terça-feira, 31 de março de 2026

O LUMINOSO CAMINHO DOS “FLASHES”

 



 Em anterior ocasião, narrei aqui alguns flashes que tive em menino, os quais me levaram a compreender a santidade e a divindade da Igreja.

 

“Flashes” com a pureza de Nossa Senhora

Também na infância, outras graças dessa natureza me foram concedidas, ao contemplar as imagens de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, e de Nossa Senhora do Bom Conselho, no Colégio São Luís.

Em ambos os casos não houve milagre, como se as imagens se movessem e se manifestassem a mim de modo extraordinário. Porém, elas me foram ocasião de graças sensíveis, à maneira das que recebemos, por exemplo, diante da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, cuja maravilhosa expressividade nos faz ter a sensação de que ela muda de fisionomia, como se quisesse nos dizer algo.

Assim, de modo análogo, junto àquelas imagens tive uma dupla noção, da realeza e da misericórdia de Nossa Senhora.

Poder-se-ia afirmar tratar-se de realeza da castidade. Maria Santíssima é a Soberana de todo esse setor do universo chamado pureza, de tudo capaz de ser considerado casto, com primazia para a alma humana. Nossa Senhora possui a castidade em grau tão super-eminente, que todas as purezas abaixo d’Ela não são senão pálida figura da sua virgindade.

E a pureza tem em si algo que é oposto, não contraditório, com a misericórdia. Porque a castidade é profundamente exclusiva. A pessoa pura constitui em torno dela uma espécie de halo que se chama pudor,  uma distância de tudo que não seja casto. Ela é inquebrantável quanto à impureza, mostra-se altaneira em relação a esta e a afasta para longe.  Donde entre o puro e o impuro se estabelecer uma situação parecida com a que se poderia imaginar numa cena da Revolução Francesa, entre a Rainha Maria Antonieta e um daquele ferozes revolucionários. Ela representaria de algum modo a pureza, a ordem, e ele, a revolta, o partidário de toda feiura, sordície e más maneiras.

Tal cena exprimiria de maneira tênue a ideia de que realeza e pureza se casam com toda a intransigência inerente aos conceitos de ambas. Isto de um lado.

De outro, porém, Nossa Senhora possui insondável misericórdia, inclusive e principalmente para com o impuro. Embora faltoso, este continua sendo seu filho, e Ela o considera com seu ilimitado desvelo de Mãe, com sua incansável bondade, desejando perdoá-lo a todo momento, reerguê-lo e tirá-lo da charneca.

Ora, a conjugação de todas essas qualidades da Santíssima Virgem me falou na alma de forma inenarrável. E vi naquelas imagens d’Ela essas várias expressões. Marcou para minha vida inteira a devoção a Nossa Senhora, com a ideia de que Ela é um modelo a ser imitado custe o que custar, um auxílio no qual se deve confiar a todo preço, por pior que seja a situação. A bem dizer, duas incondicionalidades na vontade de imitar, no propósito de esperar o perdão e a clemência.

 

Um muro de horror ao pecado

A graça de compreender e admirar a realeza da pureza de Nossa Senhora, cuja noção adquiri através desses flashes, veio trazendo dentro de si um verdadeiro muro de horror contra a impureza.

Para se entender essa afirmação, imagine-se uma pérola absolutamente branca. Qualquer grão de poeira que se deposite sobre ela a deprecia, porque macula em algum ponto aquela alvura, quebra sua homogeneidade. Assim, a virtude da pureza imaculada, ilibada, traz consigo o padrão do muro de horror contra a impureza e, por extensão, também contra tudo quanto é erro e mal. Por exemplo, entre o deplorável defeito da inveja e a virtude contrária (isto é, a admiração e a alegria pelos dons concedidos a Deus a outros), há um muro de horror semelhante àquele da relação pureza-impureza.

Essa parede de aversão se repete ao longo de toda a muralha das virtudes, sobretudo no tocante à principal delas, a Fé, face ao pecado que a ela se opõe: a heresia.

Por definição, a Fé é tão casta que, muitas vezes, quando a Escritura se refere a alguém que pecou contra essa virtude, afirma ter ele caído na impureza. E quando o Antigo Testamento nos apresenta os judeus praticando atos impuros no alto das montanhas, aludo com isso ao pecado de apostasia que eles cometiam ao adorar ídolos postos naqueles locais. Ou seja, entregar-se à idolatria e cometer atos impuros, é pecar contra a Fé.

Em contrapartida, a Santa Igreja, guardiã da verdadeira Fé, é a Mãe casta, virgem e reta, a santa, a ilibada, que nos leva à prática da virtude e à repulsa ao vício.

Certo estou, portanto, de que naqueles momentos dos meus flashes com Ela, Nossa Senhora me concedeu a graça de edificar em minha alma esse muro de horror ao pecado. Muro este que todos devemos procurar desenvolver em nosso interior, em relação a qualquer defeito e pecado que nos afastam do caminho da santidade.

 

“Flashes” que se desdobram em princípios

A esse propósito, alguém poderia me indagar: “Para se criar esse muro de horror, importa ter tido antes um flash?”

O flash produz necessariamente o muro de horror. Porém, com frequência este último é obtido através do estudo da boa doutrina, feito de modo sério por uma alma honesta que deteste o vício e o mal, embora não tenha recebido a graça sensível que chamamos de flash. Entretanto, a meu ver, na vida espiritual de uma pessoa é indispensável haver certo número de flashes, a fim de que ela construa de maneira profunda essa muralha de repulsa ao pecado. E para minha cara “geração nova”, o flash é uma graça particularmente valiosa, devido à própria contextura de seu espírito.

Agora, os flashes devem se desdobrar em princípios, os quais cumprem ser, não analisados como coisa geométrica, mas amados. Quer dizer, compreendendo uma verdade a partir do flash, é necessário amá-la e detestar o erro oposto. Nesse sentido, lembra-me um Salmo que diz: “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso Deus me ungiu com seu óleo santo”. Na linguagem da Escritura, a justiça é o símbolo de todas as virtudes, e a iniquidade representa o conjunto dos erros. A unção da qual fala o Salmo seria, pois, o flash que torna a alma articulada, leve, aromatizada, azeitada para a prática do bem.

 

Trilhando o caminho dos “flashes”

Para concluir essas considerações, é oportuno dizer que cada um, com a peculiaridade de seu espírito e a riqueza de sua personalidade, em relação aos flashes deve ir apalpando e tateando suas impressões, a fim de procurar seguir um caminho análogo ao que trilhei. Esforçar-se em lembrar dessas graças recebidas, explicita as sensações que causaram, de maneira a saber dizer qual foi sua substância e, posteriormente, estabelecer correlações e princípios.

Assim foi como procedi: recordei meus flashes de menino, explicitei-os, compus com eles um quadro de impressões de correlações e conceitos: a santidade da Igreja, a realeza e virgindade de Maria Santíssima, etc.

Naturalmente, cada alma realiza essa operação num movimento que lhe é próprio. Não pretendo que façam como eu, mas acredito ser este um bom método para, efetuando as necessárias adaptações, seguir esse luminoso “caminho dos flashes”.

 

(Revista “Dr. Plínio”, nº 81, dezembro de 2004, pp. 14/17)


domingo, 29 de março de 2026

NUM OLHAR DE MARIA, A IMENSIDADE DE SUAS VIRTUDES

 



Comentários de Plínio Corrêa de Oliveira sobre o olhar da Santíssima Virgem Maria:

"Buscando explicitar para mim mesmo o que tanto me atrai em Nossa Senhora, encontrei uma figura tão simples como mais não se pode conceber, e que exprime bem o meu pensamento. Com a ressalva de que o exemplo talvez não se verifique inteiramente exato no que concerne à Geometria (da qual possuo sumários conhecimentos...), imaginemos um poliedro regular. Analisando-se uma de suas faces, é possível intuir como são as outras, com suas características e dimensões.

Assim é Nossa Senhora. Em virtude de sua perfeição super-eminente, possui Ela em grau igualmente incomensurável todas as qualidades de que seja capaz uma criatura humana. E, portanto, ao considerarmos uma delas, podemos perceber o valor e a magnitude das demais. Contemplando, digamos, o teor da virtude da Caridade em Maria, nos será dado discernir a riqueza de sua Fé e de sua Esperança. O mesmo sucede com as suas virtudes cardeais e com todos os excelsos predicados de que A enriqueceu a Santíssima Trindade.

 

Atraído pela inesgotável compaixão de Nossa Senhora

Contudo, o que primeiramente mais me tocou em Nossa Senhora não foi tanto a virginal, régia e insondável santidade d’Ela, mas a compaixão com que essa santidade olhava para quem não é santo, atendendo com pena, com desejo de dar, com uma misericórdia cujo tamanho era o das outras qualidades. Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a ajudar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento.

Sempre disposta, não só a repetir-se a Si própria, mas a superar-se a Si própria. De maneira que, dispensada tal misericórdia, e sendo ela mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo. E quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.

 

Um olhar que comunica calma para a vida inteira

Eu mesmo experimentei essa maternal compaixão quando, na infância, pela primeira vez atinei com a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Naquela hora, não tive nenhuma visão, nenhum êxtase, nenhuma revelação. Mas, pela ação da graça, senti-me tocado como se a imagem me olhasse.

Se fosse possível comparar o miosótis  com o sol, eu diria que esse olhar de Nossa Senhora operou em mim um efeito análogo ao do olhar de Nosso Senhor para São Pedro, durante a Paixão. O Príncipe dos Apóstolos O renegou, o galo cantou, e Jesus olhou para o discípulo infiel. Nesse instante, São Pedro se sentiu tomado por inteiro. E ele, que havia visto tudo quanto os Evangelhos narram — ou como testemunha direta, ou tendo recebido uma repercussão imediata dos acontecimentos — foi objeto de uma graça ímpar, que reavivou em sua alma, de modo intenso e esplendoroso, tudo o que ele conheceu da infinita bondade de Nosso Senhor. E essa lembrança venceu a ingratidão dele. Por isso, diz a Escritura: “Et flevit amare — E chorou amargamente.”

Daí vem a grande contrição de São Pedro, que constitui um dos mais belos fatos da história dos Santos. Também eu, no momento daquela graça diante da imagem de Nossa Senhora, tive conhecimento como que pessoal da indizível misericórdia d’Ela, de sua inexcedível bondade a me envolver todo, de maneira tal que, quisesse eu fugir ou renegar, Ela me pegaria afetuosamente e diria: “Meu filho, volte de novo, aqui estou...”

Como resultado desse celestial favor, tornei-me calmo para o resto de minha vida. Porque, seja o que for e como for, uma vez que nós, homens, estamos envolvidos por essa misericórdia, podemos descansar. No fundo, aquele que não é brutalmente insensível com Nossa Senhora, e para Ela se volta, d’Ela acaba recebendo sempre proteção e socorro em suas dificuldades.

E precisamente uma das coisas que mais me enlevaram, e que, dentro da indefinição de minha mentalidade de menino, entretanto ficou-me bem clara, foi o fato de que aquela solicitude materna não representava um privilégio para mim, mas é a atitude d’Ela para com todos os homens.

Nossa Senhora poderia condescender em tratar alguém como um privilegiado, porém não foi disso que eu tive cognição. Antes, compreendi o contrário: “Veja que você é um Zé da rua, e Ela trata da mesma forma a todos os Zés da rua. Para qualquer um, para todos os homens que existiram, existem e existirão, para todos os pecadores que transitam pelas cidades, que enchem as casas, os ônibus e os automóveis, Ela é exatamente assim.”

Volto a dizer que fiquei calmo para a vida inteira. Causa-me muita pena ver alguém, sobretudo um jovem, nervoso e com problemas. “Por que não lhe ser comunicado um olhar como o que recebi de Nossa Senhora?” — penso eu. “Ele ficaria calmo até o fim dos seus dias.” Medindo a profundidade dessa clemência sem limites, vêm-me ao espírito aquelas palavras que a Santíssima Virgem, no Magnificat, diz do Padre Eterno: “Et misericórdia ejus a progenie in progenies timentibus eum”.

Ou seja, a misericórdia divina se estende de geração em geração a todos os que O temem. A tal propósito, sempre pensei: “É bem verdade, e isto se dá por meio d’Ela. Maria é a misericórdia inesgotável, que não se extingue, que se multiplica solícita, bondosa, que toma nossa dimensão, que se faz até menor do que nós para nos pegar, de pena de nós.”

 

Pureza, fortaleza e sabedoria

Na dimensão dessa misericórdia, e nela contida, vem a ideia da virginalidade. Nossa Senhora é pura, de um grau de pureza do qual não se tem noção. Conhecida a misericórdia, se conhece a pureza. É novamente a figura do poliedro. Todas as purezas que se possam imaginar não chegam nem de longe aos pés da pureza d’Ela, que é feita não só de ausência de qualquer pendor para o mal, mas de um impulso de alma direta e exclusivamente para Deus, sem compromisso com mais nada e ninguém. É um ímpeto inteiro, de uma força, de uma integridade, de um desejo de Absoluto como também não se pode medir. Está na dimensão da misericórdia.

Supérfluo dizer que, nessa concepção de pureza, entra também o sentido de castidade, perto da qual a neve seria um carvão.

Essa pureza, no meu modo de entender, traz consigo a ideia da fortaleza. E fortaleza aqui não significa apenas algo que nada quebra. É diferente. Nada tem comparação possível com essa fortaleza. O que Ela, na sua pureza, decidiu, o resto do mundo se flecte e se liquida, e o universo inteiro é zero, pela força da vontade de Nossa Senhora. Quando Ela decide, é uma resolução que torna impossível a resistência de quem e do que quer que seja. É uma soberania e um domínio de igual dimensão da misericórdia e da virginalidade, uma envergadura para a qual não há palavras humanas. Todas as armas modernas são pobres e inofensivos brinquedos em comparação com um ato de vontade d’Ela.

Por sua vez, essa misericórdia, essa pureza e essa fortaleza trazem uma ideia da sabedoria da Fidelíssima Esposa do Espírito Santo.

Ela conhece tudo, e as inter-relações de todas as coisas, com acuidade tão superior que Ela penetra até as entranhas de todo ser, vê como é cada qual e discerne a ordem de Deus no universo, tão grande, tão inabarcável! Diante de sua sabedoria lúcida, adamantina, na qual não cabe nenhuma dúvida, compreendemos mais uma vez qual é a imensidade da pureza e da fortaleza da Virgem Santíssima.

Essas são as virtudes marianas que mais me chamam a atenção quando me lembro daquele olhar da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

 

“Meu filho, eu te quero” — “Minha Mãe, eu sou vosso”

Alguém poderá me dizer: “Mas, Dr. Plinio, o senhor contemplou esse olhar como um menino de onze ou doze anos. E depois, nunca mais houve algo assim?”

Respondo que, para mim, essa graça foi tão excepcional que permaneceu como um sol a iluminar toda a minha existência. É como se tivesse acontecido ontem. Como se, naquele momento, Ela me houvesse dito: “Meu filho, eu te quero”, e ouvisse de mim: “Minha Mãe, eu sou vosso”.

Poderão, ainda, perguntar-me: “E nesse relacionamento do senhor com Nossa Senhora, onde se encontra Nosso Senhor Jesus Cristo?”

Eu respondo: em tudo!

É a ideia desenvolvida por São Luís Grignion de Montfort no seu célebre “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”. Nossa Senhora é o claustro, o oratório, o tabernáculo sagrado onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e quanto mais estivermos próximos d’Ela, tanto mais estaremos próximos d’Ele.

Minha devoção a Ele passa por Ela, e, por isso, nunca alguém me vê proferir uma palavra de adoração a Nosso Senhor, sem que logo depois eu não fale de sua Mãe Santíssima. É sistemático.

Outros poderão todavia observar: “Muitas vezes o senhor se refere a Ela sem mencioná-Lo.”

É isso mesmo. Porque, sendo Jesus infinitamente maior do que Nossa Senhora, está Ele contido de modo implícito em toda referência que eu faça a Ela. A recíproca, porém, não se verifica. Razão pela qual procedo dessa forma e, se Ela me ajudar — queiram ou não queiram, agrade ou não agrade — assim procederei até morrer".[1]



[1] Revista “Dr. Plínio”, nº 13, abril de 1999

 

 


sexta-feira, 27 de março de 2026

ESCRAVOS DE MARIA, HUMILDES E PUROS, FORTES CONTRA O DEMÔNIO




(Revista Dr. Plínio, n. 126, setembro de 2008)

 

À maneira de uma gota de orvalho que parece conter todo o Sol quando sobre ela incide um raio de sua luz, assim é a alma humilde: eleva-se a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente indizíveis, torna-se pura e combativa, e se faz escrava de Maria Santíssima louvando-A no mistério da Encarnação.

 

Em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort comenta:

{Os escravos de Maria] terão uma especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio dessa devoção, uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo para honrar e imitar a dependência inefável que Deus Filho quis ter de Maria, para a glória de Deus Pai e para nossa salvação. Essa dependência se manifesta particularmente neste mistério em que Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria, onde depende d’Ela para todas as coisas.[1]

 

Durante sua gestação, o Divino Menino dependia em tudo de sua Santa Mãe

Nosso Senhor Jesus Cristo quis ser Escravo de Nossa Senhora porque, a partir do momento em que Ela aceitou a proposta do Anjo de dar à luz o Messias, o Espírito Santo atuou em seu interior e o Homem-Deus foi concebido. De maneira que, imediatamente depois do convite, Ela tornou-Se a Mãe de Deus.

Nosso Senhor Jesus Cristo passou no claustro santíssimo e puríssimo da Virgem Maria todas as fases da gestação. E continuamente o organismo d’Ela ia fornecendo o necessário para o desenvolvimento da criança mil vezes abençoada, do Menino Divino que estava ali Se formando para a salvação dos homens.

De maneira que se tem dito muito bem: Caro Christi, caro Mariae.[2] Porque, no matrimônio comum, os filhos são produtos do pai e da mãe, mas no casamento virginal de Maria, Nosso Senhor não era filho natural de São José, que possuía um direito paterno ao fruto das entranhas de sua Esposa, mas não era o pai consanguíneo do Menino Jesus. Ela, entretanto, era a Mãe carnal d’Ele.

 

Excelsa santidade a que foi elevada a Esposa do Espírito Santo

Mas não podemos deixar de considerar que, sendo Nossa Senhora verdadeira Mãe de Deus, a partir do momento em que o Espírito Santo tornou-Se Esposo d’Ela, Ele teve também sobre a alma d’Ela direitos que sobrepunham aos de São José; e São José, por sua vez, devoto ardentíssimo do Divino Espírito Santo e cheio do Espírito Santo, ajudava-A, por sua vez, a conhecer o que o Espírito Santo queria para a plena execução da vontade d’Ele.

Assim, Nossa Senhora Se tornou Sua Esposa e começou a receber d’Ele orientações, diretrizes, atos de amor, consolações, “flashes” – se podemos empregar a  palavra – de uma sublimidade insondável, referentes ao relacionamento de Nosso Senhor com Ela, formando com o Padre Eterno um convívio altíssimo, no qual Nossa Senhora era, a um título muito especial, Filha do Padre Eterno; a um título único, Mãe do Verbo Encarnado; e Esposa do Divino Espírito Santo. Tudo isso veio para Ela em virtude da Encanação.

No momento em que a Santíssimo Virgem concebeu o Verbo Encarnado, houve, por assim dizer, uma promoção assombrosa, na qual Ela inteira foi elevada a uma condição superior à de todos os Anjos e Santos. E de tal maneira superior que, se a santidade pudesse ser objeto de uma operação matemática – ela é algo puramente espiritual -, mas se somássemos a santidade havida em todos os Santos desde o início da Criação até o fim do mundo e comparássemos com Nossa Senhora, Ela seria incomparavelmente mais santa do que toda essa montanha altíssima dos Santos de todos os tempos que o Espírito Santo foi suscitando na História.

Nós não temos ideia de qual foi e qual é a santidade de Maria. Moisés, quando pediu para ver a Deus, ouviu esta resposta: “Não podereis ver minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver” (Ex 33, 20). Eu me pergunto, às vezes: se nos fosse dado ver nesta vida terrena Nossa Senhora face a face, com todo o esplendor d’Ela, será que não morreríamos também?

 

Convívio com Nossa Senhora, convite à perfeita obediência

É verdade que a Virgem Maria tem aparecido a vários Santos. No entanto, Ela provavelmente encobre algo de sua santidade para esses não morrerem, ou confere graças muito especiais para aquele instante, a fim de eles puderem aguentar vê-La.[3]

Santa Catarina Labouré, religiosa francesa do século passado que divulgou a Medalha Milagrosa, conta as aparições da Mãe de Deus assim: ela estava dormindo e, quando acordou, apareceu-lhe um menino que ela percebeu ser o Menino Divino, que disse para ela ir com Ele até a capela, porque sua Mãe a esperava lá. Ela mais do que depressa se alinhou e foi para a capela.

Havia muitas dependências entre a capela e a cela onde ela dormia e, ao longo de todo o caminho, todas as luzes estavam acesas como se tratasse de uma grande festa.

E mais: quando ela chegou à capela, encontrou Nossa Senhora no presbitério, sentada numa cadeira de madeira que até hoje se oscula, se pode venerar. A Santa acercou-se d’Ela e, segundo consta, conversou com Ela tendo os cotovelos apoiados nos joelhos de Nossa Senhora.

O que deve ter restado em sua alma a vida inteira por aquilo que viu! A conclusão que tiro daí é que Nossa Senhora, falando com Santa Catarina Labouré, comunicou-lhe uma grandeza de alma e também uma obediência pelas quais, cada vez que a Santa era engrandecida nas sucessivas visões, ficava mais obediente.

Por que razão? Porque ela ia compreendendo cada vez mais a santidade inefável de Nossa Senhora e, portanto, cada vez admirando mais. E lhe ficava mais claro o absurdo que haveria em desobedecer à Mãe de Deus e àquele universo de santidade existente em seu Imaculado Coração.

 

A essência do espírito contrarrevolucionário

E, por causa disso, o crescimento na santidade, que deveria na aparência gerar uma espécie de sensação quase de igualdade, suscitava pelo contrário uma situação de inferioridade deliciosamente experimentada, vivida na exclamação: “Que paraíso é obedecer!”

A essência do espírito contrarrevolucionário é isto: admirar tanto o poder no qual existe a autoridade para mandar em nome de Deus; em venerar e adorar tanto a Deus que manda por meio daquele poder, que quanto mais obedecemos, mais nossa alma se enche de graças. E, pelo crescimento na obediência, ela se eleva a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente indizíveis.

Se alguém quer ser grande, procure ser pequeno. E peça a Nossa Senhora a graça de conhecer, intuir e avaliar a santidade d’Ela tanto quanto seja possível à fraqueza humana. Os que avaliarem crescerão enormemente em santidade e assim crescerão em humildade, porque não há santidade sem humildade. E se crescerem em humildade, quanto mais tiverem que obedecer, mais encantados ficarão.

Desse modo, para a alma humilde que gosta de obedecer, de admirar e de fazer-se pequena, o ideal nesta Terra é fazer-se escrava de Nossa Senhora. Mas no sentido de considerar-se, aos pés d’Ela, literalmente, como um “vermezinho e miserável pecador”, como diz São Luís Grignion. Porque pecados o homem os comete, embora insignificantes e minúsculos, ainda quanto se trata de um grande Santo; e, portanto, qualquer ser humano é um miserável pecador, um vermezinho da terra... Deus o esmaga quando quiser, tira-lhe a vida quando entende, dá-lhe a saúde ou a doença conforme Lhe apraz. Nós estamos na completa dependência de Deus para tudo quanto Ele queira.

Mas que felicidade para nós pensar: é verdade, somos tão pequenos perto d’Ele que quanto mais reconhecemos nossa pequenez, mais nos unimos a Ele e mais Ele nos coloca em seu Sagrado Coração.

 

União com a Santa Igreja, militância no Céu

É amando cada vez mais a Nosso Senhor Jesus Cristo em Nossa Senhora, amando a ambos na Santa Igreja que nossas almas vão progredindo e tomando uma dimensão de compreensão cada vez mais profunda de como é a Igreja.

De maneira a termos, em certos momentos, a impressão de que nos fizemos um só com a Santa Igreja e que, surgindo um problema, antes mesmo de saber como ela o resolveria, nós mesmos adivinhamos, pela estreita união com ela, cujo espírito possuímos inteiramente.

Compreende-se por esta forma que a união inteira com a Igreja deve ser o nosso último e supremo ideal. E o que eu quero ter em vista antes de tudo é que, quando eu morrer, subirei para ser um membro da Igreja gloriosa, mas gloriosa militantemente. E que, no Céu, uma das minhas alegrias será a de lutar como lutei na Terra.

Nós sabemos pela Teologia, Cornélio a Lápide diz isso, que os demônios têm certo conhecimento do que se passa no Céu, mas um conhecimento cheio de ódio, no qual não entra um pingo de admiração, apenas inveja ou revolta; e eles têm ódios especiais a certas coisas. Por exemplo, eles veem na vida celeste as almas que eles quiseram perder e levar para o inferno e, vendo-as naquela felicidade altíssima junto ao trono de Deus, eles blasfemam, injuriam. E muitas vezes os Bem-aventurados os contestam e com isso ferem o seu orgulho.

E assim há uma espécie de continuação da militância no Céu. Imaginem quando nós estivermos cantando as glórias de Deus, de seus Anjos e Santos por toda a eternidade e, de vez em quando, nomeio de nosso cântico, pudermos entrar em contenda contra o demônio, ação com a qual se rejubilam todos os Anjos que lançaram no Inferno aquela canalha. De maneira que há uma associação maravilhosa de relações.

 

Pequenos e puros, como gotas de orvalho

Enfim, neste dia da Anunciação, pensemos nas glórias da Santíssima Virgem Maria. Filha do Padre Eterno Ela foi sempre; Mãe do Verbo e Esposa do Espírito Santo tornou-Se com a Encarnação.

Maria subiu com isso a alturas inexcogitáveis, desde as quais olha e acompanha a vida de cada um de nós. E queira Deus que Ela perdoe as imperfeições que há no interior de todos nós; que não olhe para elas, mas apenas para sua misericórdia e que sorria ao Divino Espírito Santo, sorria a Jesus Cristo Nosso Senhor e ao Padre Eterno, e diga à Santíssima Trindade: “Vede, tende pena e compaixão deles, ajudai-os a serem inteiramente aquilo para o qual foram criados, e neste ponto sejam fiéis como verdadeiros escravos, fazendo inteiramente a minha vontade que é vossa, Trindade Santíssima! E fazei com que esses escravos fidelíssimos sujeitem ao meu império o demônio rebelde”.

Eis as graças que neste 25 de março compete, a meu ver, suplicar: rezar a Nossa Senhora para pedir uma tal união com a Santa Igreja Católica, que sejamos como Ela; não tanto quanto Ela, mas à maneira d’Ela, como uma gota de orvalho na qual bate um raio de sol é como o Sol.

A gota de orvalho é linda, é pura, ela encanta; um raio de sol que incide sobre ela fá-la brilhar inteira. Mas o que é a gora de orvalho em relação ao Sol? A desproporção entre Nossa Senhora e cada um de nós é muito maior do que a que há entre a gota de orvalho e o Sol.

Peçamos que, à maneira da gota de orvalho, sejamos humildes e pequenos, mas puros, fortes, e que do entusiasmo de nossa pureza e de nossa força parta um constante ataque contra os inimigos eternos de Deus. (Extraído de conferência de 25/3/1995).

 (Plínio Corrêa de Oliveira - extraído da revista “Dr. Plínio”, edição n.324, março de 2025, págs. 9/13)

 

 

 

 

 



[1] Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n. 243, In: Oeuvres Compètes, Paris; Du Seuil, 1966 – p. 650

[2] A carne de Cristo é a carne de Maria.

[3] Narra-se na vida de São Dionísio, o Areopagita, que o mesmo teria dito que ao ver Nossa Senhora tal era sua beleza que a teria adorado como uma deusa se não tivesse recebido uma graça especial.


segunda-feira, 23 de março de 2026

A AURORA DA CONFIANÇA EM NOSSA SENHORA

 

                                               (Revista Dr. Plínio, 67, outubro de 2003)


 Extratos de conferências dos anos 1984, 1987 e 1989, publicadas na “Dr. Plínio”, n. 2, maio de 1998, seção “Gesta marial de um varão católico”, pp. 4-7.[1]

Um achado providencial

 

Dr. Plínio relata como se tornou escravo de Maria

No meu tempo de menino, por vezes eu pensava no Céu. Tais cogitações estavam intimamente relacionadas com aquela graça a mim concedida por Nossa Senhora Auxiliadora, num difícil período de minha infância (cf. artigo “Salvai-me Rainha”, no 1º número desta revista). De fato, essa especial manifestação da misericórdia de Maria para comigo, me fez compreender o papel da bondade d’Ela na existência humana. Daí nasceu em minha alma o intenso desejo de me unir a Ela, espiritualmente, até o fim de minha vida.

 

Como será o Céu?

Então, imaginava eu o seguinte: “No Céu, Nossa Senhora é Rainha Mãe. Ora, os reis e as rainhas da Terra têm cada um sua corte. Portanto, no Céu há de existir também, numa situação cercada de honra, de respeito, embora um pouco colateral, a corte da Rainha Mãe. Esta corte deve ser um tanto secundária, pois não é a que adora diretamente a Deus, senão por meio de Nossa Senhora. Além disso, ela deve ser constituída de almas menos importantes, assim como a corte de uma rainha mãe é compota de cortesãos, digamos, de segundo nível. Seja como for, eu, indo para o Céu, quero fazer parte da corte da Rainha Mãe. De momento não sei dizer por que, mas tenho certeza de que passarei minha eternidade entre os cortesãos da Virgem Santíssima. Quem sabe quando eu ficar mais velho encontre explicação para isso...”

Entretanto, a ideia da Rainha Mãe, de tal maneira se desenvolveu que, sem eu me dar conta, a metáfora ficou ultrapassada. Compreendi que Nossa Senhora era muito mais do que uma rainha mãe. A comparação se verificara primitiva, contendo apenas uma semelhança com a realidade, e não uma efetiva analogia.

Essa constatação tornou-se mais viva no meu espírito quando, já então homem de 22 anos, li o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís Grignion de Montfort. À medida que eu percorria aquelas páginas, com transportes de entusiasmo fui tomando conhecimento da admirável doutrina nelas exposta. Fazia-o na concordância eufórica de minha alma, de modo que cada linha era uma nova razão de arroubamento, mas, ao mesmo tempo, era como se eu já tivesse pensado tudo aquilo.

Intercessão de S. Teresinha

Uma circunstância banal esteve na origem da leitura que fiz desse livro. Era eu muito devoto, e ainda sou, de S. Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, li a Histoire d’une âme (Hoistória de uma alma) – autobiografia de da sua vida espiritual – e fiquei profundamente impressionado. Compreendi que eu devia fazer algum progresso na minha própria vida espiritual, sem entretanto saber bem qual era. Encontrava-se numa fase em que já tinha realizado alguns avanços, e não podia ficar estagnado. Ir para a frente era-me imperioso, pois constituía para mim uma necessidade de alma.

Sabendo eu que, pela intercessão de S. Teresinha, obtinha-se grande número de graças no mundo inteiro, resolvi pedir-lhe duas de que eu mais carecia.

A primeira, que me fizesse encontrar um bom livro, desses cuja leitura enriquece o espírito e marca uma vida.

Em segundo lugar, pedi a S. Teresinha algo muito diferente: ganhar na loteria... O bilhete que eu comprara oferecia um prêmio máximo de 400 contos. Para época, esse montante correspondia a um excelente patrimônio, com o qual eu poderia leva uma vida tranquila dentro dos meus padrões.

Qual a razão de pedir esse dinheiro? É que eu não queria ter preocupações profissionais, a fim de dedicar todo o meu tempo ao apostolado católico em que estava empenhado.

Bem, quanto aos 400 contos, ainda os estou esperando... Não chegaram. O livro, porém, pouco depois o encontrei.

Na Rua Martim Francisco, em São Paulo, erguem-se alguns edifícios dependentes da Igreja do Coração de Maria. Num desses prédios abre-se uma porta pela qual, outrora, se tinha acesso ao interior do convento dos padres claretianos, bem como para a livraria que eles ali possuíam.

Quantas e quantas vezes, passando diante daquela porta, tenho agradecido a Nossa Senhora! Olho aquela entrada com amor, porque tem relação próxima com um grande acontecimento de minha vida, ao qual estimo como algo presente no centro do meu coração. Mais do que isso, eu só quero o meu Batismo e a minha Primeira Comunhão.

 

O encontro com o Tratado

De faro, foi visitando essa livraria que encontrei um pequeno livro, escrito em francês, impresso de modo muito agradável, em caracteres pretos e vermelhos. Seu autor me era desconhecido: Bienhereux Louis Marie Grignion de Montfort. Um Bem-Aventurado...

“Mas, o que me dirá esse livro? ‘Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge’ – Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Quem sabe não é o livro suscitado por S. Teresinha?”

Coloquei-o de lado e passei a examinar outros, para ver se mais algum me interessava. Encontrei um do qual também não tinha ouvido falar, e fiquei na dúvida se levava este ou aquele. Na incerteza da escolha, folheei novamente o Tratado, achando-o muito bem impresso, atraente e agradável de ler. O outro, um calhamaço feio e indigesto. Enfim, por esta simples razão – pensava eu, sem perceber que S. Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Mandei embrulhar e fui embora.

Ao chegar a casa, desembrulhei o pacote, sentei-me e comecei a ler. Logo percebi que tinha encontrado o livro de minha vida! Até então, não fazia ideia de que um livro pudesse exercer sobre mim o efeito que esse exerceu.

Segundo um antigo hábito, não iniciei a leitura a partir da primeira página, mas abri o Tratado em qualquer lugar, do meio para o fim. Achava que um livro tornava-se bem mais interessante quando havia alguma coisa nele para se adivinhar. Então, lendo-o do meio para o fim adivinha-se como é o começo. Depois o leitor confere se, de fato, o início corresponde ao que dele se imaginou. Sempre me agradou agir dessa maneira em relação aos livros que eu lia.

Com o Tratado, porém, foi diferente. Ao folhear duas ou três páginas, pensei: “Este livro é diferente de qualquer outro, não se pode ler assim. Tem que ser desde o começo, porque é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!”

Foi uma leitura demorada, porque feita muito devagar. O Tratado devia ser estudado ponto por ponto, como se faz com um difícil livro de faculdade. E assim procedi: relacionei pontos, tomei notas, e cheguei até a compor uma ladainha de invocações a Nossa Senhora, sugeridas pelo texto de S. Luís Grignion.

É um portento de livro, baseado que há de melhor em matéria de Teologia, aprofundando largamente, e com elevadas vistas, a doutrina sobre Nossa Senhora. De maneira que o leitor adquire uma boa noção a respeito das excelências de Maria Santíssima, do que Deus teve em vista criando-A, do papel da santidade d’Ela e de sua perfeição de alma na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como no plano da Redenção, no Colégio Apostólico e na Santa Igreja, por todos os séculos.

Assim, cada vez mais encantado, fui percorrendo e estudando ponto por ponto o Tratado da Verdadeira Devoção.

 

O Reino de Maria

Em certo momento, percebi que o livro cintilava labaredas a propósito de um assunto que nunca visto ninguém tratar, e que me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria.  Logo compreendi que esse Reino era a meta para onde minha alma e todo o meu ser voavam!

Entusiasmou-me sobremaneira a descrição que faz S. Luís da perfeição e do auge de santidade que as almas atingirão nessa era marial. Mais do que tudo, arrebatou-me a ideia da necessidade da Sagrada Escravidão de amor a Nossa Senhora, para agradá-La e entregar a Ela tudo quanto alguém Lhe possa dar.

 

Escravidão?

Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela!

Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!”

Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano.

Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.

Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”.

No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez.

 

Um propósito para toda a vida

Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e  por d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort.

Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer  por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.

São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.[2]




[1] O texto publicado nessa edição da revista “Dr. Plínio”  foi estampado na obra "Opera Omnia" à página 337, sob o título de AURORA DA CONFIANÇA.

[2] Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404