terça-feira, 25 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - III

 

O JUÍZO FINAL COMO PREVISTO NO APOCALIPSE

Todos os mistérios envolvidos no Apocalipse estão apresentados sob a forma das cartas que São João envia às cidades do Oriente (em número de sete), os selos que o Cordeiro abre (também sete), as visões impressionantes do trono e da majestade divinos, as trombetas angélicas, etc. As sete cartas dirigidas às sete cidades ou igrejas orientais têm o caráter histórico da Igreja, como afirma o Bem-aventurado Holshauzer. Depois vêm os sete selos, pelos quais se relacionam os sete mistérios referentes aos preparativos para o fim do mundo. Quem abre os selos é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, chamado no Apocalipse de Cordeiro. A partir do sétimo é que se inicia a era preparatória do Juízo Final:

 “Sétimo selo. Tendo (o Cordeiro) aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia hora.

Vi os sete anjos, que estavam em pé diante de Deus, aos quais foram dadas sete trombetas. Depois veio outro anjo e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro. Foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus. O anjo tomou o turíbulo, encheu-o de fogo do altar, lançou-o sobre a terra, e houve trovões, vozes, relâmpagos e um grande terremoto. Então os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para as tocar”.

Observar que os castigos do sétimo selo ainda não são os do fim do mundo, embora terríveis: apenas uma terça parte da terra é atingida, enquanto no fim do mundo é a terra toda.

“O primeiro anjo tocou a trombeta; formou-se uma chuva de granizo e fogo, de mistura com sangue, que foi atirada sobre a terra, e foi abrasada a terça parte da terra, e foi queimada a terça parte das árvores e toda a erva verde.  O segundo anjo tocou a trombeta; foi lançado ao mar como que um grande monte ardendo em fogo, e converteu-se em sangue a terça parte do mar, e a terça parte das criaturas que viviam no mar morreu, e a terça parte das naus pereceu. O terceiro anjo tocou a trombeta; caiu do céu uma grande estrela, a arder como um facho, e caiu sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes das águas. O nome da estrela é Absinto; a terça parte das águas converteu-se em absinto e muitos homens morreram por causa daquelas águas, porque se tornaram amargosas. O quarto anjo tocou a trombeta; foi ferida a terça parte do sol, a terça parte da lua e a terça parte das estrelas, de maneira que se obscureceu a sua terça parte e o dia perdeu a terça parte do seu brilho, assim como também a noite.”   (9, 1-12)

Uma “estrela caída do céu” diz respeito, certamente, a alguma pessoa com grande vocação para barrar a Revolução não haver correspondido. Estrela é uma grande vocação, e céu é a Igreja. Dizer que ela tinha a chave do poço do abismo quer dizer que por causa de seu pecado as portas do infernos poderiam ser abertas, mas se  correspondesse à sua vocação os demônios não seriam soltos.

“O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu sobre a terra, e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. Ela abriu o poço do abismo; e subiu uma fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha, e escureceu-se o sol e o ar com a fumaça do poço. Da fumaça do poço saíram gafanhotos para a terra, e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra. Foi-lhes ordenado que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, ma somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre as suas frontes. Foi-lhes ordenado, não que os matassem, mas que os atormentassem durante cinco meses; o tormento que causam é como o tormento do escorpião, quando fere um homem. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a encontrarão, desejarão morrer e a morte fugirá deles.

Os gafanhotos eram parecidos a cavalos aparelhados para a batalha; sobre as suas cabeças (tinham) um espécie de coroas semelhantes ao ouro, e os sus rostos eram como rostos de homens; tinham os cabelos como os cabelos das mulheres, e os seus dentes eram como os dentes de leões; tinham couraças como couraças de ferro, e o estrondo das suas asas era como o estrondo de carros de muitos cavalos que correm ao combate; tinham caudas semelhantes às dos escorpiões, e havia aguilhões nas suas caudas, em que estava o poder de fazer o mal aos homens durante cinco meses; tinham sobre si como rei o anjo do abismo, chamado em hebraico Abadon e em grego Exterminador”.    (9, 1-11).

O tempo de “cinco meses” poderia muito bem relacionar-se com os cinco séculos em que predominou a Revolução.

“O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz (que saía) dos quatro cantos do altar de ouro, que está diante dos olhos de Deus, a qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos que estão atados no grande rio Eufrates. Então foram desatados os quatro anjos que estavam preparados para a hora, dia, mês e ano, para matarem a terça parte dos homens.  O número dos de cavalaria eram de duzentos milhões: ouvi dizer o número.  Eis como vi na visão os cavalos e os que estavam montados neles: tinham couraça de cor de fogo, de jacinto e de enxofre; as cabeças dos cavalos eram cabeças de leões e da sua boca saía fogo, fumo e enxofre. Por estas três pragas: pelo fogo, pelo fumo e pelo enxofre, que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens. O poder dos cavalos estava na sua boca e nas suas caudas, porque as suas caudas assemelhavam-se a serpentes, tinham cabeças e com elas faziam mal”.

Os pecados cometidos pelos homens dizem respeito à idolatria e coisas similares, enquanto que no fim do mundo o grande pecado  será a adoração da besta, uma espécie de “demonolatria”. Isto mostra que tais castigos ainda não dizem respeito ao fim do mundo. Provavelmente se referem aos que Nossa Senhora previu em Fátima:

“Os outros homens que não foram mortos por estas pragas, não fizeram penitência das obras das suas mãos, de modo a não adorarem os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de madeira, que não podiam ver, nem ouvir, nem andar, e não fizeram penitência dos seus homicídios, nem dos seus malefícios, nem da sua fornicação, nem dos seus furtos.  (9, 13-21).

“Não fizeram penitência”, quer dizer, os castigos ainda se destinam a tentar converter as pessoas.

“Depois vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem, com o arco-íris sobre a sua cabeça; o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo; tinha na sua mão um livrinho aberto, pôs o pé direito sobre o mar, o esquerdo sobre a terra, e gritou em alta voz, como um leão quando ruge. Depois que gritou, sete trovões fizeram ouvir as suas vozes. Depois que os trovões fizeram ouvir as suas vozes, eu dispunha-me a escrevê-las, mas ouvi uma voz do céu que me dizia: Sela as palavras dos sete trovões e não as escrevas. O anjo, que eu vira de pé sobre o mar e sobre a terra, levantou a sua mão ao céu e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, que criou o céu e tudo o que nele há, a terra e tudo o que nela há, o mar e tudo o que nele há, que não haveria mais tempo, mas que nos dias da voz do sétimo anjo, quando começasse a soar a trombeta, se cumpriria o mistério de Deus, como ele o anunciou pelos profetas seus servos.”  (10, 1-7).

“Que não haveria mais tempo”, quer dizer, os castigos que virão não se destinam mais a converter as pessoas, que tiveram o tempo necessário nos castigos anteriores. Agora, cumprir-se-á apenas o castigo final com o respectivo julgamento divino.

Santo Elias e Santo Enoque serão mortos pelo poder do Anticristo, mas ressuscitarão. Onde está a grande vitória deles?  É que os bons, que o seguirão, não aderirão ao Anticristo, ficarão fiéis até o fim e presenciarão a ressurreição vitoriosa de seus dois guias e líderes:

“Darei às minhas duas testemunhas o poder de profetizar, revestidos de saco, durante mil duzentos e sessenta dias. Estes são as duas oliveiras e os dois candelabros, postos diante do Senhor da terra. Se alguém lhes quiser mal, sairá fogo das suas bocas, que devorará os seus inimigos; se alguém os quiser ofender, é assim que deve morrer. Eles têm poder de fechar o céu, para que não chova durante o tempo que durar a sua profecia, e têm poder sobre as águas, para as converter em sangue, e de ferir a terra com todo o gênero de pragas, todas as vezes que quiserem. Depois que tiverem acabado de dar o seu testemunho, a fera, que sobe do abismo, fará guerra contra eles, vencê-los-á e matá-los-á.  O seus corpos ficarão estendidos nas praças da grande cidade, que se chama espiritualmente Sodoma e Egito, onde também o Senhor deles foi crucificado.

“Os homens das diversas tribos, povos, línguas e nações, verão os seus corpos durante três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. Os habitantes da terra se alegrarão por causa deles, farão festas e mandarão presentes uns aos outros, porque estes dois profetas tinham atormentado os que habitavam sobre a terra. Mas, depois de três dias e meio, o espírito de vida entrou neles da parte de Deus, e eles puseram-se de pé, e apoderou-se um grande temor dos que os viram. Ouviu-se uma grande voz do céu, que lhes dizia: subi para cá. Subiram ao céu numa nuvem e viram-nos os seus inimigos. Naquela mesma hora deu-se um grande terremoto, caiu a décima parte da cidade, e no terremoto foram mortos sete mil homens; os restantes foram atemorizados e deram glória ao Deus do céu.” (Ap 11, 3-13).

“Depois vi outro anjo, voando pelo meio do céu, que tinha o Evangelho eterno, para pregar aos habitantes da terra, a toda a nação, tribo, língua e povo, dizendo em alta voz: temei o Senhor e dai-lhe glória, porque é chegada a hora do seu juízo, e adorai aquele que fez o céu e a terra, o mar e as fontes das águas”

Babilônia é mais uma figura simbólica. Que quer significar? Não pode se referir à cidade com o mesmo nome, já extinta.  No entanto, desde os tempos proféticos que Babilônia era citada como centro da idolatria, da gnose, da feitiçaria, do satanismo e da sensualidade. No caso, pode representar ela uma civilização inteira baseada nos erros da Babilônia antiga.  A Babilônia do Apocalipse seria, então, a civilização revolucionária e anticristã, a babel moderna, tudo o que representa a vida baseada nos erros da Revolução.

Outro anjo o seguiu, dizendo: caiu, caiu aquela grande Babilônia que faz beber a todas as gentes do vinho do furor da sua impudicícia.

Seguiu-se a este um terceiro anjo, dizendo em alta voz: Se alguém adorar a besta e a sua imagem, e receber o sinal dela  na sua testa ou na sua mão, também este beberá do vinho da ira de Deus, lançado puro no cálice da sua ira, e será atormentado em fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça de seus tormentos se levantará pelos séculos dos séculos, sem que tenham descanso algum, nem de dia nem de noite, aqueles que tiverem adorado a besta e a sua imagem, e aqueles que tiverem recebido a marca do seu nome. Aqui está a paciência dos santos, que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus.

Ouvi uma voz do céu, que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos, que morrem no Senhor. De hoje em diante diz o Espírito que descansem dos seus trabalhos, porque as suas obras os seguem.

Depois olhei e vi uma nuvem branca e uma pessoa sentada sobre a nuvem semelhante ao Filho do Homem, a qual tinha na sua cabeça uma coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda. Outro anjo saiu do templo, gritando em alta voz para o que estava sentado sobre a nuvem: Lança tua foice e sega, porque é chegada a hora de segar, pois a seara da terra está seca. Então, o que estava sentado sobre a nuvem lançou a sua foice à terra e a terra foi segada.

Outro anjo saiu do templo que há no céu, tendo também ele mesmo uma aguda foice. Saiu do altar outro anjo, que tinha poder sobre o fogo, e gritou em alta voz para o que tinha a foice aguda, dizendo: Lança tua foice aguda, vindima os cachos da vinha da terra, porque as suas uvas estão maduras. O anjo lançou sua foice aguda à terra, vindimou a vinha da terra e lançou-a no grande lagar da ira de Deus.  O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue (que subiu) até aos freios dos cavalos, num espaço de mil e seiscentos estádios.  (14, 6-20)

Começa a descrição da consumação dos tempos:

“Depois vi no céu outro sinal grande e admirável; sete anjos que tinham as sete últimas pragas, porque com elas é consumada a ira de Deus. Vi um como mar de vidro misturado de fogo; e os que venceram a besta, a sua imagem e o número do seu nome, estavam sobre o mar de vidro, tendo cítaras divinas, e cantavam o cântico do servo de Deus, Moisés, e o cântico do Cordeiro, dizendo: grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Reis dos séculos.

Quem não te temerá, Senhor, e não glorificará o teu nome?  Com efeito, só tu és misericordioso; em consequência do que todas as nações virão e se prostrarão na tua presença porque os teus juízos foram manifestados.

Depois disto, vi que se abriu o templo do tabernáculo do testemunho no céu. Os sete anjos, que traziam as sete pragas, saíram do templo, vestidos de linho puro e branco e cingidos pelos peitos com cintas de ouro. Então, um dos quatro animais deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias da ira de Deus, que vive pelos séculos dos séculos. O templo encheu-se de fumo pela majestade de Deus e pela sua virtude, e ninguém podia entrar no templo, enquanto se não cumprissem as sete pragas dos sete anjos. (15, 1-7).

 

As taças da ira de Deus começam a ser derramadas

“Ouvi uma grande voz (que saía) do templo, a qual dizia aos sete anjos: ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.  Foi o primeiro e derramou a sua taça sobre a terra, e formou-se uma úlcera cruel e maligna nos homens que tinham o sinal da besta, e naqueles que adoraram a sua imagem.

O segundo anjo derramou a sua taça sobre o mar e converteu-se em sangue como de um corpo morto e morreu no mar todo o ser vivo.

O terceiro anjo derramou a sua taça sobre os rios e sobre as fontes das águas, e converteram-se estas em sangue. Ouvi o anjo das águas, que dizia: Justo és, Senhor, que és e que eras, tu o Santo que isto julgaste; porque eles derramaram o sangue dos santos e dos profetas, deste-lhes também a beber sangue, pois assim o merecem. Ouvi outro que dizia do altar: Sim, certamente, Senhor onipotente, (são) verdadeiros e justos os teus juízos.

O quarto anjo derramou a sua taça sobre o sol e foi-lhe dado (poder de) afligir os homens com ardor e fogo. Os homens abrasaram-se com um grande calor e blasfemaram do nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas, e não se arrependeram para lhe darem glória.

O quinto anjo derramou a sua taça sobre o trono da besta, e o reino dela tornou-se tenebroso, e (os homens) mordiam a língua com a dor, e blasfemaram do Deus  do céu por causa das suas dores e úlceras, e não se arrependeram das suas obras.

O sexto anjo derramou a sua taça sobre aquele grande rio Eufrates, e secaram-se as suas águas, a fim de se abrir caminho aos reis do oriente.

Vi sair da boca do dragão, da boca da besta e da boca do falso profeta, três espíritos imundos semelhantes a rãs, que são espíritos de demônios, que fazem prodígios, e que vão aos reis de toda a terra, a fim de os juntar para a batalha no grande dia do Deus onipotente. Eis que venho como um ladrão (diz o Senhor). Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes, para que não ande nu e não vejam a sua vergonha. Ele os juntou num lugar que, em hebraico, se chama Armagedon.

Na Cruz, Nosso Senhor pronunciou o “Consumatum est” referente à Sua Missão na primeira vinda à terra; no Juízo Final, repetirá a frase, mas desta forma como sinal da consumação de sua Obra e do fim dos tempos:

O sétimo anjo derramou a sua taça pelo ar, e saiu uma grande voz do templo (vindo) do trono, que dizia: está feito. Seguiram-se relâmpagos, vozes e trovões, e houve um grande terremoto, tão grande que nunca houve outro igual desde que existiram homens sobre a terra. A grande cidade foi dividida em três partes, e as cidades das nações caíram; e Babilônia, a grande, foi recordada por Deus, para lhe dar a beber o cálice do vinho da indignação da sua ira. Todas as ilhas fugiram e os montes não foram achados. Caiu do céu sobre os homens uma grande chuva de pedras, como do peso de um talento. Os homens blasfemaram de Deus, por causa da praga da pedra, porque foi grande em extremo”.  (16, 1-21)

Nota: “Armagedon” – Significa “monte do Megido ou Magedon”.  Simboliza a carnificina e a derrota (Jz 5, 19; Zac 12, 11), celebrizada pela derrota do rei Josias (2 Reis 23, 29).

“Depois disto, vi descer do céu outro anjo, que tinha um grande poder: a terra foi iluminada com sua glória. E exclamou fortemente, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, a grande, e tornou-se habitação de demônios, guarida de todo o espírito imundo e albergue de toda a ave hedionda e abominável, porque todas as nações beberam do vinho da cólera da sua impudicícia e os reis da terra se mancharam com ela e os mercadores da terra tornaram-se ricos com o excesso de seu luxo”.

Quando a civilização gnóstica e igualitária, chamada Babilônia, começar a ser destruída, Deus providenciaria um espécie de “êxodo” para dela separar os bons dos maus.

Ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para não seres participantes dos seus delitos e para não seres compreendido nas suas pragas, porque os seus pecados chegaram até ao céu e o Senhor lembrou-se das suas iniquidades. Retribuí-lhe como ela mesma vos tratou, e dai-lhe o dobro conforme as suas obras; na taça que ela vos deu a beber, dai-lhe a beber dobrado. Quanto ela se glorificou e viveu em delícias, tanto lhe dai de tormento e pranto, porque diz no seu coração: Estou sentada como rainha, não sou viúva e não  verei o pranto. Por isso, num mesmo dia, cairão sobre ela as pragas, a morte, o pranto e a fome, e será abrasada em fogo, porque é forte o Deus que a há de julgar. (18, 1-8).

Toda uma civilização baseada na adoração do dinheiro, do comércio, do luxo, do gozo, será destruída - a “bancarrota financeira”:

“Chorá-la-ão os reis da terra, que pecaram com ela e viveram em delícias, quando virem a fumaça do seu incêndio. Estando de longe, com medo dos tormentos dela, dirão: Ai, ai daquela grande cidade de Babilônia, daquela cidade forte! Num momento veio o seu juízo! Os negociantes da terra a chorarão e a lamentarão, porque ninguém comprará mais as suas mercadorias: mercadores de ouro, de prata, de pedras preciosas, de pérolas, de linho fino, de púrpura, de seda, de escarlate, toda a madeira odorífera, todos os vasos de marfim, todos os vasos de pedras preciosas, de bronze, de ferro, de mármore, o cinamomo, as essências, os bálsamos, o incenso, o vinho, o azeite, a flor da farinha, o trigo, os animais de carga, as ovelhas, os cavalos, as carroças, os escravos e até almas humanas.  Os frutos desejados pela tua alma se retiraram de ti e todas as coisas pingues e magníficas se perderam para ti, e não mais se encontrarão. Os mercadores destas coisas, que se enriqueceram, estarão longe dela com medo dos seus tormentos, chorando, lamentando-se e dirão: Ai, ai daquela grande cidade, que estava vestida de linho fino, de púrpura e de escarlate, e que se adornava de ouro, pedras preciosas e de pérolas! Como num momento foram reduzidas a nada tantas riquezas!  Todos os pilotos e todos os que navegam no mar, os marinheiros e quantos negociam sobre o mar, ficaram ao longe, e, vendo o lugar do seu incêndio, clamaram, dizendo: Que cidade houve semelhante a esta grande cidade? Lançaram pó sobre as suas cabeças e fizeram alaridos, chorando e lamentando-se assim:  Ai, ai daquela grande cidade, de cujas riquezas se enriqueceram todos os que tinham navios no mar! Num momento foi arruinada!

Exulta sobre ela, ó céu, e vós, santos apóstolos e profetas, porque Deus, julgando-a, fez-vos justiça.

Então um anjo forte levantou uma pedra como uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: Com este ímpeto será precipitada aquela grande cidade de Babilônia e não será jamais encontrada.  Não se ouvirá mais em ti a voz dos tocadores de cítara, dos músicos, dos tocadores de flauta e de trombeta; não se encontrará mais em ti artista algum de qualquer arte, nem se tornará  mais a ouvir o ruído da mó. Nem luzirá mais a luz da lâmpada, não se ouvirá mais em ti a voz do esposo e a da esposa, porque os teus mercadores eram uns príncipes da terra, porque por causa dos teus encantamentos erraram todas as nações. Nesta cidade foi encontrado o sangue dos profetas e dos santos e de todos os que foram mortos sobre a terra.  (18, 9-24).

 

O Reino de Maria é comemorado no céu

“Ouvi uma espécie de voz de grande multidão, voz como ruído de muitas águas e como o estampido de grandes trovões, a dizer:  Aleluia, porque tomou posse do seu reino o Senhor nosso Deus onipotente.  Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque chegaram as bodas do Cordeiro, e sua esposa está ataviada. Foi-lhe dado o vestir-se de finíssimo linho, resplandecente e branco. Este linho fino são as virtudes dos santos

“E (o anjo) disse-me: Escreve: Bem-aventurado os que foram chamados à ceia das bodas do Cordeiro! E ajuntou: Estas palavras de Deus são verdadeiras. Então, caí a seus pés para me prostrar diante dele. E ele disse-me: Vê, não faças tal; eu sou servo como tu e como teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus. Com efeito, o testemunho de Jesus é o espírito de profecia. (19, 6-10).

A realeza divina é reconhecida na Terra pela Igreja Militante

“Seguiam-no [o Verbo de Deus] os exércitos que estão no céu, em cavalos brancos, vestidos de fino linho branco e puro. Da sua boca saía uma espada de dois gumes, para ferir com ela as nações; ele as governará com cetro de ferro e ele mesmo pisa o lagar do vinho do furor da ira de Deus onipotente. No seu vestido e na sua coxa, traz escrito: Rei dos reis, e Senhor dos senhores” (19, 14-16)

 

O Reino de Maria será um festim divino

“Vi um anjo, que estava de pé no sol, chamar com voz forte a todas as aves, que voavam pelo meio do céu: Vinde e juntai-vos para a grande ceia de Deus, a fim de comerdes carne de reis, carne de tribunos, carne de poderosos, carne de cavalos e dos que neles montam, carne de todos, livres e escravos, pequenos e grandes”  (19, 17-19)

 

Mas que não isenta de grandes batalhas

“E vi a besta, os reis da terra e os seus exércitos, reunidos para fazerem guerra àquele que estava montado sobre o cavalo e ao seu exército. A besta foi presa e com ela o falso profeta, que fez prodígios na sua presença, com os quais tinha seduzido os que tinham recebido o caráter da besta e tinham adorado a sua imagem. Foram ambos lançados vivos no tanque de fogo a arder com enxofre. Os outros foram mortos pela espada que saía da boca do que estava montado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes” (19, 19-21)

 

Lúcifer é acorrentado até o fim do mundo

“Vi descer do céu um anjo que tinha na sua mão a chave do abismo e uma grande corrente. Prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o demônio e satanás, e amarrou-o por mil anos; meteu-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não seduza mais as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, deve ser solto por um pouco de tempo”.  (20, 1-3).

 

Preparativos para o Grande Juízo Universal

“Vi tronos e (vários personagens que) se sentaram sobre eles e lhes foi dado o poder de julgar; vi também as almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e por causa da palavra de Deus, e aqueles que não adoraram a besta nem a sua imagem, nem receberam o seu caráter sobre a fronte ou sobre as suas mãos e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos.

 

Ressurretos viverão até o Juízo Final

“Os outros mortos não tornarão à vida até se completarem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; a segunda morte não tem poder sobre estes, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele durante mil anos”.  (20, 4-6).

Somente quando se completarem os “mil anos” os demônios serão soltos novamente: e aí chegará o fim dos tempos:

“Quando se completarem os mil anos, satanás será solto da sua prisão, sairá e seduzirá as nações que estão nos quatro ângulos da terra, Gog e Magog, e os juntará para a batalha: o seu número é como a areia do mar”. (20, 7)

 

O olhar de Jesus no Juízo Final

Assim, podemos imaginar como o olhar de Nosso Senhor refletiu o Seu bondoso Coração enquanto viveu entre os homens. Já antes de nascer, os místicos dizem que Ele se privou da luz de seus olhos no seio virginal de Maria Santíssima como um verdadeiro martírio, prevendo já os piores momentos que iria passar ao final de Sua vida. Ao nascer, derramou todo seu inocente olhar dentro dos olhos de Sua Mãe Santíssima, com a qual teve colóquios e olhares amorosos durante toda a vida terrena.

Em Sua Paixão e Morte, os olhares de Nosso Senhor Jesus Cristo percorriam a multidão à procura de um olhar e um coração piedosos que tivessem compaixão d’Ele. Procurava aquele contato amoroso que teve com Santa Madalena, de Coração a coração através do simples gesto do olhar, a fim de atrair as almas para Si. Até que os ímpios lhe vendaram os olhos para que não tocasse tão bondosamente os olhares das pessoas que estavam ali e as convertesse. Ao ter seu corpo deitado no santo sepulcro taparam seus olhos com duas moedas, a forma como é visto hoje no Santo Sudário de Turim. Quis assim ficar impedido de exercer seu juízo sobre os homens naquele momento para exercê-lo em sua plenitude no Juízo Final.

Finalmente, no Juízo Final teremos o último olhar de Jesus Cristo, que será terrível para os ímpios e cheio de bondade para os justos. Refletirá nesse momento tanto o Coração cheio de bondade e misericórdia quanto de Justiça. Naquele momento ninguém terá poder suficiente para lhe colocar uma venda como o fizeram na sua Paixão.

Santa Catarina de Siena diz como será aquele olhar final: “Aos olhos do condenado, sem embargo, ele aparecerá com aquele olhar terrível e tenebroso, que tem o mesmo condenado em si mesmo”.

Completa Santa Catarina dizendo que isso não quer dizer que Jesus Cristo, a Bondade suma e infinita, tenha um “olhar temível e tenebroso”, mas sim que será esta a forma com que o condenado O verá por “ter o mesmo olhar dentro de si mesmo”...

Santa Teresa de Jesus manifesta também grande temor daquele olhar terrível:

Nunca tive tanto medo dos tormentos do inferno que não fosse menos que nada em comparação do que tinha quando me lembrava que os condenados haviam de ver irados estes olhos tão formosos e mansos e benignos do Senhor...”[1]

Eis como São João narra no Apocalipse como ocorreu o julgamento final:

“Depois vi um grande trono brilhante e um que estava sentado sobre ele, de cuja vista fugiram a terra e o céu e não deixaram rastos de si. Vi os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono. Foram abertos os livros, e foi aberto outro livro, que é o da vida; e foram julgados os mortos pelas coisas que estavam escrita nos livros, segundo as suas obras. O mar deu os mortos que estavam nele, a morte e o inferno deram (também) os mortos que estavam neles e fez-se juízo de cada um segundo as suas obras. Depois, a morte e o inferno foram lançados no tanque de fogo (o tanque de fogo é a segunda morte). Aquele que se não achou inscrito no livro da vida, foi lançado no tanque de fogo”.  (20, 11-15).

 

Maldição lançada sobre quem deturpar o Apocalipse

 “Eu declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro, que se alguém lhes fizer acréscimos, Deus o castigará com as pragas escritas neste livro. Se alguém tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte do livro da vida, da cidade santa e das coisas que estão escritas neste livro”.   (22, 18-19).

 

 

 

 



[1] Obras Completas de Santa Teresa de Jesus – Carmelo do Porto, Portugal – pág. 801

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O JUÍZO FINAL - II

 



DAS COISAS IMPORTANTES QUE HÃO DE OCORRER NO JUÍZO FINAL: A CONFLAGRAÇÃO DO FOGO, A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS, A PENA INFERNAL E A GLÓRIA DO PARAÍSO

 

1. Sobre a conflagração do fogo

 Pelo que diz respeito à conflagração, se há de saber que à presença do Juiz se adiantará o fogo que abrase a face da terra, de maneira que  a aparência deste mundo perecerá pelo concurso dos fogos do mundo, como ocorreu no dilúvio pela inundação das águas. E se disse a aparência deste mundo não referindo-se à destruição total do mundo sensível, senão porque, pela ação de tal fogo que inflamará os corpos elementares, serão abrasados os vegetais e os animais, se purificarão e renovarão os elementos, sobretudo o ar e a terra, e se acrisolarão os justos e arderão os réprobos, passado o qual cessará a perturbação do céu, para que assim, completado já o número dos escolhidos, tenha lugar de certo modo a inovação e a remuneração dos seres do mundo.

O que foi dito se entenderá pelo raciocínio que segue: como o Princípio universal das coisas seja sapientíssimo, se em tudo quanto faz visa a ordem da sabedoria , muito principalmente deve visá-lo no que se refere à consumação das coisas, para que assim não haja discordância no princípio e meio, nem entre o meio e o fim, senão que, na ordenação  de tudo resplandeça a sabedoria ordenadora, e a bondade, e a grandeza do dito primeiro Princípio. E pois Deus, segundo sua sabedoria ordenadíssima, fez todo este mundo sensível e grande pelo mundo pequeno, que é o homem, posto no meio entre Deus e estas coisas inferiores; para que haja correspondência em tudo e haja harmonia entre a morada e o que mora nela, assentado o homem no bem, deveu também estabelecer-se esse outro mundo em estado de bem e de paz; caindo o homem, deveu também o mundo segui-lo, desordenando-se o homem, o resto também se alterará; purificado o homem, o mundo também deverá purificar-se; renovado o homem, também se renovará, e consumado o homem, também se consumirá.

E em primeiro lugar, já que desregrando-se o homem deve desregrar-se o mundo, assim como este se manteve em ordem enquanto aquele se mantinha também, e decaiu de certo modo quando aquele decaía, é também necessário que, no juízo que há de sobrevir, para ostentação da severidade do juiz, os corações, sobretudo dos pecadores, que menosprezaram ao Senhor do mundo, se encham de terror, para que assim toda a criação experimente em si o zelo divino e se conforme ao autor ao mesmo tempo que se conforma ao morador; e necessário, digo, que os alicerces do mundo se comovam de maneira horribilíssima.  E porque nada por sua atividade comove dos outros elementos mais intensa, e pronta, e horrivelmente que o fogo, que o investe por todas as partes, é necessário que à aparição do Juiz preceda o fogo, não só por um mas por todos os lados do mundo; de sorte que haja concurso do fogo elementar e do terrestre; do fogo do purgatório e do inferno, para que por este fogo do inferno ardam os réprobos, pelo do purgatório se purifiquem os justos, pelo terrestre se consuma quanto da terra provenha, pelo elementar se adelgacem e se disponham os elementos para o aspecto que hão de apresentar ao renovar-se e, junto com isto, todas as demais coisas se perturbem também, a fim de que não somente os homens e os demônios, senão até os anjos, vendo-o, se encham de terror.

Ademais, como o mundo deve purificar-se com o homem submetido à purificação, e o homem viador no fim dos tempos necessita ser lavado da sordidez da avareza e da malícia, como nos princípios do tempo das fezes da luxúria, e necessita ser purificado não só pronta, senão também íntima e perfeitamente, segue-se que, assim como o mundo foi antes destruído e em certa maneira purificado pelo elemento da água, a qual é fria, em oposição ao ardor  e excremento da luxúria, assim o mundo que fenece o será pelo fogo, por causa do esfriamento da caridade e do gelo da malícia e da avareza, que reinariam no fim, por assim dizer, na velhice do mundo. E entranhando-se muitíssimo estes vícios, é necessário que o que há de tirá-los seja de eficácia íntima, violenta e pronta, condições que não se vêem  em nenhum outro elemento como o fogo. E por isso, como se verificou no dilúvio pela inundação das águas, assim a face sensível será arrasada pela ação do fogo.

Acrescente-se a isto que, devendo renovar-se o mundo junto com o homem que se renova, e não sendo possível tomar nova forma sem perder a anterior e dispor-se de algum modo revestida de uma disposição nova, segue-se que, tendo o fogo em grau máximo virtude de expelir toda forma estranha a si, e tendo também força para sutilizar com qualidades afins às dos corpos celestes, por ele deve fazer-se a purificação junto com a inovação; de sorte que, possuindo esta dupla eficácia, em parte deve preceder a vinda do Juiz, em parte deve seguir-lhe. E como a inovação se ordena a um novo estado, que já não voltará ao antigo, e, pelo mesmo,  a um novo estado de incorrupção, que, por certo, não está em mão de criaturas o dá-lo, segue-se que se o fogo naquela purificação e inovação há de fazer algo por sua própria virtude natural, como é inflamar, purificar, encarecer e sutilizar, é, contudo, necessário que junto com esta virtude natural haja outra virtude  que opere sobre a natureza, por cuja  aplicação terá principio a conflagração, da mesma forma que se completará com ela.

Por último, como queira que este mundo deve ser consumado, consumado o homem, e então se diz consumar-se o homem quando se completar na glória o número dos escolhidos, ao qual estado, por certo, tende tudo como a fim último e completo, é necessário que, completando-se dito número, terminem e se aquietem as perturbações dos corpos celestes e que, assim mesmo, se acabem as transformações dos elementos e que, por conseguinte, cesse a geração, que é própria dos animais e das plantas.  Pois, ordenando-se tudo isto à natureza nobilíssima, qual é a alma dotada de razão, fixado o fim nas almas, é necessário que haja também fim e complemento em todas as demais coisas supraditas.  E assim os corpos celestes, obtida a paz e a plenitude de luz, diz-se que são remunerados. Os elementos, porém, que carecem já do poder de multiplicar-se por mútua transmutação, se diz que perecem não certamente quanto à substância, mas quanto à atividade e passividade da mútua influência, e, sobretudo, quanto às propriedades ativas. Os vegetais e os dotados de sensibilidade, já que não têm capacidade de vida perpétua e duração eterna, como convém ao estado de tanta nobreza, é necessário que se consumam na própria natureza, porém de maneira que perdurem nos princípios e em certo sentido no semelhante; isto é, no homem, que tem semelhança com toda linhagem de criaturas e, pelo mesmo motivo, [pde dizer-se que em sua inovação e glorificação são de alguma maneira inovadas e premiadas todas as coisas.

 

2. Sobre a Ressurreição dos corpos

 No referente à ressurreição dos corpos, se há de estabelecer que no Juízo Universal ressuscitarão os corpos de todos os homens, sem distinção alguma quanto a ordem do tempo, bem que ela seja grande quanto ao grau de excelência. Porque os maus ressuscitarão com suas fealdades e penalidades, misérias e defeitos, que tiveram no estado de viadores. Nos bons, porém, salvo a condição particular de cada um, serão tirados os defeitos, e todos ressuscitarão com o corpo íntegro, qual corresponde à idade madura, e com os membros proporcionados, para que assim todos os santos saiam ao encontro, qual varões perfeitos, segundo a medida da idade cumprida de Cristo. Ressuscitarão, contudo, assim nos bons como nos maus, os mesmos corpos que numericamente existiam e, formados das mesmas partes, exceto a identidade da natureza toda inteira, não só quanto aos principais membros e ao humor radical, senão também salvos os cabelos e demais membros que se referem à harmonia do corpo, de maneira que “nas asas de qualquer vento ou em qualquer seio da terra que venham a parar as cinzas do corpo humano, voltará este a juntar-se com a mesma alma que o compôs antes para tivesse vida e desenvolvimento”.

 Se entenderá isto pelo seguinte raciocínio: como o primeiro Princípio, por si mesmo que é primeiro e sumo, é também universalíssimo e suficientíssimo, e por isto é a origem das naturezas, das graças e dos prêmios; princípio, ademais, poderosíssimo, clementíssimo e justíssimo, ainda que por certa apropriação seja poderosíssimo na constituição das naturezas, e clementíssimo na doação das graças, e justíssimo na retribuição das recompensas; cada um destes atributos, contudo, tem sua parte em cada obra destas, como queira que o poder, a clemência e a justiça de nenhuma maneira podem separar-se entre si.  E, por isto, a retribuição é de rigor se faça segundo o exige a retidão da justiça, e a reformação da graça, e a perfeição da natureza. E pois a justiça reclama necessariamente que o homem, que mereceu ou desmereceu não só na alma nem só no corpo, mas na alma e no corpo juntos, seja castigado ou premiado em ambos; e a reformação da graça requer  que o corpo todo inteiro se assemelhe a Cristo, que é cabeça, cujo corpo morto, por estar unido inseparavelmente à divindade, era necessário que ressuscitasse; e  a perfeição da natureza requer que o homem conste de corpo e alma juntos, como de matéria e forma, que têm mútua inclinação e mútua necessidade; por força se há de verificar a ressurreição, como queira que a reclamam assim a constituição da natureza, a infusão da graça e a retribuição da justiça, segundo os quais deve reger-se a totalidade das coisas.  E assim, como por estas três bocas, tudo pede a ressurreição do homem, a fim de tirar toda escusa àqueles que se fazem surdos para não ouvir esta verdade da fé e justificar por que todo o universo luta contra elas.

E primeiramente, porque a ressurreição há de ser segundo exigências da ordem da justiça divina, e a justiça dá a cada um o seu, conforme ao lugar e tempo, e toda alma, logo, ao unir-se com o corpo sequer por um instante, tem nele ou culpa ou graça, é necessário que todos ressuscitem. E porque o estado de retribuição deve ser distinto do de viadores, e a ressurreição diz referência ao estado da retribuição, para que a ordem do mundo não se perturbe e a fé, que crê o que não vê, tenha mérito, e para que se manifeste mais certa e claramente a equidade da justiça divina, e ao mesmo tempo tenha lugar a consumação e retribuição nos anjos e nos homens, requer também a justiça divina que todos ressuscitem de uma só vez os que estiveram sob a mesma lei geral. Digo isto por Cristo e por sua beatíssima Mãe, a gloriosa Virgem Maria. E porque aos maus corresponde pena e miséria e aos bons  glória, ainda ressuscitando juntamente, atendido ao tempo, serão muito dessemelhantes na condição. Com efeito, sendo a ressurreição nos maus não para a vida, mas para o suplício, é necessário que ressuscitem com suas fraquezas, deformidades e defeitos.

Ademais, pois a ressurreição deve ser segundo as exigências da consumação da graça, e a graça perfeita nos faz conformes a Cristo, nossa cabeça, quem não teve defeito algum nos membros senão perfeita idade e estatura proporcionada e semblante formoso, é conveniente que os bons ressuscitem nas melhores condições, e, por isto, necessário também que se tirem deles os defeitos, ressalvada, porém, a natureza. É também conveniente que se faltava algum membro, se supra a falta; se havia alguma superficialidade, se tire; se alguma desordem nos membros, se corrija; se alguém era párvulo, lhe sejam dada por virtude divina a total da idade de Cristo, isto é, a que tinha na ressurreição, bem que não igual na perfeição; se decrépito, se lhe retraia a mesma idade;  se gigante ou anão, que se lhe acondicione a conveniente estatura, para que assim todos saiam íntegros e perfeitos ao encontro, qual varões perfeitos, segundo a medida da idade de Cristo.

Por último, devendo ser a ressurreição conforme às exigências da perfeição e da natureza e exigindo a natureza da alma dotada de razão que dê vida ao seu próprio corpo, já que “o ato próprio há de verificar-se em matéria própria”, é necessário que ressuscite o mesmo corpo numericamente; de outra maneira não seria ressurreição verdadeira. Exige também a natureza da alma racional e imortal que, como é perfeita em seu ser, assim tenha também corpo a quem comunicar a vida perpetuamente, e por isto o corpo que se une à alma, pela mesma união está ordenado à incorrupção perpétua; de tal maneira, sem embargo, que aquilo no que consiste a substância de todo o corpo, como são os membros principais e o humor radical e a carne segundo a espécie, está ordenado de maneira necessária; porém o demais, a saber: a carne segundo a matéria e as partes que se referem à perfeição do corpo, se ordenam por congruência; e assim as primeiras partes mencionadas se ordenam à ressurreição segundo ordem de necessidade, enquanto as outras só segundo ordem de congruência. E porque Deus imprimiu esta ordem à natureza e a natureza por si não pode levá-la à perfeição, já que não lhe é dado ressuscitar o morto, e, por outra parte, a mesma Providência divina nada houve de fazer debalde, é necessário  que por virtude desta se restabeleça o mesmo corpo atendido o número, imortal e formado de todas as partes, salvo, ademais, de tudo a identidade da natureza. E como isto não é atribuição, mas só propensão da natureza, porque se pode restabelecer numericamente o mesmo corpo já destruído, por não alcançar seu poder à substância toda inteira; nem pode haver um corpo imortal, por ser corruptível enquanto procede da geração natural; nem pode reunir o que está esparramado, é necessário que a ressurreição se atribua não a causas seminais nem naturais, mas às primeiras, de maneira que se verifique conforme a um processo maravilhoso e sobrenatural segundo a ordenação da vontade divina.

 

3. Sobre o que seguirá após o Juízo Universal

 a) A pena infernal

 Agora corresponde tratar das coisas que se hão de seguir ao Juízo, que são duas: a pena infernal e a glória celestial.

Com relação à pena infernal há de saber isto: a pena infernal se verifica num lugar material situado debaixo da terra, no qual serão atormentados eternamente todos os réprobos, tanto homens como espíritos malignos.  E serão atormentados por um mesmo fogo material, que abrasará e afligirá espíritos e corpos – sem consumir, contudo, os corpos, apesar de os atormentar sempre – a uns mais, a outros menos, conforme o tenham merecido. E com este tormento do fogo terão também seu tormento todos os demais sentidos, e se acrescentará a pena do verme e a privação da vista de Deus, de maneira que nessas penas haverá variedade, e junto com a variedade haverá acerbidade, e junto com a acerbidade haverá interminabilidade, a fim de que se verifique para suplício dos réprobos, que “o fumo dos tormentos deles subirá pelos séculos dos séculos”.

Para entender isto observe-se que sendo sumo o primeiro Princípio, pelo fato do mesmo ser primeiro, enquanto possui o possui em proporção suma, pelo qual é necessário que seja retíssimo. E porque no retribuir se conduz conforme a retidão, como não pode operar contra si, não pode tampouco negar-se a si mesmo nem transgredir sua justiça ; e assim, por exigi-lo sua retidão, é necessário, de toda necessidade, que se castigue o pecado segundo a grandeza da culpa, sobretudo naqueles que, menosprezando a lei da misericórdia, investiram, pela impenitência,  contra a severidade da justiça. E porque compete à severidade da justiça olhar a culpa não somente quanto ao fundamento, mas também quanto às circunstâncias agravantes, é muito conveniente que o justo Juiz exija dos ímpios as penas devidas até o último oitavo, e assim não fique “a desonra do pecado com míngua da honra devida à justiça”;  e segundo é manifesto o poder na criação, e a sabedoria no governo, e a bondade na reparação, se manifeste assim a suma justiça no castigo.  Desta forma, a justiça divina deve castigar ao ímpio segundo merece a culpa, e a culpa mortal, à que segue a impenitência final, tem em si razão da perdição eterna, perdição deleitosa e perdição multiforme, é necessário que a culpa seja castigada com eternidade, acerbidade e multiformidade de penas.

Em primeiro lugar, pois, a pena da perdição eterna deve ser perpétua porque o pecado que um comete, e do qual nunca se arrepende, dura perpetuamente na alma e a separa da vida eterna, isto é, de Deus, e procede da vontade que desejava deleitar-se no pecado eternamente. E mesmo que o deleite que passa seja momentâneo, tendo a perdição razão de perpetuidade, a pena correspondente à perdição não deve ter fim, para que, como o homem em seu querer perpétuo não determinou fim para apartar-se do pecado, tampouco desista Deus no seu querer perpétuo de castigar; e porque pecou contra o Infinito, tenha pena infinita, e pois não é capaz de pena infinita em intensidade, a tenha ao menos em duração; e como sua vontade, depois da morte, permanece aderida para sempre ao mal, sem admitir penitência, assim Deus castigue para sempre sem mudar a sentença, segundo o pede a perpetuidade da perdição nos ímpios condenados.

Em segundo lugar porque a pena da perdição deleitosa deve ser aflitiva, posto que o deleite se castiga com seu contrário, a tristeza, e a alma dotada de razão, ao pecar se volta ao bem que lhe é próprio e que se lhe apresenta como bem digno de amor atual e deleitosa, e por isto menospreza o querer e a soberania de Deus, segue-se que para perfeito castigo de semelhante deleite malvado, em que se juntam de uma vez o deleite e o menosprezo, seja necessário que em castigo do menosprezo e do deleite, o pecador, homem ou espírito, seja precipitado no lugar mais baixo e mais afastado do estado da glória, isto é, nas profundezas do inferno.  E necessário que também se lhe exponha a ser atormentado ali pelo ser mais baixo, e assim não padeça por ser algum espiritual, mas por material e ínfimo, isto é, pelos excrementos dos corpos do mundo, de maneira que se afogue nos excrementos e seja atormentado com o fogo do enxofre. E porque a alma, que naturalmente é de maior excelência que o corpo, que tem a missão de exercer influxo e dar movimento ao corpo, perverte pala culpa a excelência de seu ser natural e se sujeita de certa maneira à vileza e ao nada do pecado, a justiça ordenada deve dispor que tanto o espírito como o homem pecador seja sujeitado ao fogo material, não para comunicar-lhe vida, mas para que, por disposição divina, receba dele pena, porque estando inseparavelmente ligado a uma coisa que lhe enche de horror por causa do temor infundido por Deus, e que o sente pela sensibilidade natural, é necessário que se atormente amargamente, porque este fogo  não opera senão segundo o exigem o pecado e reato  e mancha que provém da maldade do deleite, e este não é igual em todos, de forma que um mesmo fogo abrasa a uns mais e a outros menos, como um mesmo fogo abrasa de uma maneira a palha e de outra a lenha. E por causa desta diferença de pecado e de reato, que se ajusta à ação do fogo, permanece num mesmo uniforme e nunca aumenta nem diminui, nem muda, segue-se que, dispondo-o assim a vontade divina, de tal maneira opera aquele que sempre abrase porém não consume, atormenta sempre e não mata, porque não opera para obter aumento em si mesmo, mas para impedir a paz da alma no corpo ou do espírito em si mesmo. De onde não tem lugar nova privação da paz, mas continuação daquela perdida, para que assim, na mesma pena, nem a acerbidade tire a eternidade nem a eternidade a acerbidade.

Por último, devendo corresponder pena multiforme à perdição multiforme, e havendo em todo pecado mortal atual aversão desordenada da luz e bondade sumas, e propensão desornada a um bem mutável, e perdição da vontade contra o ditame da reta razão, segue-se que a todos os que pecam atualmente, que assim serão os condenados, atormentará tríplice pena: a privação da vista de Deus, por causa da aversão; a pena de um fogo material, por causa daquela propensão, e a pena do verme, por causa da transgressão da vontade e da razão, para que assim, atormentando-se nesta multiplicidade de penas padeçam  variada, acerba e eternamente “e o fumo dos tormentos suba nos séculos dos séculos. Amém”.

 

b) A glória do Paraíso

 Sobre a glória do céu se há de saber em resumo o que segue: que há nela prêmio substancial, consubstancial e acidental.

O prêmio “substancial” consiste na visão, fruição e posse do único sumo bem, que dizer, de Deus, que os bem-aventurados veem face a face, a saber: abertamente e sem véu; de quem gozarão avidamente e com deleite, a quem possuirão também sem fim, verificando-se assim o que disse São Bernardo, isto é, que  Deus será plenitude de luz para o entendimento, abundância de paz para a vontade e eternidade não interrompida para a memória”.

O prêmio “consubstancial” consiste na glória do corpo, que é chamada segunda estola, vestida a qual, a alma bem-aventurada tende mais perfeitamente “ao mais alto do céu”.  E esta estola consiste nos quatro dotes do corpo, a saber: claridade, sutileza, agilidade e impassibilidade, as quais se terão em maior ou menor grau, correspondente ao maior ou menor grau da caridade que antes havia tido.

E o prêmio “acidental” consiste em certa formosura acrescentada, que se chama auréola, e na opinião dos Doutores correspondente a três classes de obras: ao martírio, à pregação e à continência virginal.  Mas em tudo o supradito se guardará o grau e distinção que exige a diversidade dos méritos.

A razão para a inteligência disto é como segue: o primeiro Princípio, por ser primeiro, possui suma unidade, verdade e bondade, que é o mesmo que dizer sumo poder, e sabedoria, e clemência e justiça sumas. E porque estes atributos invisíveis de Deus convém que se manifestem por meio das obras, Deus, dando princípio a este mundo sensível, o fez, governa, repara, recompensa e consuma, de maneira que na criação se manifesta o sumo poder; no governo, a sabedoria; na reparação, a clemência; e na retribuição, a justiça perfeita. Para manifestar o poder, tudo o fez do nada para louvor, glória e honra de si mesmo, criando algumas coisas próximas ao nada, quer dizer, a matéria corporal, e outras próximas a si, que dizer, a substância espiritual, e unindo ao mesmo tempo entre ambas coisas, isto é, a alma espiritual e a matéria corporal no homem uno com unidade de natureza e pessoa. Para que se visse a sabedoria, Ele tudo o governa de maneira providencialíssima e ordenada. Com efeito, por si mesmo rege o supremo do homem, quer dizer, a mente, a qual esclarece, e o ínfimo, quer dizer, o corpo, o rege pelo livre arbítrio da vontade, para que assim o corpo e o corporal permaneçam submetidos ao espírito e o espírito a Deus. Para manifestação da clemência reparou ao homem caído a natureza de homem, aceitando suas penalidades e sofrendo por fim a pena de morte, para que assim a suma misericórdia fizesse que o sumamente misericordioso se assemelhasse ao miserável, para alívio da miséria não só na integridade original da natureza, mas também nos defeitos da mesma, caída em estado de miséria.  Para manifestar, enfim, a justiça dará a cada um segundo a exigência dos méritos não só castigo aos maus, mas também glória sem fim aos justos. Assim pede, com efeito, a retribuição justa, e a reparação gratuita,, e a governação ordenada, e a criação poderosa. Tudo isto terá sua consumação no final.

E primeiramente, devendo verificar-se o premiar a todos os justos segundo o pedem a retribuição justa e também a criação poderosa, e a criação pôs a alma racional próxima a Deus, capaz, digo, em virtude da imagem impressa nela da própria beatíssima Trindade, à qual serviu nos justos toda a alma do homem guardando íntegra sua imagem; daí que por nenhum outro, fora de Deus, pode premiar-se e encher-se a alma racional nem completar-se sua capacidade, pelo qual se lhe dá em prêmio a deiformidade da glória, que fazendo-a conforme a Deus a capacite para que o veja claramente com o entendimento, o ame plenamente com a vontade e o retenha eternamente com a memória, para que assim a alta toda viva, toda seja enriquecida em suas três potências, toda se configure com Deus, toda se lhe una, toda descanse n’Ele, encontrando n’Ele, como em todo bem, paz, luz e suficiência sempiterna, pelo que estabelecida “no estado que é perfeito pela reunião de todos os bens” e vivendo vida eterna, seja chamada bem-aventurada e gloriosa ao mesmo tempo.

Ademais, aquela retribuição deve fazer-se segundo exige não só a retribuição justa e a criação poderosa, senão também a governação ordenada, e Deus na criação uniu o corpo à alma e os atou por natural e mútua inclinação; mas quanto ao governo, submeteu o corpo à alma e fez que no estado de merecer o espírito se espelhasse pelo governo do corpo para exercitar-se no merecimento; nem a inclinação natural sofre que a alma seja plenamente bem-aventurada se não se lhe devolve o corpo, levando, como leva, entranhada a inclinação a voltar a juntar-se com ele; nem a ordem do governo sofre que o corpo se restitua à alma bem-aventurada senão do todo conforme e submetido  enquanto é dado ao corpo conformar-se ao espírito.  E como a alma é iluminada com a visão da luz eterna, deve por isto mesmo refletir em seu corpo a máxima claridade de luz. E já que pelo amor do sumo Espírito se fez a alma sumamente espiritual, deve ter também no corpo a correspondente sutileza e espiritualidade. E posto que na posse da eternidade se encontra a alma de todo impassível, deve, da mesma forma, haver em seu corpo, por dentro e por fora, omnímoda impassibilidade.  E porque por tudo isto a alma está muito disposta para tender a Deus, deve haver também no corpo suma agilidade. E pois por estas quatro propriedades se volta o corpo conforme a alma e sujeito ao mesmo tempo, destas quatro se disse que é dotado principalmente o corpo, em virtude das quais pode seguir à alma e ser posto na pátria do céu, que é a pátria dos bem-aventurados. Por estas propriedades, com efeito, adquire semelhança com os corpos celestes, segundo as quais precisamente, como por graus de distância, o corpo celeste dista dos quatro elementos; e assim, os quatros dotes dos corpos tornam ao corpo perfeito em si e disposto para a morada do céu e adaptado à alma bem-aventurada, pela qual desde a suma Cabeça, que é Deus, até à borda do vestido, isto é, do corpo, redunda e, enquanto seja possível, deriva a plenitude da doçura e a embriaguez da bem-aventurança.

Por último, porque o premiar deve verificar-se segundo exigem a retribuição justa , e a criação poderosa, e a governação ordenada, e também a reparação gloriosa, e nos diversos membros de Cristo há diversidade de carismas de graças não só quanto aos dons interiores, mas também quanto aos exteriores; não só quanto aos hábitos, mas quanto aos estados; não só quanto à perfeição da caridade na alma, mas também quanto à beleza e esplendor na atividade corporal, segue-se que a alguns membros se deve não somente a estola da alma com seus três dotes e a estola do corpo com os quatro, senão também alguma excelência de beleza e de gozo pela prestância de perfeição e de formosura obtida na prática da virtude.  Há três gêneros de operar sobremaneira perfeitos, formosos e harmoniosos, com harmonia especial em correspondência com as três tendências da alma: segundo o racional, a pregação da verdade, que leva a outros a salvação; segundo a concupiscível, a perfeita fuga das concupiscências pela integridade perfeita da continência virginal; segundo o irascível, o sofrer a morte pela honra de Cristo, segue-se que a estas três classes de justos, quer dizer, a pregadores, virgens e mártires, se deve a existência do prêmio acidental, que se chama auréola, que se refere à formosura não só da alma, mas também do corpo, posto que não se concede somente em atenção à vontade, mas ao operar exterior, tendo como base o mérito e o prêmio da caridade, que consiste nos sete dotes, três da alma e quatro do corpo, nos quais se encerra a consumação, a integridade e a plenitude de todos os bens referentes à glória completada.

Mas, quais e quão grandes sejam estes não o declaram minhas palavras, mas as de Santo Anselmo. Disse, pois, ao fim do Proslogio: “Desperta-te já, minha alma, e levanta tua mente toda, e medita quanto podes qual e quão grande é aquele bem. Se, com efeito, um por um os bens causam deleite, pensa com atenção quão deleitável é aquele bem que constitui o encanto de todos os bens, não por certo qual experimentamos nas coisas criadas, mas tão diferente como o Criador difere da criatura. E se é boa a vida criada, quão boa não será a vida criadora? Se é agradável a saúde comunicada, quão agradável não será a saúde que comunica toda saúde? Se é amável a sabedoria adquirida no conhecimento das coisas criadas, quão amável não será a sabedoria que as fez todas do nada? Enfim, se muitos e mui grandes prazeres há nas coisas prazenteiras, qual e quão grande não será o prazer em quem fez todo o prazenteiro?”

“Quem chegue a gozar deste bem, quê terá e o quê lhe faltará? Em verdade que terá o quanto quiser. Pois ali haverá bens do corpo e da alma como “nem o olho viu, nem o ouvido viu, nem veio à mente do homem”.  Por que, pois, vagas, homenzinho, por multidão de coisas em busca de bens para tua alma e para teu corpo? Ama o único bem, em quem estão todos os bens, e basta. Anela o simples bem, que é o bem todo inteiro, e é suficiente.  Pois, que amas, corpo meu; que desejas, alma minha?  Ali está quanto amais, quanto desejais. Se deleita  a formosura, os justos brilharão como o sol. Se agilidade, se força ou liberdade de corpo, sem coisa que possa estorvar-lhe , serão como anjos de Deus, porque se semeia corpo animal e se colhe espiritual pelo poder, não por natureza. Se vida durável e saudável, ali há sã eternidade e eterna sanidade, porque os justos vivem para sempre e do Senhor vem a salvação dos justos. Se fartura, se saciarão da glória de Deus. Se embriaguez, saciam-se da abundância da casa de Deus. Se melodia, ali cantam sem cessar os coros dos anjos louvando a Deus. Se qualquer prazer não sujo, mas limpo: “os afoga na torrente de tuas delícias, oh Deus”.  Se sabedoria, a mesma sabedoria de Deus se lhes mostrará a si mesma. Se amizade, amarão a Deus mais que a si mesmos e uns a outros como a si mesmos, e Deus os amará mais que eles a si mesmos, porque eles a Ele e a si, e uns aos outros por Ele, e Ele a si e a eles por si mesmo.  Se concórdia, todos eles terão um só querer, porque não terão outro que o querer de Deus. Se poder, tudo o poderão com seu poder, como Deus com o seu. Porque como Deus poderá por si mesmo o que quer, assim poderão eles por Ele o que quiserem, já que assim como eles não quererão nada distinto do que Ele quer, de igual maneira Ele quererá o que eles quiserem, e o que Ele quer é impossível que não se faça. Se honra e riquezas, Deus constituirá sobre o muito a seus servos bons e fiéis, e ainda mais: se lhes chamará e serão filhos de Deus e deuses, e onde está seu Filho ali estarão também eles, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo. Se verdadeira segurança, com toda certeza estarão certos de não perder nunca nem de nenhuma maneira esses bens, ou melhor, esse bem, como estarão certos de que nem hão de perdê-lo por próprio querer, nem Deus, que os ama, se o há de afastar-se deles, que lhe amam, nem nada mais poderoso que Deus há de separar a Deus e a eles contra sua vontade”.

“E o gozo, qual e quão grande onde tal e tão grande é o bem?  Coração humano, coração pobrezinho, coração que há experimentado fraquezas e talvez te sentes acabrunhado de fraquezas, quanto gozarias se tivesses tudo isto em abundância?  Pergunta a teu interior se pode caber nele o gozo de tão grande bem-aventurança. Mas, em verdade, se algum outro a quem amasses de todo como a ti mesmo tivesse a mesma bem-aventurança, se dobraria teu gozo, porque não te gozarias menos por ele que por ti.  E se tiverem o mesmo dois ou três ou muito mais, por cada um deles te alegrarias na mesma medida que por ti mesmo amando a cada um  como a ti mesmo. Assim, pois, naquela perfeita caridade de inumeráveis anjos e homens bem-aventurados onde nenhum ama menos a outro que a si mesmo, cada qual não se gozará por cada um dos demais de distinta maneira que de si mesmo. Se, pois, o coração do homem, por causa de tão grande bem próprio, apenas terá guarida  para seu gozo, como será capaz de tantos e tão grandes gozos? E certo, porque na medida em que cada um ama a alguém, na mesma se goza de seu bem; como naquela bem-aventurança perfeita cada um amará a Deus sem comparação muito mais que a si mesmo e a todos os demais consigo, assim se gozará também sem comparação mais da felicidade de Deus que da sua própria e de todos os demais consigo. Porém se amam a Deus de tal maneira com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, que, não obstante, todo o coração, toda a mente e toda a alma não baste à grandeza do amor, certo que se gozarão com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma, de tal maneira que todo o coração, toda a mente e toda a alma não bastem para a plenitude do gozo”.

“Porém, Senhor,  todavia não tenho dito ou pensado quanto se gozarão esses teus bem-aventurados. Certo, tanto gozarão quando amarem, tanto amarão quanto conhecerem. Quanto te conhecerão e te amarão?  Em verdade que “nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem veio à mente do homem nesta vida” quanto te conhecerão e te amarão naquela vida. Rogo-te, oh Deus, que te conheça, que te ame, para gozar de ti; e se não posso isto por completo nesta vida, adiante ao menos de dia em dia até chegar à perfeição; aumente aqui em mim teu conhecimento e faça-se ali total; cresça aqui teu amor e seja ali cumprido, para que aqui meu gozo seja grande na esperança e ali cumprido na realidade. Senhor, tu mandas por teu Filho e ainda aconselhas pedir e prometes atender à petição, para que nosso gozo seja cumprido. Deus veraz, consiga já, te peço, que meu gozo seja cumprido. Peço, Senhor, o que por nosso admirável Conselheiro aconselhas; consiga eu o que prometes pela Verdade, para que meu gozo seja cumprido. Entretanto, pense ali minha mente, fale dali minha língua, ame aquilo meu coração, publique ele minha boca, saboreie aquilo minha alma, tenha sede daquilo minha carne, deseje-o quanto posso, até entrar no gozo de meu Senhor, que é trino e uno Deus, bendito por todos os séculos dos séculos. Amém”.[1]




[1]              “Obras de San Buenaventura” - BAC – volume I – págs. 511/539