segunda-feira, 23 de março de 2026

A AURORA DA CONFIANÇA EM NOSSA SENHORA

 

                                               (Revista Dr. Plínio, 67, outubro de 2003)


 Extratos de conferências dos anos 1984, 1987 e 1989, publicadas na “Dr. Plínio”, n. 2, maio de 1998, seção “Gesta marial de um varão católico”, pp. 4-7.[1]

Um achado providencial

 

Dr. Plínio relata como se tornou escravo de Maria

No meu tempo de menino, por vezes eu pensava no Céu. Tais cogitações estavam intimamente relacionadas com aquela graça a mim concedida por Nossa Senhora Auxiliadora, num difícil período de minha infância (cf. artigo “Salvai-me Rainha”, no 1º número desta revista). De fato, essa especial manifestação da misericórdia de Maria para comigo, me fez compreender o papel da bondade d’Ela na existência humana. Daí nasceu em minha alma o intenso desejo de me unir a Ela, espiritualmente, até o fim de minha vida.

 

Como será o Céu?

Então, imaginava eu o seguinte: “No Céu, Nossa Senhora é Rainha Mãe. Ora, os reis e as rainhas da Terra têm cada um sua corte. Portanto, no Céu há de existir também, numa situação cercada de honra, de respeito, embora um pouco colateral, a corte da Rainha Mãe. Esta corte deve ser um tanto secundária, pois não é a que adora diretamente a Deus, senão por meio de Nossa Senhora. Além disso, ela deve ser constituída de almas menos importantes, assim como a corte de uma rainha mãe é compota de cortesãos, digamos, de segundo nível. Seja como for, eu, indo para o Céu, quero fazer parte da corte da Rainha Mãe. De momento não sei dizer por que, mas tenho certeza de que passarei minha eternidade entre os cortesãos da Virgem Santíssima. Quem sabe quando eu ficar mais velho encontre explicação para isso...”

Entretanto, a ideia da Rainha Mãe, de tal maneira se desenvolveu que, sem eu me dar conta, a metáfora ficou ultrapassada. Compreendi que Nossa Senhora era muito mais do que uma rainha mãe. A comparação se verificara primitiva, contendo apenas uma semelhança com a realidade, e não uma efetiva analogia.

Essa constatação tornou-se mais viva no meu espírito quando, já então homem de 22 anos, li o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís Grignion de Montfort. À medida que eu percorria aquelas páginas, com transportes de entusiasmo fui tomando conhecimento da admirável doutrina nelas exposta. Fazia-o na concordância eufórica de minha alma, de modo que cada linha era uma nova razão de arroubamento, mas, ao mesmo tempo, era como se eu já tivesse pensado tudo aquilo.

Intercessão de S. Teresinha

Uma circunstância banal esteve na origem da leitura que fiz desse livro. Era eu muito devoto, e ainda sou, de S. Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, li a Histoire d’une âme (Hoistória de uma alma) – autobiografia de da sua vida espiritual – e fiquei profundamente impressionado. Compreendi que eu devia fazer algum progresso na minha própria vida espiritual, sem entretanto saber bem qual era. Encontrava-se numa fase em que já tinha realizado alguns avanços, e não podia ficar estagnado. Ir para a frente era-me imperioso, pois constituía para mim uma necessidade de alma.

Sabendo eu que, pela intercessão de S. Teresinha, obtinha-se grande número de graças no mundo inteiro, resolvi pedir-lhe duas de que eu mais carecia.

A primeira, que me fizesse encontrar um bom livro, desses cuja leitura enriquece o espírito e marca uma vida.

Em segundo lugar, pedi a S. Teresinha algo muito diferente: ganhar na loteria... O bilhete que eu comprara oferecia um prêmio máximo de 400 contos. Para época, esse montante correspondia a um excelente patrimônio, com o qual eu poderia leva uma vida tranquila dentro dos meus padrões.

Qual a razão de pedir esse dinheiro? É que eu não queria ter preocupações profissionais, a fim de dedicar todo o meu tempo ao apostolado católico em que estava empenhado.

Bem, quanto aos 400 contos, ainda os estou esperando... Não chegaram. O livro, porém, pouco depois o encontrei.

Na Rua Martim Francisco, em São Paulo, erguem-se alguns edifícios dependentes da Igreja do Coração de Maria. Num desses prédios abre-se uma porta pela qual, outrora, se tinha acesso ao interior do convento dos padres claretianos, bem como para a livraria que eles ali possuíam.

Quantas e quantas vezes, passando diante daquela porta, tenho agradecido a Nossa Senhora! Olho aquela entrada com amor, porque tem relação próxima com um grande acontecimento de minha vida, ao qual estimo como algo presente no centro do meu coração. Mais do que isso, eu só quero o meu Batismo e a minha Primeira Comunhão.

 

O encontro com o Tratado

De faro, foi visitando essa livraria que encontrei um pequeno livro, escrito em francês, impresso de modo muito agradável, em caracteres pretos e vermelhos. Seu autor me era desconhecido: Bienhereux Louis Marie Grignion de Montfort. Um Bem-Aventurado...

“Mas, o que me dirá esse livro? ‘Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge’ – Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Quem sabe não é o livro suscitado por S. Teresinha?”

Coloquei-o de lado e passei a examinar outros, para ver se mais algum me interessava. Encontrei um do qual também não tinha ouvido falar, e fiquei na dúvida se levava este ou aquele. Na incerteza da escolha, folheei novamente o Tratado, achando-o muito bem impresso, atraente e agradável de ler. O outro, um calhamaço feio e indigesto. Enfim, por esta simples razão – pensava eu, sem perceber que S. Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Mandei embrulhar e fui embora.

Ao chegar a casa, desembrulhei o pacote, sentei-me e comecei a ler. Logo percebi que tinha encontrado o livro de minha vida! Até então, não fazia ideia de que um livro pudesse exercer sobre mim o efeito que esse exerceu.

Segundo um antigo hábito, não iniciei a leitura a partir da primeira página, mas abri o Tratado em qualquer lugar, do meio para o fim. Achava que um livro tornava-se bem mais interessante quando havia alguma coisa nele para se adivinhar. Então, lendo-o do meio para o fim adivinha-se como é o começo. Depois o leitor confere se, de fato, o início corresponde ao que dele se imaginou. Sempre me agradou agir dessa maneira em relação aos livros que eu lia.

Com o Tratado, porém, foi diferente. Ao folhear duas ou três páginas, pensei: “Este livro é diferente de qualquer outro, não se pode ler assim. Tem que ser desde o começo, porque é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!”

Foi uma leitura demorada, porque feita muito devagar. O Tratado devia ser estudado ponto por ponto, como se faz com um difícil livro de faculdade. E assim procedi: relacionei pontos, tomei notas, e cheguei até a compor uma ladainha de invocações a Nossa Senhora, sugeridas pelo texto de S. Luís Grignion.

É um portento de livro, baseado que há de melhor em matéria de Teologia, aprofundando largamente, e com elevadas vistas, a doutrina sobre Nossa Senhora. De maneira que o leitor adquire uma boa noção a respeito das excelências de Maria Santíssima, do que Deus teve em vista criando-A, do papel da santidade d’Ela e de sua perfeição de alma na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como no plano da Redenção, no Colégio Apostólico e na Santa Igreja, por todos os séculos.

Assim, cada vez mais encantado, fui percorrendo e estudando ponto por ponto o Tratado da Verdadeira Devoção.

 

O Reino de Maria

Em certo momento, percebi que o livro cintilava labaredas a propósito de um assunto que nunca visto ninguém tratar, e que me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria.  Logo compreendi que esse Reino era a meta para onde minha alma e todo o meu ser voavam!

Entusiasmou-me sobremaneira a descrição que faz S. Luís da perfeição e do auge de santidade que as almas atingirão nessa era marial. Mais do que tudo, arrebatou-me a ideia da necessidade da Sagrada Escravidão de amor a Nossa Senhora, para agradá-La e entregar a Ela tudo quanto alguém Lhe possa dar.

 

Escravidão?

Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela!

Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!”

Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano.

Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.

Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”.

No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez.

 

Um propósito para toda a vida

Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e  por d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort.

Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer  por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.

São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.[2]




[1] O texto publicado nessa edição da revista “Dr. Plínio”  foi estampado na obra "Opera Omnia" à página 337, sob o título de AURORA DA CONFIANÇA.

[2] Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404

domingo, 22 de março de 2026

QUEM SERÃO OS APÓSTOLOS DOS ÚLTIMOS TEMPOS?

 



No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez algumas conferências sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, posteriormente  publicadas em forma de apostila sob a revisão do mesmo. Desse texto extraímos os comentários a seguir:

 

Nosso sinal: o “thau”, ou o calcanhar?

 

“Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos, como o calcanhar, calcados e perseguidos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo” (tóp. 54).

 

Fato terrível: a vocação do apóstolo de Nossa Senhora é ser como que o calcanhar do gênero humano, que o pisa e anda calcando-o. A vocação daqueles que são apóstolos de Maria Santíssima consiste em servir de calcanhar. De calcanhar ativo, que retribui os golpes, mas, enfim, de calcanhar.

Quando consideramos a nossa situação de apóstolos da Contra-Revolução, devemos reconhecer que ela tem muito de “calcanharesco”. Realmente, somos uma categoria de pessoas da qual todos se julgam no direito – sem recriminação da parte de ninguém – de falar mal e de pensar mal, e que ninguém receia sabotar, pois – afirmam – “o que atacamos nada tem de mal”; mas ai de nós se fizermos qualquer coisa: “é perigoso, é nocivo; é preciso reprimir!”

Quando consideramos, por outro lado, a situação de exílio permanente a que as condições de vida da sociedade contemporânea nos reduzem; quando consideramos o fato de que, aos poucos, ficamos marcados, diferentes de todos, pela fidelidade a nossos ideais, havemos de reconhecer bem que a nossa situação tem muito de “calcanharesco”. Se não tivéssemos escolhido por nosso sinal o “thau”, escolheríamos o calcanhar!

O calcanhar tem uma sublime missão. Se é bem verdade que ele é calcado, é dele a glória de calcar. E há uma cabeça que foi feita para ser por ele pisada: a de Lúcifer. Devemos estar a procura dessa cabeça para pisá-la. Com a graça de Nossa Senhora, no rabo, várias vezes já o temos feito.

 

Serão santos superiores a toda criatura

 

“Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo...” (tóp. 54).

 

São Luís Grignion faz-nos um outro prenúncio: os apóstolos dos últimos tempos serão santos excepcionais, como não há em nossa época e não houve nas passadas. Dizendo “superiores a toda criatura” envolve, pois, as do passado. Serão Santos maiores do que todos os dos séculos passados. Deverão florescer no futuro, mas de sua santidade e de sua vocação participam desde já todos aqueles que batalham nesta mesma luta contra o poder das trevas.

 

“... e tão fortemente amparados pelo poder divino que, com a humildade de seu calcanhar, e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo”. (idem).

 

É o final da profecia: haverá um período de justiça alcançado por estes apóstolos. Eles esmagarão a cabeça do demônio.

Vemos, portanto, as características fundamentais desses apóstolos postas por São Luís Grignion:

a) É uma raça de homens, raça espiritual, oposta e irredutivelmente adversa à Lúcifer e à raça dele;

b) São homens que viverão num estado de perseguição constante;

c) Serão chamados por Maria Santíssima, de um modo especial, a uma grande dedicação à causa da Igreja;

d) Acabarão por vencer, porque esmagarão a cabeça do demônio.

São os traços distintivos dos Santos dos Últimos Tempos. Mas, como estes tempos já começaram[1], os santos de nossa época estão já numa espécie de relação com os dos últimos dias da Igreja. O santo de nossa época é, pois, o tipo do santo dos últimos tempos, descrito por São Luís Grignion, que ele apresenta como um fruto característico da devoção a Maria Santíssima.

Há, portanto, uma conexão muito grande entre os últimos tempos e a nossa época, entre os Santos dos últimos Tempos e os batalhadores da causa da Igreja em nossos dias.

Os Apóstolos dos Últimos Tempos.  São Luís Grignion nos fala agora especificamente dos Apóstolos dos Últimos Tempos.

 

“Deus quer, finalmente, que Sua Mãe Santíssima seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi...” (tóp. 55).

 

Dizíamos acima que, nos últimos tempos, Nossa Senhora seria mais conhecida e mais amada.  Neste tópico São Luís Grignion nos afirma que é agora, isto é, no tempo dele. Portanto, sua época já participa dos últimos tempos.

 

“E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes indico a seguir.” (tóp. 55).

 

Eis o papel histórico da devoção que prega. É o meio pelo qual os predestinados da graça podem adquirir este espírito e colocar-se de acordo com a sua vocação. É a devoção que até aí conduz.

 

“E, se observarem com fidelidade, verão então claramente, quando[2] lho permite a Fé, esta bela Estrela do Mar, e chegarão a bom porto, tendo vencido as tempestades e os piratas. Conhecerão as grandezas desta Soberana, e se consagrarão inteiramente a seu serviço como súditos e escravos de amor” (jdem).

 

Será que antes de São Luís Grignion – poder-se-ia perguntar – ninguém conheceu Nossa Senhora? Maria Santíssima não levou antes dele ninguém a bom porto? Será que Ela não fez manifestar na Igreja, antes ou fora dele, as suas grandezas? Seria absurdo admiti-lo. Por que, então, ele apresenta estas coisas como típicas do seu espírito? É porque elas serão mais reais nas almas formadas em sua escola de espiritualidade do que em qualquer outra. O que já é verdade de todos os santos, de todos os que seguem a doutrina da Igreja, será muito mais ainda dos que seguirem a espiritualidade de São Luís Grignion.

Ele aqui apenas insinua o que irá dizer mais tarde: a devoção que ensina e os princípios mariais que inculca, não são acessíveis ao conhecimento de qualquer homem. Conhecer bem Nossa Senhora, praticar esta devoção, é uma predestinação, é uma graça especial, não comum. Esta não é uma devoção para qualquer pessoa, mas apenas para alguns predestinados. É uma graça especialíssima que Deus reserva para os últimos tempos. Por isso, mais tarde ele dirá que, para compreender esta devoção e praticá-la verdadeiramente, é preciso ter recebido um chamado muito especial.[3]

 

Serão setas para perfurar

 

“Mas, quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria?” (tóp. 56).

 

Aqui segue a descrição dos Apóstolos dos Últimos Tempos:

 

“Serão ministros do Senhor, ardendo em chamas abrasadoras, que lançarão por toda parte o fogo do divino amor.

Serão sicut sagittae in manus potentis (Sl 126, 4) – flechas agudas nas mãos de Maria todo-poderosa, pronta a transpassar seus inimigos” (idem).

 

Como isto corresponde ao gênero de devoção que devemos ter a Nossa Senhora!

A devoção a Maria Santíssima, segundo São Luís Grignion, está aliada à combatividade.  Não se trata apenas de fazer cordeirinhos de Cristo Rei! Trata-se de transformar cada um de nós numa seta posta nas mãos de Maria. Evidentemente não para, como bálsamo, aliviar e curar, porque isso não é próprio da seta, mas para perfurar os seus adversários. Para isso é que estão destinados os Apóstolos do Últimos Tempos.

Para transpassar é preciso não estar pregando bondades untuosas, vagas, sem consistência. A seta é arma de guerra, é feita para o combate, e o seu principal objetivo é derrubar o inimigo e matá-lo. Para isso, e não para outra coisa, elas existem. São Luís Grignion é explícito: “sicut sagitti”. É mesmo seta, e seta para perfurar os inimigos. É preciso não ter ilusões, o fruto característico da devoção que ele prega é o de tornar o apóstolo uma seta nas mãos de Nossa Senhora.

 

Serão ascetas, colados, sem interstício algum, a Deus e à Sua Igreja

 

“Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações, e bem colados a Deus...(idem).

 

É importante observar o grau de união a Deus que está prometido. E só há um meio de estar colado a Deus: é estar colado à Igreja de Deus. Estar colado significa estar unido sem qualquer interstício, sem vácuo algum; é estar preso por todas as aderências possíveis à Igreja de Deus. Este é o sentido que ele nos quer dar, inculcando o espírito de devoção à Igreja Católica.

 

“...que levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração no espírito, e a mirra da mortificação no corpo”. (idem).

 

É a ideia da ascese, da austeridade, da virtude dura, mortificada.

 

Serão odor de morte

 

“...e que serão em toda parte, para os pobres e pequenos, o bom odor de Jesus Cristo; e, para os grandes, os ricos e os orgulhosos do mundo, um odor   repugnante de morte.” (idem).

 

O que são, na língua da Escritura, os pobres e os pequenos? Não são os sequazes dos demagogos modernos. Ser pobre e pequeno é ser pobre de espírito, é ser desapegado. Para esses é que é bom odor a presença dos servidores de Maria. Pelo contrário, para os que não são seus servidores, para os que são ricos, que têm espírito apegado (neste sentido um maltrapilho pode ser rico), para os que são orgulhosos e mundanos, a ação de presença desses apóstolos é um odor de morte.

Nesse sentido, podemos dizer que, quem tem verdadeiramente o senso católico, simpatiza conosco. Não encontramos, ao longo do nosso apostolado, pessoa alguma que, tendo senso católico, fosse hostil a nós. Nem alguém que, por causa das próprias virtudes, nos tivesse antipatia.

Pelo contrário, é para os apegados, os igualitários e os orgulhosos que a nossa presença dissemina, de fato, um odor de morte. E as reações são vigorosas, porque o odor de morte não é bem recebido em parte alguma!

 

Serão o terror do demônio

 

“Serão nuvens trovejantes...“ (tóp. 57).

 

Não são zéfiros[4] nem brisas amenas, que trazem o bom odor das sensações emocionantes e românticas para as almazinhas adocicadas. São nuvens tonitroantes que voam pelos ares.

A imagem é majestosa, grandiosa, reflete, em contraposição à suavidade de certo tipo de religiosidade sentimental, a grandeza, o poder e a cólera de Deus. A nuvem trovejante é a nuvem carregada, na qual o raio se forma, e da qual é lançado.

 

“...esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo...” (idem).

 

Uma atmosfera cheia de nuvens trovejantes, a esvoaçar do oriente ao ocidente, não reflete absolutamente o clima carregado de otimismo que em certos ambientes se encontra...

 

“.. que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o pecado...” (idem).

 

Não se trata, portanto, de pregar a bondade contra o pecado.

 

“...e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida e para a morte, transpassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (Ef. 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo”  (idem).

 

São batalhadores eficacíssimos, que têm a espada de dois gumes quando forem enviados a alguém da parte de Deus, perfurá-los-ão dos dois lados.

Podemos aí distinguir um feitio de espiritualidade e de apostolado que convém a nós. Os apóstolos que São Luís Grignion assim descreve, são homens cheios de um santo ódio, de um poder verdadeiramente terrível, que causam ao demônio um medo capaz de desfazer as suas tramas. Argutos, perspicazes e vigorosos, esses apóstolos são os protótipo do verdadeiro católico.



[1] Segundo a linguagem de São Luís Grignion, a sua época estava já dentro da perspectiva dos últimos tempos.

[2] Na tradução espanhola (da BAC) está consignado “Enquanto o permite a fé...” e não “quando”.

[3] O restante do tópico contém uma série de promessas sobre as quais não há comentários especiais a fazer.

[4] Zéfiro é um vento brando e agradável.

ESCRAVIDÃO?




           Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela! 

          Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!” 

          Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano. 

          Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos. 

          Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”. 

          No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

          Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez. 

Um propósito para toda a vida 

          Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e por meio d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort. 

          Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas. 

          São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.


(Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404) 

sexta-feira, 20 de março de 2026

REABILITAÇÃO HISTÓRICA DE MONSTROS REVOLUCIONÁRIOS

 


Em artigo publicado no “Legionário”, em 20 de maio de 1945, sob o título de “Vacina”, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira comenta sobre a reabilitação de personagens históricos que, na realidade, foram verdadeiros monstros, porém  mostrados depois como “bonzinhos”:

“Não seria novo esse processo de reabilitação histórica. Observamo-lo em ação, beneficiando a memória dos facínoras da Revolução Francesa. Enquanto Robespierre, Danton, Marat, Saint-Just, a clique terrorista enfim, cometia suas famosas atrocidades, toda a opinião mundial se indignava contra eles. Para as crianças, eles personificavam os espectros e os monstros noturnos de que a imaginação infantil povoa os quartos escuros. Para as mães, para as esposas, para as filhas, eles eram algum dos bandos de monstros que São João anteviu e o Apocalipse descreve com uma terrível meticulosidade de pormenores simbólicos. Para os "espíritos fortes", a própria personificação dos germens de decomposição e de desordem que as sociedades normais eliminam habitualmente, ou pelo menos comprimem em seu "bas fond". De tal maneira esse horror embebera todas as camadas da sociedade, que a reação mais ardente contra a "mafia" do Comité não procedeu como de costume, dos políticos ou dos militares, mas dos quadrantes menos habituados à ação violenta. Contra Marat, por exemplo, foi o braço alvo e feminil de uma jovem sentimental, de boa estirpe, de educação cuidada e compleição delicada, que vibrou o golpe fatal. Passaram-se os tempos, morreram as últimas pessoas que tinham sofrido durante o Terror, por si ou vendo os outros sofrer. Toda a abjeção dos personagens revolucionários foi sendo esquecida. E, hoje, a estampa de Marat ou de Danton figura, marcada com uma bela fita tricolor, no compêndio de História de muita mocinha do feitio de Charlotte Corday. A cristalização da legenda histórica transformou o bandido em herói, o tirano em mártir da liberdade.

O mesmo se deu, "mutatis mutandis", com Napoleão. Não é inteiramente verdadeiro dizer que em 1814 ou 1815 a França tenha sido derrotada pela Europa coligada. Napoleão foi certamente derrotado. A França se deixou vencer. Extenuada de lutas, farta das conquistas artificiais, do peso de seu Império desmesurado anacrônico e postiço, dos louros inevitavelmente efêmeros da epopeia napoleônica, os franceses já não queriam lutar e apoiavam molemente um déspota de que, no fundo, se queriam ver livres. Não há dúvida de que os feitos militares napoleônicos tem sido canonizados pelos técnicos de guerra como admiráveis obras primas da perícia militar. Mas a ciência moral se recusava e se recusa categoricamente a sancionar com igual admiração as causas e as consequências dessas guerras. Para a Europa inteira, e mesmo para imensas camadas da opinião francesa, Napoleão não era senão um Átila malfazejo que tinha arrastado seu país e o mundo inteiro a uma aventura louca. Com o tempo, porém, a recordação de tudo isto se esvaiu. E o Napoleão da legenda, o Napoleão que se ensina aos escolares, emergiu heroico, viril, respeitável, na admiração de todos os povos, mesmo dos que ele oprimiu mais duramente. E ficou para uso dos especialistas a recordação mais científica, menos brilhante e mais verdadeira, do autêntico Napoleão, que era o que as famílias na retaguarda, e os moribundos nos campos de batalha, maldiziam de todo coração.

E haverá ainda outros exemplos a aduzir”.

Robespierre foi por muito tempo chamado de “o incorruptível” por historiadores da Revolução Francesa, tido como homem sério e não corrompido pelos correligionários. Tanto ele como Danton hoje são nomes de carros de passeio, tidos como heróis e símbolos nacionais franceses.  Há um personagem que também é citado abusivamente como mentor de uma nova era, o autor do “Contrato Social”, Rousseau, ideólgo da Revolução Francesa e dos novos estados políticos que surgiram a partir de então.  Toda constituição moderna é feita conforme os princípios do “Contrato Social”, e Rousseau citado como filósofo avançado e benéfico à humanidade. Voltaire não chegou a compor uma obra tão útil à Revolução quanto Rousseau, mas por ter sido famoso com seus romances e ideias libertárias, apesar de ímpio e odiar a Igreja divulgando princípios ateus, é tratado como um luminar dos novos tempos.  Essa gente tão péssima é chamada de “iluministas”, por pertencerem ao ciclo dos Iluministas daquela época, quer dizer, “iluminados”, não sei com que luz, talvez com algum candeeiro dos infernos.  Napoleão nem se fala, de ditador e guerreiro sanguinário passou a ser tratado como grande estrategista militar, inclusive como modelo a ser seguido.

Estes são os da Revolução Francesa, mas outros revolucionários já tiveram sua vida refeita segundo critérios diferentes a fim de agradar o grande público, como Lutero, Stalin, Lênin, Mandela, etc. No Brasil, não houve tentativa de reabilitação histórica, mas da fama, como o caso de Lula, o qual isentaram dos crimes prometidos e o colocaram novamente na disputa política para a presidência.

Vejamos quem eram alguns deles:

 

O Partido Filosófico

E existe, ou existia, um “partido” filosófico? Isto é, um grupo político composto por gente dedicada à filosofia? Sim, é o que confirma um grande historiador francês:

― “Os filósofos gritavam contra a tirania, mas a verdadeira tirania era aquela que eles exerciam sobre a literatura...

A seu lado, com a sua tolerância, com a ajuda dos subsídios da aristocracia, com a cumplicidade e participação da magistratura, da polícia e da

administração, constituiu-se um novo poder, ativo, audacioso, intolerante: o partido filosófico. Esse partido tem os seus quadros: as sociedades; os seus chefes: os enciclopedistas; os seus arautos: os parlamentos; o seu exército: as suas grandes manobras: as lutas políticas em volta dos impostos e da religião”.[1]

Vejamos alguns membros deste “Partido”:

Voltaire

―Talvez nenhum personagem tenha encarnado tão profundamente o

espírito filosófico do século XVIII quanto Voltaire.

Valendo-se da crítica, do deboche, da sátira e da calúnia, por meio de um estilo fino, inteligente, variado, mas recheado de obscenidades e blasfêmias, Voltaire visou incessantemente afastar a sociedade do Ancien Regime dos princípios católicos que ainda a regiam.

Segundo Albert Soboul, foi Voltaire quem deu ao deísmo francês do século XVIII sua marca indelével, sintetizando-o em alguns raciocínios rápidos, em algumas formas simples, que dispensam os mais grossos tratados e as mais longas dissertações.

Escreve Montalban: A descrição a seguir é muito semelhante ao das assembléias legislativas de hoje, quer dizer, a da França revolucionária fez “escola” e tornou-se um modelo republicano...

Apesar de se dizer apenas filósofo, Voltaire teve uma atuação pessoal como agente revolucionário no campo do pensamento e da pregação.

―Francisco Maria Arouet, [dito] Voltaire (1694-1778), recebeu uma profunda cultura clássica do Colégio “Louis Le Grand”. Seus mestres espantaram-se, tanto pela vivacidade de sua inteligência quanto pela felonia de

seu caráter.

Jovem ainda, Voltaire foi apresentado no salão de Ninon de Lenclos. Em seguida passou a frequentar a companhia dos piores libertinos e a escrever versos e sátiras. Por duas vezes foi desterrado de Paris, e também por duas vezes prisioneiro na Bastilha.

A tragédia “Oedipe” (Édipo), onde se vê claro sua incredulidade, deu-lhe fama como dramaturgo, e o poema épico sobre Henrique IV (Henriade) confirmou seu prestígio de poeta.

Nesse período de sua vida, Voltaire foi mais libertino e imoral do que incrédulo!. [2]

―Foi de Farney que Voltaire comandou o exército dos filósofos, na guerra que moveu contra a Religião Católica e a Santa Igreja. De lá enviava suas “receitas” para aqueles “trinta cozinheiros”, - segundo expressão sua a MMe. Du Deffand – que, espalhados pela Europa, preparavam as mesmas “iguarias” para toda a alta sociedade.

Comenta Paul Hazard que, com o passar do tempo, sua oposição ao cristianismo se acentuava, exasperava-se e veio a tornar-se ideia fixa. Esse espírito tão encantador, tão fino, tão sóbrio, era violento e desmedido desde que se tratasse de “esmagar a infame”, como ele dizia.

Da “fábrica‖ de Farney”, (...) partiam incessantemente panfletos onde apareciam por vezes o gênio do artista e o fanatismo do sectário. Sua negação, ele a exprimia não em dez, nem em cem, mas sob mil formas diferentes; de modo que a obsessão, caráter geral do século, veio tornar-se para ele um estilo de ser: não queria e nem podia mais se desengajar dela.

A Bíblia era sem grandeza e sem beleza; o Evangelho não havia trazido senão infelicidade sobre a terra; a Igreja toda, inteira e sem exceção, estava corrompida ou louca; não havia um só confessor de fé que não fosse fanático; os mais puros, os mais nobres eram arrastados na lama; até São Francisco de Assis era despojado de sua doce auréola e tinha-se tornado um pobre louco.

Simplificação caricatural, vontade de nunca considerar as razões do adversário, de passá-las sob silêncio ou desfigurá-las, incansável repetição: tais eram alguns de seus procedimentos.

Sua fúria anti-religiosa é bem descrita pelo Pe. Rohrbacher:

―Voltaire escreveu a seu amigo d‘Alembert, a 20 de junho de 1760: ‗Heralt disse um dia a um de seus irmãos: Vós não destruireis a religião cristã – É o que veremos, disse o outro. – Este era o próprio Voltaire, que escreveu ao mesmo amigo a 24 de julho seguinte: “Será possível que cinco ou seis homens de mérito, que se compreendem, não alcancem êxito, depois do exemplo que temos de doze homens desprezíveis que o alcançaram?”

E a 23 de agosto: Eu amo apaixonadamente meus irmãos em Belzebu. Compreende-se perfeitamente quais eram esses irmãos no príncipe dos demônios, e qual era o objetivo de sua conjuração. Voltaire lhes disse um dia: Estou cansado de escutá-los repetir que doze homens foram suficiente para estabelecer o cristianismo, e desejo provar-lhes que basta apenas um para destruí-lo. (...)

Seu ódio contra a religião cristã transformou-se em furor. Ele não a designa mais, em sua correspondência, senão sob o apelido de “infame” ―Esmaguemos a infame ― esmagai a infame!, encontra-se repetido mais de cento e cinquenta vezes: ele fez até um nome próprio destas palavras satânicas, e assinava com abreviação: Ecr-lenf, ou Ecrlinf...

A este ódio furioso contra a religião cristã, ele acrescentava a hipocrisia mais desavergonhada. Escrevia ao Conde d‘Argental, em 16 de fevereiro de 1761: ―Se eu tivesse cem mil homens, sei bem o que faria, mas como não os tenho, comungarei na Páscoa. Vós me chamareis de hipócrita tanto quanto quiserdes!. Ele comungou efetivamente neste ano, como em 1768, com muita ostentação, recebendo o Pão Sagrado e se permitindo até mesmo pregar na igreja como senhor da paróquia.[3]

 

Rousseau

―Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em 1712. Sua mãe morreu por ocasião de seu nascimento. Abandonado pelo pai e entregue a si mesmo, ele viveu seus primeiros anos ao sabor das circunstâncias.

Estando na Savóia, Rousseau atraiu a atenção de um padre católico que o enviou para a casa de Mme. de Warens, uma mulher paga para cuidar de protestantes convertidos. Mme.de Warens tornou-se sua “mãe“ e sua amante. Ela com trinta, ele com dezesseis anos.

Em casa de Mme. de Warens, devorado por uma profunda inquietação, ele tentou de tudo, até mesmo cursar um seminário, de onde acabou sendo expulso.

Resolveu então correr o mundo, a pé, tendo por companheiros de viagem ora um mestre de música, ora um aventureiro que se embriagava, ora um falso arquimandrita. Enfim, cansado de tanto peregrinar, retornou para junto de Mme. de Warens . que agora dividia seus favores entre ele e o jardineiro.

Algum tempo depois, partiu para Lyon, onde se tornou preceptor dos filhos de M. Mably que o expulsou porque ele lhe roubou a adega. Por fim, tomou o caminho de Paris, onde se tornou célebre repentinamente, quando a academia de Dijon premiou seu discurso sobre as ciências e as artes.

Contudo, sua vida errante continuava, ora habitando no “hermitage”, recanto da floresta de Montmorency que lhe ofereceu Mme. d‘Epinay, ora em uma dependência do palácio do Marechal de Luxemburgo, ora tendo que fugir da França, perseguido pela ousadia de seus escritos.

A partir de 1768 a vida de Rousseau apresentava um aspecto cada vez mais deplorável. Pouco a pouco sua loucura aumentava. Nesta época ele se casou “diante da natureza”, com Thérese Levasseur, mulher de má vida, com quem vivia desde 1744, e de quem teve cinco filhos, que a todos abandonou.

Finalmente mudou-se para o bosque de Ermenonville, propriedade de um de seus admiradores, o Marquês de Girardin. Lá, em 1778 ele morreu, segundo alguns dando-se um tiro na cabeça; segundo outros, envenenando-se com ervas que colhera no bosque e que comera para afogar suas mágoas de Thérese Levasseur, da qual ele soubera que estava mantendo relações com um criado do Marquês. [4]

―Pierre Gaxote explica que a doutrina de Rousseau foi aplicada durante a Revolução Francesa, e o significado da expressão “Vontade Geral”, por ele utilizada no “Contrato Social”:

―Rousseau não se limitou aos anátemas, às lamentações e às invectivas. Estabelece as bases da sociedade futura, que assegurará aos homens o exercício de seus direitos naturais. Tais fundamentos são: a igualdade completa dos associados, a alienação dos direitos de cada um em proveito da coletividade, a subordinação dos contratantes à “Vontade Geral”.

Entendamo-nos sobre o sentido desta expressão. A “Vontade Geral” não é a vontade do maior número, mas sim a voz profunda da consciência humana, tal como ela deveria falar em cada um de nós, e tal como ela se exprime pela boca dos cidadãos mais virtuosos e mais esclarecidos.

A sua primeira tarefa e, por assim dizer, a sua única tarefa, consiste em destruir e impedir de renascer todos os organismos naturais que, até então, enquadravam e sustentavam os indivíduos, e que passam agora a ser considerados como opressivos e imorais. A propriedade, a família, a corporação, a cidade, a província, a pátria e a Igreja são outros tantos obstáculos a abater.

Objetar-se-á que a maior parte dos cidadãos os respeitam, sentem-se bem com eles e ali encontram a sua felicidade e paz de alma, mas isso pouco importa: não há liberdade contra a liberdade. Se a “Vontade Geral” não fala dentro deles, é porque são pervertidos e degradados, e é um dever, para os cidadãos “conscientes”, tratar de os emancipar, mesmo contra sua vontade.

Tornada religião, a República tem a sua ortodoxia, os seus eleitos e os seus réprobos. Maiorias, eleições, votos, consultas populares, tudo isso é fachada, o jogo em que se deixam prender os ingênuos, admirando-se de que as regras não sejam nunca aplicadas senão contra eles. Por trás destas agitações, há a pequena congregação dos fiéis e dos iluminados. São eles que detêm a verdade, e que juraram entre si estabelecer o seu império. Eles é que são a “Vontade Geral”. [5]

De tal maneira estava imbuído dos princípios naturistas que se deixou pintar como o personagem Robson Crusoé, gorro de couro de raposa e capote de lã, forma como é retratado até hoje.

 

Robespierre

Este, como Danton, embora não tenham sido filósofos pode-se que eram o braço do poder do “partido” de que falamos.

“Robespierre ―...é o homem de clube por excelência. Tudo o que o prejudica na vida real torna-se-lhe no clube um penhor de êxito. Tem o espírito pouco profundo, poucas ideias e pouca invenção? Está ao nível do seu auditório, não o espanta e não excita a sua inveja. A sua personalidade é fraca e distinta? Funda-se na personalidade coletiva e dobra-se sem esforço à disciplina democrática. A sua situação social é quase nula? O clube funda-se sobre a igualdade de todos os seus membros e ele suporta mal as superioridades exteriores de categoria e dinheiro. Preocupa-se pouco com os seus trabalhos? Mais assíduo poderá ser às sessões do clube. Viveu ainda pouco e a sua experiência dos homens e das coisas é ainda limitada? O clube é uma sociedade artificial, construída ao contrário da verdadeira sociedade. Tem a inteligência formalista, sem grande ponto de apoio sobre o real? No clube não é a ação que conta, mas sim a palavra.

Imbuído de Rousseau, cheio da doutrina do Contrato Social, exercitado por seis anos de repetição no manejar de cabalas, compreendeu, sentiu e adivinhou que a lei dos movimentos revolucionários é: ―nenhum inimigo à esquerda‖. Compreendeu, sentiu e adivinhou que, quanto mais fraco for o governo, mais fortes serão as sociedades. E não se enganou no terreno: manobra sobre o que é mais sólido. Este homem medíocre tem o senso ou, se assim o quiserem, o gênio da Revolução e do seu mecanismo.

Em 1789 é realista. Depois da fuga de Varennes, pede a substituição do Rei pelos meios constitucionais. É republicano na Legislativa e montanhês na Convenção. Vai para o “dirigismo” no mesmo passo do clube; nem muito depressa nem muito devagar... É um ortodoxo, segundo a ortodoxia do dia. As suas intervenções na Assembléia não têm outro significado. Ao passo que Mirabeau, Lameth, Duport e muitos outros procuram a satisfação de ambições pessoais, ele não sobe à tribuna senão para lembrar a Lei e os Profetas...

Pouco lhe importa que o aplaudem ou o apupem. Não fala para a Assembléia, mas sim para a clientela jacobina. E é por isso que o clube o glorifica. Em 1 de abril de 1790 é nomeado presidente; em junho de 1791 é encarregado de preparar o programa para as próximas eleições. Em julho de 1791, depois do morticínio do Campo de Marte e da dissolução dos ”Feuillants”, é um dos poucos deputados que se mantém fiel à sociedade-mãe e contribui para lhe juntar as sociedades dos departamentos, serviço este que não se esquece.

Todos os revolucionários mergulham de qualquer forma na vida. Marat tem uma amante. Brillaud-Varenne está apaixonado por sua mulher. Fouché tem uma rapariga a quem adora. Hanriot ama o vinho. Danton é casado e tem filhos. Saint-Just teve também uma adolescência bastante movimentada.

Robespierre não ama coisa alguma: nem dinheiro, nem mulheres, nem a aventura, nem a boa mesa. Vive modestamente em casa do marceneiro Duplay, no meio de uma corte de bisbilhoteiros e bobos.

O universo de Robespierre está no círculo fechado e inflamado dos jacobinos. Entrega-se de alma e coração a todas as paixões que o agitam, sem que nenhum sentimento exterior venha a contraria o seu curso... Vive num mundo artificial, donde não quer sair e que acaba por considerar o verdadeiro mundo.

Robespierre faz corpo com o jacobinismo. Como ele, por toda a parte vê ciladas, conjurações e precipícios. Como ele, é desumano e violento. Mas, à medida que os jacobinos se depuram, o seu nível moral e intelectual se rebaixa e Robespierre cresce outro tanto. É honesto, correto e limpo na sua pessoa.

Não especula com os fornecimentos nem se aproveita dos acontecimentos para enriquecer. Leva uma vida simples e digna: isto basta para o fazer subir ao pináculo...!” [6]

Danton

―”Fundido em bronze, incensado e canonizado por uma escola inteira de historiadores, Danton foi tido, durante vinte e cinco ou trinta anos, como a mais bela encarnação do patriotismo revolucionário ou – numa só palavra – do patriotismo. Para os seus fanáticos, é o homem de Estado ―ardente e entusiasta que sonha acabar com a obra secular da defunta monarquia, dando à França as fronteiras da antiga Gália, o tribuno veemente que atira em desafio aos tiranos da Europa uma cabeça de Rei, o homem de audácia que bate com o pé o solo nacional para dele fazer brotar as legiões de voluntários, e o demagogo intransigente que se lança numa luta sem tréguas contra o inimigo”.

Esta é a lenda, mas a verdade é outra. Ao cabo de uma longa e difícil investigação, Alberto Mathiez conseguiu restabelecê-la, pedaço a pedaço, e as suas pesquisas estão hoje suficientemente adiantadas para que o possamos acompanha com toda a segurança.

Advogado há dois anos, Danton estava, em 1789, numa situação financeira difícil. Muito endividado, cheio de necessidades, escravo dum temperamento tirânico, lançou-se na Revolução como um ceifador num prado. Eloqüência brutal, figura de bronze e grande grosseirão, é o Mirabeau da canalha. Durante três anos, trabalha os auditórios mais populares. Arrastando atrás de si uma clientela de aventureiros e indivíduos tarados, vamos encontrá-lo em todas as conjuras e todas as agitações. Sem vergonha e sem escrúpulo, venal, procurando sempre estar de bem com Deus e com o demônio, recebe dinheiro da Inglaterra, do duque de Órleãs e da Corte. Uns compram-no para que promova arruaças e outros compram-no para que acabe com elas. Não crê na demagogia, mas faz dela um ofício. A Revolução arranca-lhe atos de entusiasmo e de energia, mas não tem confiança na sua duração e procura manter sempre uma linha de retirada. Por isso, conserva-se em boas relações com os agentes realistas da Bretanha e de Paris. Quando se oferece ocasião, presta-lhes serviço discreto, que lhe proporcionaram redondos reconhecimentos. Na tribuna é pela guerra implacável; mas, em segredo, manifesta-se em favor de uma paz atamancada. Em público, gaba-se de ter feito o 10 de agosto e deitado abaixo a Monarquia; na intimidade, anuncia ao futuro Luís Filipe a restauração do trono a favor da irmã mais nova. Em Paris, é o homem da rua, o defensor dos proletários. Em Arcis, compra terra, uma quinta, dois priorados e cem hectares de terra de lavoura. No ministério que faz parte, representa o tipo moderno do político espertalhão, cético e amigo de gozar, gostando do poder sabendo tirar dele todo o proveito‖. [7]



[1] A Revolução Francesa, Livraria Tavares Martins, Porto, de Pierre Gaxote, pág. 62.

[2] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – João S. Clá Dias – págs. 217/218.

[3] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – de João S. Clá Dias – págs. 225/226

[4] cf. ―Jean-Jacques Rosseau, Les Confessions‖; G. Lenotre). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”, de João S. Clá Dias, pág. 253.

[5] (Pierre Gaxote, ― A Revolução Francesa, págs. 49/50). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”, de João S. Clá Dias, pág. 249).

[6] A Revolução Francesa - Pierre Gaxote, págs. 291/294.

[7] A Revolução Francesa - Pierre Gaxote, págs. 197/198