domingo, 22 de março de 2026

ESCRAVIDÃO?




           Lembro-me de que, numa primeira vista, a palavra escravidão chocou-me um pouco. Como assim, escravidão? Que explicação tem isso? Mas, para Nossa Senhora... É o que Ela quiser! É uma honra para mim servi-La, ser escravo d’Ela! 

          Ademais, essa devoção era ensinada por um grande santo, uma alma de fogo, com um espírito lógico e inteligentíssimo, e com uma vontade incendiada de energia, como eu não vira semelhante. Então pensei: “Eu vou com Nossa Senhora, mas também com S. Luís, até onde eles forem!” 

          Assim, minha alma saiu dessa leitura guarnecida por novas ideias, noções e doutrinas. A primeira, sobre a misericórdia insondável de Nossa Senhora e, portanto, a confiança sem limites que n’Ela se deveria ter. Em segundo lugar, o amor materno d’Ela para com todos, e também para comigo, individualmente; como, por participação profética. Ela conheceu a qualquer um que anda pela rua, discerniu todas as almas que viriam ao mundo, amou-as, quis salvá-las, e se ofereceu por todas. Enfim, é a Co-Redentora do gênero humano. 

          Em terceiro lugar, o Reino de Maria. Como seria esse reino e os combatentes que Nossa Senhora haveria de suscitar para implantá-lo na Terra. Além disso, outra vista profética para o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos. 

          Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação: “Eu vou me consagrar como escravo de amor a Nossa Senhora”. Entretanto, não houve um momento em que eu pudesse dizer que resolvi. À medida em que lia, fui resolvendo. A cada passo, eu dizia um entusiasmado “sim”. 

          No fim do Tratado se acham as orações que antecedem o Ato de Consagração a Nossa Senhora. São trinta e três dias – 12 dias e mais três semanas de longa preparação. Nos primeiros doze dias deve-se rezar o Veni Creator Spiritus e o Ave Maris Stella. No final das três semanas, o Ato de Consagração.

          Sempre fui adepto de um princípio que meu pai costumava traduzir num velho ditado português: “Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz”. Assim, teria sido mais solene e mais belo fazer minha Consagração, por exemplo, diante da Imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Confesso que tal ideia nem me passou pela cabeça. No dia em que terminei a preparação, ajoelhei-me no meu escritório, apoiado numa escrivaninha. Diante de uma imagem da Virgem Santíssima, rezei o Veni Creator, o Ave Maris Stella, e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora. Resolvi repeti-lo todos os dias de minha vida. Graças a Ela, não deixei de fazê-lo, nenhuma vez. 

Um propósito para toda a vida 

          Tomei, ainda, a deliberação de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração, a não ser por intermédio de Nossa Senhora. Na Comunhão, por exemplo, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora – e por meio d’Ela ao Sagrado Coração de Jesus – pedindo-Lhe a graça de, em todos os dias de minha vida, ser sempre mais fiel na devoção a Ela, ensinada por S. Luís Maria Grignion de Montfort. 

          Outro costume que passei a adotar, depois de leitura do Tratado, foi o de rezar a Nossa Senhora, ao som das badaladas da meia-noite, uma jaculatória adaptada do Te Deum: “Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire”. O que significa: “Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos, de maneira que passemos sem pecado este dia que começa”. A oração é feita a Deus, mas eu a digo por meio de Maria, pedindo-Lhe que reze por mim, por saber que a minha oração não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer por meio d’Ela. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, sempre me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas. 

          São essas algumas das inestimáveis graças que me vieram a partir da leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.


(Extraído de “Opera Omnia” – PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Editora Retornarei -vol. III, págs. 399/404) 

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