forma singular: seu pai, passando por perto, ouviu como que sua voz pedindo ajuda, foi ao local e pegou o bebê, salvando-a da morte certa. Logo ele descobriu que a mãe fez aquilo por maldade, pois nunca amou a filha e até, algum tempo depois, tentou matá-la envenenada, e também auxiliando o trabalho de perseguição à filha quando a tiraram do Convento à força para exílios ou mesmo, simplesmente, para afastá-la de sua vocação. 

Sendo criada por uma mãe tão má, era preciso que a Providência determinasse outras pessoas de grande virtude para educa-la. Nisso se destacou muito seu próprio pai, algumas parentas e a madrinha, os quais fizeram tudo para lhe dá uma esmerada educação religiosa, pois eram de família nobre. 

Recebeu sua primeira comunhão quando tinha apenas 6 anos de idade, o que não era comum naqueles tempos. Já no início da adolescência, perto dos 15 anos, a mãe procurou induzi-la a um casamento, mas foi recusado pela mesma. 

Nesse caso houve auxílio de seus parentes interferindo junto à mãe, do que resultou a ideia de interna-la num convento para estudar, o Convento das Comendadoras de Santiago, em Madrid. Três anos depois, em 1829, a 19 de janeiro, vestia o hábito da Ordem Concepcionista (fundada por Santa Beatriz) no convento do Cavaleiro da Graça. Os votos solenes foram feitos no ano seguinte, no dia 20 de janeiro. Segundo seus biógrafos adotou o nome religioso de Maria de los Dolores de San Rafael, acrescentando depois o nome de Patrocínio após uma aparição de Nossa Senhora. Lembremos que o Arcanjo São Rafael, conforme referido no livro de Tobias, exerceu especial vocação exorcística, expulsando no final o demônio que atribulava a futura esposa de Tobias filho. 

No mesmo ano em que fez os votos, ainda noviça, em 30 de julho de 1829, recebe pela primeira vez os estigmas das chagas de Cristo, desta vez, as de Seu Costado. No ano seguinte, no dia 20 de maio, recebe as chagas de pés e mãos. Pelo fato de sua família ser de origem nobre e ter relações na corte, as notícias sobre seus estigmas chegaram aos olhos das forças secretas como uma guinada mística muito forte no país, principalmente porque tramavam eles derrubar a realeza e implantar uma república e sempre fazem isso combatendo também a Religião Católica naquilo que ela tem de mais sagrado. Cinco anos depois se iniciam as perseguições das forças secretas contra a santa. Sua fama de santidade incomodava os revolucionários maçons e o demônio os inspirava tal perseguição por ódio ao papel que ela desempenhava junto à Providência Divina, reparando os pecados e combatendo o corpo místico do demônio. 

A Espanha atravessava convulsões políticas. Em 1833 falece o rei Fernando VII e deixa a jovem esposa como regente, a qual passa a coroa para sua filha Isabel II, com apenas 3 anos de idade. Logo eclodem guerras pelo trono, movidas especialmente pelo irmão do rei falecido, D. Carlos. Aproveitou-se a maçonaria do ambiente de instabilidade para iniciar a perseguição religiosa. 

Nesse período (1835-1836), o “Ministro de Gracia e Justicia” deu ordem ao Juiz, Sr. Cortázar, para que processasse Soror Patrocínio sobre “uma impostura artificiosa e fanática e uma tentativa de sublevar o Estado e favorecer à causa do príncipe rebelde”. (1) Um dos principais dirigentes dessa perseguição pelo menos em sua primeira investida, era Salustiano Olózaga, chefe do Partido Progressista, deputado e tutor da rainha, braço direito de um ministro da corte, chefe da Milícia Nacional e do Conselho Nacional da Maçonaria. 

Usaram para isso de muito aparato de autoridades civis e eclesiásticas, médicos e outros, sobre o fenômeno das chagas e algumas visões, que se haviam difundido de forma que podiam ser prejudiciais aos interesses da coroa reinante (2). As forças secretas tiveram, então, o apoio de sua própria mãe e uma irmã, que tentavam fazer com que Soror Maria de Los Dolores renunciasse à vida religiosa. Tiraram-na do Convento sob ordem judicial e civil e em seguida  levaram-na para uma casa particular, e mais tarde para outro local, a “Casa das Arrependidas de Santa Madalena”, em Madrid, espécie de albergue onde se recolhiam moças destinadas à correção da vida por causa do pecado contra a virgindade. Aí permaneceu até 26 de abril de 1837, quando foi transferida para o convento das Concepcionistas Calçadas. 

Perseguição do corpo místico do demônio 

No início das perseguições diabólicas contra a freira era o próprio demônio que as fazia. Certo dia, porém, o mesmo foi exorcizado por Nossa Senhora, mas, prometeu que continuaria a perseguição através dos homens, isto é, de seu corpo místico. Assim o relata uma biógrafa da Madre Patrocínio: 

“No dia 13 de agosto de 1831 (Foi tradicional em nossa Comunidade esta data da aparição, e a confirmou antes de morrer a mesma Serva de Deus) estando minha Reverenda Madre Soror Maria de Los Dolores y Patrocínio no coro, na oração da Comunidade, entre cinco a seis da tarde, se lhe apareceu a Santíssima Virgem, numa formosíssima e resplandecente nuvem, cercada de Querubins e a apresentou uma preciosa imagem sua, que levava o glorioso Príncipe São Miguel com o título de Olvido, Triunfo e Misericórdias. A Virgem Santíssima lhe disse que aquela imagem vinha enriquecida com muitas graças e privilégios para seus verdadeiros devotos, que cuidasse de lhe dar culto, que a deixava na Comunidade. Disse também que, desde então, tirava a permissão a Satanás para atormentá-la por si mesmo. 

E pusera a figura do dragão amarrado aos pés da Sagrada Imagem, que Ela mesma a atara com uma cadeia e pusera esta nas mãos da Santa Imagem em sinal de que ficava sujeito. O demônio, furioso, desceu aos abismos, assegurando a minha venerada Madre que já não podia persegui-la por si – como o havia feito até então de uma maneira terrível -, o faria através dos homens, e não somente em vida senão depois de morta a perseguiria também. 

Durante esta admirável visão, o Príncipe São Miguel colocou a Sagrada Imagem no altar do coro, ouvindo a celestial música dos anjos a exemplaríssima religiosa Soror Maria Juana da Santíssima Trindade e outras duas outras religiosa; porém, ignorando o que sucedia, para elas invisível, guardaram por então o mais profundo silêncio” (3)

Evidentemente que, tudo isso, levando-se em conta também a atuação da Divina Providência, mas que esta a depender, por decisão divina, da atuação do Corpo Místico de Cristo aqui na terra. 

Um exemplo do modo como era atormentada diretamente pelo demônio, está nesse trecho de uma biografia deixada pela Madre Pilar: “Escrever tudo o que ocorreu durante esta permissão que teve o demônio para atormentá-la é quase impossível; porém, embora somente ela mesma poderia declará-lo, pelo pouco que diga pode-se conhecer quanto seria o que sofresse interiormente; pois permitiu Deus que viéssemos e tocássemos por dizê-lo assim coisas tão raras e pouco frequentes. Os golpes e ruídos que o demônio fazia no Convento eram grandes, e no coro, entrando ela, maiores; parecia que, se iniciando o Ofício Divino, tocavam o alarme; e, em sua cela e nas vizinhas davam uns golpes tão fortes nos caixões que causavam perturbação e por todas as partes havia ruídos; se ouvia como falar; porém tão raramente, tantas sombras, enfim, tais coisas que a Comunidade chegou a acovardar-se; porém o mais doloroso eram os golpes que dava este cruel inimigo de dia e de noite nesta criatura; não a deixava sossegar em nenhum momento. 

A víamos tão formosa e com aquela graça natural que tem, e logo se notava como uma mudança triste; íamos vê-la e já estava cheia de cardeais. Outras vezes, se ouviam claramente as bofetadas; e embora não víssemos quem as dava, víamos no seu rosto o sinal. Debaixo de seus pés sempre estavam dando golpes; e quando se deitava soavam debaixo de seu corpo. A todas as horas, se  lhe punha diante; e ela só poderá dizer como e em que figuras e sempre atormentando-a” (4)

Piores perseguições viriam depois através do maldito corpo místico do demônio, assumido pelas seitas secretas. O pai dela era da nobreza e tinha relações próximas com os reis ou rainhas daquele tempo. Isso aproximou a corte real da Madre do Patrocínio e, como a vinham ver no convento, deduziam que ela influenciava decisões reais. Com base nesse pressuposto eram movidas as perseguições que duraram todo o resto de sua vida. Havia também tremenda trama para derrubar a monarquia e implantar a república, (como ocorreu na França em 1789), fato consumado na Espanha daqueles tempos, mas com pouca duração. As forças secretas imaginavam, inspiradas pelo próprio demônio, que Madre Patrocínio dava orientação aos reis e atrapalhava os ideais republicanos. É provável que, por inspiração divina, ela tenha dado salutares  conselhos, mas não há como sabe-lo, a não ser em matéria explicitamente religiosa. 

Um dado registrado por seus biógrafos sobre sua influência na corte: 

“A respeito da relação da Irmã Patrocínio com Isabel II, a Infanta Eulália, filha da rainha, relata: “Muitas vezes ouvi minha mãe falar de como o Padre  Claret (5) , seu confessor e figura de grande influência próxima a ela, e a freira Irmã Patrocínio (...) sugeriram que ela se aproximasse de Pio IX para solicitar a declaração do novo dogma. Minha mãe, muito religiosa (...) conseguiu que outros soberanos católicos o assinassem com ela e também intercedessem em seu nome junto ao Pontífice”. A Infanta se refere ao dogma da Imaculada Conceição de Maria, definido em 8 de dezembro de 1854. A Irmã Patrocínio, portanto, passou a ter influência teológica por meio de suas altas conexões sociais. 

A respeito da inocência da Madre Maria Dolores em torno do tema político ou de governo, eis a resposta dela a uma pergunta de um inquiridor: 

“...Os Reis, segundo todos os sinais, são piedosos e não deixariam de fazer tudo quanto possam; e assim anime-as Você, que Deus pode mais do que todo o Inferno junto. Veja Você o ano passado, durante meu desterro, quem imaginaria então que tudo aqui havia de resultar em tanto bem; e que aquilo, sabendo os Reis de nenhuma parte que eu tinha nos transtornos do Governo lhes havia de servir de desengano tal que eles mesmos me dizem não terem acreditado no que ocorreu. 

Deus permitiu aqueles sucessos porque assim convinha; digo porque nosso entendimento é muito limitado e não miramos os males de aparentes penas, mas que com uma olhada triste, e Deus quer nisso nosso maior bem”.

As perseguições dirigidas pelas forças secretas contra a Madre duraram até o fim de sua vida, não havendo, aparentemente, nenhum motivo político pois ela não interferiu nunca nesses assuntos. Desde a violenta expulsão de seu próprio convento até exílios ela sofreu.

Houve, também, duas tentativas de assassinato. Uma delas ocorreu logo depois do rei dá licença à freira transferir-se com suas discípulas para um convento apropriado, em 29 de outubro de 1845. 

O bandido pediu para falar com ela no locutório do convento, e quando ela ali surgiu juntamente com a Madre Superiora o sujeito atirou para matá-la, não logrando êxito porque Deus não o permitiu. Alguns anos depois, em outro convento, houve outro atentado, também frustrado. 

 A respeito de tais perseguições, assim comenta uma sua biógrafa: “Pouco durou sua ditosa felicidade e paz das religiosas; pois não satisfeitos seus inimigos com as perseguições levadas a efeito contra minha amada Madre na época passada de seus desterros, em seus desejos de vingança, ao vê-la alegre e com pleno gozo de seu amado retiro, se valeram de uma mudança de Ministério para atribuí-lo à sua vítima; a qual ocupada somente em suas ocupações de religiosa e no cumprimento mais exato de sua santíssima Regra e Constituições, nem entendia de tais assuntos, nem atendia a eles, nem sabia que tal mudança havia ocorrido”.Novamente a desterravam de seu convento, sendo que, algum tempo depois, do próprio país, pois foi forçada a refugiar-se na França. 

Visões sobre a “bagarre” e “grand retour” 

A Serva de Deus teve várias visões místicas, destacando-se duas, entre elas, por nos remeter aos dias atuais. A primeira foi a aparição ocorrida em 13 de agosto de 1831 de Nossa Senhora sob a invocação de “Nuestra Señora del Olvido, Triunfo e Misericórdias”, quando a própria Virgem Santíssima lhe deu uma imagem dessa invocação, pedindo que seja venerada e a seguinte mensagem: “Ela será consoladora do mundo e todo afligido encontrará em mim pela mediação desta imagem o consolo. A alma que rendida a seus pés me pedisse alguma coisa jamais se lhe negará meu amor. Será o consolo do mundo e a alegria da Igreja Católica e, por seu intermédio, meu Filho e eu receberemos culto. Tu, filha minha, alcançarás vitória do poder de Satanás e tua comunidade perfeição em servir-Me”.

A Virgem Santíssima estava acompanhada de São Miguel Arcanjo, Serafins e Querubins, mostrando todo seu poder celeste. 

A segunda visão, a que nos referimos, foi a seguinte, ocorrida no dia de Santo Agostinho do ano de 1835: 

“No dia de Santo Agostinho do ano de 1835, no momento em que a Comunidade ia se recolher deixando a reverenda Madre em sua cama no chão, teve um êxtase admirável, uma visão muito misteriosa no conceito da Reverenda Madre Pilar que a presenciou, por algumas palavras muito soltas que ouviram e pelo que a mesma Madre, obrigando-a a falar, pôde revelá-la. Parecia que via uma grande batalha; a Rainha dos Anjos sentada com seu Divino Filho na figura de um Menino dormindo; a quatro doutores da Igreja e a muitos personagens, dois detrás de um leão que aparecia sentado com uma cruz na frente. A luta era contra outro leão, que depois se converteu em serpente. O leão assinalado com uma cruz estava como quem não pode se mover, e, a princípio, só movia a juba e alguma pata, mas sempre permanecia imóvel apesar dos esforços de seu contrário. Quando alentava o leão da cruz para o Menino Deus que tinha a Virgem em seus braços, despertava este e então cobrava o leão novos brios e pelejava com mais força. Por fim, tomou a Senhora a seu Doce Menino dormido e o pôs sobre o leão da cruz, e então foi feita a vitória; e os dois personagens que estavam detrás do leão, um deles com uma cruz, se uniram e tudo foi alegria e louvor a Deus”.

A visão dos dois leões nos levam a considerar o confronto entre os dois corpos místicos, o do demônio e o de Cristo, sendo que o primeiro logo se vê que era a própria serpente e não um leão, enquanto o segundo, o de Cristo, traz consigo a Cruz e é animado pelo Menino Jesus, que exorcizou todos os demônios que dominavam os ídolos quando a Sagrada Família passava por aqueles templos indo para o Egito. Tudo nos leva a crer que os acontecimentos que envolvem os últimos tempos sejam decorrentes desta luta entre estes dois corpos místicos. 

Últimos anos de sua vida 

Com o restabelecimento da monarquia em 1874, Afonso XII ascendeu ao trono e ela retornou à sua atividade religiosa sem perseguição governamental. 

Fundou dezenove conventos e faleceu no Convento do Carmo de Guadalajara, “sem a menor agonia”, em 27 de janeiro 1891 perto de completar os oitenta anos de idade e com 62 de vida religiosa.. Seu processo de beatificação teve início em 1907.


NOTAS:

(1) - Diziam que ela estava favorecendo D. Carlos, o rebelde irmão do rei falecido, pelo simples fato de, dentro de um convento, ter visões de Nossa Senhora e aparecer com os estigmas da paixão de Cristo. 

(2) Fizeram algo parecido com Catarina de Emmerich na Alemanha: autoridades maçônicas enviaram uma “comissão” de médicos e naturalistas com a intenção de desmascarar “o embuste”, levaram a vidente para fora do convento, em outra casa, e a mesma foi  rigorosamente observada, de 7 a 29 de agosto de 1819, sem que tais “autoridades” tenham descoberto nenhum logro, mas comprovando a realidade mística dos fatos, mesmo não a reconhecendo oficialmente. 

(3) - Fica demonstrado, no relato acima, que a vítima expiatória agora passaria a sofrer pelo exorcismo do prolongamento do demônio, ou seja, seu corpo místico, que atuava na época através principalmente das forças secretas como a maçonaria. É provável que até hoje perdure tal perseguição, pois ele disse “até depois de morta”. Daí a pouca divulgação de sua vida, e a insistência até hoje das calúnias contra ela que, provavelmente, prejudicam os trabalhos que conduzem à sua beatificação.

(4) - Os dados relatados aqui foram extraídos da obra “Vida Admirable de la Sierva de Dios Madre Patrocinio – Concepcionista Franciscana” – Escrita por Sor Maria Isabel de Jesus (da mesma Ordem e secretária por muitos anos da Serva de Deus) – Editora “Concepcionistas Franciscanas” – imprime: Ediciones Potón S. A – Guadalajara, Espanha – 1991 – página 49 e seguintes).

(5) - Santo Antonio de Maria Claret era confessor da rainha. 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

MORTE DE SANTO ODILON


(Comentários de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a morte de Santo Odilon, monge beneditino na abadia de Cluny. Foi o quarto abade de Cluny. A Igreja lhe deve o mérito da instituição da Festa de Todos os Santos. Ele viveu de 962 a 1049. Sua festa ocorre a 11 de maio).:

É para nós uma alegria ver que o grande Santo Odilon, que está na raiz de todos os esplendores da Idade Média, pertencia a essa gloriosa família de almas, da qual nós desejamos ser continuadores, embora apagados. 

“Na hora das Vésperas, os irmãos levaram seu leito diante do altar de Nossa Senhora...” 

Isso é quando ele estava doente para morrer. 

“Ele encontrou ainda um resto de forças para entoar os Salmos. A emoção e a tristeza acabrunhavam os monges beneditinos. Eles erram na salmódia, mas imediatamente o Abade retifica o erro e prossegue o canto. 

“Fica um momento a sós, em oração, após o Ofício. Depois, é reconduzido novamente à enfermaria. Ele se preocupa do que fazem os irmãos porque era sábado: receava que a hora em que eles costumavam lavar os pés fosse deixada para uma hora muito avançada, pois a noite já caía”. 

A Regra marcava um hora para cada ato do dia.  

Síntese de sua vida 

”Ele descansou um instante. Quando voltou a si, estava sem forças. 

Ajudaram-no a se pôr sentado sobre sua cama, mas subitamente a sua cabeça se inclinou. 

“Imediatamente todos se aproximaram dele, e deitaram-no no chão sobre o cilício e a cinza, acendendo velas.” 

(Prof. Furquim: esse era o modo de morrer de todos os cluniacenses) 

De todos os cluniancenses, é? Vejam que beleza! 

“Com o tumulto que os monges fizeram ao se dar conta de que o Abade morria, este vendo que eles davam livre curso ao seu pesar, acordou e ainda fez sinal de silêncio, e perguntou onde estava. 

‘Senhor, vós repousais sobre a cinza e o cilício’ disseram-lhe. Ao que ele respondeu: ‘Graças a Deus!’ 

“Em seguida, perguntou se todos estavam ali. Todos o assistem. 

Pronunciou palavras ininteligíveis; alternativamente calava-se e falava. Deitou um olhar terrível rumo ao Oriente...” 

Onde estavam os inimigos da Fé Católica, os sarracenos. 

“Fixou seus olhos sobre a cruz. Sua face parecia sorrir. E enquanto seus lábios proferiam em voz baixa as palavras de uma última oração, sem nenhum abalo de seu corpo, sem manifestar a menor perturbação na harmonia de seu ser, com seus olhos fechados, adormeceu na paz. Era a primeira Vigília do primeiro Domingo de janeiro.” 

Os Srs. vêem que não podia uma morte ser mais impressionante e mais bonita! Aí é que a gente compreende que morrer é nascer. Porque isso não é propriamente morrer; isso é nascer para uma outra vida! 

Noção do dever que o acompanhou até o fim de seus dias 

O que é muito bonito e impressiona especialmente aí é como a noção do dever que esse santo tinha, e que o acompanhou em todos os atos de sua vida e até na hora da morte! 

Os Srs. o considerem sendo conduzido já muito doente, junto a um altar de Nossa Senhora. Junto a esse altar ele ainda participa da salmódia, mas com tanto senso do que dever que os monges, perturbados ao ver que o Abade  estava morrendo, erram. Entretanto o Abade tem de tal maneira o senso da Regra, o senso da ordem, que não se perturba e os corrige. 

Quer dizer, ele que era o moribundo, estava mais “compos sui”, mais senhor de si do que todos os outros. E caminhava de encontro à morte com um passo que tinha uma nobre e natural firmeza. Ele estava como todos os dias, embora estivesse morrendo, embora os seus filhos já não aguentassem mais. 

Mais ainda: ele presenciava naturalmente um vaivém muito grande e achava natural que seus discípulos quisessem estar consigo à última hora... porém a preocupação da Regra não o abandonava. E então perguntou: vós não estais adiando a hora em que devem lavar os pés? 

Na Idade Média, as estradas eram muito poeirentas e ascircunstâncias pediam cuidados assíduos nesse sentido. E havia no Ordo quotidiano do mosteiro uma ocasião para isso. Era sábado e devia ser feito isso. Então, perguntou se eles não iam atrasar com essa obrigação, porque os atos da Regra não podiam ser atrasados. 

Depois quando ele percebe que o processo de agonia estava indo mais adiante, pergunta se todos estavam presentes para assistir a morte. Porque é, com certeza, uma disposição da Regra. Todo o mosteiro deve estar presente para assistir a morte do Abade.

(Plínio Corrêa de Olivieira - Santo do Dia, 13 de outubro de 1972 - Comentários sobre a obra do Pe. Jardet, "Saint Odilon, abbé de Cluny – Sa vie, son temps, ses oeuvres", Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898).