(Revista “Dr. Plínio” n. 63, junho de 2003_
Ao comentar o
desponsório da Santíssima Virgem com o Espírito Santo, Dr. Plínio excogita
belas hipóteses teológicas acerca dos efeitos da Encarnação operados ao longo
da História.
Farei algumas hipóteses, que me pareceu muito prováveis
e poderão servir de ponto de partida para um estudo mais aprofundado.
Nosso Senhor é modelo
perfeitíssimo
Os possíveis de Deus, ou seja, as coisas que
Ele poderia criar, de algum modo existem em Nosso Senhor, pois Este é a Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade e a própria fonte de toda graça.
Na Pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo,
com duas naturezas, vou considerar sobretudo a humana, pois sua natureza divina
já foi bastante estudada. Na sua
natureza humana, pelo fato da união hipostática, por ter sido Jesus gerado por
Nossa Senhora pela ação do Espírito Santo, Ele é um compêndio de todas as
perfeições as quais Deus desejou que a Humanidade tivesse , e em todos os graus
possíveis. De maneira que toda a Humanidade, de algum modo, pelo menos no seu
aspecto moral, está contida n’Ele.
A riquíssima relação
entre a humanidade de Jesus e o gênero humano
Surge, então, uma pergunta linda, luminosa,
para cuja resposta, no momento, não me sinto à altura para nem sequer levantar
hipótese. A graça, participação de Jesus Cristo nos homens, nós entendemos
perfeitamente bem no que diz respeito à natureza divina. Mas restaria saber
como se dá quanto à sua natureza humana. Porque é a Pessoa d’Ele que se deixa
participar por nós.
Há, portanto, uma relação entre a humanidade
d’Ele e o gênero humano, que deve ser uma coisa riquíssima, inexaurível. Seria
preciso imaginar uma participação por conaturalidade terrena na graça que Ele
obteve, havendo a união hipostática.
Como pode haver uma tal participação entre a natureza
humana e o Homem-Deus? E depois, como isso se dá de fato, considerando aquela
frase de São Paulo Apóstolo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em
mim”?[1]
Da relação de Maria com
a terceira Pessoa da Santíssima Trindade decorre a geração da humanidade de
Nosso Senhor
Ora, para se compreender bem essa questão, é
preciso considerar o papel de Nossa Senhora.
De fato, nossa participação em Jesus Cristo
far-se-ia um tanto ex abrupto, a
ponto de causar um certo mal-estar, se não fosse por intermédio de sua Mãe,
cuja perfeição decorre do desponsório com o Espírito Santo.
Nossa Senhora não teve a união hipostática. Mas
o que significa a relação d’Ela, como Esposa, com a terceira Pessoa da
Santíssima Trindade, para que dessa relação decorresse a geração da humanidade
de Nosso Senhor?
Quer dizer, nesse momento houve uma operação
divina, uma interferência evidentemente numa ordem toda sobrenatural, cuja
repercussão foi produzir a geração. A carne d’Ela ficou em condições de receber
a união hipostática.
Então, na Encarnação, a ação do Espírito Santo
parece ter precedido cronologicamente a operação da segunda Pessoa da
Santíssima Trindade. Primeiro o Espírito Santo se tornou esposo da Virgem Maria
e depois Ela gerou. Houve, portanto, uma forma de união espiritual de todo o
ser d’Ela com o Divino Espírito Santo, que preparou a Encarnação.
Porque quem se Encarnou a Si próprio foi o
Verbo. Não creio que se possa dizer que o Espírito Santo encarnou o Verbo. Eles
são perfeitamente iguais; portanto, não pode um ter Encarnado outro. O Verbo é
que se Encarnou.
E, por um princípio ordinário que banha seu
manto nas águas tão terrestres da cortesia, chego à conclusão de que, dada a
igualdade absoluta entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não se poderia
fazer uma operação tão alta estando o Pai alheio inteiramente: Seria
“descortesia” da parte das outras duas Pessoas – o “descortês” aqui vai entre
aspas.
Portanto, deve ter havido também ação do Pai
Eterno.
Embora insignificantes
se comparadas com a visão beatífica, tais considerações conduzem ao Reino de
Maria
Depois de termos feito ideia de como e esse
périplo, entenderíamos como Nossa Senhora gera os homens em Jesus Cristo, um
gerar todo espiritual, de outra natureza. Mais uma vez é Ela quem gera.
Assim, compreenderíamos o “Segredo de Maria”[2], o segredo do
relacionamento d’Ela com os homens, bem como da ordenação perfeita das relações
humanas na Igreja e no plano temporal.
Talvez essas considerações sejam
insignificantes em comparação com a realidade que teremos diante dos olhos na
Eternidade. Mais ou menos como os primeiros mapas da América, os quais hoje nos
fazem sorrir, mas que continham, apesar de tudo, uma figura do continente.
Não estamos descobrindo coisas que nunca nenhum
teólogo explicou. Mas, do fundo de nossa ignorância de leigos, estamos
redescobrindo o que estudar. E dessa redescoberta seríamos os cartógrafos que
fazem esse primeiro mapa canhestro de um estudo, o qual conduziria ao Reino de
Maria.
O processo de
santificação de Nossa Senhora adquiriu maior profundidade no convívio com o
Espírito Santo
Uma vez que Nossa Senhora se tornou esposa do
Divino Espírito Santo, qual é a energia dessa condição de esposa, antes de tudo
psicologicamente?
Concebida sem pecado original, julgo que Ela
foi confirmada em graça desde o primeiro instante do seu ser. Mas, o processo
pelo qual Nossa Senhora iria crescendo em santidade tomou uma energia, uma
realidade, uma profundidade, num convívio especial com o Esposo d’Ela, o
Espírito Santo.
Havia entre ambos uma constante união, onde o
Espírito Santo – que não precisa de complementação para nada, porque é Deus –
tinha sua glória, ressoando a santidade d’Ele no espírito e na alma de Nossa
Senhora, como uma corda de violão que, colocada naquela caixa, ressoa de modo especial.
Há um bem para a corda e para o som, e este se amplia. E todas as coisas que o
Espírito Santo quereria falar aos homens ao longo da História até o fim do
mundo, eu seria levado a achar que Ele disse a Ela, que foi a caixa de
ressonância.
E porque houve no gênero humano quem recebesse
isso perfeitamente, com tal plenitude, ficamos muito mais enriquecidos pelo
fato de Ela ter sido santa como foi.
Qual caixa de
ressonância celeste, Maria faz com que as maravilhas operadas em Si repercutam
pela História inteira
No processo histórico da Revolução e da
Contra-Revolução, compreende-se o progresso incessante da obra e da grandeza de
Nossa Senhora, mesmo quando atua nos escombros ocasionados pela Revolução. É o
contínuo progresso da união d’Ela com o Divino Espírito Santo, ao longo dos
séculos.
A raça da Virgem prossegue por ascensão, até
aquele conhecimento perfeito em que o Espírito Santo fale a Nossa Senhora: “Eu
disse tudo”, e Ela responda: “Compreendi tudo”. E, por esse aspecto, a História
do mundo acaba.
Se não fosse isso, Ela concebeu e depois tudo
se acabou, pois não tiveram mais nexo nenhum, os desponsórios se esgotaram numa
só produção. É claro que sim, porque Nosso Senhor é Filho unigênito do Divino
Espírito Santo e de Nossa Senhora. Mas depois há um outro modo de conceber, e
tenho a impressão de que todas essas coisas têm continuidades históricas que se
refletem na vida dos homens.
E aqui compreendemos bem o papel d’Ela: é a
caixa de ressonância celeste, que dá amplificações, fazendo com que tudo quanto
foi realizado n’Ela repercuta pela História inteira.
Ao criar a alma de
Nosso Senhor no seio de Maria Santíssima, o Pai Eterno elegeu o píncaro de sua
ação criadora
Há em Nossa Senhora um papel contínuo com o
Verbo, e um outro papel contínuo com o Espírito Santo.
Como será o papel com o Pai Eterno?
As três Pessoas da Santíssima Trindade, uma e
trina, desenvolvem ao longo da História, em função de Nossa Senhora, um papel
que é distinto e, ao mesmo tempo, único, sendo Ela, a um título especial, a
Medianeira.
Sem prejuízo da perfeita igualdade entre as
três Pessoas da Santíssima Trindade, eu diria que o Pai Eterno representa mais
o rude e o Espírito Santo o requintado. O Divino Espírito Santo é a vida, a
marcha de todas as coisas, por onde o ato criador se prolonga.
A alma de Nosso Senhor foi criada pelo Pai
Eterno no seio de Maria Santíssima e este foi o píncaro de sua ação criadora.
O Pai Eterno criou o Céu e a Terra e depois as
almas[3]. À sensibilidade
desequilibrada do homem do século XX, a criação do Céu e da Terra parece ser
mais importante, porque mais palpável e mais vasta do que a criação das almas
dos homens. Mas isso é falso. Aqueles constituem o lado logístico; quando Ele
começou a criar almas, sua ação criadora subiu para um patamar mais alto.
Se, por assim dizer, pudéssemos nos colocar no
ângulo da visão do Padre Eterno, veríamos primeiro os anjos e depois as almas
humanas numa ordem grandiosa. Não numa progressão retilínea, mas variada,
circunstanciada, riquíssima, que nos deixaria extasiados.
E o centro dessa obra-prima é a Alma da
natureza humana de Nosso Senhor. E essa Alma humana – que é um principium vitae d’Ele – seria o píncaro
de toda a ação criadora de Deus.
Depois das almas humanas viria o plano
sobrenatural, a criação da graça às torrentes.
Então, seria a ação criadora que toma dois
aspectos: o plano natural e a vida divina, porque a graça é um dom criado, uma
espécie de Pentecostes permanente.
Como, nas entranhas da Virgem Maria, se criou a
matéria humana para receber a Alma de Nosso Senhor? Por ação do Espírito Santo,
a alma de Nossa Senhora deveria estar pronta para que a Alma-píncaro fosse
criada dentro d’Ela. Haveria reversibilidades e belos temas para se estudar:
por exemplo, a Igreja.
A igreja é a sociedade em que as almas estão
postas entre si numa inter-relação, formando uma espécie de imensa família em que isso tudo circula vindo
de Deus. É uma miniatura do Céu.
Tudo isso teve seu píncaro, seu desfecho e sua
raiz inicial com a Anunciação na Casa de Nazaré. E para melhor se conhecer a
Trindade, seria importante aprofundar o estudo sobre isso.
A Eucaristia no Paraíso
para sustar a tendência descendente do homem
A Eucaristia é outro ponto que, de algum modo,
se poderia estudar em função disso. Em consequência do pecado original, e
talvez mesmo que ele não tivesse ocorrido, haveria Eucaristia.
No Paraíso terrestre, o homem, por natureza,
era mortal e possuía imortalidade por um dom preternatural. Portanto, independente
do pecado, e pelo fato de estarmos vinculados à carne, algo em nós é
descendente. Nossa natureza tem, por assim dizer, uma apetência da morte e da
inércia.
E para sustar essas coisas descendentes, um modo
maravilhoso, excogitado pela sabedoria de Deus – não quero dizer que fosse o
modo necessário -, teria sido de Ele vir habitar periodicamente ou sempre, nestas
ou naquelas pessoas, e estar realmente presente, sob as espécies eucarísticas,
em igrejas, basílicas, catedrais, dentro do Paraíso. De maneira que essa
tendência descendente no homem fosse sustada pela Eucaristia, viático no
sentido etimológico da palavra, ajudando-o a percorrer a via.
Então, a ação criadora de Deus Pai, a ação da
segunda e terceira pessoa Pessoas da Santíssima Trindade, seria continuamente prolongada
e reforçada, a seu modo, pela Sagrada Eucaristia. A ação criadora seria
prolongada neste sentido: daria ao homem um sustento para evitar as forças da
decadência.
A árvore da vida valeria para o corpo. Quem
sabe se, instituída a Sagrada Eucaristia, esta seria a árvore da vida para a alma
e talvez também para o corpo?
Tudo isso somado, percebo que temos perspectivas
de um verum, bonum, pulchrum de uma
altura inexcogitável; é um Céu! E ainda que ficássemos reduzidos a não poder
fazer nada e estudar só isto, realizaremos uma coisa colossal!
O conhecimento do
segredo de Maria
O Segredo de Maria, segundo a expressão de São
Luís Grignion, não é concebido na pura especulação, mas é algo por onde Nossa
Senhora nos salva. É um modo de Ela operar em nossas almas, que pressupõe um
conhecimento nosso a respeito de Maria Santíssima, o qual determina em nós uma
atitude especial diante d’Ela. Essa atitude é especialmente salvífica. Isso se
refere à Fé.
Há depois a esperança, abrindo para nós uma
viabilidade da salvação que parece extraordinariamente difícil, comprometida,
nesse vale de lágrimas. A salvação se torna mais fácil, desde que tomemos em
conta esse segredo, o amemos e procedamos em função dele.
É uma particular excelência do amor de Deus e
de Nossa Senhora, à luz das maravilhas que o amor materno consegue
especialmente de Deus. Ele quer esse amor materno e nossas almas crescem no
amor a Ele, autor dessa Mãe. (Extraído de
conferência de 9/8/1984)
(Revista “Dr. Plínio”, n. 171, junho de 2012,
págs. 20/23)
[1] Gl
2, 20
[2]
Cf. In: Plínio n, 156, p. 27
[3] No
início da criação Deus dizia “faça-se...” as coisas eram criadas; porém, ao
criar o homem, disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, quer
dizer, falou no plural dando a entender que nesse ato esteve presente toda a
Santíssima Trindade.
