1. A gloriosa Virgem Maria nasceu da estirpe
régia de Davi na tribo de Judá. Mateus e Lucas não descrevem a genealogia de
Maria, e sim de José, que nada teve com a concepção de Cristo, devido ao
costume da Escritura de mostrar o encadeamento das gerações não a partir das
mulheres, mas dos homens. É verdade, contudo, que a beata Virgem descende de
Davi, o que fica patente na Escritura quando atesta muitas vezes que Cristo
originou-se da semente de Davi. Logo, como Cristo nasceu apenas da Virgem, é
claro que a própria Virgem nasceu de Davi, do ramo de Natã.
Davi teve, entre outros, dois filhos, Natã e
Salomão. Como certifica João Damasceno, Levi – do ramo de Natã, filho de Davi –
gerou Melque e Pantar. Pantar gerou Barpantar e Barpantar gerou Joaquim e
Joaquim a Virgem Maria. Do ramo de Salomão, uma filha foi esposa de Natã com o
qual gerou Jacó. Falecido Natã, um membro de sua tribo, Melque, filho de Levi,
irmão de Pantar, casou com a viúva de Natã, mãe de Jacó, e dela gerou Eli. Assim,
Jacó e Eli são irmãos uterinos, mas Jacó sendo da tribo de Salomão e Eli da de
Natã. Falecido Eli, da tribo de Natã, sem filhos e filhas, Jacó seu irmão, que
era da tribo de Salomão, tomou sua mulher e ressuscitou a semente de seu irmão,
gerando José. Portanto, José é segundo a natureza filho de Jacó, descendente de
Salomão, e segundo a lei filho de Eli, descendente de Natã. De fato, o filho
nascido dessa forma era daquele que o gerava segundo a natureza e do defunto
segundo a lei. Até aqui, falou o Damasceno.
Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em
sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros
estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou
queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua
ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos
chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a
genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte
seguindo os livros que tinham em casa.
Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em
sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros
estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou
queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua
ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo, aqueles nazarenos
chamados “senhoriais” por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a
genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte
seguindo os livros que tinham em casa.
Joaquim tomou uma mulher de nome Ana, que tinha
uma irmã chamada Isméria. Esta Isméria gerou Isabel e Eliúde, e Isabel gerou
João Batista. De Eliúde nasceu Eminem, de Eminem nasceu São Servácio, cujo
corpo está em Maastrich, fortaleza à margem do Mosa, no episcopado de Liège.
Conta-se que Ana teve três maridos, a saber: Joaquim, Cleofas e Salomé. Do
primeiro destes maridos, quer dizer, Joaquim, teve uma filha, Maria, mãe e
progenitora do Senhor, que deu em casamento a José e que gerou e pariu o Senhor
Cristo. Falecido Joaquim, Ana aceitou Cleofas, irmão de José, e dele gerou
outra filha, chamada pelo mesmo nome de Maria e que uniu em casamento a Alfeu.
Esta Maria gerou de seu marido Alfeu quatro filhos, a saber: Tiago, o Menor;
José, o Justo, conhecido por Barsabás, Simão e Judas. Falecido seu segundo
marido, Ana aceitou um terceiro, Salomé, do qual gerou outra filha, chamada
mais uma vez de Maria e deu-a em casamento a Zebedeu. Esta Maria gerou dois
filhos de seu marido Zebedeu, a saber: Tiago, o Maior e João Evangelista. Daí
os versos a este respeito:
“Tem-se o costume de dizer que Ana concebeu
três Marias,
Geradas de seus maridos Joaquim, Cleofas e
Salomé
Elas foram entregues a José, Alfeu e Zebedeu,
seus maridos
A primeira pariu Cristo, a segunda Tiago, o
Menor,
José, o Justo, Simão e Judas.
A terceira, Tiago, o Maior, e o alado João”.
Mas o admirável, como dito acima, é como a
Bem-Aventurada Maria pôde ser prima de Isabel. Sabe-se que Isabel foi mulher de
Zacarias, da tribo de Levi, pois segundo a lei todos deveriam ter esposa de sua
tribo e família, e foi atestado por Lucas que Isabel estava entre as filhas de
Aarão. Ana, segundo Jerônimo, era de Belém e da tribo de Judá. Mas sabe-se que
Aarão e seu irmão, o sumo sacerdote Joiada, tomaram ambos esposas da tribo de
Judá, de forma que a tribo real e a tribo sacerdotal passaram a estar ligadas
pelo sangue. Pode ser, como afirma Beda, que este tipo de relação com a troca
de mulheres entre as tribos fosse recente. De toda forma, a Beata Maria,
descendente da tribo régia, tinha relações consanguíneas com a tribo
sacerdotal, e deste modo pertencia a ambas as tribos.
Quis o Senhor que estas tribos privilegiadas se
miscigenassem, porque no seu mistério estava para nascer delas aquele que
verdadeiramente foi rei e sacerdote, que se sacrificou por nós e que dirige
seus fieis em maio à malícia das lutas
desta vida para coroá-los após a vitória. Daí o nome Cristo, isto é, “ungido”,
“escolhido”, pois na antiga lei apenas os sacerdotes, reis e profetas eram
ungidos, e por isso nós somos chamados “cristãos”, “povo eleito” e “povo do
sacerdócio real”. Quando se diz que as mulheres uniam-se com os homens de sua
tribo, era para que a distribuição das terras fosse alterada, mas como a tribo
dos levitas, ao contrário das outras, não tinha terra, as mulheres desta tribo
podiam casar-se com quem quisesse.
No prólogo da História da Natividade da Virgem, o bem-aventurado Jerônimo conta o
que ainda adolescente leu em um opúsculo, mas que só muito tempo depois releu e a pedido transcreveu.
Joaquim era da Galileia, da cidade de Nazaré, e tomou como esposa Santa Ana, de
Belém. Ambos eram justos e seguiam irrepreensivelmente todos os mandamentos do
Senhor, dividindo em três partes todos os seus bens, uma destinada ao Templo e
seus servidores, outra aos peregrinos e pobres, a terceira reservada para eles
e sua família. Como por vinte anos não tiveram filhos, fizeram uma promessa ao
Senhor, que se este lhes concedesse descendência eles a entregariam a Seu
serviço. A fim de obterem a graça do Rei, iam todos os anos às três principais
festas em Jerusalém.
Na festa da Dedicação, Joaquim foi com outros
de sua tribo até Jerusalém e ao chegar
ao altar quis oferecer essa oblação junto com os demais. Vendo isso cheio de
indignação, o sacerdote agarrou-o, afastou-o e repreendeu sua presunção de se
aproximar do altar, porque não era conveniente, sob pena de maldição da lei,
que oferecesse oblações ao Senhor quem não tivesse feito crescer o povo de
Deus, quem era infecundo entre os fecundos. Confuso e envergonhado, Joaquim não
quis voltar para casa a fim de não ouvir ofensas. Ela afastou-se, foi para
junto de seus pastores e ficou com eles por algum tempo, até que um dia,
estando sozinho, um anjo apareceu com tão forte luminosidade que deixou sua
visão turva.
O anjo avisou para não ter medo, dizendo:
Eu sou o
anjo do Senhor enviado para anunciar que suas preces foram ouvidas e que suas
esmolas subiram até o Senhor. Vi a sua vergonha e ouvi o opróbrio de
esterilidade que foi injustamente imputado a você. Deus vinga o pecado, mas não
a natureza, por isso se Ele fecha um útero o faz para abri-lo novamente de
maneira maravilhosa, para que se saiba que o nascido não é produto libidinoso,
mas presente divino. Não é verdade que Sara, a primeira mãe de seu povo,
suportou e injúria da esterilidade até os noventa anos de idade e ainda assim
gerou Isaac, ao qual foi prometida a bênção de todas as nações? Não é verdade
que Raquel foi estéril por muito tempo, e contudo gerou José, que teve domínio
sobre todo o Egito? Há alguém mais forte do que Sansão ou mais santo do que
Samuel? Todavia ambos nasceram de mães estéreis. Creia em minhas considerações
e exemplos. As concepções adiadas por muito tempo e os partos de quem parecia
estéril são os mais admiráveis. Também sua esposa Ana parirá uma filha e você
lhe dará o nome de Maria. De acordo com
a promessa que fizeram, ela será consagrada ao Senhor desde a infância. Desde o
útero de sua mãe será cheia do Espírito Santo. A fim de que não haja qualquer
suspeita que lhe seja desfavorável, não terá contato com o mundo, ficará sempre
morando no templo do Senhor. Ela própria, nascida de mãe estéril, gerará
maravilhosamente um filho altíssimo, cujo nome será Jesus e por meio do qual
todos os povos serão salvos. Dou a você uma prova: quando chegar à porta
dourada de Jerusalém, sua esposa Ana virá ao seu encontro, e de inquieta com
sua demora ela passará a demonstrar alegria![1]
Dito isso o anjo retirou-se.
Ana chorava amargamente por ignorar aonde seu
marido tinha ido, quando o mesmo anjo lhe apareceu e anunciou a mesma coisa,
acrescentando como prova que fosse à porta dourada de Jerusalém onde encontraria
o marido indo em sua direção. Logo, seguindo o preceito do anjo, um foi ao
encontro do outro, felizes com a visão noturna e certos da prole prometida.
Voltaram para casa, depois de adorar o Senhor, esperando alegremente a promessa
divina.
Então Ana concebeu e deu à luz uma filha, à
qual chamou Maria. Completados os três anos de amamentação, levaram a Virgem
com oferendas ao templo do Senhor. O templo fora construído em um monte, com o
altar do holocausto sendo externo e só podendo ser atingido depois de subir
quinze degraus, correspondentes aos quinze salmos graduais. [2] Quando a jovenzinha Virgem
foi colocada junto com os outros, subiu sem a ajuda de ninguém, como se já
fosse adulta. Concluído o ofertório, Joaquim e Ana voltaram para casa deixando
sua filha com outras virgens no templo. A Virgem, por seu lado, progredia
cotidianamente em todo tipo de santidade. Cotidianamente era visitada por anjos
e desfrutava de visões divinas. Jerônimo diz em uma carta a Cromácio Heliodoro
que a beata Virgem estabelecera para si
esta regra: de matinas até a terça oração; da terça até à nona, trabalho manual
de tecelã; da nona até aparecer o anjo que lhe dava alimento, novamente
orações.
Quando ela fez quatorze anos, o pontífice
proclamou publicamente que as virgens que eram instruídas no templo e haviam
atingido aquela idade deveriam voltar para suas casas a fim de serem
legitimamente casadas. Diante dessa ordem todas partiram, apenas a
bem-aventurada Virgem Maria respondeu que não podia fazê-lo, pois seus pais haviam-na
entregue ao serviço do Senhor e prometido a Ele a virgindade dela. O pontífice
ficou angustiado, porque não queria ir contra a Escritura que diz “Prometa e
cumpra o prometido” (Num 30, 2-3), nem ousava introduzir novidade nos costumes
do povo. Ao aproximar-se uma festividade dos judeus, convocou todos os anciãos
e a sentença unânime foi que em assunto tão duvidoso deveria ser buscado o
conselho do Senhor. Eles permaneceram em oração, e quando o pontífice
dirigiu-se ao oratório para consultar o Senhor, todos ouviram vindo dali uma
voz dizer: “Todos os homens da casa de Davi que não estão convenientemente
unidos em casamento devem levar um ramo ao altar, e aquele cujo ramo germinar e
em cuja ponta o Espírito Santo pousar em forma de pomba, conforme profetizou
Isaías, deve sem qualquer dúvida desposar a Virgem”.
Entre os membros da casa de Davi estava José,
ao qual pareceu inconveniente que um homem de idade tão avançada tomasse como
esposa uma virgem tão jovem. Assim, enquanto os demais levavam seus ramos, ele
escondeu o seu. Como não aconteceu nada de acordo com o que a voz divina
anunciara, o pontífice mais uma vez decidiu consultar o Senhor, que respondeu
que somente aquele que não levara sua vara deveria desposar a Virgem. Diante
disso José levou sua vara, que floresceu em cujo topo pousou uma pomba vinda do
Céu. Ficou evidente para todos que ele deveria desposar a Virgem. Combinado
portanto o casamento com a Virgem, José voltou para sua casa na cidade de Belém
para tomar as providências necessárias para as núpcias. Quanto à Virgem Maria,
voltou para a casa de seus pais em Nazaré acompanhada, por determinação do
sacerdote, como testemunho do milagre, por sete colegas, virgens da mesma idade
que ela. Por aqueles dias o Anjo Gabriel apareceu a ela enquanto orava e
anunciou que dela nasceria o Filho de Deus.[3]
Durante muito tempo a data do nascimento da
Virgem esteve escondida dos fiéis. JOÃO BELETH conta da seguinte maneira como
ela foi descoberta: certo homem santo, constante na contemplação, ouvia todos
os anos, no dia 8 de setembro, uma alegríssima celebração por parte da
comunidade dos anjos. Com muita devoção ele pedia que lhe fosse revelado por
que ouvia aquilo naquele dia do ano e não em outro, e recebeu a resposta
divina: aquele era o dia em que a gloriosa Virgem Maria havia nascido no mundo,
e ele deveria divulgar o fato aos filhos da Santa Igreja a fim de que se
reunissem à corte celeste nesta celebração. Ele comunicou isso ao sumo
pontífice e outros prelados, que por meio de orações e jejuns descobriram a
verdade nas Escrituras e em antigas tradições, dedicando em todo o mundo este
dia para a celebração da natividade da Virgem.
Antigamente, a oitava da natividade da Beata
Maria não era celebrada, mas o senhor Inocêncio IV, de origem genovesa,
instituiu tal celebração. A causa disto foi que com a morte de Gregório IX
(século XIII) todos os cardeais fecharam-se em conclave para rapidamente
escolherem um novo chefe da Igreja. Mas como por vários dias não puderam chegar
a um acordo e eram muito pressionados pelos romanos, prometeram à Rainha do Céu
que se pelos méritos dela eles viessem a concordar e pudessem sair dali
livremente, estabeleceriam a celebração da oitava de sua natividade
negligenciada por tanto tempo. Eles concordaram em escolher o senhor Celestino
e foram libertados. No entanto, Celestino viveu pouco tempo e por isso não pôde
cumprir a promessa, o que foi feito por Inocêncio IV. Note-se que a Igreja
celebra três natividades: a saber, a de Cristo, a de Santa Maria e a de João
Batista, que designam três natividades espirituais: renascemos com João pela
água, com Maria pela penitência e com Cristo na glória. Em relação aos adultos,
convém que a natividade da contrição preceda a natividade do batismo e da
glória. Por isso estas duas festas merecem ter vigílias, mas como a natividade
da Virgem é penitência, e portanto toda orientada para a vigília, não precisa
ter vigília. Todas têm oitava porque na verdade todas anseiam pela oitava da
Ressurreição.[4]
(JACOPO DE VARAZZE – Legenda Áurea – Vidas de
Santos – Companhia das Letras – págs. 746/752)
[1]
Tais palavras do anjo constam no
Protoevangelho de Tiago, mas não nos textos canônicos da Igreja.
[2] A
palavra “gradual” deriva de grado, “degrau”, indicando a subida que os judeus
faziam até o templo cantando determinados salmos (os de número 119 a 133, ou
120 a 134). Na liturgia romana, os salmos graduais (que podem ser aqueles ou
outros) eram cantados na missa entre a leitura da Epístola do Evangelho, e
assim se organizou o Gradual, livro de canto gregoriano utilizado na missa.
“Salmos Graduais” é também chamado de “Cânticos de Romagem” ou Cânticos de
Peregrinação”.
[3] É
de se supor que essa aparição de São Gabriel tenha tido testemunhas, pois era
necessário que aquele fato tivesse autoridade de revelação a toda a sociedade.
Nossa Senhora deveria ter comunicações com os Anjos de uma forma reservada, não
sendo necessário, para Ela, que houvesse uma aparição para lhe ser transmitida
tal revelação.
[4] A
partir de agora a Legenda Áurea vai narrar vários casos da interferência
milagrosa de Nossa Senhora, mas sem indicar fontes seguras, às vezes sem citar
outros detalhes como local onde ocorreram os fatos. O objetivo da obra era
apenas despertar a piedade popular, narrando apenas fatos que comentava-se
entre o povo sem documentação apropriada, daí o nome “legenda”, isto é, fatos
quase lendários, mas oriundos da piedade cristã.

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