Meus jovens e brilhantes amigos da
Sociedade Argentina de Defesa da Tradição, Família e Propriedade pediram-me,
para esta nova edição de Revolução e Contra-Revolução, um prólogo sobre os
pontos de contato deste livro com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima
Virgem de São Luís Maria Grignion d Montfort.
Muitos são hoje – fora dos meios
progressistas, é claro – os católicos que conhecem e admiram a obra do fogoso e
grande missionário popular do século XVIII.
Nasceu em Montfort-sur-Meu ou Montfort-la-Cane
(Bretanha) no ano de 1673. Ordenado sacerdote em 1700, dedicou-se, até sua
morte no ano de 1716, a pregar missões às populações rurais e urbanas da
Bretanha, Normandia, Poitou, Vendée, Aunis, Saintonge, Anjou, Maine. As cidades
em que pregou, inclusive as mais importantes, viviam em grande medida da
agricultura e estavam profundamente marcadas pela vida rural. De sorte que São
Luís Maria, se bem não havia pregado de forma exclusiva a camponeses, pode ser
considerado essencialmente um apóstolo de populações rurais.
Em suas prédicas, que em termos modernos
poderiam ser chamadas “aggiornate”, não se limitava a ensinar a doutrina
católica de modo que servissem para qualquer época e qualquer lugar, senão que
sabia dar realce aos pontos mais necessários para os fiéis que o ouviam.
O gênero de seu “aggiornamento” deixaria
provavelmente desconcertados a muitos dos prosélitos do aggiornamento
moderno. Não via os erros de seu tempo
como meros frutos de equívocos intelectuais, oriundos de homens de
insuspeitável boa fé: erros que por isto mesmo seriam sempre dissipados por um
diálogo destro e ameno.
Capaz do diálogo afável e atraente, não
perdia de vista, sem embargo, toda a influência do pecado original e dos
pecados atuais, assim como a ação do príncipe das trevas, na gênese e no
desenvolvimento da imensa luta movida pela impiedade contra a Igreja e a
Civilização Cristã.
A célebre trilogia demônio, mundo e
carne, presente nas reflexões dos teólogos e missionários de boa lei em todos
os tempos, ele e a tinha em vista como um dos elementos básicos para o
diagnóstico dos problemas de seu século. E assim, conforme as circunstâncias o
pediam, sabia ser ora suave e doce, como um anjo-mensageiro da dileção ou do
perdão de Deus, ora batalhador e invicto, como um anjo incumbido de anunciar as
ameaças da Justiça Divina contra os pecadores rebeldes e endurecidos. Esse
grande apóstolo soube alternadamente dialogar e polemizar, e nele o polemista
não impedia a efusão das doçuras do Bom Pastor, nem a mansidão pastoral aguava
os santos rigores do polemista.
Estamos, com este exemplo, bem longe de
certos progressistas para os quais todos nossos irmãos separados, heréticos ou
cismáticos, seriam necessariamente de boa fé, enganados por meros equívocos, de
sorte que polemizar com eles seria sempre um erro e um pecado contra a
caridade.
A sociedade francesa dos séculos XVII e
XVIII (nosso Santo viveu, como vimos, no ocaso de um e nas primeiras décadas do
outro) estava gravemente enferma. Tudo a preparava para receber passivamente a
inoculação dos germens do Enciclopedismo e desmoronar-se em seguida na
catástrofe da Revolução Francesa.
Apresentando aqui um quadro circunscrito
dela e, portanto, forçosamente muito simplificado – indispensável, sem embargo
para compreender a pregação de nosso Santo – pode dizer-se que nas três classes
sociais, clero, nobreza e povo, preponderavam dois tipos de alma: os laxos e os
rigoristas. Os laxos, tendentes a uma vida de prazeres que levava à dissolução
e ao ascetismo. Os rigoristas, propensos a um moralismo rígido, formal e
sombrio, que levava à desesperação quando não à rebelião. Mundanismo e
jansenismo eram os dois pólos que exerciam uma nefasta atração, inclusive e meios
reputados como os mais piedosos e moralizados da sociedade de então.
Um e outro – como tantas vezes sucede
com os extremos do erro – levavam a um mesmo resultado. Com efeito, cada qual
por seu caminho apartavam as almas do santo equilíbrio espiritual da Igreja.
Esta, efetivamente, nos ensina em admirável harmonia a doçura e o rigor, a
justiça e a misericórdia. Nos afirma por um lado a grandeza natural autêntica
do homem – sublimada por sua elevação à ordem sobrenatural e sua inserção no
Corpo Místico de Cristo – e por outro lado nos faz ver a miséria em que nos
lançou o pecado original, com toda sua sequela de nefastas consequências.
Nada mais normal que a coligação dos
erros extremos e contrários frente o apóstolo que pregava a doutrina católica
autêntica: o verdadeiro contrário de um
desequilíbrio não é o desequilíbrio oposto, senão o equilíbrio. E assim, o ódio
que anima os sequazes dos erros opostos não os lança uns contra outros, senão
que os joga contra os Apóstolos da Verdade. Máxime quando essa verdade é
proclamada com uma vigorosa franqueza, pondo em realce os pontos que discrepam
mais agudamente com os erros em voga.
Exatamente assim foi a pregação de São
Luís Maria Grignion de Montfort. Seus sermões, pronunciados em geral ante
grandes auditórios populares, culminaram, não poucas vezes, em verdadeiras
apoteoses de contrição, de penitência e de entusiasmo. Sua palavra clara,
chamejante, profunda, coerente, sacudia as almas abrandadas pelos mil graus de
moleza e sensualidade que naquela época se difundiam desde as classes mais
altas até os demais estratos da sociedade.
Ao final de seus sermões, frequentemente
os ouvintes reuniam na praça pública pirâmides de objetos frívolos ou sensuais
e de livros ímpios, aos quais acendiam fogo. Enquanto ardiam as chamas, nosso
infatigável missionário fazia novamente uso da palavra, incitando o povo à
austeridade.
Esta obra de regeneração moral tinha um
sentido profundamente sobrenatural e piedoso. Jesus Cristo crucificado, seu
Sangue precioso, suas Chamas sacratíssimas, as Dores de Maria eram o ponto de
partida e o término de sua pregação. Por isto mesmo promoveu em Pont-Chateau a
construção de um grande Calvário que deveria ser o centro de convergência de
todo o movimento espiritual suscitado por ele.
Na Cruz via nosso Santo a fonte de uma
superior sabedoria, a Sabedoria cristã, que ensina ao homem a ver e amar nas
coisas criadas manifestações e símbolos de Deus; a sobrepor a Fé à razão
orgulhosa, a Fé e a reta razão aos sentidos rebeldes, a moral à vontade desordenada,
o espiritual ao material, o eterno ao contingente e transitório.
Mas este ardoroso pregador da genuína
austeridade cristã nada tinha da austeridade taciturna, biliosa e estreita de
um Savonarola ou de um Calvino. Ela era suavizada por uma terníssima devoção à
Nossa Senhora.
Pode se dizer que ninguém levou mais
alto que ele a devoção à Mãe de Misericórdia. Nossa Senhora, enquanto Mediadora
necessária – por eleição divina – entre Jesus Cristo e os homens, foi o objeto
de seu contínuo enlevo, o tema que suscitou suas meditações mais profundas,
mais originais. Nenhum crítico sério pode lhes negar a qualificação de
inspiradamente geniais. Em torno da Mediação Universal de Maria – hoje verdade
de Fé – São Luís Maria Grignion de Montfort construiu toda uma mariologia que é
o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus.
Estes são os principais recursos de sua
admirável pregação.
Toda esta prédica está condensada nos
três trabalhos principais escritos pelo Santo: a Carta Circular aos Amigos da
Cruz, o Tratado da Divina Sabedoria e o Tratado da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem, uma espécie de trilogia admirável, toda de ouro e de fogo,
da qual se destaca, como obra-prima entre as obras-primas, o Tratado da
Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.
Por estas obras podemos nos dar conta da
substância da pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort.
Nosso Santo foi um grande perseguido.
Este aspecto de sua existência é realçado por todos seus biógrafos.
Um vendaval furioso, movido pelos
mundanos, pelos céticos enfurecidos ante tanta Fé e tanta austeridade e pelos
jansenistas indignados ante uma devoção insigne a Nossa Senhora, da qual
dimanava uma suavidade inefável, ergueu-se contra sua prédica. Daí originou-se
um torvelinho que levantou contra ele, por assim dizer, toda a França.
Não poucas vezes, como sucedeu em 1705
na cidade de Poitiers, seus magníficos “autos de fé” contra a imoralidade foram interrompidos por
ordem de autoridades eclesiásticas, as quais evitavam assim a destruição desses
objetos de perdição. Em quase todas as dioceses da França lhe foi negado o uso
de ordens. Depois de 1711, somente os Bispos de La Rochelle e de Luçon
permitiram-lhe a atividade missionária. E, em 1710, Luis XIV ordenou a
destruição do Calvário de Point-Chateau.
Ante esse imenso poder do mal, nosso
Santo revelou-se profeta. Com palavras de fogo, denunciou os germens que
minavam a França de então e vaticinou uma catastrófica subversão que deles
haveria de derivar. O século em que São Luís Maria morreu não terminou sem que
a Revolução Francesa confirmasse de modo sinistro suas previsões.
Fato ao mesmo tempo sintomático e
entusiasmante: as regiões onde nosso Santo teve liberdade de pregar sua
doutrina e nas quais as massas humildes o seguiram, foram aquelas em que os
chouans se levantaram, armas na mão, contra a impiedade e a subversão. Eram os
descendentes dos camponeses que haviam sido missionados pelo grande Santo e
preservados assim dos germens da Revolução.
Do nexo entre a obra mestra deste grande
Santo e o contido em nosso ensaio – tão diminuído pela comparação – é que nos
devemos ocupar.
Comecemos por expor aqui alguns
pensamentos contidos em Revolução e Contra-Revolução.[1]
Orgulho
e impureza na origem da Revolução
A Revolução é apresentada nela como um
imenso processo de tendências, doutrinas, de transformações políticas, sociais
e econômicas, derivado em última análise – estaria tentado a dizer em ultíssima
análise – de uma deterioração moral nascida de dois vícios fundamentais: o
orgulho e a impureza, que suscitam no homem uma incompatibilidade profunda com
a doutrina católica.
Com efeito, a Igreja Católica como Ela
é, a doutrina que ensina, o universo que Deus criou e que podemos conhecer tão
esplendidamente através de seus prismas, tudo isso excita no homem virtuoso,
puro e humilde, um profundo enlevo. Ele sente alegria ao considerar que a
Igreja e o universo são como são.
Mas se uma pessoa cede em algo aos
vícios do orgulho ou da impureza, começa a se criar nela uma incompatibilidade
com vários aspectos da Igreja ou da ordem do Universo. Essa incompatibilidade
pode começar, por exemplo, com uma antipatia com o caráter hierárquico da
Igreja, depois se desdobrar e alcançar a hierarquia da sociedade temporal, para
mais tarde manifestar-se em relação à ordem hierárquica da família. E assim,
uma pessoa pode, por várias formas de igualitarismo, chegar a uma posição
metafísica de condenação de toda e qualquer desigualdade, e do caráter
hierárquico do Universo. Seria o efeito do orgulho no campo da metafísica.
De modo análogo se pode delinear as
consequências da impureza no pensamento humano. O homem impuro, por regra
geral, começa por tender para o liberalismo: o irrita a existência de um
preceito, de um freio, de uma lei que circunscreva o transbordamento de seus
sentidos. E, com isto, toda ascese lhe parece antipática. Dessa antipatia,
naturalmente, vem uma aversão ao próprio princípio de autoridade, e assim
sucessivamente. O anelo de um mundo anárquico – no sentido etimológico da
palavra – sem leis nem poderes constituídos, e no qual o próprio Estado não
seja senão uma imensa cooperativa, é o ponto extremo do liberalismo gerado pela
impureza.
Tanto do orgulho quanto do liberalismo
nasce o desejo de igualdade e liberdade totais, que é a medula do comunismo.
A partir do orgulho e da impureza se vão
formando os elementos constitutivos de uma concepção diametralmente oposta à
obra de Deus. Essa concepção, em seu aspecto final, já não difere da católica
somente em um ou outro ponto. A medida que, ao longo das gerações, esses vícios
se vão aprofundando e voltando mais acentuados, vai se estruturando toda uma
concepção gnóstica e revolucionária do Universo.
A individualidade, que para a gnose é o
mal, é um princípio de desigualdade. A hierarquia –qualquer que seja – é filha
da individualidade. O universo segundo o gnóstico se resgata da individualidade
e da desigualdade num processo de destruição do “eu”, que reintegra os
indivíduos no grande Todo homogêneo. A realização, entre os homens, da
igualdade absoluta, e de seu corolário, a liberdade completa – numa ordem de
coisas anárquica – pode ser vista como uma etapa preparatória dessa reabsorção
total.
Não é difícil perceber, nesta
perspectiva, um nexo entre gnose e comunismo.
A
devoção a Nossa Senhora é essencial para a Contra-Revolução
Assim, a doutrina da Revolução é a
gnose, e suas causas últimas têm suas raízes no orgulho e na sensualidade. Dado
o caráter moral destas causas, todo o problema da Revolução e da
Contra-Revolução é, no fundo, e principalmente, um problema moral. O que se
disse em Revolução e Contra-Revolução é que, se não fosse pelo orgulho e a
sensualidade, a Revolução como movimento organizado no mundo inteiro não
existiria, não seria possível.
Ora, se no centro do problema da
Revolução e da Contra-Revolução há uma questão moral, há também e eminentemente
uma questão religiosa, porque todas as questões morais são substancialmente
religiosas. Não há moral sem religião. Uma moral sem religião é o que de mais
inconsistente se possa imaginar. Todo problema moral é, pois, fundamentalmente
religioso. Sendo assim, a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é uma
luta que, em sua essência, é religiosa. Se é religiosa, se é uma crise moral
que dá origem ao espírito da Revolução, então, essa crise só pode ser evitada,
só pode ser remediada com o auxílio da graça.
É um dogma da Igreja que os homens não
podem, somente com os recursos naturais, cumprir duravelmente, e em sua
integridade, os preceitos da Moral católica, sintetizados na Antiga e na Nova
Lei. Para cumprir os Mandamentos, é necessária a existência da graça.
Por outro lado, se o homem cai em estado
de pecado, acumulando-se nele as apetências pelo mal, a fortiori não conseguirá levantar-se do estado em que caiu sem o
socorro da graça. Provindo da graça toda preservação moral verdadeira ou toda
regeneração moral autêntica, é fácil ver o papel de Nossa Senhora na luta entre
a Revolução e a Contra-Revolução. A graça depende de Deus, mas Deus, por um ato
livre de sua vontade, quis fazer depender de Nossa Senhora a distribuição das
graças. Maria é a Medianeira Universal, é o canal por onde passam todas as
graças. Portanto, seu auxílio é indispensável para que não haja Revolução, ou
para que esta seja vencida pela Contra-Revolução.
Com efeito, quem pede a graça por
intermédio d’Ela, a obtém. Quem tente consegui-la sem o auxílio de Maria, não a
obterá. Se os homens, recebendo a graça, correspondem a ela, está implícito que
a Revolução desaparecerá. Pelo contrário, se eles não corresponderem, é inevitável que a Revolução surja e triunfe. Portanto, a
devoção a Nossa Senhora é conditio sine
qua non[2]
para que a Revolução seja esmagada, para que vença a Contra-Revolução.
Insisto no que acabo de afirmar. Se uma
nação for fiel às graças necessárias e
até suficientes que recebe de Nossa Senhora, e se se generaliza nela a prática
dos Mandamentos, é inevitável que a sociedade se estruture bem. Porque, com a
graça, vem a sabedoria, e com a sabedoria, todas as atividades do homem entram
nos eixos.
Isso se verifica, de certo modo, com a análise
do estado em que se encontra a civilização contemporânea. Construída sobre uma
recusa da graça, alcançou alguns resultados estrepitosos. Estes, porém, devoram
o homem. Na medida em que tem por base o laicismo e viola, sob vários aspectos,
a ordem natural ensinada pela Igreja, a civilização atual é nociva ao homem.
Sempre que a devoção a Nossa Senhora
seja ardorosa, profunda, de rica substância teológica, é claro que a oração de
quem pede será atendida. As graças choverão sobre a pessoa que reza a Ela
devota e assiduamente. Se, pelo contrário, essa devoção for falsa ou tíbia,
manchada por restrições de sabor jansenista ou protestante, há grave risco de
que a graça seja dada menos largamente, porque encontra por patê do homem
nefastas resistências. O que se diz do homem pode dizer-se, mutatis mutandi, da família, de uma
região, de um país, ou de qualquer outro grupo humano.
É costume dizer-se que na economia da
graça, Nossa Senhora é o pescoço do Corpo Místico, do qual Nosso Senhor Jesus
Cristo é a Cabeça, porque tudo passa por Ela.
A imagem é inteiramente verdadeira na
vida espiritual. Um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora é como
alguém que tem uma corda atada ao pescoço e conserva apenas um fio de
respiração. Quando não tem nenhuma devoção, se asfixia. Tendo uma grande
devoção, o pescoço fica completamente livre e o ar penetra abundantemente no
pulmão, podendo o homem viver normalmente.
A esterilidade e até a nocividade de
tudo quanto se faz contra a ação da graça, e a enorme fecundidade do que se faz
com seu auxílio, determinam bem a posição de Nossa Senhora nesse combate entre
a Revolução e a Contra-Revolução, pois a intensidade das graças recebidas pelo
homem depende da maior ou menor devoção que a Ela tiverem.
O
concurso do espírito do mal
Uma visão da Revolução e da
Contra-Revolução não pode ficar apenas nestas considerações. A Revolução não é
o fruto da exclusiva maldade humana. Esta última abre as portas ao demônio,
pelo qual se deixa estimular, exacerbar e dirigir.
É, pois, importante considerar, nesta
matéria, a oposição entre Nossa Senhora e o demônio. O papel do demônio na
eclosão e nos progressos da Revolução foi enorme. Como é lógico pensar, uma
explosão de paixões desordenadas tão profunda e tão geral como a que originou a
Revolução não teria ocorrido sem uma ação preternatural. Além disso, seria
difícil que o homem alcançasse os extremos de crueldade, de impiedade e de
cinismo, aos quais a Revolução chegou várias vezes ao longo de sua história,
sem o concurso do espírito do mal.
Ora, esse fator de propulsão tão forte
está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Basta que Ela fulmine um ato
de seu império sobre o inferno, para que ele estremeça, se confunda, se encolha
e desapareça do cenário humano. Pelo contrário, basta que Ela, para castigo dos
homens, deixe ao demônio um certo raio de ação, para que a ação deste progrida.
Portanto, os enormes fatores da Revolução e da Contra-Revolução, que são
respectivamente o demônio e a graça, dependem de seu império e seu domínio.
Efetiva
realeza de Maria
A consideração deste soberano poder de
Nossa Senhora nos aproxima da ideia da realeza de Maria. É preciso não ver essa
realeza como um título meramente decorativo. Embora submissa em tudo à vontade
de Deus, a realeza de Nossa Senhora importa num poder de governo pessoal muito
autêntico.
Tive ocasião de empregar certa vez, numa
conferência, uma imagem que facilita a compreensão do papel de Nossa Senhora
como Rainha.
Imaginemos um diretor de colégio com
alunos muito insubordinados. Ele os castiga com uma autoridade de ferro. Depois
de os ter submetido à ordem, retira-se dizendo à sua mãe: “Sei que governareis
este colégio de modo diferente do que estou fazendo agora. Vós tendes um
coração materno. Tendo eu castigado esses alunos, quero agora que os governeis
com doçura”. Essa senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, porém com
um método diverso daquele que usou o diretor. A atuação dela é distinta da
dele; não obstante, ela faz inteiramente a vontade dele.
Nenhuma comparação é exata. Entretanto,
julgo que, sob certo aspecto, esta imagem nos ajuda a entender a questão.
Análogo é o papel de Nossa Senhora como
Rainha do Universo. Nosso Senhor Lhe deu um poder régio sobre toda a Criação,
cuja misericórdia, sem chegar a nenhum exagero, chega entretanto a todos os
extremos. Ele colocou-A como Rainha do Universo para governá-lo e,
especialmente, para governar o pobre gênero humano decaído e pecador. E é
vontade d’Ele que Ela faça o que Ele não quis fazer por Si, mas por meio d’Ela,
régio instrumento de seu Amor. Há, pois, um regime verdadeiramente marial no
governo do Universo. E assim se vê como é que Nossa Senhora, embora sumamente
unida a Deus e dependente d’Ele, exerce sua ação ao longo da História. Nossa
Senhora é infinitamente inferior a Deus – é evidente porém, Deus quis dar a Ela
esse papel por um ato de liberalidade. É Nossa Senhora quem, distribuindo ora
mais largamente a graça, ora menos, freando ora mais, ora menos, a ação do
demônio, exerce sua realeza sobre o curso dos acontecimentos terrenos. Nesse
sentido, depende d’Ela a duração da Revolução e a vitória da Contra-Revolução.
Além disso, às vezes Ela intervém diretamente nos acontecimentos humanos, como
o fez, por exemplo, em Lepanto. Quão numerosos são os fatos da História da
Igreja em que ficou clara sua intervenção direta no curso das coisas! Tudo isto
nos faz ver de quantos modos é efetiva a realeza de Nossa Senhora.
Quando a Igreja canta a seu respeito:
“Tu só exterminaste as heresias no mundo inteiro”, diz que seu papel nesse
extermínio foi de certo modo único. Isso equivale a dizer que Ela dirige a História,
porque quem dirige o extermínio das heresias dirige o triunfo da ortodoxia, e
dirigindo uma e outra coisa, dirige a História no que ela tem de mais medular.
Haveria um trabalho de História
interessante para fazer: o de demonstrar que o demônio começa a vencer quando
consegue diminuir a devoção a Nossa Senhora. Isso se deu em todas as épocas de
decadência da Cristandade, em todas as vitórias da Revolução. Exemplo
característico é o da Europa antes da Revolução Francesa. A devoção a Nossa
Senhora nos países católicos foi prodigiosamente diminuída pelo jansenismo, e é
por isso que eles ficaram como uma floresta combustível, onde uma simples
chispa pôs fogo em tudo.
Estas e outras considerações tiradas do
ensinamento da Igreja abrem perspectivas para o Reino de Maria, isto é, uma era
histórica de Fé e de virtude que será inaugurada com uma vitória espetacular de
Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio será expulso e voltará
aos antros infernais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das
instituições que para isso escolheu.
O
Reino de Maria e a união de almas
Quanto a essa perspectiva do Reino de
Maria, encontramos na obra de São Luís Maria Grignion de Montfort algumas
alusões dignas de nota. Ele é, sem dúvida, um profeta que anuncia essa vinda.
Disso fala claramente: “Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que
deveis atear em toda a Terra de um modo tão suave e tão veemente, que todas as
nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e
converter-se?” [3]
Esse dilúvio, que lavará a humanidade, inaugurará o Reino do Espírito Santo,
que ele identifica com o Reino de Maria. Nosso santo afirma que vai ser uma era
de florescimento da Igreja como até então nunca houve. Chega inclusive a
afirmar que “o Altíssimo, com sua Santa Mãe, devem formar para Si grandes santos,
que sobrepujarão em santidade a maior parte dos outros santos, como os cedros
do Líbano se avantajam aos pequenos arbustos”.[4]
Considerando os grandes santos que a
Igreja já produziu, ficamos deslumbrados ante a envergadura desses que surgirão
sob o bafejo de Nossa Senhora. Nada é mais razoável do que imaginar um
crescimento enorme da santidade numa era histórica em que a atuação de Nossa
Senhora aumente também prodigiosamente. Podemos, pois, dizer que São Luís Maria
Grignion de Montfort, com seu valor de pensador, mas sobretudo, com sua
autoridade de santo canonizado pela Igreja, dá peso, autoridade, consistência,
às esperanças que brilham em muitas revelações particulares, de que virá uma
época na qual Nossa Senhora verdadeiramente triunfará.
A realeza de Nossa Senhora, embora tenha
uma soberana eficácia em toda a vida da Igreja e da sociedade temporal,
realiza-se em primeiro lugar no interior das almas. Daí, do santuário interior
de cada alma, é que ela se reflete sobre a vida religiosa e civil dos povos,
enquanto considerados como um todo.
O Reino de Maria será, pois, uma época
em que a união das almas com Nossa Senhora alcançará uma intensidade sem
precedentes na História (exceção feita, é claro, de casos individuais).
Escravidão
a Nossa Senhora e Apóstolos dos Últimos Tempos
Qual é a forma dessa união em certo
sentido suprema? Não conheço mais perfeito para enunciar a realizar essa união
do que a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, tal como é ensinada por São Luís
Maria Grignion de Montfort no “Tratado da Verdadeira Devoção”.
Considerando que Nossa Senhora é o
caminho pelo qual Deus veio aos homens e estes vão a Deus, tendo presente a
realeza universal de Maria, nosso santo recomenda que o devoto da Santíssima
Virgem se consagre inteiramente a Ela como
escravo. Essa consagração é de uma radicalidade admirável. Ela abarca não só os
deveres materiais do homem, como também até o mérito de suas boas obras e
orações, sua vida, seu corpo e sua alma. Ela é sem limites, porque o escravo
por definição nada tem de seu.
Em troca dessa consagração, Nossa
Senhora atua no interior de seu escravo de modo maravilhoso, estabelecendo com
ele uma união inefável.
Os frutos dessa união serão vistos nos
Apóstolos dos Últimos Tempos, cujo perfil moral ele traça, a fogo, em sua
famosa “Oração abrasada”. Ele usa, para isso, uma linguagem de uma grandeza
apocalíptica, na qual parece reviver todo o clamor de um São João Batista, todo
o fogo de um São João Evangelista, todo o zelo de um São Paulo. Os varões
portentosos que lutarão contra o demônio pelo Reino de Maria – conduzindo
gloriosamente, até o fim dos tempos, a luta contra o demônio, o mundo e a carne
– São Luís os descreve como magníficos modelos que convidam desde já à perfeita
escravidão a Nossa Senhora, os que, nos tenebrosos dias de hoje, lutam nas
fileiras da Contra-Revolução.
Assim, com estas considerações sobre o papel de Nossa Senhora na luta da Revolução e da Contra-Revolução, e sobre o Reino de Maria, vistas segundo o “Tratado da Verdadeira Devoção”, creio ter enunciado os principais pontos de conta entre a obra-prima do grande santo e meu ensaio – tão apequenado pela comparação – sobre “Revolução e Contra-Revolução”.[5]
[1]
A partir daqui, texto transcrito da Revista Dr. Plínio
n. 158, de maio de 2011
[2]
Condição indispensável.
[3]
Oração Abrasada de S.Luís Grignion, “Oeuvres Complètes”, Editions du Seuil,
Paris, 1966, p. 681..
[4]
Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S.Luís Grignion, Oeuvres
Completes, Editions du Seuil, Paris, 1966, p. 512 e 513, N. 47.
[5]
PRÓLOGO à 1ª edição argentina de "Revolución y
Contra-Revolução"


