terça-feira, 12 de maio de 2026

NOSSA SENHORA, RAINHA DA HISTÓRIA

 

                                                     (Revista Dr. Plínio n. 305, agosto de 2023)



Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

 

A História tem necessidade de um unum

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morrerem ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu  nem de quem o sucedeu. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado, etc., Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História de se desenvolve, ela não forma um todo.

 

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é a Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de  países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coréia e o Japão, a Coréia e a China, a China e o Japão – relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos – não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”[1] americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros – porque serão amados por Deus -, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

 

Post-scriptum marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima  como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a “post-História”.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar-se – por causa d’Ela e não devido a nós -, a História terá a sua “post-História”. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa “post-História”, que é o fecho de ouro da História do mundo.

 

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais que eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História – e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? -, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de moto tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel – que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu -,os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é a Rainha desse “unum”?

 

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais;  e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos – os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus -, entretanto, temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se  põe no cento de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

 

O homem simboliza melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo – corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas  no equilíbrio do universo -, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lúmen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar de um padrão especial de beleza.

 

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nessa linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza:  nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós.  E apareceria o Homem ultra-arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

 

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável,  a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História...

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela – por quanto tempo não se sabe -, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria  então – eu emprego um termo moderno e desdourado – uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano – podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! – levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre os homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem-Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

 

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub-História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o ultimo justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra-se? Lembra-se?”

 

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram... O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria. Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a atura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento.  E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a “post-História’, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encantos paradisíacos de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é a Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a história noturna, porque longe do Sol de Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará-los para aquela hora de bem-aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da alma do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo  magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é esse: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter-se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

 

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

 

Maria Santíssima dirige a História...

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele fez pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que os homens fazem e, por assim dizer, corrigir – se a palavra “corrigir” não fosse inadequada-, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: ”Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá...”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível – hesito diante do termo – fazer a História tão bela como ela é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também,  para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede”. E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

 

... e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso, a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Nossa Senhora é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

 

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a ume pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

- O que você viu?

- Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido”.

O modo de relacionar esse granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral, O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter-relação do agir da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único do pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra-Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra-Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser rainha dessa rebeldia, a não ser nesse sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre essa reunião, e faça com que produza frutos de  salvação para nós e dê glória a Ela. (Extraído de conferência de 3/4/1982).[2]

 

 



[1] Selva

[2] Revista “Dr. Plínio” 164, novembro de 2011, páginas 6/13


domingo, 10 de maio de 2026

DECLARAÇÃO DE DR. PLÍNIO SOBRE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO DE GENAZZANO

 



(Revista "Madre del Buon Consiglio", editada pelos padres Agostinianos de Genazzano (Itália),  julho-agosto de 1985, p. 28)


Há tempos estávamos surpresos e admirados por ver, com freqüência, jovens estrangeiros recolhidos em profunda oração na capela de Nossa Senhora. Um belo dia quisemos conhecê-los, perguntando porque vinham com tanta assiduidade a nosso Santuário. Disseram-nos sentir-se muito atraídos pela belíssima Imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, que se manifestara com especiais favores ao fundador de sua Associação: Plinio Corrêa de Oliveira. Exprimindo-lhes nosso desejo de ter em mãos um atestado do fato, o Senhor Plinio teve a amabilidade de nos enviar, do Brasil, a seguinte «Declaração»:


Declaração


“Em dezembro de 1967, tendo eu 59 anos de idade, fui acometido de violenta crise de diabetes. Daí resultou uma gangrena no meu pé direito, o que levou o cirurgião incumbido de meu caso a fazer a amputação dos quatro artelhos menores.

Tal medida não foi tomada sem hesitação, pois receava ele fundadamente que essa gangrena se propagasse pelo pé, tornando então necessária uma amputação bem mais ampla.

Em tal caso, não seria preferível proceder de vez a essa amputação maior?

Continuei hospitalizado, sob inspeção médica.

Ora, sucedera que, algum tempo antes desses fatos, eu me pusera a ler incidentemente o livro "La Vierge Mère du Bon Conseil", de Mons. Georges F. Dillon (Desclée de Brouwer, Bruges, 1885). E, durante a leitura, experimentava em minha alma uma sensível consolação.

Tendo viajado para a Itália antes que eu adoecesse, meu amigo, Dr. Vicente Ferreira, teve este a gentileza de me trazer de Genazzano uma estampa representando o venerando quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho. Essa estampa me chegava no momento de uma provação espiritual que me fazia sofrer muito mais do que a enfermidade física.

Desde 1960, era eu Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Circunstâncias que não vêm a propósito mencionar, davam-me a certeza de estar nos desígnios da Providência que essa entidade realizasse uma larga ação no Brasil e em toda a América do Sul, e ainda nos demais continentes, em prol da Cristandade.

De outro lado, estava eu certo de que meu falecimento naquela conjuntura acarretaria ruína do esforço que começava a vicejar com vigor. E que eu desejava ardentemente levar a cabo para a maior glória de Nossa Senhora, antes de morrer. Daí um estado de verdadeira ansiedade a propósito das incertezas de minha situação clínica e cirúrgica.

No dia 16 de dezembro, outro amigo, Dr. Martim Afonso Xavier da Silveira Jr., fez-me a entrega da aludida estampa, em nome do Dr. Vicente Ferreira.

Quando a fitei, tive a inesperada impressão de que a figura de Nossa Senhora, sem mudar embora em nada, exprimia para comigo inefável e maternal doçura, que Ela me confortava e me incutia na alma — não sei como — a convicção de que a Santíssima Virgem me prometia que eu não morreria sem ter realizado a obra desejada. O que me invadiu de suavidade a alma.

Hoje em dia conservo intacta essa convicção. E, pelo favor de Nossa Senhora, essa obra tem prosperado admiravelmente, autorizando a esperança de que alcance sua meta.

Quando fui agraciado com o sorriso-promessa de Nossa Senhora de Genazzano, nada disse aos circunstantes. Só muito mais tarde falei disto a amigos. Dois destes, que me faziam companhia no hospital quando recebera a estampa, ao ouvirem minha narração, disseram que haviam notado que a figura da Mãe do Bom Conselho me fitava com muito comprazimento, o que lhes chamara muito a atenção. Eles não haviam notado, porém, o sorriso promessa a que aludi.

Assinam eles comigo a presente declaração.

Graças também à Santíssima Virgem, minha saúde se recompôs então de modo a surpreender o cirurgião. E a segunda operação se tornou desnecessária.

É com o coração transbordante de amor e de gratidão à Mãe do Bom Conselho de Genazzano que escrevo a presente declaração”.


Plínio Corrêa de Oliveira – São Paulo, 10 de maio de 1985

sexta-feira, 8 de maio de 2026

MARIA É A RAINHA DOS CORAÇÕES

 

 

(Revista Dr. Plínio, n. 16, julho de 1999)

 

 Vimos como São Luís Grignion mostrou no início de seu Tratado o papel de Nossa Senhora na Encarnação do Verbo e na Redenção do gênero humano. A partir desse papel, concluiu ele que, se na Encarnação do Verbo e na Redenção do gênero humano, foi tão profundo o alcance da missão de Nossa Senhora, evidentemente deve sê-lo também na obra da salvação das almas. Vimos, então, como ele analisou as relações de Nossa Senhora com Deus Padre, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo, na geração dos membros do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que somos cada um de nós. Dessas verdades, tira ele uma conclusão quase óbvia: Nossa Senhora tem um grande poder sobre as almas.

Há uma verdade que, a bem dizer, é experimental dentro da Santa Igreja: quando uma associação religiosa vai mal, ou o andamento de uma iniciativa de apostolado está difícil, quando qualquer empreendimento santo não está despertando o interesse desejado  nem criando raízes no povo, o meio que se tem para resolver as dificuldades, o caminho a seguir para tudo resolver, é colocar essas obras sob a égide de Nossa Senhora.

O mais insigne desses exemplos é a cruzada pregada contra os albigenses. Como sabemos, eles vivam na região de Albi, no sul da França, e eram tão pertinazes, que não havia meio de os dominar. Nossa Senhora revelou então a São Domingos de Gusmão uma devoção a Ela, mediante a qual os hereges seriam subjugados. E, de fato, depois de difundida a devoção ao Santo Rosário, a heresia dos albigenses começou a ser debelada. Há ainda fatos menores, mas também muito sintomáticos.

Onde se encontra a Santíssima Virgem, tudo floresce.

As Congregações Marianas tiveram um florescimento enorme no Brasil, devido precisamente ao culto a Nossa Senhora. Toda a vida católica no Brasil foi florescentíssima no tempo em que não havia esse maldito combate à devoção a Nossa Senhora. É só minguar de qualquer forma a devoção a Ela, que imediatamente todas as coisas começam a decair.

A prova mais insigne do que digo foi o efeito letal que produziu o jansenismo na França., no século XVIII. Essa heresia, como sabemos, combate a devoção a Maria Santíssima. Foi suficiente que o jansenismo começasse a se lançar nesta sanha anti-marial diabólica para que a vida espiritual deperecesse nas paróquias atingidas pela heresia. As estatísticas que, já naquele tempo, se faziam com regularidade, mostram o número assombroso de comunhões que decrescem, de batizados que escasseiam, de casamentos que decaem, e assim todos os demais índices de vida religiosa passam a exprimir um deperecimento.

Qual a razão? Nossa Senhora fora eliminada da vida religiosa!

Esta verdade se põe com a clareza de uma constatação de laboratório, onde a demonstração da eficácia de um corpo faz-se colocando-se o corpo em presença de outro; passa-se, então, certo fenômeno; tirando-se o corpo, o fenômeno deixa de produzir; sendo colocado de novo, volta a se repetir o fato. Daí se deduz que aquele corpo é causa daquele fenômeno. Assim também com a devoção a Nossa Senhora: onde há devoção a Maria, tudo floresce; extinta dessa devoção, tudo mingua; restaurada novamente, tudo volta a florescer.

A razão disso é profunda e teológica. São Luís Grignion mostra que, se Nossa Senhora tem uma grande influência na geração dos membros do Corpo Místico, Ela implicitamente tem um grande poder sobre as almas, porque Ela não poderia obter a geração do Corpo Místico se não tivesse esse poder.

A devoção a Maria Santíssima age sobre as almas, e o faz de forma imensamente poderosa; por isso, as conversões mais profundas, as mudanças de espírito mais surpreendentes, as graças espirituais mais assinaladas são produzidas por essa devoção.

Em consequência, Nossa Senhora deve ser chamada a Rainha dos Corações. É uma das mais belas invocações a Ela dirigidas.

 

 

(Extraído de conferência que Dr.  Plínio fez para seu iniciante grupo de filhos espirituais em 1951, comentando o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Posteriormente, em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado internamente em forma circular.)

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O SENTIDO CONTRARREVOLUCIONÁRIO DA OBRA DE DOIS SANTOS

 

                                             (Revista "Dr. Plínio" n. 313, abril de 2024)


 



 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

A quem vê a História com olhos de Fé, e sabe discernir ao longo dela as intervenções da Providência em favor da Santa Igreja, afigura-se impressionante a coincidência e a harmonia entre as missões de dois grandes santos: S. Luís Maria Grignion de Montfort e Sta. Margarida Maria Alacoque.

 

 

Quando se formava o câncer revolucionário

 

Ambos viveram na França, em um momento de capital importância para a história do mundo. No mais profundo da sociedade francesa, os germes oriundos dos grandes movimentos ideológicos do século XVI continuavam a se desenvolver vigorosamente. Discretas ainda, as tendências para o racionalismo, o laicismo e o liberalismo se difundiam como uma corrente de água impetuosa e subterrânea, nos setores-chaves da sociedade. E o lento mas inexorável ocaso da aristocracia e das corporações de artesãos e mercadores, coincidindo com a ascensão sempre mais marcada da burguesia, preparava de longe a organização social que havia de nascer em 1789.

Em uma palavra, com longa antecedência, mas desde logo com muita força, com uma força que em breve se tornaria humanamente quase irresistível, a Revolução se vinha formando como um câncer, nas entranhas de um organismo entretanto ainda sadio.

Processos históricos como este devem ser contidos de preferência em seu nascedouro. Pois, se se permite seu desenvolvimento, tornam-se cada vez mais difíceis de jugular.

 

 

Intervenção da Providência para evitar a Revolução

 

Assim, importa ressaltar que, precisamente no momento em que uma ação preventiva parecia mais oportuna e mais eficaz, a Providência suscitou na França dois santos com uma evidente e especial missão nesse sentido. Missão que, primordial e diretamente, se dirigia à primogênita da Igreja, mas indiretamente beneficiaria o mundo inteiro. Pois, se de um lado a extinção in ovo dos germes revolucionários na França poderia ter evitado para todo o orbe as calamidades da Revolução, de outro lado um triunfo insigne da Religião, ocorrido no país líder da Europa no século XVIII, poderia ter tido na história religiosa e cultural da humanidade repercussões incalculáveis.

O reinado de Luís XIV se estendeu de 1643 a 1715. Santa Margarida Maria viveu de 1617 a 1690, e São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Como se vê, foram coetâneas do Rei-Sol tanto a ação da santa visitandina à qual o Coração de Jesus comunicou suas mensagens de amor, quanto a pregação do apóstolo angélico que ensinou a "Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem".

 

 

Sentido anti-revolucionário da mensagem de Paray-le-Monial

 

Os leitores de "Cristiandad" certamente já conhecem os pedidos feitos por Nosso Senhor, por meio de Santa Margarida Maria, a Luís XIV. Sabem que o Sagrado Coração predizia para a França grandes males, mas prometia obviá-los se seus pedidos fossem ouvidos. Sabem por fim que, não tendo Luís XIV atendido à mensagem - iludido quiçá por informações e manejos ainda hoje mal conhecidos - na prisão do Templo Luís XVI prometeu atendê-la. Mas era tarde, e a Revolução seguiu seu curso, para a desgraça de todos nós.

Destes fatos, o que nos importa reter, no momento, é que a partir do centro da França, de Paray-le-Monial, a Providência quis acender no reino cristianíssimo um braseiro de piedade e um foco ardente de regeneração moral, para evitar as calamidades que depois sobrevieram.

No mesmo sentido, entretanto, a Providência suscitava no oeste da França outro movimento.

 

 

Precursor e patriarca da Contra-Revolução

 

Como Santa Margarida Maria, São Luís Maria parece não ter tido qualquer pensamento político particular. Ele previu para sua pátria e para toda a Igreja grandes catástrofes. Mas seu olhar não se deteve senão nas esferas mais profundas em que essas catástrofes se vinham preparando. Seus escritos aludem a uma crise religiosa e moral de grande envergadura, da qual, como de uma caixa de Pandora, toda espécie de males iria sair. Para obviar esses males, ele pregava em seus inflamados sermões, ouvidos com profunda avidez pelos camponeses do piedoso Oeste, a doutrina espiritual que condensou em várias obras, das quais as principais foram o "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", a "Carta Circular aos Amigos de Cruz" e o "Amor da Sabedoria Eterna".

Bem analisados, estes três livros monumentais - e infelizmente pouco conhecidos - são a refutação de todas as doutrinas falsas de que nasceria o monstro da Revolução. Refutação por certo sui generis. As obras de São Luís Maria não visavam primordialmente persuadir os espíritos céticos, sensuais, naturalistas, de que estavam em erro. Sua principal preocupação estava em premunir contra esses erros os católicos fervorosos ou tíbios. E assim, toda a sua dialética consistia em inculcar o amor à Sabedoria, para premunir seus leitores contra o laicismo ou a tibieza; em inculcar o amor à Cruz, para premunir contra a sensualidade e o amor delirante dos prazeres os católicos de uma era essencialmente gozadora e mundana; e em inculcar a devoção a Nossa Senhora por meio da "santa escravidão", para premunir leitores expostos a todo momento às insídias desse verdadeiro calvinismo larvado, que foi o jansenismo.

Em todos os seus livros a dialética é a mesma. Ele mostra com argumentos tirados da Escritura, da Tradição, da História da Igreja e da Hagiografia, que um católico não pode pactuar com o espírito do século, e que toda posição de meio termo entre esse espírito e a vida de piedade não é senão uma perigosa ilusão dos sentidos ou do demônio.

 

 

Nossa Senhora na pregação montfortiana

 

No conjunto deste sistema, é preciso frisar que a devoção a Nossa Senhora, considerada especialmente como Rainha do Universo, Mãe de Deus e dos homens e Medianeira de todas as graças, tem um papel absolutamente central. É por esta devoção que o fiel pode alcançar de Deus a Sabedoria e o amor à Cruz. Pois Maria Santíssima é o meio pelo qual Jesus Cristo veio a nós, e pelo qual podemos ir a Ele. Quanto mais unidos a Maria, tanto mais estaremos unidos a Jesus. É nas almas marianas - intensamente, ardentemente, filialmente marianas - que o Espírito Santo forma Jesus. Sem Ela, os maiores esforços para a santificação redundam em desastres. Com Ela, o que parece inacessível à nossa fraqueza se torna acessível, as vias como que se franqueiam, as portas se abrem, e nossas forças, hauridas no canal das graças, se centuplicam. O importante, pois, é ser verdadeiro devoto de Maria.

Mas esta devoção tem contrafações. O Santo mostra quais são elas e nos premune contra os minimalistas, sobretudo os que se contentam com uma devoção vã, feita de meras fórmulas e atos de piedade externos. A devoção perfeita, ele a ensina: consiste em sermos escravos de Maria, dando-Lhe todos os nossos bens espirituais e temporais, e fazendo tudo por Ela, com Ela e nEla.

 

 

Frutos contra-revolucionários da pregação montfortiana

 

São Luís Maria foi um grande perseguido. Prelados, Príncipes da Igreja, o próprio governo, o combateram. Apenas o Papa e alguns poucos Bispos franceses lhe deram apoio. Na Bretanha, no Poitou, no Aunis, sua pregação se exerceu livremente, e perdurou através das gerações, conservadas profundamente fiéis. Quando, durante a Revolução, a civilização cristã precisou de heróis para a defenderem em terras da França, estes surgiram mais ou menos em toda a extensão do reino cristianíssimo. Mas em certa região o povo inteiro pegou em armas, numa reação maciça, compacta, impetuosa e indomável. Os chouans, cuja memória nenhum católico pode evocar sem a mais profunda e religiosa emoção, eram os netos daqueles mesmos camponeses que São Luís Maria formara na devoção a Nossa Senhora. Onde São Luís Maria pregara e fora ouvido, não houve a Revolução ímpia e sacrílega; houve, pelo contrário, cruzada e Contra-revolução.

 

 

Atualidade de Santa Margarida Maria e São Luís de Montfort

 

Pouco importa saber até que ponto os movimentos de Paray-le-Monial e da Vandéia no século XVII se conheceram. A importância de um e de outro não ficou circunscrita àquela época. Filhos da Igreja, neste trágico século XX, podemos e devemos ver ambos os movimentos numa só perspectiva, e, assim unidos, fazer deles nosso tesouro espiritual.

O nexo essencial que os liga está hoje em dia posto em tal luz, na consciência de qualquer fiel, que nem sequer é necessário insistir sobre ele. A devoção ao Coração de Jesus é a manifestação mais rica, mais extrema, mais delicada, do amor que nos tem nosso Redentor. A via para chegar ao Coração de Jesus é a Medianeira de todas as graças. E assim se vai ao Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Esta última devoção, que Santo Antonio Claret pôs em tanta luz, São Luís Grignion de Montfort, ao que parece, não a conheceu. Mas é o ponto de junção entre a mensagem de Paray e a pregação do apóstolo marial da Vandéia. Ponto de junção que, diga-se de passagem, teve tanto realce nas aparições de Fátima.

Mas ao lado desses grandes laços fundamentais há outros. Nós os compreenderemos bem, num relance de olhos, se considerarmos o que poderiam ser hoje a França, a civilização cristã, o mundo, se os movimentos de Paray e da Vandéia tivessem sido vitoriosos nos séculos XVII e XVIII. Em lugar da Revolução, com suas execráveis seqüelas que nos arrastaram até à voragem atual, teríamos o reino da justiça e da paz. Opus Justitiae pax, lê-se no brasão de Pio XII. Sim, a paz de Cristo no Reino de Cristo, da qual nos distanciamos cada vez mais.

E assim fica posta em evidência a altíssima oportunidade da mensagem de Paray e da obra de São Luís Maria. Elas nos ensinam que o fundo dos problemas que geraram a crise atual é religioso e moral. E nos indicam os meios sobrenaturais pelos quais a Revolução universal de nossos dias, filha insolente e depravada da Revolução Francesa, pode ser jugulada. É só do bom uso desses meios que podem nascer, no campo cultural, social ou político, as reações que preparam, na Terra, a Realeza de Cristo pela Realeza de Maria.

  

(Publicado pela revista "Cristiandad", Barcelona, Novembro de 1958)